segunda-feira, 30 de maio de 2016

A RESENHA DO MAL – CAPÍTULO VI








Após uma noite paradisíaca, um despertar infernal: Décio acordou com os sons murmurantes e cheios de angústia de um pesadelo que Sophie amargava ao seu lado. Ao olhar para ela, percebeu o suor brilhando em sua testa, enquanto sua cabeça virava de um lado para o outro no travesseiro, os olhos apertados e sons guturais vindos da garganta. Ele sentou-se na cama ao lado dela, sem saber o que fazer, pois jamais tinha passado por uma situação daquela.

Enquanto isso, no pesadelo onírico de Sophie, ela era novamente uma menininha de quatro anos de idade, explorando a fazenda, quando, ao passar pelo celeiro (cuja porta alguém esquecera aberta), resolveu entrar. Raios de luz penetravam as frestas das paredes de madeira, iluminando em listras montes de feno, sacos de cereais e ferramentas – algumas (facões e foices), rangiam melancolicamente, pendendo de uma viga de madeira grossa onde alguém as pendurara. A menina foi entrando devagar, ultrapassando pedaços de madeira jogados no chão. De repente, ela ouviu os guinchos, que ela não sabia o que eram. Foi seguindo os sons, até ir dar em uma parede de madeira onde havia uma porta entreaberta de onde vinha uma luz fraca. Ela a empurrou com cuidado, e o que viu deixou-a estarrecida: seu tio (cujo nome ela não se lembra), que estava na fazenda em uma de suas visitas eternas, estava agachado de costas para ela, enquanto observava um enorme rato agonizando. Sophie nunca esqueceu o sofrimento do pobre animal, e nem o vidrinho verde-escuro com um rótulo branco e sujo onde havia uma caveira desenhada, no chão ao lado do tio.
Ela deixou escapar um gritinho, o que fez com que ele se virasse e olhasse para ela:

-Olá, bonequinha... há muitos ratos por aqui. Ratos muito grandes e perigosos, que podem abocanhar uma menininha como você. mas o titio está aqui para protege-la...

E dizendo aquilo, ela reviu, aterrorizada, o braço cabeludo dele estendendo-se na direção dela, agarrando-a pelo pulso e puxando-a para junto de si. Novamente, ela sentiu o cheiro enjoado e repugnante de suor, o hálito nauseante em seu rosto, que era uma mistura de tempero e bebida alcóolica, e que fazia com que ela quisesse morrer. Sophie debatia-se, tentando escapar das mãos do tio, que a apertava cada vez mais forte, tapando sua  boca com as mãos sujas de terra. Ao mesmo tempo, os sons agonizantes do rato iam se tornando cada vez mais fracos, até que, com o canto do olho, ela viu o momento em que ele deu um pinote e depois permaneceu imóvel. Quando ele levantou as saias do vestido dela vagarosamente, tudo ficou escuro, e ela desmaiou dentro do seu pesadelo, para acordar empapada de suor em sua cama.

Sophie deixou escapar um grito abafado, contra o travesseiro, acendendo a luz do abajur e sentando-se na cama. Nem se deu conta da presença de Décio, a não ser quando ele se levantou do seu lado na cama e foi ajoelhar-se no chão diante dela, tentando segurar suas mãos. Sophie teve um pequeno sobressalto, puxando as mãos para longe dele. Décio percebeu seu gesto, e não insistiu.

-Precisa de alguma coisa, Sophie? Acho que você teve um pesadelo, ou algo assim. Quer um copo de água? Eu vou buscar na cozinha.

Ela assentiu com a cabeça, passando as mãos pelos cabelos. Décio saiu do quarto para buscar a água, mas ao chegar à porta e olhar o corredor escuro, iluminado de repente por relâmpagos, teve que respirar fundo antes de cruzá-lo. Mas tomou coragem; afinal, era uma bobagem injustificável ter medo de escuro àquela altura da vida. Sentindo calafrios, ele saiu do quarto em passos apressados, e ao chegar na cozinha, tateou a parede, acendendo as luzes e respirando aliviado. Foi até a pia, passando água em um copo, e ainda de costas para a mesa, abriu a geladeira e encheu-o de água. A voz atrás dele quase o fez largar o copo:

-Ela teve um pesadelo, não foi?

Um milhão de calafrios em forma de agulhas finas percorreram sua espinha, e ao virar-se, Décio deu de cara com Endora, sentada à mesa bebericando uma taça de vinho. Achou estranho, pois alguém que tomava tantos remédios não deveria estar bebendo vinho, mas guardou seu achismo para si mesmo; afinal, não era da sua conta. Recuperou-se do susto, e tentou sorrir:

-Não vi você sentada aí no escuro, Endora...

Endora não respondeu àquela observação. Repetiu a pergunta:

-Ela teve outro pesadelo?

-Sim. Ela sempre os tem?

-Quase sempre.

Ele se deu conta de que Endora sabia que ele tinha passado a noite junto com sua filha, e sentiu seu rosto corar. Riu, meio sem-graça:

-Bem, eu vou lá... levar  a água, sabe.

Endora concordou com a cabeça, levantando-se e puxando o robe em volta do corpo. Passou por ele, indo em direção à varanda da casa. Décio seguiu-a:

-Você está bem, Endora?

Ela olhou-o de soslaio, enquanto abria a fechadura, e ganhou o piso de madeira da varanda. Só então ela respondeu:

-Não. Eu nunca estou bem, meu jovem. Estarei sempre cada vez pior.

Ele sentiu pena dela.

-Posso ajuda-la em alguma coisa?

Ela se sentou na cadeira de balanço velha, e começou a movimentá-la para frente e para trás com a força que lhe restava, enquanto olhava a chuva que ainda caía.

-Não. Mas você pode ajudar minha filha. Ou você não gosta dela? Tenho a impressão que gosta, e muito.

De repente, ele teve uma certeza:  Endora jamais contaria a ele a sua história. Ela o recebera porque, em sua cabeça, achava que ele fosse o príncipe encantado que olharia por Sophie quando ela partisse. 

-Gosto dela, Endora. Mas olha, eu preciso dizer que não sou do tipo que se casa de papel passado, ou que se compromete.

-Não?

Um trovão ribombou ao longe. Ela riu um riso sardônico.

-Vá levar a água, Décio. Amanhã de manhã conversaremos.

-A propósito... sobre amanhã de manhã... você poderia me emprestar um veículo para voltar? É bem longe da cidade, e da casa que eu aluguei. Mas assim que a estrada estiver seca, eu trago o carro de volta para você, e volto de bicicleta. Eu trouxe minha bicicleta, e...

Ela o interrompeu com um aceno brusco de mão:

-Você não vai embora. Ficará para o almoço.

Aquilo soou como uma ordem, e ele, viu-se impotente para contestá-la.

-Agora vá. Quero ficar um pouco sozinha.

Ele a obedeceu. Chegando ao quarto, deparou com Sophie de pé, olhando a chuva à janela. Ele se aproximou, estendendo-lhe o copo, que ela pegou sem agradecer, bebendo alguns pequenos goles e depositando-o sobre o parapeito da janela. Ele percebeu, naqueles gestos, que ela estava acostumada a ter pessoas fazendo coisas para ela. Ele fez menção de abraça-la por trás, mas Sophie livrou-se dos braços dele, dizendo:

-Obrigada, já estou bem. Ode voltar para o seu quarto agora.

Décio ficou estarrecido:

-Como assim? Depois de uma noite destas...

-Ela tirou o robe de seda fina, colocando-o aos pés da cama e entrando debaixo do lençol:

-O que esperava? Que eu me casasse com você? Ambos já tivemos o que desejávamos.

