terça-feira, 27 de maio de 2014

Ausência




Quando ela dormia, ele passava horas olhando para suas pálpebras fechadas, tentando adivinhar com quem ela sonhava. Cabeça apoiada no antebraço, acendia a luz fraca do abajur e desfrutava do momento, o único, em que ele tinha certeza de que ela lhe pertencia totalmente.

As coisas não andavam bem naqueles últimos anos. A distância entre eles tornara-se um poço sem fundo, cuja borda alargava-se a cada dia, e ele não sabia o que fazer, como construir pontes que os mantivessem unidos. À noite, após o jantar, assistiam a um filme na sala de estar. Mãos dadas, corações distantes. Ele suspeitava que ela o traía - andava misteriosa e calada ultimamente. Ela nem pensava nada... apenas prestava atenção ao que se passava na tela colorida, totalmente ausente da presença dele.

Alguns laços, mesmo sendo fortes, não resistem a repetidos puxões, ela pensava. E ele já puxara demais. Agora, qualquer coisa que ele lhe fizesse, seria indiferente. Poderia até mesmo estar dormindo com outras mulheres, e ela não se importaria. 

Lembrava-se das vezes em que o seguira no passado, ardendo de ciúmes, e das provas que conseguira recolher da traição dele: Um bilhete meio-rasgado e amarrotado na lata de lixo do banheiro, a tinta da caneta borrada, onde se lia: "...noite muito agradável... vamos repetir... e um número de telefone ilegível com final 43." Lembrou-se de ter ficado horas tentando decifrar a mensagem borrada, e vasculhou o celular dele e o velho caderno de telefones procurando por um número com final 43, mas não encontrara nada. Ele jurou que tratava-se de um dos fornecedores que conhecera em sua última viagem de negócios de quem ficara amigo. Mas quando ela quis saber seu nome e de onde ele era, ele desconversou e mostrou-se ofendido pela falta de confiança dela.

Outra das 'provas' jamais completamente provada, fora um fio de cabelo loiro e longuíssimo no encosto do carro. Ao sentar-se, ela deparou com aquele fio brilhoso e claro contrastando com o forro preto do encosto, e puxou-o devagar, enquanto ele fingia estar mexendo no rádio. Ao perguntar a quem pertencia o fio, ele apenas fez cara de desentendido, dizendo que provavelmente, entrara com o vento pela janela aberta.

Houve também uma ocasião na qual alguém telefonara enquanto ele estava no banho, e ela atendeu seu celular; não disse nada, e uma voz feminina do outro lado da linha repetiu o nome dele três vezes antes de desligar. Ela olhou o número e ligou de volta, mas deu ocupado - e toda vez que ela tentava, mesmo de outros números, dava sinal de ocupado. Com certeza, o número fora desativado. Ele alegou que provavelmente era de alguém tentando vender alguma coisa.

Havia também os perfumes que soltavam-se dele quando ele passava; eram suaves, mas ela conhecia o cheiro dele, e sabia que aquele perfume alienígena não pertencia a ela ou a ele. Ao perguntar quem tinha aquele cheiro, ele encolhera os ombros e fingira lembrar-se de repente que encontrara uma velha amiga de faculdade que o cumprimentara com um abraço. Mas o cheiro às vezes reaparecia, muito suave, quase imperceptível.

Ela não era dada a escândalos e interrogatórios; quando sentia que ele lhe mentia, calava-se e fechava uma porta: distanciava-se, recolhendo-se em um mundinho pessoal do qual ele participava cada vez menos.

Ele tentava abraçá-la, mas ela alegava cansaço ou dor de cabeça. Sempre havia uma desculpa para que ele não a tocasse. Evitava os beijos dele, pois ficava imaginando a quem aquela boca poderia ter beijado, e onde... passou a sentir por ele uma repulsa física.

Ele de nada suspeitava. Perguntava a si mesmo onde errara. Em que momento do caminho ele deixara que ela se afastasse dele? Sempre fora capaz de manejar muito bem as suas escapadas, e tinha certeza absoluta de que ela não desconfiava de nada. Fora discreto, sem faltar-lhe com o respeito que ela merecia.

