segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

INOCÊNCIA - Capítulo XI, Parte I









CONVENÇÕES

- Às vezes, minha pequena amiga, é preciso ir contra as convenções.

 Cristina me disse aquilo na tarde do dia seguinte, enquanto nós duas caminhávamos de mãos dadas pela estradinha que levava até o riacho. Tudo já tinha sido limpo, e os caminhos estavam desobstruídos outra vez. Meus primos voltaram para sua casa, Berta estava trancada em seu quarto e ela me chamou para dar uma volta à pé antes do jantar. Eu olhei para ela, tentando desvendar em seu olhar meigo e incerto, o mistério daquelas palavras, profundas demais para mim. Perguntei a ela o que significava a palavra 'convenções.' Cristina sorriu: 

- São coisas que as outras pessoas dizem que a gente tem que fazer. É como os outros querem que a gente viva, entende? Eu não quero saber de convenções, Yara. Vou ter o meu próprio salão de beleza um dia, e não vou depender de ninguém, nem mesmo dos meus pais. Ou do meu marido.

 -E você vai se casar com o Marcelo?

 Ela deu um longo suspiro, e parou para colher um dente de leão, soprando-o devagar, vendo as sementes que alçavam voo a um destino tão desconhecido quanto a resposta àquela pergunta.

-Não sei... mas eu gostaria.

 E eu perguntei a ela por que alguém poderia ser contra. Ela me puxou para um tronco caído, onde nos sentamos e ficamos olhando o rio, que estava caudaloso por causa da última chuva. Cristina disse: 

-Bem, segundo as convenções – estas que eu nunca vou seguir – eu e seu primo jamais poderemos nos casar. Ele é rico, eu sou pobre; ele é branco, e eu sou mulata, filha de uma negra; ele tem estudo, vai se formar na faculdade... e eu nem posso sonhar com isso.

 Parei para pensar longamente no que ela tinha me dito. Foi a primeira vez que eu estive diante daquelas ideias, e analisei-as com cuidado. Então havia uma diferença entre a família de Cristina e a nossa, e eu acabara de descobrir, definitivamente, qual era. Lembrei-me do dia em que Berta a apresentara a Sebastian como sendo “Cria da casa.” E do quanto ela aparentara estar triste e cabisbaixa depois daquilo, e também da bronca que os pais deram nela naquela mesma noite, e que eu ouvira por acaso.

Senti-me solidária com a minha amiga, e deitei a cabeça no ombro dela. Ficamos assim durante algum tempo, e depois ela se levantou e me puxou, me desafiando para uma corrida de volta à casa.

Quando chegamos, estavam todos reunidos na sala de estar. Logo vi que as coisas não iam bem, através do olhar preocupado de todos. Flora enxugou uma lágrima furtiva no avental quando me viu, e Eugênio cutucou-a com força, falando alguma coisa em seu ouvido. Berta estava sentada no sofá, o rosto entre as mãos, a expressão preocupada. Logo pensei que alguma coisa poderia ter acontecido a papai. Flora e Berta se entreolharam, como a se perguntarem quem nos daria a notícia. Berta adiantou-se:

-Gente... acabamos de receber um telefonema de Tia Aurora...

Senti um aperto por dentro ao perceber que poderia se tratar de papai. Ela continuou:

-Tio Antônio e ela sofreram um acidente de carro. Infelizmente, ele faleceu.

Eu logo pensei em Joana, e Cristina deixou escapar, sem querer, o nome de Marcelo entre os lábios aflitos, o que não passou despercebido pelos olhos e ouvidos de águia de Flora. Em tom de ironia, Flora disse a ela que “Seu” Marcelo – enfatizando bem o “seu” - estava bem, e que o acidente tinha sido com Tia Aurora e Tio Antônio.

Cristina não respondeu. Eu comecei a chorar, e pedi a Flora se eu poderia ver Joana. Ela me respondeu que Joana estava em casa de uma amiga da escola  e que  Marcelo estava na capela, a espera da chegada do corpo – o acidente tinha sido em São Paulo, onde o meus tios  estavam – e que mamãe logo estaria em casa para nos buscar. Cristina mais uma vez deixou escapar uma indiscrição: 

-Meu Deus! O Marcelo está lá, sozinho? Alguém precisa ficar com ele, dar-lhe apoio!

