domingo, 28 de dezembro de 2014

Era Uma Vez Uma Moça que Sonhava Ser Escritora...




Era uma vez uma moça que sonhava ser escritora. Ela lia muito, o tempo todo, e enquanto lia, apreciava a imaginação e o estilo de cada autor. Um dia, ela teve uma professora de Português na quinta série ginasial que ensinou-a sobre rimas, métricas, figuras de linguagem... ela ficou ainda mais interessada, e escreveu seu primeiro poema aos onze anos de idade. Não ficou muito bom, mas como a professora elogiasse muito, ela se sentiu incentivada a continuar. Todo mundo precisa de incentivo para começar algo.

Anos depois, quando já era uma adolescente, a menina começou a escrever histórias em folhas de caderno, além de muitos diários, onde guardava seus sonhos e segredos. Mas com medo de que alguém os lesse, ela sempre os rasgava e queimava ao terminar de escrevê-los. Tantas histórias, memórias e poemas jogados na fogueira que ela acendia no fundo do quintal...

Mas ela nunca perdeu a vontade de escrever. Ela cresceu e casou-se. Soube, através de um cartaz pregado na parede de uma padaria, sobre um concurso de poesias em sua cidade, e resolveu participar. Não tinha muita esperança de ser premiada, mas precisava tentar! e não é que a moça totalmente desconhecida acabou ficando em segundo lugar, entre mais de cento e setenta poetas?!

Ali, ela conheceu pessoas que a convidaram a participar de um Clube de Poesias, no qual poetas se reuniam nas noites de quinta-feira para ler, escrever , recitar e ouvir poesia. Participou de outros concursos internos, ficando sempre entre os quatro primeiros colocados; mas a vida e suas necessidades fizeram com que ela desistisse... precisava trabalhar e estudar. O tempo era curto. Ela deixou a poesia de lado... anos se passaram.

Ela deixou a poesia de lado, mas a poesia cismava com a moça... surgiu um outro concurso, no Silogeu Petropolitano, e mais uma vez, ela enviou um poema sem a menor esperança de ser classificada. E para sua surpresa, ela venceu!

Escrever tornou-se algo concreto. Ela procurou na Internet algum site para escritores amadores, e achou o Recanto das Letras. Houve mitos momentos alegres e tristes. Ela saiu, voltou, saiu, voltou. Ficou. Coisas aconteceram em sua vida. Nos piores momentos, a poesia a salvava sempre. 

E ela passou a escrever contos, poemas, artigos, crônicas. Foi convidada a participar de várias antologias. Lançou um livro, que para sua surpresa, esgotou em menos de três meses. Surgiu um amigo novo que levou-a para o blog Gândavos, onde ela venceu um concurso de contos e participou de vários livros onde contou algumas de suas histórias. Também foi publicada por Helena Frenzel, do blog Bluemadel, que preparou um belíssimo trabalho para ela. Também recebeu e recebe até hoje muitos incentivos de sua amiga Lu Cavichioli, que também  convidou para escrever em seu blog, o Quiosque do Pastel.

E ela foi abrindo blogs e mais blogs. Hoje, ela tem vários, além da página no Recanto das Letras:

O Passagem, o Expressão, A casa & a Alma, Histórias e Nada a Dizer. Também publicou vários livros na amazon.com. Para ela, o menos importante é o quanto ela lucra através de seus escritos; o que realmente importa, é ter o prazer de escrever e contar suas histórias. Porque o que a gente faz por prazer, não tem preço. Se um dia ela virar uma escritora profissional, será ainda mais feliz, mas se isso jamais acontecer, ela será feliz assim mesmo; ela já é feliz.

E ela deve tudo isso a vocês, que a leem.

Este é um resumo da minha história como escritora, que começou quando tive meu primeiro leitor: a minha professora da quinta série, a Dona Arinete. Obrigada a ela, e obrigada a vocês.