A verdade é que ele não conseguia imaginar aquela casa sem a presença dela. Todos os seus dias eram vividos por ela. As outras nada significavam. Ela era o significado de tudo o que ele fazia e desejava. Assim, passou a sofrer de pavor: um medo enorme de perdê-la. O medo crescia durante a noite, tomando proporções monstruosas na escuridão. Passou a não mais conseguir dormir, e precisou tomar remédios. Emagrecia a olhos vistos. Só ela não reparava, perdida que estava em seu próprio mundo indevassável onde ninguém poderia feri-la. 

Quando ele tentava falar-lhe de sua dor (mas jamais dos motivos daquela dor), ela ouvia compassivamente, e não respondia; apenas dizia que ele deveria fazer análise. 

Ela deslizava pela casa sem fazer muito barulho, tentando evitar entrar em algum cômodo se ele estivesse nele. Parada à porta, olhava antes de entrar; se o visse, não o fazia. Ele agonizava pela presença dela, a presença que ela retirava a cada dia um pouco mais.

Um dia, enquanto ela arrumava um álbum de fotografias, envolta em lembranças dos tempos em que ambos se conheciam, o telefone tocou. Era alguém de um hospital que dizia que seu marido sofrera um acidente, e que ele estava bem; mas infelizmente, sua filha não resistira aos ferimentos e falecera.

Filha?! 

Ela desligou o telefone em transe. "Ele estava bem." A voz fria da mulher ao telefone não parava de ecoar em sua cabeça.

Ela fez as malas devagar. Antes de sair, olhou para o apartamento vazio uma última vez.

Ela saiu para o ar fresco da avenida onde de repente as buzinas dos carros pareciam música, e os vários tons cinzentos dos prédios e muros pareciam em perfeita harmonia com o negro brilhante do asfalto. Ergueu o rosto para as gotas de chuva e sorriu. Ela estava livre. Ela estava vingada. 

 Ela estava bem.



sexta-feira, 23 de maio de 2014

A Bruxa que Não Tinha Pontaria - um conto de fadas macabro




Era uma vez uma bruxa que vivia isolada em seu velho castelo, no alto de uma colina. Abaixo desta colina, espalhada em casinhas lindas e aconchegantes, vivia a população daquela vila encantada, e também muitos parentes da bruxa.  Ela bem que tivera seus dias de glória, quando saía distribuindo pragas e lançando maldições e indiretas através de falsos sorrisos; mas devido a esta sua mania de espalhar iniquidade aonde quer que fosse, as demais pessoas (mágicas ou não) resolveram que seria melhor se Perpétua (era este o nome da bruxa) ficasse de fora das festas e comemorações.

Um dia, para sua desgraça final, sua linda filha Endora conheceu um belo príncipe, e dele se enamorou. Perpétua tremia ante a possibilidade de ficar só, já que seu marido morrera há muitos anos - dizem que foi de desgosto pela megera na qual sua esposa se transformara após o casamento. Perpétua fez de tudo para impedir o casamento de sua filha Endora com o Príncipe Garboso (este era o nome do príncipe): lançou maldições para que o príncipe adoecesse e não pudesse visitar a filha - o que só fez uni-los ainda mais, pois Endora passou a visitá-lo frequentemente, até que ele curou-se, pois era muito forte; também espalhou calúnias a respeito da reputação do rapaz, tentando desacreditá-lo diante da filha e dos demais membros da família - tática que funcionou apenas temporariamente, pois todos que se aproximavam dele e o conheciam melhor logo notavam que era pessoa íntegra e de caráter incontestável. Tentou chantagem emocional, dizendo à filha que se ela se casasse, sua pobre e velha mãe morreria de desgosto... mas Endora conhecia as artimanhas da mãe, e não deu-lhe atenção.