 Eugênio vociferou: 

-Alguém da família fará isso, ouviu, minha filha? Não precisa se preocupar.

Cristina correu da sala, em direção à cozinha. Flora mandou que eu e Berta tomássemos banho e nos aprontássemos. Como não tínhamos nenhuma roupa escura, mamãe traria algo para vestirmos. Dizendo aquilo, ela foi para a cozinha.

Enquanto eu subia as escadas, ouvi os protestos de Cristina quando ela descobriu que não tinha permissão para ir conosco.

Três horas mais tarde, nós já tínhamos almoçado quando mamãe chegou. Não vi mais Cristina. Perguntei por papai, e ela disse que ele não poderia ir, pois estava fazendo um tratamento sério. Não podia deixar o hospital. Mamãe estava muito abatida, e tinha perdido alguns quilos. Mesmo assim, achei-a bonita. Eu estava com tantas saudades dela, que a abracei durante muito tempo quando a vi.

Foi meu primeiro velório. Tia Aurora, com o braço enfaixado e alguns arranhões superficiais no rosto, muito bem disfarçados por maquiagem, estava sentada em uma cadeira ao lado do caixão. Ela segurava um lenço de renda branca, e estava toda vestida de preto: vestido, chapéu, óculos escuros e um par de sapatos de saltos altos. Parecia pronta para um desfile de modas fúnebre. Mamãe nos empurrou na direção dela, e nós a abraçamos rapidamente, repetindo a frase que mamãe nos ensinara exaustivamente durante a viagem, no carro: 

-Meus sentimentos, Tia Aurora. Agora ele descansa em paz.

 Eu e Berta dissemos exatamente a mesma frase, e aquilo me pareceu estranho. Tia Aurora nos cumprimentou com um aceno de cabeça, dizendo um “obrigada” choroso. Meu rosto ficou molhado depois que tocou o dela, e aquilo me incomodou, então enxuguei-o com as costas da mão disfarçadamente.

Ao lado dela, de pé, estavam Joana e Marcelo.

Nós os abraçamos também, e eles choravam muito. Depois fomos nos sentar. Fiquei observando as pessoas que entravam e saiam da sala, e tentando escutar o que diziam no meio do burburinho. Acabei com vontade de ir ao banheiro, e fui até lá, fechando a porta de um dos compartimentos. Enquanto eu esvaziava a minha bexiga, escutei ruídos de saltos e duas mulheres entraram conversando. Uma delas disse: 

-Que infelicidade, um homem tão jovem e tão bom, com dois filhos  para cuidar!

A outra concordou, respondendo: 

-Pois é... e todos esperavam que fosse o outro a  morrer... o cunhado! Dizem que ele tem a doença ruim e que vai a qualquer momento.

Aquela conversa me atingiu em cheio. Fui tomada de um choro convulsivo, que consegui controlar até as duas saírem, e depois que explodi em lágrimas, lavei o rosto com água gelada da pia e voltei para a sala de velório. Durante o resto do tempo, eu acho que chorei mais do que qualquer um dentro daquela sala. Mas todos pensavam que era por causa de Tio Antônio.

Aquele foi um velório estranho. Minha tia Aurora estava “dopada”, diziam vozes em sussurros. Perguntei à Berta o que aquilo significava, e ela me explicou que alguém tinha feito com que ela engolisse um calmante. Ela olhava para o rosto de Tio Antônio – ou o pedacinho do rosto que estava exposto, pois todo o corpo tinha sido cuidadosamente coberto por flores – e balançava a cabeça para os lados, como quem diz “não”, e murmurava palavras inaudíveis que mamãe me dissera serem orações pela alma dele. Alma? Eu nunca tinha parado para pensar na morte antes, já que era o meu primeiro velório, pois não cheguei a conhecer meus avós, que morreram quando eu ainda era bebê ou antes disso.