Feliz 2015!







domingo, 21 de dezembro de 2014

UMA NOITE DE NATAL









Uma Noite de Natal



A vidraça embaçada filtrava a paisagem chuvosa lá fora. Logo, o pai chegaria em casa com o restante das compras para a ceia, que se daria naquela mesma noite. A menininha grudava os olhos nos bolos, pudins e rabanadas que eram preparados pela mãe e pela irmã mais velha: “Posso ‘lamber’ a forma?” E as duas irmãs mais novas disputavam para saber quem ficaria com a forma e quem ficaria com a colher usadas no preparo da massa do bolo. A mãe ralhava: “massa de bolo crua faz mal!” Mas as meninas pensavam que nada tão delicioso poderia fazer mal.



Os gatos miavam sob a mesa, enquanto a panela de pressão onde as castanhas cozinhavam chiava no fogão. 



A menina correu até a sala, onde estava a árvore de natal feita de cedro, simples, com enfeites espelhados. Sua outra irmã, que naquele momento não estava em casa, já tinha avisado, enquanto montava a árvore: “Não pode tocar em nada!” Mas como ela não estava em casa naquele momento, a garotinha esticou o braço, tocando de leve a bola vermelha, que soltou-se e espatifou-se no chão. Vem a mãe correndo e já zangando, e enquanto varre os caquinhos minúsculos e aproveita-os para jogar sobre a terra do vaso, que passa a soltar pequenas faíscas, repete: “Não mexa em nada, quantas vezes vou ter que avisar? Vou virar essa parte para a parede... assim... pronto, nem dá para ver que está faltando um enfeite.” 



A outra irmã mais nova olha para ela, dando a língua: “Viu como você é burra? Vou contar para ela!” E a menor: “Não vai não!” E gritando: “Mãe! Olha aí!!!” A mãe berra da cozinha, enquanto retira uma rabanada da frigideira: “Parem as duas, ou então vocês vão ver! Vou contar ao pai de vocês!” E assim as culpas iam sendo transferidas de punidores em punidores. 



Naquele momento, a menina foca sua atenção nos pacotes de presentes sob a árvore, e as duas irmãs mais novas ficam cúmplices novamente; a maior diz: “Hum... qual será o meu?” E as duas ficam olhando os pacotes, tentando adivinhar. O pai chega, e elas correm para a cozinha, rodeando os pacotes de onde saem, entre outras coisas, caixinhas de gelatina, um panetone, um garrafão de vinho barato, um peru (a mãe reclama: “Como é que você acha que vamos conseguir preparar esse peru a tempo?”) E a irmã mais velha, que está ajudando na cozinha, já pega a ave e coloca em uma forma, ligando o forno, e joga o molho que já estava preparado na geladeira. As irmãs menores fuçam os pacotes como se fossem cachorrinhos curiosos. O pai vai tomar banho. 



A irmã mais nova reúne suas bonecas no quarto, e começa a cantar uma canção de natal que aprendeu na TV. Depois, beija cada uma delas e guarda sobre o armário, subindo na beirada da cama para alcança-lo. Deseja a elas todas um Feliz Natal. Diz que logo receberão uma nova amiga, e que gostaria que elas a recebessem muito bem. De repente, a irmã menor tem uma ideia: vai aprontar-se para o Natal! Corre até a gaveta da irmã que está fora, pois ela tem uma porção de sombras e batons coloridos, pó de arroz e rímel. Em frente ao espelho, ela vai aplicando camadas e camadas de todas as cores disponíveis ao redor dos olhos, e finalmente, passa o batom, apertando bem forte, apreciando o resultado no espelho fazendo caras e bocas, enquanto se equilibra sobre um par de sapatos de saltos que ficam enormes para os seus pés. Ela escuta os pais e as irmãs conversando na cozinha, enquanto faz poses no espelho. Escuta também a porta da frente se abrindo, e sua outra irmã – a dona das maquiagens – chegando em casa. A menininha corre para esconder-se debaixo da cama sem nem lembrar-se de guardar as sombras que ficaram espalhadas sobre a cômoda. Escuta a irmã perguntando por ela, e a mãe respondendo: “Está brincando no quarto.” Escuta os passos da irmã se aproximando, chamando seu nome, e vê os pés pararem diante da cômoda, e o grito que se segue: “Mãããããe!!!” A mãe vem correndo da cozinha para saber o motivo daquela sangria desatada: “Ela pegou minhas pinturas!” E entre gritos de indignação, dois pares de pés param em frente a cama, erguendo a barra da colcha: “Pode sair daí, mocinha!” 



