domingo, 16 de fevereiro de 2020

MADRE - CAPÍTULO 5






MADRE - Capítulo 5

“Querida Aisha,

"A história que eu tenho para contar é longa demais. Não consigo falar por muito tempo, mas tenho medo de deixar este mundo sem que você fique sabendo da verdade sobre a sua própria vida. Se eu a escondi de você, obrigando seu pai e sua avó a fazerem o mesmo, foi porque eu tive medo de coisas que eu mesma fiz, coisas muito erradas, mas que na época em que as fiz, me pareceram certas. Eu estava desesperada, e o desespero cega as pessoas. Espero que eu consiga contar pelo menos parte dessa história antes de morrer. Porque eu sei que vou morrer. Só espero que você me perdoe. Toda a dor que eu sinto nesse momento talvez sejam menos do que eu mereço como castigo.

Passamos a vida fugindo do passado, de um ato condenável e mesquinho que eu perpetrei e que por medo, escondi. Você já tem 15 anos de idade e entenderá o quanto eu fui egoísta. Talvez me odeie por um tempo, espero que não seja para sempre. Saiba que eu a amo demais, minha filha querida, mesmo que esse amor não justifique meu egoísmo.

Quando eu fiquei grávida, o médico me disse que seria uma gravidez de alto risco e que eu não poderia, de jeito nenhum, ter outro filho, então eu fiz repouso e segui todas as recomendações médicas à risca. Passei os nove meses de gravidez na cama, praticamente, e não lamento por isso. Fiz o que precisava ser feito, mas mesmo assim... meu bebê nasceu prematuramente. 

Não pudemos levar nosso bebezinho para casa. Ela teria que ficar no hospital durante mais algumas semanas, até que amadurecesse o suficiente. Eu ia ao hospital todos os dias para ficar perto dela, mas apesar da visão otimista dos médicos, eu sentia que minha bebê não estava bem... eu a sentia sempre fria quando a segurava, e ela quase nunca abria os olhos. Além disso, tinha dificuldades para alimentá-la, mas meu médico e as enfermeiras me encorajavam, dizendo que em breve tudo ficaria bem. Mas a minha intuição de mãe me dizia o contrário, e eu me angustiava!

Ao final do quarto dia da internação de nossa bebê, enquanto caminhava pelo corredor do hospital, notei uma menina grávida em uma cadeira de rodas, aguardando vaga para a sala de parto. Ela era realmente linda e muito jovem, estava sozinha e parecia assustada. Eu me aproximei e comecei a conversar com ela, tentando acalmá-la. Ela me disse que tinha quinze anos, e que seu nome era Mayara. Também me disse que daria à luz a gêmeas. Segurei a mão dela até que a enfermeira finalmente viesse e a levasse para a sala de parto. Ela estava muito nervosa. Perguntei por seus pais, e ela me disse que seu pai morrera quando ela era criança, e que sua mãe não aceitava sua gravidez, e portanto, não estaria presente. Perguntei se ela tinha irmãs, mas ela negou com a cabeça. Seus amigos também não a procuraram mais quando souberam de sua gravidez.
Lamentei pela situação dela; o que ela faria quando deixasse o hospital? Como cuidaria sozinha de dois bebês aos quinze anos de idade? Ao perguntar-lhe sobre aquilo, ela me encarou e encolheu os ombros, dizendo: “Acredito que exista um propósito para cada coisa na vida. Vai dar tudo certo. Quando sair, irei para uma instituição que acolhe meninas como eu, e depois... bem, depois, só Deus sabe.” Perguntei pelo pai das crianças, mas ela apenas baixou os olhos, e decidi não insistir no assunto que parecia magoá-la. Afinal, no fundo, ela era apenas uma estranha. 

No dia seguinte, fui visita-la em seu quarto. As meninas eram lindas, mas não eram univitelinas, e portanto, não se pareciam muito, apesar de serem gêmeas. Confesso que invejei-a, pois as bebês eram coradas e saudáveis, ao contrário da minha tão pequenina menininha, que parecia uma bonequinha de vinil. Ela me disse que logo seria liberada para deixar o hospital, e fiquei feliz por ela. Deixei com ela o número do meu telefone, caso ela precisasse de alguma coisa.
Naquela tarde, o hospital estava muito calmo. Era um hospital de cidade pequena, não muito movimentado.  O médico me aconselhara a passar a maior parte do tempo possível ao lado da minha filha, pois assim seu desenvolvimento seria melhor, e então Jairo, o médico e eu concordamos que eu deveria ficar no hospital durante a maior parte do tempo, e ao final da tarde, eu poderia ir para casa. 

Era o sexto dia de internação. Eu estava tão exausta, que acabei adormecendo na enfermaria da maternidade, com minha bebê no colo. Entre tubos e gazes, ela não chorava e quase não se movia. No começo, eu ficava apavorada ao segurá-la, mas já tinha me acostumado. Eu a coloquei de bruços em meu colo após amamenta-la e então acabei adormecendo. Alguns minutos depois, acordei com uma enfermeira entrando no berçário. Ela me olhou e sorriu, e eu sorri de volta. Me perguntou se eu queria que ela pusesse a bebê de volta na caminha, mas eu disse que eu mesma o faria. 

