segunda-feira, 6 de novembro de 2017

AMOR E REVOLTA – Capítulo IV





Mas na hora do intervalo, enquanto se dirigia a uma das mesas vazias do refeitório a fim de comer seu lanche sozinho, Marvin foi surpreendido: vários colegas foram sentar-se com ele, e começaram a se apresentar e a trata-lo muito bem. E o melhor de tudo, é que nenhum deles tocou no assunto ou o tratou de forma estranha ou protetora. Após terminarem de comer, alguns se afastaram, e Marvin se viu sozinho à mesa com apenas Fabinho, um menino de estatura baixa e cabelos lisos que caíam sobre um dos olhos. Fabinho atacava mais um sanduíche, quando Marvin criou coragem e perguntou:

-Quem é aquela menina que chegou por último na sala hoje? 

-Ah, aquela menina? É a Jane Rain.

-O que?

-Jane Rain! Este é o nome dela. Mas todo mundo a chama só de Jane. 

-Uau! Nome diferente. Ela é muito linda. 

-É...

Marvin percebeu um tom de voz e um olhar estranhos em Fabinho, e perguntou:

-Algo errado com ela?

Fabinho encolheu os ombros, dando mais uma mordida no sanduíche:

-Não, nada. É que... bem, descubra por si mesmo. Ela é uma garota diferente das outras. 

-Diferente como?

-Difícil dizer. Mas você vai acabar notando. Não vou estragar a surpresa. Bem, vou dar um giro. Quer vir?

-Não, obrigada. Acho que vou ficar por aqui. A gente se vê.

Naquele momento, ele viu que Fabinho olhava para alguma coisa acima e por trás dele, e instintivamente, Marvin olhou para trás. Deu com Jane. Jane Rain. Ela estava de pé logo atrás dele, e ele se perguntou o quanto daquela conversa ela havia escutado. Sem pedir licença, Jane sentou-se em frente a ele.

-O que quer saber sobre mim?

-Olha eu... desculpe, eu não queria... fofocar... nem sei onde enfio a cara.

Ela riu alto:

-Não se preocupe, ninguém liga muito para nada por aqui, e ninguém tem segredos também. Costumamos partilhar tudo uns com os outros. Faz parte da doutrina da escola: sem segredos!

Ele pensou um pouco antes de dizer:

-Sem segredos? Mas por que?

-Porque é melhor assim.

-Há quanto tempo está aqui?

-Dezesseis anos. Desde sempre. É que aqui nós aprendemos que sermos verdadeiros a respeito de nós mesmos ajuda-nos a sermos verdadeiros uns com os outros, o que nos leva a mentes mais saudáveis. Sem máscaras. Você marcou pontos hoje na sala com o Fernando, dizendo a verdade sobre você. 

Ele pensou mais um pouco, e concordou com a cabeça.

-Então eu posso te perguntar o que eu quiser?

Ela concordou com a cabeça. Marvin sentiu que o olhar dela era profundo. Quase queimava. Notou o esmalte preto descascando um pouco nas pontas das unhas. Viu que a cor rosada forte dos lábios dela era natural, e que ela não usava batom. Ela era realmente linda. 

-Aquele menino que você beijou. É seu namorado?

Ela olhou-o divertida, antes de cair na gargalhada:

-Não! O que o fez pensar que fosse?

-Bem, o óbvio: vocês se beijaram!

-Um beijo não quer dizer nada. E que palavra mais antiga essa: “namorado!”

Ele riu, confuso:

-Então... do que devo chamar duas pessoas que se gostam e estão juntas?

-De nada! Por que você quer dar nomes a tudo? As pessoas apenas são! Por que rotulá-las? 
Marvin pensou que ela era uma garota estranha. Resolveu investir mais fundo na conversa:

-Qual é o seu segredo?

Ela respondeu quase que imediatamente:

-Eu não tenho segredos.

-Você parece estar na defensiva.

Ela ficou olhando para o chão por um longo tempo, antes de responder. Finalmente, concordou com a cabeça:

-É verdade. Mas se eu te contar, não será mais segredo. 

