sexta-feira, 28 de novembro de 2014

DEPOIS DE ANOS - Um conto de Natal



Naquele dia, eu caminhava pela cidade enfeitada. Canções de Natal explodiam nos auto-falantes, e pessoas aglomeravam-se nas calçadas, os rostos animados, os braços ocupados por bolsas e pacotes de presentes. Eu mesma trazia na bolsa a minha lista de natal – mais curta a cada ano – e pensava em passar a manhã envolvida com minhas compras natalinas.

Súbito, uma chuva alegre e ritmada começou, e muitos correram para se abrigarem sob marquises, em bares, lojas e cafés. Eu também entrei depressa em uma delicatessen para tomar um café enquanto a chuva não passava. Dei graças a Deus por não ter comprado nada ainda e ter as mãos vazias. Acomodei-me em uma mesa num canto, de onde podia ver as pessoas e carros passando na ruas. Reparei nas decorações das vitrines iluminadas, e deixei que o espírito daquela época me invadisse. Sentia-me leve, alegre e em paz.

Eu observava os rostos das pessoas e tentava adivinhar o que estariam pensando, de onde vinham, o que faziam... era um jogo solitário que eu gostava de jogar desde que era uma adolescente – naquela época, jogava-o com minhas amigas: sentávamos em um banco de praça e ficávamos adivinhando a vida dos transeuntes. Aquela que tivesse mais imaginação e criasse a história mais incrível, tomaria o sorvete pago pelas outras.

De repente, um rosto chamou-me a atenção, trazendo consigo memórias muito antigas. Meus olhos, que tinham passado por ele rapidamente, refizeram o percurso da paisagem até onde ele estava. Um homem. Ele olhava uma vitrine, sob um amplo guarda-chuva preto. Observei-o, enquanto tomava um gole do meu expresso. Algo tentava aparecer na minha memória, que parecia estar com as duas mãos dentro de um baú cheio de coisas antigas, tentando encontrar algo... lembrei-me de mim mesma, em um natal já muito distante no tempo, chorando à janela do nosso apartamento e sendo consolada por meus pais. Acabara de receber uma notícia muito triste, e logo na noite de natal. 

A amiga que me telefonara tinha sido clara e imperativa: “Morreu. Mês passado. Um acidente de carro em Miami. Só soube hoje.” E eu, uma jovem romântica e apaixonada, observava meus sonhos caírem pela janela do apartamento e se despedaçarem na calçada lá embaixo. É muito difícil imaginar que, daquele dia em diante, teremos que conviver com a ausência de alguém para o resto de nossos dias, e portanto, reescrever nossos sonhos, sonhos esses aos quais nos acostumamos. E eu, como qualquer jovem que tinha um amor platônico, criava em minha cabeça mil situações que nós viveríamos juntos, assim que ele descobrisse o quanto estava apaixonado por mim. E mendigava cada olhar, interpretando cada coisa que ele dissesse ou fizesse como um sinal de que eu estava certa... 

Os colegas diziam que não tínhamos nada a ver um com o outro, que éramos como água e vinho, preto e branco, noite e dia. Mas nada me fazia desistir de sonhar; sonhar com ele. Conosco. Se ele me olhasse ou sorrisse para mim, eu ganhava o dia! Chegava em casa e trancava-me em meu quarto, os discos de rock na vitrola, deitada em minha cama olhando para o teto branco onde passavam-se cenas de amor: nosso primeiro beijo. Nós, de mãos dadas no pátio da escola. Ele dizendo, baixinho em meu ouvido, que me amava. Todas as garotas morrendo de inveja.

Certa vez, fiquei sabendo que ele andava indagando sobre mim. Perguntava às minhas amigas se eu estava apaixonada por ele. Aproximava-se de mim mais do que antes, sendo gentil de forma especial. Por vezes, eu o pegava me observando demoradamente, e ele sustentava meu olhar. Mas logo vieram as férias de final de ano, e ele ia passá-las com a família em Miami. Meu sonho teria que esperar para tornar-se real. Despediu-se de mim com um abraço demorado – mais demorado do que o que ele dera nas outras garotas – e um beijo cheio de promessas. Disse-me que esperasse por ele. Deixou todos os meus sonhos ao ponto de fertilidade máxima. Naquela época, eu andava nas nuvens, e às vezes nem percebia quando alguém falava comigo. Gostava de encontrar um canto no jardim e sentar-me lá, no meio das plantas, escondida pelos arbustos, e fantasiar...

Depois que eu soube de sua morte, as amizades foram se dissolvendo aos poucos, ao longo dos anos. Nunca mais ouvi falar de minha amiga ou de qualquer colega de classe daquele ano. Fiz questão de perder contato com qualquer pessoa que me fizesse lembrá-lo, tal a dor que sentia.

Um trovão trouxe-me de volta ao café, do ponto no espaço – há mais de vinte anos – aonde a memória me conduzira. O homem que eu observava entrou na loja. Num impulso, e com o coração dando marteladas no peito, joguei uma nota sobre a mesa e saí correndo sem terminar o meu café, entrando na mesma loja que ele.

Era uma joalheria. Caminhei pelas caixas de vidro, recusando quase impacientemente quando uma vendedora ofereceu-me ajuda. Logo, achei-o sentado ao balcão enquanto uma das moças mostrava-lhe uma joia. Um anel de brilhantes. Olhando-o bem de perto, minha desconfiança transformou-se em certeza: era ele! Os inconfundíveis e longos dedos que tantas vezes percorreram minha pele nos meus sonhos. A pinta escura junto ao lábio, sob a asa direita do nariz. Os ombros fortes e largos, embora mais pesados. Os mesmos cabelos escuros e ondulados, embora alguns fios grisalhos os ornassem. E a mesma voz. Aquela voz que imaginei sussurrando o quanto me amava, há vinte anos...
Eu quis falar, mas minha voz não saiu. O que poderia dizer? Minha vida tomara outro rumo. Estava casada, e era mãe de três filhos. Mas por que ele mentira sobre sua morte? Por que? 

De repente, ele ergueu os olhos e me viu. Notei um certo estremecimento em seu rosto, e nossas pupilas, como que atraídas por ímãs, não conseguiam deixar de se olharem. Eu sabia que ele tinha me reconhecido. Achei que viria falar comigo, e que me explicaria tudo. Mas ele, num esforço, baixou os olhos e apenas entregou à vendedora o anel que escolhera, pedindo a ela que o embrulhasse para presente. Foi ao caixa, e pagou pela compra com um cartão de crédito. O tempo todo, eu não conseguia tirar os olhos dele. Havia tantas coisas que eu desejava saber! Ele viria falar comigo, eu tinha certeza!

E mais uma vez, eu vi a minha certeza ruir e escorregar para o piso da loja, indo misturar-se à enxurrada que passava no meio fio, quando ele, passando por mim feito um raio e sem olhar-me, saiu porta afora. Fiquei ali, parada, atônita. Uma vendedora veio perguntar-me se eu estava bem. Sem responder, deixei a loja e ganhei a calçada.

Olhei para ambos os lados da calçada, e para a rua em frente, apinhada de transeuntes. A chuva aumentara, e esquecida de abrir meu guarda chuva, fiquei encharcada em segundos. 

Ele sumira.

Da mesma maneira que morrera há tantos anos, seu fantasma dissolveu-se e confundiu-se com as luzes que piscavam nas vitrines, com as músicas que tocavam nos auto-falantes e com a chuva que corria pelas calçadas e ruas. 
E eu não sabia dizer a mim mesma o que estava sentindo. 

Voltei ao café. Pedi mais um expresso. Ainda faltava fazer as compras de natal.


quarta-feira, 26 de novembro de 2014

O NATAL DA CAFETINA


Era um bordel tradicional, se é que se pode chamar de tradicional um lugar assim. Existia naquela cidadezinha do interior há muitos e muitos anos, e primava pela discrição e limpeza de suas ‘meninas’, que eram frequentemente examinadas por um médico que vinha da cidade vizinha ( o médico local recusava-se a tratá-las; não por cupidez, pois era um dos mais assíduos frequentadores da Casa de Gerda, mas porque sua esposa o proibira sob ameaça de divórcio). Muitas vezes as mulheres da Sociedade da Família tentaram fechá-lo, mas sempre perdiam as causas. O que elas nem sequer desconfiavam, é que até mesmo o juiz que julgava os casos na cidade era não apenas um frequentador esporádico, mas um colaborador – doava um dinheirinho para a manutenção e para que, quando ele fosse recebido, a casa abrisse apenas para ele. Ningupém poderia saber quem era o frequentador secreto! Assim, a Casa de Gerda ia de vento em popa, e já passara dos vinte anos de existência.

Mme. Gerda chegara por ali sem eira nem beira, fugindo das mãos de um padrasto que a violentava com o consentimento mudo da mãe, uma filha de imigrantes alemães, mulher forte, sisuda, cumpridora dos deveres morais, etc e tal. 

Com fome, Gerda fora acolhida por ‘Seu’ Amâncio, um velho senhor viúvo que para os padrões locais, era rico. Possuía algumas cabras e um pequeno sítio onde produzia leite, queijo e manteiga. Acolheu a menina tímida e maltrapilha em sua própria casa, sob os olhares de admiração do povo. O que ninguém sabia, é que lá detrás das portas, os abusos dos quais Gerda fugira continuaram... mas ela dava-se por sortuda, pois não lhe faltava comida, e eram raras as vezes em que o velho Amâncio conseguia uma ereção... ele a tratava quase bem – pelo menos, não batia nela, como o padrasto. Além disso, permitiu que ela frequentasse a escolinha primária. 