Se Tio Antônio tinha uma alma – que, segundo me explicou Berta, era um vento que morava dentro da gente e que fazia com que o corpo se movesse, e que continuava existindo depois que a gente morria, no inferno ou no paraíso, então eu também tinha uma. E todo mundo tinha uma. E os animais? Será que também tinham?

Eu estava mais calma, sem pensar em papai e na possibilidade de sua alma deixar o corpo em breve, tão entretida que estava com esses pensamentos, quando de repente uma mulher toda de preto, usando um chapéu de onde saía um véu preto que cobria seu rosto, adentrou a sala. Ela pareceu estudar as pessoas cuidadosamente, hesitando antes de entrar. Olhou para Tia Aurora, que a olhou de volta, retirando os óculos escuros devagar, e então caminhou até ela cuidadosamente, estendendo-lhe a mão em sinal de pêsames. Tia Aurora a cumprimentou automaticamente. Ela cumprimentou meus primos com um aceno de cabeça, e eles corresponderam. Perguntei à mamãe quem ela era, mas apesar das sobrancelhas franzidas e dos lábios cerrados em sinal de protesto, mamãe me respondeu, sem tirar os olhos dela, que não sabia. Mas eu entendi, na hora, que a maioria daquelas pessoas sabiam quem ela era, e que ela não era bem-vinda ali.

Berta murmurou: 

-Mas quem ela pensa que é? Que cara-de-pau, aparecer aqui assim!

 Mamãe calou-a com um “shsh...” apressado. Fiquei ainda mais curiosa, e tentei andar pelo salão a fim de ouvir as conversas. Fragmentos que me chegaram: 

-Veja como Aurora é digna e consegue manter a compostura! Ah, se fosse comigo!

 Ou: 

-Mas que pouca vergonha! Eu a teria colocado para fora!

 -Quem ela pensa que é? Dizem que era amante dele há anos.

Eu logo compreendi por que Tio Antônio viajava tanto. E fiquei com muita pena de Tia Aurora. A mulher fez uma oração, e enxugou um rio de lágrimas que escorria pelo seu rosto. Tia Aurora tinha recolocado os óculos, e como eles eram grandes, ficava muito difícil tentar adivinhar quais seriam as suas emoções. Meus primos continuaram como se nada tivesse acontecido, e concluí que eles não tinham ideia de quem era aquela mulher. Quando olhei para minha tia novamente, notei que suas mãos tremiam ao levar o lenço ao rosto e secar as lágrimas sob os óculos. Mamãe, sem nada dizer, caminhou até a mulher, pegando-a pelo cotovelo e murmurando algo em seu ouvido. Vi que ela estava muito zangada. Conduziu-a para fora, e as duas desapareceram pelo corredor. Alguns minutos depois, mamãe voltou. Minha tia olhou para ela, e disse um pouco alto demais: 

-Obrigada, Mirtes.

 Mamãe caminhou até ela, e segurando sua mão, fez com que ela se sentasse um pouco no sofá, servindo-lhe uma xícara de café.

Nunca mais eu vi a mulher misteriosa, mas depois fiquei sabendo que ela e Tio Antônio tinham sido amantes durante mais de dez anos, e que ele comprara para ela uma casa mobiliada, um carro e algumas joias valiosas. Achei que minha tia, agora que o marido morrera, tentaria reaver os bens, mas ela viveu a vida inteira ignorando a existência da tal mulher e também o fato de que Tio Antônio jamais pusera a tal casa em nome da amante. A mulher, pelo que sei, vive lá até hoje, apesar de ter se casado apenas alguns meses após a morte de meu tio.

