terça-feira, 14 de maio de 2019

Inocência - Parte I - Capítulo XIX







CIÚMES

Não foi difícil conseguir namorar Fernando. Ele era louco por mim. Nós nos conhecíamos desde os tempos de escola – ele era o menino por quem eu pensara estar apaixonada quando era mais jovem. Hoje, quando penso nele, me arrependo de tê-lo usado para fazer ciúmes em Duílio, pois Fernando era um rapaz maravilhoso, e bonito também.

Nós começamos a ‘namorar sério’ após um mês, e Fernando começou a frequentar a minha casa e os jantares com meus pais. Em alguns deles, Duílio esteve presente, e notei que ele se sentia um tanto embaraçado quando eu flertava com ele na frente de todos – inclusive, de Fernando. Ninguém jamais percebeu minhas investidas, pois meus pais jamais imaginariam que eu estivesse apaixonada por “Tio” Duílio, ou que tivéssemos quase chegado às vias de fato algumas vezes. Para eles, eu ainda era a filha inocente, a caçula, e nada mais.

Após aqueles jantares, eu me jogava em cima de Duílio depois que Fernando saía. Certa vez, esperei que meus pais fossem dormir (ele estava passando a noite em nossa casa) e fui até o quarto de hóspedes, que ficava no primeiro andar da casa. Aquela era a primeira vez que me atrevia a fazer aquilo, com meus pais dormindo no andar de cima. Entrei sem bater, e deitei-me ao seu lado. Duílio estava profundamente adormecido. Deixei-me ficar ali, desfrutando da presença dele durante algum tempo, me imaginando como sua esposa, dormindo ao lado dele, como um casal normal. Depois, atrevida, descansei meu braço sobre o abdômen dele, deitando a cabeça em seu peito. Aos poucos, passei a minha perna em volta das pernas dele, abraçando-o com mais força.

Duílio despertou, e assustou-se. Eu disse a ele que fizesse silêncio, ou meus pais acordariam e veriam a cena. Quando penso naquela noite, vejo o quanto fui atrevida, infantil e inconveniente. Duílio tentou, aos sussurros, me colocar para fora do quarto, mas eu me recusei a sair, dizendo que só iria embora depois que ele me desse o que eu queria. Ele me chamou de louca, dizendo que aquilo era um absurdo. Sentei-me na cama, e disse a ele que se ele não me abraçasse, eu gritaria. Que já não me importava mais que todos ficassem sabendo.

Ele se recusou e eu dei uma imitação de um pequeno grito, leve, mas ouvimos ruídos no andar de cima, e vozes abafadas. Ficamos em silêncio, sem nos movermos, até que o ruído terminasse. Ele me chamou de louca mais uma vez. Perguntou-me por Fernando: o que eu pensava dele? Por que o estava namorando? Respondi que ele já sabia, já tinha a resposta. Duílio, que estivera de pé junto à porta, e andando de um lado ao outro do quarto, voltou para a cama, sentando-se ao meu lado. Perguntei a ele se ele não sentia nada por mim: 

-Se você disser, com todas as letras, que não sente nada por mim, eu nunca mais vou perturbar você.

Ele ficou calado durante muito tempo. Depois, me olhou e disse:

-Eu não posso, Yara. Não me pergunte porque, mas eu não posso dar a você o que procura. Estou dividido. Não acho justo, não é certo.

-Você tem outra mulher?

Meu coração quase parou ao ouvir a resposta:

-Sim, tenho. E estou apaixonado por ela.

-Mas você disse que está dividido! Entre ela e eu?

Ele concordou com a cabeça.

-Mas se você dá a ela o que não dá a mim, não é justo! Como pode saber o que quer, se não tiver comigo o que tem com ela? Precisa me dar uma chance, Duílio! Precisa me amar! E então, se depois disso você resolver que é a ela que você quer, eu juro que me afasto, e nunca mais me aproximo de você desta forma. Só quero ter os mesmos direitos que ela, as mesmas chances...

-Mas você é virgem! Não quero prejudicá-la!