Um dia, ele partiu desta para outra bem melhor, e deixou-lhe tudo o que possuía em testamento, já que não tinha herdeiros. Naqueles tempos, a jovem Gerda contava dezesseis anos de idade. E ela bem que tentou tocar o negócio das cabras, mas não conseguia fazer tudo sozinha. Tentou também contratar alguns ajudantes, mas logo descobriu que eles a estavam roubando quando as cobranças das contas que ela acreditava terem sido pagas começaram a chegar. Sem dinheiro para pagá-las, ia perder o sitio  para o banco, mas recebeu uma oferta por ele que, se não cobria o valor real, pelo menos deixava-lhe algo para comprar uma casinha e recomeçar tudo. E foi o que ela fez: adquiriu por bom preço uma casinha de dois cômodos na beira da estrada, fora da cidade. Conseguiu sobreviver por algum tempo com o dinheiro que sobrara, e tentou arranjar trabalho, o que logo percebeu que não havia por ali – ainda menos para uma menina da sua idade.


Um dia, conheceu Juvêncio, um cabra que estava de passagem. Dizia-se mascate (carregava sempre uma grande mala onde ele dizia estarem os seus “produtos.”). Sozinha e carente, enrabichou-se pelo moço bonito e faceiro, que passou a morar na casinha, sustentado por ela. Mas depois de alguns poucos meses, o cabra cansou-se dos favores da menina e foi-se embora sem nem dizer adeus, levando consigo o pouco dinheiro que restara à jovem Gerda e deixando no ventre da pobre moça uma semente sua, que após nove meses, surgiu no mundo como uma menininha graciosa que Gerda chamou de Lucy. Mas infelizmente, a pequena Lucy ficou por aqui durante um tempo curto demais, despedindo-se da vida aos quatro anos de idade. Sozinha, ferida e sem dinheiro, Gerda começou a “fazer a vida” como podia. Logo, outras moças foram surgindo e formando o seu pequeno staff. Elas apareciam assim, do nada, vindas de suas andanças por estradas que há muito ficaram para trás. Nada traziam, a não ser as histórias tristes de suas vidas curtas e infelizes. E todas as que bateram à porta de Mme. Gerda foram por ela acolhidas e bem treinadas na mais velha profissão do mundo. O negócio foi crescendo, crescendo e transformando-se de uma casinha de dois cômodos a uma casa ampla e confortável, as paredes pintadas de roxo, tapetes vermelhos,  cortinas de brocado dourado vindo da capital e amplas camas com dosséis. Vinham homens também de cidades vizinhas, tal a fama que Mme. Gerda e suas meninas bem treinadas adquiriram. Às vezes, atendiam também a casais que exigiam serviço em domicílio.

Naquela manhã do dia 23 de dezembro de um ano qualquer, Mme. Gerda reuniu suas ‘meninas’ e anunciou:

-Não teremos função na noite do dia 24 e no dia 25 de dezembro.

As meninas olharam-se espantadas, pois naquela noite sempre apareciam alguns clientes sem famílias (ou com famílias) que desejavam ter uma noite feliz. “O prejuízo será enorme para nós,” comentou Juju, uma ruiva maquiada demais cujo sonho era juntar dinheiro suficiente para abrir sua própria casa em outro lugar longe dali. Mme. Gerda tranquilizou-as:

-Não se preocupem, todas vão receber como se fosse uma noite normal. Já fiz as contas e cada uma vai receber o equivalente ao que ganharia se houvesse função. 

As meninas suspiraram aliviadas. Dália, uma negra baixa e gordinha, foi logo perguntando, as mãos na cintura e olhar desconfiado:

-Mas qual o motivo dessas férias repentinas?
-Eu quero ter uma noite de Natal. Nunca tive uma, e acredito que a maioria de vocês também não.

As meninas se entreolharam, algumas baixando a cabeça com tristeza. Uma brisa morna adentrou o cômodo, enquanto Mme. Gerda continuou:

-Vamos já com os preparos da nossa noite de Natal. Juju, você vai ao mercado comprar os panetones, o pernil, um peru de natal bem grande (as meninas interromperam com uivos e gargalhadas) e algumas garrafas de champagne do bom. Dália e Cilene, arrumem os quartos e a sala e deixem tudo nos trinques! Débora e Clô, já para a cozinha e só saiam quando a ceia estiver pronta. E nós, Gigi, Valentina e Margô, vamos comprar os enfeites e preparar a árvore mais linda que já se viu por aqui!

-Vai ter presente, madame?

Mme. Gerda pensou por um segundo antes de responder:

-Vai sim... vai ter presente para todo mundo!

E entre risadas, urros e aplausos, os preparativos começaram. No dia 24 de dezembro, uma das meninas pintou um cartaz de “fechado para o Natal” e pendurou è porta de entrada. Logo, a notícia do Natal da cafetina correu a cidade. As senhoras de bem faziam o sinal da cruz nas esquinas. Algumas, ao saberem da notícia, desmaiaram. Foram até a igreja e perguntaram ao Padre Jonas se haveria como impedir que o nascimento do Salvador fosse profanado naquele templo de perdição. Padre Jonas pensou na ironia daquela situação, pois se aquelas mulheres mantinham-se casadas a tanto tempo, deveriam agradecer a Gerda e suas meninas, e quase disse aquilo; mas achou melhor calar-se, e encolhendo os ombros, disse:

-Não posso impedir ninguém de celebrar a festa do Natal, senhoras. Cristo nasceu para todos nós, e perdoou Maria Madalena. Por que não fazem o mesmo?

Aquilo pareceu acalmar os ânimos por algum tempo; pelo menos, aparentemente. Até que, não se sabe como, chegou às ceias de natal familiares a notícia de que as prostitutas estavam se preparando para ir à Missa do Galo! Alguns homens se entreolharam preocupados, pois temiam serem chamados por seus nomes por alguma das meninas, quando estivessem na igreja acompanhados de suas esposas e filhos. Ao mesmo tempo, nada disseram contra ou a favor, preferindo não tomarem partido. Afinal, quem tem rabo, não senta! Diante das esposas e noivas, todos faziam-se de santos. Mas se só houvesse santos naquele lugarejo, como aquela casa tinha prosperado e sobrevivido durante todos aqueles anos? Todo mundo sabia a resposta, mas preferiam continuar ignorando-a. Assim como todos sabiam o quanto Mme. Gerda pagava de impostos, que geravam benefícios para todos na cidade, e também que ela contribuía generosamente para manter a escolinha local onde estudavam as crianças das famílias ‘de bem’. Todos também sabiam do quanto ela doava, todos os meses, para as obras de caridade de Padre Jonas. Mesmo assim, a Sociedade da Família fazia questão em ser a pedra no sapato de Mme. Gerda. E não arredariam pé nem daquela vez! Um grupo de senhoras decidiu, comunicando-se por telefone, que ficariam de pé na entrada da igreja, e que impediriam a entrada das profanas. 

E assim se deu.

Quando as meninas chegaram com seus vestidos curtos e rendados, e com seus decotes generosos, e suas maquiagens escandalosas, as cabeças cobertas por véus negros, foram barradas à porta da igreja. A confusão ia começar, e os homens temeram por elas, mas nada fizeram para defender as mulheres que tantos prazeres lhes davam, e que tantas vezes os ouviam e aconselhavam. Gigi, a mais afoita, de mão na cintura e balançando os quadris, berrou:

-Sai da frente que nós vamos entrar!

Juju se aproximou, dando um passo adiante, e colocando o dedo no nariz de uma das beatas, anunciou:

-Ninguém vai impedir a gente! 

A velha senhora fingiu um desmaio, e várias pessoas a acudiram entre “ahs” e “ohs” desesperados. Alguém gritou que aquilo era um sinal, e uma quantidade de bosta de cavalo atingiu Juju bem no meio do rosto. As meninas estavam a ponto de bala e prontas para um confronto, enquanto Padre Jonas tentava acalmar a todas as envolvidas, mas sua voz fininha era abafada pelos gritos das mulheres. 

Os homens permaneciam ou dentro da igreja ou olhando a cena de longe, com muita pena das meninas de Mme. Gerda, mas muito mais temerosos pelos seus próprios destinos.

Quando Padre Jonas entrou na igreja tentando incitá-los a irem lá fora e acalmarem suas esposas, eles baixaram as cabeças, dizendo que Deus olharia por elas... e permaneceram onde estavam.
Uma grande briga estava para começar. As meninas arrancavam os véus, as maquiagens borradas pelas lágrimas. As senhoras jogavam nelas o que estava às mãos: pedras, saquinhos plásticos com urina e excrementos de cachorro. As meninas retribuíam com bolsadas e cusparadas. De repente, uma voz de trovão se fez ouvir entre a multidão. Era Mme. Gerda:

-CHEEGA!!! 

As meninas foram se calando, e ainda ofegantes e descabeladas, obedeceram sua líder. Juju ainda tentou argumentar:

-Mas Madame, nós temos o direito de entrar!

Mas madame decretou:

-Nós vamos embora.

As meninas falavam todas ao mesmo tempo, algumas com os sapatos nas mãos, prontas para recomeçar a guerra. Mme. Gerda gritou novamente:

-Eu disse CHEGA! Vamos embora. Aqui não é o lugar e nem a hora certa para uma cena dessas.

Lá dentro, os homens suavam frio.

As meninas retiraram-se sem olhar para trás, ao som de uivos e aplausos efusivos. Ninguém viu que caiam-lhe lágrimas dos olhos, e quem ficou para trás pode finalmente entrar na igreja e assistir à Missa do Galo, onde tudo ocorreu como se nada tivesse acontecido.