Décio ficou muito perturbado, pois aquela fala era sempre dele. Mesmo assim, reuniu o pouco de orgulho que ainda lhe restava e saiu do quarto batendo a porta atrás de si. Mas ao deitar-se em sua própria cama, não conseguiu dormir. O quarto estava estranhamente frio em relação ao restante da casa. Procurou algum cobertor no armário, mas nada encontrou. Havia apenas roupas antigas cheirando a mofo. Ele sentiu um arrepio ao pensar que aquelas roupas – e talvez a que lhe fora emprestada – tinham pertencido às pessoas assassinadas há anos. Deitou-se na cama, embrulhando-se no lençol, e começou a adormecer.

Mas logo despertou, pois alguém sussurrava em seu ouvido: “Tome cuidado com ela!”

Ele abriu os olhos de repente, uma onda de pavor tomando conta dele. O quarto não estava mais frio, e ele suava. Achou que tivera um pesadelo, mas a voz ainda soava em seus ouvidos. Achou que, se espíritos existissem mesmo (sua mãe acreditava que sim, e até frequentava um centro) estavam tentando avisá-lo de alguma coisa. Mas a assassina que ele deveria temer era apenas uma pobre mulher velha e doente, que amargara vinte e cinco anos na prisão e já pagara por seus crimes, e que no momento, nada poderia fazer contra ele.

O dia amanheceu quente e ensolarado. Quando Décio acordou, deu com suas próprias roupas lavadas e dobradas sobre uma cadeira em frente à sua cama. Ele vestiu-as e calçou os tênis, indo para a sala, onde encontrou mãe e filha tomando o café da manhã, conversando despreocupadamente. Nem sinal de Diana. Elas o viram chegando, e deram-lhe bom dia.

Ele realmente não conseguia acompanhar a mudança de humor das mulheres daquela casa.

-Bom dia, Endora. Bom dia, Sophie.

Ela parecia ainda mais bela à luz da manhã, que penetrava pela janela escancarada. Ele ficou surpreso ao ver a janela aberta pela primeira vez, mas não disse nada. Sentou-se e tomou o café nababesco que lhe era oferecido, descobrindo que estava realmente faminto. Comeram em silêncio, mas havia um clima bem mais leve na casa naquela manhã, como se a tempestade tivesse lavado a energia ruim que pairava sobre o lugar. Quando terminaram, Diana finalmente apareceu, e começou a desfazer a mesa. Eles se levantaram, e Décio achou que já passava da hora de ir embora. Foi quando Endora o chamou:

-Venha comigo.

Ela foi andando, e sem olhar para trás para ver se ele a seguia, entrou em uma sala – que ele reconheceu como sendo um escritório que estivera fechado durante muito tempo, visto a grossa camada de pó que pairava sobre tudo. Endora pediu-lhe que abrisse a janela e fechasse a porta atrás deles, e sentou-se na cadeira acolchoada e suja da escrivaninha antiga e pesada. Décio fez o que ela lhe pedira, e ao abrir a janela, a luz do sol entrou, e a sujeira do cômodo ficou ainda mais impressionante. Havia uma estante de livros por trás da escrivaninha, e cupins e baratas caminhavam sobre eles sem tentarem se esconder. Ele franziu a testa com nojo. Endora não parecia nem um pouco preocupada com o estado lastimável da sala, e fez sinal para que ele se sentasse na cadeira em frente a dela. Décio pensava se deveria sair correndo dali enquanto ainda tinha a chance ou se ficava e escutava o que quer que a mulher tivesse a lhe dizer. Optou pela segunda alternativa.

Endora olhava em volta, os olhos pousando talvez nas dezenas ou centenas de lembranças que ela lhe provocava. Finalmente, ela olhou para ele:

-Vou contar-lhe  aminha história, Décio. Mas com uma condição.

-O que você quiser.
-Ela só poderá ser publicada depois da minha morte. E não se preocupe, não vai demorar muito.
Ele concordou com a cabeça, e ficou olhando para ela. De repente, deu-se conta de que não trouxera seu gravador. Lembrou-se do celular no bolso dos shorts, e viu que ainda tinha quarenta por cento de bateria. Perguntou se poderia gravar a conversa, e ela assentiu. Ele ligou o gravador. Endora puxou uma grande quantidade de ar, que de acordo com as feições dela, Décio percebeu que entrou em seu corpo de forma dolorosa, e começou seu relato.


(continua...)


segunda-feira, 23 de maio de 2016

A RESENHA DO MAL - CAPÍTULO V









A RESENHA DO MAL – Capítulo V




Décio sentiu o coração acelerar. Tentou lembrar-se das coisas que Marta lhe dissera sobre aquela família, e que ele gravara e escutara novamente ao chegar na casa que alugara no dia anterior. Enquanto esperava por Endora, ele voltou a olhar as fotografias antigas, e percebeu que havia muitas coisas naqueles olhos que os fitavam nas molduras que apenas quem fosse muito observador, como ele, poderia perceber. Sentia uma certa ansiedade ao esperar na sala vazia, cercado pela mobília antiga e os tapetes gastos que ainda mostravam um pouco da fortuna e glamour que aquela família possuíra um dia. Era como se ele estivesse pisando em terreno proibido, e sentisse os olhares de reprovação das pessoas nas fotografias. Como seria Endora? Imaginava-a como sendo uma mulher de semblante duro e frio, levemente encarquilhada devido à idade e à doença, extremamente feia, de unhas longas e sujas, cabelos desgrenhados e olhar maldoso. Novamente, sentiu um arrepio em suas costas, e instintivamente, virou-se para olhar, tomando um grande susto ao notar que Sophie e a mãe – Endora – o observavam, de pé à entrada da sala. Não escutara as duas se aproximando, e seu coração deu um pulo.

A mulher que estava diante dele não era nada parecida com o que ele tinha em mente: Endora era uma mulher envelhecida sim, e um tanto alquebrada pela doença, mas era altiva, e seu olhar não era maldoso; pelo contrário, era profundo e sereno. Tinha os cabelos totalmente brancos presos em um coque na nuca, e as unhas, pintadas de cor-de-rosa claro e cortadas bem curtas, nada tinham de aterradoras. Ele ficou parado, olhando para elas. Sophie ajudou a mãe a sentar-se, cochichando algo em seu ouvido, e saiu, batendo a porta de entrada. Um pouco que restava da luz do dia entrou pela porta quando ela passou. Décio escutou um trovão bem ao longe.

Aproximou-se de Endora, que ergueu o braço a fim de impedir que ele chegasse mais perto, e fazendo sinal para que se sentasse na poltrona em frente a ela. Endora nada disse, apenas permaneceu sentada olhando-o, as mãos cruzadas sobre o solo. Décio notou que o vestido que ela usava era muito antiquado, mas estava em perfeito estado. Talvez estivesse vestindo as roupas dos tempos em que era jovem, ele pensou. Como ela não dissesse nada, ele pigarreou e falou:

-Obrigada por me receber, Dona Endora.

Ela o cortou:

-Endora. O que você deseja, meu jovem?

Ele tentou relaxar, encostando na poltrona e procurando passar uma expressão gentil e confiante ao mesmo tempo. Cruzou as pernas. Depois, descruzou-as. A mulher deixava-o nervoso. Décio não era do tipo de pessoa que se intimidasse pela presença de ninguém, e Endora o intrigava.

-Acho que Sophie já disse quem sou; eu...

-Não; diga-me você mesmo.

Ele notou que ela era muito direta, e achou melhor ser direto também; cortou as formalidades e gentilezas:

-Bem, meu nome e Décio, e sou jornalista. Trabalho para a revista Vórtice. Estou interessado em escrever a sua história. A versão que ninguém jamais escutou.

