terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Meu Primeiro Namorado - Parte I





25/01/2014

Eu gosto de um menino. Minha mãe não quer que eu namore, e diz que meninas de treze anos deveriam estar brincando de bonecas, mas eu prefiro ficar mexendo no meu celular. Meu pai insiste em me dar bonecas de presente, sempre que viaja me traz uma, e eu coloco em cima do armário para ele não ficar triste. Já doei a maior parte das minhas bonecas, e nunca me arrependi. Minhas amigas acham cafonas as meninas de treze anos que ainda brincam de bonecas, e eu não quero que me achem cafona.

Mas eu resolvi escrever este diário porque eu gosto de um menino, mas não posso contar isso para ninguém, porque ele é namorado de uma de minhas amigas. O nome dele é Rodney, e tem dezesseis anos. Ele é lindo! Moreno de praia, cabelos curtos e alourados (dizem que ele passa parafina, porque gosta de surfar, e sabe fazer isso muito bem, mas eu não me importo se ele não for loiro de verdade, porque muitas das minhas amigas também não são). Mas voltando ao Rodney: ele é tudo de bom! Bem, menos quando eu o vejo passeando de mãos dadas com a Vanda, a minha amiga de quinze anos... daí, eu sinto meu coração inchar e inchar cada vez mais, parecendo que vai sair pulando pela boca e cair bem em cima dos meus pés! Não aguento mais guardar esse segredo, e por isso, resolvi escrever este diário.

A propósito, meu nome é Brenda, e eu tenho 13 anos (já escrevi isso). Nunca namorei ninguém. Uma vez, durante um bailinho na casa de uma amiga, um menino da escola me chamou para dançar, e de repente, começaram a tocar uma música lenta. Continuamos dançando, ele colocou a mão em volta da minha cintura. Senti uma coisa esquisita, uns arrepios... ele era bonitinho, mas eu já gostava do Rodney, que naquela época, ainda não namorava a Vandinha. Daí, quando ele tentou me beijar, eu virei o rosto. Perdi a minha grande oportunidade de ensaiar o beijo que eu queria dar no Rodney. Depois daquilo, o tal menino nunca mais falou comigo, mas eu nem liguei, não gosto dele mesmo...

O que também me preocupa, é que todas as minhas amigas já beijaram. Eu tento mentir, fazer elas acreditarem que eu também, mas elas não acreditam, e me chamam de "Virgenzinha." Mas minha mãe me explicou que virgem é uma coisa bem diferente, e eu sei muito bem que algumas das minhas amigas não são mais virgens. Eu ainda sou, mas não sei se isso é bom ou ruim.

Tenho que ir, minha mãe está chamando para almoçar.


27/01/2014

Hoje o dia foi maravilhoso! Estamos de férias, e viajamos para a praia, onde meus pais alugaram uma casa. Vamos ficar aqui mais alguns dias. Eles deixaram eu levar uma amiga, e adivinhem só quem eu escolhi? A Vandinha! Isso mesmo! Só assim eu posso fazer com que ela fique longe do Rodney por um tempo... mas até que está sendo divertido. Ela é boa companhia.

Pena que liga para o Rodney ou fala com ele pelo Skype o tempo todo. Mas eu sei o que vou fazer: vou desconectar o wifi, assim ela não vai mais poder falar com ele pelo Skype. E então vou esconder o carregador de bateria dela, e dizer que esqueci o meu em casa. Eles não vão poder se comunicar!

Mas... peraí, que espécie de amiga você é, Brenda? Ah, eu gostaria de ser um pouquinho mais cruel... mas não consigo. Também, que idea, chamar a minha rival para vir comigo à praia! 

28/01/14

A Vandinha extrapolou (mas não sabe disso): me pediu se eu poderia pedir aos meus pais que deixassem ela convidar o Rodney para o final de semana! Nem pude dizer que não; temos um quarto vazio. Pior de tudo: meus pais deixaram! 

Ela falou com ele pelo Skype, e ele disse que vem. Adora praia, e precisa treinar para um campeonato de surf. Eu fiquei ali, ouvindo a conversa, fingindo um sorriso amarelo, dando 'tchauzinho' para ele. Que raiva. E o pior de tudo, é que com o Rodney aqui, além de ter que aturar as ceninhas de amor, vou ter que ficar muito tempo sozinha ou segurando vela. Que saco!

(noite) O Rodney chegou. Viajou hoje de manhã mesmo. Trouxe a prancah de surf. Está ainda mais gato. Parece que vai conseguir me deixar louca. Depois do jantar, nós fomos dar uma volta para tomar sorvete, todo mundo junto. Minha mãe e meu pai adoraram o Rodney, que ficou o tempo todo encantando eles... ele é mesmo encantador, sabe conversar, soa responsável e ajuizado quando quer. a A Vandinha parecia que ia babar em cima dele a qualquer momento. Os dois de mãos dadas, meus pais de mãos dadas e eu me sentindo uma pirralha seguradora de vela. 

Eu não estava feliz, e não consegui disfarçar. Quando meu pai me chamou num canto e  perguntou o motivo, eu disse a primeira coisa que me passou pela cabeça: que estava com dor de estômago. Nem sei como vai ser o dia amanhã, já que vamos todos juntos à praia!

29/01/14

É claro que o céu estava azul, havia uma brisa soprando, palmeiras, sorvetes, água de coco, gente feliz e música tocando vinda de uma barraca cheia de gente jovem. É claro que minha mãe e meu pai encontraram uns amigos e ficaram conversando com eles o tempo todo na barraca deles. É claro que a Vandinha e o Rodney foram dar uma volta, e é claro que eu fiquei sozinha na maldita barraca!

Mas aconteceu uma coisa diferente: tinha um carinha me olhando. Tinha um carinha me olhando, e ele era gato. Tinha um carinha me olhando, e ele era gato, e eu fiquei nervosa. Tentei não olhar de volta. Já pensou a confusão, se meus pais percebessem? Mas eu estava sozinha na barraca, e pensei: vai ver que ele acha que eu estou sozinha aqui. Ele ficou me filmando um tempão, e teve uma hora que eu olhei e ele sorriu pra mim. Me deu uma vontade de rir, e eu ri. E fiquei vermelha feito uma idiota. 

Ele ia levantar para falar comigo, mas naquele exato momento, meu pai veio pegar o celular, e ele sentou de novo. Mais tarde, a Vandinha e o Rodney voltaram, e eu percebi que o Rodney era gato, mas nem chegava aos pés do carinha que estava me olhando: ele é mais alto, tem uns músculos, e mesmo não sendo muito bronzeado, tem uns olhos azuis que dão vontade da gente mergulhar neles. Pena que tivemos que voltar para a casa, e ele ficou lá. Com certeza, arranjou outra mais interessante...

30/01/14

Acordei mais cedo do que todo mundo, e fui andar na praia, antes do sol sair. Não sei o que me deu. A praia ainda estava bem vazia. Deixei todo mundo dormindo, mas deixei um bilhete na mesa da cozinha dizendo que voltava logo. Peguei uma maçã e fui comendo. E quem foi uma das primeiras pessoas que eu vi na praia, sozinho também? O tal carinha, o gato.

Ele vinha andando na direção contrária. Ambos caminhávamos na areia, bem perto do mar. Eu vi quando ele me viu, e ficou me olhando. meu coração parecia que ia sair pela boca e... blá, blá, blá. Quando eu estava chegando bem perto, ele tirou os óculos escuros e disse "Oi." Eu parei, tirei os óculos escuros e surpresa com a minha ousadia, disse "Oi."  daí, ele riu, e perguntou meu nome, e disse que se chamava Pablo. Disse que estava passando férias, e eu disse que eu também. Perguntou se podia andar comiglo, e ficamos andando lado a lado, a brisa soprando, o sol começando a esquentar... nós nos sentamos na areia. Conversar com ele é tão fácil!

Mas eu me lembrei que tinha que voltar para casa logo, e disse isso para ele. Ele perguntou se poderíamos nos encontrar mais tarde, e eu disse que sim. Agora, como vamos fazer isso, eu não sei, mas a Vandinha vai ter que me ajudar!

(Noite, ou melhor, madrugada) - Falei com a Vandinha, e ela teve a ideia de me convidar para tomar um sorvete de noite com ela e o Rodney, e meus pais deixaram. Não falei sobre o Pablo, é claro. Vamos nos encontrar em uma sorveteria perto da praia daqui a uma hora!

(continua...)





segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Série SEGREDOS - Conto 6 - A verdade de cada Um





"A fama produz os aplausos, mas não a alegria. Produz o assédio, mas não elimina a solidão."

Team Bios bandido



A imagem sorridente na TV angariava não apenas fãs, mas muitos seguidores nas redes sociais. O rosto belo, de tez imaculada, as palavras que pareciam sinceras mas eram ensaiadas arduamente para que soassem como verdadeiras, as roupas da moda e a até mesmo a maneira 'natural' mostrando interesse pelo interlocutor com a qual ela se inclinava na cadeira durante as entrevistas, enfim, tudo, era ensaiado.

Mariana virou uma imagem criada pela mídia. Antes de tornar-se famosa, era apenas uma garota normal, de origem humilde, até que sua voz foi descoberta em um programa de calouros. E era através da voz que ela melhor se expressava; não quando falava, mas quando cantava. Seu maior desejo sempre fora alcançar o maior número possível de pessoas, e poder viver de cantar. Sabia que era talentosa o bastante. Só precisava de uma oportunidade.

Assim, passou horas intermináveis naquela fila, e quando estava finalmente diante dos juízes que diriam se ela entraria ou não na competição, Mariana tremia. Mesmo assim, ao sinal de um deles, soltou a voz, de olhos fechados, e quando os abriu, todos olhavam para ela, boquiabertos, aquele brilho de lágrima querendo cair. Foi unanimente aprovada, e venceu o concurso em todas as etapas. 