Mas quando todos foram para casa, Padre Jonas sentiu-se muito mal. Não queria ser covarde e hipócrita como as mulheres locais. Foi então que, após muito pensar – poderia perder alguns de seus paroquianos ou até mesmo ser denunciado à cúria – tomou uma importante decisão.
Na manhã seguinte, dia de Natal, quando todos adentraram a igreja, Padre Jonas fez seu sermão como de costume. Mas antes que todos saíssem, suspirou fundo e começou um discurso que causaria ódio e amor, revolta e vergonha:

-Meus queridos amigos e fiéis, peço que permaneçam e ouçam de coração aberto o que eu tenho a dizer.

Ouviu-se um burburinho entre os fiéis, mas logo fizeram silêncio, e Padre Jonas pode continuar seu discurso:

-Ontem à noite houve um episódio deprimente à porta desta igreja. 

Os fiéis se entreolharam, e começaram a conversar alto uns com os outros. Mas padre Jonas não se deu por vencido, e elevando a voz até que todos se calassem, prosseguiu:

-Silêncio por favor! Ouçam o que eu tenho a dizer... todos nós sabemos que se nossos filhos estudam em uma boa escola, em excelentes condições, e dispõe de luxos como computadores com internet, demais recursos tecnológicos, merenda de qualidade e material escolar, devemos isso às contribuições de Mme. Gerda, e não ao governo. Todos também sabemos que com os altos impostos que aquela casa paga, os recursos convertidos à qualidade de vida da população são inúmeros.

Algumas beatas retiraram-se da igreja, pisando duro, mas os demais permaneceram em seus lugares.

-Todos nós sabemos que se hoje temos este templo de Deus reformado, belo, adequado aos nossos serviços religiosos, é também a Mme. Gerda e suas funcionárias que devemos. Além disso, os turistas que vem à cidade a procura dos serviços daquela casa sempre acabam comendo em nossos restaurantes, fazendo compras em nossas lojas e até mesmo hospedando-se em nossos hotéis. E tudo isso gera recursos para a cidade. A senhora mesma, Dona Hermengarda, sabe bem o quanto lucra vendendo as flores que enfeitam os salões daquela casa. 
Dona Hermengarda baixou a cabeça e nada disse.

-E o senhor, ‘seu’ Juvenal, fornece a carne e o leite usados nas refeições daquela casa. E o senhor, ‘seu’ Manoel, é quem providencia toda a bebida e demais mantimentos, que são entregues toda quinta-feira à porta daquela casa, pois o senhor não permite a entrada delas em seu mercado... Mesmo que sua entrada por lá nunca tenha sido bloqueada.

Gargalhadas são ouvidas.

- E vocês, senhoras, devem a elas muito mais do que pensam...

Naquele instante, os maridos engoliram em seco e as esposas pigarrearam e baixaram suas cabeças, ou cutucaram seus maridos raivosamente. Padre Jonas achou melhor pular aquela parte.

-Bem, eu proponho que tenhamos um pouco mais de caridade e gratidão do que a que demonstramos na noite passada. Vamos todos hoje à casa de Mme Gerda, onde uma missa especial de Natal será rezada.

Mais algumas beatas retiraram-se, pisando duro e reclamando. Mas a maioria dos fiéis permaneceu na igreja, esperando que alguém entre eles se manifestasse contra ou a favor, para então, segui-lo. E foi justamente a anciã local, Dona Beatriz, quem se manifestou:

-O senhor tem o meu apoio, Padre Jonas. O que aconteceu ontem foi vergonhoso. O senhor tem o meu apoio.

E assim se deu. Todos dirigiram-se até a casa de Mme. Gerda em procissão. Embora preferissem permanecer do lado de fora enquanto Padre Jonas rezava a missa no salão da casa, já tinha sido um progresso.

Quando o serviço religioso terminou e todos se retiraram, as meninas ficaram no salão, conversando sobre tudo o que havia acontecido. Algumas mais sensíveis, choravam. Tinha sido muito importante para elas serem tratadas como gente de verdade pela primeira vez na vida.

De repente, Mme Gerda lembrou-se de uma coisa importante, e retirou-se da sala, voltando com várias caixas embrulhadas para presente. Parou sob o batente da porta, anunciando:

-Mas eu disse que ia ter presente pra todo mundo! E palavra de Mme. Gerda é lei!

As meninas alvoroçadas a abraçaram e comemoraram a ocasião como bem sabiam, e depois puseram-se a abrir seus presentes.

Todas elas receberam a mesma coisa: lindas bonecas vestidas de princesas. Eram  presentes muito merecidos e desejados, que finalmente a vida lhes proporcionava através de Mme. Gerda:  um pouco de suas infâncias roubadas.


segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Os Enfeites de Natal





Dia 20 de dezembro. Sozinha na sala de estar, Giovana começou a abrir as caixas com enfeites que tinha colocado sobre o sofá naquela manhã. Os mesmos que ela usava há tantos anos... cada qual com um significado especial. Alguns, confeccionados quando todos ainda eram crianças, com materiais que variavam do isopor e purpurinas às fitas douradas e vermelhas. Muitos traziam as marcas da passagem do tempo, mas mesmo estando um pouco gastos, colados ou emendados, ou com as pontas desfiadas, eram aqueles enfeites que ela usava todos os anos.

Lembrou-se com carinho das pessoas que já não faziam mais parte de sua vida; algumas tinham morrido, e outras, tinham partido de alguma forma. Giovana tentara, muitas vezes, fazer-se presente, mas depois de algum tempo, notou que aquelas tentativas eram forçadas e causavam constrangimento, não só a ela, mas às pessoas envolvidas; recordou-se do último Natal, quando aparecera de surpresa na casa de Luiza, uma de suas irmãs, achando que ela estaria tranquilamente passando a noite com o marido e os filhos - e da cara constrangida que a irmã fez ao mandá-la entrar em uma sala de estar ricamente decorada, onde uma linda festa (para a qual não tinha sido convidada) tinha sido preparada. Seus sobrinhos demonstraram o mesmo constrangimento da mãe, sorrindo-lhe sorrisos amarelos, e cumprimentando-a: "Olá, tia. Feliz natal!" Giovana foi à cozinha buscar um copo d'água e ouviu, sem querer, quando Sérgio, seu cunhado, conversava em voz baixa com Luiza: 

-E agora? Os convidados vão chegar em alguns minutos! Como você vai sair dessa? 

-Eu não sei... não esperava que Giovana fosse aparecer.

-Eu disse a você para convidá-la.

-Sim, mas... todos os nossos amigos estarão aqui, e eles não tem nada a ver com ela. Giovana anda muito deprimida depois do divórcio, não é uma boa companhia para uma festa de Natal.

Ela escutou a conversa em silêncio, sentindo que seu coração se despedaçava. Voltou devagarinho para a sala, com muito cuidado para que ninguém percebesse que ela ouvira. Pegou sua bolsa sobre o sofá, e quando estava se encaminhando para a saída, Luiza e Sérgio entraram na sala. Sua irmã perguntou:

-Já vai?!

Giovana tentou disfarçar:

-É... só passei mesmo para desejar a todos um Feliz Natal.

Sem o menor tato, Sérgio respondeu:

-Obrigada! Mas bastaria ter telefonado, cunhada. Feliz Natal para você também.

Todos se entreolharam, e tentaram aparentar naturalidade. Escondendo as lágrimas, que arrebentaram assim que saiu da casa, Giovana retirou-se. 

De volta ao presente, com gestos automáticos, ela montou a velha árvore e começou a pendurar os enfeites. Depois, colocou as luzes e moveu-a para o mesmo cantinho da sala de estar. Acendeu-a, e olhou o resultado sem nenhum entusiasmo.

Jantou, assistiu a um filme natalino na TV e foi dormir cedo. 

Seria mais um Natal que passaria sozinha, recordando um passado distante e pessoas que não mais faziam parte de sua vida. Ela sabia muito bem que depois do divórcio, tornara-se um tanto melancólica, e com isso, percebeu que jamais tivera amigos verdadeiros. A única que ficara do seu lado o tempo todo, era sua amiga Mariana, mas com medo de ser um fardo até mesmo para ela, não aceitava seus convites para as festas. Ficava sozinha em casa. Participava da festinha do escritório por obrigação, mas o Natal tornara-se para ela um verdadeiro tormento.

Só montava a velha árvore porque tinha prometido à sua falecida mãe que sempre comemoraria o Natal. Desde criança, fora ensinada que esta tradição de família deveria ser seguida sempre. Mas nada mais tinha graça... Giovana chorou um pouco, e adormeceu.

De manhã, ao despertar, olhou em volta, sentando-se na cama. Achou que as coisas pareciam diferentes, e então viu que estava em seu quarto de solteira! Pulou da cama, sentindo uma energia que há muito tempo não sentia, e ao olhar-se no espelho, ela quase caiu para trás: estava jovem novamente! Do alto dos seus quinze anos de idade, Giovana ouviu a voz da mãe cantarolando na cozinha, e logo depois, a porta da frente bater e a voz de seu pai. Quase não conseguiu segurar a emoção ao ouvir aquelas vozes de pessoas tão amadas e há tanto mortas...

Vestiu seu robe azul - seu preferido - e correu quarto afora. Chegou na cozinha e ao ver a cena que se desenrolava na sua frente (a mãe fritava rabanadas e o pai colocava as compras de natal sobre a mesa) - Giovana correu até seus pais e  abraçou-os, chorando muito.

Eles deixaram que ela se acalmasse, e sentaram-se com ela à mesa.

-Pai, mãe... vocês estão...

Sua mãe riu, terminando a frase:

-...Vivos? Mas é claro que estamos! Mas parece-nos que você não está, Giovana, e por isso nós a trouxemos aqui. 

O pai concordou com a cabeça, afagando-lhe os cabelos:

-Você se perdeu de si mesma, filha.