-E por que você acha que eu estaria interessada em contar a minha versão dos fatos?

O tempo todo, Endora mantinha os olhos presos nele, quase sem piscar. Décio remexeu-se na cadeira, cruzou as pernas e deixou-as cruzadas daquela vez. Abriu a boca para falar; por que ele achava que ela estaria interessada, após tantos anos, já doente terminal, em contar a sua história?

-Bem, Endora... acredito que fará bem a você.

-A mim? Por que?

Ela não parecia zangada. Mantinha o tom de voz controlado e suave. Décio suspirou. Notou que estava ficando cada vez mais ansioso, e começou a escutar um leve zumbido dentro de sua cabeça.

-A versão que todos sabem, é que a senhora... digo, você... envenenou sete pessoas em um só dia, de maneira fria e cruel, e confessou o crime. Entregou sua única filha a uma irmã que mora na Europa e nunca mais a viu, a não ser agora. Todos a enxergam como uma assassina fria e sem escrúpulos. Eu... de alguma forma, agora que a vi pessoalmente, sinto que isso não é verdade...

De repente, Décio percebeu que aquela mulher que estava sentada diante dele não poderia ser uma assassina fria! Endora balançou a cabeça, parecendo divertida, e deixou escapar um leve sorriso:

-Acha mesmo que eu passaria vinte e cinco anos na prisão por um crime que eu nunca cometi? Não acha que, se eu não os tivesse matado, eu teria tentado fugir enquanto podia, ao invés de chamar a polícia e confessar tudo? Daria tempo... só descobririam os corpos no dia seguinte, e eu já estaria longe, talvez a caminho de um outro país com a minha filha. Mas preferi chamar a polícia, confessar tudo. Mandar minha filha para longe de mim. Me arriscar a morrer sem vê-la novamente. Ser o alvo de comentários maldosos e sentimentos de ódio de quase todas as pessoas da cidade, e quiçá, do mundo...

Enquanto eles conversavam, começou a escurecer lá fora, e os trovões iam chegando cada vez mais perto. O vento começou a soprar forte, assoviando nas venezianas, e as folhas secas que estavam no chão da varanda arrastavam-se pelo piso. Endora levantou-se, acendendo alguns abajures. Voltou a sentar-se diante do rapaz, demonstrando a mesma fria calma de antes. Aguardava que ele respondesse sua pergunta. O silêncio prolongou-se entre eles, e ela mandou agitou um pequeno sino que trazia no bolso da saia. Décio observou uma outra senhora entrar em silêncio, e parar diante de Endora, que ordenou:

-Diana, por favor, traga duas xícaras de café preto e alguns sanduiches. Coloque sobre a mesa.

Diana virou-se e saiu da sala, sem nada dizer, tão silenciosamente como quando entrou. Endora virou-se novamente para ele:
-Bem, meu rapaz, estou esperando sua resposta; por que você acha que eu gostaria de contar a minha versão desta história tão antiga?

Décio viu sua confiança voltar, e ele, erguendo-se da poltrona, começou a andar pela sala diante de Endora, as mãos gesticulando enquanto começou a falar:

-Após tanto tempo, você desejou volta a esta fazenda. Sei que você e sua filha são ricas e poderiam escolher qualquer lugar no mundo para ir, enquanto trata de seu problema de saúde...

-Meu problema de saúde é um câncer em estado quase terminal, e não há tratamento para isso, jovem.

Décio desconcertou-se, mas logo reuniu forças para continuar. Precisava soar convincente, se quisesse conseguir sua história.

-Exatamente! Se voltou aqui, foi em busca de resgate. Você quis ressuscitar velhas lembranças, talvez... a procura de uma justificativa, ou quem sabe, de remissão. Uma certeza de que agiu certo. A melhor maneira de fazer isso, seria contando a sua história.

-Se for assim, então eu vou contratar um psicólogo, ou um analista para me ouvir... por que eu a contaria a um jornalista ambicioso em início de carreira?

Décio ficou petrificado, a boca entreaberta. Só pode dizer:

-Eu não estou em início de carreira...

Endora continuou olhando para ele, e por trás daquele cenário tenso, Diana entrou e depositou a bandeja com o café e os sanduíches sobre a mesa, saindo em seguida. Endora levantou-se com um pouco de dificuldades, mas quando Décio fez menção de ajuda-la, ela novamente ergueu o braço repelindo-o.

-Venha, vamos tomar café. Não repare se eu não como muito, os remédios me deixam sempre bastante enjoada. E perdoe a minha maneira crua de falar. Acho que vinte e tantos anos em uma cadeia tiram o traquejo social de qualquer um.

Décio seguiu-a até a mesa, sentando-se no lugar que ela indicou a ele. Ela encheu as xícaras, e tomou um gole do café pousando sua xícara novamente e  afastando-a de si o mais longe que conseguiu. Décio percebeu que o cheiro do café deixara-a enjoada. Solidário, apesar de desejar muito tomar o café, ele também afastou a sua xícara e a bandeja com os sanduíches, que faziam sua boca aguar de vontade. Endora tentou sorrir para ele. Apoiou a cabeça em uma das mãos, e ele ficou preocupado:

-Quer que eu chame alguém?

-Não... já vai passar...

Eles permaneceram em silêncio por alguns instantes, até que ela respirou fundo:

-Estou melhor... mas tome seu café, coma um sanduíche.

Ele obedeceu, enquanto ela o olhava comer.

-E então? Por que eu deveria contar minha história a você?

-Porque eu vou torna-la pública. Quero escrevê-la, publicá-la. Todos saberão a sua versão dos fatos, a verdadeira versão.

-E por que você pensa que a minha primeira versão não foi verdadeira?

Ele foi pego de surpresa. Hesitou. A chuva começou a cair lá fora, tamborilando sobre as telhas, querendo perfura-las. Um cheiro de terra molhada entrou pelas gretas das janelas. Décio sabia que a história não era verdadeira, mas não entendia como.

-Eu só sei que... sei. Talvez seja meu faro de jornalista, sei lá...

Ela assentiu vagarosamente. Não respondeu.

Pegou novamente o sino, e Diana reapareceu, ficando em pé junto a ela. Endora olhou para Décio por um tempo um pouco longe demais, e depois, enquanto se apoiava em Diana para levantar-se, pedindo que ela a levasse para o seu quarto e lhe desse uma dose de analgésico, disse:

-Falarei com você amanhã. Mas está chovendo muito agora. Passe a noite aqui.
Antes que Décio respondesse, as duas se afastaram, subindo as escadas devagar. Décio ficou sozinho na sala de jantar, e agarrou mais dois ou três sanduíches, e estava ocupado devorando-os quando Sophie o surpreendeu:

-Ora, ora... você conseguiu. Ela vai ceder uma entrevista... quem diria!

Ele engoliu os sanduíches, limpando a boca com as costas da mão:

-Hum-hum... diga a ela que fiquei muito agradecido pelo convite de passar a noite, mas não posso... não trouxe roupas... e eu vou indo. Estarei de volta amanhã cedo. Obrigada, devo isso a você também.

Dizendo aquilo, ele foi andando para a porta, mas ao abri-la, uma rajada de vento, folhas secas e chuva quase o derrubou. Com dificuldades, Décio voltou a fechar a porta. Sophia ria sarcasticamente.

-Venha, vou levá-lo a um dos quartos, e não se preocupe: temos água corrente por aqui, você poderá tomar um banho, e usar uma das roupas de meu pai.

A ideia de usar as roupas do falecido não agradou a Décio, mas ao mesmo tempo, ele se lembrou de que nunca fora supersticioso. Encolheu os ombros, e seguiu Sophie, agarrando mais um dos sanduíches no caminho.