De repente, Mariana morreu e deu à luz à Mari Lewis. Cortaram seu cabelo, modificando-lhe  a cor, colocaram em seus dentes placas de porcelana tão branca que eles reluziam quando ela sorria; escolheram suas roupas, sapatos, maquiagem, discurso. Ela não poderia mais cantar o que gostava. Daquele momento em diante, após assinar o contrato, sua voz não seria mais sua: pertenceria aos cartolas e ao público. Modificaram até mesmo o seu passado, exagerando nas passagens tristes, e escondendo o fato de que ela já tinha sido casada uma vez. Escreveram-lhe um novo roteiro de vida.

Percebeu que a família e os amigos se distanciaram, pois sentiam que ela não pertencia mais entre eles. Quando telefonava, era tratada friamente até por sua melhor amiga. Entre os familiares, uma discussão surgiu bem na noite de natal, que ela conseguiu passar em casa após muitos sacrifícios e horas de voo,  quando alguém pediu que ela cantasse, e Mariana disse estar cansada: "Ela só canta para quem paga, gente." Após tal comentário, que Mariana tentou relevar, ela ainda cantou duas ou três canções, acompanhada pelo violão que sempre levava aonde quer que fosse. Ao terminar, a mesma pessoa comentou: "Nos shows você canta bem melhor."

Na manhã do dia 25 de dezembro, após a noite fatídica que rendeu-lhe mais alguns inimigos, ela pegou seu voo e foi fazer sua apresentação de natal, do outro lado do país. Precisava esquecer o que acontecera, e dar o seu melhor, pois seu público a aguardava.

Ao finalizar a maquiagem diante do espelho do camarim, Mari Lewis descobriu que Mariana estava morta para sempre. Não reconheceu o rosto que a olhava no espelho, e ao mesmo tempo, também não reconhecia mais a velha Mariana. Não sabia quem era. Estava rodeada de pessoas que só a queriam devido a sua fama e dinheiro, e descobrira na noite anterior que aqueles que ela pensava que a amavam pelo que ela era, a invejavam. Sentiu-se um nada entre duas pessoas que não existiam. 

Após o show e os aplausos, Mari Lewis foi encontrada morta no camarim; ninguém jamais soube explicar o motivo de sua overdose. 







terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Série Segredos - Conto 5 - O que Ninguém Jamais Soube




A morte é sempre a melhor confidente - Ana Bailune




Bernadete fechou seu diário, dando um longo suspiro. Pousou a caneta na mesinha de cabeceira e apagou a luz. Ficou deitada no escuro, não conseguindo adormecer. Aquilo que acabara de escrever sobre um antigo acontecimento de sua vida causou-lhe uma sensação estranha, pois há muito tempo decidira não mais pensar naquilo. Ninguém jamais soubera daquele fato. As pessoas envolvidas nele já tinham morrido há muito tempo. Ela mesma, às portas da morte, aos noventa e seis anos de idade, sabia que de nada valeria ao mundo a sua confissão tardia. Mesmo assim, era como redimir-se de algo que fizera e que se alimentara de metade de sua alma. Algo que a afastou das demais pessoas, pois tinha um medo absurdo de ser descoberta, mesmo que todas as evidências jamais chegassem a ela. 

Aquela tarde mudara completamente o rumo de sua vida, levando-a àquela cama de hospital onde aguardava, sozinha, a sua hora. 

Enquanto olhava para o teto, escutando os ruídos abafados dos corredores do hospital e também aqueles que entravam sorrateiramente pelas frestas da janela- grilos que cantavam no jardim, como se fossem estrelas caídas que não conseguiam voltar para casa, motores dos carros que passavam, cortando a paz da noite ao meio e distantes latidos de cães - as imagens foram se redesenhando na sua frente, pelos dedos implacáveis da memória.

De repente, ela estava de volta àquela colina, naquela tarde gelada de Junho. Podia sentir o vento cortante sobre a pele do rosto, e também ouvir a voz de Violeta ecoando enfurecida, entrecortada pelo assovio do vento, e via seus olhos injetados de ódio, enquanto esta repetia as palavras que selariam o destino de ambas:

"Você nunca vai se casar com Peter! Ele é um homem de caráter, e tenho certeza absoluta que desmanchará o noivado, assim que souber do que tenho para contar a ele!" 

Bernadete apenas esticou o braço a fim de calar Violeta; fora um gesto impensado, repentino, sem intenções realmente maléficas. Bastou ao toque da ponta de seus dedos para que Violeta perdesse o equilíbrio e despencasse colina abaixo. Não houve gritos. Apenas um olhar apavorado e suplicante, enquanto Violeta, surpresa, mergulhava no abismo. 

Bernadete olhou em volta, e não viu ninguém. A colina estava deserta. Ela chegou na ponta do penhasco, e olhou para baixo. Viu o corpo quebrado da ex-amiga, acomodado sobre uma pedra em um ângulo estranho, beijado pelas ondas. Um pequeno córrego vermelho escorria de sua cabeça, mas era quase que imediatamente lavado pelas águas do mar. Logo, a maré subiria mais um pouco, cobrindo aquela horrenda visão com seu silêncio salgado. 

Bernadete apenas virou-se de costas e tratou de se afastar dali. Não disse nada a ninguém. O corpo de Violeta foi encontrado dias depois, já parcialmente comido pelos peixes. Supusera-se que ela havia caído do penhasco, onde costumava ir sempre a fim de pintar. Dias antes, encontraram seu cavalete, algumas tintas e uma pintura recém-começada junto ao penhasco.

Bernadete casou-se com Peter, como sempre sonhara. Porém, por culpa e  medo de ser descoberta, ela caiu  em um silêncio quase mortal, um estado de distância emocional que fez com que Peter a deixasse pouco tempo depois.  Desde então, ela tornou-se uma ermitã. Aos poucos, os amigos foram se afastando, até que ninguém mais se lembrasse dela. 

Alguns acreditavam que a causa de sua depressão profunda tivesse sido a morte repentina de Violeta, sua melhor amiga. Ninguém desconfiava do que tinha acontecido naquela tarde na colina. Ninguém sabia que, junto com Violeta, morrera um horrível segredo, algo abominável que causaria repulsa em qualquer um que o descobrisse.

A manhã chegou, e Bernadete não mais vivia. Sobre a mesinha de cabeceira de ferro branco, a enfermeira encontrou um pequeno caderno. Como não tivesse a quem entregá-lo (Bernadete não tinha parentes ou amigos e jamais recebera visitas), a enfermeira atarefada jogou-o em um saco plástico sem a menor cerimônia, descartando-o junto com o lixo hospitalar.





quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

SEGREDOS - Conto 4 - JUNTO AO CORAÇÃO






"O coração do homem-bomba faz tum tum
Até o dia em que ele fizer bum!"

Zeca Baleiro



. . . .


Ela era linda, envolta em véus esvoaçantes de azul e dourado. A mecha de cabelo negro aparecia como uma faixa em volta da testa, debruando o véu. De vestido longo, sentada à mesa junto à porta do café movimentado, ela chamava a atenção de todos que entravam e saíam. 

Os homens ficavam encantados por seus olhos verdes, e as mulheres  admiravam sua beleza exótica com silenciosa inveja. Será que estaria esperando por alguém? Com certeza, uma jovem tão bonita não deveria estar sozinha em um país estranho. 

De onde estava, ela olhava as pessoas a sua volta, demorando-se nos rostos felizes das crianças e trocando sorrisos com elas, que ficavam encantadas pela moça bonita. Ela parecia absorver a atmosfera tranquila, o burburinho das conversas, os risos e vozes que se intercalavam, bebendo tudo aos golinhos junto com o seu chá. 

Ela aguardava um sinal. Apertava na mão a pequena chave dourada que lhe abriria as portas para uma vida perfeita. Junto ao coração, trazia um segredo  do qual ninguém suspeitava. Estava feliz, e emanava paz. Daqui a pouco, a bomba que estava escondida junto ao peito explodiria, transformando  tudo e todos em milhões de pedacinhos coloridos que a elevariam ao céu, onde ela era aguardada.




segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

SEGREDOS - Conto 3 - Receita de Família





"O segredo não é correr atrás das borboletas, é só usar inseticida."
 Por William Eduardo da Silva



RECEITA DE FAMÍLIA


Fátima recebera naquela manhã chuvosa de domingo a notícia de que sua avó estava hospitalizada. Clélia, a avó, era uma senhora viúva de 83 anos, embora aparentasse pelo menos dez anos a menos. Bem-cuidada, antenada, era uma avó do tipo que não gostava de croché, preferindo passar algumas horas aprendendo sobre as novidades da tecnologia, moda, os novos lançamentos em filmes e o que acontecia na vida dos famosos. 

Mas se havia alguma coisa que Clélia tinha em comum com outras avós, era o gosto pela cozinha. Portadora do caderno de receitas que estava na família há pelo menos três gerações, ela gostava de escolher o que iria preparar para as reuniões de família que aconteciam mensalmente em sua casa grande, confortável e modernamente decorada. As mulheres da família reuniam-se na enorme cozinha de Clélia, onde cada qual recebia uma tarefa na preparação das refeições, sempre seguindo as instruções de Clélia, e de modo que a receita fosse toda dividida em etapas individuais que dificultassem às mulheres descobrirem o preparo total das receitas. Aquelas eram ocasiões muito divertidas, apesar das pequenas fofocas e rivalidades comuns a todas as mulheres do mundo. 

Então, as pessoas reuniam-se à mesa entre 'hums' e 'ahs', alguns homens perguntando sobre o modo de preparo das receitas, mas Clélia sempre escondia alguns detalhes, mesmo sabendo que um dia o caderno de receitas - um livro grande e grosso, com capa de couro preta e todo escrito à mão pelas matriarcas da família a quem ele pertencera - passaria adiante. Porém, era tradição de família que antes deste momento, as receitas fossem mantidas no livro, não podendo ser copiadas. 

Além de Fátima, havia uma outra prima, Geise, que sonhava  possuir o caderno de receitas, e ela e Fátima tornaram-se grandes rivais. É claro que ambas eram rivais também por outros motivos que ficaram no passado, mas não convém falar deles neste momento... 