Giovana recomeçou a chorar:

-Minha vida está um verdadeiro desastre... depois que Sandro se foi, eu realmente perdi o rumo da minha vida. Acho que ele era a minha conexão com o mundo, o ponto de intersecção com nossos amigos e familiares. Até mesmo Luiza afastou-se de mim... imaginem que ela deu uma festa de Natal e não me convidou.

Sua mãe ergueu-lhe o queixo, olhando-a profundamente nos olhos:

-Você precisa reagir. Precisa dar um jeito nisso, filha. Sempre deixou sua vida e suas decisões importantes nas mãos de outras pessoas. Nunca enxergou suas verdadeiras qualidades e negligenciou todos os seus talentos. 

O pai acrescentou:

-Casou-se com Sandro simplesmente porque ele a pediu em casamento. Não achou que merecesse coisa melhor. Lembra-se do quanto eu procurei alertá-la para o mau caráter dele? Filha, você partiu nosso coração ao entregar sua vida a um homem como ele; mas também partiu o seu, o que mais dói para nós. Deveria estar feliz por ele ter ido embora.

-Mas Sandro era alegre e engraçado, pai. Ele me fazia rir... por isso tínhamos tantos amigos, mas todos se foram depois que ele me abandonou.

A mãe de Giovana suspirou fundo:

-Não, vocês não tinham amigos; tinham companheiros de farra. Lembro-me das festas que davam, regadas a muita bebida e muita comida. As pessoas se foram simplesmente porque a festas acabaram. Você nunca cultivou amigos verdadeiros, amigos seus. Entrou no mundo de Sandro e deixou-se sufocar por ele. Anulou-se.

Giovana sentia a dor que as palavras de seus pais causavam-lhe, principalmente por sabê-las verdadeiras. Deu graças a Deus porque, afinal de contas, restava-lhe uma única amiga: Mariana.

-Mas o que fazer agora? Eu tenho quase quarenta anos, meu único filho preferiu ir viver com o pai e a nova madrasta, e não vem em casa há seis meses. Mal fala comigo quando telefono para ele. Minha própria irmã me abandonou...

-O pai e a mãe se entreolharam, e ele segurou a mão da filha, dizendo:

-Luiza vive em um mundo de ilusão, Giovana. Igualzinho ao que você vivia com Sandro. Dá mais valor aos amigos que à família. Nem vê que está cercada de amigos interesseiros, que só a procuram por causa de seu dinheiro, suas festas... mas quando a vida que eles cultivam der a eles a sua resposta, ela verá que esteve errada.

Em seguida, sua mãe continuou:

- Giovana... filha... você nunca exerceu sua autoridade sobre Fernando, seu próprio filho...

-Ele não me ama. Com certeza, foi envenenado contra mim pelo pai.

-Não é verdade... ele está ressentido porque, quando o pai disse que fosse morar com ele, você não tentou fazê-lo ficar. Simplesmente deixou que ele fosse.

-Ele fez o que queria fazer.

-Não! Ele fez o que você o deixou fazer, mas no fundo, queria que você tivesse pedido para ele ficar. 

-Agora é tarde demais...

O pai ergueu um pouco a voz:

-Não é não! Ainda é tempo de reconquistar seu filho e sua vida! Saia daquele emprego que você detesta, convide seu filho para passar o natal com você e Mariana - aceite o convite dela desta vez - e quanto à sua irmã, dê tempo ao tempo. Você, mais do que ninguém, sabe que de nada adianta alguém chamar quando o outro quer continuar perdido.

Chorando, Giovana abraçou os pais e respondeu:

-Eu só queria poder ficar aqui com vocês...

Sua mãe respondeu com severidade:

-Mas você não pode! Precisa voltar e reconstruir a sua vida. E faça direito dessa vez! Filha... eu e seu pai estamos aqui olhando por você. Saiba que teve uma oportunidade rara. Não a desperdice!

Ao ouvir aquilo, Giovana sentiu que se afastava aos poucos daquela cena na cozinha, onde seus pais, abraçados um ao outro, olhavam para ela enquanto uma densa neblina os envolvia, e ela se afastava cada vez mais...

Ainda pode ouvir a voz da mãe:

-E jogue fora aquele caco que você chama de árvore de Natal! Livre-se do passado!

Acordou com o canto dos passarinhos na árvore próxima à janela. Levantou-se da cama, e ainda esfregando os olhos, foi até a sala, e começou a desmontar a velha árvore. 

Decidiu que compraria uma nova, com novos enfeites.









sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Mensagem na Neve- Um conto de Natal




Acordou no meio da noite e olhou em volta, piscando na penumbra. Os estalos da lenha na lareira ajudaram-na a despertar para onde estava.

Saiu da cama, e olhando pela janela, viu o luar brilhando sobre as partículas de gelo que formavam um lindo tapete branco sobre a paisagem. Gabriela estava em um hotel, em outro país, bem longe de casa. Decidira que não mais participaria das celebrações natalinas, e para evitar ter de ouvir os insistentes convites da família e dos amigos, e os sermões sobre o quanto era importante estar junto de alguém naquela data, ela decidiu ir para longe naquele ano. Um destino desconhecido a todos. Viajou no dia 22 de dezembro, sem avisar a ninguém, deixando apenas um bilhete sobre a mesa da cozinha, onde sabia, seu marido Fernando o acharia quando voltasse de sua viagem de negócios. Os bilhetes haviam se tornado seu principal meio de comunicação depois que tudo acontecera. Ela não conseguia olhar nos olhos do marido, que após algumas tentativas de reaproximação, aceitara seu silêncio.

Alguns dias antes, Nena, sua cunhada, havia telefonado e convidado para passar o natal na casa dela, onde toda a família estaria reunida:

-Gabi, você precisa superar! Lá se vão dois anos...

Ela permaneceu calada. Quem era ela para dizer-lhe o que precisava ou não fazer em relação à perda de seu filho único? Nana estava feliz, com seus três lindos filhos, fortes e saudáveis. Não precisara passar por tudo que ela passara. Não precisava acordar todas as manhãs em uma casa vazia de sentidos e daquela presença amorosa.

Breno certa vez dissera-lhe que sonhava com ele quase todas as noites. Por que não ela? Por que ele não vinha para ela em seus sonhos, como aparecia nos sonhos do pai? Aquilo virou um ressentimento, como se Breno fosse o culpado por ser o único a sonhar com Gabriel. Até que um dia, na mesa do café, assim que ele começou a contar sobre um de seus sonhos, ela o interrompeu:

-Por favor, eu não quero ouvir.

Ele pareceu ferido.

-Mas... por que, Gabriela? Eu pensei que você gostava de ouvir... e eles são tão reais, e as coisas que ele me fala são...
-Não passam de sonhos, Breno. São uma saída que sua mente criou de lidar com a dor.

Após tomar um gole de café, e agindo como se estivesse pisando em campo minado, Breno respondeu:

-Bem, mesmo que seja... acho que você deveria ajudar a si mesma e criar a sua própria maneira de tentar levar a vida a diante, Gabi. Talvez se você concordasse em ir ao centro espírita comigo...
-Já disse que não acredito nessas coisas, Breno. Não faz sentido para mim. Que Deus levaria embora uma criança de doze anos daquela forma, entre tantas dores? Deus não existe.

Os músculos da face de Breno retesaram-se.

-Você anda muito amarga. Não é bom para você. Não é bom para nós. E não é bom para Gabriel. Ele sente suas vibrações.

Ela levantou-se da mesa, e inclinando-se de pé na direção dele, o peso do corpo apoiado nos punhos sobre a mesa, olhou-o friamente:

-Gabriel está morto. Não sente mais nada. Não vê mais nada. Não existe mais. Pena que eu não fui junto com ele. Nenhum pai ou mãe deveria sobreviver à morte de seu filho. Mas eu sei que um dia eu vou tomar coragem, e...

Ele a interrompeu, gritando:

-Não diga uma coisa dessas! Chega de sentir tanta autopiedade, Gabi! Você nunca foi assim.
-Você nunca me conheceu de verdade. Não dizem que os momentos difíceis trazem à tona a nossa verdadeira personalidade?

Dizendo aquilo, ela saiu da cozinha, deixando-o transtornado. Breno não sabia mais como lidar com ela. No centro espírita, diziam-lhe que tivesse paciência, e não discutisse. Com o tempo, ela seria capaz de superar. O importante era que eles ficassem juntos e se apoiassem mutuamente, mas ele não recebia nada dela, nem uma palavra de carinho, e quando tentava aproximar-se, Gabriela se fechava em uma concha de frieza, e se ele insistisse,  de agressividade.

À janela do hotel, Gabriela ainda olhava a noite branca e fria. A beleza da paisagem, ao invés de animá-la, deixava-a ainda mais triste. No fundo, estava triste e arrependida por ter viajado daquela maneira, pois sabia que todos ficariam tristes e preocupados. Mas não conseguia mais lidar com os sorrisos forçados e palavras forçosamente "animadoras" das pessoas. Ou com quando elas fingiam que nada havia acontecido, tentando conversar sobre amenidades. Detestava quando ela chegava e percebia que todos paravam de falar de repente, se entreolhando e pigarreando.

Tinha consciência de que sua aparência, agora quase dez quilos mais magra, não era das melhores. Os cabelos, antes sempre bem tratados e brilhantes, agora não passavam de uma mancha escura presa em um eterno rabo-de-cavalo baixo. Desde que tudo acontecera, não comprava roupas ou fazia as unhas. Mantinha-nas curtas e sem esmalte. E também não fazia amor com o marido. O toque dele, ou de qualquer outra pessoa, a repugnava. Não queria realmente estar daquele jeito, mas não podia forçar a si mesma... era como se sentia.