Enfim, o grande dia chegou! O casamento foi celebrado na igrejinha local, e assistido e comemorado por todos os moradores da vila. 

Perpétua, sentindo-se derrotada, resolveu usar outras táticas para minar o relacionamento de sua filha com o príncipe: fingiu aceitá-lo, e frequentemente, levava-lhe pratos enfeitiçados; é claro, sem o conhecimento deste. Era sempre gentil e sorridente, solícita e muito boazinha. O príncipe, ao alimentar-se das comidas da sogra, sentia-se mal, adoecia e chegava a sentir uma certa repulsa pela bela e jovem esposa; nestas ocasiões, ambos começavam a discutir. Enquanto isso, a "solícita" sogra fingia tentar reconciliá-los, servindo-lhes presentes e seus chás enfeitiçados que só faziam com que os dois brigassem ainda mais! 

Porém, havia na vila uma fada boa que, percebendo a situação, resolveu ajudar o jovem casal: sem que ambos soubessem, ela fez uma magia e quebrou os feitiços lançados pela bruxa. Por que sem que ambos soubessem? Não queria causar uma briga em família, o que seria muito constrangedor. Achou que a velha bruxa acabaria se conformando e aceitando melhor o casamento da filha com o príncipe, conforme o tempo fosse passando e ela tivesse a chance de conhecer melhor o genro.

Alguns anos se passaram, e o jovem casal conseguiu comprar uma bela casa no sopé da colina onde vivia a bruxa Perpétua. Nem mesmo a chegada do netinho derreteu o coração da megera, que sempre que podia, jogava suas indiretas para tentar aborrecer o príncipe e fazer o casal brigar. Seu castelo ia ficando cada vez mais velho, e o vento passava pelas gretas, ditando-lhe amarguras e acentuando sua solidão. O Príncipe Garboso até que tentou relacionar-se bem com Perpétua, mas sempre que tentava, recebia em troca insinuações e alfinetadas.

A felicidade do casal e a maneira como as pessoas da vila referiam-se ao príncipe através de elogios, deixavam Perpétua cada vez mais amargurada e invejosa, embora ela sorrisse e fingisse concordar. Certa noite, enquanto caminhava por seu castelo vazio e deteriorado,  ela tomou uma decisão: faria uma magia muito forte, que destruiria de vez aquele casamento. Sua filha Endora voltaria para casa dentro em breve, e cuidaria dela em sua velhice.

Pensando desta forma, ela pegou um enorme caldeirão e começou a fazer seu preparado: asas de morcego, dentes de dragão, veneno de salamandra, pele de cobra, ovo de lagarto, erva do diabo, cicuta, arsênico, uma pitada de urina de coruja, uma objeto de cada cônjuge (tivera a chance de roubar um pé de meia do genro e um grampo de cabelo da filha) e finalmente, água pútrida do fosso que ficava atrás do castelo. Passou a noite toda mexendo o caldeirão e concentrando seu pensamento em ódio, separação, destruição e maldade. Na manhã seguinte, a bruxa estava tão exausta que caiu no sono ali mesmo, no chão da cozinha, ao lado do caldeirão.

Quando despertou, encheu uma caneca com a poção e foi até a beira da colina, de onde podia avistar toda a vila, e a casa de sua filha lá em baixo, no sopé da mesma. Então, Perpétua respirou fundo, e com toda a sua concentração e força, atirou o líquido em direção à casa onde habitava o jovem casal, mas como fosse muito ruim de mira, acabou acertando uma outra casa próxima, onde moravam suas duas irmãs e cunhados. Resultado: em alguns dias, os dois casais se separaram, e uma de suas irmãs adoeceu e morreu poucas horas após a partida do marido. E sem querer, uma gota da poção caiu sobre seus próprios pés, o que fez com que a bruxa ficasse doente por vários dias.