Fátima possuía um pequeno restaurante que não ia muito bem das pernas, e que, ela tinha certeza, poderia progredir se ao menos ela possuísse as receitas de família.

Enquanto se vestia para visitar Clélia, Fátima pensava no quanto as noites na casa da avó eram importantes para reunir a família; onde elas aconteceriam agora, caso a avó morresse? Seu apartamento não era grande o suficiente para acomodar as vinte e oito pessoas, e o de Geise, era menor ainda. A casa onde a avó morava, uma bela mansão em uma rua praticamente deserta, era alugada, embora ela já vivesse lá há mais de quinze anos, e seria devolvida aos proprietários assim que a avó morresse. Ela não acreditava que os outros parentes gostariam de assumir a responsabilidade.

Quando Fátima chegou ao hospital, de braços dado com o marido, deu logo de cara com sua prima e rival, além de alguns outros parentes. As duas fuzilaram uma à outra com o olhar, mas cumprimentaram-se educadamente. 

Após inteirar-se sobre o estado da avó, o marido de Fátima despediu-se, dizendo que precisava ir trabalhar, e pediu que se houvesse qualquer mudança, que o comunicassem. Fátima ficou sabendo que Clélia sofrera um AVC leve, e que após um pouco de fisioterapia e alguma medicação, ficaria bem.

E foi exatamente o que aconteceu! Dias depois, Clélia estava em casa novamente, pronta para mais uma reunião de família, embora todos percebessem que ela agora mancava um pouco da perna direita. 

Na noite daquela reunião, equanto desfrutavam da maravilhosa bavaroise de morango, todos foram silenciados de repente pelas batidinhas de um talher em uma taça; era Clélia que pedia a atenção de todos. Aos poucos, fez-se silêncio, e ela começou seu curto discurso:

"Meus queridos, hoje eu tenho uma importante revelação para fazer." Começou um zum-zum entre as pessoas que terminou assim que Clélia voltou a falar:

"Todos sabem que estive hospitalizada há algumas semanas devido a um AVC. Bem, seja como for, ainda estou por aqui, mas a minha estadia naquele hospital me fez refletir sobre algumas coisas. A que servirá como o assunto deste discurso, é justamente o destino do caderno de receitas da família."

Todos olharam para Fátima e Geise, que sentiram seus corações palpitando forte naquele momento. Clélia continuou:

"É de conhecimento de todos que as receitas deste livro vem sendo preparadas há muitos anos, por várias gerações de mulheres em nossa família. Mas qual é, verdadeiramente, o sentido destas receitas? Eu mesma responderei: Não é apenas a culinária em si, mas, principalmente, manter a família unida. Mas eu estou velha. Minha hora está chegando" (houve alguns protestos, que logo arrefeceram, e Clélia pode enfim continuar):

"A fim de manter a família unida, este livro deverá ser doado àquela que mais terá condições de levar nossa tradição adiante. Infelizmente, nos dias de hoje poucas possuem uma casa tão grande que possa acomodar a todos, e pensando nisto, eu me desfiz de minhas economias e comprei esta casa."

Ao ouvir a avó dizer aquilo, todos mostraram grande surpresa. Ninguém tinha conhecimento daquele fato, e imediatamente, cifrões começaram a passar diante dos olhos de algumas pessoas: quanto valeria aquela mansão, e com quanto cada família ficaria, após a venda? Mas o que Clélia declarou a seguir, fez com que as esperanças daquelas pessoas ruíssem:

"A pessoa que vou escolher hoje para seguir com a tradição de família, herdando o caderno de receitas, ficará também com esta casa, que deixarei em usofruto em testamento. E minha escolha foi baseada não em preferências pessoais, mas no que seria mais prático para todos. Escolhi alguém que possui menos responsabilidades, pois não se casou e não tem uma família própria, e além disso,  é mais jovem e tem mais energia." 

Fátima sentiu seu coração gelar. Suas esperanças de herdar o caderno estavam indo por água abaixo bem diante dos seus olhos, juntamente com as esperanças que tinha de reerguer seu restaurante, e achou a decisão da avó tão injusta, que chegou a odiá-la. Ela sequer importava-se com a casa, queria apenas o caderno. Do outro lado da mesa, logo em frente a ela, Geise a fitava com os olhos injetados de maldade e de triunfo. Clélia continuou, dizendo o que todos já sabiam:

"Minha escolhida é Geise."

Todos aplaudiram sua rival, enquanto Fátima, tentando disfarçar seu orgulho ferido, parabenizou a prima com um abraço desajeitado. Foi friamente correspondida, e ainda teve que ouvir algumas ironias ferinas.

 Muitos disseram-lhe que estavam torcendo por ela, e lamentavam, mas ela apenas agradecia-lhes com um sorriso discreto, nada dizendo, a fim de controlar o choro - que finalmente explodiu em cascatas, assim que ela entrou no banheiro e fechou a porta. No final daquela noite, Fátima foi embora sem despedir-se da avó, que morreu apenas dois dias depois. 

Geise mudou-se para  a casa grande e passou a administrar as reuniões, a cozinha... e o tão desejado livro de receitas. Fátima era obrigada a contentar-se em aceitar as tarefas que ela lhe designava, e eram sempre as mais monótonas: descascar legumes, bater claras em neve, lavar a louça. Enquanto executava suas tarefas, o ressentimento ia se tornando uma coisa amarga que ela destilava na comida pelas pontas dos dedos. Cada olhar que dirigia à prima, era cheio de imprecações mudas e desejos de que ela morresse seca e infeliz. A inveja e o ódio passaram a tomar conta de seu coração totalmente. Até mesmo as demais pessoas perceberam a mudança no caráter de Fátima. O marido passou a ser o receptáculo de suas frustrações; o pobre homem era tão maltratado, que passou a dormir no quarto de hóspedes. Finalmente, acabou saindo de casa. 

O restaurante acabou fechando - não por falta do livro de receitas, mas pela qualidade da comida, que caiu vertiginosamente, já que um chef que tempera seus pratos com ódio e ressentimento, envenena a todos. E Fátima culpava a prima Geise de tudo de ruim que lhe acontecia, achando-se vítima de sua inveja e maldade, quando o que acontecia era justamente o contrário.

Certa vez, Fátima leu no jornal um artigo um tanto estranho. Após relê-lo várias vezes, ela recortou-o, levando-o para a cama com ela, acordando várias vezes durante a noite a fim de lê-lo mais uma vez, até que o memorizou. Amadureceu a ideia por dias a fio, pensando nas consequências, vantagens e desvantagens. Estudou tudo meticulosamente. Planejou, previu erros, consertou, reajustou, até que construiu tudo com perfeição. Bastava-lhe uma simples oportunidade, e tudo o que queria seria dela. 

Um dia, ciente da amargura da prima, Geise achou que poderiam fazer as pazes. Afinal, ela já obtivera o que queria, e não via mais motivos para rivalidades. Assim, telefonou à prima. Ambas conversaram durante alguns minutos, e embora Fátima destilasse ódio pelos poros,  mantinha a voz sob controle, em tom casual e alegre, enquanto dizia à prima que rivalidades deveriam ser esquecidas, pois eram parte de uma família, e o desejo da avó (que Deus a tenha)  tinha que ser cumprido. Para selar aquele recomeço, Geise convidou a prima para tomar chá na mansão. 

Fátima chegou às seis daquela mesma tarde, ao crepúsculo. A rua estava deserta, como sempre. Vestia um terninho branco, com uma echarpe rosa-claro que fazia com que ela se parecesse com um anjo. A prima recebeu-a muito bem, e logo passaram para a sala de estar, onde a criada serviu-lhes o chá, antes de despedir-se, encerrando o dia de trabalho.

Durante a conversa, Geise confessou à prima que, no testamento da avó, havia uma cláusula determinando com quem o caderno deveria ficar se algo acontecesse a ela. Os olhos de Fátima brilharam: tinha certeza absoluta de que seria ela a contemplada!

Fátima e Geise esclareceram desentendimentos passados, e ambas perdoaram uma à outra por tudo o que as vinha afastando. Fátima fingiu chorar, e pediu à prima um copo de água com açúcar, e esta foi imediatamente à cozinha para pegá-lo. Aproveitando a ausência da prima, Fátima pegou o vidrinho dentro da bolsa. Custara-lhe muito dinheiro conseguí-lo. O vendedor garantiu-lhe que causaria uma morte sem sobressaltos, muito semelhante a um ataque cardíaco, caso a vítima fosse examinada. Pingou algumas gotas na xícara de Geise. Assim que ela voltou da cozinha, ela aceitou o copo d'água que a prima lhe estendeu. Ambas tomaram o chá em seguida.

Fátima olhava a prima com olhos injetados, enquanto sua garganta levava para dentro de seu corpo um destino que ela nem sequer imaginava. 

Quando Geise finalmente parou de debater-se, Fátima calçou um par de luvas de látex e lavou as louças do chá na cozinha, guardando tudo, e limpando suas digitais com uma flanela macia que trouxera na bolsa, queimando-a assim que chegou em casa. Antes de sair, apagou do telefone da prima os registros de chamada daquele dia. Resistiu à tentação de levar consigo o caderno de receitas, pois em breve, seria seu por direito. 

Naquela noite, Fátima deitou a cabeça no travesseiro sabendo que logo seria a mais nova proprietária do livro de receitas da família. Sendo a que mais desejava possuí-lo, além de Geise,  ela tinha certeza absoluta que a avó teria dado a ela o direito à herança, caso algo acontecesse à prima. Poderia reabrir seu negócio, e quem sabe, reconquistar seu marido. 

Alguns dias depois da morte da prima - que foi dada como ataque cardíaco - Fátima tomou conhecimento de que não era ela a escolhida pela avó. 

