segunda-feira, 28 de março de 2016

O ANJO NO PORÃO - Capítulo XIX







Porém, além de Dália, outras pessoas guardariam boas lembranças daquela festa de casamento: foi nela que Régis reconheceu a mulher de seus sonhos – aquela, que Vicentina destinou como sua em um sonho que tivera há muito tempo, a mulher dos longos brincos de pedras azuis. A mulher da sua vida. Assim que deitou os olhos nela, Régis imediatamente lembrou-se do sonho, do qual já tinha se esquecido. Ela estava sentada junto à mesa de doces, conversando com alguém que ele não conhecia. Aparentava estar entre os trinta e cinco e quarenta anos de idade. Ainda guardava muito da beleza de sua juventude, que emanava dos olhos, acariciava a superfície de sua pele e deitava-se sobre os cabelos negros e fartos, entremeados por discretos fios embranquecidos. Assim que a viu, Régis sentiu o coração bater aceleradamente, causando-lhe torpor, como um formigamento de ansiedade. Imediatamente começou a pensar em uma maneira de falar com ela.
Aproximou-se de Dália, parabenizando-a mais uma vez pelas núpcias, e sem conseguir tirar os olhos da estranha, indagou:

-Dália... quem é aquela senhora, sentada do outro lado da sala, envergando um belo vestido verde-escuro?

Dália voltou o rosto na direção apontada por ele, procurando pela mulher que preenchesse a descrição, e logo que  a viu, seu rosto se iluminou em um sorriso de reconhecimento:

-Oh, é uma amiga de mamãe! Seu nome é Petra. 

Dália voltou-se para Régis, e logo notou que o interesse dele era bem mais que simples curiosidade, e continuou a falar sobre Petra:

-Ela mora aqui mesmo, em Petrópolis. Infelizmente, na mesma época em que mamãe adoeceu, adoeceu também seu marido, e ela precisou dedicar-se inteiramente aos cuidados dele...

A decepção tomou conta do semblante de Régis, e ela percebeu; explicou:

-Ele morreu alguns dias após mamãe. A pobre Petra é viúva... imagine, tão jovem ainda! Tem apenas trinta e nove anos. Não tiveram filhos. Ela é muito só, já que sua família é de Mato Grosso. Venha, vou apresenta-lo  a ela! Isso, é, gostaria de conhece-la?

Régis não disfarçou seu entusiasmo:

-Mas é claro, eu ficaria absolutamente encantado!

E assim que ficaram diante um do outro, após as apresentações, a conversa entre os dois fluiu. Em pouco tempo, já sabiam de detalhes da vida um do outro. Era como se já se conhecessem há muito tempo, e logo tornou-se claro para ambos que não tinham se conhecido por acaso. Seis meses mais tarde, estariam legalmente casados! 

A parte mais difícil, foi quando Régis precisou informar madame Fonseca de seu casamento próximo; ela caiu em prantos, sentindo-se mais uma vez abandonada – acabara de receber a notícia de que, na Alemanha, seu ex-marido casara-se com Hanna, e que ambos logo teriam um filho. Lera a notícia em um jornal que seu marido assinava, e que ela não cancelara. Lá estava a fotografia dos dois, e do seu tão adorado menininho; Hanna, linda e coberta de joias, tão mais jovem que ela e já mostrando a barriga de gravidez, estava de braços dados com seu marido, que envergava sua farda do exército e aparentava ser muito mais jovem do que ele realmente era. Ambos estavam felizes, e seu menininho parecia um pequeno príncipe.  Madame sentiu-se duplamente traída:

-Oh, por favor, Régis, diga que não vai me deixar! Eu não vou suportar!

Ela nem se importava com os empregados curiosos que passavam do lado de fora do corredor, e que apesar de discretos, há muito sabiam do relacionamento muito mais que profissional entre a patroa e seu mordomo. Régis tentou colocar-lhe um pouco de juízo:

-Por favor, os empregados podem ouvir!

-E eu me importo? O que me resta, agora? Nem mesmo uma reputação! Eu tinha dito a todos os amigos e conhecidos que meu marido estava em uma missão na Europa, e agora ele aparece de braços com esta sirigaita a quem chama de esposa! A esta hora, serei o motivo de chacotas na cidade inteira, quiçá no país! Aos cinquenta e cinco anos, é isto que a vida me reservou... carregarei para sempre o estigma de mulher traída, abandonada, que mentiu sobre sua condição...

Régis sentiu muita pena dela:

-Eu estou muito triste... lembre-se de que Hanna era minha esposa também.

-Mas você nem a amava mais! Tanto, que já está para casar-se com uma outra, a quem mal conhece!

-Mas já faz muito tempo que ela se foi, Madame...

Ela caminhou pelo quarto, andando em volta dele:

-Madame... agora, volta a chamar-me de madame! Já se esqueceu de tudo o que aconteceu entre nós, meu caro?

-Nunca deixei-a pensar que estava apaixonado pela senhora... por você... e se caí em tentação, foi porque sou um homem, e a senhora foi muito... muito intensa em suas tentativas de seduzir-me. Perdoe-me a sinceridade. Não sou e nem fui apaixonado pela senhora... quero dizer, por você.

Ela sentou-se na poltrona, passando a abanar-se com um leque:

-Saia, Régis, por favor.

Ele manteve-se de pé, as mãos crispadas junto ao corpo. Ela repetiu:

-Saia!

Ele começou a caminhar em direção à porta, mas ela o deteve:

-Se pelo menos puder contar com seus serviços de mordomo nesta casa...

Ele suspirou, aliviado; conseguir um outro emprego que pagasse bem como aquele não teria sido fácil.

-Obrigada, madame. Pode contar comigo sempre, neste sentido, quero dizer...

Ela o interrompeu:

-Eu já entendi, senhor Régis. Pode sair.

E assim tudo ficou acertado: Régis reassumiu seu posto de mordomo naquela mansão, embora, meses depois, algumas vezes ainda servisse a sua senhora da maneira antiga – noites despretensiosas na qual nenhum dos dois falava de amor, apenas da necessidades do corpo, que se expressavam e eram saciadas. Na manhã seguinte, Régis voltava a ser o mordomo, e ela, a senhora da casa. 

Regiane sentia-se solitária na escola, já que suas duas melhores amigas há anos tinham deixado a escola, devido a idade, sendo que a mais velha, Dóris, conseguira um casamento e já esperava um filho, e Célia, a mais jovem, passou a morar e trabalhar em casa de família. Ambas ainda escreviam a Regiane algumas vezes, mas cada vez mais raramente. Não era fácil para Regiane fazer novos amigos, pois era demasiadamente desconfiada e reservada. Após o casamento de Dália e Otávio, ainda permaneceu na casa durante um mês, mas logo percebeu que já não fazia mais sentido ficar vivendo ali, atrapalhando a intimidade do casal e gerando despesas a Otávio, embora ele jamais tivesse reclamado. Assim, voltou a viver na escola, e passava cada vez mais tempo no porão, na companhia de Ricardo e seus livros. 

Regiane achava incrível que nenhuma das freiras tivesse percebido para onde ela ia nos momentos de folga, e ela era muito cuidadosa para que não notassem, pois lembrava-se sempre da promessa que havia feito a Ricardo, de jamais revelar sua presença ali. Muitas vezes, arrumava-se nos finais de semana como se estivesse indo passa-los em companhia do pai, mas ao invés de sair pelo portão, entrava no porão e ali ficava até o raiar da segunda-feira. Ricardo passou a estar presente mais vezes, o que fez com que ela se sentisse aliviada. Seu maior medo, era que ele a abandonasse e nunca mais ela viesse a saber dele. Suas investigações a fim de descobrir quem seria a verdadeira mãe de seu amor mostraram-se infrutíferas. Ela não desistira, mas achou melhor esperar e ter mais paciência, pois achava que a verdade acabaria caindo de surpresa em seu colo. 

Numa sexta-feira, após o período de aulas, Irmã Malvina mandou chama-la em sua sala. Apreensiva, Regiane dirigiu-se para lá, cruzando os longos corredores de tábuas corridas, sentindo os olhos das pessoas há muito mortas, nas fotografias,  presos em suas costas enquanto ela passava. Passou pela cristaleira que ela quebrara com um soco de raiva, os vidros já restaurados, e aquilo fez com que ela recordasse dos muitos anos que ela morava naquela escola – quase dez anos. Sabia muito bem que Irmã Malvina ia falar da chegada dos seus dezoito anos (embora fosse completar dezesseis) e do fato de que ela teria que tomar uma decisão: deixar a escola ou tornar-se noviça. Já havia tido aquela conversa com ela antes, e pedira tempo para pensar; na verdade, queria apenas ganhar tempo. 
Regiane bateu à porta levemente, ouvindo a voz rascante da velha freira mandando-a entrar, o que ela fez, e após um sinal com as mãos, mandando que ela se sentasse, Regiane o fez e aguardou em silêncio até que a freira terminasse de examinar alguns documentos. Após alguns minutos que pareceram horas, Irmã Malvina ergueu os olhos para ela:

-Bem, sabemos que daqui a apenas dois meses você completará dezoito anos, e gostaria de saber se já tomou uma decisão quanto ao seu destino nesta escola – ou fora dela. 

Regiane engoliu em seco antes de responder, torcendo as mãos sobre a saia do uniforme:

-Eu acho que não tenho vocação para tornar-me freira, Irmã.

A feira ficou olhando-a, estudando seu rosto. Limpou os óculos na barra da saia, considerando o que  acabara de ouvir, tentando, quem sabe, ver naquela declaração algum tipo de ofensa velada. Após um longo silêncio, concordou com a cabeça:

-Então é melhor conversar com seu pai, pois minha responsabilidade sobre você está terminando. 
Agora pode ir.