Mas Perpétua não se conteve: assim que sentiu-se melhor, novamente encheu um balde com o líquido fétido e, numa noite de luar, dirigiu-se ao alto da colina, de onde avistava toda a vila e a casa onde viviam sua filha, genro e neto. Mais uma vez, usou de toda a sua força e concentração e lançou a água do feitiço, mas errou de novo; desta vez, a água caiu em outra casa próxima, que pertencia aos parentes de seu falecido marido. Todos adoeceram e tiveram morte lenta e dolorosa.

A bruxa Perpétua tinha mesmo péssima pontaria! Mas não era mulher de desistir, e novamente lançou a água de seu feitiço (desta vez, usou um barril que ela foi empurrando até a beira da colina, pois achava que assim conseguiria atingir seu alvo). A água respingou em suas mãos, mas ela nem sequer se importou. Ao chegar bem na beiradinha, Perpétua entornou todo o conteúdo do barril, e um rastro fumegante de água fedorenta, negra e viscosa começou a descer colina abaixo. Atingiu várias casas, mas uma pedra acabou desviando o curso da correnteza e impedindo que chegasse até aonde ela desejava. Muitas pessoas, inclusive seus parentes, adoeceram ou sofreram graves acidentes. Outros, viram seus negócios irem à falência, enquanto ainda outros perderam seus empregos ou viram várias espécies de desgraças tomarem conta de suas vidas. Os mais velhos e fracos morreram em poucos dias. E a própria Perpétua também quase morreu daquela vez, pois acidentalmente, derramara boa quantidade de poção em suas mãos.

Ficou aos cuidados da filha por vários dias, até que finalmente, melhorou. Mas nem mesmo a própria desgraça ou a desgraça de seus parentes pode fazer com que o coração da egoísta criatura se abrandasse! E ainda sem poder levantar-se da cama, ela passou a concentrar seus pensamentos todas as noites na direção do jovem casal. Mas o príncipe Garboso era uma criatura forte, e além disso, estava protegido pelo contra-feitiço da fada boa. Assim, suas maldições passaram a atingir a própria filha! A moça começou a definhar a olhos vistos. Emagrecia, e tornava-se cada vez mais taciturna e calada. Frequentemente, chorava sem motivos e sentia uma dor no coração que nenhum remédio conseguia curar. Consultou vários médicos e fez vários tratamentos, mas nada parecia ajudá-la! O pobre príncipe viu-se na incumbência de cuidar da esposa e do filho, o que fez com que Perpétua ficasse ainda mais abandonada.

No entanto, a megera, reunindo suas últimas forças, levantou-se da cama disposta a arrastar o que sobrara do caldeirão até a beirada da colina, a fim de tentar, mais uma vez, atingir seu genro. Mas como ainda estivesse fraca, deixou que uma boa quantidade da água viscosa atingisse sua cabeça, antes de lançá-la na direção do telhado da casa onde viviam seu genro, neto e filha. 

Daquela vez, Perpétua acertou seu alvo.

Porém, a magia negra sempre prejudica aqueles que estão mais fracos e vulneráveis, o que fez com que sua pobre filha Endora fosse atingida em cheio. E assim, ela veio a falecer. 

Foram meses de luto e tristeza na vila. Todos se perguntavam o que estaria acontecendo com sua cidade, pois parecia que ultimamente, uma nuvem negra baixara sobre todos, trazendo dores, desgraças e mortes. A pequena vila tornou-se um lugar triste e ermo. Mas nada se comparava à dor e à tristeza que habitavam o velho castelo no alto da colina.

Finalmente, a consciência de Perpétua começou a doer, e a velha bruxa passou o resto de seus dias vivendo solitária e doente, carregando um peso enorme em seu coração e um arrependimento para o qual jamais encontrou a cura. Compreendeu a extensão de todo o mal que causara a todas as pessoas que a cercavam, inclusive seus parentes, apenas porque cultivara a inveja e o ódio de alguém que nunca lhe fizera mal e o sentimento de posse e  ciúme pela própria filha.

