segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

O ELEFANTE BRANCO – PARTE VIII - FINAL








Alana caminhou para perto de Rubens, e de braços cruzados, passou a rodeá-lo, como quem observa um objeto curioso e ao mesmo tempo, desprezível. Mercedes tinha medo dele, e estava abraçada à Iris. 
Alana chegou bem perto de Rubens, e disse bem próximo ao seu ouvido:

-O que você fez, Rubens?

Ele começou a contar sua história, como se não houvesse ninguém mais no cômodo:

-Fiz tudo como estava escrito no livro, depois que ela morreu. Matei sete pessoas para trazê-la de volta, seguindo exatamente as instruções do livro e o tempo indicado entre a primeira morte e as outras.  Pensando que ela ficaria feliz em passar a eternidade junto a mim, na casa de praia... poderíamos ser felizes ali... antes que ela se fosse, passei anos preparando aquele lugar para nós dois... está tudo perfeito... e ela deveria esperar por mim lá... mas o menino... eu tinha me esquecido dele.

Eles não perceberam que havia outras presenças dentro do cômodo, a não ser Rubens, que  continuou seu relato, enquanto policiais cercavam-no vagarosamente, vendo sua fala como uma confissão:

- Eu mesmo matei o bastardo... o marido de Barbara. Um imbecil que não fez falta a ninguém. Anos depois, chamei-o aqui... (ele olhou brevemente para trás, na direção de Alana). Seu marido Mario. Um telefonema, e ele veio correndo, movido pela ambição, achando que poderia fazer-lhes uma surpresa ao levar notícias da casa que herdaram.  Barbara - ainda estava viva, mas ele não sabia deste detalhe... (Rubens olhou para Mercedes e Caio) Depois, quando os pais deles saíram, foram os garotos. Em seguida, um entregador da loja de materiais de construção. Este foi meu maior erro, eu... me precipitei. Deveria saber que alguém procuraria por ele... e então... você e sua filha histérica. Eu levaria seus corpos hoje lá para baixo, para finalizar o ritual. E então... ela me aparece aqui, dizendo que não quer ficar... que deseja ir para longe, ser livre, sair desta casa e deste lugar... quer ir embora com o menino, mesmo sabendo que não poderei seguí-la!

De repente, Alana sentiu um puxão forte em seu corpo, e soube que eram duas pessoas  vivas passando através dela. A sensação tinha sido horrível, e como não gostaria de repeti-la, ela encostou-se em uma parede. Eram dois policiais, que algemaram Rubens. Iris acenou as duas mãos na frente deles, mas eles não a viram. Ela riu, divertida. Enquanto Rubens passava por eles, Caio gritou:

-E nossos pais? O que fez com eles?

-Eles estão bem. Estão vivos. Estão em casa. Descobriram tudo, ao procurá-los recentemente na casa de pedra.

Os policiais se entreolharam, e um deles girou o dedo indicador junto à lateral da cabeça, enquanto o outro ria, mas as outras pessoas dentro do cômodo nem sequer perceberam, só viam Rubens se afastando como se estivesse sendo puxado para trás e para fora da casa.

.   .   .    .   .   .   .   .   .   .   .   .  .   .   .   .   .   .   .   .   .   .   .   .   .

Na casa de pedra da praia, que ficava próxima ao mar onde as ondas quebravam com força, eles foram viver. Passavam as manhãs e as tardes caminhando junto ao mar, sentindo a leveza do vento em seus rostos etéreos e esperando. 

Esperavam por um dia que certamente chegaria, e os libertaria a todos daquele paraíso solitário. Mario juntou-se a eles. Passavam tardes inteiras sentados em cadeiras junto à praia, e assistiam ao pôr do sol juntos. Iris e Mercedes sabiam que estavam destinadas a se encontrarem novamente depois daquela passagem entre vidas, e que tinham uma história para viver juntas. Mas Iris também sentia-se da mesma forma em relação a Caio, que apaixonara-se por Alana, que dividia seu amor entre ele e Mario.  

Porém, naquele lugar, não havia espaço para preconceitos, ciúmes ou convenções sociais. Tudo o que sabiam, é que haveria uma outra vida para viverem, e que estariam juntos nela. Havia uma nova história a ser construída. Mas quem decidiria o rumo daquela história, e quem ficaria com quem, era algo com o qual não precisavam se preocupar naquele momento. 

Os pais de Caio e Mercedes sabiam e sentiam que seus filhos viviam ali perto, e frequentemente, recebiam sinais da presença deles. Eles tomariam conta daquele lugar e deles até o dia em que finalmente, juntar-se iam aos seus filhos, quando então todos eles seriam livres para cumprirem seus destinos. A casa na praia, que era feita de pedras sólidas, ainda ficaria ali durante muitos e muitos anos, olhando o mar, e em um futuro distante,  eles voltariam até ela em seus sonhos. Só que não poderiam lembrar-se dela quando estivessem acordados. 

Os anos foram passando, e finalmente, eles se reuniram. Ficou uma grande casa branca abandonada, quase em ruínas, no alto de uma colina de onde se podia ver uma paisagem bela e melancólica. Apenas os sons do vento e das ondas quebrando na praia lá em baixo eram ouvidos – parecia que o tempo, de alguma forma, havia sido congelado naquele lugar. Os novos compradores ficaram muito tempo admirando o estranho desenho na parede, até que deram ordens ao pintor para removê-lo, e ele foi totalmente raspado.

Dentro da floresta, havia uma outra casa – um chalé abandonado – onde também existia um desenho muito parecido com o primeiro. E ele permaneceu ali, até que o tempo tratasse de cobrir as paredes e o chão com a vegetação da floresta, e a chuva derrubasse o telhado. Logo, havia animais vivendo entre as ruínas, e pássaros abrigando-se no que restara de seus madeiramentos e nichos. Porém, a parede com o desenho ainda estava de pé. O portal ainda existia. 

Do outro lado deste, uma fileira de criaturas perdidas aguardava pacientemente. Às vezes, alguns deles conseguiam atravessá-lo. 




FIM







domingo, 19 de fevereiro de 2017

O ELEFANTE BRANCO - PARTE VII








O rosto de Rubens transformou-se em uma máscara de dor, e ele correu escadas acima, gritando:

-Não! O que você está fazendo aqui? Você não deveria!...

Alana e Iris se abraçaram, gritando de pavor, enquanto Mercedes e Caio, os rostos lívidos e fascinados, olhavam a cena que se desenvolvia no topo das escadas, onde Rubens, de joelhos diante do fantasma – seria um fantasma? – de 
Bárbara, chorava copiosamente. 

Iris e Alana, de mãos dadas, deixaram a sala, indo para o lado de fora. Mãe e filha tentavam decidir o que fazer, ou para onde ir para que pudessem estar ambas a salvo daquele circo de horrores onde tudo parecia tão absurdamente estranho e perigoso. Iris sentia medo dos novos amigos, e Alana tentava se acalmar, enquanto levava a filha para a edícula. 

Chegando lá, Alana trancou a porta, e Iris sentou-se à mesa da cozinha:

-Mãe, que diabos é isso? É bem pior do que nos filmes de horror que eu gosto de assistir!

-Não sei, filha, preciso pensar... mas... eu vi seu pai, eu realmente o vi, e ele ficou bem ali (ela apontou para um ponto próximo à porta de entrada da cozinha), me olhando! E depois saiu pela porta, eu o vi descer a colina e desaparecer na praia lá em baixo! Não imaginei essas coisas... eu sei o que vi.

Alana sentou-se na frente da filha, segurando-lhe as mãos:

-Nós temos que descobrir o que está acontecendo aqui, Iris.

-Já eu acho que temos que dar o fora desse lugar o quanto antes!

-E vamos para onde, me diga? Esta casa é minha! É a única coisa que temos para recomeçar as nossas vidas! E se... e se Caio e Mercedes estiverem certos? E seu eu morrer ao sairmos daqui?

-Mãe, você não vai me dizer que acreditou naquela história!

Alana calou-se, e caminhou até a pia. Olhou pela janela da cozinha, sem responder. Iris entendeu:

-Mãe! Você acredita neles?

-Não sei... preciso pensar.

Naquele instante, bateram à porta da cozinha, e Iris gritou:

-Deem o fora daqui!

A voz de Caio respondeu, aflita:

-Por favor, deixe a gente entrar... eu sei que tudo isso é muito estranho, mas nós estamos tão assustados quanto vocês!

Iris respirou fundo, e levantou-se, abrindo a porta. Caio e Mercedes entraram apressadamente. Iris perguntou:

-Onde está Rubens?

Mercedes respondeu:

-Ficou lá na outra casa. Com Barbara. 

Iris sacudiu a cabeça, não acreditando naquilo tudo:

-Olha, desde o início, eu achei que havia alguma coisa errada com vocês dois. Por que estão fazendo isso com a gente? É pela casa, estão interessados nela para seus rituais de magia? Vocês são ricos, e podem comprá-la de nós, e nós estaríamos muito felizes em poder vendê-la para vocês e dar o fora daqui. 
Caio caminhou até Alana, que continuava de pé junto à pia, olhado pela janela, e fez com que ela se virasse para ele:

-Alana, você precisa acreditar em mim! Eu... nós jamais faríamos qualquer coisa para machucar vocês. Estamos presos aqui também. 

Alana perguntou, a voz fria:

-Onde.estão.seus.pais. E eu quero  a verdade. 

