quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

BOB TINHA UM SEGREDO






Bob tinha um segredo. Um dia, quando ele ainda era uma criança, este segredo apareceu para ele na forma de um amigo imaginário que lhe falava verdades sobre as pessoas que o cercavam. Às vezes, ele repetia aquelas verdades perto dos adultos, e era severamente repreendido. Mas a pior coisa do mundo, era quando seu amigo imaginário dizia verdades sobre ele mesmo. Verdades que Bob não queria ouvir.

Certo dia, durante a visita de uma velha tia da qual ele não gostava, o segredo de Bob gritou tão alto, que seus pais acharam melhor trancá-lo no quarto, de castigo, até que a visita terminasse. Fato é que a tal tia jamais voltou a pisar naquela casa, e quando eles se encontravam em ocasiões de reuniões de família, ao avistar Bob, a pobre mulher fugia assustada para o primeiro banheiro, ou para a cozinha – qualquer lugar onde não tivesse que encontrar Bob. E a mesma coisa começou a acontecer em relação a outros parentes e conhecidos, até que finalmente Bob amadureceu o suficiente para compreender que era melhor não mostrar o seu segredo a ninguém. As pessoas não gostavam de encará-lo.

E assim, bob cresceu com seu segredo, que passou a perturbá-lo cada vez mais. Ele tentava desesperadamente encontrar um jeito de conviver com aquele terrível destino sem perder a sanidade. Achou uma maneira não muito eficaz, mas que poderia servir pelo menos em alguns momentos: passou a ignorar seu segredo. Pensou: “Se eu fingir que ele não existe, as outras pessoas não o perceberão.”

Mas o segredo de Bob não aceitava ser deixado assim, de lado. Começou a gritar cada vez mais alto dentro da cabeça de Bob, que passou a tomar antidepressivos e fazer análise com um psiquiatra. Dr. Fernandez, o psiquiatra, vivia dizendo que Bob precisava abrir-se, pois ele não poderia penetrar em sua mente e resolver seus problemas por ele. Mas Bob fechava-se em si mesmo, apertando os olhos para não se ver por dentro. Veio a síndrome do pânico. Bob tentava cada vez mais desesperadamente esquecer que ele tinha um segredo.

Mas o medo de sair de casa fez com que a solidão o obrigasse a encarar de frente seu segredo. Os dois passaram alguns dias e algumas noites se olhando e conversando. E a cada palavra e gesto, mais Bob se convencia de que não conseguiria viver se mostrasse seu segredo ao mundo. Sim, ele tinha um segredo que era grande demais, difícil demais de ser enfrentado. 

Assim, após uma longa conversa com seu segredo, Bob arquitetou um plano que ele achou que resolveria tudo para ele: esperou que seu segredo caísse no sono, e quando isso finalmente aconteceu, ele foi até a cozinha e pegou uma faca grande e afiada. Dirigindo-se à sala de estar, onde seu segredo adormecido se encontrava, Bob ergueu a faca acima da própria cabeça e golpeou seu segredo impiedosamente, várias vezes.

Bob foi encontrado alguns dias mais tarde por parentes, que após tentarem entrar em contato com ele várias vezes sem sucesso, decidiram invadir sua casa. 

Ele não dizia coisa com coisa. Seu olhar parecia perdido em algum lugar distante deste mundo, onde ninguém jamais conseguiu ir. Bob terminou seus dias em um manicômio, velado por seu segredo.





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