domingo, 15 de maio de 2016

A RESENHA DO MAL - CAPÍTULO IV








A RESENHA DO MAL – Capítulo IV




Lana despertou com o toque do telefone celular, que estava sobre a mesinha de cabeceira. Era manhã de sábado. Ela atendeu, ainda sonolenta, e surpreendeu-se ao escutar a voz de seu ex-marido Mauro. Já não se falavam há anos. Ela percebeu, logo de cara, que ele parecia muito aflito:

-Desculpe ligar para você, Lana... mas por um acaso, o Brian está aí?

Lana sentou-se na cama, intrigada:

-Claro que não! Por que ele estaria aqui?

Ela ouviu a respiração dele do outro lado, e a voz de Patrícia perto dele, dizendo alguma coisa bem baixinho para que ela não ouvisse. Mauro tapou o telefone, mas ela ainda pode escutá-lo dizendo a Patrícia que ficasse quieta.

-É que ele não veio para casa ontem. Não sabemos onde ele está. Uma vez ele comentou que gostava de você...

Aquela informação surpreendeu Lana, e ela demorou um pouco antes de responder:

-Bem, já ligou para os amigos dele?

-Sim, mas ele não esteve com nenhum deles ontem... estamos muito aflitos. Mas... não vou incomodá-la mais, Lana, e desculpe mais uma vez. Se souber de alguma coisa, por favor, nos avise, sim?

-É claro!

Ele despediu-se, desligando. Lana levantou-se, indo até o espelho do banheiro. Mal conhecia Brian, pois os ciúmes de Patrícia o impediam de frequentar a casa do próprio irmão. Mas lembrava-se dele ainda pequeno, quando encontrou Patrícia por acaso em um supermercado, e ela o empurrava em um carrinho de bebê; assim que a viu, Patrícia cobriu o rosto do menino com uma fralda, passando por ela de cabeça erguida. Anos depois, ela o viu saindo da escola, de uniforme. Ele estivera em sua casa poucas vezes a convite dela, nos aniversários de Décio, e ela percebia o quanto Brian admirava o irmão mais velho e tentava aproximar-se dele, que o repelia. Várias vezes, ela chamou a atenção do filho sobre aquilo, mas Décio encolhia os ombros, dizendo que Brian era seu meio-irmão, e não irmão. Lana acreditava que os irmãos precisavam se aproximar um do outro, mas havia muita mágoa no coração de Décio, e muito ódio e ciúmes em Patrícia.
Após escovar os dentes, ela ligou a água da banheira e foi telefonar para Décio a fim de contar-lhe sobre o desaparecimento do irmão.

-Filho, tudo bem? Demorou  a atender.

-Oi, mãe... tudo legal, eu ainda estava dormindo... você está bem?

-Sim. Mas seu irmão... Mauro ligou dizendo que ele não foi para casa ontem. Está desaparecido, ele está preocupado...

-Bem, e o que ele pensa que você tem com isso? Ele que cuide do moleque. Ele e aquela vampira com quem ele se casou.

-Não fale assim, Décio. Brian é só um menino assustado. Ele gosta de você. Você não está nem um pouco preocupado?

-Não. Vão achar ele. Deve estar em alguma boca de fumo, e quando o dinheiro acabar, ele volta para casa.

Lana fechou os olhos, tentando não brigar com Décio. Achou melhor mudar de assunto:

-Bem, e que tipo de cidade é Bernardina?

-Cidade? Você tinha que ver isso aqui. É uma vila poeirenta no meio do nada.

-Já achou o que queria?

-Ainda não. Cheguei há pouco, lembra? E hoje é domingo. Vou descansar um pouco.

-Desculpe por acordá-lo. Agora vou desligar. Beijo, filho.

-Beijo... mãe!

Ela ficou na linha, em silêncio, E Décio disse o que ela esperava ouvir:

-Se souber do moleque, me dê notícias, OK?