Regiane levantou-se rápido demais, aliviada, e após uma mesura, deixou a sala. Correu até o porão, onde contou a Ricardo o que acabara de ocorrer-lhe:

-...E ela pareceu feliz por livrar-se de mim, Ricardo...

Ele pensou um pouco antes de responder, e Regiane percebeu que ele estava ainda mais pálido do que de costume. 

-Acho melhor você fazer o que ela diz.

Regiane considerou:

-Mas... eu não sei o que eu quero! Digo, eu sei o que eu quero, meu destino está ao seu lado, mas você não parece estar disposto a passar o resto de sua vida comigo, mudando sempre de assunto quando começo a falar sobre isso. 

Ricardo apertou-lhe as mãos, beijando-as em seguida:

-Meu anjo, nada há no mundo que eu mais deseje... mesmo assim, acho que você deve falar com seu pai.

-Sobre nós?

Ele levantou-se de um salto:

-Não! Nunca fale sobre mim, combinado? Quero que fale com ele sobre você, sobre seu destino.

Ela respondeu, zangada:

-Bem, ele quer que eu me case, com qualquer um. Qualquer marido, para que eu seja uma moça de família, diferente de minha mãe. Como minha amiga Dália, que se casou sem amor apenas para ter um marido, um homem zelando pela sua reputação. Mas eu não penso assim, acho que uma mulher tem outras coisas interessantes a fazer sem precisar casar-se e ter filhos! A não ser... só me casaria com você.

Ricardo pareceu aborrecido, e decidiu mudar de assunto:

-Veja, Regiane! Um livro que ainda não lemos, estava guardado no fundo da estante... 

Sentou-se na cama, convidando-a  a ficar ao seu lado. Mas Regiane era implacável:

-Papai casou-se de novo, e está feliz. Uma mulher chamada Petra...

-Eu sei, você já me disse. Já pensou em morar com eles?

-Não me sentiria bem morando com uma estranha... e ele passa a semana toda em Niterói, trabalhando. Só vem nos finais de semana e feriados, ou nas férias. 

-Você não gosta de Petra?

-Gosto, mas... é constrangedor. Na verdade, ela até convidou-me para viver com eles, mas eu disse que ia pensar... na verdade, não aceitarei. E Tia Fiorela quer que eu vá para o casarão, mas apenas para tomar conta das crianças... não quero passar minha juventude olhando os filhos dos outros. Gostaria de ter meus próprios filhos.

O rosto de Ricardo entristeceu-se profundamente. Regiane perguntou-lhe:

-O que foi, Ricardo?

-Nada... é que... e se você ficasse aqui na escola, e se ordenasse freira?

-Deus me livre! Não tenho vocação. Para dizer a verdade, não acredito na maioria das coisas que a religião prega! Imagine só, cultuam um Deus que morreu em uma cruz que eles mesmos ergueram, sofreu, foi torturado, e ainda acham-se merecedores de perdão! Os católicos são tão pretenciosos, que acham que mereceriam que um deus se sacrificasse por eles. E que, não importa o que façam, tudo pode ser perdoado se contarem ao padre e rezarem algumas Aves-Marias. E eu simplesmente morro de tédio durante as missas!

-Se uma das irmãs a escutar falar assim, você será expulsa da escola.

Ela riu:

-E o que importa? Logo sairei mesmo...

Ambos riram. Ele a beijou de leve, e ela sentiu um formigamento nos lábios, como se, ao invés de tocá-la, ele tivesse soprado um ar gelado sobre sua boca. Regiane abriu os olhos, em pânico:

-Ricardo, você está frio... e tão pálido! Você está bem?

-Sim, claro. Nunca estive melhor. Mas... vamos ler um pouquinho? Já faz tanto tempo que li esta história!

-É sobre o que?

Ele abraçou-a, aconchegando-a em seu peito.

-É uma história de amor.


.    .    .    .    .    .    .    .    .


Régis estava conversando com a filha. Ambos caminhavam pela avenida Koeller em uma manhã de domingo. Ele tentava, sem sucesso,  ‘colocar um pouco de juízo’ na cabeça da filha, e começou a ficar impaciente:

-Mas onde já se viu? Você não quer ficar na escola, e não quer morar com Petra e comigo... também não aceita viver com suas tias, pois não quer tornar-se babá das priminhas... o que lhe resta, filha? Uma mulher não pode tomar conta de si mesma, e além do mais, onde iria morar? Não tenho condições de pagar uma casa para você. 

Regiane franziu a testa, aborrecida:

-Ora, você mora com Petra... e quando está trabalhando, mora com Madame Fonseca. Antes, precisava alugar um quartinho. Durante um bom tempo, pagou um quartinho para mamãe viver. Por que não pode pagar um para mim?

-Já falamos sobre isso, menina! Mulher direita não mora sozinha. Você precisa achar um marido! Há de viver com suas tias até que encontremos um.

Ela bufou:

-Papai, maridos não se compram em supermercados! Antes, é preciso que haja amor, eu preciso apaixonar-me!

-Bobagem! Amor é coisa de tolos.

-Mas você se apaixonou por Petra, não é?

Ele rendeu-se, sem argumentos:

-Mas eu sou um homem. Eu posso. Posso dar-me ao luxo de viver sozinho e fazer escolhas sem consultar ninguém.

-É... eu sei... e pobre de quem estiver no seu caminho!

Dizendo aquilo, ela acelerou o passo, caminhando adiante dele. Régis deu-se conta do que acabara de dizer, e de que a filha estava coberta de razão. Apressou-se, alcançando-a.

-Desculpe, você está certa... mas estou preocupado com você, Regiane. Daqui a pouco, terá que deixar a escola, e não vejo o que posso fazer por você. 

-Alugue-me um quartinho, pai. Logo estarei trabalhando, e poderei assumir minhas despesas.

Ele quase perdeu a paciência de novo, mas controlou-se. Respirou fundo;

-Regiane, e o que você vai fazer? Será uma empregada doméstica? Uma secretária em meio-expediente, recebendo um pequeno salário? Ou quem sabe, vá trabalhar em uma padaria como balconista? Você não fez o curso normal ainda, então não poderá ser uma professora. É claro que se desejar fazê-lo, eu a ajudarei, mas você terá que morar com suas tias!

-Pai, eu não quero ser professora, tive aulas de inglês comercial na escola, e também nos ensinaram datilografia. Posso trabalhar em um escritório!

-Mas você só tem dezesseis anos!

-Dezoito, pai. Dezoito!

De repente, um pensamento passou a ocupar a cabeça de Régis: será que a filha estava enamorada, e por isso recusava-se a casar-se? E se o rapaz estivesse apenas tentando aproveitar-se da inocência da filha? Lembrou-se dele mesmo na juventude, e um calafrio percorreu sua espinha ao pensar que a filha pudesse estar sendo vitima de algum cafajeste:

-Querida filha... você não deseja casar-se. Fico pensando: será que está apaixonada por alguém?
Regiane sentiu o rosto ficar vermelho e quente, e abanou-se, tirando um leque da bolsa:

-Ora, papai... é claro que não...

Mas Régis conhecia bem a filha, e sabia que tocara em um ponto sensível.

-Filha, diga a verdade! Se estiver apaixonada, quero conhece-lo. É preciso certificar-me de que ele a merece, de que tem boas intenções...

-Pa... papai, o senhor está delirando. Deve ser o sol quente.

Régis quase gritou:

-Mais respeito, Regiane! 

-Desculpe, papai. É que... como eu poderia me apaixonar por alguém, se vivo trancada naquela escola?

Ele pensou, e concordou com a cabeça. Porém, alguma coisa não parecia certa, apesar de toda a lógica no pensamento da filha. 

Após muita conversa, os dois acabaram indo almoçar no casarão. Ao ouvir sobre o dilema da sobrinha, Fiorela decidiu:

-Sem mais torturas e discussões: você virá morar conosco. Entendo que não queira viver no casarão, ninguém é obrigado a gostar de tomar conta de crianças (fui egoísta, me desculpe, Regiane).  Ocupará um quarto na edícula, com Rosa. 

Apesar de adorar a companhia da tia, Regiane preferia viver sozinha no chalé:

-Obrigada, Tia Fiorela, mas eu não poderia viver sozinha no chalé? Está vazio há anos! Papai poderia ajudar-me a pintá-lo, e retiraríamos todas aquelas ripas de madeira dos cômodos, e...
Fiorela arregalou os olhos e ergueu a voz, enquanto todos à mesa balançavam a cabeça diante do ‘absurdo’ da proposta:

-Minha sobrinha está totalmente louca? Como você poderia morar lá em cima sozinha? Subir aquela escadaria todos os dias, ficar isolada no meio daquelas árvores? E quando desse uma tempestade? E se algum louco invadisse o terreno por cima? Não; está fora de cogitação!

Rosa, que gostava de suas horas de solidão quando sentava-se em sua cadeira de balanço para pensar no amor que perdera ou para vê-lo passar na rua,  tentou argumentar:

-Mas pense, Fiorela: o chalé está vazio há muito tempo, e se Regiane fosse morar lá, ele permaneceria bem conservado!

Regiane segurou a mão de Rosa sobre a toalha, dirigindo-lhe um olhar de gratidão:

-Obrigada, tia Rosa!