Olhou-o nos olhos, sorrindo, e o sorriso dela pareceu a Marvin a própria luz do sol. Adorou os dentes brancos de Jane, e o charme que os caninos ligeiramente maiores que os demais dentes lhe davam. 

Ela suspirou antes de dizer:

-Vou te contar o meu segredo, porque eu gostei de você, e não quero que fique chateado comigo se descobrir por outra pessoa. 

Ele a olhou nos olhos, esperando.

-Eu fui menino. Até os sete anos de idade. 

Marvin sentiu a própria boca se entreabrir, e a cor fugiu de seu rosto. Ele realmente não estava pronto para aquela revelação. Ela estudou a reação dele, e erguendo uma mão, completou:

-Deixe eu explicar: eu tinha os dois sexos. Nasci uma menina que tinha um pênis e os sacos escrotais. E todo o aparelho reprodutor feminino. Mas eu sempre me senti menina. Minha mãe me deu o nome do meu avô: Jaime.

Marvin não sabia o que dizer, e confessou aquilo a ela. Jane continuou sua história:

- Os médicos disseram aos meus pais, quando nasci, que eu poderia optar. Eles esperaram até que eu crescesse. Estudaram minhas reações. Viram que eu preferia bonecas e vestidos, e gostava de maquiagem. Um dia, eles me perguntaram se eu queria ser menino ou menina. Mostraram-me algumas fotos – até então eu não tinha ideia de que eu era diferente das outras crianças. O médico me esclareceu as dúvidas. Disse que eu poderia escolher ser o que eu quisesse, e que se escolhesse ser menino, tomaria alguns remédios que me ajudariam, e em ambos os casos, teria que passar por uma cirurgia, mas teria que esperar mais um pouco. Mas eu não tive dúvidas: eu sempre me senti menina. 

-E aí você fez ... uma operação?

Ela concordou com a cabeça. 

-Removeram meus órgãos masculinos. Hoje, se você olhar, nem notará a diferença, ou quase... há algumas poucas cicatrizes, mas os pelos pubianos as escondem. 

-E você é... menina de verdade, quero dizer, pode ter filhos se quiser?

-Claro. Como qualquer mulher. Pelo menos, acho que sim, porque eu tenho o aparelho completo. 

-E você jamais se arrependeu da sua escolha?

-Até agora, não. 

Marvin ficou pensando no que ela queria dizer com “Até agora,” mas não disse nada. Ao invés disso, perguntou;

-E por que você beijou aquele cara? Eu tive uma forte impressão de que ele está a fim de você.

Ela ergueu as sobrancelhas:

-Impossível.

-Por que? 

- Porque seria mais provável que ele se interessasse por você. Juninho é gay. 

Ele engoliu em seco. Nunca tinha estado diante de uma situação como aquela. 
Naquele instante, o sinal para entrarem tocou, salvando-o de dizer qualquer coisa. 
Marvin nunca sentira preconceito de qualquer tipo, mas estar interessado em uma garota que foi menino até os sete anos, deixou-o um tanto confuso. Ao mesmo tempo, não conseguia tirar os olhos de Jane. Ela era linda demais! Havia tantas coisas que gostaria de perguntar a ela... será que já tinha ficado com outros meninos? Será que ela se interessava por meninas? Ele rezava para que ela se interessasse por ele. Ao mesmo tempo, dizia que não. Como contaria aquela história para seus pais e avós? Eles entenderiam? 
E eles precisavam mesmo saber?

Ao final das aulas, Jane pegou seus livros e saiu correndo, e Marvin sentiu-se frustrado por ela não tê-lo esperado. Tomou o ônibus para casa, e ao chegar, fechou-se em seu quarto a fim de pensar melhor nos acontecimentos daquele dia. 
Disse aos pais, mais tarde no jantar, que tinha gostado da escola, e viu os dois suspirarem de alívio. Atendeu a um telefonema da vó Helena, e assegurou-lhe que a escola era ótima, e que ele estava bem. 