(continua...)





quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

INOCÊNCIA - PARTE I, Capítulo X








A TEMPESTADE

Quando chegamos em Rio da Prata, Flora e Eugênio nos fizeram ficar na sala de estar, enquanto Cristina abria as janelas. A casa estava silenciosa sem papai e mamãe, e nosso estado de espírito não era dos melhores também. Vi quando Flora abriu a geladeira e disse que precisava fazer compras, e Eugênio respondeu que não tinha feito compras porque tinha sido decidido antes que ficaríamos na cidade. Flora começou a fazer uma lista. Eu fiquei no sofá, observando o movimento. Vi quando Cristina e Berta se afastaram juntas, subindo as escadas em direção ao quarto de Berta, mas compreendi que não estava convidada a participar daquela conversa.

Flora e Eugênio anunciaram que iriam às compras e estariam de volta antes do anoitecer. Mal eles saíram, nossos primos chegaram, e eu nunca sentira um alívio tão grande com a presença deles! Abracei Joana, que me abraçou demoradamente de volta, e também Marcelo.

Ao ouvir as vozes deles, Berta e Cristina desceram as escadas correndo. Berta, que estava aborrecida por ter deixado Sebastian na cidade, conseguiu superar seu mau-humor ao ver os primos. Os dois faziam de tudo para nos animar. Trouxeram discos de vinil novos para que pudéssemos escutar música, e também uma cesta com vários biscoitos, sanduíches, frutas e sucos que Tia Aurora mandara preparar para nós antes de viajar(é claro que ela não queria um bando de crianças sujando a cozinha dela, mas pelo menos, ela se preocupava). Ficamos sabendo que mamãe pedira a ela que eles dessem uma ajuda com a gente. Joana ganhara de presente uma máquina fotográfica Polaroid, e nós fomos lá para fora e tiramos várias fotografias que hoje devem estar guardadas em uma das gavetas desta casa. Tivemos que voltar para casa porque o céu começou a ficar muito escuro, e uma ventania inesperada prometia uma tempestade que poderia desabar a qualquer momento.

Flora e Eugênio estavam fora de casa, fazendo compras, e éramos um bando de crianças e adolescentes sem supervisão. Meus tios estavam fora também, pois Tio Antônio precisou viajar a negócios de repente e levou Tia Aurora junto. Joana e Marcelo estavam aos cuidados dos empregados da casa.

Quando a chuva finalmente caiu, rompendo a barreira cinzenta e pesada de nuvens, tínhamos a impressão de que a terra seria varrida do mapa. As luzes se apagaram, e ficamos sem eletricidade durante mais de seis horas. Felizmente, a casa tinha um gerador , pois tempestades como aquela eram comuns àquela época do ano, do final de novembro até meados de fevereiro, e papai achou melhor comprarmos um. Assim, pudemos ficar escutando os discos de vinil que Marcelo e Joana tinham levado com eles. Eu me lembro que a maioria deles eram dos Beatles e também de Petula Clark, favorita de minha irmã. Quando enjoamos de escutar música, começava a anoitecer, e nada de Eugênio e Florença voltarem. Comemos nossos sanduíches, tomamos o suco e guardamos as frutas para mais tarde.

O telefone tocou, para nossa surpresa, pois com uma chuva daquelas era certo que ficaríamos sem linha. Era Flora, avisando que as estradas estavam intransitáveis, e que eles teriam que passar a noite na cidade, mas que logo pela manhã, assim que o trator limpasse a lama do caminho, estariam de volta. Berta ficou feliz com a notícia; afinal, não era sempre que tínhamos a chance, naqueles tempos, de ficar longe da supervisão dos adultos. Flora disse a ela que tinha um pacote de macarrão no armário da cozinha, e um pouco de molho de tomate também, e que poderíamos ralar o queijo parmesão na geladeira, providenciando um jantar improvisado.

Berta desligou o telefone dando 'urras' de alegria, nos deixando curiosos durante algum tempo antes de dar a notícia que fez com que todos nós ficássemos dando pulinhos pela sala de estar. Depois, Cristina foi até a cozinha preparar o macarrão, já que Berta não sabia sequer acender o fogo do fogão, e então ela pendurou-se ao telefone com Sebastian. Eu tinha certeza que aquela ligação duraria muito tempo e ficaria caríssima, e que mamãe e papai ralhariam com ela por isso. Eu e Joana fomos jogar varetas no meu quarto, e Marcelo ficou na sala, tirando um cochilo no sofá e escutando música.