Mas Fiorela e João passaram a protestar ao mesmo tempo, e num segundo, todos estavam falando ao mesmo tempo, e ninguém entendia nada; finalmente, Régis deu um soco na mesa, e todos se calaram:

-Chega! (e dirigindo-se à filha): Está decidido: ou você vem morar com sua Tia Rosa ou então ficará no convento!

(continua...)




quarta-feira, 23 de março de 2016

O ANJO NO PORÃO – CAPÍTULO XVIII









O ANJO NO PORÃO – CAPÍTULO XVIII



Regiane achou melhor não comentar com ninguém o que lhe aconteceu enquanto estava na colina. Todos notaram que ela estava calada, mas ela respondeu que estava apenas um pouco indisposta. Sentindo-se culpada pela discussão que acontecera mais cedo, Fiorela serviu-lhe uma xícara de chá e convidou-a para passar a noite, mas Regiane disse que precisava voltar para casa, pois Dália não gostava de ficar sozinha. João levou-a de carro, pois já estava escuro, e durante o trajeto, ela não disse palavra, apenas pensando no que acabara de ocorrer.

Nos dias que se seguiram, prestar atenção às aulas era quase impossível, e Regiane precisou estudar com muito afinco a fim de passar nos testes. Felizmente, Ricardo voltara, e a ajudava com as matérias, ela às vezes se perguntava como ele podia saber tantas coisas, e como, apesar da passagem do tempo desde que se conheceram, ele mantinha sempre a mesma aparência. Ela contara a ele sobre o ocorrido, e após ouvi-la com muita atenção, Ricardo disse:

-Você teve uma linda experiência, Regiane. 

Ela ajeitou a saia, levantando-se da cama e caminhando pelo quarto:

-Você acha?

-Mas é claro! Você é médium, não há a menor dúvida.

-Mas... e se tudo não passou de imaginação?

Ele olhou-a profundamente nos olhos, segurando-a pelas mãos:

-Acredite em mim: você é médium, e das melhores. 

Ela riu:

-O que você sabe sobre isso?

-Não muito...mas apenas sei.

-Meu pai gostaria que eu frequentasse suas reuniões espíritas, pois ele acha que se eu for com ele, mamãe aparecerá... na verdade, eu tenho um pouco de medo dessas coisas... não gosto muito de fantasmas... a não ser os que eu conheço. Ah, se as freiras soubessem que eu fui a um lugar daqueles, com certeza me expulsariam da escola! Imagine, a madre Superiora, com toda a sua ‘superioridade’, descobrindo que uma de suas alunas católicas, uma das suas Filhas de Maria, está frequentando reuniões espíritas!

Ele riu, mas seu sorriso era triste.

Os olhos deles pareciam melancólicos. Ele parecia muito triste naqueles últimos meses, desde que começara a se ausentar, e por mais que ela perguntasse, ele jamais dizia aonde ia ou quando iria voltar, deixando-a muito angustiada. Pedia que ela confiasse nele. Regiane não tinha qualquer outra alternativa; restava-lhe ter esperanças e confiar.

No sábado, Regiane e seu pai estavam esperando ansiosamente pela chegada de seus irmãos, Antônio e Pedro, marcada para aquela tarde. Régis lembrava-se da surpresa que tivera ao vê-los pela primeira vez, pois um deles parecia-se muito com ele – apesar de Vicentina ter-lhe jurado que não eram seus filhos. Mal via a hora de estar frente a frente com os rapazes novamente a fim de esclarecer de vez a sua dúvida. 

O trem chegaria à uma da tarde. Apesar da contrariedade demonstrada por Fiorela, João convidara a todos – inclusive Dália e seu noivo Otávio – para almoçarem no casarão. Estavam todos lá, aguardando que Régis chegasse com Regiane e os meninos. Mas a hora da chegada do trem passou, e nada de trem... de repente, os dois começaram a ouvir um burburinho na estação, e pessoas apressadas e preocupadas corriam de uma lado para o outro, carregando papéis, batendo portas, os rostos preocupados e muito aflitos. Outras pessoas que também aguardavam o trem começaram a ficar apreensivas. Regiane sabia que algo errado havia acontecido, e naquele momento, lembrou-se da conversa que tivera com a mãe. Logo, chegaram as más notícias: o trem descarrilhara, matando cinco passageiros e ferindo vários outros.

Ávidos por mais notícias, Régis e Regiane consultaram os funcionários da ferrovia, já atarefados e confusos com tantas perguntas e podendo fornecer tão poucas respostas. No fundo, Regiane desconfiava do que tinha acontecido. Todos queriam a lista de passageiros a fim de saber se seus amigos e entes queridos estavam realmente naquele trem, e se estavam, queriam – ou melhor, exigiam – saber se estavam bem. 

Logo, o funcionário da bilheteria anunciou que se acalmassem, pois os feridos estavam sendo conduzidos ao Hospital Santa Teresa. Regiane e o pai correram para lá, e quando chegaram, havia à porta do hospital uma enorme confusão de macas, ambulâncias, repórteres, pessoas aflitas e curiosos. Régis pensou no quão rapidamente as más notícias se espalhavam! 

Regiane olhava a profusão de feridos que chegavam, tentando adivinhar em seus rostos as feições dos irmãos que nunca vira. Régis telefonou ao casarão avisando do ocorrido, e em poucos minutos, Rosa, João, Dália e Otávio chegaram ao hospital. Fiorela permanecera em casa com as crianças. 
Finalmente, após algumas horas, saiu a lista dos mortos – que subira para doze pessoas. 
Regiane constatou que os nomes de seus irmãos estava entre eles.  Rosa a abraçou, enquanto Régis tentava chegar aos corpos. Com a ajuda de Otávio e João, foram tratar dos papéis, e as mulheres tomaram um táxi para casa. 

Ao abrir a porta e ver as outras tão abatidas, Fiorela imediatamente deduziu o que acontecera. Abraçou a sobrinha, que parecia mortificada – mas que não chorava, apenas fitava o vazio – e tratou de acomodá-la no sofá, servindo-lhe uma pequena dose de licor. Dália passou um braço em volta dos ombros de Regiane, e Rosa segurava-lhe a mão. Apesar de sentir-se amparada pelas tias e pela amiga, Fiorela gostaria de estar nos braços de Ricardo naquele momento. De longe, a pequena Léa olhava aquela cena triste, sem nada entender. De repente, ela aproximou-se da prima, fazendo-lhe uma carícia no rosto. Regiane abraçou-a, chorando finalmente. 

Após algumas horas, Otávio, João e Régis retornaram, avisando que os corpos já estavam sendo preparados para o funeral, que ocorreria na tarde de domingo. Regiane anunciou:

-Quero passar a noite na capela. 

Régis adiantou-se:

-Não, querida... vá para casa com Dália, eu cuido disso.

-Não! São meus irmãos! Eu não vou abrir mão de acompanha-los em seu último dia na terra. Jamais os conheci, mas ansiei e me alegrei pela chegada deles, que se aproximava... agora que chegaram, eu irei recebe-los, mesmo que já não estejam mais aqui.

Régis concordou com a cabeça. Disse:

-Eu ficarei com você. 

E de repente, todos, exceto Fiorela, que teria que ficar cuidando das crianças, partiram para a casa funerária. 

Ao chegarem lá, Regiane, que parara de chorar, aproximou-se dos dois caixões que tinham sido postos lado a lado, e olhou nos rostos estranhos. Meninos ainda... meninos que jamais acordariam. Meninos que tinham uma vida inteira pela frente, e que por uma armadilha do destino, agora teriam pela frente apenas uma longa morte, uma misteriosa morte... ela acariciou seus rostos, e disse-lhes palavras aos ouvidos. Depois, sentou-se junto com os outros, pronta para passar uma das piores noites de sua vida. No dia seguinte, todos estavam exaustos. 

Regiane pensava em Ricardo, e no quanto ela gostaria que ele estivesse ali com ela, mas nem tivera tempo de ir à escola avisá-lo. Algumas das freiras compareceram, mas Irmã Malvina não dera o ar de sua graça – apenas enviara, através de Irmã Dulce, um ramo de flores do jardim: agapantos e rosas em um lindo buquê. Alguns vizinhos também passaram por lá rapidamente, em respeito à família. 

Quase na hora do sepultamento, chegaram os pais adotivos dos meninos. Eles se postaram respeitosamente ao lado dos filhos. A mulher chorava baixinho, amparada pelo marido. Pareciam conformados. Era como se a vida lhes tivesse emprestado aquelas crianças para que fossem felizes durante algum tempo, mas chegara a hora de devolvê-los. 

Súbito, todos os olhares se dirigiram para a porta da capela: era Diana que chegava. Usava um véu preto cobrindo o rosto, mas sua maquiagem pesada, que aparecia sob o véu,  e o corte ousado  de suas roupas, denunciavam que ela não pertencia àquele grupo de pessoas. Régis a reconheceu imediatamente – a cafetina que abrigara Vicentina. Deixou que ela se aproximasse dos caixões e fizesse o sinal da cruz, permanecendo lá por alguns instantes. Depois, ela caminhou até a irmã e o cunhado, abraçando-os. Conversaram por alguns instantes. Todas as pessoas observavam a cena. De longe, ela deu uma boa olhada em Regiane, parecendo reconhece-la. Em seguida, seus olhos pousaram em Régis. Ele a cumprimentou com um aceno de cabeça. Depois, como nada mais tivesse a fazer ali, Diana virou as costas e afastou-se. 

Régis levantou-se, seguindo-a:

-Senhora Diana... espere, por favor!

Ela estancou o passo, sem olhar para trás. Régis tocou-a no antebraço, obrigando-a a olhar para ele:

-Eu preciso saber: um daqueles meninos era meu?