Ela saiu após verificar as gêmeas de Mayara e eu fiquei sozinha no berçário. Ia colocar minha filhinha na cama, mas quando olhei para ela, constatei que ela estava arroxeada e totalmente imóvel. Acidentalmente, eu a tinha sufocado! Um grito me veio à garganta, e eu o reprimi com as costas da mão: minha bebê estava morta! Engoli em seco: o desespero estava de prontidão. Imaginei minha vida sem ela, e também os dias que eu tinha pela frente, tendo que enfrentar aquilo tudo, convivendo com as consequências da minha irresponsabilidade... foi quando olhei por cima do ombro e vi as gêmeas, dormindo pacificamente. 
Sem hesitar, eu rapidamente olhei para a s meninas e percebi que uma delas era bem parecida com a minha bebezinha morta. Era a menor das irmãs, tinha os cabelos ralos e quase brancos e a pele mais clara. 

Rapidamente, eu troquei as roupinhas das bebês, temendo que eu fosse descoberta, o coração aos pulos. Depois, troquei também as pulseirinhas de identificação e coloquei a minha bebê morta ao lado da outra gêmea, deitando a bebê saudável no leito da minha filha.
Esta bebê era você, Aisha. 

Na manhã seguinte, o médico surpreendeu-se com o progresso da minha menininha, e na outra manhã, nos deu altas. Nem sei como pude ir até o quarto de Mayara e despedir-me dela, consolando-a pela perda da sua filha e dizendo que Deus sabia o que era melhor, e que ela deveria tentar ver as coisas de maneira positiva... abracei-a, e então eu, você e Jairo partimos. 

Logo após seu nascimento, eu disse a Jairo que seria uma boa ideia se nos mudássemos de cidade. Eu estava nervosa e agitada, e tanto ele quanto o médico achavam que eu estava sofrendo de depressão pós-parto, e que uma mudança de ares me faria muito bem. Eles não sabiam que eu estava apavorada pelo que tinha feito, e que temia ser descoberta! Jairo pediu transferência de Campos do Jordão para Belém do Pará, e recomeçamos nossa vida.

Dois anos mais tarde, recebi um telefonema; era Mayara! Ela me dizia que tinha desconfiado do que acontecera no dia em que eu deixara o hospital, pois ao segurar a bebê morta nos braços, logo percebeu que ela não era a sua filha. Porém, preferiu nada dizer, sabendo que a sua bebê verdadeira estava viva e seria bem cuidada. Eu fiquei apavorada, tentei negar tudo, mas ela me disse que ficasse tranquila, pois não queria a bebê de volta. Só queria saber se ela estava bem. Também me assegurou que não me denunciaria. Perguntei como ela tinha me encontrado, e ela disse que contratara um detetive particular. Pensei em como ela tinha conseguido pagar por seus serviços, já que era tão pobre, mas eu estava tão nervosa que achei melhor não perguntar por detalhes.

Naquela noite, quando Jairo chegou em casa, eu contei a ele toda a verdade. Ele ficou muito zangado 
Comigo, nós discutimos e ele saiu de casa. Mas voltou uma semana depois, dizendo que me compreendia e que não poderia suportar a vida sem nós duas. Contamos a verdade também a sua avó Beatriz, que apesar de ser totalmente contra o que fizemos, no fundo não queria que a família fosse destruída. Assim, nos mudamos de novo, desta vez, para o interior de São Paulo. A firma onde Jairo trabalhava não tinha filiais por lá, e ele precisou deixar o emprego. Foram tempos difíceis! Mas Mayara descobriu nosso endereço novamente. Desta vez, ela dizia que tinha se casado com um homem muito rico, e que queria ver você, conhece-la pessoalmente. Eu prometi a ela que conversaria com Jairo e que ligaria para ela de volta, marcando um encontro.

Mas o medo de perder você me fez querer sumir novamente, e foi o que fizemos, indo para Curitiba. Mas como você já sabe, seis anos após a nossa mudança Mayara nos redescobriu. Desta vez, ela me disse que queria conviver com você como filha: naqueles quase seis anos em que moramos em Curitiba, Georgina, sua outra filha, tinha contraído uma doença e falecido. Apesar de todo o dinheiro que tinham, ela e o marido não conseguiram salvá-la. Ela parecia desolada, realmente triste, e eu percebi que não havia qualquer sentimento de raiva em sua voz, mas eu não podia simplesmente desistir de você, abrir mão de nossas vidas, Aisha! Mayara me prometeu mais uma vez que não nos denunciaria, e que eu e Jairo poderíamos fazer parte de sua vida. Ela não queria arrancar você de nós, mas gostaria que você soubesse que ela existia, que você tivera uma irmã. Mas o medo me fez convencer seu pai a fugir novamente.

Quanto a Tina, ela sempre soube de tudo, mas jamais interferiu nos assuntos da família e agiu de maneira sempre discreta.