Ela sai devagar, timidamente, enquanto leva uma palmada da irmã e outra da mãe, que a manda ir tomar banho. Ela vai, aos prantos, a maquiagem borrando e escorrendo pela face. Mas depois do banho, durante o qual ela finge ser uma estrela de cinema fazendo um comercial para o sabonete Palmolive, tudo vai sendo esquecido.



É noite. A mesa da sala está arrumada com os quitutes. A TV preto e branca está ligada em um programa de auditório, onde cantores com gorros de Papai Noel se apresentam, enquanto a plateia aplaude. 



Todos na sala estão de banho tomado e vestidos com suas melhores roupas. O pai passou Gumex no cabelo, que brilha, colado à cabeça. Anos depois, ela ainda se lembraria daquele cheiro de brilhantina. Alguns vizinhos passam para desejar Feliz Natal, e outros cumprimentam-se através das janelas de suas casas ou de seus portões – quase ninguém tinha telefone. Todos também estão vestindo suas melhores roupas, e quase todos os homens tem os cabelos como o do pai da menininha.



Na hora da troca dos presentes, a menininha, decepcionada, descobre que não ganhou a boneca dos seus sonhos – a Amiguinha, uma boneca que era do seu tamanho, pela qual chorara nas Lojas Americanas. Mas após o pai explicar que a boneca era cara demais e a loja não fazia crediário, ela entende e fica feliz assim mesmo. Deve ser por causa da magia do Natal. Abraça sua boneca Alice, que afinal de contas, era bonitinha, e vai apresentá-la às outras bonecas.



Chegam visitas. São os pais do namorado da dona das maquiagens. Cumprimentos. Eles chegam à porta do quarto e brincam com a menininha, que larga a boneca para beijá-los. Comentam o quanto ela está bonitinha. Elogiam a boneca e voltam para a sala. 



Horas depois, alguém pergunta por ela, e vê que ela está dormindo abraçada à nova boneca, as outras bonecas em volta. 





Quando ela finalmente desperta, percebe que cresceu, e que natais como aquele nunca mais voltariam a acontecer.



quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

ONDE SEMPRE ERA NATAL

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Onde Sempre Era Natal - VII CONTO

Da calçada, Ana e Jorge observavam a construção da sua nova casa. Pedreiros, eletricistas, marceneiros e outros profissionais da construção revezavam-se num entrar e sair sem fim, carregando todo tipo de material e reproduzindo uma música de marteladas, risos, rádio tocando, gritos de instrução e de nomes sendo chamados, e ainda o barulho alegre do carro do sorveteiro que passava e era parado por um dos trabalhadores, que enchia uma caixa com picolés. Era a realização de um sonho antigo. Mal viam a hora de poderem entrar naquele espaço e chamá-lo de seu, o que só fariam dali a dois anos – após muitos aborrecimentos, como falta de dinheiro, problemas com os trabalhadores, uma crise de depressão, paredes recém construídas que tiveram que ser derrubadas, críticas de pessoas insensíveis que visitavam a obra apenas para dar palpites, enfim, uma série de aborrecimentos que geralmente fazem parte de uma construção.

Não é fácil construir. Quando o trabalho é de demolição, tudo fica pronto em um único dia. Mas construção demanda muito trabalho, planejamento, plantas, dinheiro, decepções. Mas tudo o que é feito com amor e determinação, tende a dar certo. Finalmente, Às vésperas do Natal, a casa ficou pronta. Houve uma pequena comemoração entre os novos proprietários e os trabalhadores. Uma mesa improvisada – que consistia em uma longa tábua de madeira apoiada sobre dois cavaletes – foi preenchida com as mais deliciosas iguarias natalinas, e todos puderam desfrutar daquela alegre refeição, entre as decorações natalinas que Ana conseguira arranjar quase na última hora: um pinheiro com algumas bolas e luzes coloridas e um arranjo de mesa que ela mesma confeccionou, usando pinhas que achou sob um pinheiro, folhas secas pintadas com tinta dourada em spray e algumas flores que pegou ali mesmo, no jardim da casa.