Dizem que o fantasma de Perpétua vaga até hoje nas imediações daquele castelo em ruínas, e seus uivos de dor podem ser claramente ouvidos quando o vento sopra em noites de lua cheia.




domingo, 18 de maio de 2014

Da Casa Morta






Da Casa Morta
um antigo conto, re-escrito

Ela morava em uma casa branca muito bonita, de dois andares, que ficava em uma rua tranquila da cidade. O ano, 1970. Entardecia, e ela, sentada em sua poltrona favorita, via as sombras da tarde que passeavam sobre o bordado que ela confeccionava. O tique-taque do relógio de parede antigo era o único som a quebrar o silêncio sepulcral daquela casa, a não ser pelo ruído de motores de carros que, de vez em quando, vinha da rua. Nestas ocasiões, ela baixava o bordado e olhava pela janela, verificando se era o carro do marido que se aproximava. 

Quando a sala ficou quase totalmente escura, ela suspirou e acendeu a luz. Dobrou cuidadosamente o bordado e enfiou-o no saco junto com os outros bordados e paninhos de croché. Havia também lindas toalhas de mesa e colchas, todas feitas por ela. Todas impregnadas de anos de solidão, tédio e arrependimento pela vida não vivida. Mas é incrível, o quanto sentimentos tão nefastos puderam transformar-se em coisas tão bonitas!

E ela passava assim as suas tardes, em transe, a usar linhas de cores discretas para transformar suas dores em obras de arte. Aos poucos, conforme passavam os anos, a brancura de sua pele imaculada era marcada por leves sulcos, e seus fartos cabelos ruivos perdiam o viço enquanto seus olhos azuis, cansados de grudarem-se aos panos que bordava, iam perdendo o brilho.

Não tivera filhos. No começo, lamentou muito este fato, pois fora criada para ser esposa e mãe, e o fato de não ter conseguido gerar filhos deixava-a com um sentimento de culpa muito forte, uma sensação de inadequação e inferioridade diante das outras mulheres; mas depois que começou a conviver com o marido, deu graças a Deus por não ter gerado nenhuma de suas sementes.

Conheceram-se durante um jantar de família. Ele, filho de um comerciante conhecido de seu pai, logo lhe fez a corte. Rapaz bonito e garboso, encantou-a, e logo estavam casados. Mas o encanto quebrou-se alguns dias após a cerimônia, quando ele revelou sua verdadeira face: um homem ambicioso, mulherengo e frio, que casara-se com ela apenas porque o sogro dar-lhe-ia a oportunidade de expandir seu negócios. Ele saía de casa cedo pela manhã, e só retornava tarde da noite. A única vez em que ela perguntou-lhe o motivo de chegar tão tarde, ele a olhou com desprezo, e respondeu: "Maridos não devem satisfações às suas esposas. Menos ainda quando elas não lhes dão filhos."

Finalmente, ele chegara em casa. Cumprimentou-a com um boa noite seco, e foi sentar-se em frente a TV. Ela serviu-lhe o jantar, e ambos comiam em silêncio, como faziam todas as noites, mas naquela noite, ela puxou conversa; falou do convite que recebera da vizinha para participar de uma feira de artesanato e mostrar seus trabalhos. Ele resmungou com indignação, respondendo que ela não tinha necessidade de virar 'barraqueira' de feira, e que estava proibida de tomar parte em tal evento.

Ela apenas engoliu em seco a última garfada de comida. 

Há anos ele não a tocava. Ela já tinha esquecido o que era ser mulher. Não ligava mais para os telefonemas anônimos, as vozes sussurrantes que lhe diziam que seu marido tinha uma amante, simplesmente porque não se importava mais. Dava até Graças a Deus.

Sua rotina resumia-se em cuidar da casa, conversar com as vizinhas no portão ou convidá-las para um chá à tarde, quando o marido não estava. Também ia ao supermercado, ou assistia TV. E, é claro, tricotava, bordava, costurava.

Um dia, ela se foi. Ainda era uma linda mulher, apesar dos seus quase cinquenta anos. O câncer, cultivado durante anos de ressentimentos, frustrações e arrependimentos, finalmente a tinha vencido.