O restante da história você já conhece, filha. Sua avó Beatriz nunca foi favorável às nossas escolhas, e por isso, nós nos distanciamos. 

Na verdade, descobri que ela era quem sempre avisava Mayara de onde estávamos, e também mandava fotografias suas para ela. Eu jamais a perdoei por isso. Mas agora eu sei que estou morrendo, e seu pai já se foi. Sei também que a primeira coisa que sua avó faria, mesmo antes que nós descêssemos à sepultura, seria contar a versão dela dessa verdade, então preferi fazê-lo eu mesma. Só espero que você nos perdoe, minha querida filha, e que tente compreender as nossas razões. Vá conhecer sua verdadeira mãe. Mas por favor, não se esqueça de nós. Jamais. 

Com amor,

Fernanda, sua segunda mãe."

(CONTINUA...)





segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

MADRE - CAPÍTULO 4






MADRE -Capítulo 4

Eu ia e vinha. Tudo era branco quando eu abria os olhos. Logo caía no sono. Havia coisas apitando em volta de mim – aparelhos. Eu não conseguia me mexer nem engolir. Havia rostos estranhos à minha volta de vez em quando, mas eu não conseguia identificar quem eram aquelas pessoas, até que vi o rosto preocupado de minha avó Beatriz. Mas embora ela falasse comigo, meu ouvido só escutava um zumbido insistente, e então eu caía no sono outra vez.

Fiquei naquele limbo durante algumas horas. 

Mas depois eu descobri que na verdade, foram 22 dias. 

Abri os olhos de verdade pela primeira vez, e então a realidade branca mostrou-me suas cores reais: eu estava em uma cama de hospital, cercada de aparelhos e tubos. Um deles entrava pela minha garganta. Minha avó dormia em uma cadeira aos pés da minha cama. Parecia bem mais magra, envelhecida e exausta. Fiquei olhando para ela. Eu ainda não conseguia me mexer, então olhei em volta devagar – minha cabeça doía – e descobri uma pequena janela com as persianas fechadas. Era noite. Minha cabeça doía, minha garganta doía, meus ouvidos zumbiam, e eu tinha a impressão de que toda a parte inferior do meu corpo não existia mais. Fiquei com medo de que minhas pernas tivessem sido amputadas. Olhei para baixo e percebi que elas ainda estavam lá, e o pânico passou. Pensei nos meus pais pela primeira vez: onde eles estavam? Estariam bem? A porta se abriu e uma enfermeira entrou. Quando olhou para mim e meu viu de olhos abertos, ela voltou para o corredor e voltou com um médico: eu estava de volta. Minha avó despertou e segurou minha mão, chorando. 

Então descobri que estava mesmo em um hospital, e que estivera em coma por 22 dias. Meus pais também tinham se machucado bastante e estavam em recuperação em outro quarto. Eu teria que passar por vários tratamentos de fisioterapia antes de andar novamente, pois machucara a coluna, mas o médico me garantiu que meu problema não era definitivo. Eles tiraram os tubos da minha garganta, mas ela ardia tanto, que falar era um sacrifício. O médico me assegurou que eu ficaria bem em alguns dias. 

Minha avó Beatriz só chorava; ela tentava disfarçar, tentava não chorar, mas ela era uma manteiga derretida. Dizia que estava chorando porque estava feliz em me ver bem de novo, me recuperando. Mas depois que comecei a caminhar, após alguns dias de fisioterapia, eu quis visitar meus pais. Só que eles não estavam mais lá. 

Minha avó teve que me contar a verdade: meu pai morreu na hora do acidente, e minha mãe, cinco dias depois. 

No começo, eu não consegui sentir nada. Era como se ela estivesse me contando sobre um filme que tinha assistido, aquela não era a minha vida. Não podia ser. Meus pais não tinham morrido. Se eu, que não estava usando o cinto de segurança, ia ficar bem, como é que eles, que estavam usando o cinto e tinham airbag, poderiam estar mortos? Minha vó então me contou sobre o incêndio após a batida, e me deu detalhes: um caminhão avançou na nossa direção em uma transversal; aparentemente, o motorista caíra no sono enquanto dirigia. O carro foi arrastado e capotou na pista molhada, e então pegou fogo. 

Minha avó me contou que minha mãe ainda sobreviveu por cinco dias, e eu só queria saber se ela tinha sentido dor. Minha vó só concordou com a cabeça, e então me entregou um envelope: ela me deixara uma carta. Minha mãe, apesar da dor, conseguiu ditar uma carta que a enfermeira escreveu para ela e entregou à minha avó. Agora que eu já estava melhor e teria altas do hospital no dia seguinte, minha avó finalmente achou que já era hora de eu ler a carta. Trêmula, ela me estendeu um envelope lacrado. Notei que seu olhar era de medo, e não compreendi o porquê.

(Continua...)




AS ESTRELAS QUE EU CONTEI - CAPÍTULO 12

 Capítulo 12 -Ela nos matou porque estava apaixonada por Afonso, e nós éramos contra o relacionamento deles. Sentíamos que Rosália tinha alg...