Ela o conduziu a um dos quartos no final do corredor. Deixou-o sozinho, e logo voltou com toalhas, roupas de cama e uma muda de roupas, e entregou a pilha a ele, saindo em seguida. À porta, ela se voltou de repente:

-O jantar é às sete e trinta.

Décio tomou um banho no banheiro da suíte. O chuveiro antigo quase pingava água, mas o banheiro estava limpo, e aquilo era melhor que nada. Sentiu saudades da sua super ducha.  Em seguida, ele pegou as roupas que Sophia lhe trouxera (um par de calças de brim cáqui pouco usadas e camisa branca). As roupas ficaram perfeitas, como se tivesse sido feitas para ele. Lavou a camiseta suada e os shorts na água do banho, pendurando-as sobre o boxe. Depois, colocou na cama o lençol branco e a fronha no travesseiro novo, esticando o lençol de cobrir sobre tudo. Fazia calor, e ele achou que suas roupas tinham uma grande chance de estarem secas pela manhã. Abriu um pouco o basculante do banheiro para que o ar entrasse – ele achava estranha a maneira como elas mantinham as janelas e portas da casa sempre fechadas.

Olhou no relógio: seis horas. Ainda tinha uma hora e meia antes do jantar. Abriu as portas, olhando o corredor vazio, iluminado por fracas lâmpadas ao longo das paredes. Parecia estar em um cenário de filme de terror. A chuva caía torrencialmente lá fora. Descobriu-se pensando que gostaria de estar em seu apartamento barulhento, longe daquele lugar medonho. Saiu do quarto, fechando a porta atrás de si. Tentaria encontrar Sophie.

Desceu as escadas vagarosamente, e teve a sensação, a cada degrau que pisava, de que alguém atrás dele o seguia. Ouvia o ranger dos velhos degraus de madeira quando ele os pisava se repetirem atrás de si, depois que ele passava. Quando ele parava, fazia silêncio. Se ele voltava a descer, o mesmo fato ocorria. Décio achou que estava apenas sendo vítima do próprio sistema nervoso. Finalmente, chegou ao último degrau e suspirou de alívio.

A sala estava escura e vazia. Não havia ninguém ali. Pensou em como era estranho que as pessoas daquela casa mantivessem as luzes apagadas em um começo de noite tão escuro como aquele. Corajosamente, ele se encaminhou para a sala, aonde ele sabia que estava o interruptor de luz. Sorriu ao perceber que alguém vinha em sua direção – tinha a forma de uma mulher alta -, e pensando que fosse Sophie, ele disse:

-Até que enfim eu encontrei você... essa casa pode ser bem assustadora, não acha?

A pessoa que vinha caminhando na direção dele estancou o passo. Décio podia ver bem claramente a forma do corpo na semiescuridão da sala, desenhada pelos relâmpagos quando a claridade destes penetrava as vidraças sobre a porta. Mais um relâmpago, e ele percebeu que a mulher parada ali não era Sophie; estava diante de uma pessoa bem mais velha, o rosto muito branco e assustado. Imediatamente, ele levou a mão à parede, tateando pelo interruptor. Precisava saber quem seria ela. Ao mesmo tempo, tinha a terrível sensação de que já vira aquele rosto antes, em uma das fotografias. Ao acender a luz fraca, ainda viu a mulher fazer um gesto, pedindo silêncio, os olhos arregalados. E então ela simplesmente sumiu diante dos olhos dele.

Décio custou a acreditar no que tinha acabado de ver. Mais que depressa, ainda sentindo arrepios percorrerem sua espinha, ele foi olhar novamente as fotografias, e foi assim que Sophie o encontrou ao entrar na sala. Ela o chamou pelo nome, e quando ele se virou para ela, Sophie percebeu que ele estava muito pálido e desconcertado. Décio tentou não demonstrar seu estado de espírito, mas Sophie logo captou-o. Tentou descontrair um pouco:

-Vejo que você realmente gosta de fotos antigas, hein? Toda vez que eu entro aqui, eu o pego olhando para elas.

-Sophie... quantas pessoas vivem aqui nesta casa hoje?

Ela encolheu os ombros:

-Eu, minha mãe... Diana. Há as mulheres dos empregados, mas elas só entram aqui se eu mandar, ou melhor, implorar... ou ameaça-las de demissão. Por que?

Décio balançou a cabeça.

-Nada... sua mãe está melhor?

-Ela vai ficar na cama. Diana deu-lhe uma dose forte de analgésicos, e quando isso acontece, ela dorme a noite toda. Melhor assim. Eu... estou na cozinha preparando o jantar. Venha comigo.

Décio seguiu-a para os fundos da casa, passando por mais duas salas. Na última, havia um enorme piano de cauda antigo muito bonito. Décio olhou para ele, e sem saber o motivo, perguntou:

-Você toca piano?

Ela riu:

-Mais ou menos... por que?

-Nada, é que vi um piano lindo ali... quem o tocava?

Ela encolheu os ombros:

-Minha avó. Ela sabia tocar bem. Eu me lembro de ouvi-la tocar. Mas ela não gostava que eu ficasse ouvindo, ela não gostava muito de mim... aliás... não gostava nada.

Décio tentou imaginar o quanto deve ter sido difícil para uma criança pequena viver entre pessoas tão hostis, sentindo-se ameaçada o tempo todo, e com medo.

Chegaram a uma cozinha antiga e enorme, onde havia uma mesa de madeira pesada. A pia de louças mais parecia um tanque de roupas: era funda, forrada de azulejos antigos rachados. Acima dela, havia muitas panelas de ferro e de cobre penduradas.  Havia um fogão à lenha e um outro a gás, também antigo, e sobre ele, uma terrina de molho de tomate exalava um delicioso perfume. Ao lado desta, o macarrão cozinhava. Décio descobriu que estava com muita fome, e ficou contente, pois adorava macarrão. Viu a garrafa de vinho tinto sobre a mesa, que estava arrumada para dois, onde um castiçal queimava três velas grossas de cer.. Achou melhor abrir a garrafa para que o vinho respirasse antes de ser consumido.

-Aquela senhora... ela não vai jantar também?

-Diana? Não... ela janta mais cedo.

Décio observou Sophie coar o macarrão, despejando-o sobre uma travessa e jogando o molho e o queijo por cima. Trabalhava com graça e habilidade, o rosto sereno e confiante. Ela levou tudo para a mesa, onde Décio já servira o vinho. Enquanto Sophie servia os pratos, Décio observava-a em silêncio: como era bonita! Os cabelos curtos tinham sido lavados e não penteados, e davam-lhe um ar de menina rebelde. Os olhos verdes, à luz fraca da cozinha e das velas, brilhavam como duas esmeraldas escuras. Ela estava usando um vestido preto de malha, simples, de mangas três quartos, saia rodada até os joelhos. Apenas uma joia, uma gargantilha de veludo onde brilhava uma pedra vermelha de cristal. Calçava botas de camurça preta, de saltos altos. Ele não cansava de olhar para ela.

Sophie logo notou o olhar insistente dele, armando-se novamente:

-A comida vai esfriar. Coma! E pare de me olhar assim, eu não gosto.

Décio mal pode acreditar: Sophie era realmente estranha, mudando de humor tão bruscamente! Ele não perdeu a confiança, usando de sinceridade:

-Ora, me desculpe, não pretendi ofendê-la! É que você é muito bonita, Sophie, e eu só estava admirando. Não pensei nada de mal. Me desculpe de novo...