Marvin ficava mais fascinado por Jane a cada dia que passava. Tudo o que fazia, tudo o que vestia, ele pensava na aprovação dela. Toda manhã, antes de sair de casa, ele se olhava no espelho e se perguntava se Jane aprovaria o que ele estava vestindo. Sua imaginação não tinha limites quando ele pensava na possibilidade de que ela um dia fosse sua namorada – ou qualquer coisa parecida, já que ela não gostava de rótulos. As ideias dela eram diferentes das ideias de todas as meninas que conhecera até então, e ela o deixava intrigado, curioso e entusiasmado por coisas que ele nunca tinha prestado atenção antes. 

Jane tinha um irmão chamado Max – Max Sol, dois anos mais velho que ela, e ele estudava na mesma escola. Quando Marvin foi apresentado a ele, Max tratou-o como se ele fosse uma criança, sem demonstrar qualquer interesse especial em conhece-lo melhor. Jane apresentou-os na hora do recreio. Max era mais alto do que os rapazes de 18 anos que Marvin conhecia. Também tinha cabelos muito loiros, como a irmã, e olhos claros e brilhantes sob sobrancelhas grossas e arqueadas. Parecia uma cópia da irmã na versão masculina. Max apertou a mão estendida de Marvin por alguns segundos, e depois, dirigindo-se a Jane, disse que precisava ir, e saiu sem despedir-se de Marvin, que ficou um pouco sem graça, mas Jane agiu como se não tivesse percebido. Marvin logo pensou: “Playboyzinho de merda.” Mas depois censurou-se por rotular Max.

Os amigos de Jane estavam se tornando seus amigos também. Ela vivia em um universo que girava em volta dela, e sem perceber, Marvin estava se tornando um de seus satélites. Juninho sempre levava coisas que achava que Jane fosse gostar de ver, como revistas de moda e novas tendências de maquiagem.  Os outros meninos pareciam ser todos meio-apaixonados por ela, e Marvin logo percebeu que as meninas da escola a viam como um exemplo a ser seguido. Algumas inclusive tentavam copiar as roupas e maquiagens de Jane.

Para tristeza de Gabi, um mês após mudar de escola, o que ela tinha previsto estava acontecendo: Marvin afastava-se cada vez mais dos velhos amigos, e só queria passar tempo com os amigos recentes. 

Nas aulas de história, o professor Fernando, preferido da maioria, tratava os alunos como se eles fossem apenas bons amigos. Indicava algumas leituras de textos selecionados que eles discutiam em classe, e Marvin ficava sempre impressionado do quanto Jane e seus amigos conheciam sobre figuras as quais ele jamais dera muita importância, como Marx e Che Guevara. Também ele começou a estudá-las com afinco e entrar nas discussões, ganhando muitos elogios do seu professor. 

Em casa, Caio e Rafaela voltaram à sua antiga rotina, pois assistindo ao aparente progresso social e 
acadêmico do filho, achavam-se tranquilos. Logo estavam trabalhando tão arduamente quanto antes. Caio esquecia-se da hora no escritório, enquanto fazia reuniões que adentravam a madrugada, e Rafaela saía do trabalho e trancava-se em casa, no escritório, a fim de terminar alguns projetos. Melissa levava sua vidinha de ir à escola, sair com os amigos e estudar arduamente para as provas, o que fazia dela uma aluna brilhante, mas ela se ressentia de nunca ser parabenizada ou reconhecida por isso. Seu relacionamento com o irmão, que já não era tão profundo, tornava-se cada vez mais superficial, depois que ele parou de sair com ela, Gabi e Luis. 


(continua...)





2 comentários:

  1. Bom dia

    Gostei muito de ler. Irei acompanhar o resto da história que será, certamente, muito bonita. Gostei muito do seu blogue. Fiz-me seguidor e linkei-o nos blogues a seguir, do meu.
    Caso en tenda verificar deixo o linke do meu blogue:
    .
    http://brincandocomaspalavrass.blogspot.pt/
    .
    Cumprimentos

    ResponderExcluir
  2. Boa tarde. Venho desejar um Domingo feliz

    Hoje no nosso blogue:"A amizade não precisa ser perfeita, mas sim verdadeira." Mini conto.

    http://brincandocomaspalavrass.blogspot.pt/

    Bjos
    Muita paz e amor..

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