Finda a festa, os proprietários andaram pelos cômodos ainda vazios (a mudança estava marcada para depois do natal) e relembraram os momentos mais marcantes daquela obra. Ana e Jorge passaram aquela noite ali, junto à lareira acesa, sobre um cobertor de xadrez vermelho. Durante toda a sua vida, ela se lembraria daquela noite como uma das mais felizes que já tivera.

Finalmente, a mudança! Mais uma vez, a música barulhenta e alegre das pessoas entrando e saindo, carregando móveis e tapetes, coisas sendo colocadas em seus lugares e caixas de papelão sendo abertas para mostrar copos, panelas e louças embrulhados em jornal que deveriam ser cuidadosamente desembrulhados e lavados antes de serem colocados em seus devidos lugares na cozinha; As roupas eram rapidamente penduradas nos cabides do closet, uma refeição era preparada por uma das irmãs de Ana na cozinha enquanto seus jovens sobrinhos instalavam as TVs e aparelhos de som. Um dia feliz que rendeu, ao seu final, uma casa lindamente arrumada e aconchegante. E o silêncio de um sonho cumprido. Ana e Jorge, exaustos, aproveitaram o final da noite para um banho a dois, quente e restaurador, com direito a velas e incensos.

Mas apenas um mês depois, Jorge não voltou para casa. Nunca mais ele voltaria. Ana recebeu a notícia à porta vestindo um avental, o nariz sujo de farinha de trigo. Sua perda fora anunciada por um policial que segurava seu quepe entre as mãos nervosas.
De repente, a casa perdeu seu brilho, e os cômodos tornaram-se frios. Ana caminhou pela casa banhada pela luz do crepúsculo, e escutou o tiquetaquear suave do relógio que ficava na parede da sala de jantar. Ecos de risos felizes ainda ecoavam por aqueles cômodos. Sobre a cama, o pijama dobrado ainda não sabia que nunca mais vestiria alguém. Os sapatos de Jorge com as meias dentro (ela sempre ralhava com ele por nunca lembrar-se de colocar as meias na cesta da lavanderia) foi o que fez as lágrimas descerem em profusão. Ana sentou-se sobre a cama e passou a noite daquela forma, rosto entre as mãos, sem coragem para levantar-se.

Mas alguém chegou, cuidou de tudo. Colocou-a deitada e deu-lhe um tranquilizante. O dia seguinte passou entre uma neblina branca e intensa, cheia de ecos de vozes que sussurravam em seus ouvidos, mãos que acariciavam seus ombros e braços que tentavam segurar a sua dor. Olhares surgiam entre a neblina, lábios moviam-se, mas Ana não compreendia o que eles diziam.

Porém, tudo termina. E aquele dia também terminou. Após algumas semanas, o telefone foi parando de tocar e os passos que percorriam o corredor foram rareando até desaparecerem completamente. Alguém saiu e fechou a porta, dizendo que se ela precisasse de alguma coisa, era só chamar. Deixaram o freezer bem cheio, a casa limpa, as roupas passadas e dobradas nos armários. Mas ninguém sabia o que fazer com as coisas de Jorge, e acharam melhor que ela mesma decidisse, mais tarde.

Meses se passaram, e Ana foi se erguendo aos poucos. A vida continuava, como sempre. Logo seria natal. Os pássaros ainda cantavam lá fora, e o carro do sorveteiro passava pela rua tocando sua música alegre. As roupas de Jorge iam ser doadas, e ela penduraria as suas no lugar, espalhando-as para que o espaço fosse preenchido. Triste coisa, doar as roupas e pertences de alguém que já se foi... mas a vida continua. Pelo menos, era esta frase que ela mais ouvia desde que tudo acontecera.