Estava perdendo Breno, mas nem isso a fazia despertar.

Estava envolvida por sua dor, quando de repente, pareceu ver algo movendo-se na neve, ao longe. Ficou prestando atenção. Apertou os olhos para ver melhor, pois a luz do luar fora encoberta por uma nuvem passageira. Quando conseguiu vislumbrar do que se tratava, tapou a boca para reprimir um grito: era um menino! tentou abrir as janelas, mas estavam lacradas. Ela o viu correr em direção ao lago congelado. Não podia perder tempo: do jeito que estava, de camisola, agarrou o robe e saiu porta afora, para o corredor silencioso e vazio.

Passou pela recepção do hotel, e o relógio de parede marcava 3:45 da manhã. Não havia ninguém por lá. Talvez o recepcionista de plantão estivesse lanchando ou tirando uma soneca. Achou que perderia tempo se procurasse por alguém para pedir ajuda, e então saiu pela porta giratória, deixando-se envolver pelo ar frio da noite, em direção ao local  onde tinha visto o menino. Correu sobre a neve fofa com dificuldades. Chegou a uma elevação, e o que ela viu deixou-a quase sem fôlego: o menino estava de pé, bem no meio do lago congelado! Parecia muito assustado, e chorava. Naquele instante, Gabriela escutou um ruído que fez seus cabelos se arrepiarem: o gelo estava rachando! Ela gritou para ele:

-Não se mova, fique bem quieto!

Ele a viu, e obedeceu-a. Ela percebeu que o menino não deveria ter mais que cinco anos de idade.

Gabriela ficou tentando decidir o que fazer, pois percebeu que suas decisões seriam vitais para salvar o menino. Gritou:

-Fique quietinho! Eu vou voltar e buscar ajuda!

Ele choramingou:

-Não! Não quero ficar aqui sozinho. Eu vou cair! O gelo...

-Eu sei, meu bem, eu sei... fique calmo...

Ela olhou em volta, e encontrou um longo galho de cedro caído no chão. Rapidamente, mediu o tamanho do galho e calculou que ele seria suficiente para que ela o estendesse sobre o lago para que o menino o agarrasse, caso ela avançasse alguns metros para dentro do lago, e ela poderia então puxá-lo bem devagar. Se ele caísse, ela teria que mergulhar para tirá-lo, mas pelo menos ele se sentiria mais seguro segurando o galho.

Ela tirou algumas folhas da ponta para que ele pudesse sentir mais firmeza ao pegar o galho, e enquanto o fazia, falou com ele:

-Qual o seu nome, meu bem?

Uma voz chorosa e tremida respondeu:

-Roberto! Eu estou com frio...

-Eu sei, eu sei... olhe, eu vou tirar você daí, e logo você estará na cama quentinha, mas tem que fazer tudo o que eu mandar, OK?

Ele acenou, concordando. Tinha os braços ao longo do corpo, e a respiração ofegante fazia surgirem nuvens de vapor de sua boca. Gabriela chegou à beira do lago, avançando  bem devagar, e deitou o galho de árvore no gelo. Foi empurrando o galho, até que este chegou ao menino;

-Está vendo este galho? Quero que você se abaixe bem devagar e o segure bem firme. Eu vou puxar você. Se o gelo quebrar e você cair na água, não importa o que aconteça, mantenha-se sempre segurando o galho. Ok?

O menino fez exatamente como ela disse, e assustados, ambos escutaram nova rachadura no gelo. Gabriela olhou para baixo, e viu que havia uma fenda de aproximadamente meio metro entre eles. O menino teria que pular. Ela começou a puxar o galho. Ao chegar na rachadura, ela disse:

-Agora preste atenção: você vai ter que pular para o outro pedaço de gelo logo em frente.

Ele recomeçou a chorar.

-Não fique nervoso, Roberto. Quantos anos você tem?

-Seis...

-Como você veio parar aqui sozinho?

-Eu esperei a mamãe e o papai dormirem, abri a porta com a chave  e vim brincar na neve... eu nunca tinha visto a neve...

-Está tudo bem, isso logo vai acabar. Quando eu disser "três" quero que você pule, mas não largue o galho, ouviu? Segure bem firme nele! Um... dois... três!

O que aconteceu em seguida foi muito rápido: Roberto pulou na beirada do pedaço de gelo, que virou, e ele  imediatamente afundou na água gelada e negra. Gabriela gritou por socorro. Nem percebeu que várias luzes no hotel se acenderam. Alguém gritou. logo, pessoas corriam sobre a neve em direção a eles. Ela puxou o galho, e apavorada, viu-o surgir, mas sem o menino agarrado a ele.  Sem pensar duas vezes, mergulhou na água. Não conseguia ver absolutamente nada. Esticou os braços e nadou, até que conseguiu agarrar o braço do menino, e nadando para cima, trouxe-o à tona. Tremendo muito, ela o estendeu às pessoas que estavam à beira do lago, e alguém ajudou-a a sair da água. Viu quando alguém o embrulhou em uma manta e o levou para dentro, desacordado. Depois, ela desmaiou.

Ao acordar, Gabriela olhou em volta e notou que estava em um hospital, e era dia claro. Uma enfermeira fazia anotações, de pé ao lado da cama, e ao perceber que acordara, sorriu-lhe:

-Você está bem?

Ela respirou fundo, e mexeu braços e pernas antes de responder, sem sentir nenhuma dor. Estava bem. Acenou para a enfermeira, concordando.

-E Roberto?

-Bem, ele teve uma parada respiratória, mas conseguimos trazê-lo de volta. Foi uma noite difícil, mas ele agora está bem. Ele vai ficar bom. Você gostaria de falar com os pais dele? Eles podem entrar? Gostariam de conhecê-la; querem agradecer...

Ela sentou-se na cama, e ajeitou os cabelos com a as mãos.

-Sim, pode mandá-los entrar.

Alguns minutos depois, um jovem casal em lágrimas entrou no quarto, e a moça, num gesto espontâneo, abraçou Gabriele, murmurando muitos agradecimentos. Logo, o pai fez o mesmo. Após os agradecimentos, o rapaz pigarreou, e a moça olhou-o. Ele disse:

-Hoje é antevéspera de natal, e gostaríamos muito de dar-lhe um presente. Não é nada diante de tudo o que fez por nosso filho e por nós, mas gostaríamos que se lembrasse de nós e do quanto somos gratos.

Dizendo aquilo, ele estendeu-lhe um livro. Gabriele abriu o embrulho, e deparou com os dizeres na capa: tratava-se de um livro sobre crianças que morreram prematuramente, do autor Brian Weiss. Ela tentou não mostrar sua descrença, e sorriu, agradecendo. O casal ia saindo, quando Gariela perguntou:

-E Roberto? Posso vê-lo?

-É claro! Ele acordou, tomou café e está dormindo agora, mas pode vir quando desejar.

O médico entrou naquele momento, e ao examiná-la, disse que podia voltar ao hotel. Gabriela vestiu-se, e antes de ir, bateu à porta do quarto de Roberto. Sua mãe abriu-a e mandou que entrasse. Encontrou o menino sentado na cama, brincando com o pai e alguns carrinhos.

Gabriela sentiu-se muito feliz, mas a dor pela perda do próprio filho doeu agudamente naquele instante. Lembrou-se de Gabriel, também sentado em uma cama de hospital brincando com o pai, quando ainda havia esperanças para o seu caso. Mal sabiam que em apenas alguns dias, aquele cenário mudaria e se transformaria em um terrível calvário... ela enxugou uma lágrima, e aproximou-se da cama. O pai do menino sorriu ao vê-la, e disse a Roberto:

-Filho, esta é a moça que o salvou!

Roberto estendeu os braços para ela, sorrindo:

-Eu sei! Você é muito boazinha. Obrigado.
-Como você está, Roberto?
-Bem. Eu vou para casa antes do natal, ou melhor, para o hotel.

Após conversar com o menino por mais algum tempo, Gabriela despediu-se. Quando já estava à porta, Ouviu Roberto chamá-la:

-Gabriela! Lembrei de uma coisa importante!

Ela voltou até a cama, perguntando:

-É mesmo? E o que seria?...

Brincando com seu carrinho sobre as cobertas, Roberto disse:

-Gabriel me pediu para dizer que ele está bem. Não sente mais dor, e mora em um lugar muito bonito.

Gabriela emudeceu, engolindo em seco. Sentiu que seu coração ia sair pela boca. Os três adultos se entreolharam, e Roberto, inocentemente, prosseguiu:

-Ele disse que esta muito bem, mas que fica triste quando vê você triste ou chorando. O vovô Pedro está com ele. E...

Ele pareceu tentar lembrar-se de algo, e finalmente, acrescentou:

-Ah! Já sei: ele quer que você volte para casa e passe o natal com a família toda. Ele me pediu para falar que... que um dia vocês vão se rever, e que ele ainda não conseguiu ir até o seu sonho porque a sua tristeza é como se fosse uma porta que o segura do lado de fora. E também disse que a ama muito, e o papai também, e que você precisa ser feliz de novo. E disse que vai mandar um presente. Um presente de Natal!

Ao ouvir aquilo, Gabriela não teve mais dúvidas: abraçou a todos, e despediu-se, agradecendo efusivamente. Os pais de Roberto imediatamente compreenderam do que o filho estava falando, e quando Gabriele fechou a porta do quarto, eles se deram as mãos, olhando para o menino que  brincava sobre a cama, e sentiram-se abençoados.

Gabriele pegou o primeiro avião de volta. Não havia mais lugares no avião, mas por sorte, alguém desistiu da viagem na última hora, e a companhia aérea colocou-a no voo.