Caio respirou fundo, os braços esticados junto ao corpo, numa atitude de desânimo:

-Eu já disse, mamãe enlouqueceu e fugiu; papai foi atrás dela, e desde então, não tivemos mais notícias. 

-Você sabia que existem telefones? Que existe a polícia? Por que não deram parte do desaparecimento deles até hoje?

-Porque...

Mercedes interrompeu-o:

-Porque nós não podemos.

Iris berrou, erguendo-se da cadeira:

-Por que não???

Caio e Mercedes se entreolharam, e ele foi para perto da irmã. Um silêncio gelado dominou-os por alguns segundos, enquanto o grito de Iris ainda rebatia-se entre seus ouvidos. Mercedes abriu a boca, mas ficou em silêncio, talvez decidindo se deveria ou não dizer o que estava em sua mente. A voz de Caio, que apertou a mão da irmã, saiu quase inaudível:

-Porque nós achamos... nós achamos que também estamos mortos. 

Alana correu para longe deles, agarrando a filha:

-Vocês estão é loucos! Como pude acreditar, por um instante que...

Mercedes interrompeu-a:

-Por favor, nós... escutem a gente...

Iris, mais calma, pediu a Alana que os escutasse:

-Mãe, vamos ouvir o que eles têm para dizer. Afinal, acho que não temos outra saída.

Alana concordou com a cabeça, após hesitar por um instante, e Mercedes continuou:

-Nós não conseguimos nos lembrar o que aconteceu depois que papai foi atrás de nossa mãe. Por mais que tentemos, não conseguimos.

Ela chorava, e parecia estar sendo sincera. 

-Tudo o que sabemos, é que fomos à cidade um dia, e apesar de falarmos com as pessoas, elas passavam por nós e não nos respondiam, como se não estivessem nos enxergando. Nós gritávamos, mas elas nem notavam que estávamos ali. Tudo era muito estranho. E nós então... voltamos para casa... e toda vez que vamos à cidade, a mesma coisa acontece!

Alana tentou soar racional:

-Olha, Mercedes... eu e Iris podemos ver vocês muito bem, e tocá-los! É claro que vocês estão vivos, e bem... vocês estão respirando! Vocês estão aqui, de pé, falando conosco... só precisam de ajuda!

Caio interferiu:

-Mas nós tentamos conseguir ajuda, e ninguém nos escutou! Vocês são as únicas pessoas, em meses, que falam conosco... além de Rubens.

Iris disse, a voz tremida;

-Rubens! Se ele os enxerga também então... será que ele...

Mercedes tocou os dedos nos lábios, pedindo silêncio. Seu olhar era quase desesperado, e ela murmurou:

-Por favor, ele não pode nos ouvir. Nós achamos que ele tem algo a ver com ... com o desaparecimento dos nossos pais, e com... a nossa possível morte. 

Achamos que ele os impediu de voltarem para cá.

Alana coçou o queixo, sussurrando:

-Quanto a isso, não sei de nada, mas sempre achei que ele talvez pudesse ter matado o marido de tia Barbara. 

Mercedes concordou com ela:

-Também pensamos assim!

Iris perguntou:

-Por que vocês acham isso?

-Porque ele queria ser o dono dos segredos deste lugar! – Mercedes respondeu. –

Ele queria trazer Barbara de volta, talvez.

-Mas... quem trouxe vocês de volta, e por que a mesma pessoa não traz os seus pais de volta, então?

Mercedes sentou-se à mesa, desanimada:

-Nós não sabemos...

Caio exclamou:

-E ontem, quando cheguei aqui, e vi Alana ferida e apavorada, eu temi pela vida dela...

Alana tentou rir:

-Bem, mas pelo menos eu não estou morta; mortos não sangram, e eu me cortei com um caco da xícara quebrada e sangrei.

Ninguém riu. 

De repente, Caio caminhou até a gaveta do armário da cozinha. A cena parecia estar em câmera lenta. Alana viu quando ele abriu a gaveta e pegou uma faca grande. Todos os olhos se arregalaram. Tudo aconteceu rápido demais depois daquilo, enquanto Mercedes erguia-se da cadeira, derrubando-a, as mãos direcionadas para o irmão, o grito de pânico que saiu da garganta dela ao constatar o que ele estava para fazer; Iris tampou os olhos, ficando abaixada em um canto da cozinha, e Alana só conseguiu ficar olhando a cena toda, fascinada, e de repente olhou para o ponto onde tinha ferido a perna e viu que não havia mais nenhuma cicatriz ou curativo. 

Caio pegou a faca, e fechando os olhos, enterrou-a com força no próprio braço, e todos gritaram. 

Ao mesmo tempo, ele ergueu a faca em direção à própria irmã, que encolheu-se apavorada, mas a mesma coisa aconteceu: ou seja; nada aconteceu.

Iris abriu os olhos, erguendo-se devagar. Mercedes e Alana estavam de olhos arregalados, enquanto caio esfaqueava-se, e nenhum sangue jorrava, nem havia qualquer expressão de dor em seu rosto.

Levada por uma ideia repentina, Alana subiu correndo as escadas que davam para os quartos onde dormiam ela e a filha. 

Havia duas pessoas ocupando-os, os rostos cobertos pelos cobertores. Num instante, Iris, Caio e Mercedes estavam ali, junto dela, parados no corredor, olhando para as portas abertas e para as formas cobertas nas camas. Ele caminhou até uma das camas, e ergueu o cobertor de uma vez só. 
Mercedes fez a mesma coisa no outro quarto, em frente ao primeiro, onde Iris 
dormia. 

Alana e Iris olhavam para elas mesmas, muito pálidas, e tentavam se acostumar com a imagem delas mesmas e de seus corpos mortos. Nas mesinhas de cabeceira, as xícaras de chá que Alana preparara na noite anterior. Elas entenderam que haviam sido envenenadas, e que tinham morrido enquanto dormiam, embora não conseguissem se lembrar de nada. 

Todos desceram as escadas, e acabaram-se os gritos. Em silêncio, eles tentavam digerir tudo o que estava acontecendo. 

Saber-se morta, pensava Alana, não era muito diferente de estar viva. De repente, ela compreendeu que todas as suas preocupações a respeito do futuro terminavam ali. Iris quebrou o silêncio:

-Então é isso. Estamos todos mortos. Eu estou morta. E ninguém vai nos encontrar, porque ninguém se atreve a vir a esta casa. 

Mercedes ergueu os ombros:

-E que diferença faria? Continuaríamos mortos. Só não entendo por que nós estamos aqui, e meus pais não estão. Por que não podemos vê-los, ou falar com eles. E por que não encontramos os nossos corpos, como vocês encontraram os de vocês? Por que não conseguimos nos lembrar de nada?

Socos fortes na porta fizeram com que todos erguessem as cabeças. Era Rubens. Alana abriu a porta, destemida, pois sabia que não havia nenhum mal que ele pudesse causar-lhes. Ele entrou, o rosto carrancudo de sempre. Os olhos estavam injetados, e todos compreenderam que ele andara chorando. Ele caminhou até o outro lado da cozinha, pondo-se de costas para todos. E os ombros de Rubens começaram a sacudir-se cada vez mais fortemente, enquanto seu choro desesperado saía, em soluços entrecortados. 

Todos ficaram observando-o, e aguardando. Ninguém conseguia sentir piedade pelo sofrimento dele, o que parecia ser instintivo. Finalmente, ele falou:

-De nada adiantou... ela quer ir embora. De nada adiantou... ela me pediu para deixa-la ir. Ela prefere ficar com o menino... o filho!

(continua)




sábado, 11 de fevereiro de 2017

O ELEFANTE BRANCO - PARTE VI








O Elefante Branco – Parte VI

-Você nunca desceu até a praia? – perguntou Mercedes, demonstrando surpresa; elas estavam sentadas no chão da casa maior, os rostos sujos de tinta branca, observando o quarto recém-pintado por elas. Tinham terminado o trabalho daquela tarde. 

-Nunca – respondeu Iris. – Morro de medo de altura. Quando olho lá para baixo, fico tonta. Enjoada.

Mercedes riu:

-Ora... é seguro descer pelo penhasco. Tem até um caminhozinho, escadinhas de cimento... algumas estão quebradas, mas dá pé. É seguro.

-E o que tem lá embaixo?

Ela ficou séria por uma questão de segundos, que não passaram despercebidos a 
Iris, que pegava no ar todas as nuances. Mas logo disse, em tom perfeitamente normal.

-Nada... só uma praia. Como todas as outras. 

Iris não comprou a história:

-Tem certeza? Só uma praia?

Mercedes se levantou, limpando as mãos nos bolsos traseiros da calça jeans surrada:

-E uma casa velha.

Iris deu uma gargalhada:

-O que??? Outra casa velha?

-Sim. – Mas Mercedes não estava rindo. Tentou mudar de assunto:

-Vocês possuem uma praia particular!

Mercedes arregalou os olhos:

-Ora... do que você está falando?

-Da praia lá embaixo. Ela praticamente pertence a vocês, já que única entrada é por aqui. Você não sabia?

-Eu não tinha ideia! Mas não tem outro lugar por onde se chegar?

-Bem... só de barco. Porque, em ambos os extremos, existem rochas muito pontiagudas e perigosas. Mas ninguém se aventura, pois aquela parte é cheia de arrecifes pontiagudos e ondas bem altas. A praia é tão particular, que você poderia tomar banho de mar sem roupas no verão, se quisesse. Ninguém ia ver.

-Ninguém... a não ser Rubens. Ele não sai de lá. Às vezes, ele some lá para baixo, e fica até o dia seguinte...