Não sei como, mas o barulho da chuva lá fora, as luzes da casa um pouco mais fracas e o cansaço da viagem e das estripulias do dia, fizeram com que eu e Joana caíssemos no sono também. Quando acordei, havia uma vela acesa na mesinha de cabeceira. Já quase havia parado de chover, e o quarto estava na penumbra. Olhei o despertador sobre a mesinha: dez e quarenta da noite. A casa estava silenciosa. Achei que todos tinham ido dormir. Meu estômago roncou forte, porém, e apesar de tentar fingir que não o tinha escutado, meu apetite falou mais forte e me fez descer até a cozinha. Na escuridão, não encontrei meus sapatos, e fui descendo a escada devagar, descalça e em silêncio para não acordar os outros.

Ao chegar lá em baixo eu vi que havia uma luz fraca vindo da fresta da porta da cozinha, e escutei algumas vozes abafadas. Não sei bem porque, achei que minha presença seria melhor se não notada, e então comecei a respirar devagar para tentar escutar o que estavam dizendo; identifiquei as vozes de Cristina e Marcelo, mas não conseguia escutar o que diziam. Cheguei mais perto, e do corredor escuro, espiei para dentro da cozinha.

Eu não estava preparada para o que vi, e mesmo estando assustada, a curiosidade me fez ficar ali, olhando tudo, calada e quieta para não despertar a atenção dos dois.

Cristina estava de frente para a porta, sentada sobre a pia da cozinha, e por trás dela havia pratos sujos do jantar. Marcelo estava acomodado entre as pernas dela, as calças arriadas, e ele fazia movimentos para frente e para trás que eu não compreendia. Ambos gemiam baixinho, dizendo coisas que eu também não entendia, e Cristina enterrava a mão nos cabelos dele, puxando-o para si com força, enquanto ela mesma também se movimentava em direção a ele, jogando a cabeça para trás. Em determinado momento, ele abaixou-se em frente a ela, colocando a cabeça entre suas pernas. Ela quase gritou, abrindo os olhos de repente, e foi quando ela percebeu que eu estava ali. Eu não consegui me mover. Ela pareceu assustada, e cobriu a cabeça de Marcelo com a saia rodada, mas permaneceu aonde estava, sentada na pia, enquanto eu observava os olhos dela se fechando devagar e seus quadris começando a se mexer muito rapidamente.

Eu não sabia que um homem e uma mulher podiam fazer coisas como aquelas. Eu estava fascinada, e ao mesmo tempo, sabia que o que eles estavam fazendo era considerado errado pelos adultos, e que eu não deveria jamais dizer a ninguém o que estava vendo ali. Quando ele finalmente terminou o que estava fazendo, os dois se abraçaram. Ela abriu os olhos de novo, e eu fugi dali, indo para a minha cama e me esquecendo totalmente do meu estômago vazio.


(continua...)




segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

INOCÊNCIA - PARTE 1, Capítulo IX








AQUELA DOENÇA

Naquele ano de 1976  eu tinha onze anos, e ficou decidido que nós não poderíamos ir para a casa de campo nas férias. Ao invés disso, mamãe chamou Flora e Eugênio para virem ficar conosco no apartamento do Leblon, na cidade do Rio de Janeiro, onde morávamos a maior parte do ano. Pela primeira vez, nós os receberíamos em nosso apartamento. Cristina viria também. Ainda não sabia como Berta reagiria à presença dela, porque após aquela noite na casa de campo, as coisas entre as duas haviam mudado. Berta não mais a convidou para sair com seus amigos, e Cristina parou de cumprimentá-la ou falar com ela.

Mamãe viajaria com papai para São Paulo, a fim de acompanhá-lo em um tratamento de saúde. Eu escutara dizer que ele estava com “aquela doença,” mas não fazia ideia sobre qual doença eles se referiam, e mamãe e papai se recusavam a tocar no assunto; aliás, a palavra para “aquela doença” era impronunciável naqueles tempos, como se dizê-la significasse desencadear uma maldição sobre quem a utilizava. Eu tinha a impressão de que Berta e Cristina sabiam exatamente do que se tratava – aliás, todos sabiam, menos eu – mas ninguém me dizia nada.