-Ela o encarou com desprezo nos olhos, ironizando-o:

-Vocês homens são sempre tão engraçados! Abandonam suas mulheres à própria sorte após usá-las, e depois fingem preocupar-se com elas ou com o que lhes acontece! Seria um súbito ataque de culpa? Saiba que Vicentina teve seus momentos de felicidade em minha casa, e que se estes meninos sobreviveram, foi porque eu os ajudei. Que direito de paternidade poderia qualquer homem ter sobre eles? E por que preocupar-se com isso, agora que estão mortos?

Régis deixou escapar uma lágrima, que ele secou rapidamente com a manga do casaco:

-Por favor... preciso saber da verdade.

-Não seria melhor se não soubesse?

Dizendo aquilo, ela virou-lhe as costas, afastando-se a passos largos e pesados. Régis ficou parado no corredor, sentindo o peso daquelas palavras reduzirem-no à poeira que estava depositada nas mesas e nos cantos dos rodapés. Em volta, a morte se espalhava. O descuido daquela sala retratava perfeitamente o estado de seu coração. 

Ele jamais ficaria sabendo, oficialmente,  qual dos meninos era seu filho, mas no fundo, ele sabia. Soubera no primeiro momento em que olhou para ele, naquela fazenda.

A vida segue após cada morte. Os vivos tem suas urgências, e precisam atende-las a fim de continuarem vivos. Quando a tampa de um caixão se fecha, fecha-se também um ciclo da vida. Há uma separação definitiva. Um corte. E nem toda a saudade do mundo poderá fazer com que aquela tampa se abra novamente, e que aquela pessoa volte a abrir os olhos e ser quem sempre foi. O que ela se torna após a morte, está nos livros fechados do mistério, e o que ela foi em vida, é pouco a pouco reinventado por aqueles que dela se lembram. Caráteres rascantes vão se tornando doces pouco a pouco; os bêbados tem seus adjetivos trocados por palavras mais amenas, como românticos, boêmios, sonhadores e tristes. As prostitutas passam a ser lembradas como pobres mulheres a quem a  vida não deu o dom da boa sorte. As mães tornam-se santas, não importando que tipo de mães elas foram. As crianças, estas, tornam-se anjos. 

Regiane teria dois anjos velando por ela. Assim disseram-lhe as pessoas, tentando confortá-la. E assim ela passou a pensar nos irmãos. 

Acontecimentos tristes e alegres intercalam-se nos caminhos da vida. Dias após o choro, aquelas pessoas que estavam reunidas em volta dos caixões se reencontraram a fim de celebrar um casamento. Logo estavam todos usando suas melhores roupas e sorrisos, as mulheres com seus vestidos de festa esvoaçantes, os homens vergando ternos novos e bem cortados. Um casamento era celebrado.

A noiva estava linda, pois todas as noivas são sempre lindas. O noivo, feliz, esperava-a no altar, e enquanto ela se aproximava vagarosamente, sendo conduzida por seu primo João, Otávio sentia-se o mais feliz dos homens, e ela, tímida, sonhava com a noite de núpcias na qual descobriria os prazeres do sexo nos braços do seu marido. E nada poderia tirar a magia que estava sobre as coisas naquele momento; nem mesmo o futuro que lhes aguardava, a realidade após o sonho, o marido tornado alcoólatra, que perderia nas mesas do Cassino Quitandinha grande parte do que ganhava. Nada faria com que as fotografias não fossem lindas, e os olhares nelas eternizados emanassem promessas de felicidade a quem quer que as olhasse, mesmo anos depois, retirando-as de caixas de papelão, quando já fossem amareladas e cheirassem a mofo. As imagens sobrepujariam a realidade. Toda vez que a caixa fosse aberta, as pessoas que ficaram no passado invadiriam as salas, os cômodos das casas, os corações das pessoas do presente, que por alguns instantes de magia, sentir-se-iam novamente jovens, cheios de sonhos e de boa vontade. 

Dália guardaria aquela caixa mágica sobre o armário, recorrendo a ela nas noites solitárias em que seu marido estava longe – quem sabe, nos braços de outras mulheres – bebendo, jogando e acabando com o pouco patrimônio que seus pais lhes deixaram. Felizmente, a casa estava em nome dela e eram casados com separação de bens, o que evitou que fossem colocados na rua. Foi-se o pouco dinheiro no banco, suas joias (que ele levava na calada da noite), algumas roupas e objetos valiosos, o salário que ele recebia, e ás vezes, quando ele conseguia encontrar, o salário que ela recebia trabalhando em meio expediente em um consultório médico. E ela apenas sorria, tentando mascarar a realidade aos olhos dos outros, honrando seu marido e sua família exatamente como sua mãe a ensinara a fazer, tudo pelo bem das crianças. Afinal, o casamento era uma instituição sagrada e indissolúvel. 



(continua...)








quinta-feira, 17 de março de 2016

O ANJO NO PORÃO – CAPÍTULO XVII











O ANJO NO PORÃO – CAPÍTULO XVII




Era uma tarde de domingo, e Regiane tinha ido visitar as tias no casarão a fim de contar-lhes a novidade sobre os irmãos recém-descobertos. Fiorela não deixou por menos: ao saber da carta que a sobrinha recebera de São Paulo, informando-a da existência de seus irmãos, ficou apavorada diante da possibilidade de um escândalo, e tentou convencer Regiane de que seria melhor não conhece-los:

-Ora, pense bem, Regiane: estes meninos – como é mesmo que se chamam? Pedro e Antônio, não é? 

– Foram criados longe de você, nunca a viram e você nunca soube deles antes, portanto, não sentiu-lhes a falta; por que remexer neste passado tão confuso e sofrido? Você tem agora quinze anos – oficialmente, dezessete; o que significa que estes meninos tem treze e onze anos hoje, tão mais novos que você... que tipo de amizade poderia surgir daí? Melhor deixar o passado no passado!

Regiane mal podia acreditar no que estava ouvindo, mas não ousou responder a tia. 
Rosa tricotava um casaquinho para a pequena Cléia, e franziu a testa ao escutar a irmã:

-Por que você é sempre tão fria, Fiorela? Você ignoraria a existência de irmãos, caso os descobrisse? 

Eles são a família dela! E se pensarmos bem, também fazem parte da nossa.

-Ora, não diga bobagens! Era só o que me faltava, se nem laços sanguíneos existem entre nós!

-Mas são irmãos de Regiane, nossa sobrinha. Devem ser tratados com consideração. O que você vai fazer, Regiane?

-Já fiz; escrevi-lhes de volta, dizendo que desejo conhece-los. 

Fiorela ergueu a voz:

-Aqui em casa é que eles não entram!

Regiane, que já tinha suportado mais do que podia, finalmente respondeu a tia à altura:

-Não se preocupe, tia Fiorela; eu jamais os traria aqui para serem ofendidos pela senhora. Já conversei com Dália, e ela disse que ficará encantada em recebe-los. A propósito, eles chegam no próximo sábado. 

Rosa largou o bordado, e foi abraçar a sobrinha:

-Oh, que bom, querida! Estou tão feliz por você. Quem irá trazê-los?

-Irão de trem a Niterói, sozinhos, e papai irá busca-los na estação e os trará até Petrópolis. Mal posso esperar para conhecer meus irmãos! 

Fiorela fez uma expressão de escárnio, encolheu os ombros e deixou a sala pisando duro, levando a pequena Cléia no colo. Léa, que estivera por ali escutando a conversa dos adultos, perguntou:

-Prima Giane, posso ir também? Quero conhecer seus irmãos, porque eles são meus priminhos! 

Regiane riu baixinho:

-Adoraria leva-la, prima, mas se sua mãe descobrir, ela nos mata! Imagine só: você, a princesinha da casa, conhecendo os primos-ralé...

Rosa ralhou com Regiane:

-Não fale assim com ela, Regiane. Ela não entende sua ironia. Não seja como a sua tia!

Regiane pediu desculpas, e mudou de assunto:

-O casamento de Dália será daqui a dois meses. Preciso de um vestido! E tem que ser bonito, pois ela me convidou para ser a madrinha. Você acha que papai me dará um?

-Tenho certeza que sim, querida. E eu faço questão de bordá-lo. Posso usar fios prateados na pala... ficará lindo!

-Obrigada, tia! Vou adorar!

-E quem será o padrinho?

-Acho que um dos irmãos de Otávio... estranho, o irmão do noivo como padrinho... mas acho que é porque eles não conhecem mais ninguém por aqui. Otávio é de Curitiba, mora aqui há pouco tempo (apenas um ano) e não é muito sociável... parece muito tímido.

Naquele momento, Fiorela entra na sala novamente. Tinha colocado a pequena para dormir um pouco.

-Bem, espero que seu pai tenha a decência de dar a você um vestido à altura! Não quero que Dália sinta-se envergonhada.

-Pode deixar, tia Fiorela. Não vou envergonhar sua querida prima, mesmo sabendo que se ela me convidou, é porque gosta de mim, e não se importa com a roupa que eu irei usar. Nem todo mundo é igual a senhora. De qualquer forma, caso papai não possa me dar um vestido, tenho certeza de que posso contar com sua bondade, a fim de não envergonharmos a pobre Dália.

Rosa cobriu a boca com a mão e deixou escapar uma risada abafada, deixando Fiorela ainda mais enfezada:

-Você está muito respondona, menina! Vou falar com o seu pai. Ele precisa ensiná-la a ter bons modos! E se eu tiver que vesti-la para  a ocasião, tratarei de reformar um de meus vestidos antigos para você. 

-Prefiro ir nua!