Mercedes ficou visivelmente alarmada, e engoliu em seco, mas tentou disfarçar. Porém, Iris – a quem nada passava despercebido – indagou:

-Por que a surpresa?

Naquele momento, Alana entrou no quarto, interrompendo a conversa das duas:

-Meninas, venham ver que coisa esquisita o Caio encontrou sob as camadas de tinta!

As duas seguiram Alana, enquanto Iris perguntava à mãe;

-Mãe, você sabia que a praia lá embaixo é praticamente uma praia particular desta casa? E que tem mais uma casa velha por lá?

Alana parou no meio do corredor, encarando as meninas:

-O que? Quem te disse isso?

Mercedes deu um passo à frente:

-Eu. É verdade, Alana. Todo mundo aqui na cidade sabe disso. Você não?

Alana coçou a cabeça:

-Não fazia ideia... mas a quem pertence aquela casa?

-Ela é tão antiga que se perdeu na história... e você também nunca foi lá embaixo, suponho...

Alana ergueu as sobrancelhas:

-Na verdade, não... ainda não tive tempo. Nem curiosidade, para falar a verdade. Sempre morei em locais próximos a praias até meus dezenove anos, e enjoei delas. E Iris morre de medo de altura. 

-Deveriam ir. É bonito lá. 

-Uma outra casa em ruínas? Não, obrigada...

-Ela é toda feita de pedra, tem paredes e estruturas muito fortes. Está de pé, quase intacta.

Dizendo aquilo, Mercedes passou a frente das duas, e continuou em direção à sala, descendo a escadaria de madeira – já limpa e envernizada. Encontrou Caio de pé, os braços cruzados, olhando para um desenho estranho riscado na parede. 
Tratava-se de uma estrela de cinco pontas, entremeadas por símbolos misteriosos. Havia um círculo em volta da estrela e mais símbolos misteriosos escritos em volta dele. 

Os quatro puseram-se a observar o desenho em silêncio. Iris começou a pensar nos seus filmes de terror;

-É um pentagrama. Um símbolo de magia!

Alana perguntou:

-Como você sabe?

-Bem, filmes de terror também são cultura!

Foi só então que Iris percebeu o silêncio e a perplexidade dos dois irmãos. Ambos olhavam o desenho na parede, e alguma coisa no olhar deles, deixava transparecer que eles sabiam exatamente do que se tratava. Finalmente, Caio disse:

-Nós também temos um assim, na parede da nossa sala de estar. Mas não está coberto de tinta, como este estava... talvez, os donos antigos desta casa estivessem tentando não despertar a curiosidade das pessoas.

Alana perguntou:

-O que quer dizer?

Caio e Mercedes se entreolharam:

-Este é um símbolo mágico. De magia negra. 

Íris sentiu um arrepio percorrê-la toda, mas Alana disse:

-Ora, não acredito nessas coisas. Vamos tirar isso daí, raspá-lo até desaparecer e...

 Iris a interrompeu, dizendo: 

-Vocês sabiam que isso estava aí, não sabiam? O tempo todo. Aquela história de “desenhos antigos de florzinhas na parede” era mentira. 

Mercedes aproximou-se dela, dando um passo à frente:

-Saber, a gente não sabia realmente mas... já tínhamos ouvido falar, mas queríamos – precisávamos ter certeza. 

Alana encolheu os ombros:

-Por que? Por acaso, vocês são praticantes de magia, ou algo assim?

Mercedes negou com a cabeça, e Caio respondeu:

-Não. Não somos. Mas temos um símbolo igual a esse na parede da nossa casa porque este lugar inteiro... bem, ele é um portal. E aqui fica a saída. A nossa casa é a entrada. 

Alana perdeu a paciência:

-Mas de que diabos vocês estão falando? Que portal é esse?

-Um portal entre dois mundos – Caio disse. – O dos vivos, e o dos mortos.

Mercedes continuou:

-Lembra quando dissemos que nossos pais estavam viajando? Aquilo sim, era mentira. Inventamos a história toda para não termos que dar satisfações às autoridades locais, e também porque não queríamos ter curiosos em volta da nossa casa. Mesmo porque se a história toda viesse à tona, nós dois poderíamos ser suspeitos de um crime que não cometemos.

Alana franziu as sobrancelhas, zangando-se:

-Esperem aí! Quem são vocês? Onde estão seus pais? De que crime estão falando?

Baixando os olhos, Caio respondeu:

-Eles morreram tentando sair daqui da colina. 

Iris, atônita, olhava de um para o outro, tentando encontrar um sentido naquela história toda:

-Gente, que palhaçada é essa? Como assim? 

Caio respirou fundo:

-Nossa casa foi herdada de nossos avós, que a herdaram de nossos bisavós, que as herdaram de nossos tataravós, e assim vai, numa descendência antiga. A de vocês não é diferente. 

Alana murmurou:

-É verdade... Tia Barbara herdou esta casa. E eu era sua única parenta viva. 

-Então... este lugar é um local antigo onde rituais de magia eram realizados. Daí a fama ruim da casa. E daí, também, o fato de que você não consegue vendê-la, Alana. Jamais conseguirá.

Mercedes completou:

-Eles não a deixarão. 

-Como?! Eles... quem? – gritou Alana.

-Os espíritos. Você é uma guardiã agora. Nunca mais vai poder sair deste lugar. Quero dizer, pode até viajar, mas nunca poderá vendê-lo, e terá que fazer desta casa a sua residência permanente. Não pode ficar muito tempo longe dela, ou adoece e morre, ou sofrerá um acidente.

Alana, de lábios entreabertos e mãos na cintura, tentava entender o que os dois irmãos estavam tentando explicar a ela. E então ela se lembrou: ela tinha visto Mario na cozinha da edícula há apenas alguns dias, e agora, ela sabia o porquê: ele estava morto.

Iris berrou, sua decepção tomando conta de suas expectativas frustradas. Swentia que mais uma vez, a vida a enganara, dando-lhe a ilusão de ter feito amigos que poderiam estar com ela. Os sentimentos que tivera por Mercedes pareciam desmanchar-se e espatifar-se contra as paredes da casa, tal a amargura que sentia:

-Eu nunca confiei muito em vocês dois! Sabia que queriam alguma coisa de nós! 
Não passam de dois idiotas tentando nos assustar!

Rubens, que estivera ouvindo a conversa toda sem ser visto, ergueu a voz:

-Eles não estão mentindo! Estão certos!

Alana virou-se na direção de Rubens:

-Até você? O que é isto, um complô para nos colocar para correr daqui? 
Mercedes cobriu os olhos por alguns momentos, suspirando, e parecendo muito cansada de repente:

-Nós é que adoraríamos sair daqui, Alana. Ouça, você não está entendendo: se tentar sair daqui para nunca mais voltar, ou se ficar fora daqui por mais de sete dias, você morre! E sempre que se ausentar, terá que deixar Iris em seu lugar. E depois de você, ela será a herdeira. A responsável por este lugar. Sei do que estou falando, pois minha mãe enlouqueceu e tentou fugir, e meu pai foi atrás dela para trazê-la de volta. Sete dias se passaram, e então nós soubemos... nós soubemos que eles não voltarão. E então, inventamos a história sobre a viagem deles. Isso foi há apenas alguns meses.

De repente, um pensamento horrível tomou conta de Iris: e se os dois tivessem, na verdade, assassinado os pais? Ela berrou:

-Saiam daqui! Não quero ouvir mas nenhum segundo dessa história horrorosa. Saiam, ou eu chamo a polícia! 

Mas Alana adiantou-se, calando-a:

-Filha... eles podem estar dizendo a verdade. 

Antes que Iris pudesse protestar, Alana emendou: 

-Eu sei, porque eu vi seu pai há alguns dias. Ele parecia diferente... mas era ele, tenho certeza... depois, ele desceu pela colina, eu o vi lá embaixo na praia... chamei por ele, mas ele desapareceu. 

Rubens juntou-se ao grupo:

-Tudo isso é verdade. Eu sei. Eu vi o quanto era difícil para Barbara permanecer nesta casa, ao lado daquele crápula que era seu marido. Ela queria ir embora, mas simplesmente, não podia. E ele simplesmente não ia embora. Foi ele quem a cegou. Ela rolou as escadas e perdeu a visão, após ele a esbofetear. Eu estava aqui e vi tudo. Ela ainda era jovem... bonita...

A voz dele foi sumindo aos poucos, e os olhos encheram-se de lágrimas, que ele tentou disfarçar. 

-O brutamontes estava envolvido com vários criminosos e atividades escusas de tráfico de drogas e de outras substâncias proibidas. Além disso, gostava de perder muito dinheiro em jogo. Ele a arruinou. Um dia, cismou que ela tinha que vender a casa. Ela tentou explicar, disse que não era possível. E então, ele bateu nela, e ela ficou cega. 

Na noite em que ela morreu, eu estava dormindo na edícula, quando escutei os tiros, e corri para cá. Pensei que o desgraçado tinha dado cabo dela. Mas quando cheguei aqui, deparei com o corpo dele no sopé desta escada, coberto de tiros. Ninguém jamais encontrou os criminosos. Mas eu sei que ele foi morto pelos espíritos, pois tentava colocar fogo na casa. Estava bêbado. 

Alana comentou:

-Mas espíritos não atiram em ninguém. Rubens. Acho que... se são espíritos, não podem segurar nada sólido.