Flora e Eugênio chegaram com Cristina na mesma manhã na qual meus pais viajariam, e as duas famílias se encontraram, tomando o café da manhã juntos. Notei que meu pai estava pálido e magro, mas que tentava aparentar que tudo estava normal, rindo e brincando conosco como sempre. Aquela palidez já vinha de alguns dias, mas quando Berta ou eu perguntávamos alguma coisa, meus pais diziam que ele estava com um forte resfriado, mas nós sabíamos melhor: havia conversas murmuradas pelos cantos, e frascos de remédios na mesinha de cabeceira e no armário da suíte. Havia vozes reprimidas durante a noite, luzes acesas fora de hora e conversas com 'doutores' ao telefone, após as quais os dois desapareciam da casa por horas seguidas. Havia “viagens” que papai fazia de repente, e sumiços sem explicação de mamãe que podiam durar um dia inteiro, e para os quais ela não dava qualquer explicação; havia olhos vermelhos à mesa no café da manhã, olheiras e bocejos no meio da tarde. E agora, a chegada de Flora, Eugênio e Cristina ao nosso apartamento, lugar onde eles nunca tinham pisado antes. E a escola ainda nem tinha acabado.

Mamãe despediu-se de nós com abraços e afagos, e papai também. Ele tinha lágrimas nos olhos, mas sorria, desculpando-se de que as lágrimas eram resultado do resfriado. Antes de sair, à porta, mamãe disse para Flora que ficassem no quarto de hóspedes, e que armassem a cama de montar para Cristina em nosso quarto. Olhei para Cristina, e ela e Berta se entreolharam, sérias, mas nada disseram.

Naquela noite, Cristina e Berta fizeram as pazes. Não sei se era uma trégua, mas as duas voltaram a se falar. Conversaram até tarde, e a conversa terminou quando Berta anunciou que ela e Sebastian estavam namorando sério e pensando em noivar. Eu passei a noite toda sem conseguir dormir, pois sem meus pais, a casa parecia um lugar estranho. Era a primeira vez que eu estava sentindo um medo enorme que eu não sabia de onde vinha, mas que eu sabia que era devido a alguma coisa muito perigosa que estava acontecendo, como se houvesse um monstro à espreita. Senti que meu mundo e minha família poderiam ruir a qualquer momento, e não sabia como lidar com aquilo.

No dia seguinte na escola, uma colega veio me perguntar se meu pai estava mesmo “Com aquela doença.” Li comiseração nos olhos dela, e também um pouco de curiosidade hipócrita, e não sabendo o que responder, eu a empurrei, dizendo que meu pai estava muito bem, e que tinha viajado em uma segunda lua-de-mel com mamãe. Também disse um palavrão, mandando que ela parasse de bisbilhotar a vida alheia. A garota começou a chorar e chamou a professora, que veio conversar comigo. Tive que entregar a Flora um bilhete da diretora quando voltei da escola.

Mamãe telefonou no final da tarde, conversando com todas nos por alguns minutos – até mesmo com Cristina, que desejou-lhes sorte. Na minha vez, perguntei a ela o que era “aquela doença” que todos diziam que papai tinha, e ela me fez passar o telefone para Flora sem responder a minha pergunta.

As duas conversaram durante algum tempo, e Flora contou a ela sobre o bilhete da professora. Houve um longo momento de silêncio, no qual Flora apenas concordou com a cabeça. Depois, ela desligou o telefone. Nós ficamos olhando para ela aguardando alguma explicação, mas Flora limitou-se a dizer que ia preparar o jantar, retirando-se para a cozinha.

Na tarde seguinte, quando eu estava pronta para ir à escola, ela disse que ia me levar ela mesma, ao invés de me deixar ir no transporte fornecido pela escola.