Dizendo aquilo, Regiane deixou a sala, indo em direção ao seu refúgio no alto da colina. Subiu as escadas escutando a voz de sua tia Fiorela, que não parava de ranhetar, e quando chegou ao topo das escadas, percebeu, aliviada, que já não mais podia escutá-la. 

Sentou-se em um velho banquinho sob os pessegueiros, que estavam floridos e espalhavam uma rede cor-de-rosa perfumada sobre sua cabeça. Podia ver a torre da catedral, e o céu perfeitamente azul. Sempre sentia-se em paz ali, e lamentava que o pedido que fizera a Fiorela há alguns dias não tivesse sido atendido: deixa-la morar no chalé após o casamento de Dália – não faria sentido ficar vivendo na mesma casa que o jovem casal, embora eles tivesse dito a ela que ela seria sempre bem vinda enquanto precisasse . A tia achou o pedido totalmente absurdo: “Onde já se viu, uma moça morar sozinha em um lugar tão ermo? Talvez, depois que você se casar...” 

Regiane sabia que, no fundo, a tia tinha razão. Ela teria medo de viver naquele chalé sozinha à noite, embora adorasse ficar ali durante o dia. Tia Fiorela era rabugenta e mau humorada, mas no fundo, era boa pessoa e preocupava-se com todos. No fundo, seu pedido tinha sido feito apenas para implicar com a tia. 

Ela estava envolta em seus pensamentos: o casamento de Dália, que se aproximava, o vestido, a chegada dos irmãos, Ricardo... Ainda não tinha desistido de descobrir quem seria a mãe de Ricardo. Embora escutasse as conversas das freiras na escola sempre que podia, fingindo que não estava prestando atenção, elas nunca mencionavam o rapaz que vivia no porão. Certa vez, escondera-se atrás do órgão da igreja a fim de tentar ouvir a confissão das freiras, mas nem assim ela conseguiu escutar alguma coisa que dissesse respeito a Ricardo. Mas Regiane não desistiria.

Ricardo não parecia na escola há quase duas semanas, e ela sentia um desespero enorme por não vê-lo mais. Ele prometera-lhe voltar, e aquela era sua única tábua de salvação. À noite, antes de dormir, Regiane pensava nele, querendo sentir suas mãos sempre tão frias e macias sobre seu corpo. Envergonhava-se daquelas sensações – as freiras diziam que meninas direitas não pensavam em tais coisas e guardavam-se para seus maridos – mas ela tinha certeza que Ricardo seria seu marido, então que mal poderia haver? Estavam adiantando as coisas, isso era certo, mas tinham nascido para pertencerem um ao outro. Regiane nem conseguia pensar na possibilidade de ficar com outro homem. Só de pensar, sentia horror. 

Regiane foi trazida de volta ao momento presente através de uma ventania mais forte, que derrubou em seu colo muitas flores de pessegueiro. Encantada, ela as colheu uma a uma, colocando-as no cabelo. Ao mesmo tempo, ela sentia que as mãos que enfeitavam seus cabelos com as flores não eram suas; eram mãos leves, como se fossem de vento. Regiane sentiu uma presença atrás de si, uma presença doce e maravilhosa, mas ela sabia que se tentasse voltar-se para vê-la, ela desapareceria. Deixou-se ficar assim, totalmente imóvel, absorvendo aquela presença tão querida: Vicentina, sua mãe! Ela a penteava com as mãos, fazendo-lhe uma trança frouxa entremeada de flores de pessegueiro. Junto com o vento, chegou-lhe aos ouvidos uma canção do passado, que ela ouvira muitas vezes quando era pequenina, um bebê ainda: uma canção de ninar cantada por uma voz querida e muito conhecida, que tinha o poder de acalmá-la e fazê-la adormecer, espantando os monstros e clareando a escuridão da noite. Ouviu-a sussurrar em seus ouvidos:

-Filha querida... estou sempre com você... 

-Mãe!

-Sim! Me escute, não posso ficar muito tempo... assim, feche seus olhos e poderá me ver melhor.

E Regiane conseguiu vislumbrar, de olhos fechados, sua mãe, envolta por uma névoa esbranquiçada que escondia-lhe a parte inferior do corpo. A pele alva brilhava, como se estivesse orvalhada. 

-Você terá que ser forte, filha. Não se preocupe, pois tudo ficará bem... eu estou bem. Todos ficam bem.

Regiane pode sentir o toque dos dedos de sua mãe em seu couro cabeludo, e seus dedos eram frios, porém, macios. Ela sentiu um arrepio leve, como um pequeno choque.

A brisa deixou de soprar, e ela abriu os olhos: Vicentina se fora. Regiane ficou sentada durante algum tempo, tentando absorver tudo aquilo; teria sido imaginação? Não, fora real demais! E sua mãe lhe falara, pedindo que fosse forte. Mas por que? Para quem? Ela teve um pressentimento ruim, apesar de toda a beleza daquele momento. Será que sua mãe lhe falava de Ricardo? Teria acontecido alguma coisa a ele... ou quem sabe, ao seu pai, que estava em Niterói? Ela deixou escapar um pequeno grito, e levou a mão à boca para contê-lo. Olhou em volta: começava a escurecer. Os pessegueiros projetavam sombras no telhado do chalé abandonado, tornando-o surreal.

(continua...)












segunda-feira, 14 de março de 2016

O ANJO NO PORÃO – CAPÍTULO XVI







O ANJO NO PORÃO – CAPÍTULO XVI



Regiane pediu licença para ir ao banheiro durante a aula de Irmã Teresa. Disse não estar se sentindo bem. Há vários dias procurava por Ricardo, mas não o encontrava. Sua angústia crescera tanto, que sentia os braços dormentes a maior parte do tempo. Mal comia, pois não conseguia engolir, e à noite, não conseguia dormir, revirando-se na cama até que finalmente, percorria descalça os corredores escuros e vazios indo parar no porão, a procura dele. Não o encontrava, e deitava-se na cama onde ambos tinham se amado e, agarrada a um dos livros de Ricardo, chorava por ele. Estava cada vez mais pálida, magra e com aparência cansada, olheiras profundas e lábios caídos numa máscara de tristeza. Morria de medo de nunca mais vê-lo. 

E de repente, ele voltava, sem nunca dizer para onde tinha ido, ou se voltaria novamente. E quando ele voltava, sua vida ganhava forças novamente, e os dias voltavam a ser belos, e suas notas na escola melhoravam, e seu sorriso voltava também, junto com ele. Ela jamais se preocupava em evitar ficar grávida (Regiane já sabia de onde vinham os bebês, pois ele próprio a ensinara); sabia que só ficaria grávida quando ela e Ricardo estivessem casados, morando na tão sonhada casinha branca. A vida lhes sorriria. 

E de repente, ele sumia durante períodos cada vez mais longos. Ela precisava saber onde ele estava, aonde ele ia naquelas horas! 

E foi assim que ela pensou que precisava descobrir quem era a mãe de Ricardo, pois somente ela poderia ter aquela informação. Durante as aulas, tentava olhar para as freiras tentando ver semelhanças entre elas e seu amor. Mas sabia que precisava ser cuidadosa, pois se ela se enganasse, estaria arriscando a permanência de Ricardo naquela escola, revelando sua presença indevidamente e traindo seu segredo. Assim, ela apena observava, e pensava...

Dois dias após a morte de Margarida, Dália perguntou a Regiane se ela iria mudar-se para sua casa. Sentia-se muito só. Assim, Regiane fez suas malas e despediu-se de Ricardo entre lágrimas, prometendo-lhe que entre eles nada mudaria, pois ela estaria na escola todos os dias. Ele tentou mostrar a Regiane que estava feliz por ela. E estava; mas também estava triste, pois sabia que um dia, teriam que despedir-se de verdade, e aquele dia se aproximava, cravando aos poucos as unhas em suas costas como um animal de rapina. 

Na casa de Dália, onde Regiane pode ter seu próprio quarto (passou a ocupar o quarto da falecida Teresa; Dália insistiu que ela não era obrigada a dormir ali, podendo dividir o quarto com ela, mas Regiane não se importava). Apenas trocaram o colchão, a colcha e as cortinas, pintaram elas mesmas as paredes do quarto de azul, fizeram uma boa limpeza e colocaram um vaso de flores sobre a mesinha de cabeceira. Regiane sentiu que aquilo era o mais próximo que ela já tinha estado de um lar de verdade! Ali, sentia-se muito bem-vinda sempre. Dália a tratava como a uma irmã. As duas passavam muitas horas conversando. Às vezes, Regiane tinha vontade de falar-lhe sobre Ricardo, mas resistia à tentação apenas pela promessa que fizera a ele; mas cada vez mais, a língua coçava, a ansiedade chegava até a ponta do abismo... mas ela a recolhia, e calava-se. Certa vez, Dália 
perguntou-lhe:

-Você nunca teve um namorado, Regiane?

Ela sorriu e mentiu, encolhendo os ombros:

-Não...

-Nunca foi beijada?

-Não... mas por que pergunta?

-Ora... você já tem dezessete anos, e está na hora de pensar em casar! Logo estará com dezoito. 

-Bem, na verdade, você sabe que eu tenho quinze... ainda é cedo para pensar nessas coisas.

-Mas... nos seus documentos, você tem dezessete,  é isso que importa.

-Ainda não estou pronta! Prefiro ficar para titia do que me casar com qualquer um sem amor, só por casar!

Elas ficaram em silêncio durante algum tempo, e Regiane indagou:

-Você ama o Otávio?

-Bem... ele é um bom partido, filho de boa família, trabalhador, tem saúde. E é um pão!