Rubens, Mercedes e Caio se entreolharam, e caio explicou:

-Mas não os daqui. Eles podem ser tão sólidos quanto eu ou você, Alana. Existe uma atmosfera especial nesta colina, que começa na sua casa, e termina na nossa. Enquanto permanecerem aqui, os mortos podem ser vistos e contatados. 

Naquele instante, eles ouviram um ruído no sopé da escada, e todos olharam para lá, e depararam com a imagem de Bárbara de pé, sólida e real, olhando para eles.




segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

O ELEFANTE BRANCO - PARTE V









De manhã cedo, Iris entrou no jipe a fim de buscar algumas tintas e removedores que Alana pedira. Ao dar partida, ela viu Rubens chegando em casa. Parecia cansado, com olheiras escuras sob os olhos, e andava encurvado. Pensou que ele era um homem velho, embora fosse também bastante vigoroso. Pensou nos dias em que ele e tia Bárbara desfrutaram de seu amor clandestino; teriam sido descobertos pelo marido traído?

Ela pôs o carro na estrada, enquanto Rubens entrava na edícula.

Alana estava na cozinha, terminando o café da manhã quando ele entrou e cumprimentou-a com um grunhido que parecia ter sido um “bom dia” disfarçado. Ela respondeu da mesma forma. Antes que ele entrasse em seu quarto, ela pediu:

-Rubens, precisamos conversar. Poderia sentar-se aqui, por favor? Pode pegar café, se quiser. 
Ele bufou, e serviu-se de uma xícara do café de Alana, sentando-se. Permaneceu cabisbaixo, as duas mãos em volta da xícara quente. Alana não queria começar uma briga, e tentou ser suave:

-Gostaria que você soubesse que os irmãos Caio e Mercedes – você os conhece, não? – estiveram aqui ontem à tarde. Ele vai começar a trabalhar na casa junto comigo, ofereceu-se para ajudar. Talvez Mercedes venha também. Mas... o fato, é que você desaparece de repente, mesmo depois de eu ter pedido que nos ajudasse a terminar o trabalho, e fica sumido um dia e uma noite inteiros! Isso não pode continuar assim. Se acha que seu emprego é importante, você tem que fazer o que eu peço. Precisamos de você na casa. 

Rubens olhou para ela, e seus olhos eram um par de coisas frias e indiferentes. 

Alana tremeu, mas tentou mostrar-se forte.

-Espero que tenha entendido desta vez, ou então terá que achar outro lugar para morar e trabalhar. 
Ele assentiu com a cabeça, e foi para o quarto, levando a xícara. Alana respirou fundo, e foi para a casa grande. Quando chegou, viu que Caio a esperava à porta. Trazia uma caixa – provavelmente, seu material de trabalho. Ela o cumprimentou alegremente, tentando dissipar a timidez que ele lhe causava. A filha tinha razão: ele era um rapaz bonito demais. 

-Bom dia, Caio! Acordou cedo!

-Bom dia, Alana. Pronto para começar!

Assim que eles abriram a casa, Rubens surgiu para trabalhar. Alana sugeriu que ele começasse por algum quarto do andar superior. Ele agarrou lixa, pincel e um galão de tinta e subiu as escadas, sem nada dizer, e sem cumprimentar Caio. Alana levou a mão à testa, sacudindo a cabeça em desaprovação:

-Ele sempre foi assim, Caio?

Caio riu, e murmurou:

-Não sei muito sobre ele... mas a fama de esquisito corre pela cidade. Vamos começar?

Ela concordou com a cabeça. 

Enquanto trabalhava, Alana podia sentir os olhos de Caio se alternando entre o trabalho cuidadoso que fazia na parede e suas costas. Caio era uma pessoa intensa, sem dúvidas. A respiração dele era suave enquanto trabalhava, e ele demonstrava muito concentração no que fazia, mas ela sabia que ele estava atento a cada movimento seu, o que começou a deixa-la um tanto desconfortável. Ela olhou para trás inesperadamente, e deu com os olhos dele. Ele manteve o olhar. Ela sorriu, sem graça, pois não sabia o que mais poderia fazer. Sentia-se como uma adolescente. Ele sorriu de volta, e aquele sorriso derreteu o gelo que estava em volta do coração de Alana desde que o marido desaparecera. 
Há muito tempo ela não era olhada daquela maneira. Para ela, mesmo antes do desaparecimento do marido, seu corpo tornara-se apenas como um veículo de locomoção que a levava aonde tinha que ir, permitindo que ela pudesse fazer as coisas que precisava fazer, seguindo a sua rotina. 

Alana tentou voltar a concentrar-se no trabalho, mas como notou ser quase impossível, pediu licença, alegando sede. Ao chegar em casa, abriu a torneira e pegou a água fria nas mãos – apesar do frio que fazia – e molhou o rosto com ela. Fez isso várias vezes, até que se acalmasse. O que estaria acontecendo com ela? Aquele rapaz despertava-lhe sentimentos que há muito tempo estavam enterrados dentro dela. Desejos inconfessáveis que ela já não sentia mais há anos e anos. 
Pensou no marido desaparecido. Às vezes, quando pensava nele, alguns detalhes faltavam, e ela tinha que se concentrar ou olhar uma fotografia para trazê-los de volta. Mas naquele momento, a memória foi tão forte, que ela conseguiu sentir-lhe o cheiro. Alana fechou os olhos, deixando a água fria escorrer pelo pescoço, entrando por baixo da blusa, e teve um calafrio. O que estaria acontecendo com ela? Como poderia estar pensando daquela forma em um rapaz que poderia ser seu filho? Ela achou que a súbita lembrança do marido tinha sido um alerta, uma forma de lembra-la de que ele ainda não estava oficialmente morto – apenas desaparecido. A qualquer momento, Mario poderia entrar por aquela porta e reivindicar seu lugar de volta na vida dela e da filha. A qualquer momento, ele poderia surgir, e suas vidas voltariam a ser alguma coisa parecida com o que foram – mas jamais igual. 

E o perfume dele, entrando de forma estranha pelas narinas, fez com que ela abrisse os olhos e olhasse para trás.
Lá estava ele. Sólido, tridimensional, detalhadamente visível. Talvez um pouco mais pálido, mas era Mario. Ele a olhava com tanta intensidade, que Alana perdeu a respiração, e acabou derrubando uma xícara que estava sobre a pia com o cotovelo. A xícara espatifou-se em vários pedaços, sendo que um deles cortou-lhe a canela direita, e o sangue escorreu para o chão. Ela olhou para o chão, vendo o sangue e os cacos, e quando olhou para a porta de novo, ele não estava mais lá.

Alana correu para fora, chamando pelo nome dele. Correu em direção aos penhascos, onde pensou ter visto uma sombra mais escura desaparecendo entre as pedras que levavam lá para baixo, em direção à  praia. Ela chegou bem na ponta, e continuou olhando, ansiosa, mas tudo o que via, era a areia branca e as ondas batendo nas pedras lá embaixo. Gritou o nome dele novamente ao ver alguém ao longe, correndo pela areia, mas a luz do sol ofuscou-a, e ela o perdeu. 
Alana estava muito na beirada do penhasco. Fazia sombra nos olhos com uma das mãos. Não percebeu que seu pé empapado de sangue deslizou na pedra lisa. Ela sentiu a pedra escorregar, e tentou equilibrar-se. Teve ainda um vislumbre das ondas que a esperavam lá em baixo, depois que ela caísse, e sentiu, apavorada, o cheiro da maresia. Abriu os braços, mas antes que mergulhasse no precipício, alguém puxou-a para trás, agarrando seu pulso e abraçando-a com força. 

Ela abriu os olhos, o coração ainda aos pulos, e notou que estava segura, o rosto amparado por um peito forte e ofegante, e que tinha braços envoltos por uma blusa de lã cinzenta em volta dela. Ela olhou para cima, e viu o rosto de Caio, muito preocupado e aflito. Ela olhou para baixo, para o precipício e a praia, ouvindo o grito triste das gaivotas.

O vento começou a soprar forte, e as nuvens encobriram o céu. 

Caio levou-a de volta à casa, onde sentou-a em uma cadeira na cozinha e, pegando um pano de prato, enrolou-o em volta do corte na perna dela. Perguntou por uma possível caixa de primeiros socorros, e Alana apontou o banheiro com o queixo, sem nada dizer. Ele entrou lá, voltando com a caixa de remédios, e pôs-se a lavar o ferimento, estancando o sangue e colocando um curativo sobre o corte. Enquanto isso, ele viu a xícara quebrada no chão, e afastou os cacos para um canto com os pés.

Alana ainda pensava em tudo o que tinha acontecido naqueles poucos minutos. Teria sido uma miragem, uma alucinação – ou simplesmente, fruto do seu sentimento de culpa? Caio perguntou:

-Alana, o que aconteceu?

Ela sacudiu a cabeça. Ele insistiu:

-Você não estava... não estava tentando...

Ela leu o pensamento dele, e riu:

-Não. Não estava tentando me matar, apenas escorreguei.

Ele suspirou, aliviado, e levou a caixa de volta para o banheiro. Quando voltou, pegou um copo de água com açúcar, tomou um gole e deu o resto para ela, indagando:

-Você chamou por um nome. Mario. Quem é Mario?

-Meu marido. Quero dizer, meu... eu não sei mais o que ele é, se é meu marido ou ex-marido. 

Ele a encarou, preocupado. 

-O que  aconteceu?

-Não sei. Acho que eu escorreguei.

-Não; quero saber o que aconteceu ao seu marido.

