segunda-feira, 24 de junho de 2013

Memórias de uma Vida





Éramos as crianças da Vila Macedo. Nascêramos ali, e nos conhecíamos desde sempre. Vila Macedo era uma vila de casas geminadas, cada qual de uma cor diferente,  com pequenos jardins na entrada, vaga para um carro em cada um dos pequenos e estreitos terrenos,  e caminhos de cascalho até a porta da frente. A rua era larga, calçada de paralelepípedos e ornada de ipês que em setembro, pintavam a vila de amarelo. Um lugar encantador! Até hoje, agradeço pelo privilégio de ter crescido em um lugar assim, tão bonito. 

Éramos um grupo de treze crianças: seis meninos e sete meninas, com idades entre oito e treze anos. Eu e minha irmã Jane vivíamos na primeira casa da vila, à direita, a casa lilás. Na casa branca, moravam os irmãos Caio, João e Mário. Na casa rosa, a menina Bruna, e na  verde, as irmãs Tânia, Marta e Joana. Gregório era da casa azul, enquanto Márcio vivia na amarela. Débora e Fernando vivam na última casa, que ficava no fim da rua, a casa salmão. Havia outras casas nas quais moravam casais idosos, sem crianças. estas casas eram geralmente, brancas ou cor-de-rosa bem pálido.

 Na época em que tudo aconteceu, no verão de 1967, a mais jovem das crianças era a menina Débora, com oito anos, e entre os meninos, Caio era o mais jovem, com nove. Eu e Gregório, ambos com treze anos, éramos os mais velhos. Minha irmã Jane tinha onze anos.

Era a época das férias de final de ano, e a vila estava em polvorosa, pois nossas mães andavam ocupadíssimas com a decoração para a festa de natal, que aconteceria dali a uma semana. Lembro-me bem das janelas abertas, as cortinas de voil esvoaçantes, música de rádio vindo das casas (colocávamos todos os rádios na mesma estação, para que pudéssemos ouvir música enquanto trabalhávamos) e ás vezes, uma das mães chegava com pratos de sanduíches, bolo e refresco para todos. No comecinho da noite, o movimento de nossos pais - os maridos- chegando em casa, e nós, crianças, nos recolhendo para tomar banho e jantar. A vida era perfeita e imaculadamente branca, com toques de cores em tons pastel.

Certa noite, após o jantar, cheguei até a varanda da casa para olhar o céu, que ainda tinha algumas partes rosadas junto ao horizonte. Eu gostava de ver as primeiras estrelas surgindo, e costumava passar estes momentos na varanda de casa, até que escurecia totalmente. Ali, eu sonhava com muitas coisas que uma pré-adolescente sonhava: namorados, roupas novas, as bandas da moda, as festinhas, os colegas da escola. Eu estava assim, pensativa, naquele comecinho de noite de dezenove de dezembro de 1967, quando percebi que era observada por alguém parado na encruzilhada, logo depois da vila, sob a luz de um poste. Era um menino com as mãos nos bolsos da calça de tweed, usando camisa branca de mangas longas, abotoada até o pescoço, e apesar de eu não conseguir enxergar seu rosto muito bem - já começava a escurecer-, pude ver que tinha cabelos cacheados e claros, quase até os ombros, e que era um tanto alto e esguio. Estávamos a mais ou menos uns bons vinte metros de distância um do outro. Não consegui adivinhar sua idade. Ficamos nos olhando por algum tempo, até que eu entrei, sentindo um leve arrepio. Quando cheguei à janela para olhar de novo, ele não estava mais lá.

Na manhã seguinte, enquanto ajudava a pendurar enfeites em uma das árvores, eu o vi de novo. Lá do alto da escada, onde eu me encontrava, pude ter uma visão melhor de seu rosto, e vi que era um menino bonito. Também percebi que ele não tirava os olhos de nós - principalmente, de mim - e que deveria estar entre os  quinze e dezoito anos de idade. 

Ao descer da escada, chamei minha irmã, e apontei o jovem que nos observava. Ela achou melhor falar com nossa mãe:

-Mamãe, Roseane acaba de ver um garoto estranho nos observando... bem lá!

Mamãe seguiu a direção que Jane apontava, e de repente, o garoto tinha sumido. Mas no final da tarde, ele voltou a aparecer. Vestia a mesma roupa do dia anterior, e notei o quanto elas pareciam inadequadas a um menino daquela idade... talvez, formais demais

. Nossas mães já tinham entrado, e nós, crianças, resolvemos nos aproximar dele. Gregório logo perguntou-lhe o nome, e ele disse chamar-se Antônio. Nós nos apresentamos, e logo estávamos todos conversando animadamente. As crianças são assim... ele nos disse que morava em uma rua próxima dali, mas que não havia gente da nossa idade em sua rua. De repente, uma certa tristeza manchou-lhe o sorriso, mas acho que só eu percebi. Achei que pudesse ser alguma lembrança triste, mas também achei que por um momento, ele pareceu confuso ou assustado, olhando em volta ansiosamente. Disse que precisava ir embora, mas prometeu-nos que voltaria.

No dia seguinte, quando saí de casa com Jane, ele estava na rua, jogando futebol desajeitadamente com os meninos, que riam de sua falta de habilidade. Ao ver-me, notei que seus olhos me seguiram. Eu disse um 'oi' desajeitado, e senti meu rosto queimar. Jane, olhando de mim para ele, logo percebeu tudo, e começou a implicar comigo: "Roseane está gamadinha no novo garoto!" Eu perdi a paciência com ela, mas logo o assunto tinha sido esquecido, e estávamos todos reunidos, os mais velhos sentados na calçada, conversando, enquanto as crianças menores brincavam por ali.

Antônio contou-nos que tinha ficado ausente por muito tempo, e que ao voltar, encontrara tudo muito diferente; por exemplo, as casas da sua rua estavam velhas e mal-cuidadas, e não havia mais crianças. Os vizinhos eram quase todos diferentes. Ele ficava sozinho a maior parte do tempo. Nós o acolhemos como se ele sempre tivesse morado ali conosco; mas aquela tristeza no fundo dos olhos dele me comovia. Eu não o conhecia o suficiente para indagar sobre sua vida, mas ele me deixava cada vez mais curiosa - e apaixonada! E eu sabia que estava sendo correspondida por ele.

Ele passou a vir todos os dias, e nos tornávamos cada vez mais íntimos. Certa vez, ficamos sozinhos por alguns instantes, e ele pegou em minha mão. Ficamos ali, nos olhando, meu coração ardendo em brasas tanto quanto o meu rosto. A mão dele segurando a minha era fria, e achei que  fosse pela emoção do momento. Acho que nós íamos nos beijar, mas de repente, percebi a porta de minha casa se abrindo; era mamãe, chamando-me para lanchar, e rapidamente puxei minha mão, soltando-a da mão dele antes que ela nos visse juntos. Para disfarçar meus sentimentos, virei-me de costas para Antônio e fingi que estava me encaminhando para casa, e entrei no portão. Ao olhar para trás, vi que ele tinha ido embora. 

Tentei agir naturalmente, e ao perceber que minha mãe não nos tinha visto de mãos dadas, senti alívio.

No dia seguinte, Antônio não apareceu. Percebi o quanto sentia falta dele, e também, que nada sabia sobre ele; dissera que morava em uma rua próxima dali, mas nunca nos disse qual era a rua. Se ele não voltasse mais, eu nem saberia onde procurá-lo! A possibilidade de não vê-lo nunca mais me enchia de angústia. Meu estômago dava voltas, conforme o dia ia terminando e ele não dava qualquer sinal de vida.

No dia 24 de dezembro, após três dias de ausência, Antônio apareceu numa manhã chuvosa. Veio nos desejar um bom Natal. Nós o convidamos para passar o natal conosco, dissemos que a festa da rua era muito boa, um acontecimento familiar, tradicional e cheio de boa comida. Ele sorriu-nos seu sorriso mais triste, dizendo que infelizmente, não poderia comparecer. Disse que gostaria muito, mas que não poderia, simplesmente. Ficamos decepcionados, pois todos nós já gostávamos dele como se ele fosse um de nós (principalmente, eu) mas nenhum de nossos argumentos o convenceu.

Na tardinha do dia 25, ele voltou. Eu estava na varanda, esperando as estrelas, como de costume, quando o vi exatamente no local onde o vira pela primeira vez. Desci as escadinhas da varanda, e fui ter com ele. A rua estava deserta - a maioria das crianças e adultos estava exausta, pois passáramos a noite toda acordados na festa de rua, e depois, tivéramos um lauto almoço de natal. Fui caminhando em sua direção, e sobre nós, um céu maravilhoso e colorido de verão. Eu tinha plena consciência do quanto estava bonita em meu vestido novo azul-claro, cujas saias rodadas e esvoaçantes formavam uma leve nuvem de tecido à minha volta. 

Parei diante dele. Sabia que algo estava para acontecer. Foi algo muito estranho; nós nos olhávamos profundamente, minhas mãos, nas dele, e de repente, eu me lembrava de coisas que vivera junto com ele, mas coisas que eu, ao mesmo tempo, sabia jamais terem acontecido. Eu via a fachada de uma casa enorme e linda, e um jardim cheio de roseiras floridas, onde havia uma fonte de mármore com a figura de um anjo segurando uma ânfora, de onde jorrava água; via-me mais velha, sentada no grande sofá da sala junto com ele, mas nossas roupas eram antigas, diferentes. Via pessoas, e ao olhar para elas, adivinhava seus nomes. Algumas me causaram um sentimento forte de saudade extrema, e eu chorei. Tudo aquilo se passava em minha mente, tudo rápido demais, e no entanto, eu sabia que era verdade. Tinha acontecido!