As mãos de Ana, após esvaziarem o armário, percorreram as prateleiras mais altas a fim de verificar se ainda restava alguma coisa. Foi quando as pontas dos seus dedos tocaram a superfície de uma caixa. Ela pegou a escada na área de serviço, e subiu. No cantinho da prateleira vazia, uma caixa embrulhada para presente, com um papel estampado de pequenas rosas debruadas de dourado. Ana abriu-a, ainda de pé sobre o degrau da escada. Havia um envelope e vários enfeites de Natal.

Ana compreendeu logo que Jorge comprara aqueles enfeites para seu primeiro natal naquela casa, que seria justamente, naquele ano. A carta dizia:

“Querida Ana,
Sei o quanto você adora o Natal. Comprei estes enfeites assim que nossa casa ficou pronta, e guardei-os até o dia de hoje para fazer-lhe uma surpresa. Espero que fique feliz. E que nesta casa sempre haja a presença do espírito do natal, durante todos os dias do ano, pois o Natal é uma época em que todos nos lembramos que devemos ser felizes. Eu quero que você seja feliz, não importa o que aconteça.
Com amor, Jorge.”

Ana enxugou uma lágrima que caiu. Pegando a caixa e seu conteúdo, dirigiu-se ao quarto de hóspedes – ainda vazio. Já sabia como atender o pedido de Jorge.

Saiu e comprou lindos enfeites e uma árvore de natal, e também uma poltrona de veludo vermelho. Também adquiriu uma cortina e almofadas com motivos natalinos, luzes, enfim, toda a espécie de decoração natalina que ela achou bonita, e com ela, enfeitou todo o quarto. Quando pendurou as últimas luzes, já era noite.
Pegou uma fotografia emoldurada de sua lua de mel, onde ela e Jorge sorriam para a câmera, e lembrou-se daquele momento. Colocou-a sobre a mesa junto a poltrona, e debaixo dela, a carta que encontrara. Aquele quarto seria onde ela estaria sempre perto de
Jorge. Ali seria sempre Natal.

Os anos foram passando, e Ana, que era uma linda moça e ainda muito jovem, casou-se novamente e teve dois filhos. Seguiu à risca os conselhos de seu primeiro marido: ser feliz, guardando sempre o espírito do natal dentro de si e dentro daquela casa, não importando o que acontecesse. Sempre que ela se sentia triste ou desanimada, entrava no quarto do natal, fechava a porta e procurava lembrar-se de todos os motivos que tinha para agradecer em sua vida.
Recordava bons momentos, quando tinha obtido sucesso, quando seus filhos nasceram, passeios e viagens, enfim, coisas boas. Todos os seus amigos sabiam do quarto do natal, e de vez em quando, pediam para passar alguns momentos dentro dele, o que Ana nunca negava.

Eu sei disso, porque eu mesma passei muitas horas ali naquele quarto. Ana era minha amiga.











quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Um Conto de natal - VII conto

Um Conto de Natal  


Este conto é antiquíssimo. Escrevi-o quando tinha vinte e poucos anos, como uma tarefa de inglês – uma redação - do curso onde estudava. Foi publicado na internet há muito tempo, mas perdi o arquivo; assim, reescrevo-o hoje, baseado naquilo que me lembro do original e reinventando o que não lembro.






Um ser extra-social perambula pelas ruas da cidade. Ele impressiona-se com as luzes coloridas que brilham nas vitrines – janelas da vaidade humana, segundo captam seus sensores- e se encanta com as alegres canções que saem dos auto-falantes pregados nos postes da cidade. “É Natal,” Ele ouve os seres humanos dizendo. 

Ele vive só. Apesar de estar sempre à vista de todos, ele é invisível. Passa despercebido entre as multidões que carregam pacotes e mais pacotes, e seus sensores não conseguem captar o sentido de tudo aquilo. 