 Ela, deitada em sua cama, reduzida a pele e ossos,  dizia às visitas que assim que se levantasse , sua vida tomaria um rumo diferente. Falava das viagens que faria. Falava dos trabalhos manuais que , finalmente, iria expor e vender. Todos a escutavam e tentavam incentivá-la, embora soubessem da gravidade de seu problema ( que o marido  proibiu-lhes de revelar-lhe) e estivessem cientes de que ela jamais sairia viva daquela cama.

Sozinho na casa, após um funeral simples e quase sem flores no qual ele não derramara nenhuma lágrima, recebendo as condolências com os lábios apertados e leves acenos de cabeça, ele finalmente sentiu a falta dela. Mais ainda quando, ao sentar-se na varanda, olhou para a mesinha de vidro e deparou com um de seus paninhos de croché sob um vaso de violetas secas. À noite, ele acordava de repente, sobressaltado, e olhava o lado vazio da cama; não conseguia mais dormir, e então perambulava pelos corredores vazios - os mesmos pelos quais ela perambulara tantos dias e tantas noites, sozinha  naquela casa, enquanto ele se divertia com outras mulheres em restaurantes e hotéis de luxo.

Tentou continuar levando a mesma vida de sempre - e , aparentemente, todos pensavam que ele realmente tinha superado a perda da esposa; mas quando retornava à casa, a solidão o acompanhava durante o jantar que consistia em comida pronta, que ele comprava no caminho, e que era comida em pratos de papel ou alumínio.

Um dia, ele chorou. As lágrimas desciam quentes sobre seu rosto, tão quentes, que queimavam-lhe a pele. naquele dia, alguma coisa parecida com arrependimento tomou conta do seu ser. Talvez nem fosse arrependimento por tudo de ruim que fizera a ela, mas por não ter se empenhado mais em salvá-la da doença, preservando a sua companhia silenciosa e seus serviços na casa; deveria ter aceito a sugestão de levá-la a um especialista em São Paulo, mas na época, achara caro demais.

Anos depois que ela se foi, ele a seguiu. Circunstâncias inesperadas fizeram com que fosse necessário que eu, uma de suas vizinhas, atravessasse a rua e aguardasse na casa a chegada de  uma tia distante, único parente ainda vivo, que viria tomar as providências para o funeral. Quando entrei naquela casa novamente, achei-a totalmente diferente: o belo jardim que havia quando ela estava viva, ele mandara destruir e cobrir de cimento. A casa tão bem-cuidada e limpa, reduzira-se a um lugar sujo, cheirando a mofo, cheio de vazamentos e coberto de poeira. Uma casa morta.

Mas alguém puxou de dentro de um armário, seus sacos de artesanato. Lindas colchas, capas de almofada, panôs bordados, cortinas, toalhas de mesa e rendas, derramaram-se uns sobre os outros, cheirando à naftalina. Alguém os lavou  e estendeu ao sol. Eram muitos! O que fazer com todos eles? A velha tia decidiu que ficaria com apenas alguns - os mais bonitos - e o restante, ela distribuiu entre nós, vizinhas e amigas. Hoje, aquelas belas rendas, bordados e crochés enfeitam salas e quartos de outras casas. As pessoas admiram-se ao vê-los, perguntando logo quem teria aquelas mãos de fadas.

Esse é o legado que ela deixou.
Ele não deixou nada.



sábado, 10 de maio de 2014

A Condutora



Seu destino era conduzir. Passava pelos caminhos onde agonizavam as almas em sua passagem, e ajudava-as a desprenderem-se da matéria densa que já não mais lhes cabia. Alguns a confundiam com alguma espécie de mensageira quando ela lhes aparecia; quem sabe, devido à sua diáfana aparência piedosa, que deslizava pelo chão sem fazer qualquer barulho.