Ela sorriu, e desligou.

Décio vestiu um short, um par de tênis velhos e camiseta. Foi correr, já que não se exercitava há dois dias. As pessoas passavam por ele, olhando-o fixamente, e Décio percebeu que era o assunto do momento naquela cidade que não tinha muitos acontecimentos. Saiu do centro, indo correr em uma estrada de barro, ladeada por capim seco e algumas árvores. Viu algumas vacas pastando ao longo da estradinha, e mais nada. Passaram-se quinze minutos, até que ele viu ao longe um jipe poeirento parado junto ao acostamento, na estrada adiante dele. Ainda teve que correr alguns minutos até chegar ao carro, e então parou. Havia uma moça – a mulher mais linda que ele já vira na vida – parada junto ao capô aberto do carro, olhando o motor e coçando a cabeça. Ela não o viu aproximar-se, e quando ela falou, percebeu nela um leve sobressalto:

-Posso ajudar? Algum problema?

Os olhos verdes e desconfiados da moça fixaram-se nele, e no seu rosto suado e avermelhado pela corrida e pelo calor do sol. Aos poucos, Décio viu o medo nos olhos dela transformar-se em autoconfiança, e em seguida em hostilidade, em uma questão de segundos. Quando ela falou, ele percebeu seu tom de voz frio:

-Não, eu me viro.

Ele insistiu:

-Sabe consertar motores?

Ela negou com a cabeça, ainda olhando para dentro do capô.

-Já chamou alguém?

-Esqueci meu celular em casa. Mas estou bem, eu vou andando. É perto daqui.

Ele puxou o celular do bolso do short, estendendo-o para ela, que hesitou antes de pegá-lo. Ela discou um número, e afastou-se, falando em voz baixa. Depois, devolveu o celular a ele.

-Pronto. Virão me buscar.

Décio reparou que ela não agradecera, nem quebrara o gelo entre eles. Ficou parado, olhando-a e admirando a sua beleza quase selvagem, mas domesticada pela excelente aparência e boas roupas. Décio sentiu que ela gostara dele; tinha um sexto sentido para essas coisas; assim, estendeu-lhe a mão:

-Sou Décio. E você?

Sem pegar a mão dele, ela respondeu entre os dentes:

-Olha, você já ajudou muito, obrigada. E adeus.

Ele sentiu-se chocado com a frieza dela. As mulheres tinham por hábito apaixonarem-se por ele e brigarem por sua atenção, e a reação dela deixou-o desconcertado. Insistiu:

-Mesmo assim, ficarei aqui até que a ajuda chegue. Esta estrada é deserta e pode ser perigosa. Eu... vou ficar ali – ele disse, apontando para a sombra de uma árvore há alguns metros – não quero incomodá-la. E afastou-se dela.

A linda moça respirou fundo, demonstrando impaciência, e pensou: o que ele poderia me fazer? Após alguns segundos, ela o seguiu para debaixo da árvore:

-O sol está forte... aliás, meu nome é Sophie.

Ele sorriu, apesar de ela não oferecer-lhe a mão para apertar. Mal pode acreditar em sua sorte: a moça era Sophie, filha de Endora Damata! Sua reportagem estava garantida, pensou. Decidiu continuar fingindo não saber quem ela era.

-Prazer, Sophie. Você mora por aqui?

Sophie olhou-o de soslaio, e um riso de escárnio escapou de sua boca:

-Sim, eu moro por aqui. Por enquanto. E você sabe muito bem disso, e você não é daqui. É um repórter – mais um – que quer entrevistar a minha mãe.  Mas vou logo dizendo que minha mãe não dá entrevistas. Está perdendo seu precioso tempo.

Décio não perdeu a calma:

-Bem, minha profissão é tentar. E eu não costumo desistir fácil. Me desculpe por não  dizer quem eu realmente sou.