Lembrei-me de tardes de verão junto a um lago, sentados à sombra de um imenso carvalho; um grupo de pessoas rindo e fazendo picnic. O sol e o céu azul refletindo-se no espelho do lago. O cheiro forte de eucaliptos. 





Ele me abraçou. Seus lábios tocaram os meus suavemente. Vi que ele chorava. Sabia que aquilo seria uma despedida. Ele murmurou, olhando-me nos olhos:

-Minha querida Aurora... eu a reencontrei, finalmente. Mas agora vivemos em mundos diferentes...

-Antônio... eu... o que está acontecendo? O que significa tudo isso?

Um vento começou a soprar forte. Escutei a voz de meu pai me chamando da varanda da casa. Eu o olhava ansiosamente, procurando uma resposta. Ele não dizia nada, apenas me olhava com seus olhos tristes. Senti uma mão sobre meu ombro, e quando me virei, vi que era papai. Ele me olhava de um jeito intrigado, perguntando-me o que eu estava fazendo ali, no meio da rua, falando sozinha. 

Antônio desaparecera novamente.

Uma semana se passou, e o episódio da rua foi considerado como um momento de confusão, devido à exaustão . Antônio não voltou mais. Caí de cama, com uma febre estranha que deixou-me delirante, e me levou novamente àquele estranho e maravilhoso mundo onde eu era uma outra pessoa, e a vida, bem diferente. O mundo onde Antônio vivia.





Num de meus delírios, eu vi novamente a fachada da casa, e soube imediatamente que eu sabia onde ela ficava! A partir daquele instante, minha febre passou, e eu fui melhorando aos poucos. Assim que me vi curada, saí um dia de manhã dizendo à minha mãe que ia encontrar uma amiga da escola. Dirigi-me, resoluta, ao bairro aonde eu sabia que a casa se localizava. Parei diante dela, o coração aos saltos. Abri o portãozinho de ferro, que pareceu tão familiar entre meus dedos hesitantes, e bati àquela porta que eu cruzara tantas e tantas vezes. Notei que o belo jardim tinha se transformado em ruínas, mas a velha fonte ainda estava de pé.

Uma senhora idosa abriu uma greta da porta, e ao olhar para mim, vi que ela arregalou os olhos, levando a mão à boca, num gesto de absoluta surpresa. Ela abriu a porta, e sem jamais tirar os olhos de mim, convidou-me a entrar.

Olhei em volta: reconheci aqueles móveis, o grande sofá florido, agora desbotado, as janelas fechadas cuja vista eu já conhecia. Senti o cheiro de coisas velhas, ouvi ecos de risos e de vozes conhecidas e amadas. Ela me convidou a sentar. Ficamos diante uma da outra, estupefatas. Foi quando eu repentinamente a reconheci, mas ao mesmo tempo, a memória me fugiu imediatamente. Ela me perguntou:

-Você deve ser neta de Aurora.
Lembrei-me de que Antônio me chamara por aquele nome na última tarde em que nos encontramos. Eu disse:
-Quem é Aurora?
Ela não respondeu. Parecia fascinada.

-Eu vim à procura de Antônio!

Ela levantou-se com dificuldades, e disse zangada:

-Quem é você?

Eu me levantei também. Estava confusa e com medo de que ela me expulsasse dali. Expliquei-lhe, desajeitadamente, os acontecimentos dos últimos dias. Contei-lhe sobre como Antônio aparecera de repente na Vila onde eu morava. Contei-lhe das sensações que tivera na última vez que estivemos juntos. Falei-lhe das memórias que eu tivera, sem nunca ter vivido aqueles acontecimentos. Enquanto eu falava, ela ás vezes murmurava: "Não pode ser..." Quando terminei, eu estava aos prantos, e ela fez sinal para que eu me sentasse novamente. Saiu da sala, e depois, voltou com um copo de água com açúcar, que eu tomei, e um pequeno baú de madeira. Colocou-o em meu colo, dizendo para que eu o abrisse, o que obedeci.

Estava cheio de fotografias. Nelas, as pessoas com quem eu sonhara. Antônio. Eu, um pouco mais velha, mas sem dúvida, era o meu rosto. No verso de uma das fotos, uma data: 1890. Olhei para ela, pedindo uma explicação.

-Meu nome é Ondina. Sou a avó de Antônio. Meu neto faleceu ainda muito jovem, e Aurora - a moça da foto - também. Ambos sofreram um acidente de charrete. Eles iam se casar. Voltavam para casa à noite, e foram surpreendidos por uma tempestade. O cocheiro disse que os cavalos se assustaram com um raio, e a carruagem virou em uma ribanceira. O cocheiro conseguiu pular a tempo, mas eles morreram. Caíram no abismo.

Eu tive relâmpagos daqueles acontecimento indo e voltando de minha mente. Fiquei muito assustada, e ela percebeu. A fim de tranquilizar-me, a velha senhora sentou-se ao meu lado, segurando minhas mãos.

-Jamais pensei que fosse viver para ver este dia! Você está aqui novamente, Aurora. isto significa que Antônio ainda vive, em algum lugar, e que eu o verei novamente, em breve... verei a todos eles!

-Meu nome é Roseane!

Ela assentiu, enquanto ainda segurando-me as mãos, lágrimas rolavam em seu rosto:

-Eu sei, querida, eu sei... mas eu tenho certeza que você foi Aurora. Em uma outra vida! 




domingo, 23 de junho de 2013

As Aventuras de D. Iraci e D. Nena - "Um Passinho à Frente Aí!"




Um Passinho à frente aí!


As duas vizinhas encontram-se no ponto de ônibus, depois da feira. Além das habituais sacolas feitas com retalhos coloridos de couro sintético cheias de legumes, frutas e verduras, Dona Iraci traz consigo uma galinha viva. As duas suam em seus vestidos de chita sem manga, estampados de flores.

"Ô, Nena, eta ônibus demorado! Quem é o motorista que cobre esse horário?"
"Ah, pra varia, é o Jorge Nojenta ( apelido dado ao motorista do ônibus devido a uma falha nos dentes da frente, fazendo-o ficar parecido com o famoso personagem de Tião Macalé, cujo jargão era: Ih! Nojenta!")
"Jesus! Já até liguei um monte de vezes para reclamar, mas a empresa não faz nada!"
"Ih, nem adianta... ele vive dizendo que para mandarem ele embora, só vendendo uns ônibus... e se alguém reclama do atraso, ele manda ir à pé. Mas mudando de assunto, Nena, pelo que eu tô vendo, vai ter galinha no almoço, hein?"
"Foi o marido que mandou comprar... mas eu não tenho coragem de matar não!"
"Ora, e como vai ser?"
"Ah, sei lá, ele que se vire! Se quiser comer galinha, vai ter que matar."

Os outros passageiros na fila olhavam para a pobre galinha branca, cujos pés estavam amarrados, e alguns lamentavam a sorte da coitadinha. Uma menininha de vestido rosa estava à beira das lágrimas.
Dez minutos de muito sol e reclamação depois, chega finalmente o ônibus, dirigido pelo lendário Jorge Nojenta. A fila começa a andar, enquanto o motorista, de mão na cintura e pitando um cigarrinho sem filtro, observa a fila andar e o ônibus encher.

Mas quando chega a vez de Dona Iraci, cujas reclamações a respeito de sua pessoa junto à empresa já tinha lhe chegado aos ouvidos, Jorge Nojenta resolve vingar-se; bloqueando a passagem entre a passageira e a porta de entrada, ele brada:

"Não vai entrar com animal no meu carro não!"
Ela retruca, contrariada, enquanto sua amiga observa tudo com a boca aberta:
"Como assim?! É comida! Além disso, eu já tô cansada de ver gente entrando com gato, cachorro e até tartarura dentro desses ônibus!"
"Mas no meu carro não entra não. É proibida a entrada de animal."
"Ora, então como é que eles põe um jumento para dirigir?"
Ele joga fora a guimba de cigarro e estufa ainda mais a avantajada barriga:
"Cumé qui é?"

Os passageiros, já impacientes devido ao atraso do ônibus, começam a reclamar, mas tem sempre alguém que põe lenha na fogueira. Foi o que fez um menino à beira da adolescência:

"E aí, tia! Manda ver!"

Jorge Nojenta manda o moleque calar a boca, e volta-se novamente para Dona Nena:

"Repete, desaforada!"
"Desaforada é tua mãe, seu jumento! Eu vô porque vô entrar nessa carroça com minha galinha, e quero ver quem vai me impedir!"

Dizendo isso, Dona Iraci dá um empurrão em Jorge Nojenta, que surpreso, nem teve tempo de impedi-la de entrar no ônibus. Ela joga o dinheiro sobre a mesinha do trocador e passa a roleta, seguida de sua fiel escudeira, tão fiel que nem sequer abriu a boca para defender a amiga.