Passou então a fazer contas e mais contas: quantos vidrinhos daquele veneno seriam necessários para matar vinte e cinco pessoas, e quanto custariam?













quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

SEGREDOS - CONTO 2 - CIÚME










Este é o conto número 2 da série SEGREDOS.


"O ciumento passa a vida a procurar um segredo, cuja descoberta lhe destruiria a felicidade."- Axel Oxenstiern


CIÚME



Por dentro, logo atrás do sorriso despreocupado, um rio de fel. Martino achava que Linda, sua esposa, o estava traindo. 

Tudo começou durante uma reunião de amigos. Havia na casa cerca de uma dúzia de pessoas que a esposa convidara para celebrar o seu aniversário. Martino, que conversava animadamente com um amigo, viu quando o celular de Linda tocou - a tela acendeu-se, e ela imediatamente o pegou na mesa de centro, deslizando-o para dentro do bolso do casaco, dando uma desculpa para afastar-se dos convidados. Martino logo pediu licença ao seu amigo, e alegando ir até a cozinha pegar mais uma garrafa de vinho, afastou-se discretamente da reunião, seguindo a esposa em silêncio até a área de serviço, onde ficou escondido atrás da porta escutando.

Eram casados há quase vinte anos. Não tiveram filhos por opção, ambos muito dedicados às suas carreiras e também às suas longas viagens de férias, que ocorriam pelo menos duas vezes ao ano. A união tivera seus altos e baixos, mas eles resistiram, pois eram felizes e sentiam-se à vontade juntos. Tinham muitos amigos e uma vida social agradável e intensa. Quando alguém se referia a eles, era sempre no plural: Martino e Linda. Linda e Martino. Eles. Ninguém jamais imaginava um sem o outro. E nem mesmo quando Martino envolveu-se amorosamente com sua ex-secretária (um caso tórrido, pelo menos no início, que durou seis meses e resultou em uma breve separação e uma posterior demissão da moça), os amigos acreditaram que o casal iria separar-se definitivamente. 

Martino  apurou os ouvidos para tentar escutar a conversa da esposa ao telefone, mas os sons que vinham de dentro da casa, as risadas e a música, o atrapalhavam. Mas ele via o rosto de Linda pela greta da porta, entre as dobradiças, e ela ria furtivamente, caminhando de um lado ao outro, enrolando uma mecha de cabelo nos dedos da mão esquerda, murmurando coisas que apenas a imaginação dele poderiam adivinhar. Para Martino, ficara tudo bem óbvio: Linda estava tendo um caso.

Quando ela desligou o telefone, Martino voltou depressa para a sala, a fim de não ser visto, e tratou de colocar um sorriso no rosto para que ninguém notasse sua angústia - principalmente, Linda. Logo depois dele, ela entrou na sala, devolvendo o celular à mesinha despreocupadamente. Os olhares deles se cruzaram por sobre a mesinha, e Linda percebeu que algo não estava bem com o esposo. Aproximou-se, indagando sobre algum possível mal-estar; afinal, ele já tinha bebido bastante. Martino tranquilizou-a, alegando cansaço. 

Após a festa, quando todos os convidados já tinham se retirado e eles estavam sozinhos na casa silenciosa, Martino fingia ler na cama enquanto a esposa despia-se para dormir. Linda, apesar dos seus 45 anos, ainda era uma bela mulher. Ele estava acostumado aos elogios que os amigos faziam a ela. Lembrou-se de quando Linda ficara sabendo do seu caso com a secretária - que ele definiu como uma aventura desimportante devido à crise da meia-idade - mas que mesmo assim, fez com que ela arrumasse suas malas e o pusesse para fora de casa. Não houve gritos nem discussões. Aquela era  a maneira de Linda lidar com as coisas, sempre direta e objetiva. Quando ele chegou em casa e viu suas malas junto à porta, soube imediatamente que Linda descobrira tudo; sem despedir-se, pegou as malas e voltou para o apartamento da amante, com quem viveu por quatro meses. 

Os amigos comentavam o quanto lamentavam a atitude dele: será que Martino não via que Linda era a mulher da sua vida? 

Mas Martino queria voltar; assim que colocou suas escovas de dente no banheiro da amante, ela deixou de ter o sabor de aventura que o atraíra. Vê-la de manhã na cozinha, de rolinhos nos cabelos e  pantufas, folheando um jornal, sem maquiagem e sem glamour, deixou as coisas bastante claras para ele: fizera uma péssima troca. Aquela mulher não tinha sal. Não sabia conversar, era sem-graça a maior parte do tempo. Só falava de compras e de roupas. Até mesmo a cama, que antes os unia, tornara-se apenas uma obrigação. Disse ao melhor amigo: "Quer acabar com o prazer de uma relação extraconjugal? Vá morar com sua amante e faça dela sua esposa."

Finalmente, ele cedeu: foi procurar Linda. Bateu à porta de casa num sábado pela manhã, como se fosse um cão que acabara de quebrar a louça. Ela foi abrir, de pantufas e rolinhos no cabelo, e ele nunca a viu tão linda e desejável. Voltaram. Mais tarde, Martino diria ao mesmo amigo: "Quer ter uma esposa ideal? Faça dela a sua amante." Depois daquilo, houve uma nova lua-de-mel. A secretária foi demitida - única exigência de Linda. Nunca mais Martino pensou em outra mulher. A vida sexual do casal permaneceu tórrida durante algum tempo, mas logo voltou ao antigo ritmo. 

Naquela noite, em que o ciúme queimava seu estômago e esticava suas veias ao ponto extremo, enquanto a esposa se despia, Martino se perguntava o que faria. Deveria confrontá-la, perguntando com quem ela falara ao telefone mais cedo? Talvez fosse melhor segui-la no dia seguinte... 

Súbito, ele foi tomado por um desejo incontrolável de tê-la. Agarrou Linda sem nada dizer, assim que ela deitou-se ao seu lado, beijando-a apaixonadamente, deslizando as mãos pelo seu corpo como se aquela fosse a última vez (ou a primeira?). Parecendo surpresa, Linda correspondeu às investidas dele, e ambos tiveram um final de noite maravilhoso. 

Martino ainda viu sua mulher atender a telefonemas misteriosos em várias outras ocasiões, e sempre que aquilo acontecia, ele ardia de ciúmes, queimava de indignação, borbulhava de desespero, pois não sabia se queria realmente descobrir a verdade. Estaria pronto para enfrentá-la? A única coisa que ele conseguia fazer, era dar vazão ao seu ciúme através do sexo. Amava Linda como nunca fizera antes, às vezes, de forma até um pouco violenta.

E a cada vez que aquilo acontecia, Linda lembrava-se de programar seu celular para tocar em determinadas horas do dia ou da noite, e empenhava-se nas conversas onde o interlocutor era, nada mais, nada menos, que ela mesma. Linda descobrira o prazer de uma vingança bem executada.








SEGREDOS - conto 1 - O VIAJANTE





A partir de hoje estarei postando uma série de contos completos, sob o tema "Segredos." Segredos que temos, dos quais ficamos sabendo, que todos escondemos... quem não tiver um segredo, que atire a primeira pedra.



SÉRIE SEGREDOS – CONTO 1

“Às vezes, os maiores segredos só podem ser revelados a um estranho.” – Michelle Hodkin


O VIAJANTE


Naquela manhã chuvosa de sábado, Luana entregou a passagem ao motorista e entrou no ônibus, rumo a São Paulo, a fim de passar o natal com seus familiares. Morava e trabalhava no Rio de Janeiro há cinco anos, mas fazia questão de passar o natal com a família sempre que podia, pois para ela, “família fazia parte daquelas pequenas coisas que deveriam ser mais valorizadas” – uma frase que ela ouvira de uma das participante de um reality show e jamais esquecera.

Procurou sua poltrona e sentou-se em seu lugar, à janela. Minutos depois, um senhor distinto ocupou o lugar junto ao seu. Trocaram olhares e ele a cumprimentou com um “Bom dia” neutro, e ela respondeu educadamente, logo em seguida concentrando-se na paisagem à janela enquanto o ônibus deixava o terminal e pegava começava a pegar a estrada. Com o canto do olho, Luana observava a camisa de boa qualidade mas antiga, levemente puída no punho, as calças bem passadas e o  relógio de pulso barato e de marca desconhecida usados pelo seu colega de banco de ônibus. Olhou também para o dedo anelar da mão esquerda, constatando que ele não tinha aliança. Nem percebeu que o distinto senhor também a observava discretamente, e seu olhar detinha-se nos joelhos à mostra sob a saia na qual faltava tecido, de cores que ele rapidamente classificou como sendo de mau gosto, e perdia-se entre os seios que surgiam entre o decote vulgarmente generoso da blusa preta justa.

Ela pensava: “Um homem bonito assim, mas sem aliança, só pode ser gay. Ainda mais nessa idade! Deve ter uns cinquenta anos, mas é todo bem cuidado, e solteiro? É gay, com certeza!”  Ele pensava: “Uma linda jovem – talvez tenha uns vinte e cinco anos, porém não deve ter muita coisa dentro da cabeça, pois precisa expor o corpo desta maneira tão vulgar a fim de chamar a atenção. Já deve ter dado para meio mundo. Uma pena!” 

Assim, estabeleceu-se o primeiro contato entre eles e as primeiras impressões (equivocadas, como quase sempre acontece). 

Uma hora depois, Luana despertou com um solavanco do veículo para descobrir que tinha adormecido com a cabeça encostada ao ombro do distinto senhor. Imediatamente, ela desculpou-se, constrangida, alegando imenso cansaço, mas ele apenas sorriu e disse que ela não tinha do quê desculpar-se. As apresentações foram feitas: “Meu nome é Robério Gomes, às suas ordens.”  Luana disse-lhe seu nome, achando engraçada a maneira formal como o senhor se expressava. Logo, estavam conversando animadamente sobre amenidades, esquecidos da distância cultural e econômica que os separava – Luana era de família rica, porém preferia viver no Rio de Janeiro, onde, segundo explicou, a vida era mais divertida e se podia ir à praia quando quisesse. Não gostava muito de estudar, mas formara-se em psicologia e tinha um pequeno consultório em Copacabana – presente do pai, que enviava-lhe uma gorda mesada para que ela pudesse brincar de profissional independente e morar em frente ao mar. Ele escutou atentamente enquanto Luana narrava sua vida feliz, pensando no quanto ela era fútil e tão diferente de sua filha, que só pensava em estudar e ter uma carreira bem-sucedida.