Silêncio entre eles. Décio comeu mais uma garfada, arrematando com um bom gole de vinho. Sophie percebeu que ele comia feito um ogro, sem realmente apreciar a comida. Ela aprendera com a tia que a criara a comer devagar, saboreando cada garfada e parando sempre antes de sentir-se realmente satisfeita. Assim, conservava-se sempre em forma. Perguntou:

-Como você consegue ter boa forma, mesmo comendo de forma tão... compulsiva?

Ele ficou contente ao saber que ela reparara em sua boa forma, e sorriu:

-É que eu me exercito muito. Malho quase todos os dias. E você não?

-Não! Acho um horror essas garotas cheias de músculos, mais parecem homens...

Ele deu uma gargalhada:

-Concordo! Algumas exageram. Prefiro as mais femininas, mais delicadas...

Queria acrescentar “Como você,” mas achou melhor calar-se. Ao invés disso, apenas observou:

-A comida está deliciosa, é o melhor macarrão que já comi.

-Aprendi na Itália. Morei lá dois anos.

Continuaram a comer em silêncio. Ele serviu mais vinho para ambos. Ela pousou o garfo, enquanto ele encheu o prato novamente. Havia coisas que Décio gostaria de perguntar, mas achou melhor não fazê-lo. Precisava conquistar a confiança dela antes. Quando terminaram de jantar, a garrafa de vinho estava vazia. ele ajudou-a a arrumar tudo, e conversaram sobre música e filmes enquanto lavavam e secavam as louças. Ela estava descontraída de novo – talvez por causa do vinho. Às nove da noite, ela bocejou. Ele achou que ainda era cedo demais para dormir, pois estava a costumado a ficar acordado até bem mais tarde.

-Vocês não tem uma TV?

Ela riu:

-Há uma na sala, mas é antiga... e funciona muito mal. Por que?

-É que ainda não estou com sono.

Nem eu.

Ele a surpreendeu olhando-o fixamente, muito séria. Os olhos dela pareciam soltar faíscas. De repente, sem nada dizer, ela levantou-se do seu lugar à mesa, onde tinham se sentado de novo, e caminhou decidida até ele, sentando-se em seu colo inesperadamente, enlaçando seu pescoço e dando-lhe um longo e ardido beijo. Décio sentiu que a calça ficara apertada de repente. Ela não tinha nenhum escrúpulo: mostrava exatamente quais eram as suas intenções, e não tinha medo de parecer vulgar. Ele a pegou pelos quadris, erguendo-a apenas o suficiente para abrir o zíper da calça. Ela murmurou, o rosto em chamas:

-Aqui não...

Segurou-o pela mão, levando-o diretamente para o quarto que ele ocupava na casa, no final do corredor. A noite foi ardente, com muitas ações e poucas – pouquíssimas – palavras.


(CONTINUA)




domingo, 15 de maio de 2016

A RESENHA DO MAL - CAPÍTULO IV








A RESENHA DO MAL – Capítulo IV




Lana despertou com o toque do telefone celular, que estava sobre a mesinha de cabeceira. Era manhã de sábado. Ela atendeu, ainda sonolenta, e surpreendeu-se ao escutar a voz de seu ex-marido Mauro. Já não se falavam há anos. Ela percebeu, logo de cara, que ele parecia muito aflito:

-Desculpe ligar para você, Lana... mas por um acaso, o Brian está aí?

Lana sentou-se na cama, intrigada:

-Claro que não! Por que ele estaria aqui?

Ela ouviu a respiração dele do outro lado, e a voz de Patrícia perto dele, dizendo alguma coisa bem baixinho para que ela não ouvisse. Mauro tapou o telefone, mas ela ainda pode escutá-lo dizendo a Patrícia que ficasse quieta.

-É que ele não veio para casa ontem. Não sabemos onde ele está. Uma vez ele comentou que gostava de você...

Aquela informação surpreendeu Lana, e ela demorou um pouco antes de responder:

-Bem, já ligou para os amigos dele?

-Sim, mas ele não esteve com nenhum deles ontem... estamos muito aflitos. Mas... não vou incomodá-la mais, Lana, e desculpe mais uma vez. Se souber de alguma coisa, por favor, nos avise, sim?

-É claro!

Ele despediu-se, desligando. Lana levantou-se, indo até o espelho do banheiro. Mal conhecia Brian, pois os ciúmes de Patrícia o impediam de frequentar a casa do próprio irmão. Mas lembrava-se dele ainda pequeno, quando encontrou Patrícia por acaso em um supermercado, e ela o empurrava em um carrinho de bebê; assim que a viu, Patrícia cobriu o rosto do menino com uma fralda, passando por ela de cabeça erguida. Anos depois, ela o viu saindo da escola, de uniforme. Ele estivera em sua casa poucas vezes a convite dela, nos aniversários de Décio, e ela percebia o quanto Brian admirava o irmão mais velho e tentava aproximar-se dele, que o repelia. Várias vezes, ela chamou a atenção do filho sobre aquilo, mas Décio encolhia os ombros, dizendo que Brian era seu meio-irmão, e não irmão. Lana acreditava que os irmãos precisavam se aproximar um do outro, mas havia muita mágoa no coração de Décio, e muito ódio e ciúmes em Patrícia.
Após escovar os dentes, ela ligou a água da banheira e foi telefonar para Décio a fim de contar-lhe sobre o desaparecimento do irmão.

-Filho, tudo bem? Demorou  a atender.

-Oi, mãe... tudo legal, eu ainda estava dormindo... você está bem?

-Sim. Mas seu irmão... Mauro ligou dizendo que ele não foi para casa ontem. Está desaparecido, ele está preocupado...

-Bem, e o que ele pensa que você tem com isso? Ele que cuide do moleque. Ele e aquela vampira com quem ele se casou.

-Não fale assim, Décio. Brian é só um menino assustado. Ele gosta de você. Você não está nem um pouco preocupado?

-Não. Vão achar ele. Deve estar em alguma boca de fumo, e quando o dinheiro acabar, ele volta para casa.

Lana fechou os olhos, tentando não brigar com Décio. Achou melhor mudar de assunto:

-Bem, e que tipo de cidade é Bernardina?

-Cidade? Você tinha que ver isso aqui. É uma vila poeirenta no meio do nada.

-Já achou o que queria?

-Ainda não. Cheguei há pouco, lembra? E hoje é domingo. Vou descansar um pouco.

-Desculpe por acordá-lo. Agora vou desligar. Beijo, filho.

-Beijo... mãe!

Ela ficou na linha, em silêncio, E Décio disse o que ela esperava ouvir:

-Se souber do moleque, me dê notícias, OK?

Ela sorriu, e desligou.

Décio vestiu um short, um par de tênis velhos e camiseta. Foi correr, já que não se exercitava há dois dias. As pessoas passavam por ele, olhando-o fixamente, e Décio percebeu que era o assunto do momento naquela cidade que não tinha muitos acontecimentos. Saiu do centro, indo correr em uma estrada de barro, ladeada por capim seco e algumas árvores. Viu algumas vacas pastando ao longo da estradinha, e mais nada. Passaram-se quinze minutos, até que ele viu ao longe um jipe poeirento parado junto ao acostamento, na estrada adiante dele. Ainda teve que correr alguns minutos até chegar ao carro, e então parou. Havia uma moça – a mulher mais linda que ele já vira na vida – parada junto ao capô aberto do carro, olhando o motor e coçando a cabeça. Ela não o viu aproximar-se, e quando ela falou, percebeu nela um leve sobressalto:

-Posso ajudar? Algum problema?

Os olhos verdes e desconfiados da moça fixaram-se nele, e no seu rosto suado e avermelhado pela corrida e pelo calor do sol. Aos poucos, Décio viu o medo nos olhos dela transformar-se em autoconfiança, e em seguida em hostilidade, em uma questão de segundos. Quando ela falou, ele percebeu seu tom de voz frio:

-Não, eu me viro.