Jorge Nojenta entra no carro, pega a sacola com sua marmita sobre o painel e, colocando-a debaixo do braço, diz, com a maior calma:
"Aí, pessoal! Vou almoçar e não sei que horas volto! E se essa bruxa ainda estiver aqui quando eu voltar, eu saio para jantar!"

Dentro do ônibus, um vozerio de desaprovação e impaciência começa a elevar-se. Alguns acham que D. nena tem razão, enquanto outros dão razão ao motorista. Dona Nena, preocupada, pergunta:

"E agora, Iraci? Já passa de meio-dia e eu ainda nem fiz o almoço... que horas isso vai sair?"
"Não tô nem aí!"

O pessoal começa a vaiar.
Enquanto isso, o ônibus começa a lotar; o trocador gritando: "Um passinho à frentre aí, faz favor!"

Vinte minutos, e nada da situação se resolver. O ônibus lotando cada vez mais, a galera cada vez mais ouriçada. O sol batendo na lataria do ônibus e transformando-o em uma fornalha.

Para salvar a situação, chega o outro ônibus para fazer a próxima viagem, e os passageiros, aos poucos, passam para o segundo ônibus. 
Dona Nena argumenta: 
"Vai ficar aí, mulher? Todo mundo já saiu!"
"Vou ficar sim! Daqui não saio, daqui ninguém me tira! E aquele asno vai ter que me levar pra casa!"

Encolhendo os ombros, a amiga pega suas sacolas e entra no outro ônibus, que parte.

Do outro lado da rua, Jorge Nojenta assiste a tudo de dentro de um bar, onde toma uma branquinha. Acaba de comer seu almoço, e palita os poucos dentes, a marmita vazia embrulhada sobre o balcão.

Dentro do ônibus, Dona Iraci e sua amiga, Marluce, conversam
( devido à solidão, ambas já tinham se tornado tão amigas que Dona Iraci até batizara sua companheira, prometendo-lhe, além de poupar-lhe a vida, um lugar de honra no quintal de casa).

Duas horas e meia depois, como o impasse não se resolvesse por bem, já que Jorge Nojenta abandonara seu posto e jazia adormecido feito um anjo no banco da pracinha em frente ao ponto de ônibus, a empresa mandou um outro motorista para rendê-lo.

Mas Dona Iraci recusou-se a ir para casa conduzida por outro motorista.

Dizem que ela foi vista sentada em um banco da pracinha, de onde vigiou o sono de seu desafeto até o anoitecer, quando finalmente, seu marido veio e obrigou-a a ir para casa:
"Chega de confusão, mulher! Vamos pra casa que eu quero frango assado no jantar!"
Com as forças que ainda lhe restavam, ela grita:
"Ninguém encosta na Marluce!"




quinta-feira, 20 de junho de 2013

As Aventuras de Dona Iraci e Dona Nena




Introdução:

As Aventuras de Dona Iraci e Dona Nena começaram a ser criadas no ano de 2010, no site Recanto das Letras. São uma série de textos de humor com histórias completas, como em um seriado de TV. Alguns personagens são baseados em pessoas que conheci na minha infância, e as situações apresentadas também - embora nomes e acontecimentos tenham sido modificados ou re-criados. Cresci em um bairro de classe média baixa, e convivi pessoalmente com muitos desses personagens.

Na verdade, eles estão espalhados em um contexto bem maior do que o do bairro onde cresci. Existem Nenas, Iracis, Jorges e Gerdas espalhados por todo o nosso Brasil. Espero que gostem! Aí vai a minha primeira história:


AS AVENTURAS DE IRACI E DONA NENA

Parte I - Uma Língua Confusa

Duas comadres conversavam no ponto do ônibus. Sacolas de supermercado descansavam sobre seus pés, e o sol de meio-dia fustigava-lhes os decotes "V" das túnicas de javanesa compradas na Feirinha Popular. Não era possível saber se o vermelhão que começava no peito e ia subindo pelo pescoço, explodindo nas faces, era devido ao sol ou à menopausa.

Em dado momento, uma delas comenta:

"Iraci de Deus, acho que vou ter que voltar lá no dotô essa semana."
A outra responde:
"E por que, mulher? Não conseguiu aresolver sua prisão de ventre?"
"Bem, ele mandou eu beber água adunbante e fazer caminhada, mas não aresolveu..."
"Por que você não procura um sociopata?"
"Quê isso, mulher?"
"É aqueles dotô que trata com chá, erva natural, pílulinha de açúcar..."
"Ara... e adianta?"
"Adianta! Demora uns mês a mais, mas pelo menos não estraga o resto, que nem os remédio de farmácia."
"E onde é que tem esse tal de sociopata?"
"Na Rua do Encanto tem um bom. Mas não vá sozinha, leve alguém contigo. A rua é meia deserta, e nunca se sabe, né? Do jeito que tá cheio de homeopata perigoso por aí..."
"Tem razão... mas e o Ditinho? O dotô de cabeça conseguiu tratar dos pobrema dele?"
"Que nada... Tô até pensando em procurar outro psi... psi..."
"Psicopata?"
"Isso !" Vou aproveitar e procurar um pediatra pra tratá desse inchaço nos pé."

Já dentro do ônibus, lotado para variar, uma delas consegue um lugar para sentar-se e as duas continuam a conversa. Alguns pontos de ônibus depois, o assento ao lado vaga, e a que está sentada comenta:
"Corre, pega o lugar!"
"Ah, não... não tô nem podendo sentar... é aquele pobrema de hemorróida..."
"Virge! Por que não faz acupuntura?


quarta-feira, 19 de junho de 2013

A Louca - Uma História de Terror Virtual





A LOUCA - UMA HISTÓRIA DE TERROR VIRTUAL

- Três personagens - A louca número 1
-A Louca número 2
-A outra

Participava de um site de escritores amadores. Na verdade, começara a escrever a fim de espantar seus fantasmas, mas sempre acabava envolvida em relacionamentos virtuais destrutivos. Acabava fazendo muitos inimigos - principalmente, inimigas - pois morria de ciúmes das pessoas com quem se relacionava, e se por um acaso, uma mulher comentasse, inadvertidamente, a página do seu 'affair' do momento, investia com unhas e dentes contra ela. Dizia-se sofredora, vítima das demais pessoas. Perseguia, quando dizia-se perseguida. Quando extrapolava os limites do bom senso, alegava sofrer de problemas psicológicos que a dominavam, e faziam com que agisse daquela forma.


Mas um dia, ela encontrou alguém que não se encolheu diante de suas ameaças e zombarias. Uma pessoa, que exatamente por não ter absolutamente nada a dever, ergueu a cabeça e a enfrentou. Como ela não tinha sequer um argumento para acusar tal pessoa, começou a inventar histórias a respeito dela, e espalhá-las pela Internet. Chegou a difamar impiedosamente tal pessoa, ao publicar um texto intitulado "Botando a Boca no Trombone," no qual acusava seu desafeto de tentar 'roubar-lhe' o namorado virtual - um homem casado, por quem seu desafeto jamais poderia interessar-se, pois além de ser ela também casada, e muito bem casada, não se sentia atraída por relacionamentos virtuais.


Denunciada à administração do site de escritores, a louca foi obrigada a retirar o texto incriminador e mentiroso. Daí, passou a verter ódio através dos poros, dos olhos, da boca, da alma. Chegou a desejar, como comentarista anônima, que a sua suposta inimiga morresse de uma doença degenerativa longa e dolorosa. Sua maldade fugiu ao próprio controle, enegrecendo sua alma. Ameaçava denunciar a sua inimiga à polícia, embora nunca o tenha feito, justamente por ter, no fundo de sua consciência, certeza absoluta que as acusações que perpetrava contra ela, eram todas falsas.


Sentia, dentro de si, inveja e ciúmes crescentes pela outra mulher. Não via que ela mesma tinha capacidade e talento para escrever coisas belíssimas, e passava dias vasculhando a escrivaninha da outra, achando que ela escrevia-lhe mensagens veladas, e por causa de sua insistência, muitos dos poemas e textos escritos por sua perseguida foram retirados pela administração do site. Achava, em sua imaginação doentia, que seu namorado virtual estava apaixonado pela outra- que jamais teve com ele qualquer intimidade. Apenas comentava, de vez em quando, algo que ela escrevia. 


O tempo passou, e a louca resolveu procurar ajuda psiquiátrica. Acabou se convencendo de que tinha um problema real; mas, ao invés de fazer uma análise psicológica dela mesma, mandou que seu psiquiatra fizesse uma análise da outra, seu desafeto! E fez questão de publicar o texto que continha o 'laudo psicológico' da outra mulher. Aquilo só serviu para provar o quanto ela estava realmente obcecada pela outra. Dormia e acordava pensando nela. Lia e relia seus textos, e tido o que escrevia, era a respeito dela. 


Um dia, a outra passou por um momento terrível em sua vida - a perda de um membro de sua família. Talvez por ver a outra fragilizada, a louca sentiu-se mais forte, e acabou sentindo culpa por todas as maldades que tinha feito contra ela. Devido a desentendimentos com a administração do site de escritores, seu desafeto resolveu ir escrever em outros espaços, fechando sua escrivaninha. Enquanto isso, a outra descobriu que sem a presença de sua assim denominada inimiga, ela não tinha mais a quem espezinhar. 