Ela demorou um pouco a responder:

- Ele desapareceu. Um dia, não voltou para casa do trabalho. Nós tentamos telefonar para ele, mas o celular só chamava e ninguém atendia. Chamamos a polícia, procuraram por ele durante muito tempo... as investigações ainda continuam, mas ele está desaparecido há dois anos. 

-Eu sinto muito... deve ter sido muito difícil para vocês.

-Mais do que você pensa, Caio. Ainda é.

De repente, os lábios dele estavam sobre os dela. Eram frios e macios ao mesmo tempo. Um beijo leve, um roçar de lábios que ao mesmo tempo era breve e intenso. Ela se viu correspondendo-o, os sentimentos emaranhados dentro dela, alternando-se entre quentes e frios, o coração pulando descompassadamente como se ela fosse uma adolescente.

Eles ouviram o ruído de passos, e mal puderam recuperar-se antes que  Iris entrasse na cozinha, acompanhada de Mercedes. Ao ver o sangue no chão, ela assustou-se:

-Mãe! O que houve?

Alana tentou parecer bem casual, tentando controlar o nervosismo:

-Nada, imagine, foi só um corte pequeno. Derrubei uma xícara. Mas está tudo bem.

Mercedes aproximou-se:

-Precisa de alguma coisa? Não é melhor ir a um hospital?

Alana sacudiu a cabeça, rindo:

-Não! Já disse, não foi nada. Caio em ajudou, fazendo um curativo. Não é mesmo, Caio? E ele é bom nisso. 

Iris olhou de um para o outro, e de alguma forma, captou alguma coisa no ar. 

Mas Mercedes tentou quebrar a tensão, dizendo:

-Bem, já que estamos todos bem... vamos ao trabalho!

(CONTINUA...)











segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

O ELEFANTE BRANCO - PARTE IV





Rubens começou a trabalhar na casa novamente, pois Alana ameaçou  mandá-lo embora, e daquela vez, a coisa foi realmente séria. A contragosto, ele assumiu o lugar de Iris com os pincéis e lixas de parede, e o trabalho começou a andar mais rápido. Também removeu as temíveis teias de aranha, o que fez com que Iris se sentisse bem mais confortável. 

Porém, como era de se esperar, a mudança de Rubens durou apenas uma semana.
Um dia, elas acordaram e ele não estava lá. Iris e Alana conversavam, enquanto lixavam as paredes da cozinha:

-Mãe, eu adoraria saber aonde ele vai quando some.

Alana não respondeu imediatamente, mas depois, disse:

-Ele desce o penhasco. 

-Como assim? Você o viu?

-Sim. Eu o segui. Ele desceu o penhasco, e depois eu o vi caminhando na praia. Mas ele desapareceu na curva. 

-E o que tem lá?

-Não sei... mas confesso que também fiquei curiosa.
Naquele momento, as duas ouviram o ruído de passos sobre o novo cascalho recém-assentado na entrada da casa, se aproximando e parando junto à porta. Iris e Alana largaram os pincéis e foram ver quem estava chegando.

O coração de Iris deu um pulo ao ver os dois irmãos – Caio e Mercedes – do lado de fora, sorrindo para ela. Imediatamente, toda a sua espontaneidade sumiu, e ela se sentiu diminuir cada vez mais. Era a sensação que tinha quando estava perto de Mercedes. 

A moça aproximou-se, e como se conhecesse Iris há muito tempo, abraçou-a e beijou-a no rosto duas vezes. Quando Caio fez a mesma coisa, Iris notou que ambos tinham o mesmo cheiro; era mais do que apenas duas pessoas que apenas usavam o mesmo perfume: eles tinham a mesma química no corpo. Iris sentiu que poderia vir a amar ou odiar aquelas pessoas, e aquilo foi estranho e forte. 
Alana sorriu:

-Então vocês são nossos vizinhos! Minha filha falou muito bem de vocês!

Os dois irmãos se entreolharam, e Iris, envergonhada, logo notou que eles não compraram a história de Alana, mas sorriram assim mesmo. Caio estendeu a mão polidamente, com simpatia, apresentando-se:

-Meu nome é Caio, e esta é minha irmã Mercedes. Muito prazer.

-Prazer! Fico feliz em conhecer vocês. 

Mercedes deu à Alana o mesmo tratamento que dera a Iris – um beijo barulhento no rosto, e Alana logo gostou da moça. 

-Não querem entrar e dar uma olhada na casa? Estamos reformando!

Caio disse:

-Na verdade, sim. Passei para ver como as coisas estão indo, e também para oferecer ajuda, se for preciso. 

-Ora, muito obrigada, mas... nós não podemos pagar.

Iris sentiu o rosto queimar; achou que a mãe não precisava ficar ando atestado de pobreza a estranhos daquela forma, embora o fato fosse óbvio: por que elas morariam naquele lugar, se tivessem um lugar melhor onde viver?

Caio disse:

-Não se preocupe. Venho quando puder, camaradagem entre vizinhos. Jamais cobraria alguma coisa de vocês. 

Alana ficou comovida, e agradecida ao mesmo tempo:

-Muito obrigada! Você não sabe o quanto é reconfortante ter novamente pessoas que se oferecem para ajudar, depois de tanto tempo...

Iris não deixou que ela continuasse, pois percebeu que  a mãe ia começar a fazer confissões sobre a vida particular delas; Alana era assim: aberta demais. Mudou 
de assunto;

-Vamos lá dentro? Acho que vai começar  a chover!

Espontaneamente, Mercedes abraçou-a pela cintura, e as duas foram entrando na frente, enquanto Alana e Caio caminhavam logo atrás. Iris sentia a pressão suave do braço de Mercedes em sua cintura, e os dedos que descansavam na altura de seus rins, pressionando-a suavemente. Aquilo era diferente e estranho, pois não era tocada por alguém há muito tempo. Não gostava de ser tocada. Sentia-se muito desconfortável quando alguém se aproximava demais ao conversar com ela. Mas com Mercedes, alguma coisa diferente acontecia; ela sentia o calor da nova amiga como algo positivo, algo bom. De repente, quis ficar a sós com ela, e levou-a para o quarto misterioso lá em cima. Caio e Alana ficaram conversando no andar inferior. 

Mercedes olhou em volta, dizendo:

-Isso me dá arrepios! Tudo negro... parece ...  sinistro!

-Ou talvez apenas triste. Acho que esse lugar guarda alguma história bem triste... você e Caio sempre moraram aqui. Sabem de alguma coisa sobre a casa?

Mercedes coçou a cabeça, levando a mão ao coque e soltando os cabelos, que caíram em suas costas como cascatas macias e escuras, o que fez com que Iris entreabrisse os lábios de tanta admiração. Ela era bonita, muito bonita, e parecia não perceber ou não se importar com isso, o que a deixava ainda mais bonita. 

-Só um pouco. Esse lugar é meio misterioso, e sua tia Bárbara era um tanto reclusa. E muito velha também. Dizem que ela morreu com quase noventa anos! Sei apenas o que eu escuto o pessoal contar desde que éramos crianças.
Mercedes sentou-se na beirada na cama, e Iris sentou-se ao lado dela. 

-Conte-me um pouco, por favor.

-Mercedes olhou-a nos olhos, e riu:

-Por que? Vai escrever um livro sobre a casa?

Iris contornou a ironia que viera à ponta da língua:

-Digamos que sim.

Mercedes riu novamente, concordando com a cabeça:

-Está bem. Bem... vamos começar pelo começo então. Mas muito do que vou lhe contar não é comprovável. São especulações, histórias antigas... e você sabe que quem conta uma história sempre acrescenta alguma coisa. 

-Meu pai dizia sempre que quem conta um conto, aumenta um ponto.
Mercedes notou a melancolia na voz dela ao falar do pai:

-Seu pai dizia?... ele... morreu?

Iris olhou para o chão, cruzando as mãos entre os joelhos. Fazia aquilo quando ficava nervosa. Ela sentiu o calor da mão de Mercedes sobre a dela:

-Desculpe... não tenho o direito de perguntar. Me perdoe, eu... não queria despertar lembranças tristes. Um dia você me conta, se quiser.

Íris agradeceu, e de repente, virou a palma da mão para cima, segurando a dela. Foi um toque rápido, mas ela pôde sentir como se existissem terminações elétricas entre suas mãos. Mercedes recolheu a própria mão, colocando-a sobre o joelho. Ambas pareciam um pouco desconfortáveis com o silêncio que se formou. Mercedes afastou os cabelos de Iris, e aproximando o rosto do dela, beijou-a novamente na face, mas daquela vez, demorando-se um pouco mais. Íris sentiu uma ternura enorme, como jamais sentira antes, e lembrou-se dos tempos em que, ainda criança, pedia aos pais que lhe dessem uma irmãzinha. Ela tinha que dizer alguma coisa antes que começasse a chorar, e então ela disse:

-Não vai me contar? A história...

-Claro. Sua tia não foi sempre cega; ela perdeu a visão ao rolar as escadas. 
Depois de uma surra que ela levou do marido. 

Íris sentiu o coração pular. Mercedes continuou:

-Ela estava na casa dos trinta quando aconteceu. Era jovem e bonita. O marido transformou-se em um monstro depois que eles perderam o filho em um acidente. O menino estava brincando no penhasco, e caiu lá embaixo. Minha mãe era bem criança ainda, mas ela se lembra. Ninguém esquece uma coisa assim, eu acho.

Enquanto Mercedes falava, Iris lembrava-se da história que tinha visto durante o sono, no dia em que se sentara na poltrona vermelha daquele mesmo quarto. Era como se as cenas que Mercedes narrava aparecessem para ela como um filme. 