Ele insistiu:

-Sabe consertar motores?

Ela negou com a cabeça, ainda olhando para dentro do capô.

-Já chamou alguém?

-Esqueci meu celular em casa. Mas estou bem, eu vou andando. É perto daqui.

Ele puxou o celular do bolso do short, estendendo-o para ela, que hesitou antes de pegá-lo. Ela discou um número, e afastou-se, falando em voz baixa. Depois, devolveu o celular a ele.

-Pronto. Virão me buscar.

Décio reparou que ela não agradecera, nem quebrara o gelo entre eles. Ficou parado, olhando-a e admirando a sua beleza quase selvagem, mas domesticada pela excelente aparência e boas roupas. Décio sentiu que ela gostara dele; tinha um sexto sentido para essas coisas; assim, estendeu-lhe a mão:

-Sou Décio. E você?

Sem pegar a mão dele, ela respondeu entre os dentes:

-Olha, você já ajudou muito, obrigada. E adeus.

Ele sentiu-se chocado com a frieza dela. As mulheres tinham por hábito apaixonarem-se por ele e brigarem por sua atenção, e a reação dela deixou-o desconcertado. Insistiu:

-Mesmo assim, ficarei aqui até que a ajuda chegue. Esta estrada é deserta e pode ser perigosa. Eu... vou ficar ali – ele disse, apontando para a sombra de uma árvore há alguns metros – não quero incomodá-la. E afastou-se dela.

A linda moça respirou fundo, demonstrando impaciência, e pensou: o que ele poderia me fazer? Após alguns segundos, ela o seguiu para debaixo da árvore:

-O sol está forte... aliás, meu nome é Sophie.

Ele sorriu, apesar de ela não oferecer-lhe a mão para apertar. Mal pode acreditar em sua sorte: a moça era Sophie, filha de Endora Damata! Sua reportagem estava garantida, pensou. Decidiu continuar fingindo não saber quem ela era.

-Prazer, Sophie. Você mora por aqui?

Sophie olhou-o de soslaio, e um riso de escárnio escapou de sua boca:

-Sim, eu moro por aqui. Por enquanto. E você sabe muito bem disso, e você não é daqui. É um repórter – mais um – que quer entrevistar a minha mãe.  Mas vou logo dizendo que minha mãe não dá entrevistas. Está perdendo seu precioso tempo.

Décio não perdeu a calma:

-Bem, minha profissão é tentar. E eu não costumo desistir fácil. Me desculpe por não  dizer quem eu realmente sou.

Sophie concordou com a cabeça. Olhou-o nos olhos pela primeira vez, e pensou que gostaria muito de pregar uma peça na arrogância do rapaz. Sorriu para ele, seu sorriso mais estudadamente sedutor. Lembrou-se da última vez que um repórter tentara entrevistar sua mãe, e ela mandou que um empregado o pusesse para fora soltando um cão bravo atrás dele. O homenzinho correu feito bala antes de entrar no carro e sair acelerando.

-OK. Pode tentar se quiser. Veja, minha carona está chegando. Quer ir até a fazenda falar com minha mãe?

Décio nem sequer pensou em preocupar-se com sua aparência suada, empoeirada e nada formal. Foi logo respondendo que sim. O velho Ford parou na beira da estrada, dirigido por um homem mal-encarado que olhou-o dos pés à cabeça, mas não disse palavra. Sophie entrou no carro, sentando-se no banco da frente, e Décio sentou-se no banco de trás.

Percorreram ainda vinte minutos de estrada esburacada em silêncio, antes de chegarem a uma porteira pintada de branco. O homem saiu do carro, encaminhando-se para a porteira. Quando ficaram sozinhos, Décio puxou conversa:

-Houve muitos antes de mim?

-Não. Apenas quatro.

-E eles sobreviveram?

Ela entendeu a piada, mas não riu. Sequer respondeu. Décio ficou ainda mais desconfortável, e 
engoliu em seco. A estranha o fascinava e exasperava ao mesmo tempo. O empregado voltou ao carro, e entraram na fazenda. Mais uma vez, ele parou o carro e foi fechar o portão. Sophie percebeu que gostava do cheiro dele. Tinha o nariz muito sensível para cheiros, e notou os resquícios do perfume caro que ele usara no dia anterior preenchendo o espaço do carro. Também achou o rosto dele bonito, e gostou da voz dele. Mas sabia que ele logo estaria bem longe dali, e que ela nunca mais o veria, e nem deveria querer ver.

Chegaram na fazenda, e Sophie mandou que ele a acompanhasse. Eles subiram um pequeno lance de escadas, indo dar em uma varanda que circundava a casa de fazenda. Ele reparou o belo e antigo piso de ladrilhos hidráulicos, e a beleza e austeridade da casa, embora estivesse precisando de muitas formas. Passaram por várias janelas grandes e altas, todas elas, fechadas e com as cortinas cerradas antes de finalmente chegarem a uma porta de madeira enorme, sobre a qual descansava uma antiga aldrava com a cara de um leão zangado. Décio notou o silêncio do lugar, e também algumas pessoas muito mal-encaradas que os observavam enquanto faziam vários tipos de serviços no terreno. O lugar era hostil e um tanto assustador, e ele sentiu como se estivesse em uma daquelas cenas de filmes trash de terror. Porém, esperava ansiosamente pela cena na qual ele poderia salvar a linda mocinha das mãos dos zumbis malvados. Mas quando Sophie olhou para ele novamente, mandando que entrasse e aguardasse na sala, seu olhar frio o fez compreender que aquela cena tinha sido excluída do script.
Ela o deixou de pé na sala de estar, e sem olhar para trás ou mandá-lo sentar-se, Sophie subiu as escadas de madeira cobertas por um tapete vermelho desbotado que levava ao andar superior. Antes de entrar no quarto da mãe, bateu levemente. A mãe parecia um pouco melhor – estivera mal no dia anterior, e Diana precisara aumentar as doses dos sedativos. Ela estava sentada na cama, tomando seu desjejum, e sorriu ao ver a filha chegando. Sophie dirigiu a Diana um olhar, e ela compreendeu que mãe e filha desejavam ficar a sós.

-Está melhor, mãe? – Sophie disse, sentando-se na cama ao lado da mãe e afastando uma mexa de cabelo do rosto cansado da velha senhora.

-Sinto-me melhor hoje. Acho que posso até mesmo dar uma volta pelo jardim.

-Mas está um calorão lá fora! Vai aguentar andar nesse sol?

-Bem, então vou sentar-me um pouco na varanda... vai ajudar-me a colocar um vestido fresquinho? 

Ainda estou de camisola.

-Claro, assim que você terminar seu café da manhã.

Endora afastou a bandeja, dizendo que já havia terminado. Sophie ficou triste; ela comia menos a cada dia, e às vezes, colocava tudo para fora após alguns minutos. Pegou a bandeja, indo colocá-la sobre a cômoda.

-Mãe... há um repórter esperando para falar com a senhora na sala, lá em baixo... ele me ajudou na estrada quando o carro quebrou. Me emprestou o telefone. Eu disse que a senhora não está recebendo ninguém, mas... ele .. insistiu muito.

Sophie surpreendeu-se com o tom apaziguador de suas próprias palavras; minutos antes, estivera desejando pregar uma peça no rapaz. Endora, de quem nada escapava – nenhum sorriso, olhar furtivo ou intenção oculta – logo soube que a filha gostara do repórter. E que se o havia levado até lá, mesmo sabendo do que acontecera aos outros que tentaram antes dele, era porque estava realmente interessada, e o tal rapaz deveria ser uma boa pessoa. Para surpresa da filha, Endora disse:

-Com este eu vou falar. Mande servir um suco ao rapaz, vá fazer companhia a ele e mande Diana entrar para me ajudar a por uma roupa decente.