Há muito tempo, ele fugira de seu planeta. Fora sempre ignorado ou maltratado por aqueles que coabitavam com ele. Finalmente, embarcou em uma nave de sonhos – que estraçalhou-se no solo durante o pouso, ao bater com força sobre o campo da realidade – e sumiu, para nunca mais voltar. Seus sonhos despedaçados foram desintegrando-se aos poucos, e seu coração, já frio, foi tornando-se também duro como o asfalto que seus pés nus pisavam. Lembra-se vagamente de assistir, em uma pequena caixa quadrada que transmitia imagens em preto e branco, a história de um super-herói que era bom e salvava os fracos e necessitados. Era este o seu sonho: encontrar o super-herói para que este o salvasse. Procurou durante muito tempo, em cada esquina da vida, aterrissando sua pequena nave de busca em vários locais. Aos poucos, começou a esquecer-se do rosto que sempre aparecia na pequena tela quadrada. O ser extra-social compreendeu que teria que transformar-se, ele mesmo, em seu próprio salvador e combater o mal – representado pelos seres sociais.

Em seu rosto encovado estão sepultados milhões de sorrisos. O frio do asfalto às vezes entra pelas solas dos pés e chega até o seu coração. Nesses momentos, ele saca de sua arma interestelar – canivete, navalha – e faz sangrar alguns dos seres sociais. Mas não naquela noite. Era Natal! 
Ele pensa: “Natal deve ser uma coisa boa. Se tanta gente comemora, e fica tão feliz, é porque deve haver um bom motivo! Mas... o que é o Natal? Como fazer com que seja natal também para mim?” 

Ele sai caminhando pelas ruas já desertas daquela noite de Natal. Sua nave imaginária acaba levando-o a um bairro de classe média alta, onde vivem alguns seres sociais. Ele olha pelas janelas e vê pessoas felizes, mesas fartas e árvores enfeitadas rodeadas de presentes. Seus sensores captam a mensagem, há muito esquecida: “Família.” Mas aquelas famílias são bem diferentes da sua. Ali, as crianças não eram maltratadas; eram beijadas, abraçadas e recebiam presentes. Seu coração de lata enche-se de mágoa e tristeza. Ele segue.

Chega a uma casa toda iluminada, onde avista uma cena que chama-lhe a atenção: uma senhora e um homem olham para um menininho que estende os bracinhos para o céu. Três homens muito bem vestidos carregam presentes. Animais rodeiam a cena. Ele gosta, e decide atravessar a rua para ver melhor, voando em sua nave imaginária sobre a baixa cerca que separa a cena da calçada. Ao olhar para o menino, seus olhos se enchem de lágrimas, e mesmo embaçados, seus sensores transmitem-lhe uma mensagem: “Amor.” Mas naquele instante, um homem sai de dentro da casa dos seres sociais, gritando e correndo em sua direção: “O que você pensa que está fazendo, moleque? Caia fora do meu jardim!” 

Assustado, o ser extra-social pula novamente a cerca e atravessa correndo a rua. Não percebe que uma nave de ferro, pilotada por um humano embriagado, vem em sua direção. Apenas escuta uma freada, e seus sensores sequer tem tempo de captar a sua última mensagem: “Morte.”






sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

NEVE NO SERTÃO



Toquinho era o apelido de José Jorge da Silva, um menininho de oito anos, mais novo entre cinco irmãos dos doze que Mariazinha, sua mãe, tivera e que sobrevivera. Ele morava com a família em alguma cidadezinha lá no sertão baiano, cidadezinha que nem está no mapa, no meio do nada, cercada de cactos e com paisagem desoladora. O apelido de José Jorge vinha de sua aparência física: pequeno, franzino, desses que dá a impressão que um vento mais forte conseguiria levar embora. E todo mundo comentava, quando havia alguma morte de criança (coisa que naquela época não era nada raro de acontecer) que Toquinho seria o próximo. Ninguém acreditava que o menino vingaria... o pai, ‘seu’ Juvêncio, tinha uma hortinha que mal garantia o sustento da família, onde plantava mandioca, batata e feijão. O resto vinha do governo, de vez em quando. Trabalhava quando dava. Quando tinha caixa para carregar na venda do ‘seu’ Manoel, capim para cortar ou laranjas para colher nas plantações dos mais abastados. Iam levando. Ou sendo levados.