Levantei da cama, impaciente:

-Seu excesso de pudor me enfurece! Já tenho dezenove anos e sei o que quero. Se ainda sou virgem, é porque estou me guardando para você!

Comecei a chorar, me sentindo humilhada e impotente. Os soluços me sacudiam. Minha vida era uma mentira: namorava um rapaz de quem eu não gostava, e com quem jamais me casaria. Duílio passou um braço em volta de mim, me puxando para perto dele:

-Yara, minha Yara… não queria que você sofresse.

-Então me dê o seu amor! Nem que seja só por esta noite, para que eu tenha algo que eu possa lembrar… quero que a minha primeira vez seja com você, Duílio.

-Não é justo… aqui, não… não podemos fazer isso sob o mesmo teto ocupado por seus pais, Yara!

-Que seja no inferno, então. Ou no céu. Não me importo.

Ele me disse então que iria embora no dia seguinte, mas que alugaria um quarto de hotel no Rio de Janeiro. E que assim que ele chegasse lá, e preparasse tudo, entraria em contato comigo. Mandaria um táxi me buscar. Dizendo aquilo, ele me beijou demoradamente. Nós nos tocamos de novo, e foi muito intenso. Ainda ficamos juntos quase até o amanhecer, e saí dali exultante, de volta ao meu quarto.

Eu procurava limitar meus encontros com Fernando aos finais de semana, pois apesar de gostar de estar ao lado dele como amigo, não sentia nada profundo por ele. Não o amava. Alegava que durante a semana eu me sentia cansada por causa do trabalho. Eu tinha começado a trabalhar como datilógrafa em um escritório na parte da tarde, além de lecionar de manhã, e tinha meu próprio dinheiro, mesmo que papai insistisse em continuar me dando uma mesada, e por isso, tudo o que eu ganhava com meu trabalho, colocava em uma caderneta de poupança – principal fonte de investimento dos anos setenta.

Fernando era doce e gentil. Às vezes, ele tentava avançar o sinal comigo, mas eu o repelia, dizendo que só faria aquilo depois de estar casada, o que era uma grande mentira: eu só queria fazer aquilo com o homem que eu realmente amava. Ele considerava a minha decisão uma forma de mostrar decência, e aquiescia. Achava que eu estava me guardando para nosso momento mais importante, e nem sequer imaginava que eu jamais estaria casada com ele. Nunca tivera aquela intenção. E quando Fernando me pediu em noivado, eu fiquei estarrecida. Não esperava por aquilo.

Estávamos namorando há apenas oito meses. Eu tinha acabado de completar dezenove anos, e pretendia fazer faculdade de Letras. Mamãe achava aquilo uma bobagem, pois para ela, o intuito de uma mulher deveria ser casar-se e constituir família. Ter filhos e cuidar de uma casa – e do marido. Quando eu disse a ela a minha intenção, quase tivemos uma briga. Mas papai apoiou a minha decisão.

Eu disse a Fernando que pensaria sobre o nosso noivado, que conversaria com meus pais. Na verdade, fui conversar com Duílio.

Dois dias depois que ficamos juntos na casa de meus pais, ele me telefonou no escritório. Não tínhamos permissão para receber telefonemas, mas uma colega me substituiu e conseguiu me passar a ligação, me dizendo que fosse rápida. Ele queria que eu fosse estar com ele naquela mesma tarde. Mandaria o táxi para me buscar na hora do almoço, e eu deveria voltar para casa no início daquela noite. Desliguei o telefone, indo até o escritório do meu chefe  dizendo que minha avó adoecera, e que eu deveria visitá-la no hospital naquela mesma manhã, antes o almoço. Ele me liberou do trabalho, e ainda me desejou boa sorte.

Entrei no táxi, e meu coração estava aos pulos durante todo o percurso. Duas horas depois, chegava ao hotel onde Duílio estava me esperando. Saí do táxi, e logo o vi à porta, e ele veio me receber. Entramos no elevador do Copacabana Palace e subimos em silêncio até o sexto andar, entre pessoas estranhas que falavam alemão. Nós nos olhávamos sem parar, sem conseguirmos disfarçar a nossa ansiedade. Diante da porta do quarto, ele me perguntou se era aquilo mesmo que eu queria, e eu respondi com um beijo.