Já Robério, era um humilde professor de matemática. Lecionava em algumas escolas públicas, e sua vida nada tinha de glamorosa. Morava em uma casinha no subúrbio, onde se estabelecera após o divórcio, pois a casa confortável que construíra para o casal e a filha ficara com a mulher após a partilha de bens. Solitário, tinha poucos amigos e não gostava de praia. Preferia passar o tempo livre em casa, assistindo TV. Luana ouviu seu curto relato, sem conseguir esconder sua decepção; ela gostava de homens mais velhos, principalmente os casados, que nada mais queriam que uma simples aventura e não grudavam no seu pé. Este, apesar de bonitão, era um fracassado, segundo suas avaliações. Luana gostava de homens que apreciavam uma balada após o trabalho, e que pagavam as contas dos restaurantes e motéis. Robério parecia não ter um tostão. O interesse sexual que ela havia sentido por ele imediatamente morreu.

Mesmo assim, ela tinha que admitir que Robério era culto e interessante; ele falava sobre vários assuntos que ela não conhecia e não entendia, explicando-lhe pacientemente os detalhes, quando ela fingia demonstrar interesse. Pensou que afinal de contas, Robério deveria ser um ótimo professor. E quem sabe, um bom ouvinte... 
Assim, enquanto a estrada os aproximava cada vez mais do seu destino, a conversa foi aumentando o grau de intimidade entre eles. Luana explicou o motivo de sua viagem a São Paulo, e perguntou sobre o dele, e Robério explicou-lhe que tinha sido convidado a passar o natal com um grande amigo de adolescência que já não via há anos e que reencontrara há apenas alguns dias, quando este estava em viagem de negócios pelo Rio de Janeiro. Tinham sido melhores amigos por muitos anos, mas a mudança de Robério para o Rio após seu casamento, acabara afastando os dois amigos. Aquela era uma chance de reestabelecer a amizade entre eles. 

Luana escutou, concordando com a cabeça. O silêncio caiu entre os dois durante algum tempo, e ela começou a pensar que dali a apenas algumas horas, eles se despediriam e ela nunca mais o veria. Coincidentemente, Robério pensava a mesma coisa, mas para ele, aquilo nada significava, enquanto que para Luana, o fato era visto como uma oportunidade. E foi assim que surgiram as confissões.
Luana abriu-se com Robério; contou-lhe o verdadeiro motivo de ter desejado ir embora de casa e morar longe dos pais: é que sua mãe mantinha um caso com o síndico do prédio há vários anos, e ele não era o único. O comportamento promiscuo da mãe, Luana explicou-lhe, não querendo parecer puritana ou julgadora, em nada a afetaria se esta não fizesse questão absoluta de levar seus amantes para a cama do pai assim que este saía para o trabalho, quase todas as manhãs. Ela sentia-se constrangida com a situação, pois várias vezes acordava e dava de cara com um deles no corredor. Robério tentou não demonstrar seu embaraço após aquelas confissões fora de contexto, e ouviu a moça lamentando a situação. 

Por outro lado, o pai “comia” várias de suas colegas de escola, desde que ela tinha dezesseis anos. Ela mesma já vira algumas cenas tórridas em seu próprio quarto, mas achou melhor não dizer nada a respeito. Mesmo assim, aquilo gerou uma distância enorme entre ela e o pai. Afinal, amigas eram amigas, e deveriam ser respeitadas como tal (embora as suas amigas adorassem toda aquela “atenção” e depois partilhassem com ela os detalhes sórdidos de tudo o que acontecia, e Luana, tentando não parecer puritana, ouvia e dava risadas). E para coroar toda aquela situação, Luana confessou que o pai tinha uma amante no Rio de janeiro há vários anos, uma tal Clotilde (ela notou o rosto de Robério ficando vermelho após ela mencionar o nome da amante de seus pai) que ele visitava sempre que ia tratar de negócios por lá. A mulher até se divorciara do marido para ficar à disposição dele, sustentada por ele. Como ela sabia? Ouvira várias conversas deles ao telefone, e conseguira abrir os e-mails do pai. Robério percebeu o quanto a moça tivera sua educação comprometida, e também a falta de apoio e exemplos que tivera em seu próprio lar, e entendeu o porquê do comportamento dela. Cresceu sem saber o que era o certo e o errado, e com uma visão distorcida da sexualidade. Sinceramente lamentou por tudo o que a jovem tinha passado, e censurou-se por tê-la julgado. Quanto ao nome da amante do pai de Luana, ele atribuiu o fato à coincidência. Quantas Clotildes existiam por aí, além de sua ex-mulher?

Segredos confessados, Luana sentiu um imenso alívio; afinal, jamais falara sobre aquilo com ninguém. Pouco antes de chegarem a São Paulo, ambos se desculparam por “qualquer coisa.” Mais uma vez, o silêncio caiu entre eles, entrecortado por olhares furtivos e sorrisos tímidos. O assunto acabara, a viagem estava chegando ao fim e nunca mais veriam um ao outro. 

O ônibus chegou a São Paulo, e ambos pegaram suas maletas no compartimento de bagagem. Robério colocou Luana em um táxi, e os dois se despediram. Após um café, ele mesmo tomou seu próprio táxi e dirigiu-se para o endereço do amigo, que o aguardava.

Luana chegou à casa dos pais, que estava cheia como sempre, aquele clima de festas de fim de ano onde todo mundo é feliz, risos, brindes, presentes sob a imensa árvore dourada, e a mãe, mais linda do que nunca, abraçada ao pai , foram recebe-la de braços abertos– o retrato do casal feliz e perfeito, durante o reencontro com sua linda e bem-sucedida filha. As pessoas aplaudiam.
 Alguns minutos após sua chegada, a campainha tocou, e o pai foi atender, dizendo: “Deve ser o Robério!”






segunda-feira, 30 de novembro de 2015

O DOM DE ESQUECER - PARTE VI - FINAL






Anna me perguntou qual era meu nome de verdade. Foi numa  noite movimentada, durante o jantar na pousada, enquanto eu saboreava meu caldo de ervilhas. Ela estava sentada, me olhando comer, calada, as mãos cruzadas sobre a mesa. Achei a atitude dela estranha, pois Anna era muito faladeira, e estava quietinha há mais de cinco minutos... os outros hóspedes já tinham desistido, de mim... o rapaz que me olhava estava acompanhado de uma menina recém-chegada, o que me deixou aliviada. 
E foi assim, "do nada," que Anna de repente perguntou: "Você não se chama Nanda, não é?" Senti o rosto queimar e quase engasguei com o caldo, mas me mantive firme, e tentei fazer uma cara engraçada: "Como assim? Meu nome é Nanda sim... aliás, você está certa, não é Nanda, é Fernanda" Ela prosseguiu como se não tivesse me ouvido: "Ontem te chamei de Nanda cinco vezes e você não respondeu..." Eu ri, tentando manter uma aparência casual, mas meu rosto queimava, minha garganta fechou e não consegui mais comer. Anna disse: "Minha mãe gosta muito de você, mas ela também já percebeu isso. E... lembra quando eu te disse que ela era médium? Pois é... ela me falou que vê sempre um menino acompanhando você, o tempo quase todo."

Meu coração gelou, e eu tossi, deixando a colher cair. Anna era bem direta. E eu gostava de gente assim, mas ao mesmo tempo, se eu não sustentasse a minha história, logo todo mundo ficaria sabendo quem eu era. Eu mesma já tinha descolado alguns cartazes com meu antigo rosto dos postes, rasgando-os em seguida. Nos jornais, meu antigo rosto, de cabelos loiros, longos e olhar feliz e sorridente, roupas da moda e nenhuma preocupação no semblante, aparecia constantemente. Eu me sentia estranha quando olhava para ele. Assim, menti: "Não sei do que você está falando, Anna, e pra dizer a verdade, não acredito nessas coisas." Anna riu: "Acredita sim. Ontem, quando você dormiu no sofá lá em casa, disse um nome. Uma lágrima rolou do seu olho, mesmo ele estando fechado, e eu escutei claramwente: "Fred." Depois, você ficou sorrindo e dizendo umas coisas estranhas.

Eu me levantei, dando-lhe boa noite, rindo muito e dizendo que não tinha paciência para aquele joguinho dela. Mas Anna se levantou e foi atrás de mim:

"Escute, Nanda, ou seja lá qual for o seu nome, eu não vou te dedurar. Sei que seu nome não é esse, e creio que se você está escondendo seu nome verdadeiro, deve ter suas razões. Eu só queria ajudar, entender melhor. Não vou sair por aí falando." Olhei para ela em silêncio, durante algum tempo, e convidei-a para entrar em meu quarto. Nós nos falamos durante um longo tempo, e contei tudo a Anna. Só não lhe disse meu nome verdadeiro, com medo de que ela o usasse sem querer, e ela concordou comigo. Eu já não aguentava mais tantos segredos. Ela me ouviu em silêncio, às vezes fazendo algumas perguntas, mas não me julgou ou tentou dar conselhos. Quando eu terminei minha história, ela disse:

"Minha mãe  acredita que os mortos ficam colados na gente quando a gente não os deixa ir, e isso é ruim para eles e para nós. Você precisa desapegar-se do Fred, Nanda. Você ainda tem sua vida pra viver, ele já viveu a dele. Acabou. Pelo menos, por enquanto."

Eu não entendi quando ela disse "por enquanto," e Anna me esclareceu: "Porque o tempo dele aqui nessa vida acabou, mas ele vai continuar vivo em outra lugar, e depois, daqui a algum tempo, vai nascer aqui de novo em outro corpo. É nisso que minha mãe crê." 