Quando percebeu que tinha ido, realmente , longe demais, passou a escrever-lhe vários emails, pedindo perdão. Em um deles, aqui copiado, escreveu:


Mensagem:

EU VOU COMEÇAR O MEU ANO RETIRANDO DE MINHA PÁGINA TODOS AQUELES TEXTOS QUE TE OFENDERAM... POR PURO CIÚMES DO JOÃO (nome fictício) ... AGORA O CARA ESTÁ AÍ FELIZ COM A ESPOSA E EU ATRAÍ ÓDIO POR CIÚME BESTA... ALIÁS EU SOU A PESSOA MAIS SOLITÁRIA DO MUNDO... VIVO COMO UMA ERMITÃ HÁ MAIS DE DEZ ANOS PORQUE PERCO TODO HOMEM QUE SE APROXIMA DE MIM POR CIÚME....

ESPERO QUE UM DIA VC POSSA ME PERDOAR


NEUSA (nome fictício)

Finalmente, seu desafeto concordou em perdoá-la. Ao mesmo tempo, voltou a escrever no espaço de onde tinha saído. As duas passaram a manter relações cordiais, mas sem amizade, pois a moça agredida sabia muito bem que ninguém que odeia tanto, é capaz de arrepender-se sinceramente. Quando a louca a comentava, ela retribuía, e as coisas ficaram assim.

Certo dia, uma outra louca surgiu, a louca número dois, e começou também a atacar a outra sem motivo algum - mais tarde, a outra descobriu que tudo aquilo tinha sido porque ela comentara a escrivaninha de um desafeto seu, com quem a louca número dois tinha tido desentendimentos devido a questões literárias. Imediatamente, a louca número dois, ao ver os comentários da outra, concluiu que ela estivesse de conluio com seus inimigos contra ela - uma paranoia comum no mundo virtual. Passou a escrever pequenos poemas contendo insinuações contra a outra. Mais uma vez, a outra, que nada tinha a temer, respondeu à altura. Nesse ínterim, ela perdeu mais um membro de sua família, fato sobre o qual a louca número dois passou a escrever zombeteiramente. Desejava-lhe que tudo de ruim acontecesse - e tudo apenas por causa de um mal entendido, distorção da verdade, que sua vaidade e ego exageradamente inflados criaram em sua cabeça.

A louca número um, de repente, desapareceu do site de escritores, coisa que era comum, pois ela vivia fechando sua escrivaninha. Enquanto isso, a louca número dois escreveu um texto horroroso, falando daquilo que ela achava ser a 'personalidade' da outra, expondo fatos de sua vida (suas perdas) e dizendo que ela merecia passar por tudo aquilo, e por coisas ainda piores! Dizia que as pessoas falecidas tinham morrido porque a outra  precisava de castigo. Para isso, contatou a louca número um - a que pedira perdão sem jamais ter sido sincera - e ambas decidiram se juntar novamente contra a outra. Após juntarem suas 'informações' distorcidas e cheias de ódio, somaram todos os 'fatos' e caíram novamente em cima da outra. 

A louca número 1 voltou a abrir sua escrivaninha, e passou a escrever poemas onde diz que a outra é louca, chamando-a de demônio, falsa, perigosa, e até mesmo copiando títulos de suas crônicas para melhor rechaçar sua moral. 

Enquanto isso, a louca número dois passou a deixar links para outros espaços seus na internet, nos quais ela escreve poemas onde pretende traçar a personalidade da outra.

Já a outra, após publicar um livro de poemas cujos exemplares se esgotaram após o terceiro mês de lançamento, foi convidada para fazer parte de várias antologias de contos e poesias - eu disse convidada, sem precisar pagar por isso - e teve um e-livro publicado também à convite. Abriu três blogs e continuou a escrever seus poemas no outro site de escritores, onde está até os dias de hoje.

E esta história horrível não termina aqui, já que o terror virtual da inveja, da calúnia e da difamação continua, e sempre continuará, pois o espaço virtual sempre será assombrado pelas terríveis criaturas da noite, que nunca se cansam de espalhar o ódio e o desentendimento aonde quer que vão.


terça-feira, 11 de junho de 2013

ACEITAÇÃO - PARTE VII - FINAL





ACEITAÇÃO - PARTE VII - FINAL


Assim que arejei e arrumei o quarto de hóspedes para que as duas ficassem bem confortáveis, colocando uma caminha extra para Verônica, a campainha tocou. As duas estavam sentadas no sofá, conversando baixinho. Atendi a porta; eram minhas amigas, Zilá e Gertrudes. Fiz as apresentações, e percebi que elas se entrosaram imediatamente. Minhas amigas eram sempre pessoas muito simpáticas e acolhedoras, o que contribuiu para que Rosane e Verônica ficassem mais à vontade. Sentei-me me minha poltrona preferida, enquanto Zilá e Gertrudes, de pernas cruzadas sobre o tapete, faziam de tudo para que as duas hóspedes ficassem bem à vontade. Eu disse:

-Bem, Espero que vocês fiquem bem aqui. 

Rosane me olhou, e novamente, vi gratidão no rosto dela:

-Muito obrigada. Eu não sei se mereço o que você está fazendo por mim, mas quando você for assaltada por esta mesma dúvida, e tiver certeza de que eu não mereço, saberá que pelo menos minha filha merece!

Eu baixei os olhos, respirando fundo. Dirigindo-me à Verônica, comentei:

-Bem, Verônica... você também tem uma avó. Gostaria de conhecê-la?
Verônica arregalou os olhos:

-Mas é claro que sim! Adoraria!

Ela e a mãe se entreolharam. Minhas amigas nos observavam, contentes.

-Bem, Verônica - continuei - mas antes eu terei que saber se sua avó deseja conhecê-la. Não posso garantir... ela é uma pessoa muito difícil, devo dizer.

O sorriso dela arrefeceu um pouco, mas ela disse animadamente:

-Ah... eu posso convencê-la. Que mulher não gostaria de ter uma neta como eu?

Todos rimos.

Os dias que se seguiram foram suaves e muito intensos, ao mesmo tempo. Logo, fiquei muito amiga de Rosane, e vi que nós duas tínhamos muito em comum. Ela apenas era bem mais corajosa do que eu! Falou-me de suas viagens (que eu sempre sonhei em fazer, mas nunca tive a coragem de investir tempo e dinheiro nelas) e das muitas pessoas famosas com quem teve contato. Lamentou que agora que estava doente, nenhum deles a contatara. Achou que tinha construído uma vida afetiva um tanto fraca. Fiquei sabendo de sua orfandade, aos vinte anos, quando os pais sofreram um acidente de carro. Ela não tinha irmãos, nem parentes vivos. Fez a vida como soube e como pode, e mesmo assim, viveu intensamente. Passei a admirá-la, e senti que meus conceitos mudavam pouco a pouco conforme eu a conhecia melhor. Tornei-me uma pessoa mais relaxada, menos ansiosa. 

Um enfermeiro vinha cuidar dela uma vez por dia; ajudava-a com o banho, nos dias em que ela sentia-se fraca e não conseguia fazê-lo sozinha; enquanto isso, Verônica tinha mais tempo e tranquilidade para estudar e frequentar a faculdade, cujos pagamentos eu assumi. Assumi também as despesas com remédios, alimentação e roupas. Enfim, compreendi que dava a elas apenas o que elas tinham por direito! 

Contratei um advogado, que cuidaria para que Verônica recebesse sua parte na herança do pai. Mas ela disse que preferiria continuar vivendo comigo, se eu concordasse. É claro, surpreendendo a mim mesma, percebi que era tudo o que eu mais queria; imaginar minha vida sem ela estava ficando cada vez mais difícil. Eu realmente aprendera a amá-la como a uma filha, e em tão pouco tempo de convivência!

Minha sogra ficou extremamente feliz ao saber que tinha uma neta, e as duas tornaram-se amigas inseparáveis. Ela também gostou muito de Rosane, e um belo dia, após uma visita, quando fui conduzi-la até a porta, ela de repente abraçou-me dizendo:

-Fui muito injusta com você, Débora, e espero que um dia você me perdoe.

Daquele dia em diante, passamos a ser amigas de verdade, pela primeira vez. Ela também conheceu melhor minhas amigas, e passou a aceitá-las. 

Numa tarde de sábado, em que Rosane sentia-se muito bem, fomos todos ao parque da cidade. Passamos um dia maravilhoso, ao sol de inverno, fazendo pic-nic, jogando bola, tirando fotografias (muitas!) ou sentadas na grama conversando: seis mulheres, de diferentes estilos de vida, totalmente relaxadas e à vontade na presença umas das outras. Conversas muito profundas aconteceram, e percebemos que afinal de contas, éramos todas bem parecidas, pois tudo o que fizéramos, mesmo os erros que cometêramos, eram apenas tentativas de encontrar a felicidade.

Ao chegarmos em casa, Rosane e eu ainda ficamos conversando junto à lareira durante um bom tempo, depois que Verônica foi dormir e as outras se foram. Lembramos fatos da infância, e senti que ela estava partilhando comigo memórias que jamais partilhara com ninguém. Quando fomos nos deitar, vi que seu semblante estava tranquilo, e mais belo do que eu jamais vira. Antes de deitar-se, ela me abraçou sorrindo, e agradeceu-me mais uma vez.  Ela foi até o quarto de Verônica, e sentando-se na beirada da cama, acariciou-lhe os cabelos. A mocinha despertou, enlaçando-lhe o pescoço. Ouvi o seguinte diálogo:

-Mãe, eu te amo. 
-Eu também, Verônica. Muito!
-Sabe... hoje você está tão bem, que acho que Deus vai nos dar mais uma chance!