Sophie concordou com a cabeça. Olhou-o nos olhos pela primeira vez, e pensou que gostaria muito de pregar uma peça na arrogância do rapaz. Sorriu para ele, seu sorriso mais estudadamente sedutor. Lembrou-se da última vez que um repórter tentara entrevistar sua mãe, e ela mandou que um empregado o pusesse para fora soltando um cão bravo atrás dele. O homenzinho correu feito bala antes de entrar no carro e sair acelerando.

-OK. Pode tentar se quiser. Veja, minha carona está chegando. Quer ir até a fazenda falar com minha mãe?

Décio nem sequer pensou em preocupar-se com sua aparência suada, empoeirada e nada formal. Foi logo respondendo que sim. O velho Ford parou na beira da estrada, dirigido por um homem mal-encarado que olhou-o dos pés à cabeça, mas não disse palavra. Sophie entrou no carro, sentando-se no banco da frente, e Décio sentou-se no banco de trás.

Percorreram ainda vinte minutos de estrada esburacada em silêncio, antes de chegarem a uma porteira pintada de branco. O homem saiu do carro, encaminhando-se para a porteira. Quando ficaram sozinhos, Décio puxou conversa:

-Houve muitos antes de mim?

-Não. Apenas quatro.

-E eles sobreviveram?

Ela entendeu a piada, mas não riu. Sequer respondeu. Décio ficou ainda mais desconfortável, e 
engoliu em seco. A estranha o fascinava e exasperava ao mesmo tempo. O empregado voltou ao carro, e entraram na fazenda. Mais uma vez, ele parou o carro e foi fechar o portão. Sophie percebeu que gostava do cheiro dele. Tinha o nariz muito sensível para cheiros, e notou os resquícios do perfume caro que ele usara no dia anterior preenchendo o espaço do carro. Também achou o rosto dele bonito, e gostou da voz dele. Mas sabia que ele logo estaria bem longe dali, e que ela nunca mais o veria, e nem deveria querer ver.

Chegaram na fazenda, e Sophie mandou que ele a acompanhasse. Eles subiram um pequeno lance de escadas, indo dar em uma varanda que circundava a casa de fazenda. Ele reparou o belo e antigo piso de ladrilhos hidráulicos, e a beleza e austeridade da casa, embora estivesse precisando de muitas formas. Passaram por várias janelas grandes e altas, todas elas, fechadas e com as cortinas cerradas antes de finalmente chegarem a uma porta de madeira enorme, sobre a qual descansava uma antiga aldrava com a cara de um leão zangado. Décio notou o silêncio do lugar, e também algumas pessoas muito mal-encaradas que os observavam enquanto faziam vários tipos de serviços no terreno. O lugar era hostil e um tanto assustador, e ele sentiu como se estivesse em uma daquelas cenas de filmes trash de terror. Porém, esperava ansiosamente pela cena na qual ele poderia salvar a linda mocinha das mãos dos zumbis malvados. Mas quando Sophie olhou para ele novamente, mandando que entrasse e aguardasse na sala, seu olhar frio o fez compreender que aquela cena tinha sido excluída do script.
Ela o deixou de pé na sala de estar, e sem olhar para trás ou mandá-lo sentar-se, Sophie subiu as escadas de madeira cobertas por um tapete vermelho desbotado que levava ao andar superior. Antes de entrar no quarto da mãe, bateu levemente. A mãe parecia um pouco melhor – estivera mal no dia anterior, e Diana precisara aumentar as doses dos sedativos. Ela estava sentada na cama, tomando seu desjejum, e sorriu ao ver a filha chegando. Sophie dirigiu a Diana um olhar, e ela compreendeu que mãe e filha desejavam ficar a sós.

-Está melhor, mãe? – Sophie disse, sentando-se na cama ao lado da mãe e afastando uma mexa de cabelo do rosto cansado da velha senhora.

-Sinto-me melhor hoje. Acho que posso até mesmo dar uma volta pelo jardim.