Aquelas três horas que passamos juntos foram as melhores de toda a minha vida! Dei-me a ele como jamais me entreguei a nenhum outro homem – nem mesmo ao meu marido, anos depois. Nós fizemos amor várias vezes, e foi melhor a cada vez. Duílio me amou apaixonadamente, loucamente, Às vezes, se esquecendo da doçura e tornando-se quase selvagem. Eu o correspondia da mesma forma, às vezes sendo doce, e em outras, tão selvagem quanto ele. Nunca havia pensado que poderia ser tão bom. E nunca mais seria. Nós tínhamos sede um do outro, e bebemos um do outro várias vezes, com muita intensidade, e a sede só aumentava. Fizemos de tudo – inclusive, quando pedi a ele que fizesse comigo o que eu tinha visto Cristina e Marcelo fazerem naquela tarde, ele me deitou atravessada na cama, ficando de joelhos sobre o carpete, e fez aquilo comigo até que eu finalmente pedisse a ele que parasse. Depois, eu pedi a ele que me deixasse retribuir. Após um momento de hesitação, ele me deixou fazer o que eu queria, e foi maravilhoso ver o rosto dele, seus olhos se fechando, sua cabeça sendo jogada para trás, até que ele me ergueu de repente pelos braços e deitou-se sobre mim. Foi maravilhoso ouvir o meu nome sendo repetidamente sussurrado em meu ouvido enquanto o amor da minha vida se entregava totalmente a mim, e me dava tudo de si.

Ao final daquele dia, enquanto voltava de táxi para casa sozinha, minha cabeça rodava, e uma nova Yara nascia; uma Yara mulher, totalmente mulher, que sabia o que queria e estava disposta a fazer de tudo para alcançar. Cumpri a minha promessa de não dizer nada aos meus pais ainda, prometendo esperar até que ele resolvesse a sua situação com a outra mulher com quem estava saindo, mas algo me dizia que aquele sonho era grande demais para mim, e que eu deveria me entregar e aproveitá-lo ao máximo, pois uma felicidade tão grande deveria ser proibida, e logo teria fim. No táxi, eu deslizava a minha própria mão sobre o meu ventre, e me tocava de leve nos ombros, repetindo o caminho que as mãos dele tinham feito há apenas alguns minutos, e eu respirava profundamente, sentindo os resquícios do perfume dele sobre a minha pele. Deparei com o olhar curioso do motorista através do espelho retrovisor, e colocando meus óculos escuros, me contive.

Eu era Lolita, eu era a Bonequinha de Luxo (tinha me fantasiado de Audrey Hepburn para aquela tarde, prendendo meu cabelo como o dela no filme), com um toque de Barbarella. Eu era a mulher perfeita. Nenhuma outra mulher no mundo seria tão amada quanto eu.

Chegando em casa, corri para o meu quarto e arranquei os sapatos, pulando na cama e me sentando de pernas cruzadas, pensando que eu adoraria que Cristina estivesse ali, pois ela era a única pessoa para quem eu poderia contar o que tinha me acontecido e que me ouviria sem julgamentos, sentindo-se feliz por mim. Adoraria dizer a ela o quanto eu não era mais virgem, o quanto eu derrubara as convenções e burlara todas as regras.

Batidas na porta interromperam meus pensamentos; era mamãe. Ela colocou a cabeça para dentro:

-Posso entrar?

(continua...)





6 comentários:

  1. Um bonito e interessante texto!!:)

    Beijos. Boa noite!

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  2. Querida Ana! que linda história de amor, que embora o ciúme tente afastar, segue forte cada vez mais. leio e já com vontade de seguir acompanhando a história. parabéns! grata pela visita, seja muito feliz.

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  3. Bom dia, linda historia sobre quem soube procurar a felicidade, o amor de mulher é mesmo assim.
    AG

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  4. I so love your story, Ana!
    I have just been catching up, between all my medical appointments.
    This is such a beautiful love story...😊😊 xxx

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