Após quase oito horas de viagem, ela desembarcou no aeroporto e ansiosa tomou um táxi para casa. Chegou de manhã bem cedo, na véspera de natal. Colocou a mala no chão. Girou a chave na fechadura. Ao abrir a porta, deparou com Breno dormindo no sofá da sala. Segurava uma fotografia da família. Ao lado dele, havia uma garrafa de vinho vazia. Gabriela percebeu o quanto ele estava sofrendo por causa dela, e beijou-lhe o rosto. Ele abriu os olhos e viu-a sorrindo. Piscou várias vezes:

-É um sonho?... Você está sorrindo?

Ela o beijou novamente, desta vez, nos lábios.

- Tenho uma história linda para contar a você. Mas eu o farei diante de todos, na noite de natal.

Breno sentou-se no sofá, abraçando a esposa.

Ao fazerem amor, nem sequer desconfiavam que o presente prometido por Gabriel estaria com eles no próximo natal: Gabriela ficaria grávida de um menino!




segunda-feira, 17 de novembro de 2014

O NATAL DE RAIANNY






Este conto inaugura uma série de contos de Natal que pretendo escrever até o dia 25 de dezembro. Não sei quantos serão, ou quando irei escrevê-los, mas serão todos inéditos e de minha autoria. Tentarei fazê-los bem reais, mas sem perder a magia desta época tão bonita.



O Natal de Raianny


Raianny tinha dez anos de idade, e morava em um orfanato desde os três. Cleyson, seu irmão mais novo, fora adotado um ano depois  que chegaram, mas a família que o adotara não queria um casal: apenas um menino. Sendo assim, ela ficou sozinha no orfanato aos seis anos, e nunca mais soube do irmão. Quando perguntava por ele, as freiras apenas diziam que ele estava muito bem e muito feliz, e que morava em um país bem longe dali. Ela não sabia muito bem o que era um outro país. Quando ouvia aquela palavra, lembrava-se apenas das linhas coloridas traçadas nos mapas das aulas de geografia. Imaginava que seu irmãozinho caminhava por elas, brincando de pular de uma para outra. Ainda tinha uma fotografia dele, e lembrava-se de como ele era bonito...
Raianny sempre passara o natal no orfanato com as outras crianças. Todo ano, algumas delas eram escolhidas por algumas famílias para passarem o natal com elas em seus lares. Mas Raianny jamais fora escolhida. Quando olhava-se no espelho, ficava triste, de olhar perdido no cabelo emaranhado e sem cor, no nariz redondo de batata, nos membros extremamente compridos e muito magros, nos dentes salientes e na pele mulata. Ao contrário do seu irmão, ela era uma criança feia, e sabia disso. E achava que talvez fosse aquele o motivo de jamais ter sido escolhida.

Gostava de imaginar que estava ali só de passagem, e que logo sua mãe viria buscá-la. Ela ainda conseguia lembrar-se dela, e do dia em que ela estava muito esquisita e fora levada nos braços de uns homens de uniforme. Uma das vizinhas gritava que ela não estava respirando. Colocaram-na em um grande carro branco que foi embora soltando muita fumaça pelo cano de descarga e apitando uma sirene enjoativa. Toda vez que ela ouvia uma sirene como aquela passando na rua, corria para a janela achando que fosse a mãe, voltando para buscá-la. E por mais que as freiras tentassem convencê-la de que  mãe não voltaria mais (tinha partido em uma grande viagem sem volta), ela recusava-se a separar-se de sua única esperança de ser feliz.

Um dia, Raianny estava brincando de amarelinha com as outras crianças no pátio da escola quando viu um casal muito arrumado aproximar-se delas. Todas as meninas e meninos pararam de brincar e correram na direção do casal, pois sabiam que o natal se aproximava e que as crianças seriam escolhidas para passá-lo nas casas de família. Algumas não voltavam nunca mais. As freiras comentavam sobre a sorte delas, pois tinham sido adotadas e passaram a fazer parte da família.

Bem, havia um alvoroço e uma gritaria à qual Raianny já estava acostumada, e da qual não mais participava, pois sabia muito bem que ninguém a escolheria. Ficou de longe observando, sentada em um canto, as mãos sobre os joelhos e o olhar muito triste que ela nem percebia que tinha. As crianças cercaram o casal, e algumas delas gritavam tão alto que era impossível ouvir o que qualquer uma delas dizia! a mulher tinha o olhar assutado, e o marido parecia bastante aborrecido. Uma das freiras precisou interferir, afastando as crianças com ameaças de castigos. Só assim elas se acalmaram, os olhares ansiosos presos no casal, as mãos erguidas, pedindo para que o casal as escolhessem.

De repente, a mulher levantou os olhos e olhou na direção dela. Seguida pelo marido, que caminhava com as mãos no bolso e olhar contrariado, a mulher caminhou para ela, dizendo à freira: "É esta menina que eu quero! Parece muito educada." A mulher tocou-lhe o queixo, erguendo-lhe o rosto.

Raianny mal pode acreditar no que ouvia! Tinha sido escolhida! Nem sabia o que dizer. Já ia agradecer quando a mulher virou as costas e foi embora, conversando com a freira e seguida pelo marido que nunca se manifestara. Minutos depois, as freiras vieram buscá-la. Disseram-lhe que fosse boazinha e obedecesse. banharam-na, pentearam-lhe os cabelos lavados com muito creme de enxaguar, vestiram-lhe uma roupinha nova, muito cheia de babados e fitinhas e bordadinhos. Calçaram-lhe  um par de vistosos sapatos de verniz branco, e meias três-quartos. Raianny olhou-se no espelho e viu que estava quase bonita. As freiras levaram-na para a recepção, onde o casal a esperava.

O motorista, um senhor negro e muito simpático,  tomou-a pela mãozinha magra, conduzindo-a ao carro da família, enquanto o casal permaneceu conversando com as freiras por mais algum tempo. Depois, eles entraram no carro - o pai sentado no banco da frente, e a mãe sentada atrás, com ela. mas bem afastada. Raianny queria falar, dizer alguma coisa que mostrasse seu agradecimento por ter sido escolhida, mas o ar sisudo dos seus pais adotivos mantinha-na calada. Benedito - este era o nome do motorista - olhou-a pelo espelho retrovisor e piscou para ela, o que fez com que ela sorrisse. 

Chegaram a uma linda casa, pintada de azul clarinho, enorme, cercada por um jardim maravilhoso como Raianny nunca tinha visto ou imaginara existir. À porta da mansão, um fotógrafo os aguardava, e então os pais tomaram-na pela mão, sorrindo pela primeira vez, e eles tiraram muitas fotos juntos. O pai falava a uma moça com um caderninho onde anotava tudo; dizia que todas as famílias abastadas deveriam dar um lar a alguma criança que necessitasse naquela época. Também falava da contribuição que sua empresa dava às casas de caridade. Enquanto isso, a esposa abraçava Raianny, sorrindo para as fotografias. Raianny sorria também, segurando as pontinhas rendadas das saias do seu vestido novo.

Depois que o fotógrafo e a moça do caderninho foram embora, o casal ordenou ao motorista que levasse Raianny ao seu quarto, pois precisavam voltar para a empresa. Benedito pegou  a menina pela mão mais uma vez, levando-a antes até a cozinha da casa, onde uma mulher gorda e gentil chamada Rose preparou-lhe um lanche delicioso. Ela comeu tudo, e depois de tomar uma grande taça de sorvete, com muito cuidado para não sujar o vestido, Benedito levou-a ao seu quarto. Chegando lá, Raianny mal pode acreditar na quantidade de brinquedos disponíveis! Benedito deixou-a a inda mais feliz ao dizer que ela podia brincar com o que quisesse, mas que tomasse muito cuidado para não quebrar nada. E ela brincou, feliz da vida, com as bonecas com rostos de princesa, sonhando em ser tão bonita quanto elas um dia. Ela empurrou carrinhos que jamais dirigiria, criou mundos encantados onde os animais de pelúcia falavam, e fez muitas comidinhas para suas novas amigas, as bonecas. Mais tarde, muito cansada, deitou-se na caminha coberta com colcha cor-de-rosa e dormiu.

Acordou horas depois, e uma menina loirinha olhava para ela. Raianny sentou-se na cama, e a menina apresentou-se:

-Olá. Eu sou a Bia. Quem é você?

-Eu sou Raianny. Acho que vamos ser irmãs... eu vim para...

Bia ergueu a cabeça, e cortou sua fala:

-Jamais seremos irmãs. Olhe só, você é negra! Eu sou loira e tenho olhos azuis. Além disso, você é muito feia! Espero que não tenha quebrado nada. Tudo isso aqui é meu.

Dizendo aquilo, Bia tomou-lhe a boneca que Raianny segurava. A menina ia protestar, quando Rose entrou no quarto:

-Bia, você não está sendo educada com a convidada de sua mãe. Peça desculpas!

A menina mimada grunhiu um pedido de desculpas, e saiu correndo do quarto. 
Rose entrou e sentou-se na cama ao lado de Raianny, enxugando-lhe algumas lágrimas com a ponta do avental:

-Não chore, querida. Olhe, ela não passa de uma menina mimada e boba. E eu tenho ordens de tomar conta de você e der tudo o que você quiser! O que gostaria? Talvez mais um pouco de sorvete depois do jantar, hum? Que tal?

Raianny sorriu, concordando com a cabeça. Logo estava sentada à mesa da cozinha, comendo com Rose e os outros empregados da casa. Uma moça negra chamada Luiza comentou:

-Eles nem vão deixá-la comer no salão de jantar?  Mas que gente!... todo ano é a mesma coisa.
-Cale-se, Luiza, ou vai deixar a menina triste - Benedito ralhou.