Quando a filha saiu, Endora acompanhou, sem qualquer espanto, o momento em que um porta joias voou de cima da cômoda, indo cair junto à poltrona. Aquilo era um sinal...

Na sala de estar, Décio estava debruçado sobre uma fotografia de uma família que, ele supôs fossem os Damata assassinados por Endora. Estava bastante entretido, observando a foto que descansava sobre o aparador de uma lareira totalmente fora de lugar no contexto climático do local, quando sentiu uma respiração junto ao seu pescoço, como se alguém também observasse o mesmo retrato que ele, logo atrás de suas costas. Virou-se para ver quem era, e sentiu um arrepio percorrer sua espinha dorsal – apesar do calor – quando não deparou com ninguém. Ele tivera certeza de que havia alguém junto com ele naquela sala. Mas logo distraiu-se com a volta de Sophie, que trazia-lhe um copo de suco de tamarindo e o convidava a sentar-se. Ele ficou pasmo: quantas vezes por dia aquela mulher era capaz de mudar de personalidade?

Convidou-o a sentar-se no antigo e nada confortável sofá da sala de estar, sentando-se na poltrona diante dele, as mãos sobre o colo, os olhos verdes gelados a observá-lo, enquanto ele engolia o suco vagarosamente. Sophie disse:

-Minha mãe vai vê-lo.



(continua...)



segunda-feira, 9 de maio de 2016

A RESENHA DO MAL – CAPÍTULO III







Sophie guardou o aspirador de pó, terminando a limpeza da sala. Raramente conseguia alguém que fosse trabalhar na casa. A fazenda estava abandonada – as plantações, antes famosas nos tempos áureos dos Damata – eram descuidadas e não davam mais grandes lucros, pois os empregados, após anos de ausência de alguém que lhes ordenasse com pulso forte, aprenderam a relaxar e não dar importância ao trabalho. O velho capataz, homem de confiança da família Damata, que cuidava de tudo há muitos anos, havia falecido poucos meses antes de Endora sair da prisão. Além daquilo, as lendas ao redor da história do lugar contribuíam para manter as pessoas afastadas. Sophie não podia demitir os funcionários preguiçosos e contratar novos. Assim, a fazenda ia de mal a pior. Ela já vendera duas outras a fim de pagar dívidas. Mas ainda lhes restavam muitas terras, e eram ainda muito ricas, ela pensava. Talvez acabasse conseguindo convencer a mãe a vender tudo e ir embora com ela para a Europa. E mesmo se não conseguisse, o médico dissera que não restaria muito tempo a Endora.

Sophie crescera longe da mãe, pois fora mandada para longe logo que aconteceu a tragédia em sua família e Endora foi presa, acusada de múltiplo homicídio, mas mãe e filha correspondiam-se sempre através de cartas, que Sophie recebia, lia com atenção algumas vezes e queimava, conforme as instruções da própria mãe, que não queria que as mesmas pudessem cair nas mãos de curiosos. Endora também queimava as cartas que a menina lhe mandava da Europa, e então seu relacionamento com a filha e as coisas que diziam e pensavam entre elas passaram a ser segredo. Amavam-se à distância, e compreendiam uma à outra. Agora, que a mãe precisava de cuidados, era natural que Sophie abandonasse sua vida despreocupada e viesse ficar com ela, deixando para trás seu trabalho como fotógrafa, a família da tia, que a criara e também os pouquíssimos amigos que fizera. Sophie tinha um passado a esconder, e fazer amigos significava convidar as pessoas a fazer perguntas, o que ela não desejava. Assim, seus poucos amigos eram apenas alguns primos, sobrinhos da tia, ou filhos de amigos desta que já conheciam a história e não ficavam fazendo perguntas.

Deixa-los não fora difícil; Sophie aprendera com a mãe, através das cartas, a não se deixar cativar por ninguém, pois as pessoas nunca eram o que pareciam. Elas manipulavam, obtinham o que queriam e depois deixavam suas vítimas estendidas feito carcaças secas. Sophie não confiava em ninguém. A não ser em sua mãe, que mesmo longe, era a influência mais forte que havia em sua vida. Seus tios demonstravam por ela um afeto morno, que ela sentia como se fosse piedade e obrigação; seus primos a apreciavam, talvez porque ela fosse muito bela e inteligente e perspicaz. Mas Sophie se lembrava das admoestações de Endora: “Não se deixe enganar: nada é mais persuasivo do que a adulação. As pessoas que a apreciarem, seja pela sua beleza ou pela sua inteligência, sempre hão de querer algo de você. Não dê a eles o que eles querem. Poupe a si mesma. Preserve-se. Não se deixe manipular.” 

O fato de sua mãe estar em uma cadeia, tendo sido acusada de assassinato, não maculava seu amor por ela. Sophie lembrava-se dos tempos de criança, antes que as duas fossem separadas, e do amor dedicado da mãe, de sua proteção, das horas que passavam juntas brincando nos campos verdes da fazenda, em paz, longe dos olhares raivosos do pai e dos avós– estes sim, ela temia e odiava. Viveram uma vida que, quando estavam juntas e sós, chegava próximo ao paraíso. Porém, quando os outros membros da família estavam por perto, só havia tensão, medo, agressões verbais e até mesmo físicas; se sua mãe tivesse realmente assassinado a família, com certeza ela o fizera a fim de protege-la, negando a si mesma viver em liberdade para que ela, Sophie, pudesse ser livre. Isto era louvável para ela. Mas sempre que ela tocava no assunto nas cartas, a mãe se ressentia.

Certa vez, escreveu-lhe diretamente: “Mãe, você realmente fez aquilo?”

As cartas deixaram de chegar por quase um ano, para pavor de Sophie (e alívio dos tios). Mas ela insistia, escrevendo à mãe toda semana, pedindo que a perdoasse. Até que um dia, Endora enviou-lhe uma carta: “Se você realmente me ama, terá que respeitar meus compartimentos fechados. Terá que aprender a conviver com meus silêncios.” E assim ela fez. 

Sophie ficou muito chocada ao rever a mãe após tantos anos. Chegando de Paris, ela instalou-se em um hotel por uma noite antes de ir buscar Endora na prisão. Lembrava-se da mulher bonita nas fotografias, e deparar com a senhora de aparência envelhecida e mal-cuidada, visivelmente tomada pela doença, foi um choque para ela. Mesmo assim, tentou lembrar-se da mulher que conhecera há anos, em sua infância, e que era a sua mãe, e respirando fundo, conseguiu caminhar até ela, dando-lhe um frouxo abraço e ajudando-a a entrar no táxi que as levaria de volta à fazenda Damata.

Desde que voltaram à fazenda, que Sophie odiava, mas concordara em atender ao último pedido da mãe, Sophie escutava as lendas a respeito das duas: ela mesma era tida como filha do Diabo. Sua mãe, uma assassina fria. Todos diziam: “melhor que fiquemos o mais longe possível da casa grande.” Alguns empregados mudaram-se após a chegada das duas, e os que ficaram, vendo-se em posição vantajosa (sabiam-se necessários) exigiram aumento de salário e recusavam-se a trabalhar muito.