-Dizem que ele era um homem bom, e que eles eram felizes antes; mas depois da morte do menino, ele começou a beber muito, e a jogar. Envolveu-se com gangsters em um cassino que fica numa cidade vizinha. Dizem que perdeu toda a fortuna da família no jogo. Só sobrou esta casa. 

-E como ele morreu?

-Cravejado de lindas balas calibre 45. Ele bem que mereceu. Até hoje, ninguém sabe quem o matou, mas há suspeitos. Sua tia e ele tinham por volta de cinquenta anos quando aconteceu. Depois disso... bem... ela passou a viver aqui sozinha.

-Ou melhor, com Rubens.

-É. O caseiro. Ninguém mais vinha aqui, ela não recebia ninguém. E ele era um cão de guarda eficiente.

De repente, um pensamento veio à cabeça de Iris:

-Você acha que... os dois...

Mercedes concordou:

-Dizem que sim. Dizem que ele e sua tia eram amantes há muitos anos, e que ele cuidava dela com muito mais que apenas dedicação servil. 

-Então... Rubens deve ser muito velho! Se minha tinha morreu aos noventa e tantos anos.

-Não. Ele é pelo menos quinze anos mais jovem do que ela.

-Mesmo assim, apaixonou-se por uma mulher cega, manca e amarga?

Mercedes pousou nela um par de olhos curiosos, encimados por sobrancelhas arqueadas de espanto:

-Como você sabia que ela era manca? Eu não contei nada sobre isso.

Iris riu, e achou melhor não contar a ela sobre o sonho (ou visão) que tivera. Pelo menos, ainda não. Precisava saber o que sentia por ela, no que aquele relacionamento se transformaria. Amor ou ódio?

-Sim, eu sei... Rubens nos disse. Mas ele nunca contou nada mais sobre ela. E mamãe nunca se importou em perguntar, então... ela e a tia não se conheciam, na verdade. 

Mercedes concordou, mas manteve os dois olhos verdes pregados no rosto de Iris, atentos a qualquer mudança de expressão. De alguma forma, Iris sentiu que ela sabia que ela tinha mentido, mas que achava melhor fingir que acreditava. 

-Respondendo a sua pergunta – sobre como um homem poderia apaixonar-se por uma mulher cega, manca e amarga – acho que essas coisas não tem explicação. A gente simplesmente sabe que vai amar alguém, assim que deita os olhos sobre a pessoa. 

Íris sentiu o coração dar um pulo. Para tentar escapar à tensão daquele momento e daquelas palavras, ela se levantou da cama, e tentou soar animada:

-Vamos lá para baixo? Preciso ter certeza de que minha mãe não está alugando seu irmão para contar a ele a miserável história de nossas vidas! Ela pode ser bem chata quando quer.

Mercedes ergueu-se, olhando para ela com a mesma intensidade:

-Sua mãe não é chata. E ela é uma linda mulher. 

Iris encarou-a por alguns minutos e concordou com a cabeça antes de virar-se e começar a sair para o corredor, tendo Mercedes bem atrás dela. 
Ao chegarem lá em baixo, depararam com os dois conversando e apontando para as paredes. Ao ver a filha, Alana explicou:

-Veja, Iris! Caio está me dizendo que, originalmente, havia uma pintura belíssima nesta parede. E que ele seria capaz de restaurá-la. Assim, poderíamos elevar o valor da casa!

-É verdade – disse Caio. – Li em um livro sobre as casas antigas aqui da região. Há muitas nesse estilo. 

-Mas... mesmo depois de termos pintado por cima das outras tintas que alguém pintou por cima? – perguntou Iris.

Caio explicou:

-Mesmo assim! Restauradores podem fazer esse tipo de trabalho, e eu... bem, eu sou um! Pode levar um pouco mais de tempo, mas ficará muito bom, e eu poderei exercitar minha arte, que anda parada desde que assumi a fazenda e o haras. 

Alana arregalou os olhos:

-Vocês tem um haras e uma fazenda? Que incrível! 

Mercedes disse:

-Sim! Nossos pais se aposentaram, compraram um barco e foram viajar pelo mundo. Não voltam tão cedo, e disseram que nós teríamos que trabalhar agora, para variar. 

Íris sentiu imediatamente o contraste entre as vidas daqueles irmãos e as vidas dela e de sua mãe. Eram ricos. Podiam ir aonde quisessem, podiam comprar o que desejassem, e no entanto, estavam ali, naquela casa miserável caindo aos pedaços conversando com duas fracassadas. Por que? Ao mesmo tempo, ao mencionar a viagem dos pais, Iris também notou uma certa tristeza no tom de voz de mercedes, que por instantes, também fez com que uma sombra escurecesse os olhos da bela menina. Por que alguém tão bonita, jovem e rica, que tinha tudo para ser feliz, pareceu-lhe tão triste de repente? E ela, que tinha todas as razões para sentir-se miserável, estava tentando sobreviver, passar por cima de acontecimentos tão terríveis...

Incomodada com os próprios pensamentos, pensou se aquela amargura que sentia não seria inveja. Enquanto pensava, notou o olhar atento de Mercedes sobre cada movimento do seu rosto e corpo. Sentiu-se envergonhada, achando que ela percebera seus pensamentos. Quando Mercedes falou, Iris teve ainda mais certeza sobre aquilo:

-Sabe, eu e meu irmão ficamos muito sozinhos depois que nossos pais viajaram. 

-Alana perguntou:

-Não tem amigos?

-Na verdade, não... ninguém quer ficar amigo dos dois “riquinhos metidos à besta.” É assim que a maioria das poucas pessoas mais jovens que restaram nessa cidade nos chama, sabem... tenho uma ou duas amigas, mas elas são tão ricas e metidas à besta quanto eu, então... não tem graça!

Todos riram. Alana olhou para Caio, e perguntou:

-Caio... quantos anos vocês tem?

Ele respondeu:

-Tenho vinte e seis, e minha irmã, dezenove. 

-Minha Iris tem dezoito. Quanto a mim... bem, não interessa. Mas achei muito bom que vocês tenham ficado amigos de Iris! 

Caio ficou sério, e respondeu:

-Só dela? E de você, não?

Alana riu:

-Claro que sim! Mas acho que vocês têm muito mais coisas em comum com ela, só isso...

Mercedes brincou:

-Ora, você fala como se tivesse cem anos! 

-Quase metade disso... mas vamos esquecer esta parte! Caio, quando começamos? Isso é, não quero atrapalhar seu trabalho!

-Amanhã mesmo. Trarei minhas tintas. Contratarei um capataz  para a fazenda, e posso administrar o haras na parte da manhã. 

Alana bateu palmas!

-Oh, que ótimo! Muito obrigada! 

-Eu é quem devo agradecer, Alana. Posso chama-la assim? Preciso exercitar minhas habilidades de restaurador. Será um enorme prazer ajudá-las. 

Iris sentiu novamente o rosto queimar quando Caio a penetrou com um par de olhos verdes quentes e doces. O olhar dele derramou-se sobre ela como lava quente – pelo menos, foi assim que ela sentiu o olhar corriqueiro e amigável que ele dirigiu a ela. Ao se despedirem, Mercedes novamente beijou-a no rosto, abraçando-a brevemente, e depois, Caio fez o mesmo. Ela fechou os olhos, e sentiu o toque dos lábios dele, pensando que, de olhos fechados, pareciam a mesma pessoa. 

Bem mais tarde, quando foi dormir, Iris revirou-se na cama durante muito tempo, pensando nos dois. 




segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

O ELEFANTE BRANCO – PARTE III







-Mãe, eu não entendo porque todo mundo fica boquiaberto quando dizemos que estamos morando nesta casa. 

Era final de tarde, e as duas estavam terminando de pintar a parede da sala. Usavam um galão de tinta branca que Alana mandara Iris trazer da lojinha de tintas da cidade. Decidiram que a casa seria toda pintada de branco – por dentro e por fora. 

-Filha, sabe como é... cidade pequena. Gente atrasada. 

Alana estava lavando um dos pincéis com removedor. Rubens havia simplesmente desaparecido naquele dia longo e exaustivo, deixando o trabalho todo para as duas mulheres. Ela já percebera que ele tinha o hábito de descer o penhasco e desaparecer durante horas. 

-Bem, nem todo mundo é atrasado. Ante-ontem conheci um casal de irmãos. Eles tem mais ou menos a minha idade. Os nomes deles são Mercedes e Caio.

-Mesmo? Que ótimo! Fico feliz que você esteja fazendo amigos.

Iris retraiu-se:

-Eu não disse que tínhamos ficado amigos. Só dei uma carona para ela porque estava chovendo. Não acho que temos coisas em comum. Além do mais, o irmão dela é um desses galãs metidos a besta. Só porque é bonito, se acha o rei da cocada. E ela... uma metidinha curiosa e intrometida. 

Alana respirou fundo, lamentando as palavras da filha. Os julgamentos de Iris sobre os outros tinham se tornado bastante cruéis ultimamente. 

-Dê a eles uma chance, Iris... quem sabe...

Iris largou o pincel sobre a lata de tinta, encarando a mãe:

-Eu não tive chance nenhuma, mãe. Por que acha que eu tenho que dar uma chance a todo mundo?