Raianny percebeu que falavam dela, mas continuou comendo aquela comida deliciosa, que jamais comera no orfanato, onde nada tinha muito gosto.

Rose disse:

-Só faltam três dias para o Natal. Isso pra gente só significa que teremos trabalho triplicado.

Os três suspiraram. Luiza falou:

-Pelo menos, temos o décimo terceiro salário. 
-E mesmo - respondeu Rose.

Benedito sorriu para Raianny, e ela sempre sentia-se segura quando ele fazia aquilo. Ficou mais leve.  Começou a responder as perguntas sobre como era a vida no orfanato, e percebeu que era bem mais divertida do que naquela casa onde estava. As freiras conversavam com ela. Tratavam-na bem. Seus pais adotivos a ignoravam. 

Na manhã seguinte, Raianny acordou em seu quarto de princesa, cercada pelos brinquedos maravilhosos, e viu que não tinha sido apenas um sonho. Foi ao banheiro, e quando saiu, Rose a esperava com uma muda de roupa - outro vestido, desta vez, branco com fitas amarelas brilhantes. Novinho em folha! Rose ajudou-a a tomar banho e pentear o cabelo - que prendeu em uma caprichada trança - e vestiu-lhe o vestido, que chegava até os pés. Calçou-lhe um par de sandálias brancas, que apesar de usadas, estavam novinhas. As duas começaram a descer as escadas até a sala, e Raianny viu que havia uma porção de gente que começou a tirar fotografias assim que a viram. "A casa parece um estúdio de cinema", pensou Rose. 

Seus pais adotivos estavam lá, e muito amáveis e sorridentes, vieram recebê-la, com um beijo no rosto e muitos afagos. Mais uma vez, falavam sobre a importância do Natal, da caridade e do amor. Sua mãe adotiva até chorou, o que fez com que Raianny chorasse também, e ela a acariciou o rosto, comovida. Com a voz embargada, discursou:

-Só Deus sabe o que esta pequena já passou na vida... é com muita alegria que proporciono-lhe os melhores dias de sua vida, dos quais ela há de lembrar-se para sempre. E é claro, a nossa empresa está providenciando para que o Natal de muitas crianças como a nossa Raianny seja muito feliz...

Mais fotos. Mais lágrimas. E quando todos se foram, a mãe chamou Rose, entregando a menina: 

-Dê-lhe alguma coisa para comer. 

Depois, Raianny não viu mais seus pais adotivos. Viu quando sua irmã adotiva passou por eles, carregando uma pequena mochila. Ela também passou o dia fora. 

Raianny ficou brincando no jardim. Queria usar a piscina, mas Rose disse que infelizmente, os patrões tinham dado ordens expressas para que ela ficasse longe da piscina. Com um sorriso amarelo, Rose disse que era porque eles ficavam muito preocupados que algo ruim acontecesse a ela... mas ela podia brincar no parquinho. Havia um escorrega, balanço e gangorra.

-Mas... com quem eu vou brincar? 

Naquele momento, Benedito chegou em casa, pois tinha ido levar seus patrões ao trabalho. Ele disse:

-Não se preocupe, Rose, eu brinco com ela.

E ele a empurrou no balanço, e ajudou-a na gangorra. Contou-lhe histórias e ensinou-lhe algumas canções de natal. Os dois tomaram mais sorvete na cozinha. Quando viram, já estava anoitecendo. Cansada, Raianny dormiu, e Benedito a colocou na cama.

Na manhã do terceiro dia, Raianny acordou e desceu de camisola para a sala de estar. Quando Rose a viu, exclamou:

-Graças a Deus os patrões já saíram! Eles me matariam se vissem você circulando de camisola por aí, Raianny.

Mas Raianny nem escutou: Rose, Benedito e Luiza arrumavam uma enorme e linda árvore de natal! Ela foi convidada a ajudar a pendurar os enfeites, o que a deixou muito feliz. Foi informada de que haveria uma grande festa de natal naquela noite. Quando terminaram de montar tudo, já era quase hora do almoço. A campainha tocou, e Quando Rose abriu a porta, uma porção de gente esquisita começou a andar de uma lado para o outro, alguns dando ordens e outros obedecendo. A sala foi começando a ficar diferente, cheia de luzes e até uma fonte d'água bem no meio. Raianny observava  tudo do alto da escada. Ficou um pouco triste quando viu que a árvore que havia ajudado a montar foi levada para um canto escuro do corredor, e uma outra, bem maior e imponente, a substituiu. Era toda dourada, com bolas de cristal iluminadas e uma grande estrela prateada que soltava faíscas na ponta.

Rose veio buscá-la para almoçar, passando com ela por toda aquela multidão. De repente, uma mão macia a segurou:

-É esta a menina da campanha deste ano?

-E sim, Rose respondeu.

Ele soltou uma exclamação de espanto:

-Noossa!!! A do ano passado era bem mais... mais...

 Raianny olhou para cima e viu um homem estranho, com lenço rosa no pescoço e blusas de babados nas mangas. Ele deu um sorriso forçado para ela, e acenou-lhe um adeusinho enquanto se afastava. 

A noite chegou, e Rose foi arrumá-la para a festa. Vestiu-a com o mais lindo dos vestidos: branco com botões dourados, sapatos de veludo vermelho, e um laço vermelho na cintura. Uma moça veio arrumar seus cabelos, que ficaram lisinhos, lisinhos, e ela os prendeu com uma fivela dourada. Ela foi até maquiada! Pintaram-lhe as unhas de rosa, e quando Raianny se olhou no espelho, viu que tinha ficado... bonita!!!

Daquela vez, sua mãe adotiva foi buscá-la para descer as escadas até o salão, e Bia, sua irmã adotiva, estava com ela. A mãe avisou à Bia:

-Lembre-se: seja gentil, principalmente com Raianny, e sorria sempre! Trate-a bem na frente de todos. Haja como se ela fosse muito querida e bem vinda nesta casa. Esta bem?

Bia balançou a cabeça, concordando, enquanto olhava para Raianny com desprezo. Mas quando elas começaram a descer as escadas e os flashes espocaram, Bia tornou-se para ela a criatura mais gentil e meiga do mundo! Apresentou-a às suas amiguinhas, sempre segurando-a pela mão e fazendo muitas poses para fotos. 

Pela primeira vez desde que chegara, Raianny foi convidada a tomar um lugar à mesa, na sala de jantar. Inocentemente, ela soltou:

-Mas... eu preferia comer na cozinha, com os empregados, como nos outros dias...

Um silêncio mortal abateu-se sobre todos.

De repente, A mãe começou a rir histericamente:

-Hahaha! Ela é muito brincalhona... você é nossa convidada de honra, Raianny querida!

E todos riram, e o incidente foi esquecido. Trataram-na tão bem, que a menina achava que poderia ser realmente adotada! Foi uma noite inesquecível. Ela era o centro das atenções, paparicada por todos, principalmente pela sua família adotiva. À meia-noite, muito cansada, ainda a puseram sob a árvore para abrir os muitos presentes que ganhara. Ela reparou que eram iguais aos que ela brincara no quarto, mas achou melhor não dizer nada e fingir surpresa. 

Nem percebeu quando adormeceu.

Acordou na manhã de natal de volta ao orfanato, cercada pelas tristes paredes cinzentas do dormitório das meninas. Em um canto, algumas caixas que abrira na noite anterior, mas não eram nem a metade dos presentes que ganhara!

Passou o dia de natal no orfanato, como sempre... a noite de magia terminara. Usava seu vestidinho de malha de sempre: A Cinderela estava de volta aos seus trajes de aia. 

Durante o dia, um homem vestido de papai-noel esteve no orfanato, acompanhado de uma porção de gente que distribuiu brinquedos que não chegavam aos pés dos que ela vira na mansão. Eles contaram histórias bobas que não eram engraçadas e interessantes, nem mágicas como as que Benedito contara a ela. Encenaram uma peça pobre e feia, nem um pouco parecida com a que ela vivera... e então ela se deu conta: tudo tinha sido apenas como num teatrinho, e ela nada mais fora que uma personagem... tinha sido usada por aquelas pessoas.

Perceber aquilo deixou-a com uma tristeza amarga, mas ao conversar com a freira, esta disse-lhe que fosse grata pelo que tivera naqueles poucos dias. E Raianny realmente tentou, mas sua tristeza não ficava curada. Sentia saudades de Rose e Luíza, mas acima de tudo, sentia muita falta de Benedito. 

Uma semana depois do natal, uma das freiras aproximou-se:

-Raianny, você vai ser adotada.

Ela apenas chorou. Mais uma vez? Não... ela não queria sair dali nunca mais! E disse aquilo à freira, que ficou muito surpresa.

-Mas... você sempre quis ser adotada! 

-Mas não quero mais. As pessoas lá fora são ruins, irmã. Prefiro ficar aqui.

-Mas... você nem quer saber quem vai adotá-la?

Naquele momento, Raianny viu Benedito e uma senhora, e eles estavam de mãos dadas, sorrindo e caminhando na direção dela. Quando ele se ajoelhou e estendeu os braços para ela, abrindo-os para recebê-la, ela compreendeu que seria feliz.










segunda-feira, 10 de novembro de 2014

A Casa do Caminho de Pedra - FINAL




Aurora levantou-se para fechar as janelas antes que a tempestade começasse. Havia uma atmosfera pesada no ar, e ela podia sentir que não era apenas devido à tempestade. Parecia que alguma coisa estava sendo purgada de sua vida, e que após aquela tempestade, tudo ficaria bem. Ela poderia parar de se esconder. Eram apenas pressentimentos, mas Aurora aprendera que seus pressentimentos muitas vezes eram bem concretos.