Perguntei no que ela acreditava, e Anna olhou para o teto, brincando com uma mecha de cabelo antes de responder: "Dou a tudo o benefício da dúvida. Às vezes acredito no que minha mãe diz, mas acho que muitas coisas não são bem como ela fala. Não pode ser assim tão simples como a religião dela prega, acho que tem coisas que não podemos explicar, e eles dão explicações para tudo. Parece uma fórmula, um livro de receitas!"

Anna me prometeu um livro, que explicaria a doutrina na qual sua mãe acreditava. No dia seguinte, ela trouxe o livro, que eu não larguei o dia todo. Não saí do quarto nem para comer, e no meio da tarde, ela me trouxe um sanduíche e um suco, que eu devorei, ainda na cama, enquanto lia o livro, de camisola. Anna estava certa: algumas coisas até faziam sentido, mas para mim, muitas outras eram absurdas. E de qualquer forma, nada daquilo me traria Fred de volta... foi quando Anna teve uma ideia: e se eu tentasse falar com Fred através de uma sessão espírita? Sua mãe poderia ajudar! No início, fiquei um tanto apreensiva, mas Anna me convenceu de que poderia ser bom para mim - sua mãe era uma médium muito potente. Concordei, ainda hesitante, mas Anna pegou o telefone e marcou tudo com Gabriela, para aquela mesma noite.

Quando chegamos na casa de Anna, Gabriela estava me esperando. Já era noite. O pai de Anna foi dormir - tive a impressão de que ele já sabia o que estava para acontecer, e achou melhor deixar-nos a sós - e Anna também foi para o seu quarto. Prometi que contaria tudo a ela depois. 

Fiquei esperando que Gabriela entrasse em transe ou algo assim, mas ela me pediu para sentar à mesa da cozinha, e olhando para algum ponto à sua direita, começou a conversar baixinho com alguém que só ela parecia ver. Achei que fosse Fred, e quando perguntei com quem ela falava, ela me pediu para ficar em silêncio. Eu me calei, ela fechou os olhos, respirando fundo, e depois que os abriu novamente, olhava para alguém que ela dizia estar de pé à minha direita. Eu quis perguntar se era Fred, mas antes que eu pudesse dizer alguma coisa, ela me calou: "Não diga nada, pois não quero que você pense que me influenciou ou me deu dicas." Antes de ela começar a 'falar' com Fred, eu não tinha dado a ela o nome dele, e ela nada sabia sobre nossa história. 

Ela começou: "Este rapaz a ama muito... ele é alto, tem cabelos castanhos, olhos verdes, um pequeno sinal perto do nariz... uma pequena pinta. As sobrancelhas são grossas, os dedos das mãos são longos e finos. Ele usa um piercing na orelha esquerda... uma meia-lua."  Meu coração quase saiu pela boca: era Fred! Gabriela continuou: "Ele morreu há pouco tempo, alguns meses... acidente... uma motocicleta. Morreu na hora. Ficou confuso por algum tempo, mas você o chamou de volta, e como não sabe para onde ir, ele está sempre com você. Perto de você. Às vezes, ele está tão perto que você pode sentí-lo, e ir a alguns lugares com ele..." Eu comecei a chorar. Gabriela disse: "Ele pede que você não chore mais, Nina." 

Gabriela acabara de me chamar pelo meu nome verdadeiro! Era inacreditável... Eu estava absolutamente surpresa, encantada! Gabriela permanecia de olhos fechados, às vezes, acenando com a cabeça, bem lentamente. Algum tempo se passou antes que ela voltasse a abrir os olhos. Ficamos nos olhando durante um pouco de tempo antes que ela falasse:

"Nina - este é seu nome verdadeiro, não é?" Concordei com a cabeça, e ela prosseguiu: " Lamento profundamente por tudo o que está passando. Sinto muito, a morte é sempre dolorosa, principalmente quando se trata de alguém tão jovem. Mas se eu te dissesse que a vida não acaba nunca, que ela continua, isso faria com que você se sentisse melhor?" 

Não respondi. Ela continuou: 

" Pois é assim, Nina: a vida continua após a morte. A morte é só um caminho novo. Mas para seguirmos bem por esse caminho, não podemos levar nenhuma bagagem e nenhum peso. Ninguém pode ir e permanecer, entende? Você precisa desprender-se de Fred, libertá-lo. Ele ainda não foi porque está preocupado com você. Ele está sofrendo."

Lembrei-me de um dos sonhos que tivera com ele, no qual eu via um portão cheio de luz, que ele desejava cruzar, mas sem mim. Lembrei-me de quando ele me disse que teríamos que nos despedir. Eu chorava muito, mas Gabriela permanecia calma:

"Você já teve seu tempo de chorar por ele. Sei que não foi fácil, pois sua mãe queria livrá-la do luto, como se ele fosse algo que pudesse ser removido com as mãos. Mas já se foram muitos meses... está na hora de começar a despedir-se, ao invés de tentar manter Fred aqui, o que é péssimo para ele e para você. Entenda que sua  mãe a ama muito. Às vezes, qaundo a gente ama tanto assim, não sabe como agir, comete erros... precisa perdoá-la. Aceitar que ela tem defeitos, mas é sua mãe. 

Protestei: "Mas ela quer me dominar, determinar como eu posso ou não me sentir! Ela nem admite que o nome de Fred seja mencionado! Eu não aguentava mais viver tão sufocada, sem poder chorar, sentir, conversar sobre ele com alguém. Não tenho amigas. Nenhuma amiga! E tudo por causa dela, que me educou dessa forma preconceituosa e egoísta."

Gabriela fez sinal para que eu me calasse: "Sua mãe a educou da forma como ela foi educada. Achou que estava lhe dando o melhor que tinha, Nina. Você não tem que concordar com ela, mas precisa encontrar um jeito de amá-la. Não precisa fazer o que ela quer, mas precisa aprender a discordar sem brigar com ela. Isto depende de você, não é só dela."

"Mas... eu nunca mais vou ver o Fred, ou sentí-lo perto de mim? isso é absurdamente doloros, eu não posso deixar!" Gabriela me abraçou, acariciando meus cabelos para que eu me acalmasse: "Querida, não se trata de deixar ou não. Você pode lidar com a perda como quiser: abrir mão de quem se foi, mantendo na lembrança os bons momentos - que são seus, você os viveu e jamais os perderá - ou tentar agarrar-se a alguém que não está mais presente fisicamente, e tornar-se escura, pesada, depressiva, além de empacar o caminho dele e o seu. O que você prefere?"

Eu ergui meu rosto para olhar para ela: "Eu... acho que não quero que Fred sofra mais."

Assim, Gabriela fez com que eu me sentasse a fim de encerrar a sessão, mas ela ainda ficou algum tempo de olhos fechados, e vi quando lágrimas rolaram dos olhos dela, até que ela não pode mais controlar-se e chorou copiosamente. Quando abriu os olhos, Gabriela me disse que a partir daquele instante, tudo ficaria bem. De repente, eu senti uma mudança na atmosfera. Era como se eu começasse a me sentir mais leve. Eu andava me sentindo pesada há tanto tempo e nem percebia, mas agora que me sentia leve novamente, era como se algo muito escuro, como tentáculos de tristeza, se desprendessem de mim. 


No dia seguinte, telefonei para meus pais, que foram me buscar. Fiquei surpresa ao ver que Cátia também estava lá, e que ela e mamãe conversavam pacificamente. Quando falei com meu pai sobre aquilo, mais tarde, ele me disse que a dor as unira. Finalmente, mamãe havia se aberto e aceitado que o casamento deles já tinha acabado há muito tempo, mesmo antes de Cátia aparecer na vida dele. Portanto, não havia motivos para que as duas se odiassem. Talvez jamais fossem amigas, mas era possível que ambas estivessem presentes nas mesmas festas de aniversário. 

Fiz as apresentações entre meus pais e Anna e sua família. Havia uma faculdade de agronomia em Sinai, e manifestei meu desejo de frequentá-la. Mamãe lamentou que eu não quisesse estudar Direito, mas prometeu que eu poderia estudar e morar em Sinai, assim que terminasse a escola. Depedi-me de Anna e de sua família, mas mantivemos contato sempre através de telefonemas, e-mails e visitas em alguns finais de semana, até que eu terminei a escola, fiz o vestibular e pude mudar-me para Sinai, onde fui muito feliz. Ah, e o rapaz que sempre me olhava... Sérgio... bem, estamos juntos. Fazemos um ano de namoro amanhã.



. . . . . . . . .. . . . . . . . . . 




GABRIELA




Devo dizer que sou, realmente, médium. Tenho sensações e percepções a respeito das pessoas, embora não encorpore espíritos. Posso ter sonhos premonitórios, porém tais acontecimentos não dependem de minha vontade. Antes mesmo que Nina chegasse à cidade, sonhei com uma menina, cujo rosto não pude ver. Meus guias me diziam que a estavam mandando para que eu a ajudasse. Falaram também o espírito de um rapaz que precisava de ajuda. Porém, quase dois meses se passaram, antes que eu tivesse contato com Nina. 

Quando Anna chegou em casa, trazendo pela mão aquela mocinha de semblante triste, eu logo percebi que Nina carregava uma grande dor dentro dela, e que se tratava da menina do meu sonho. Nina passou a frequentar nossa casa, mas era sempre 'escorregadia' quando eu fazia perguntas sobre sua vida, de onde ela vinha, seus pais. Eu percebia que ela estava mentindo, mas não queria confrontá-la, com medo que ela fugisse. Logo, percebi que a raiz do cabelo dela era clara, e portanto, ela os tingira de castanho. Bem, quase toda mocinha deseja clarear os cabelos; por que ela os escurecera? Só poderia estar se escondendo!