Regiane riu:

-Sim, concordo com você, mas... esta não foi a minha pergunta: você ama o Otávio, Dália?

Dália refletiu por um momento antes de responder:

-Aprenderei a amá-lo! Já gosto muito dele, ele é muito bom para mim, é responsável e muito galanteador... e respeitador também! Será um ótimo pai para meus filhos. É tudo o que uma mulher pode querer!

-Quer dizer que vocês nunca?...

-Dália ficou vermelha:

-É claro que não! Essas coisas uma mulher direita só faz depois de casar!

Dália percebeu o quanto tinha sido indelicada (conhecia a história de vida da mãe de Regiane) e desculpou-se, constrangida:

-Eu sinto muito, eu não quis ofendê-la, querida.

-Eu sei! Não se preocupe. Mas você em disse que ele é tudo o que uma mulher pode querer; mas ele é o homem do seus sonhos? Você está apaixonada por ele?

-Dália caminhou até a janela, debruçando-se por um pouco de tempo antes de responder:

-Minha mãe dizia que quando se casou com meu pai, não o amava, mas aprendeu a amá-lo. Ele era um homem bom, e a tratava com carinho e respeito. Ela me ensinou que uma mulher precisa encontrar um bom homem, e ao encontra-lo, casar-se com ele. Precisa ser uma boa esposa, mãe e dona-de-casa dedicada. Este é o papel de uma mulher na sociedade. Ela também me disse que a paixão só faz as pessoas perderem a cabeça, e contou-me de uma amiga que se perdeu por causa de uma paixão. Ficou com a reputação arruinada, e nunca mais arranjou marido. 

-Como a minha mãe?

-Eu não quis dizer isso, Regiane...

-Mas é a verdade. Foi o que aconteceu à minha mãe. Quando penso nela, eu às vezes sinto muita raiva de meu pai. E dos pais dela, meus avós, que nunca conheci, só vi passar na rua. E das minhas tias, que nunca a ajudaram, e não me acolheram depois que ela morreu.

Dália aproximou-se e sentou-se ao lado de Regiane, segurando sua mão:

-Querida, a raiva e o ressentimento são coisas horríveis que a gente não deve alimentar! As pessoas erram. Todos erramos. É preciso perdoar e seguir em frente, pois se formos eliminar e odiar todo mundo nas nossas vidas pelos erros que cometeram, acabaremos totalmente sós! E a vida é tão curta!
-Engraçado, você me dizer isso. Uma pessoa já me disse a mesma coisa, há algum tempo.

-Quem?

-Um amigo. 

-Você quer dizer um amigo? Um homem?

Regiane percebeu que despertara suspeitas na amiga, e mentiu a fim de desconversar:

-Sim, mas já não o encontro mais... ele costumava ir à escola quando visitava a irmã, aos domingos, mas ela foi embora, e ele nunca mais voltou. Foi há mais de um ano... mas Dália, você é tão boa! Gosto muito de você e fico feliz que tenha aparecido em minha vida. E gosto muito de Otávio também. Vocês vão ser muito felizes juntos. 

Dália concordou com a cabeça, mas alguma coisa dentro dela estava diferente após aquela conversa. Muitos anos depois, enquanto ela esperava Otávio chegar em casa em uma das noites nas quais ele saía sem dizer aonde ia, ela lembrou-se daquele dia, e daquela conversa. E manteve-se forte, sem fazer perguntas, pois aprendera que era a mulher a responsável pela manutenção do casamento, pelo bem dela mesma, dos filhos e da sociedade, e que por isso, deveria evitar fazer perguntas demais ao homem ou questionar seus motivos. Uma mulher verdadeira, uma boa esposa, acatava as vontades do marido e ignorava seus defeitos. E foi assim que ela ensinou suas filhas a se portarem, lembrando-as sempre que o amor era uma coisa que surgia coma convivência, com o tempo. Porém, ela nunca aprendeu a amar o marido, como pensava que aconteceria com o tempo. Olhava para ele, enquanto ele lia o jornal, ignorando a presença dela, e via nele o retrato do próprio pai. Via em sua vida a vida da própria mãe. Agora, só agora, ela compreendia. Só esperava não ter o mesmo fim que a mãe tivera.

Mas o dia de seu casamento foi lindo, e inesquecível! 
Vestido de cauda que caía em volta dos pés como se fosse um glacê de cetim perolado... grinalda de flores brancas e véu comprido, que após a chegada da noiva ao altar, esticava-se até a porta da igreja. O buquê de rosas brancas e flores de laranjeira, símbolo de sua pureza, que ela guardara para entregar ao homem que a desposara. O Grande Dia inesquecível, o mais feliz de sua vida, a fotografia sobre o aparador da lareira para a qual ela olhava todas as noites, lembrando, e se perguntando o que teria sido de sua vida se...


.     .     .     .     .     .     .


Um mês após sua mudança para a casa de Dália, Regiane recebeu uma carta, que foi-lhe entregue por uma das freiras da escola, Irmã Catarina, a que era responsável pelas correspondências. Ela percebeu que a mesma tinha sido aberta, e pelo olhar da freira ao entrega-la, viu que ela fora a pessoa que a tinha lido... mas o que fazer? A freira percebeu seu olhar de desgosto, e comentou:

-Carta vinda de remetente masculino precisa ser fiscalizada, para sua própria proteção.
Regiane nunca recebera uma carta antes. Cheirava o papel, passava os dedos sobre os selos. Estava morta de curiosidade para abri-la, mas queria fazê-lo na presença de Ricardo. Esperaria até o dia seguinte, após as aulas. Colocou-a sob o travesseiro e ficou pensando quem seriam aquelas pessoas que lhe escreviam – Pedro e Antônio.

No dia seguinte, ela mal pode prestar atenção às aulas, e Irmã Teresa chamou sua atenção várias vezes. Acabou ficando de castigo por trinta minutos no final da aula, quando todas se foram para o refeitório. Trazia a carta no bolso da saia, o papel farfalhando ao roçar contra o tecido e incitando sua curiosidade. Finalmente, cumpriu sua punição e teve licença para retirar-se e almoçar, o que ela fez rapidamente, mal engolindo a comida.

Ao chegar ao porão, bateu à porta e Ricardo mandou que ela entrasse:

-Veja, Ricardo! Recebi uma carta! Queria que você a lesse comigo.

Ele a abraçou, olhando a carta que ela entregou a ele e dizendo:

-Ora, será que tenho um rival?

Ambos sentaram-se lado a lado sobre a cama, e ele começou a leitura:

“São Paulo, 23 de agosto de...

Cara Srta. Regiane,

Esperamos que esta lhe encontre em perfeita saúde. 
Somos Antônio e Pedro, vossos irmãos. Acho que a senhorita não sabe da nossa existência. Nossa mãe biológica, Vicentina Leme, não podendo tomar conta de nós, mandou-nos para esta fazenda onde fomos adotados por um maravilhoso casal que cuidou de nós e nos tratou como filhos legítimos, adotando-nos. A senhorita, disseram-nos nossos pais, era ainda muito pequena quando tudo isso aconteceu, e talvez nunca tenha ouvido falar de nós; porém, sendo nossa irmã por parte de mãe, gostaríamos de conhece-la. Nós temos 
Seu genitor, o senhor Régis Costa, esteve aqui na fazenda acompanhando sua patroa, madame Fonseca, ocasião em que nós o conhecemos e ficamos sabendo de sua existência. Ficamos muito curiosos e ansiosos para saber se estás bem. Se for de vossa vontade conhecer-nos, por favor, responda-nos esta carta, e ficaremos muito felizes. Pretendemos fazer-lhe uma visita em sua cidade assim que pudermos.
Sem mais para o momento, nos despedimos carinhosamente, e assinamos:

Antônio e Pedro Figueiredo,

Vossos irmãos.”


Enquanto escutava a leitura, vinham à memória de Regiane cenas imprecisas de sua mãe com uma grande barriga passando diante de seu berço. Cenas que ela jamais lembraria, não fosse aquela carta, pois era muito pequena ainda quando aqueles fatos se deram. Ficou muito feliz, e lágrimas vieram-lhe aos olhos:

-Eu... afinal, eu tenho irmãos, uma família, Ricardo!

Ele sorriu:

-Parece que sim, Regiane. Vai responder a carta? 

-Sim, imediatamente! Você me ajuda?

Ele hesitou:

-Não sei se posso... preciso ...

Ele se levantou da cama, ficando de costas para ela:

-Eu não sei se estarei por aqui nos próximos dias... talvez nas próximas semanas...

Regiane caminhou até ele, obrigando-o a olhá-la de frente:

-Você não ficou feliz, quero dizer, não gostou que eu tenha irmãos?

-Não, não é nada disso... é que eu terei que ficar ausente durante algum tempo...

-Mas... para onde vai? Por que?...

-Eu não posso dizer ainda, mas prometo que voltarei assim que puder. Você não vive dizendo que eu preciso sair daqui um pouco, tomar sol...

-Sim, mas... por que não pode me dizer aonde vai? Por que?
-Regiane, querida... há coisas que não posso contar a você, e preciso que me entenda e confie em mim... 

Ela novamente sentiu o fantasma de um segredo sobrepondo-se entre eles.

-É alguma coisa com sua mãe, não é? Ela descobriu sobre nós?

-Não... ela...

-Ricardo, quem é sua mãe?

-Eu já disse, é uma das freiras...

-Mas qual delas?

-Não me pressione, Regiane, por favor. Não posso dizer, preciso protegê-la de um escândalo.