"Seu’ Juvêncio e Mariazinha já tinham perdido sete crianças, e lá pela quarta, já nem choravam tanto assim. A gente se acostuma a tudo nessa vida. Tudo que Deus manda, é bem-vindo e sábio. Assim, continuavam a colaborar com a fábrica de anjinhos do Divino.

Toquinho, de tanto escutar por trás das portas, acabou descobrindo que seu destino era ser levado dentro de uma daquelas caixas que ‘seu’ Manoel da venda fabricava às pressas com sobras de caixote, e nem cobrava das famílias. Desde então, ele achou que se todo mundo falava, deveria ser verdade. Passou a não brincar mais, e a comer menos ainda – para preocupação dos pais e alegria dos irmãos, que dividiam a comida de Toquinho entre eles sem culpas, já que ele também sabiam que a morte do menino era apenas uma questão de tempo. 

Mariazinha fazia de um tudo para que o menino comesse; preparava mingau de fubá com leite, mandioca cozida passada na margarina (quando tinha), feijão com charque (sempre ganhava um pedacinho quando alguém matava um porco).
Ele às vezes comia, só para ver a mãe dar um sorriso. Mas um dia, ele finalmente caiu doente. Ficava o dia todo na esteira sem levantar muito e sem ir à escola. A professorinha foi visitar, e ficou doída de ver o seu aluno mais novinho naquele estado. Deu à família um cartão de Natal que recebera da família que morava na cidade grande, onde tinha o desenho de uma casinha iluminada no meio da neve, que era coberta de brilhinhos de purpurina. Quando alguém abria o cartão, tocava uma música natalina. Ela apagou  a mensagem com corretor de texto, e escreveu por cima: “Nunca percam as esperanças. Um Feliz Natal!” 

Quando Toquinho viu o cartão, tratou de perguntar: “Professorinha, o que é essa coisa branca e brilhante, linda demais?” E ela respondeu: “É a neve, Toquinho. Ela cai do céu nos lugares muito frios na época do Natal. Fica tudo assim, coberto de branco... é lindo de se ver!” Ele pensou um pouco, passando o dedinho magro sobre a imagem, e olhando a purpurina que ficou na pontinha do indicador: “E você já viu de perto? A neve, já viu?” A professorinha lembrou de sua única viagem ao estrangeiro, quando se casou, há muitos anos: “Vi, sim.” E o menino indagou: “E como é?” “Ah, Toquinho... é linda, macia e fria. Muito branquinha também. Quando o sol bate, ela brilha, brilha... As pessoas gostam de fazer bolas com ela e brincar de jogar umas nas outras, de brincadeira. As crianças fazem bonecos com nariz de cenoura, e colocam chapéus neles. É mágico...”

O menino suspirou fundo. Olhou para a professora bem dentro dos olhos, um olhar daqueles que a gente jamais vai esquecer enquanto viver, e declarou: “Eu queria muito ver a neve!”

A professorinha foi embora com lágrimas nos olhos. A frase do menino quase moribundo ressoando em seus ouvidos, espetando o seu coração: “Eu queria muito ver a neve!”

No dia seguinte, enquanto fazia compras na venda do ‘seu’ Manoel para levar para a família de Toquinho, a professorinha ainda não tinha conseguido esquecer as palavras do menino. Mas como fazer nevar no sertão? Era impossível! De repente, um caminhão parou em frente à venda, e uns homens começaram a descarregar umas caixas grandes. Eram árvores artificiais e enfeites de natal para ‘seu’ Manoel colocar à venda. Encomenda dos grandes fazendeiros da região, pois os clientes mais pobres jamais poderiam pagar por coisas como aquelas. A professorinha ficou observando enquanto ‘seu’ Manoel abria as caixas e ia separando as encomendas, segurando uma lista, caneta atrás da orelha. E conforme ele ia puxando as mercadorias de dentro das caixas, enfileirando os enfeites para separar em cima do balcão, iam caindo no chão bolinhas minúsculas de isopor, que o vento espalhava (aquilo se deu antes do advento do plástico bolha). 