Um dia, abri o jornal e deparei com a fotografia de uma menina desaparecida, que morava em uma cidade que ficava a alguns quilômetros de distãncia. Os cabelos eram diferentes. As sobrancelhas eram diferentes, e as roupas, nem se fala... mas ela tinha o mesmo queixo, os mesmos olhos claros, o mesmo nariz afilado... apenas parecia bem mais feliz. Pedi a Anna que tirasse uma fotografia de Nanda - ou Nina - com seu celular, sem que esta percebesse, e ela o fez, trazendo-a para mim. Nós comparamos as imagens e constatamos que se tratavam da mesma pessoa. 

Liguei para o telefone que estava no jornal, e fiz contato com a mãe de Nina. Ela estava desesperada! Queria vir pegar a filha na mesma hora. Tentei conversar melhor com ela, e de alguma forma, convenci-a a contar-me tudo o que tinha acontecido, e que fizera com que Nina fugisse de casa. No dia seguinte, ela, o marido e a a nova esposa chegaram a Sinai, mas sem  que Nina soubesse. Nós os recebemos em nossa casa no meio da madrugada, para não corrermos o risco de que Nina aparecesse para uma visita. 

Após conversar com Marta, a mãe de Nina, por algum tempo, notei o porquê de Nina ter preferido fugir de casa... ela era intransigente, um tanto mandona e não gostava de ser contrariada. Mesmo assim, senti que tinha uma alma sincera e boa, apenas encoberta por uma educação rígida e preconceituosa. Aconselhei-a a tentar ser mais flexível com Nina. Ela me olhou 'de cima' e agradeceu por eu ter feito contato, mas respondeu-me que da educação da filha, ela mesma cuidaria. 

Foi quando Cátia teve uma idéia: quem sabe, a minha mediunidade pudesse ajudar Nina? Após os protestos de Marta, dizendo que não permitiria que sua filha fosse envolvida "naquelas coisas," Cátia explicou-nos seu plano: eu ajudaria Nina a fazer contato com Fred, e a despedir-se dele. Talvez, se ela visse a perda através de um ponto de vista mais espiritual, fosse fácil para ela deixá-lo ir. Eu respondi que não fraudaria uma sessão espírita, pois era totalmente contra meus princípios. Eles insistiram, dizendo que era por uma boa causa, e mesmo quando eu disse que eu não via espíritos, mas que agia somente através da intuição, elas disseram-me que uma pequena mentirinha, apenas para ajudar Nina, seria perdoada por Deus.

Eles se foram, e fiquei de pensar sobre o assunto. naquela noite, um novo sonho deu-me a certeza que eu precisava: eu deveria ajudar Nina, nem que para isso, eu tivesse que mentir. Marta entregou-me uma fotografia de Fred, que me serviu para descrevê-lo para Nina. Depois, combinei com Anna que ela despertasse em Nina a vontade de falar com Fred, o que não foi tão difícil.

Mas durante a falsa sessão espírita, já quase no final da mesma, tive uma surpresa: eu estava de olhos fechados, simulando o encerramento da sessão, quando eu senti a presença de Fred ao meu lado. Ele sussurrou um agradecimento em meu ouvido, e disse que tudo ficaria bem, e que ele agora estaria livre, pois meu guia o estava ajudando. Também senti quando ele foi embora. Ao abrir os olhos, tive a certeza de que ele não estaria mais presente. a emoção foi grandiosa, e então eu soube que tinha feito a coisa certa.

Nina e Anna ainda são amigas, e estão sempre juntas. Nina planeja ficar em Sinai após formar-se, e seu pai está de olho em um pequeno sítio aqui perto. Marta e eu também ficamos amigas, e ela também vem com frequência. Ela planeja abrir uma pequena pensão, mas deseja que eu me torne sua sócia, tomando conta de tudo quando ela estiver na cidade. Acho que vou aceitar.





"Às vezes as mentiras também ajudam a viver" - Roberto Carlos, na canção "Traumas"







quinta-feira, 26 de novembro de 2015

O DOM DE ESQUECER - PARTE V






Dormi, e quando acordei, o quarto estava bem escuro, e chovia muito pesado. Meu estômago roncou, mas apesar da fome, eu sabia que não conseguiria comer nada, pois sentia muita ansiedade, e a boca estava seca. Fui ao banheiro e tomei água da torneira, escovei os dentes. Olhei meu novo rosto no espelho e resolvi modificar minhas sobrancelhas, que eram cheias, arqueadas e marcantes. Peguei a pinça na mochila, e deixei-a bem mais fina que o normal. Ensaiei afinar os lábios com a ajuda de um batom marrom-claro sem brilho, e o resultado foi surpreendente: aquela pessoa ali no espelho não era eu. Achei melhor escolher outro nome também, e criar uma história para mim, caso alguém perguntasse. E é claro, durante o dia continuaria a usar meu chapéu e óculos escuros, se necessário.

Achei que meu novo nome seria Fernanda. Sempre gostei deste nome. Eu era do Rio de Janeiro, e estava passando férias pela primeira vez sozinha, pois descobrira que meu namorado estava tendo um caso... não; não gostei daquela ideia. Eu estava passando férias sozinha porque tinha perdido meus pais, que me deixaram uma herança e... não; aquela história também não estava boa, exagerada e dramática demais.

Finalmente, decidi: Meu nome seria Fernanda, ou Nanda para os íntimos; eu tinha dezoito anos recém-completados, vinha do Rio de Janeiro (morava na Barra da Tijuca) e estava passando férias sozinha pela primeira vez porque queria. Estava cansada de viajar com meus pais todo ano. Não gostava muito de conversar com estranhos, e era de falar bem pouco.

Meu estômago roncou de novo. Achei melhor ir procurar alguma coisa para tentar comer. Não comia desde cedo. Não tinha almoçado, e sequer terminara meu café com pão no Tavinho's. Tranquei a mochila no armário e joguei a chave dentro de um par de sapatos, que deixei em baixo da cama. Peguei um pouco de dinehiro e coloquei no bolso. Desci as escadas, e escutei música de violão, gaita e gente cantando. Anna ainda estava na recepção, e perguntei se ela sabia onde eu poderia comer. Anna me disse que a pousada servia um caldo toda noite, com croutons e fatias de pão, e que eu podia escolher entre abóbora com gorgonzola ou creme de ervilhas. Ela me levou até a cozinha, que era um espaço grande, cheio de mesinhas, onde meia-dúzia de jovens jantava, e dois deles tocavam a música que eu estava ouvindo. Sentei-me em uma mesa no canto, me sentindo observada. Acenei para eles, mas procurando não ser simpática demais,  e fiquei observando o ambiente.

Era self-service, por isso levantei-me e peguei um pouco do caldo de abóbora com gorgonzola, uma fatia de pão e um copo de suco de cajú de garrafa. Sentei-me para comer, a cara enfiada no prato para não ter que olhar para ninguém. Mais uma vez, imaginei que Fred estava ao meu lado, me dizendo para erguer a cabeça. Ele também comentou sobre meu novo corte de cabelo, e zombou de minha nova aparência. Eu ri disfarçadamente. Fred pegou a colher e provou do meu caldo, fazendo careta e dizendo que detestava gorgonzola. Eu sabia. Depois, ele ficou muito sério, e me olhando bem fundo, disse: "Você precisa descobrir uma maneira de voltar a ser feliz. Não de ser a mesma, pois tudo o que aconteceu mudou você. Sua vida mudou, seus pais se separaram, eu morri, e você descobriu algumas coisas importantes, como por exemplo, o que suas amigas realmente pensam sobre você, e porque... agora, precisa encontrar um jeito de se readaptar, mudar suas atitudes em relação às pessoas e seguir em frente." 

Eu disse que não conseguiria sem ele. Precisava dele. Ele não tinha o direito de morrer e me deixar tão sozinha. Ele era a única pessoa que me amava e me entendia, mesmo sabendo o quanto eu era besta e metida. Uma metida a besta. Ele sacudiu a cabeça, e ainda sério, respondeu: "Eu sempre vou amar você assim, ou seja como for, pois eu já te amo há mais tempo do que você imagina. Já nos conhecemos antes, Nina, mas você não se lembra... " aquilo me deixou confusa: perguntei, 'Como assim nos conhecemos antes?' Ele disse que um dia eu ia entender tudo, mas que não era importante agora. 

Eu estava chorando quando ergui a cabeça, e mexia o caldo já frio e quase intocado com a colher. Dei com um menino me olhando. Ele tinha cabelos compridos e loiros, e vestia uma camisa de xadrez, de flanela que eu achei o cúmulo da cafonice. Era bonitinho, mas a antiga Nina jamais olharia para ele com interesse, pois a aparência dele não era 'cool.' Ele não parava de me olhar mas antes que ele viesse com ideias de me perguntar qualquer coisa, peguei o pão, dei uma duas ou três colheradas no caldo, bebi o suco todo de uma vez só e voltei correndo para o quarto. Deixei para trás o som alegre da música de Bob Marley que eles começaram a tocar. 

No dia seguinte, a noite tempestuosa tinha cedido lugar para uma manhã radiante de luz, com direito a passarinhos cantando na janela, e o perfume do pinheiro entrando pelo quarto. Tinha sido uma noite sem sonhos, pela primeira vez desde que Fred morrera, e fiquei preocupada, apavorada diante da possibilidade de que os sonhos tão reais que eu vinha tendo com ele fossem apenas efeitos dos remédios, que eu já não tomava há dias. Mas lembrei-me da noite anterior, na cozinha da pousada, e fiquei mais tranquila. Era só fechar os olhos, e ele estaria comigo. Ele prometera.

Joguei as cobertas para o lado e fui tomar um banho, o primeiro em dois dias. No boxe do banheiro, resquícios escuros da tinta de cabelo de minha mãe escorreram pelo ralo. Sequei os cabelos curtinhos com a toalha, ajeitando-os com as mãos, e gostei do resultado. Nada de escovas demoradas sob secadores superquentes. Nada de horas e horas na cadeira do cabeleireiro, renovando o reflexo das madeixas. Cabelos curtos e escuros eram uma liberdade que eu nunca conhecera, e estava gostando.