Alana ia responder, mas naquele momento, ambas ouviram ruídos vindo do andar superior da casa, onde Iris ainda não tinha ido, pois Rubens não limpara as enormes teias de aranha. O ruído se repetiu; pareciam passos. As duas se entreolharam, engolindo em seco. Iris olhou para as teias de aranha que ainda enfeitavam o corrimão, e levando a mão à garganta, disse:

-Bem, se aquelas teias não estivesse ali, eu não sei se subiria aquelas escadas... mas com elas ali, nem pensar!

Alana riu:

-Deve ser um pássaro, ou algum outro animal. Olhando lá de fora, percebi que há uma vidraça quebrada em uma das janelas do segundo andar. Nunca fomos lá, e talvez esta seja uma boa chance.

Dizendo aquilo, ela começou a subir os degraus, que estalavam, enquanto limpava as mãos sujas de tinta branca nos bolsos de trás da calça jeans surrada. Íris achou que não deveria deixar a mãe subir sozinha – afinal, qualquer coisa poderia ter produzido aqueles ruídos – e seguiu logo atrás dela. 

Ao chegarem ao patamar, pararam e olharam em volta; o estado da casa no segundo andar era ainda mais desanimador do que no primeiro. O corredor, longo e escuro, estava extremamente sujo, e ao longo dele, estendia-se uma fileira de portas fechadas. Alana deu um passo adiante, tendo Iris agarrada à ponta da sua blusa. Abriu a primeira porta à direita, e o que viu foi um quarto de dormir. Havia uma cama de ferro belíssima e antiga, móveis antigos que talvez precisassem apenas de limpeza e cortinas rasgadas e sujas. Entrou e abriu a janela, que por milagre, não estava emperrada. Iris observou a poeira indo em direção à luz fraca do sol. 

Foram para o outro quarto, segunda porta à direita; este estava completamente vazio, o que destacou a beleza do assoalho de tábuas corridas, mesmo estando sujo. Elas fecharam a porta e foram para a terceira porta à esquerda; era um banheiro grande, de pé direito alto. Os azulejos exibiam pinturas feitas à mão, de uma paisagem que lembrava os penhascos da cidade. Iris teve que admitir que aquele era o banheiro mais lindo que ela já vira. Teve que se conter para não dar um “Oh!” de admiração ao deparar com a banheira de mármore no centro do cômodo, com seus pés de ferro que imitavam patas de leão. 

Procederam para a quarta porta, a da janela quebrada; não tinha venezianas – parecia terem sido arrancadas ou então tinham caído de tão velhas. A luz da tarde entrava e iluminava um cenário parecido com o do primeiro quarto, mas ao invés da cama de casal, havia duas camas de ferro de solteiro. Alana começou a pensar que realmente gostava da casa e dos objetos que tinha acabado de encontrar. Iris pensava a mesma coisa, mas não daria o braço a torcer, pois temia que se admitisse, a mãe decidisse não vender a casa e ela teria que ficar enterrada naquele lugarejo para o resto da vida.

Foram para a quinta e última porta; Alana girou a maçaneta, mas esta não abriu. Estava trancada. Ainda conseguiram escutar um ruído farfalhante por trás da porta, mas não conseguiram abri-la nem mesmo forçando-a. concluíram que algum animal deveria ter feito seu ninho ali dentro.
Alana desceu as escadas e foi até a edícula pegar seu molho de chaves. Alguma delas deveria abrir aquela porta. Voltou correndo para a casa grande, onde Iris a esperava sentada nos degraus da varanda. Ela não ficaria sozinha dentro daquela casa de jeito nenhum... as duas voltaram a subir as escadas, e Alana experimentou todas as chaves que tinha, mas nenhuma delas abriu a porta. 

Finalmente, ela disse:

-Bem, Rubens deve ter a chave. Quem sabe... amanhã falaremos com ele.

-Isso é, se ele voltar... já reparou que ele às vezes passa a noite fora?

-Bem, isso não é da nossa conta, mocinha. Ele é um homem, com certeza deve ter alguém...

-Talvez alguém tão cego quanto sua tia Bárbara. Quem teria coragem de beijar aquela cara apavorante, com aquela cicatriz enorme?

Alana riu alto, e as duas caminharam de volta para a edícula, fechando a porta do casarão à chave. Mais tarde, enquanto jantavam, deu um pequeno sermão na filha sobre não comentar a aparência das pessoas. 

E íris provou estar certa, pois Rubens não voltou para casa naquela noite. 
Por volta das quatro da manhã, as duas acordaram ao mesmo tempo ao ouvirem um estrondo. Assustadas, ambas correram em direção aos quartos uma da outra, se encontrando no pequeno corredor:

-Mãe, você ouviu aquilo?

-Sim, filha... 

Alana não sabia o que dizer, ou o que fazer. Não queria assustar a filha mais do que ela já estava assustada, e tinha que se controlar. Tentou soar informal:

-Deve ter sido um balão...

-Não; acho que foi um tiro. E de espingarda, ou alguma arma bem grande. Dessas de matar elefantes. Será que aconteceu alguma coisa com alguém?

Alana sentiu calafrios subindo pela espinha. 

-Não há nenhuma casa por perto. Acho que deve ter sido outra coisa, quem sabe, uma onda batendo na praia lá em baixo...

-Mãe, você sabe que ondas não fazem esse barulho. Está tão assustada quanto eu, mas ainda teima em achar que eu sou uma criança!

Alana foi até a cozinha, e colocou uma chaleira de água no fogo. O barulho tirara-lhes o sono, de qualquer forma, e resolveu que uma boa xícara de chá poderia acalmá-las. Íris apareceu minutos depois, enrolada em seu robe felpudo. Aceitou a xícara de chá que a mãe serviu-lhe, pegando-a com as duas mãos, tentando aquecê-las com o calor da xícara. 

-Mãe, não acha melhor a gente ir dar uma olhada na casa grande?

Só de pensar em abrir a porta e mergulhar na escuridão da noite, Alana sentiu-se mais que desconfortável.

-Está muito frio lá fora. E escuro também. 

-Se vamos mesmo morar aqui, precisamos aprender a não temer esse lugar. Precisamos mostrar quem manda aqui. 

Alana tentou sorrir:

-Temer este lugar? Como assim? Do que você está falando, filha?

-Eu me sinto desconfortável aqui. Acordo toda noite à mesma hora, por volta das 3 da manhã, e só consigo voltar a dormir quando começa a amanhecer. Eu sinto uma coisa esquisita quando estamos naquela casa, mãe... um medo sem razão de ser. Como se, a qualquer momento, alguma coisa fosse surgir do nada e me pegar. E tenho tido alguns pesadelos estranhos com a praia abaixo do penhasco...

Alana tentou ser paciente; afinal, elas estavam passando por muitas mudanças, e a maioria delas, não era muito agradável. Colocou-se por trás de Iris, acariciando seus cabelos:

-Minha pobre querida... esse lugar também me dá arrepios, às vezes... mas infelizmente, é o que eu tenho no momento. Prometo que assim que a nossa pequena reforma ficar pronta e conseguirmos vender este lugar, nós vamos voltar para casa. Ou então iremos para onde você quiser. Quanto aos sonhos e as esquisitices, não dê importância, elas são apenas consequências da imaginação fértil de uma adolescente muito criativa e inteligente. 

De repente, ela se lembrou dos novos amigos que a filha tinha feito:

-Por que você não tenta se enturmar, por enquanto? Essa moça que você conheceu... quem sabe, ela pode ser legal? E o irmão dela, tente olhar para ele com outros olhos. Talvez surja até uma paquera, quem sabe...

Iris corou, e indo até a pia, começou a lavar as xícaras. Pensou nas palavras da mãe, e concluiu que se elas estavam ali, e se teriam que ficar ali por enquanto, então era mesmo melhor tirar proveito da situação.

-Você está certa, mãe. Vou tentar me enturmar com eles. Quem sabe, posso convidar Mercedes para vir aqui um dia desses?

-Claro! É assim que se fala!

Mais tarde, na cama, Alana pensava na filha. Sentia-se muito culpada por tudo o que estava acontecendo. Fizera sempre e apenas o melhor que podia, mas tinha a impressão de que nunca era o suficiente. 

E em seu coração, o medo de que a filha descobrisse que ela e Mario não estavam muito bem antes do sumiço dele, e que ela pensava em pedir o divórcio. Se Iris soubesse daquilo, acabaria culpando-a pelo desaparecimento do pai. Mas como ela poderia descobrir? Ninguém mais sabia daquilo, além dela mesma. 
E não havia ninguém culpando-a pelo desaparecimento do marido, a não ser ela mesma. Alana culpava-se, e mortificava-se. No fundo, ainda amava Mario, e achava que sempre o amaria, de alguma forma. Muitas vezes ela se perguntou o que os tinha afastado daquela maneira, mas nunca encontrou a resposta. Nem mesmo quando foi busca-la nos braços de outro homem. O caso durou pouco tempo, pois ela logo caiu em si e sentiu o vazio daquele relacionamento. Ela não conseguiria amar a ninguém mais, a não ser ao marido. Mario nunca ficara sabendo- ela tinha sido cuidadosa. Mesmo assim, às vezes pensava se o relacionamento que tivera fora do casamento não teria sido a causa do desaparecimento repentino dele.

Enquanto isso, Iris pensava que jamais convidaria Mercedes e Caio para aquela casa caindo aos pedaços. 

Na manhã seguinte, quando as duas foram em direção à casa grande a fim de terminar a pintura da sala, encontraram a porta da frente escancarada. 