-Mas está um calorão lá fora! Vai aguentar andar nesse sol?

-Bem, então vou sentar-me um pouco na varanda... vai ajudar-me a colocar um vestido fresquinho? 

Ainda estou de camisola.

-Claro, assim que você terminar seu café da manhã.

Endora afastou a bandeja, dizendo que já havia terminado. Sophie ficou triste; ela comia menos a cada dia, e às vezes, colocava tudo para fora após alguns minutos. Pegou a bandeja, indo colocá-la sobre a cômoda.

-Mãe... há um repórter esperando para falar com a senhora na sala, lá em baixo... ele me ajudou na estrada quando o carro quebrou. Me emprestou o telefone. Eu disse que a senhora não está recebendo ninguém, mas... ele .. insistiu muito.

Sophie surpreendeu-se com o tom apaziguador de suas próprias palavras; minutos antes, estivera desejando pregar uma peça no rapaz. Endora, de quem nada escapava – nenhum sorriso, olhar furtivo ou intenção oculta – logo soube que a filha gostara do repórter. E que se o havia levado até lá, mesmo sabendo do que acontecera aos outros que tentaram antes dele, era porque estava realmente interessada, e o tal rapaz deveria ser uma boa pessoa. Para surpresa da filha, Endora disse:

-Com este eu vou falar. Mande servir um suco ao rapaz, vá fazer companhia a ele e mande Diana entrar para me ajudar a por uma roupa decente.

Quando a filha saiu, Endora acompanhou, sem qualquer espanto, o momento em que um porta joias voou de cima da cômoda, indo cair junto à poltrona. Aquilo era um sinal...

Na sala de estar, Décio estava debruçado sobre uma fotografia de uma família que, ele supôs fossem os Damata assassinados por Endora. Estava bastante entretido, observando a foto que descansava sobre o aparador de uma lareira totalmente fora de lugar no contexto climático do local, quando sentiu uma respiração junto ao seu pescoço, como se alguém também observasse o mesmo retrato que ele, logo atrás de suas costas. Virou-se para ver quem era, e sentiu um arrepio percorrer sua espinha dorsal – apesar do calor – quando não deparou com ninguém. Ele tivera certeza de que havia alguém junto com ele naquela sala. Mas logo distraiu-se com a volta de Sophie, que trazia-lhe um copo de suco de tamarindo e o convidava a sentar-se. Ele ficou pasmo: quantas vezes por dia aquela mulher era capaz de mudar de personalidade?

Convidou-o a sentar-se no antigo e nada confortável sofá da sala de estar, sentando-se na poltrona diante dele, as mãos sobre o colo, os olhos verdes gelados a observá-lo, enquanto ele engolia o suco vagarosamente. Sophie disse:

-Minha mãe vai vê-lo.



(continua...)



5 comentários:

  1. UAU... senti arrepios aqui kkkk
    Fiquei pensando naquelas crianças que apareceram e deixaram Décio petrificado... quem seriam??

    Endora vai falar com ele, uhuuuu, e Sofhie será que vai se apaixonar??
    Tomara que naum.
    Mas a história tá boa demais da conta.

    bacios

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  2. Sophie, desculpe, escrevi errado rsrsr

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  3. Olá Ana
    Sempre temos que perceber os sinais.
    beijinhos e boa semana.

    http://eueminhasplantinhas.blogspot.com.br/

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  4. Me arrepiei, Ana, quanta coisa será revelada?
    Que caminho percorremos, até chegar ao nosso destino?
    A vida é mesmo uma caixinha de surpresas!
    Aguardando...
    Abraços carinhosos
    Maria Teresa

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  5. GELO NA ESPINHA?? KKKK AMEI ISSO, ADOROS ESSES SUSPENSES! MTO BOM ANA. JA VOU CORRER PRO PRÓXIMO CAPÍTULO!

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