Rosane sorriu, respondendo:

-Ele já nos deu, querida. Boa noite.
-Boa noite, mãe.

Rosane se foi na manhã seguinte. Ao abrir as janelas do quarto para servir-lhe o café da manhã, vi que ela tinha ido embora. Seu rosto estava tranquilo, e senti que ela tinha ido em paz. 

 Verônica aceitou tudo com muita maturidade e resignação. Os anos passaram, e enquanto eu assistia à cerimônia de formatura de Verônica, estas memórias afloraram com muita força. Por isso, decidi escrever sobre elas.


ACEITAÇÃO - PARTE VI




ACEITAÇÃO - PARTE VI


Dois dias se passaram. Tentei retomar minha rotina, mas eu não conseguia ter paz de espírito. Ao final do segundo dia, disse à Rose, minha funcionária, que não iria à loja no dia seguinte, e deixei alguns trabalhos e pagamentos para ela fazer. Quando eu já ia saindo da loja, Rose chamou-me:

-Débora, preciso falar com você.

-A gente conversa amanhã, Rose. Não me sinto muito bem.

-Débora, preciso falar agora, que criei coragem... eu já estava pensando em fazer isso mesmo antes de tudo acontecer... antes da morte de Tércio. Mas achei que o momento não era adequado.

Voltei até o balcão, onde ela estava.
-Fazer o que, Rose?
-É que eu vou sair da loja. Minha família está de mudança, para outra cidade... vou embora na semana que vem. Só estava esperando uma oportunidade para contar a você.

Meu mundo caiu; além de tudo, agora ficaria sem Rose, que já estava comigo há seis anos! Uma moça gentil, competente, bonita e prestativa. Onde eu arranjaria alguém como ela? Nada pude fazer, a não ser desejar-lhe muito boa sorte, e abraçá-la. Ela me tranquilizou, dizendo que ainda ficaria até o final da semana. Mas eu sabia que não conseguiria arranjar ninguém até lá.

No dia seguinte, fui à casa de minhas amigas logo de manhã, antes que elas saíssem para o trabalho, e tomamos café da manhã juntas. Contei-lhes tudo - sobre Rosane, sobre minha funcionária que pedira demissão. Como sempre, enquanto me ouviam atentamente e em silêncio, elas se entreolhavam o tempo todo. Quando terminei, minha amiga Gertrudes disse:

-Ora... você tem um problemão... e ao mesmo tempo, uma solução instantânea!
-Como assim?
-Você precisa de uma nova funcionária, e Verônica, de um emprego...
-Ora, ela é menor de idade ainda. 
-Mas pode ajudá-la, se a mãe assinar uma autorização para que ela trabalhe.
-Não! Fora de cogitação.

Tomei um gole do café, enquanto olhava a chuva que começava a cair lá fora.

Zilá, ainda terminando de mastigar um croissant, acrescentou:

-Querida, pense melhor. Você não deveria agir desta forma com Verônica.
-Agir de que forma? Até parece que eu sou o pai dela... será que ninguém me entende, não enxergam o meu lado nessa história toda? Eu não sou pai nem mãe desta menina. Não tive filhos porque não quis. E agora todo mundo acha que eu tenho que adotar esta perfeita estranha, como se fosse responsável por ela?

As duas se entreolharam novamente, e Zilá continuou:

-Olha... você sempre age assim, Débora. Ninguém é mais importante do que você, ninguém está certo quando você acha que tem 'seus motivos.' Está na hora de amadurecer, amiga. Veja o lado das outras pessoas. Coloque-se no lugar de Rosane, ela não tem muito tempo de vida, e está preocupada com a filha. 

Gertrudes colocou uma mão sob meu queixo, obrigando-me  a olhá-la nos olhos,  perguntando:

-Débora... e se fosse Tércio, o que ele faria em uma situação assim?

Tentei imaginar a reação dele. Tércio era ético demais em todas as situações. Com toda certeza, ele assumiria a filha, quer eu gostasse, quer não. Ele daria a ela o seu nome, e faria dela sua herdeira. Aquilo me exasperava, pois eu sabia que era o certo a ser feito, mas eu simplesmente não tinha forças para fazê-lo. Olhei para minhas amigas, desanimada:

-Eu... eu sei, vocês estão certas. Me ajudem, não sei o que fazer. É muito difícil para mim.

Comecei a chorar. Elas me abraçaram, e me consolaram. Voltei para casa a fim de pensar melhor. Assim que cheguei à porta, ouvi o telefone tocando dentro de casa. Entrei, e atendi; era Verônica, e estava desesperada:

-Me ajude, por favor, Débora! É mamãe...

Não consegui pensar em nada; agarrei minha bolsa e fui para a casa dela.

Chegando lá, Verônica abriu a porta antes mesmo que eu batesse.

-O que aconteceu, Verônica?
-Ela... desmaiou, ela...
-Você chamou a ambulância?
-Sim, estão a caminho. Desculpe incomodá-la, mas eu não sabia a quem mais chamar.

Encaminhei-me para o quarto, e encostando um dedo no pescoço de Rosane, vi que ela respirava fracamente. Mas estava viva. Aquela mulher tão frágil despertou minha solidariedade, e esqueci-me completamente de quem ela era e o que representava para mim. Quando cheguei à sala, Verônica estava abrindo a porta para os paramédicos. Conduzi-os ao quarto, e eles colocaram Verônica na maca, carregando-a para a ambulância. Acharam melhor que Verônica não acompanhasse a mãe. Ela chorava compulsivamente, estava muito nervosa. Fui até a cozinha e trouxe-lhe um pouco de água com açúcar. 
Ela bebeu tudo. Pareceu acalmar-se.

-Desculpe-me...
-Está tudo bem. Olha, eu a levo até o hospital em meu carro. Vai ficar tudo bem...

Ela enxugou o rosto com as costas das mãos.

-Às vezes eu penso que não vou aguentar cuidar dela...  aliás, não consigo fazer tudo o que é necessário... eu vivo me esquecendo dos remédios, é ela quem me lembra, quando pode. Não consigo ficar junto dela o tempo todo, porque me dói muito vê-la nesta situação. Ela fica muito só... eu deveria ficar ao lado dela, mas não posso!

Ela chorou novamente. Desajeitadamente, passei os braços em volta dela.

-Você está fazendo o melhor que pode, Verônica. Sei o quanto deve ser difícil para você, mas eu vou ajudá-la.

A última parte daquela frase escorregou de minha boca, e só depois que eu a disse, percebi o que tinha dito. Ela me olhou nos olhos, e o que vi, foi alívio e gratidão. Estendi-lhe um pedaço de papel-toalha, e ela limpou o rosto.

-Vamos até o hospital?

Ela acenou com a cabeça, concordando. Durante o trajeto, eu pude finalmente colocar-me no lugar daquela garota e sua mãe, e tentar entender o que estava acontecendo a elas. Era terrível! Eu precisava deixar de me omitir, precisava fazer alguma coisa para ajudá-las.

Quando chegamos ao hospital, Rosane já estava no quarto, e acordada. Verônica foi até ela, abraçando-a com cuidado. Quando me viu, os olhos dela brilharam, e ela murmurou:

-Obrigada!

Saí do quarto, e fui chorar lá fora. 

Após dois dias, Rosane pode deixar o hospital. Os médicos mudaram sua medicação, e me disseram que ela ainda poderia viver mais um ou dois meses, se seguisse o tratamento, e que a qualidade de vida poderia ser relativamente boa. Quando a puseram na ambulância, eu chamei o motorista e dei a ele o endereço de minha casa. Não vi que Verônica ouvia a nossa conversa. Quando olhei para trás e a vi, ela correu em minha direção e me abraçou.


segunda-feira, 10 de junho de 2013

ACEITAÇÃO - PARTE V



ACEITAÇÃO - PARTE V

Concordei - ainda não sei como - em passar na casa de Rosane a fim de conhecê-la, já que ela estava muito fraca naqueles dias para ir até a minha casa. Ela me explicou que às vezes se sentia melhor, mas ultimamente vinha sentindo-se fraca e cansada. Alguma coisa na voz dela me convenceu.

Quando parei o carro em frente ao endereço que ela me indicou, me vi diante de uma pequena casa pintada de azul, com janelas brancas. Havia um portão e uma cerca de madeira brancos, e um pequeno jardim não muito bem cuidado. Cruzei o caminho até a porta. Sentia-me muito nervosa, mas eu iria até o fim. Toquei a campainha. Esperei. Ouvi os passos se aproximando da porta. Verônica tinha vindo receber-me.

-Obrigada por ter vindo, Débora. Entre!

Ela me conduziu até o quarto onde Rosane descansava, sentada em uma cadeira de rodas, as pernas cobertas por uma manta vermelha de xadrez. Fiquei diante daquela mulher lindíssima, apesar de enfraquecida pela doença, e senti o peso de minha humilhação. Ela era bem mais bonita do que eu, mesmo doente! Tinha longos cabelos lisos e loiros, olhos esverdeados, e o rosto mais bonito que eu já vira em uma mulher. Se ao menos ela não fosse tão bonita!