Enquanto elas permaneciam paradas em frente a entrada da casa, sem coragem para entrar, Alana sentiu um enorme pavor; tinha certeza de que deixara a porta da frente trancada na noite anterior. Estavam totalmente sozinhas naquele lugar. Ninguém se daria ao trabalho de escancarar aquela porta a fim de assustar duas mulheres sozinhas. Só havia uma explicação: Rubens fizera aquilo.
Iris segurou a mão da mãe, e Alana percebeu que a mão da filha estava gelada. Sempre que sentia medo, desde muito pequena, as mãos de Iris ficavam frias. Alana tentou concentrar-se e decidir o que fazer. Nunca tinha se visto em situação semelhante, mas sempre ouvira dizer que em casos como aquele, a melhor coisa era não entrar em casa. 

Às vezes, as casas velhas guardam histórias que ninguém mais está aqui para contar; porém, quem for sensível e caminhar por elas, poderá ouvir o que elas tem a dizer através dos retratos nas paredes, móveis quebrados, restos de cores, ecos que os pés produzem ao tocarem o chão e principalmente, dos silêncios que elas guardam. Iris era uma destas pessoas: ela conseguia escutar o que os lugares diziam. Ela ouvia as vozes dos que há muito já haviam se calado. Ela apenas ainda não sabia disso, até aquela manhã. 

Enquanto as duas ficavam de pé em frente a porta de entrada, de mãos dadas, pensando no que deveriam fazer em seguida, Rubens aproximou-se delas por trás, sem que elas o vissem, dando-lhes um grande susto, que fez com que as duas começassem a rir alto ao verem que era ele, que era apenas Rubens. Mãe e filha se entreolharam e até sentiram alívio ao verem a cara feia do velho caseiro olhando-as por cima da grande cicatriz que lhe cortava a face. 
Rubens demorou-se um pouco antes de perguntar, com seu habitual mau humor:

-Qual é a graça?

Alana respondeu:

-Bom dia pra você também, Rubens. Então... você chegou cedo e abriu a casa? 
Vai recomeçar o trabalho?

-Não sei do que você está falando, moça. Acabo de chegar aqui.

O sorriso sarcástico de Alana morreu:

-Como assim? Tenho certeza absoluta de que deixamos a casa trancada ontem, quando saímos no final da tarde! Com certeza, você tem as chaves!

Ele grunhiu:

-Não, não tenho. Eu as entreguei a você: uma cópia para cada uma. São as donas agora, não são?

-E você não ficou com uma cópia?

-Não, não fiquei.

E os dois ficaram conversando, sem perceber que Iris adentrara a casa. 
Lá dentro, os grãos de poeira dirigiam-se para a luz do sol que vinha das janelas como se fosse uma multidão em procissão. Iris deu alguns passou e respirou fundo antes de começar a subir as escadas. Ela o fez devagar, desviando o máximo que podia das malditas teias de aranha – que naquele momento, era o que ela menos temia. De alguma forma, ela sentia que havia alguma coisa a mais naquela casa. Ao chegar no topo das escadas, o longo corredor escuro quase a fez parar. Iris sentiu um arrepio tenebroso correndo pela espinha, e engoliu em seco. Mas ela foi em frente. Tentava manter-se lúcida, dizendo a si mesma que era só uma casa como as outras, repetindo aquele mantra que ela mesma sabia que era absurdo, enquanto se dirigia para a porta trancada ao final do corredor, a mesma que ela e a mãe não tinham conseguido abrir no dia anterior. 

Íris parou diante dela e encostou o ouvido, tentando escutar algum ruído. Instintivamente, levou a mão à porta – mesmo sabendo que ela estaria trancada – mas ao tocá-la e girar a fechadura, ela simplesmente se abriu. Surpresa, ela sentiu o coração bater na garganta e teve que se segurar para não sair correndo dali; lembrava de uma cena em um filme de terror que ela assistira, um filme que sua mãe criticara, dizendo-lhe que não fazia bem ficar assistindo aquelas coisas, e ela agora se arrependia por tê-lo assistido, porque ele lhe dera aquela memória aterrorizante com a qual comparar seu presente momento. 

Íris empurrou a porta, que se abriu vagarosamente, rangendo. Piscou os olhos várias vezes a fim de acostumar-se com a escuridão do quarto. Quando conseguiu, percebeu que ele era o maior quarto da casa, realmente espaçoso. Havia no centro uma cama de ferro parecida com as outras camas que tinham encontrado nos outros quartos, só que esta estava coberta por uma colcha preta com rendas e bordados  cor de mel. A colcha era esquisita; parecia ser muito antiga, mas estava quase perfeita, a não ser por um pouco de poeira, e Iris percebeu que aquele quarto estava estranhamente mais limpo do que os outros. A cama tinha um dossel cujas cortinas negras estavam abertas.

Em um dos cantos, havia uma cômoda grande e pesada, de madeira escura, com muitas gavetas. Ela abriu a primeira gaveta, e deu com artigos de langerie muito velhos, mas cuidadosamente dobrados. Íris pegou um deles, sentindo a maciez da seda e a delicadeza das rendas. Na segunda gaveta, havia camisolas – todas elas, pretas e rendadas. Na terceira gaveta, camisas de cetim femininas e blusas rendadas, anáguas de seda, e meias-calças – todas na cor negra. Íris percebeu que tudo estava em ótimo estado, e gostou das roupas, pensando que poderia usá-las. 
A quinta e última gaveta revelou frascos de perfume. Frascos muito antigos. Alguns estavam vazios. Todos eles eram muito belos, e pareciam muito caros. Ela leu os nomes e viu que a maioria eram franceses, mas havia alguns com letras diferentes que ela não conseguiu ler, talvez de países que ela achou que fossem remotos demais. 

Íris fechou as gavetas cuidadosamente; voltaria mais tarde para escolher o que ela queria levar. Olhou em volta, e não viu nada muito interessante, a não ser uma poltrona de veludo vermelho e uma cadeira estofada com o mesmo veludo da poltrona. De repente, ela sentiu o ímpeto de sentar-se naquela poltrona. Ela parecia convidá-la. E assim o fez. 
Mas quando ela recostou a cabeça no encosto alto, foi tomada por um sono incontrolável, e Iris deixou-se levar por ele.

De repente, ela estava caminhando pela casa, mas agora, tudo estava diferente: as paredes e móveis estavam limpos, as cortinas e tapetes eram novos e ela podia ouvir vozes de pessoas que riam e conversavam pela casa. Iris não conseguia ver a si mesma, e foi caminhando pelo corredor, surpresa pela aparência diferente da casa, quando de repente viu uma moça ruiva de cabelos longos, usando roupas antigas, vindo na sua direção. Ela ria alto, perseguida por um menino que deveria ter entre cinco e sete anos. Os dois brincavam. Íris sentiu-se tensa ao vê-los se aproximando, pois não poderia explicar como ela tinha ido parar ali, mas os dois passaram por ela – ou através dela – sem vê-la. 

Iris seguiu-os até o quarto, que estava muito diferente, decorado em cores claras e alegres, e viu quando a moça sentou-se na cama e o menino abraçou-a, chamando-a de mãe. Ela também sentiu em si mesma a intensidade do amor que unia aquelas duas criaturas, e de repente, teve vontade de chorar ao adivinhar o futuro que os separaria. 

Íris sentiu como se estivesse sendo puxada para trás. O vácuo fez com que ela tivesse a sensação de estar sendo esvaziada, de tão rápido que tudo aconteceu; era como naqueles sonhos em que as pessoas tem a sensação de estar caindo em um precipício. Ela estava no mesmo quarto – desta vez, o lugar parecia diferente; tudo estava negro: cortinas, colchas, tapetes e as roupas da moça, que agora parecia alguns anos mais velha, e bem mais triste. Ela chorava, sentada na poltrona de veludo vermelho. Segurava um lenço branco bordado, e Iris adivinhou que ela mesma o bordara. Assim que se perguntou o que acontecera ao menino, Iris soube: ele estava morto; caíra do penhasco sobre as pedras lá em baixo, junto ao mar, enquanto brincava. Ela olhou para baixo e viu seu corpo inerte sendo lavado pelas ondas, cujas espumas ficavam vermelhas. Ela escutou e ouviu o grito que saiu da garganta dos pais do menino quando, ao procurá-lo, depararam com a cena. 

E ela também soube que ele a culpava; alegava que ela não tinha tomado conta da criança como deveria. Ele passou a beber muito. Ele deixou de trabalhar, e tornou-se taciturno e violento. 

Mais um puxão, e íris viu quando ele pegou a moça pelo braço, jogando-a no chão. Ela bateu a perna direita com força contra o degrau da lareira, quebrando-a. depois daquilo, tornou-se manca. Íris viu toda a beleza do seu rosto desaparecer e transformar-se em amargura. A moça virou uma mulher triste, enraivecida e encurvada, menos pelas tantas surras que o marido dava nela, e mais porque ter perdido a única pessoa que amara. 

Mas ela encontrou alguém. Alguém que a enxergou, e viu a beleza que ainda restava nela. Alguém que lhe deu a mão e a amou. 

Mais um forte puxão, e Iris despertou com as vozes da mãe e de Rubens, que conversavam no corredor. Assustada, ela olhou em volta, ainda emocionada, como se tivesse assistido a um filme muito triste. Naquele momento, Alana entrou no cômodo:

-Iris! Você abriu a porta! Como conseguiu?

-Ela esfregou os olhos, bocejando:

-Não sei. Ela só estava aberta, e eu entrei. Mãe... tive o mais estranho dos sonhos.

Mas Alana já estava no corredor, ralhando com Rubens, e não a escutou.

(continua...)





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