-Não confia em mim? E pede que eu confie em você? Se sua mãe o amasse, não o obrigaria a passar a vida dentro deste porão!

Ele tornou-se ainda mais pálido, a respiração alterada:

-Não diga isso! Não fale de coisas que não sabe! Não seja leviana.

Ao ouvir aquela palavra saindo da boca de seu amor, Regiane sentiu-se como quem leva um soco no rosto. Ela sentiu a face esquentar, e as lágrimas turvaram sua visão. Virou as costas e saiu do porão, sem olhar para trás.

Estava decidida: descobriria quem era a mãe de Ricardo, de uma vez por todas, e acabaria com todo aquele mistério que só os separava. Estava tão aborrecida, que se esquecera da carta por um momento. Pediria a Irmã Dulce que a ajudasse a responde-la. 


(continua...)





sábado, 12 de março de 2016

O ANJO NO PORÃO - CAPÍTULO XV









O ANJO NO PORÃO – CAPÍTULO XV




Numa manhã de domingo, Rosa chegou aos portões da escola, pedindo para ter com a sobrinha. Regiane, surpresa (as tias quase nunca a visitavam) pensou que algo pudesse ter acontecido ao pai. Aflita, ao receber a notícia de que a tia a esperava no jardim, saiu correndo pelos corredores da escola. Ao chegar diante de sua tia, ela estancou:

-Tia! A senhora por aqui? Papai está bem?

Rosa sorriu:

-Sim, querida, não se preocupe. Estou aqui porque queria leva-la a um lugar. Desejo que conheça alguém.

Regiane pegou o vestido de passeio e o sobretudo que a tia trouxera para ela, e após trocar-se no dormitório, ambas saíram de braços dados na manhã nublada e fria de domingo. Após caminharem durante algum tempo, chegaram à subida do bairro Duchas, e subiram a ruazinha úmida de paralelos. Regiane notou que havia Impatients brancas ao longo do caminho, e achou-as lindas. Rosa explicou que aquelas flores gostavam de pouco sol e muita umidade. Pararam para descansar um pouco antes de terminarem de subir a ladeira, e a menina quis saber:

-A quem vamos visitar, tia?

-Quero que conheça uma pessoa que está de volta à cidade após viver algum tempo estudando no Rio de Janeiro. É filha de uma prima nossa. O nome dela é Dália. Precisou voltar para cuidar da mãe, que está muito doente, e não pretende voltar para o Rio, pois está noiva e vai casar-se daqui a alguns meses. Dália é órfã de pai, e como sabe do estado terminal da mãe, gostaria de alguém que a acompanhasse, pois não deseja ficar sozinha na casa. Falei de você, e ela ficou muito contente. 

-Mas... ainda não terminei meus estudos!

-Bem, você pode terminar como aluna externa! E passar a viver com ela... mas só se você quiser. 
Regiane olhou em volta e gostou daquela ruazinha florida, com poucas casas e muitas árvores, fria e cheirando a ciprestes. Ao mesmo tempo, pensou em seu querido Ricardo; seria capaz de ficar longe dele? Mas... continuando na escola, ainda poderia vê-lo, e quem sabe, ele pudesse visita-la aos domingos?

Chegaram à casa – uma residência branca de janelas cinzentas, simples mas bem-cuidada, que ficava no meio de um pequeno jardim. Não havia cercas, e um caminho de pedras conduzia da calçada à porta. Ao caminhar por aquela trilha pela primeira vez, mesmo antes de chegarem á porta, Regiane sabia que ainda faria aquilo muitas e muitas vezes. 

Uma moça de olhar tristonho, olhos escuros e nariz um pouco grande, abriu a porta e mandou que elas entrassem. Mal colocou os pés dentro da casa, ambas sentiram o odor ativo de formol, álcool e remédios. Rosa fez as apresentações, e o olhar triste de Dália fez com que Regiane se entristecesse também. Regiane logo percebeu que Dália, mais velha que ela, não era uma moça bonita, mas gostou dela imediatamente. Ambas ficariam amigas ao longo de toda a vida, mas naquele instante, elas não sabiam disso. Dália preparou um café com biscoitos, que elas comeram à mesa da cozinha, sendo observadas por cães pequineses. A porta dos fundos aberta dava para uma área de serviço, onde havia um viveiro grande, cheio de periquitos. Regiane sentiu pena deles por estrem engaiolados, mesmo sendo bem-tratados. 

Após o café, Rosa tocou no assunto que as trouxera ali.

-Bem, Dália... Regiane vai formar-se na escola, e precisa dar um rumo à sua vida quando sair de lá. Você está precisando de companhia... 

Dália entusiasmou-se:

-Oh, se ela quiser, pode mudar-se hoje mesmo! 

Regiane sorriu:

-Sim, eu quero, gostaria muito de morar aqui, mas.. se você não se importar, quero primeiro terminar o semestre na escola, Dália. Tenho um... ou melhor, uma a miga que me ajuda muito nos estudos, e preciso muito dela, estou tendo dificuldades em uma das matérias. 

Dália aquiesceu:

-Mas é claro, Regiane, eu entendo. 

Depois do café, foram ao quarto da doente a fim de conhece-la. Seu nome era Margarida. Regiane ficou com muita pena dela, pois sabia que estava sofrendo muito. Margarida, que estava muito fraca, ficou contente ao saber que a filha teria companhia até casar-se, e disse ter gostado muito de Regiane:

-Agora posso ir mais tranquila. 

-Não diga isso, mamãe! A senhora ainda vai viver muito...

Margarida tossiu:

-Nós duas sabemos que não, minha filha... eu estou no fim... mas quero que você esteja feliz e segura...

Dizendo aquilo, Margarida mergulhou em sono profundo. Dália tocou-lhe o pescoço com os dedos e viu que ainda respirava. Aliviada, fez sinal para que saíssem do quarto em silêncio. No corredor, explicou:

-Ela agora fica assim, dorme a maior parte do tempo. Parece que está se desligando...

-O que ela tem, Dália?

-Ela tem a doença ruim. Já se espalhou pelo corpo todo. O médico disse que é uma questão de poucos meses, quem sabe, dias... (ela enxugou uma lágrima).

-Eu sinto muito... meu pai é rezador. Se quiser, peço a ele que venha. Pode trazer algum alívio para ela!

-Obrigada, Regiane. Ele já esteve aqui. Ele vem todo final de semana, desde que soube que ela estava doente. Engraçado... quando ele vem, e reza por ela, impondo as mãos, ela fica mais calma, e diz que sente menos dor. Mistérios de Deus!

Regiane percebeu que ela também tinha sido criada em colégio de freiras, como ela.

-Onde você estuda?

-Eu estudo no Colégio Nossa Senhora da Ajuda, no Rio de Janeiro... digo, estudava. Quando mamãe ficou viúva, mandou-me para lá, pois precisava trabalhar e não podia ficar comigo.

-Que coincidência! Já estive lá duas vezes, e não nos vimos.

-É uma escola muito grande.

-Você era interna?

-Sim. Mas vinha para casa nas férias, e foi assim que conheci Otávio, meu noivo. Vamos nos casar daqui a alguns meses. E você? Tem um namorado?

Regiane corou, baixando os olhos e pensando em Ricardo:

-Não... não saio daquela escola, como poderia?

Rosa, satisfeita, percebia a amizade que estava nascendo entre as duas. Teve uma ideia:

-Que tal se ficássemos para o almoço? Eu poderia preparar uma massa! Você tem trigo e ovos?

-Sim, claro! Ah, que bom, prima Rosa! Eu ia comer um sanduíche... a mamãe só toma sopa bem líquida. Não gosto de cozinhar só para mim.

E foram todas para a cozinha. Rosa e Regiane cuidavam do preparo da massa, que foi esticada em um varal improvisado com barbante na cozinha, e Dália descascava os tomates para o molho. Tiveram uma tarde agradável, até que, após o almoço, Margarida sentiu-se mal e Dália precisou virá-la de bruços para cuidar de suas feridas. Rosa e Regiane ofereceram-lhe ajuda, mas Regiane não estava preparada para o que ia ver: as costas da mulher estavam todas cobertas de feridas tão profundas, que o osso aparecia em alguns pontos. Pacientemente, Dália lavou os ferimentos e cobriu-os com pó de sulfa. Deixou-os respirar um pouco, e então voltou a por gazes limpas. Regiane, que não aguentou ficar no quarto, esperou-as na sala, e chorava copiosamente. Nunca pensara que alguém pudesse ficar naquela situação, como se apodrecesse em vida. Jamais se esqueceria do cheiro adocicado de decomposição que sentira – o mesmo exalado por sua falecida mãe, cujos ferimentos ela nunca vira, e cujo sofrimento ela finalmente compreendeu naquele instante. 

De volta à escola, correu ao porão para contar as novidades, mas não encontrou Ricardo. Regiane estava triste e alegre ao mesmo tempo. À noite, quando suas duas amigas voltaram, contou-lhes que iria morar em uma casa. Elas a olharam, a princípio com um pouco de inveja, e depois, ficaram felizes por ela.

Regiane só conseguiu encontrar Ricardo quase uma semana depois, no sábado à noite. Escapou do dormitório já bem tarde, aproveitando que poderia dormir mais algumas horas na manhã de domingo. Percorreu descalça os corredores, a fim de não fazer nenhum barulho. Cruzou o pátio iluminado pela luz do luar, sentindo o frio da noite. Assustou-se com os olhos brilhantes de um dos gatos, e depois, riu de si mesma. Entrou no porão e bateu à porta do quartinho, e uma luz se acendeu. Ele a abriu.