Ela fez sinal para que eu me sentasse na cama , em frente a ela. Pediu à filha que saísse.

-Obrigada por ter vindo, Débora... eu... queria, antes de tudo, pedir-lhe desculpas. Quando jovem, eu nunca pensava muito no que eu fazia. Apenas queria algo, e pegava. Sinto muito.

Não respondi. Não sentia vontade de dizer nada. Apenas estava hipnotizada por aquela criatura linda e misteriosa à minha frente. A mulher que tivera uma filha de meu marido.

-Bem, acho que você já sabe como foi minha história, digo, minha brevíssima história com Tércio. Conhecemo-nos no navio em que viajávamos todos... e eu precisei investir muito para conseguir a atenção dele. Realmente, eu me empenhei bastante. Mas ele me disse com todas as letras que amava a esposa - você - e que não tinha lugar para mim na vida dele. Insisti, disse que concordaria em ser sua amante. Mas ele não me quis.

Pensei no quanto seria difícil para qualquer homem dizer não àquela mulher. Senti desprezo por ela. Ela representava tudo o que eu mais desprezava uma mulher: agira como alguém vulgar, superficial e oportunista. Pensei que ela deveria merecer o que estava passando! Mas imediatamente após aquele pensamento, compreendi que o que ela estava passando tinha muito a ver comigo; então, eu também merecia!

-Quero que saiba que depois de ser rejeitada por Tércio, jamais pensei em perturbar a vida de vocês, e não o faria jamais, se eu não tivesse ficado doente. Se o faço, é por minha filha. É apenas nela que eu penso. Você sabe, ninguém escolhe quando vai morrer, e eu estou morrendo. Não tenho nada para deixar para ela.  Não tenho nem uma casa. Ela não trabalha ainda, está estudando. Pago sua faculdade com muito sacrifício, mas agora, não sei como vai ser. Eu trabalho de recepcionista durante a manhã, em um consultório médico, e à tarde, eu dou aulas de etiqueta para jovens modelos. Fui modelo, sabe...

Olhando ainda mais atentamente para ela, não duvidei. Parecia mesmo um rosto conhecido... de repente, lembrei-me dela no navio! Eu a vira posando para fotos junto à piscina! Tinha um corpo escultural. As pessoas todas viravam-se para olhá-la. 

Permaneci calada. Ela me fascinava.

-Passei a vida viajando, sabe... conheci lugares e pessoas incríveis! -Ganhei muito dinheiro, mas não guardei nenhum. Achava que morreria bem velha.
Acho que minha filha sentirá muita falta desta vida que tínhamos. Por isso, nunca economizei nada. Fui irresponsável, mas com certeza, minha filha se lembrará de muitas coisas boas que vivemos e vimos juntas! Vivi intensamente... bem, isto me serve de consolo, ao saber que estou morrendo aos quarenta e três anos... eu vivi! 

Ao dizer aquilo, ela me olhou bem dentro dos olhos. Achei que estava me afrontando, e respondi:

-Sei o que quer dizer. Algumas pessoas acham que viver a vida intensamente, é viver sem responsabilidade, metendo-se na vida dos outros e tomando para si o que não lhe pertence.

-O que não me pertence? Você fala de Tércio?  E ele pertencia a você, Débora?
-Sim! Tércio era meu marido!
-Bem... se ele era seu, por que não está aqui agora? Por que você está sozinha? Eu respondo: porque ele não lhe pertencia! Ninguém nos pertence, Débora.
-Não vim até aqui para discutir filosofia com você. Vim porque achei que você queria falar sobre negócios.
-Negócios?
-Sim! Não é por isso que me procurou? Por dinheiro?
-E você acha que tudo se resume a dinheiro?! Não... eu a procurei por amor. Porque eu amo minha filha.

Ela disse aquilo de uma maneira tão doce, que não consegui retrucar.  Olhei-a nos olhos desarmada, pela primeira vez.

-Em que posso ajudar?
-Eu gostaria que você ficasse com ela.
-O que?! Como assim, ficar com ela?
-Não quero que minha filha fique sozinha no mundo. Só temos uma à outra. Não temos parentes. Meus amigos são loucos, almas livres... não gostaria que ela ficasse com nenhum deles. De você, eu sei. Tércio me falou sobre a pessoa maravilhosa que você é.
-Você está dizendo que, nos dois dias durante os quais você e meu marido estavam na cama, passaram boa parte do tempo discutindo minha relação com ele?

Ela respirou fundo, baixando os olhos.

-Não é bem assim, e não acho que os detalhes contam agora; acredite em mim, eu e ele falamos em você. Só tivemos relações uma única noite, e mesmo assim, porque eu praticamente o ataquei! A segunda noite foi apenas... apenas sobre você. Sabe, eu sei ser uma boa ouvinte, e uma boa perdedora.

-Escute, Rosane, sua filha é mulher feita, e pode tomar conta de si mesma.

-Eu não gostaria que ela ficasse sem referências. Por favor, diga-me que vai pensar!

Levantei-me, dizendo:

-Olha, eu... acho que vocês deveriam pensar em um teste de DNA, porque a justiça com certeza pedirá um. Essas coisas podem levar tempo, e...
-Tempo? Eu não tenho tempo. Não há tempo, nem haverá DNA. Por favor, me diga que você vai pensar esta noite, com muito carinho...
-Sinto muito, mas não posso fazer isso.
-Mas...
-Não posso! Eu não posso!

Saí correndo dali, e passei por Verônica, que estava sentada na sala de estar, sem nem sequer olhar para ela ou despedir-me. Bati a porta, entrei no carro e saí cantando pneus.




ACEITAÇÃO - PARTE IV




ACEITAÇÃO - PARTE IV

Gertrudes e Zilá ouviam minha história de olhos arregalados, enquanto permaneciam de mãos dadas no sofá, e eu, jogada sobre o enorme e macio pufe da sala de seu apartamento. Terminei minha narrativa sem ser interrompida uma vez sequer. Quando finalmente me calei, Zilá observou:

-Bem... sua querida sogrinha sempre quis um netinho. Agora, ela tem!

Gertrudes cutucou-a, mas eu ri daquele comentário, deixando as coisas mais leves. Ainda não tinha pensado na reação de Doralice - minha sogra. Será que eu deveria contar a ela? achei que sim. Mas pensaria naquilo depois. Ainda tinha que verificar cuidadosamente a autenticidade daquela história, mesmo sabendo que era tudo verdade. Gertrudes foi até mim, e fazendo uma leve carícia sobre minha cabeça, perguntou-me, sentando-se no pufe ao meu lado:

-E você vai fazer o que agora?

-Dificultar as coisas, é claro.

Ela e Zilá se entreolharam.

-Bem, o que vocês fariam no meu lugar? Dividiriam tudo com uma desconhecida? Vocês sabem que Tércio deixou-me apenas aquela casa, um carro que já tem cinco anos e a loja, que já não vai muito bem. Se eu tiver que vender tudo para dividir com elas, ficarei quase sem nada.

Elas baixaram os olhos, após se entreolharem novamente. Pensei em como era incrível a capacidade que minhas amigas tinham de se comunicar através de um simples olhar, como se fosse telepatia. Mas eu estava fora daquela 'conversa.' Indaguei:

-Bem, o que vocês fariam no meu lugar?
Zilá respondeu: 

-Pensaríamos na possibilidade de um acordo! De qualquer maneira, ela tem direito a cinquenta por cento de tudo. Você perderia feio. Melhor não brigar, poupar a si mesma e a todos.

Levantei-me, e comecei a andar de um lado para o outro:

-Nem morta! Vocês entenderam bem o que está acontecendo aqui? Estou falando da amante do meu marido!
-Ex-amante - disse Zilá.

-E já está morrendo - disse Gertrudes. - Foi uma aventura! Você não consegue perdoar o Tércio?

-Não. Não consigo. Ainda mais nas circunstâncias em que tudo aconteceu! Na nossa segunda lua de mel! Vocês falam assim porque não estão na minha pele! Queria ver se uma de vocês traísse a outra, aí sim! Pimenta no olho do outro é refresco!

Zilá tentou acalmar as coisas, dizendo:

-Escuta, vamos tomar um café. Depois você pensa melhor, ainda tem tanta coisa na sua cabeça... venha...

Mas Gertrudes interrompeu-a:

-Olha, Débora, você sabe o quanto nós a amamos, mas agora as coisas não são só sobre você; tem essa menina, que de nada tem culpa. Ela é muito jovem, e está sofrendo muito com a morte do pai que acabou de conhecer, e a morte iminente da mãe. Ela está só!

Como sempre, Gertrudes conseguia me fazer olhar e enxergar as coisas. Mesmo quando eu não queria vê-las. Mesmo assim, não respondi. Passamos a tarde jogando conversa fora, e nos empanturrando de chá e doces.

Quando voltei para casa, já era noite alta. Deitei-me e adormeci imediatamente.

Sonhei com Tércio, e que contava a ele que ele tinha uma filha. Apesar de meu ressentimento, ao vê-lo novamente, eu não consegui odiá-lo.  Ele nada disse, embora parecesse muito emocionado, e após estreitar-me em seus braços, eu acordei para o vazio do meu quarto.