Desci para o café, mas achei melhor tomá-lo no Tavinho's, pois não queria reencontrar o garoto da noite passada, que não parava de me olhar. Antes de sair, resolvi conversar com Anna, algo que eu jamais faria antes- puxar assunto com estranhos se não tivesse nenhum interesse pessoal neles - e Anna me recepcionou com um sorriso enquanto tirava o pó do balcão. 

Perguntei há quanto tempo ela trabalhava ali, e ela me disse que a pousada era de uma tia, que estava fora da cidade e dera-lhe o emprego há seis meses. Ela disse que gostava do contato com as pessoas, que conhecera muita gente interessante com os quais mantinha contato pela internet, e que alguns deles já tinham voltado a Sinai para revê-la. Fazia amizades facilmente. Pensei nos amigos que eu achava que tinha, e com os quais nunca me importava de verdade, e da distância deles na hora em que mais precisei - a mesma distância que eu estabelecia entre mim e alguém que estivesse em dificuldades. Pensei também que talvez Anna tivesse alguma coisa importante para me ensinar. Quem sabe, ela poderia me ensinar a ser humana?

Ficamos conversando mais alguns minutos, ela sempre me chamando pelo nome que eu assinara na ficha, ou seja, Fernanda, e eu me senti confortável por não ser mais a Nina antiga, e porque ninguém ali sabia quem eu era, ou conhecia meu passado, as coisas que eu tinha feito, meu egoísmo e superficialidade.

Quando cheguei ao Tavinho's, a lanchonete estava cheia, e fui tomar café no balcão. Fiquei surpresa ao ver que o rapaz atrás do balcão era o mesmo da noite anterior na pousada. Quando me viu, ele me atendeu de maneira simpática, mas eu me mantive distante. Ele de repente esticou a mão sobre o balcão e se apresentou: "Sou o Tavinho." Aquela atitude me desarmou, e pude sorrir e dar meu novo nome, apertando a mão dele. Perguntei-lhe se ele cuidava da cozinha da pensão, e ele me disse que gostava do caldo que eles serviam, e que ia lá quase sempre, ele e Anna eram amigos, mas que não trabalhava por lá.  Depois ele me perguntou o que eu faria após o almoço, e eu me fechei novamente.

Não estava pronta para  aquilo. Não queria. Não podia, não ia aguentar. Portanto, disse que tinha um compromisso, e pela cara dele, vi que não acreditou em mim, mas não discutiu.

 Anna me convidou para ir até sua casa após o expediente, e aceitei. Saímos juntas e fomos caminhando e conversando sobre coisas de escola. Quando estávamos nos aproximando da casa, Anna apontou-me uma casinha branca, que ficava por trás de um portão baixo de ripas de madeira. A casa era muito simples. O quintal era de terra, pequeno, com árvores frutíferas que Anna me apontou (parecia orgulhosa delas) e me apresentou como sendo a goiabeira, a jabuticabeira (coberta de frutos; me encantei, jamais imaginara como seria uma jabuticabeira), a pitangueira e o pé de limão. Havia alguns cães passeando pelo quintal, que recepcionaram Anna com festinhas e latidos alegres. Fiquei com um pouco de medo, mas ela me convenceu a acariciá-los, e eles logo tornaram-se amigáveis.

A casa de Anna era de uma simplicidade tocante, que eu nunca experimentara. Muito diferente das casas às quais eu estava acostumada, pensei. Era a primeira vez que eu entraria em uma casa daquelas, e fiquei um pouco apreensiva - resquícios da educação distorcida que recebera.

Antes de abrir a porta da sala, Anna segurou meu braço, dizendo: "Fernanda... devo prevenir você sobre minha mãe... ela às vezes é meio-esquisita." Eu ri alto: "Ah, é porque você não conhece a minha!" Ela riu também, e completou: "Não é isso... é que minha mãe é médium, e às vezes fala coisas estranhas, mas não preste atenção." Concordei com a cabeça, desta vez bem séria. Entramos.

A sala era pequena. Havia um sofá de três lugares, uma estante velha e lascada com alguns livros e um televisor antigo, uma cadeira em um dos cantos e um tapete artesanal no meio do cômodo. As paredes eram pintadas de azul claro, e havia uma imagem de Cristo, um rosto, na parede oposta a da TV, atrás do sofá. As cortinas da única janela, que dava para a frente da casa, era de renda branca barata. Mas havia uma coisa naquela pequena casa que eu nunca tinha visto ou sentido nas casas que eu estava acostumada a frequentar: paz. Logo, a mãe de Anna veio da cozinha, e quando me viu, tomou um ar um pouco formal. Anna nos apresentou: o nome dela era Gabriela, e ainda era bem jovem, aparentando ter uns quarenta anos. Um pouco cheinha, mas bonita, e quando ela me cumprimentou com um beijo no rosto, senti um perfume delicado de alfazemas.

Ela nos chamou para a cozinha, pois estava preparando o jantar, e me intimou a jantar com eles.

Na cozinha, percebi que seria melhor aceitar o convite, pois o cheiro era delicioso. Gabriela estava preparando carne moída com azeitonas, arroz e feijão, e sobre a mesa já havia um prato de salada de tomates e alface. De repente, minha fome voltou com força total!

A cozinha era bem maior que a sala. O chão, de azulejos hidráulicos antigos, era imaculadamente limpo. O fogão era branco e bem velho, a geladeira também. Havia uma mesa de madeira enorme bem no meio, com cadeiras diferentes umas das outras. Em um canto, um fogão à lenha. Eu nunca tinha visto um de perto. Gabriela me explicou que ainda preparava refeições nele, para economizar gás quando necessário, e também fazia pizzas e bolos para vender. Anna explicou que sua mãe preparava festas, fazendo doces e salgados. Seu pai era serralheiro, e tinha uma pequena oficina nos fundos do quintal. O pai de Anna entrou naquele momento, enxugando o suor da testa, e me cumprimentou com simpatia. O chiado da panela de pressão intensificava aquele ambiente tão doméstico, simples e pacífico. Pedro, o pai de Anna, pediu licença, dizendo que precisava de um banho antes  do jantar.

Gabriela, a mãe de Anna, Colocou os pratos, garfos e copos sobre a toalha imaculadamente branca da mesa, e no meio, uma garrafinha de molho que ela transformara em vaso de flores, contendo algumas margaridas. Percebi que talvez aquela fosse a melhor toalha que tinham, para ocasiões especiais, e que aqueles pratos e copos simples, mas com aparência de novos, eram os melhores que tinham, e senti-me honrada. Jantamos, e há muito tempo eu não comia tanto e com tanta vontade. Gabriela encheu meu prato três vezes, e eu tentei recusar por educação, mas as três vezes, ela repetiu: "Você precisa se alimentar melhor. Está magrinha, não come direito há muito tempo." Lembrei-me do que Anna dissera sobre a mediunidade da mãe. Eu não acreditava naquelas coisas,  e concluí que Gabriela era apenas uma boa observadora.

Após o jantar, Anna levou-me para conhecer seu quarto.

Sobre a cama, uma colcha de retalhos linda, toda colorida, que ela disse ter sido feita pela avó, que morava perto dali. Havia também uma mesa de estudos, um aparelhinho de som, um armário de roupas antigo e uma cadeira. Não havia televisor ou banheiro privado. Tudo era extremamente simples, mas também ali, eu senti uma paz enorme. Escutamos música baixinho, enquanto os pais dela assistiam TV na sala. Os ruídos domésticos eram tão serenos, a água na pia da cozinha, a TV, os cães brincando do lado de fora. Senti que gostaria de ter nascido ali. Descobri que adorava aquela vida, e comparei-a à casa enorme e luxuosa onde eu vivia e ninguém se entendia, a sala de visitas quase sempre vazia. As casas de meus antigos amigos também eram como a minha: decoradas como casas de revista, frias, impessoais.

Passei a frequentar a casa de Anna quase todos os dias, e também conheci alguns de seus vizinhos.

As pessoas ali eram simples, seus problemas eram de origem prática - o que preparar para o jantar, o tema da festinha de aniversário, a pintura da parede. Ninguém ficava racionalizando a vida, tentando ver coisas por trás das coisas, adivinhando nos outros pensamentos ou intenções que não existiam. Não havia preocupação com aparências, competições, luxo. A maioria das pessoas não frequentara faculdade, e ganhavam a vida através de trabalhos como marcenaria, artesanato, apicultura, mecânica de automóveis, confecção de doces e salgados, costura, serralheria, agricultura, administração de pequenos negócios como bares, restaurantes e pousadas. As casas eram simples e confortáveis, aquecidas e práticas. Não havia grandes ambições de vida. Eram felizes.

Quando alguém morria, eles faziam o enterro, a missa de sétimo dia, e depois deixavam a pessoa ir, continuando a levar a vida, sem questionar ou revoltarem-se contra Deus ou quem quer que fosse. No período em que estive lá, Anna perdeu uma prima ainda jovem, e todos choraram, e se despediram, e falavam sobre ela normalmente durante dias, sem constrangimentos, e aos poucos, foram curando suas dores.

Eu os invejei.

Enquanto isso, naquelas duas semanas em que comecei minha amizade com Anna e constatei todas essas coisas, eu continuava chegando ao meu quarto na pensão, fechando os olhos e chorando por Fred. Sentia saudades dele o dia todo, mas ao mesmo tempo, eu estava gostando de ser a Fernanda. Era como se meu novo nome e minha nova vida fossem também um universo no qual a dor não existia. Apenas quando eu estava só e voltava a ser a Nina, a dor também voltava. Eu me lembrava de minha antiga vida, de meus pais, da escola que abandonara. Às vezes eu pensava que poderia nunca mais voltar; poderia escolher ficar ali para sempre, sendo a Fernanda, quem sabe até conseguiria documentos falsos. Nunca mais teria que enfrentar meus velhos fantasmas e problemas novamente.

Mas logo aqueles pensamentos e desejos seriam confrontados por Gabriela.




(continua...)







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