Estava parada à janela vendo a chuva que começara a cair de leve. 
Na pequena cidadezinha, um estranho acabara de chegar. Pedia informações sobre uma casa cujo caminho era de pedras.

O senhor que deu-lhe a informação, indicando-lhe o caminho, disse:

-Leve algumas pedras para colocar no caminho e ajudar a moça a terminar a estradinha que leva até a casa! Dizem que só faltam mais algumas. 

E contou-lhe a história do caminho de pedras. Assim, o forasteiro parou no caminho e colocou alguma pedras lisas na mala do carro. O céu estava escuro, e prometia uma tempestade para dali a pouco. Ele agiu rapidamente, e escolheu algumas pedras mais lisas e chatas que ele achou que poderiam ficar bem em uma trilha. 

A tempestade caiu, e Aurora fechou as janelas. Parecia que o mundo estava desabando lá fora! Mas após meia hora, ela percebeu que os pássaros recomeçaram a cantar, e uma nesga de sol convidou-a a abrir novamente as janelas. Ela foi lá para fora, sentir o cheiro maravilhoso de jasmins e terra molhada. O céu estava novamente azul. Havia borboletas imensas, multicoloridas, e muitos passarinhos. 

Quando Aurora olhou para o chão, viu que alguém tinha terminado a estrada de pedras. Finalmente, o caminho estava pronto! Ela teve mais um daqueles seus bons pressentimentos, e seguiu pelo caminho até a beira da estrada. Quando deparou com um carro vermelho, estacionado junto à estrada, ela logo soube de quem era. Caminhou até ele, e ao olhar para dentro, viu um rosto conhecido e amado que dormia. 

Mal pode conter sua alegria, e as lágrimas desceram, uma a uma, mas lágrimas de felicidade. Ele abriu os olhos, e finalmente, seus olhares se encontraram após tanto tempo separados!

João saiu do carro, e abraçou-a com força, dizendo seu nome várias vezes: “Rúbia, minha querida Rúbia...” mas ela calou-o com um beijo, e depois corrigiu-o:

-Não sou Rúbia. Aqui, eu sou Aurora. 

E o sorriso dela pareceu-lhe como a aurora em manhã de primavera.



quinta-feira, 6 de novembro de 2014

A Casa do Caminho de Pedras - Parte X




Aurora levou um grande susto, pois nunca tinha visto alguém que já morrera. Tinha sonhos e ouvia vozes, mas nunca tivera assim uma visão tão clara, como se Marta estivesse viva, diante dela!

Levantou-se da cadeira, derrubando um vidro de tinta vermelha, e achou que era um mau presságio... ao erguer os olhos, a imagem da mãe tinha desaparecido. 

Lá na cidade grande, Jorge e Helena conversavam. Ele acabara de contar a ela que a liberdade de seu filho tinha sido negada, e que não poderiam apelar mais. Helena chorava. Sentia ainda uma enorme vontade de “por as mãos naquela filha de uma prostituta” e vingar-se de uma vez pelo que acontecera à sua filha Jane e ao seu filho Eduardo! Mas Jorge pediu-lhe que se acalmasse e ouvisse o resto da história que tinha para contar. Ela respirou fundo, e tomando um bom gole de bebida alcoólica, procurou prestar atenção ao marido:

-Helena, eu sei que passamos mais que dois anos de nossas vidas odiando Marta e sua filha pelo que aconteceu à nossa menina. Desejamos nos vingar, e achamos que Eduardo estava tentando apenas vingar a morte da irmã ao assassinar Marta. Mas eu preciso que você me escute com muita atenção... pare de beber, por favor, e me ouça (ele tirou o copo da mãe da esposa):

-Hoje recebi um telefonema. Uma das amigas de Jane. Lembra-se de Gilda? Ela pediu-me se podia conversar comigo, e disse que me procurasse no escritório. 
-E ela esteve lá? O que ela sabe? O que queria dizer?
-Ela estava com Jane no dia em que ela morreu, e contou-me tudo. Só não se manifestou antes porque não queria complicar ainda mais as coisas. Mas ao saber que eu estava tentando libertar Eduardo mais uma vez, ela decidiu que era hora de dizer o que sabia.

Helena ficou lívida, e concentrou-se nas palavras do marido:

- Ela me disse que ambas tinham ido à casa de Marta algumas semanas antes da morte de Jane, onde ela pedira uma poção para conseguir emagrecer. Você se lembra, ela sempre foi um pouco gordinha... Gilda falou-me que ela começou a tomar o remédio, e que realmente estava conseguindo emagrecer e controlar o apetite.

-E por causa daquela megera que exercia medicina ilegalmente, nossa filha morreu envenenada!
-Não! Espere, deixe-me terminar! Dias depois, Jane pegou o irmão roubando dinheiro do cofre da casa.  Ela brigou com ele, e o fez devolver tudo. Gilda também estava presente naquele dia, e testemunhou tudo.
-Meu filho, roubando dos próprios pais? Não acredito!
-Mas é verdade, Helena...

Jorge parecia triste, cansado e envelhecido.

-Eduardo estava viciado em cocaína. Roubava para pagar a um traficante que o estava ameaçando. Já tinha, inclusive, participado de um roubo a uma casa de veraneio, e Jane sabia de tudo. Ameaçou contar-nos tudo se ele não parasse.
Helena lembrou-se das muitas vezes em que vira o filho agir de forma estranha ou tornar-se subitamente agressivo, mas ela decidira ignorar e por panos quentes, protegendo-o e fingindo que estava tudo bem. Lembrou-se das reclamações da escola, e de quantas vezes ela fora chamada para conversar com a diretora devido às atitudes de bullying do filho em relação a alguns colegas. E também da forma como o defendeu ao saber que ele tinha cometido um assassinato!

Jorge continuou sua história:

- Bem, ele não parou... naquela noite em que Jane morreu envenenada, Gilda havia estado com ela, e viu quando ela tomou o remédio preparado por Marta, como fazia todos os dias. Era ainda dia claro, logo antes do almoço, e ela tomou o remédio como sempre fazia. Não se sentiu mal. Continuou agindo normalmente. Gilda disse que estava entusiasmada, pois via que Jane estava realmente perdendo bastante peso, e decidiu provar o remédio. Se estivesse envenenado, ela teria morrido também. 

As duas marcaram de sair juntas à noite. Quando Gilda chegou aqui em casa – estávamos viajando, lembra-se? – e subiu até o quarto para encontrar nossa filha, viu quando Eduardo entrou no quarto. Como chovesse muito, e houvesse  muitos trovões ele não ouviu quando ela se aproximava. Ela achou a atitude dele estranha e ficou escondida, observando-o através da porta entreaberta. Viu que Jane estava deitada na cama, inerte, e viu quando João, usando luvas, colocou o remédio que ela estava tomando, dado por Marta em um copo com água. Ela achou aquilo estranho, e ficou escondida. Quando ele saiu, Jane entrou. Chamou por Jane, mas ela não respondeu: nossa filha estava morta! 

Helena tampou a boca com as mãos, horrorizada:

-Você está dizendo que foi Eduardo que matou a irmã?!

Tristemente, Jorge respondeu que sim, acenando com a cabeça.

-Eu não acredito nessa história! Meu filho não faria uma coisa dessas! E por que ele mataria Marta?
-Porque Marta era médium, e sabia do que ele tinha feito, e tentara incriminá-la. Gilda disse que o telefone de Jane tocou enquanto ela estava no quarto, e ela atendeu. Era Marta, desesperada. Queria saber se Jane estava bem. Elas conversaram por alguns minutos, e Gilda decidiu mentir, dizendo que a amiga estava dormindo. Mas Marta disse que sabia que ela estava mentindo, e que ela deveria chamar a polícia. Então ela confessou tudo à Marta.
Mas ficou com medo. Assustada, Gilda desligou, e usando uma toalha, apagou suas digitais do telefone de Jane. Enquanto saía correndo da casa, apavorada, esbarrou em Eduardo. Ele percebeu que ela tinha visto tudo. Ameaçou-a de morte, se ela contasse alguma coisa, e apavorada como estava, Gilda acabou revelando a ele que Marta sabia de tudo. Logo depois, ele a matou com um tiro, naquela mesma noite, enquanto sua filha Rúbia dormia no quarto ao lado. E Gilda saiu em viagem, com medo de Eduardo. Só voltou meses depois. E há testemunhas que o viram próximo à casa de Marta na noite do crime, como você sabe. Nosso filho matou Jane, Helena... sua própria irmã!

-Mas toda essa história pode ser mentira! Eu não posso crer, não posso! Gilda mente! E se marta era médium e sabia de tudo, como não adivinhou que Eduardo ia matá-la? 

-Minha querida, nem sempre os médiuns sabem de tudo... eles não sabem de todas as coisas que estão para a acontecer. Ninguém sabe. E eu conversei hoje com Eduardo. Contei-lhe a história antes de vir para casa. Ele confessou tudo. Nosso filho matou duas pessoas. E cometeu vários assaltos.

Dentro daquela casa, as trevas da tristeza invadiram todos os espaços. Mais tarde, Helena seria encaminhada para tratamento psicológico em uma clínica. Ao sair da clínica, faria uma visita ao filho. Ambos se abraçariam, chorariam e perdoariam os pecados um do outro.

Ao mesmo tempo, Helena perceberia que passara todo aquele tempo tentando culpar uma pessoa inocente pela morte da filha, e que aquilo não fazia mais sentido. Deixaria Aurora em paz.

(continua...)


O JARDIM DAS DESILUSÕES – CAPÍTULO VI – FINAL

O funeral aconteceu em um dia especialmente frio no qual uma chuva fina e cortante era derramada em rajadas pelo vento. Os pais...