Na manhã seguinte, aprontei-me para reabrir a loja. Telefonei para minha funcionária, e marcamos de nos encontrar lá. Foi bom ter coisas para fazer novamente. Consegui atravessar o dia sem grandes dramas, e como novas mercadorias tivessem chegado, passamos a tarde arrumando tudo. Tivemos também boas vendas naquele dia. Foi muito bom voltar à ativa.

Antes de ir para casa, levei algumas rosas vermelhas para Tércio. Estar ali, naquele lugar silencioso que tornava as pessoas que amamos e que se foram ainda mais inatingíveis, eu senti uma estranha paz. 

À noite, quando voltei para casa, como sempre, foi muito difícil entrar na sala silenciosa e escura, sabendo que ninguém iria chegar. Arrasada, sentei-me na minha poltrona favorita e chorei. Por um instante, achei que não conseguiria mais ser feliz. Mas depois, achei que a autopiedade em nada me ajudaria, e fui preparar o jantar. Precisava alimentar-me melhor, pois as roupas já estavam ficando folgadas. Ficar doente em nada ajudaria.

Às nove horas em ponto, o telefone tocou. Eu acabara de jantar uma sopa de legumes. Atendi, e uma voz levemente enrouquecida respondeu:

-Boa noite, Débora! Meu nome é Rosane.


Aceitação - Parte III



Aceitação - Parte III


Comecei a tentar adivinhar a idade dela; eu fora casada com Tércio durante vinte e dois anos, e namoramos por dois. Portanto, nos conhecíamos há vinte e quatro anos. Ela teria que ter mais de vinte  e quatro anos, ou então, eu tinha sido traída.

-Quantos anos você tem?
-Dezessete.

Fiz as contas. Eu tinha sido traída. Tércio tinha sido pai daquela menina quando tínhamos sete anos de casados. Rapidamente, tentei me lembrar do que tinha acontecido entre nós naquela época. Alguma briga? Separações? Não. Tinham sido nossos melhores anos! Até fizemos um cruzeiro às Ilhas Gregas! Uma segunda lua-de-mel. A única coisa que eu conseguia pensar, era que aquela menina ali, na minha frente, era filha de Tércio. Filha de uma traição dele durante o nosso casamento, nos nossos melhores anos! De repente, comecei a sentir muita raiva dele. 

-Bem, e o que você quer de mim? 

Ela pareceu desconfortável. Torcia as mãos.

-Eu não teria vindo aqui se não fosse estritamente necessário. É que minha mãe...
-Sua mãe?
-Sim, minha mãe está muito doente...

Ela falava da mulher com quem Tércio havia me traído! Como ela era? Qual seria o seu nome? Por quanto tempo eu tinha sido enganada por eles? Minha cabeça parecia um turbilhão! Percebi que é possível - perfeitamente possível - sentir ciúmes de alguém que já tinha morrido. Ela continuou:

-Deixe-me explicar... seu marido; meu pai; Tércio e minha mãe se conheceram durante um cruzeiro. Foi apenas uma aventura, não durou.

O cruzeiro! Então fora durante a nossa segunda lua de mel!

-Mamãe contou-me que eles se envolveram em um cruzeiro, numa noite em que a esposa dele... você - ficou indisposta durante dois dias, e não compareceu aos eventos... ficou na cabine, de repouso.

Lembrei-me daquelas dois dias em que eu estivera indisposta, e insistira para que Tércio aproveitasse a viagem. Bem, ele o tinha feito! Verônica continuou:

-Eles ficaram juntos por algumas horas, duas noites, e na terceira, ele confessou à minha mãe que era casado, e feliz... que não queria mais continuar com aquilo. Pois ele amava você.

Levantei-me, indo até a janela. Senti muita raiva, mas não quis despejá-la sobre aquela menina que de nada tinha culpa.

-E ele... ele via você?

-Não, ele nem soube que eu existo. Sempre quis saber quem era o meu pai, mas minha mãe nunca me contou. Até que um dia eu briguei muito com ela. Então, ela me contou, e isto foi há apenas três meses. Eu tentei fazer contato com ele, cheguei a esperá-lo no escritório, mas eu pensei: "O que eu vou dizer? Olá, sou sua filha?" Bem, eu estava tentando criar coragem. Até que...

Ela encolheu os ombros. Senti pena dela.

-Você me disse que sua mãe está muito doente?
-Sim. Eu só soube há pouco tempo, quando ela começou a sentir-se mal, e precisou fazer alguns exames. Sabe, ela não tem muito tempo. Minha mãe... minha mãe é uma pessoa um pouco diferente. Ela não se liga em convenções, e investe firme no que deseja; mas ao mesmo tempo, ela é uma aventureira... maravilhosa, mas... não concordo sempre com as coisas que ela faz!

Pensei que aquela menina tinha muito de Tércio. Sempre mais 'certinho' e ético do que as pessoas que nos rodeavam, às vezes causava desconfortos e controvérsias no trabalho por causa de sua mania de querer fazer tudo certo sempre. 

-Verônica... como sua mãe se chama?

-Rosane.

Fiquei rolando aquele nome em minha língua, tentando lembrar-me se alguma vez ouvira Tércio repeti-lo, ou se algum dia ele fizera parte de nossas vidas. Não me lembrei de nada. Rosane era uma perfeita estranha, e há poucos minutos, nem sequer fazia parte de nossas vidas. Nem Verônica. Pensei, de repente, que aquilo tudo poderia ser uma tremenda armação! Como saber se aquela menina era realmente filha de Tércio? Mas... o mesmo olhar, as mesmas sobrancelhas, o cabelo muito loiro, o jeito de inclinar a cabeça... a história, que 'batia' perfeitamente... com certeza, ela era filha dele.

-Bem, Verônica, o que você quer realmente de mim?
-Bem, a casa na qual nós moramos foi emprestada à minha mãe por uma amiga de minha falecida avó, que assinou um documento dizendo que ela poderia ficar lá enquanto ela estivesse viva. Depois eu nasci... e esta senhora morreu. A família decidiu tirar-nos da casa, mas não conseguiu. Agora, que souberam que minha mãe está doente, eles conseguirão, assim que ela... morrer. Não terei onde morar, e nem poderei continuar meus estudos. Ficarei sem nada... e de repente, eu descubro que eu tinha um pai. E minha mãe mandou que eu viesse falar com você, Débora.

-Você sabe meu nome?
-Minha mãe me disse.

O fato de saber que Tércio dissera meu nome à sua amante encheu-me de dor. Eles falaram sobre mim, ela sabia meu nome. Talvez soubesse mais de mim do que eu imaginasse. A raiva e a indignação tomaram conta de mim novamente. Levantei-me, resoluta. Peguei Verônica pelo braço gentilmente, conduzindo-a até a porta:

-Olha, mocinha, as coisas não são bem assim. Você terá que provar quem você é primeiro. E pode ter certeza que eu não vou facilitar as coisas para vocês! Sua mãe é uma golpista, e me desculpe por dizer isto; mas vocês terão que reivindicar seus direitos na justiça, se é que os tem.

Dizendo aquilo, empurrei-a porta afora gentilmente, e fechei a porta.



Aceitação - Parte II




ACEITAÇÃO- Parte II

Passei aquela noite de sábado comendo porcarias em frente a televisão. Vi todos os filmes da HBO até amanhecer. 

Chorei, chorei, chorei... Tércio não estava ali, mas no entanto, estava mais ali do que jamais estivera. Fiquei entre o sono e  a consciência várias vezes. De vez em quando, acordava sobressaltada com a voz dele, como era sempre que ele chegava do trabalho e eu já estava em casa. Ele chamava, como se fosse possível que alguém mais estivesse ali além de mim: "Débora?..." Ah, o som daquela voz, meu nome dentro daquela voz! 

Quando abri os olhos, já era de manhã. Desliguei a TV, olhei em volta com uma sensação de que nada daquilo era real. Era apenas o filme que eu acabara de assistir. Deixei-me ficar assim, pensando, fingindo que ouviria os chinelos de Tércio no corredor, como ele fazia aos domingos, se encaminhando para a cozinha e perguntando: "Não tem café?" Mas nada aconteceu. 

Ah, sim, algo aconteceu: alguém estava tocando a campainha. 

Eu quis fingir que não ouvi, e fingi, mas a pessoa insistiu. Senti que havia uma certa urgência naquele toque. Olhei pelo olho mágico, e vi apenas o topo de uma cabeça loira, e por cima dela, o portãozinho branco e o caminho de pedriscos que conduzia até a porta. Não vi um rosto, não sabia quem era. Fiquei um tempo olhando, até que que  dois olhos apareceram na lente do olho mágico, logo abaixo do cabelo loiro, e senti um calafrio, ao mesmo tempo que levei à mão à boca para conter um grito de puro horror: eram os olhos de Tércio que me olhavam naquele rosto! O mesmo olhar que a tudo abrangia, azul e taciturno, quase preguiçoso, encimado por um par de sobrancelhas arqueadas e loiras. 