Às vezes, uma das mulheres limpava a casa, mas todas elas temiam entrar lá, e foi difícil que Sophie conseguisse alguma ajuda para cuidar da mãe. Por esta razão, alguns dias após sua chegada, ela colocou anúncio no jornal pedindo uma cuidadora. Diana, uma enfermeira aposentada de São Paulo, foi a única a responder ao anúncio. Sophie fez questão de ir busca-la de carro ela mesma, para que ela não passasse pela cidade e escutasse as lendas sobre sua mãe. Foram diretamente para a fazenda, e desde que chegara, Diana lá permanecera. Não tinha família e nem ninguém a visitar nos dias de folga. Sophie proibiu-a de ficar conversando com os empregados da fazenda, e ela obedeceu. Diana era discreta, calada e eficiente. Mesmo com todo cuidado que Sophie tivera para que ela não ficasse sabendo das histórias que circulavam sobre sua família, foi inevitável que um dos trabalhadores a inteirasse de tudo, mas ela continuou fazendo seu trabalho, sem questionamentos. Também não se deixou amedrontar pelas lendas que contavam sobre suas patroas. O arranjo entre elas era perfeito: ela ministrava os remédios nas horas certas, ajudava Endora  a banhar-se, cuidava das roupas e da arrumação e limpeza do quarto da paciente, lia para ela quando esta pedia.

A fazenda Damata era um retrato da decadência, e não refletia a riqueza de suas proprietárias: as paredes externas soltavam reboco aqui e  ali, e a tinta branca estava carcomida pelo tempo. Dentro da casa, as cortinas tinham remendos e estavam empoeiradas; a mobília antiga e de boa qualidade precisava ser polida, e algumas peças tinham sido atacadas por cupins. Mais da metade da louça da família ou fora quebrada ou furtada. Sobraram algumas peças que ainda continham o desenho do brasão Damata, e alguns copos antigos com as bordas lascadas. A prataria tinha sido quase toda substituída por talheres de alumínio, sem valor. Restavam apenas poucas peças. Roupas de cama, mesa e banho também estavam em mau estado, gastas e desbotadas. As melhores peças tinham sido roubadas por ex-funcionários após a morte do capataz. Sophie também percebera, olhando as contas da fazenda, que o falecido capataz desviara grande parte do dinheiro, mas ela nem pensava em contestar nada.

Aquela era a situação da fazenda quando Sophie e sua mãe, a misteriosa Endora, chegaram à minúscula cidade de Bernardina. 

Aos trinta anos de idade, Sophie era uma mulher muito bonita: alta e magra, gostava de vestir preto com alguns pequenos toques de cores fortes, como azul, roxo, verde e rosa. Tinha os cabelos ondulados e negros cortados curtos, o que lhe emprestava um ar jovial e aparência mais jovem. Nunca pintava as unhas: seus dedos muito longos e finos terminavam em unhas ovaladas e rosadas que ela  mantinha sempre curtas. Alguém já lhe dissera que suas mãos serviriam de modelos para anúncios de produtos de beleza. Seus olhos, de um verde escuro e profundo, eram encimados por cílios longos e densos, e sobrancelhas escuras e arqueadas. A boca desenhada em forma de coração, dava-lhe um ar infantil e sensual ao mesmo tempo. Apesar de ser cortejada por muitos homens, tivera apenas dois namoros que não duraram muito, e algumas pessoas pensavam que ela era homossexual, o que não era verdade. O que acontecia, era que sua personalidade altiva e exigente, seus modos extremamente fechados e seu medo do passado, disfarçado por ironia mordaz, faziam com que ela mantivesse as pessoas afastadas. Os homens a admiravam, sonhavam com ela e a temiam. Diziam que Sophie era inteligente demais, mordaz demais, exigente demais e muito crítica. Os que tentavam uma aproximação, eram geralmente recebidos com frio desdém. Ela troçava deles, expondo seus defeitos de maneira quase cruel. 

Quando Endora pôs os olhos na filha, sentiu-se orgulhosa por sua beleza: ela, que recusara-se a trocar fotografias com Sophie durante todos aqueles anos, imaginara-a mudando de feições enquanto crescia, e transformara-se exatamente naquilo que ela imaginava. 

Assim, o reencontro entre as duas consistira em um olhar de admiração e outro de espanto. 

Não conversaram muito; elas se entendiam através de olhares, deixando para falar apenas o que fosse essencial. Sabiam o que acontecera nos anos em que estiveram separadas, e o passado não seria assunto para elas. O que importava para Endora, é que ela estava de volta à fazenda de onde havia sido arrastada há tempos atrás, a fazenda na qual sofrera suas piores misérias e dores. Para ela, aquilo significava um triunfo, já que seus algozes estavam mortos e enterrados, e ela, viva e possuidora de toda aquela riqueza – embora estivesse doente e com os dias contados. Mas pensava: E quem não estaria? Todas as pessoas estavam com os dias contados, mesmo que algumas fossem viver mais que outras. A diferença, era que ela sabia que os seus estavam terminando – que, para ela, dava-lhe alguma vantagem sobre os que nem sequer se davam conta disso. 

Havia, num canto da sala, um antigo aparelho de TV. Ao descobrir que ele ainda funcionava, Endora passou a ficar pelo menos duas horas ao dia diante dele, assistindo às notícias e surpreendendo-se pelo quanto as pessoas tinham se tornado estranhas e idiotas desde que ela saíra do mundo. A vaidade e o exagerado amor próprio tomara conta de todos, que exibiam-se e às suas vidas nas telas dos computadores de forma obsessiva, e o que há alguns anos teria sido considerado ridículo, era então aplaudido e incentivado. Deu graças porque Sophie não embarcara naquela onda. Aprendera a ser discreta, a não desejar aparecer muito e preservar-se. Pelo menos, aquela lição ela pudera ensinar à filha querida. 

Endora também passava bastante tempo dormindo sob o efeito dos analgésicos que tomava. Às vezes, quando sentia-se melhor, caminhava pela casa sem a ajuda de Diana. Gostava de percorrer os cômodos e lembrar do que lhe acontecera ali: as humilhações que passara, incutidas pelo falecido marido e seus sogros. Ela passava as mãos sobre a poeira dos móveis, deixando o rastro de seus dedos, como a  mostrar àqueles fantasmas que ela estava ali e era mais sólida que eles, que não mais poderiam fazer-lhe mal nenhum, e nem à sua menina. Tomara posse daquele casarão velho e decaído como se fosse um castelo no qual ela reinava absoluta sobre eles. E às vezes, ela sentia um vento frio soprando em seu pescoço, e sabia que era um deles tentando atingir-lhe. Ao invés de temer, Endora ria. Algumas vezes, ela percebia com o canto dos olhos uma sombra escura passando perto dela, deixando um rastro frio. Sophie dissera que ela mesma também sentia aquilo algumas vezes, mas também não tinha medo dos mortos. 

Acharam melhor nada comentar com Diana, mas mesmo ela também podia sentir coisas estranhas circulando naquela casa, embora não as comentasse. Só não ia embora dali porque não tinha para onde ir, e nem como sustentar-se. Passava dos sessenta anos, era viúva, não tivera filhos e seria muito difícil conseguir emprego naquela idade. Aprenderia a acostumar-se às estranhezas da casa, e a conviver com elas. Afinal, nunca tinham lhe feito mal algum, a não ser algumas noites mal dormidas, nas quais ela despertava com a certeza de que alguém estava no quarto junto com ela. Também via os vultos escuros com os cantos dos olhos, e às vezes escutava sons de batidas nos móveis. Procurara por ratos ou outros animais, não encontrando nada.

Mantinha um crucifixo sobre sua cama, achando que ele poderia proporcionar-lhe alguma proteção. 



(continua...)




O JARDIM DAS DESILUSÕES – CAPÍTULO VI – FINAL

O funeral aconteceu em um dia especialmente frio no qual uma chuva fina e cortante era derramada em rajadas pelo vento. Os pais...