-Ricardo, você sumiu! Eu tive tanto medo!

Eles se abraçaram com força. Ela percebeu que o rapaz parecia triste. 
-O que aconteceu? Por onde esteve, e por que tem sumido assim?
Ele sentou-se na cama, em frente a ela, que ocupou a poltrona, jogando as pernas e os pés descalços sobre o braço da mesma. Ricardo parecia ainda mais branco do que antes. Ela temeu que ele estivesse doente.

-Eu ... talvez eu precise ir embora, minha amiga. 

O coração de Regiane deu um salto, e ela levantou-se bruscamente da poltrona, indo sentar-se ao lado dele, tomando-lhe as mãos geladas entre as suas:

-Não! Eu ... eu... me leve com você!

Ele sorriu tristemente:

-Fiquei sabendo que você também já tem planos, e que vai partir também.

-Mas... não é agora, é só daqui a alguns meses, e vou continuar estudando aqui. Vamos nos ver sempre, eu prometo! Ricardo, eu jamais deixaria você... 

Um silêncio cortado pelo pio agourento de uma coruja lá fora. As batidas do coração dela totalmente descompassadas, tanto, que ela sentia vontade de tossir. As mãos dele mexeram-se entre as dela, as palmas virando-se para apertar seus dedos. Eles se deixaram fica ali, em silêncio, os dedos entrelaçados e os corações cheios de medo e ansiedade pelos caminhos curvos e paralelos que a vida estava lhes propondo.  Ela murmurou:

-Não importa o que aconteça, eu nunca vou deixar você.
Ele disse, um tom de tristeza profunda na voz:

-Regiane... você não sabe o que está dizendo. Às vezes precisamos fazer coisas que não queremos fazer, porque não há outro jeito, não é uma escolha que temos. 

-Mas, olha, me escute, eu...

-Eu tenho que ir embora, menininha. Não posso mais ficar aqui, não posso passar a minha existência toda aqui!

-Mas você não vai!... Logo estarei morando em uma casa, e você poderá ir visitar-me; poderá ter um emprego, e nós vamos nos casar, e moraremos juntos, e teremos muitos filhos... 

Ele soltou as mãos dela, caminhando até o outro lado do quarto. Encostou-se à parede. Uma angústia sem medidas e uma batalha que ele jamais venceria o atormentavam. Ela percebeu. Havia uma coisa que ele não podia dizer a ela. Finalmente, o segredo que o mantinha sempre a um passo dela, estava a ponto de deixá-los a tantos passos de distância um do outro, que talvez não houvessem no mundo passos suficientes que os reaproximariam. 

Ela decidiu fazer a sua última tentativa de conservá-lo perto; ergueu-se, e foi até ele estava, parando diante dele. A frase que ela finalmente compreendeu que poderia expressar seus sentimentos confusos por ele escapou-lhe da garganta num sussurro: 

-Eu amo você!

Eles se abraçaram num ímpeto de paixão e desespero. E ele murmurou, de encontro aos cabelos dela, a mesma frase. 

Aconteceu, naquele momento, o primeiro beijo. Sem planejamentos ou ensaios, sem ter sido sequer sonhado antes, foi simplesmente natural que as bocas se encontrassem e selassem aquela verdade. E naturalmente, as mãos dele percorreram devagar o corpo dela, nu e solto sob o tecido grosseiro da camisola larga, que escorregou pelas suas pernas, enquanto sensações totalmente novas, estranhas e maravilhosas a percorriam. As mãos dela acariciaram a nuca e os ombros, vagarosamente, descendo para o peito, a cintura e os quadris. Ela não sabia mais como ir adiante. Não tinha ideia do que deveria fazer. Ele parecia preso no mesmo impasse. Então, beijaram-se novamente. E o beijo sussurrou-lhes o restante do caminho que eles percorreram devagar, pausadamente, saboreando cada sensação nova e estranhamente maravilhosa. 

A primeira luz da manhã encontrou-os entrelaçados na cama, os corpos tão próximos, que nem mesmo um fio de palha poderia estar entre eles. Regiane sentiu que mesmo entre seus braços, e no calor das cobertas, o corpo dele era quase frio. Mesmo assim, era um arrepio que ela amava sentir. E por amar senti-lo, ela o beijou novamente, e eles repetiram os encantos daquela madrugada.

Quando ela acordou, estava sozinha. Um misto de alegria e tristeza, amor e dor, fizeram com que ela tivesse certeza de alguma coisa nela estava irremediavelmente diferente, e que a Regiane que conhecia tinha desaparecido naquele quarto, dando lugar à outra que ela ainda precisava conhecer, mas da qual ela já sentia que gostava mais. 
Ele voltou lá de fora, trazendo nas mãos algumas frutas que ofereceu a ela. Não as comeu, porém. Ficou observando-a enquanto ela matava sua fome , e depois que ela terminou, ele lembrou-a de que ela precisava ir. Não podiam correr o risco de serem encontrados ali. mas Regiane sentiu um medo percorrer-lhe  a espinha:

-Mas você estará aqui quando eu voltar?

Ele olhou para ela muito sério:

-Tenha certeza de que eu sempre estarei aqui para você, meu amor, minha querida, mesmo que você nunca me veja de novo. Eu sempre estarei aqui, com você, para você e em você. 

-Não!... Não fale assim, me dá um medo enorme... eu não sei porque, mas me dá um medo enorme ouvi-lo falar assim, Ricardo. Quero que me prometa que estará aqui sempre, até que possamos determinar nosso caminho juntos, lá fora!

Ele sorriu:

-Desculpe, não queria assustá-la... eu prometo que estarei por aqui sempre.

-Até a próxima vez?

-Até a próxima vez.

-E a próxima, e a próxima?...

Ele beijou-a de novo.

-E a próxima, e a próxima. Para sempre. Com você.

.     .     .     .     .     .

Régis continuava tentando manter contato com Vicentina em vários centros espíritas, mas sem obter qualquer sucesso. Chegava às vezes de madrugada. Madame Fonseca o esperava chegar com um bule de chá, e de camisola. Às vezes passavam a noite juntos, e a paixão era intensa, mas ela percebia que nunca seria como a mulher-fantasma que ele tanto procurava. 

E foi numa noite que Vicentina lhe veio, enquanto ele dormia. Ele se viu em um lugar que não conhecia, uma casa no alto de uma colina solitária, de onde se via apenas montanhas e mais montanhas azuladas sob um céu pesado e cinzento. O vento soprava em rajadas que passavam por ele assoviando. Régis estava ainda atordoado, se perguntando como tinha ido parar naquele lugar, quando escutou um farfalhar de saias atrás de si, a ao virar-se, deparou com Vicentina de pé junto dele. Após recuperar-se do susto, pode reparar nela com mais cuidado.

Vicentina não estava mais doente. Usava  um vestido negro e longo, e tinha os cabelos soltos sobre as costas. Nunca a vira tão bonita! A pele, muito branca, denunciava sua condição de fantasma, mas ao mesmo tempo, apesar de tão diferente do que ele se lembrava dela em vida, era a mesma Vicentina de sempre, a que ele tantas vezes amara, enganara e abandonara. A mãe de sua filha. Régis percebeu que só podia tratar-se de um sonho, e prestou bastante atenção aos detalhes. Ela usava um par de brincos de pedras azuis, que pendiam quase até os ombros, e estava descalça. Em volta de um dos braços, havia uma pulseira cravejada de pedras iguais às dos brincos. Ele pode perceber o quanto eram bonitas e brilhavam naquele cenário fosco e tristonho. 

Ela lhe falou, e a voz dela sobrepôs-se ao ruído inclemente do vento: 

-Por que você me procura, Régis? O que quer de mim?


Ele ficou procurando pela resposta certa, e descobriu que não a tinha. Ela mesma respondeu:

-Você sente culpa pelo que me aconteceu. Mas saiba que a culpa é mais minha do que sua. Fui eu que segui meus instintos ao invés de pensar. Eu poderia ter resistido a você.  Eu poderia ter escolhido outro caminho. 

Ele sentiu as lágrimas começarem a rolar, e então, jorrar de seus olhos.

-Mas eu a abandonei, Vicentina... eu a deixei só com uma criança... e depois a deixei novamente naquele bordel onde você precisou trabalhar para sustentar a nossa filha... não há perdão para mim. 

-Chore, Régis, e depois tente dar seguimento à sua vida. 

-Eu perdi a mulher dos meus sonhos! Só quando era tarde demais eu compreendi que você, Vicentina, era a mulher certa para mim!

-A mulher certa para você não sou eu, Régis. Nunca fui eu. Mas ela estará usando estes brincos e esta pulseira quando você a encontrar. Agora... ACORDE!

Com um sobressalto, Régis acordou, sentando-se na cama, coberto de suor. Estava em seu quarto, na mansão. Tentou lembrar-se do sonho, que anotou em um caderno com todos os detalhes. 

Estranhamente, não havia mais a angústia que por tantos anos ele carregara em seus ombros. Sentia-se leve. Não havia mais culpas ou arrependimentos. Régis entendeu que fizera aquilo que sabia fazer, aquilo para o qual sua alma estava evoluída e preparada para fazer naquele momento de sua vida, e teve certeza de que, se naquele momento estivesse passando pela mesma coisa, teria agido de outra forma. Sentiu que amadurecera muito naqueles anos. Mas mais ainda em uma só noite. 


(CONTINUA...)





A MÃO E O LAÇO – CAPÍTULO VII

Fiquei esperando, os olhos presos em Drica, especialmente nos lábios dela, que pareciam pronunciar palavras absurdas enquanto e...