Meu coração quase saiu pela boca. Encostei-me à porta. A campainha soou novamente. Sem olhar outra vez no olho mágico, abri a porta devagar, e lá estava ela: a jovem do velório! Abri totalmente a porta, e ela ficou me olhando de cima abaixo, e lembrei-me de que eu vestia um pijama surrado de Tércio. Eu não conseguia dizer palavra, e ela percebendo minha dificuldade, estendeu-me uma mãozinha pequena e frágil, e com uma voz pequenina como a de um de beija-flor,ela disse:

-Olá! Meu nome é Verônica! Posso entrar?

Aceitei aquela mão, que desapareceu dentro da minha, entre meus dedos finos, ossudos e longuíssimos. 
Levei-a até o sofá e ela se sentou. Permaneci de pé, olhando para aquela criatura quase etérea de tão frágil em aparência, mas que tinha, ao mesmo tempo, uma força anímica que me transpassava. Vi que era bonita. parecia um anjo. Mas não, ela não poderia ser um anjo, pois provavelmente, era amante de meu marido! Como Tércio poderia ter se envolvido com uma criaturinha daquelas, assim, tão frágil e tão jovem? Ele sempre me dissera que gostava de mulheres fortes, e que por isso, me escolhera!

Verônica aceitou o copo de água que lhe ofereci, mas recusou o café. Sentei-me finalmente na poltrona em frente a ela, com meu olhar cortante e  inquisidor, achando que assim eu a intimidaria. Eu era alta e magra, poderosa, bem  maior que ela. Fiquei repetindo para mim mesma que se Tércio tivesse que escolher entre uma de nós, escolheria a mim. Levantei-me . Acendi um cigarro (tinha um maço na gaveta da estante, embora tivesse parado de fumar há mais de dois anos, mas achei que aquilo me faria parecer mais forte). Sentei-me de novo.

Ela suspirou. Vi que a fumaça a incomodava, então traguei bem forte e soltei a fumaça na direção do rosto dela. Achei que eu deveria falar primeiro.

- O que você quer? Quem é você?

Ela se mexeu no sofá, cruzando as mãos em volta dos joelhos. 

-Meu nome é Verônica.
-Disto eu já sei.
-Sou ... bem, eu sou...
-Amante de meu marido.
-O quê?
-Amante de meu marido.
-Não!!!
-Não?!
-Não. Sou a filha dele.



ACEITAÇÃO



ACEITAÇÃO - PARTE 1


Passei aquela manhã terrível tentando compreender a presença daquela jovem no velório de meu marido.  Entre as minhas lágrimas, notei - e todos notaram; apenas fingiram não perceber para não causar-me constrangimento - aquela mocinha, menos da metade da minha idade, que chorava compulsivamente, embora tentasse ser discreta. Os cabelos loiros caíam em cachos sobre os ombros. Vestia uma blusa cor-de-rosa de lã macia, e calças jeans. Era do tipo 'mignon'. Não consegui ver a cor de seus olhos, pois usava enormes óculos escuros, que só retirava para secar as lágrimas - ocasiões nas quais mantinha-se de cabeça baixa. Não falou com ninguém, e ninguém falou com ela. 

Vi quando Gertrudes e Zilá, minhas melhores amigas, conversavam baixinho enquanto dirigiam olhares curiosos e zangados àquela jovem. Achei melhor não fazer nada, nem aproximar-me dela. Tércio, meu falecido marido, estava morto. De nada adiantaria vasculhar um passado que nem sequer existia mais, um passado que seria, de repente, embrulhado junto com o presente e o futuro e atirado em uma cova. Eu nunca fora do tipo que sofre sem necessidade. Procurava minimizar meus sofrimentos, de maneira muito prática. Alguns me diziam fria por causa de minha atitude, e nem percebiam que era a minha maneira de continuar e tentar ser feliz, pois já sofrera muito na vida.

E fora Tércio quem resgatara-me de meus sofrimentos ao trazer-me para sua vida, salvando aquilo que restava da minha, e intensificando-a. 

Após o sepultamento, recebi as condolências finais de minhas amigas, e as foram-me ditas as frases clichés em ocasiões como aquelas - "Se precisar, me ligue, estou aqui," "Força, a vida continua," "Ele era um bom homem," "Está com Deus, descansou" e outras frases que se diz tentando significar alguma coisa quando tudo perde o significado e nada há a ser dito. Certifiquei minhas amigas de que estaria bem e de que não, não seria necessário que uma delas passasse a noite comigo, pois queria ficar sozinha. Quando todos se foram, tomei um táxi e fui para casa. A tarde já ia longe.

Apenas quem já perdeu alguém sabe exatamente o que significa chegar em uma casa vazia que estará sempre vazia dali em diante. Ver as roupas ainda penduradas no varal, o livro começado sobre  a mesinha de cabeceira, as chaves jogadas no console, o perfume sobre a cômoda e em todo lugar da casa... é preciso acostumar-se com o fato de que a gente jamais vai se acostumar. É preciso saber que aquela pessoa se foi, e pronto; nem todas as lágrimas a trarão de volta. Mesmo assim, a gente as chora em profusão. Só de raiva, impotência e teimosia. E saudade. mas a saudade não vem logo após o sepultamento. Ela é caprichosa. Vem mais tarde. Vem de repente, quando a gente desperta durante a noite e depara com o travesseiro ao lado onde deveria haver uma cabeça repousando. Vem quando a gente escuta algo interessante no rádio, ou vê algo interessante na TV, e não tem com quem comentar. A saudade é muito caprichosa mesmo! Ela se esconde na caixa de fotografias que cai no nosso pé quando a gente abre o armário do corredor. Vem no cheiro da comida do vizinho, que era o prato preferido de quem se foi. Fica tatuada e adormecida na pele, e desperta nas noites frias. Às vezes, é trazida até nós por uma canção que a gente escuta de repente. Ou vem assim, do nada. Apenas vem. Porque está lá, aonde o outro não está. A saudade substitui uma presença.

Deixei-me mergulhar em meu mar de fossa e de luto durante as duas semanas seguintes. Não fui trabalhar. Dei folga à Rose, minha funcionária. A loja de presentes permaneceu fechada. Atendi a apenas duas ligações, apenas para certificar as minhas amigas de que eu ainda estava viva; depois, pedi que me deixassem em paz. Disse que as avisaria, caso eu morresse. 

E após as duas semanas durante as quais não atendi à porta, não tomei muitos banhos, não comi muita coisa e nem passei muito tempo de pé, achei que era chegada a hora de aventurar minha cara para fora do edredon. É verdade, a vida continua, e até o luto cansa. Eu ainda era jovem, estava no auge de meus 42 anos. Havia muito a se fazer. Ainda teria que cuidar da papelada do inventário, abrir a loja, acionar o seguro de vida de Tércio (engraçado como os seguros de vida só funcionam depois que a gente morre), enfim, voltar a ter algo parecido com uma vida.

Lembrei-me de uma cena no hospital, assim que fiquei sabendo que Tércio não tinha resistido ao enfarto fulminante; uma amiga de minha sogra, que a acompanhava, bradou ao saber da notícia: "Se pelo menos vocês tivessem tido filhos, agora estaria amparada!" Tive que me segurar para não quebrar a cara dela! Um filho teria feito com que Tércio permanecesse vivo? Em que um filho seria capaz de amparar-me? Eu é quem teria de ampará-lo, e sozinha agora! Tem gente que não sabe mais o que fazer para mostrar-se indiscreta e inconveniente. Minha sogra pediu-me desculpas, mas no fundo, eu sei que ela pensava da mesma forma. 

Liguei para ela assim que me desenterrei dos edredons. Naquelas duas semanas, ela não me telefonara nenhuma vez. Não éramos grandes amigas. Sei que ela não aprovou-me desde o início, e que fez tudo o que estava ao seu alcance para que Tércio se casasse com a ex-namoradinha de infância. Ela foi fria e monossilábica ao telefone. Nem perguntou como eu estava. Compreendi que aquela era a primeira e última vez que a contataria após a morte de Tércio, pois não tínhamos realmente nada a nos dizer.

Liguei para minhas amigas, Gertrudes e Zilá. Elas ficaram realmente contentes ao ouvirem a minha voz. Eu fiquei feliz de saber que elas tinham ficado felizes. Minhas melhores amigas formavam um lindo casal - sim, elas eram um casal, e mais um motivo para que minha sogra me odiasse. 
Tomei um bom, e morno, e perfumado com sais, e longo banho de banheira. Chorei de novo. Sempre choraria, todos os dias.

Reuni a papelada que achei que seria necessária para o testamento. Cuidaria de tudo no dia seguinte mesmo. Passei uma vassoura na casa, pois o barulho do aspirador me desintegraria. Tirei o pó. Joguei o edredon das dores na máquina de lavar. Tomei uma xícara de café bem forte e comi uma bolacha salgada. Joguei fora as frutas podres da fruteira e o leite azedo da geladeira.
 Ao abrir as panelas que estavam sobre o fogão, deparei com o estrogonofe e o arroz - nossa última refeição juntos antes de eu receber a notícia, duas horas após ele ter voltado para o escritório de pois do almoço ,cobertos de pelos verdes. O cheiro era tão terrível, que joguei fora as panelas também.

Pronto; primeiras urgências resolvidas.

Agora, a vida, essa urgência que é a mais urgente das coisas.








O JARDIM DAS DESILUSÕES – CAPÍTULO VI – FINAL

O funeral aconteceu em um dia especialmente frio no qual uma chuva fina e cortante era derramada em rajadas pelo vento. Os pais...