A professorinha começou a ter uma ideia genial, e pegando algumas das bolinhas de isopor, perguntou ao ‘seu’ Manoel: “Como é que eu faço para conseguir mais destas, ‘seu’ Manoel?” O homem coçou a cabeça, sem entender: “O que? “ Ela repetiu: “Essas bolinhas de isopor! Como eu faço para conseguir mais, uma quantidade muito grande delas?” Seu Manoel riu: “E pra que a senhora quer isso, Dona Professorinha?” A professorinha contou a ele a história do Toquinho, menininho doente que queria ver neve no sertão. Quando ela terminou a história, ‘seu’ Manoel tinha os olhos rasos d’água. Disse: “Dona Professorinha, eu tenho caixas e mais caixas disso lá atrás no depósito. Engraçado... eu sempre achei que um dia elas iam servir pra alguma coisa!”  A professorinha ficou feliz da vida!
Dizendo aquilo, ‘seu’ Manoel decidiu que doaria uma árvore de natal que viera faltando alguns galhos, e uns enfeites que tinham quebrado na viagem. Os dois confabularam durante algum tempo, fazendo planos. Puseram-se a montar a árvore com os enfeites. Todo mundo que passava por ali perguntava o que eles estavam fazendo, e eles repetiam a história. As crianças tiveram a ideia de montarem um presépio vivo em frente à casa de Toquinho. Algumas mães confeccionariam as roupas com sacos de estopa. A festa de Natal foi sendo montada.

Alguém se lembrou que tinha em casa um velho gramofone e um disco de canções natalinas. ‘Seu” Alonso da farmácia emprestaria um ventilador grande para ajudar a fazer a neve voar.

Tudo pronto, na véspera de Natal todo mundo foi para a casa de Toquinho sem fazer barulho, pois queriam que o menino tivesse uma surpresa. Montaram tudo: o presépio, a árvore de natal com os enfeites (nem dava para ver que estavam quebrados), uma mesa com a ceia, doada pelos mais abastados da região, o gramofone. Alguns meninos mais levinhos subiram no telhado da casinha com os sacos de bolinhas de isopor, posicionando-se bem por cima da janela onde Toquinho estava. Quando a professorinha deu o sinal, o gramofone começou a tocar “Noite Feliz”, e as pessoas, que já tinham decorado a letra, cantavam junto. A família despertou dentro da casa, e assim que abriram a janela, os meninos começaram a derramar as bolinhas de isopor bem devagar, que era para elas durarem mais tempo. Foi mágico! Mariazinha, pegando o filho já bem fraquinho no colo, levou-o para a janela, dizendo entre lágrimas: “Vem ver! Tá nevando!”
Toquinho nem acreditava no que estava vendo: quase igual ao cartão de Natal! 
Uma força surgiu de dentro dele (dizem que antes de morrer, algumas pessoas há muito tempo doentes despertam se sentindo muito bem, conversam, riem e depois, morrem. É como se fosse uma despedida). Aquela foi  a festa de Natal mais linda que já se ouviu falar. 





FIM





Ah, já ia esquecendo! E quanto ao Toquinho?
Bem, ele melhorou. Morreu não. Cresceu, foi para a cidade grande estudar e virou doutor. Acreditou que tudo era possível depois que nevou no sertão, e assim foi.

Dizem que ainda tem bolinhas de isopor agarradas aos espinhos de alguns cactos, só para lembrar a quem ficou por lá, vazios de esperança, que é possível nevar no sertão. 


A MÃO E O LAÇO – CAPÍTULO VII

Fiquei esperando, os olhos presos em Drica, especialmente nos lábios dela, que pareciam pronunciar palavras absurdas enquanto e...