Ela caminhava pelos corredores dos hospitais, procurando por aqueles que estavam prontos para ir. Quando eles a viam, estendiam-lhe os braços, e os parentes e acompanhantes que estavam com eles nos quartos sentiam um arrepio na nuca ao ver a cena, tendo a impressão de que seus entes queridos enxergavam alguém que só estava ao alcance de suas visões moribundas. Os mais céticos diziam ser efeito dos medicamentos.

Mas quando estas cenas começavam a acontecer, Marilda - uma das enfermeiras daquele grande hospital - sabia que aquele paciente em breve faleceria. Ela nunca tinha visto nada sobrenatural; apenas observava e sentia, após tantos anos assistindo pacientes terminais, que estes estavam indo embora; e não era nada relacionado ao seu estado, pois muitas vezes, alguns tinham melhoras súbitas, chegando a comer e caminhar pelos corredores; mas quando eles estendiam os braços para o nada, olhos perdidos em alguma figura que só eles enxergavam, não demorava muito e chagavam a óbito. 

Marilda ouvira relatos de alguns destes pacientes, que, de repente, enquanto ela cuidava deles, perguntavam: "Quem é esta senhora de branco?" Marilda , acostumada àquele tipo de pergunta, pedia a eles que a descrevessem, e onde ela estava, o que fazia, e os relatos eram quase sempre muito parecidos: "Ela está de pé junto à cama, perto de você. Não está vendo? Usa um véu e um vestido longo e branco, e carrega um buquê de lírios brancos. Oh, eu acho que é um sinal! Eu estou perto da cura!"

Marilda sorria para os pacientes, pois sabia que de alguma forma, eles estavam certos...


quinta-feira, 1 de maio de 2014

O Aniversário



Sentou-se na varanda de manhã bem cedo - nem bem raiara o dia. Aspirou os doces perfumes do ar gelado, aconchegando-se à manta que a envolvia. Aquele seria mais um aniversário - o segundo - no qual a aniversariante não estaria presente.

Ela pensou em outros aniversários, nos quais a família reunida e alguns amigos mais próximos cantaram o bom e velho "Parabéns a você", esquecendo-se de que o tempo não perdoa a efemeridade dos momentos. A vida é tão frágil quanto a chama das velas que são sopradas a cada ano, e quanto mais velas há sobre o bolo, menos anos de vida nos aguardam.

Lembrou-se das caixas de presentes coloridas sobre a cama, e o quanto a aniversariante gostava de experimentar tudo o que ganhava de presente: roupas, sapatos, cachecóis, bolsas. Ela vestia tudo, tentando fazer combinações com as peças antigas que já estavam no armário, combinando cores e padrões e tecendo comentários sobre onde e quando poderia usar cada traje. As filhas ficavam em volta, dando opiniões.

Mas não naquele Primeiro de Maio; não haveria reunião. Não haveria bolo, nem festa. Por que as pessoas tem sempre a mania de não mais festejar os aniversários de quem já morreu? Se acreditamos na vida que continua, e se há tantas lembranças boas, não seria esta uma maneira de manter acesa a lembrança dos que se foram? Sem contar que também poderia ser um pretexto para reunir a família! Imaginem: toda a família reunida na sala, comemorando, olhando fotos antigas, recordando velhas histórias... seria como se a pessoa que se foi estivesse novamente ali. Poderia ser um momento alegre.

Mas não; as pessoas gostam de colocar um diadema negro sobre todas as ausências. A morte é o maior tabu, O Intocado, o evento que todos fazem questão de cobrir com uma densa camada de silêncio. Precisamos, desesperadamente, esquecermos das velinhas que todo ano colocamos sobre os nossos bolos.

Ela suspirou fundo; olhou para cima, e viu que um pássaro havia pousado na ponta mais alta do pinheiro, balançando-se no ar, agitando as asas sobre a fragilidade das coisas. Tudo é como sempre foi, e sempre será. Mesmo assim, tudo muda.


O JARDIM DAS DESILUSÕES – CAPÍTULO VI – FINAL

O funeral aconteceu em um dia especialmente frio no qual uma chuva fina e cortante era derramada em rajadas pelo vento. Os pais...