Flora me fez entrar na sala de aula, enquanto ela ficou no corredor aguardando ser chamada pela diretora da escola. Não sei o que as duas conversaram, mas eu sabia que era a meu respeito. Fiquei achando que poderia ser expulsa por ter dito palavrões no dia anterior. Mal consegui prestar atenção à aula, e notei que as outras meninas me olhavam de soslaio e faziam comentários sussurrados sobre mim. Aquilo estava me deixando muito desconfortável. Eu queria saber o que estava acontecendo.

Na hora do recreio, minha professora me fez pedir desculpas à menina que eu havia empurrado, e eu me desculpei. Ela me olhou, ainda magoada, mas me perdoou.

Quando saí da sala de aula, Flora ainda estava ali, me esperando. Fomos para casa de ônibus naquele fim de tarde. Durante a viagem, ela anunciou: 

-Você vai fazer as provas finais e será dispensada das aulas. Vai entrar de férias mais cedo. E então, iremos todos para Rio da Prata!

 Perguntei por Berta, mas ela me explicou que Berta também iria adiantar as provas finais, e que já estava tudo resolvido, a pedido de minha mãe. Hoje eu entendo que aquela era uma maneira que meus pais encontraram de nos proteger da dor de saber a verdade. Eles queriam que acreditássemos que tudo estava bem, e que nosso lar era um lugar seguro, e que logo tudo voltaria ao normal. Não queriam que pessoas curiosas destruíssem a nossa paz de espírito e causassem inseguranças.

Ainda permanecemos em casa naquela semana, e terminamos as provas finais, entrando de férias quase um mês antes. Foi muito estranho entrar na Rural de Eugênio e ir para Rio da Prata sem meus pais, com todo aquele silêncio forçado dentro do carro, sem as costumeiras brincadeiras que papai fazia e as músicas que cantávamos durante o trajeto. Estávamos todos emburrados, e a atmosfera estava tão carregada que eu podia sentir a eletricidade que circulava entre nós. Eu tinha medo de falar e provocar um ataque de nervos em Berta, que permanecia séria, olhando pela janela. Ela estava aborrecida porque estávamos viajando sem Sebastian, que ainda estava em período de aulas. Eu também temia aborrecer Eugênio, carrancudo ao volante, resmungando sobre os outros motoristas. Cristina era a única que parecia calma, mas não dizia nada, e de vez em quando, ela estendia a mão e cobria a minha, com uma carícia leve.

Eu queria apenas que tudo voltasse a ser como era antes.

(continua...)





quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

INOCÊNCIA - Parte I - Capítulo VIII









SOBRE MAMÃE

É claro que eu amava minha mãe! Ao contrário de sua irmã, Tia Aurora, minha mãe era uma pessoa calada e sem afetações. Alta, magra e elegante, vestia-se com simplicidade e esmero, mas não se preocupava com aparências. Costumava prender os cabelos em um rabo de cavalo ou em um coque, e raramente aparecia com eles soltos. Mas apesar de amá-la muito, eu era bem mais próxima de meu pai. 

Porque mamãe sofria de depressão, uma doença que naquela época era ignorada, considerada muitas vezes como “fricote de madame.” A doença a afastava de nós por longos períodos, nos quais ela se trancava no quarto e não falava com ninguém, e perdia a paciência facilmente. Naqueles períodos, ninguém ousava aproximar-se dela. Papai principalmente. 

Eu hoje vejo o casamento deles como uma relação que era cheia de silêncios e hiatos. Algo formal, quase forçado. Eles se davam muito bem, andavam de mãos dadas pela rua, recebiam os convidados com graça e simpatia, eram respeitosos um com o outro e pareciam apreciar a companhia um do outro, mas havia uma camada de gelo entre eles, algum mistério, que hoje eu sei o que é, mas que naquela época me deixava intrigada. 

Minha mãe era como um quadro na parede que eu passava horas apreciando, alguém cujos trejeitos eu às vezes tentava copiar. Eu a admirava. Durante um tempo, eu a odiei, e até mesmo desprezei. Na verdade, eu não a compreendia, como acontecia com a maioria das pessoas (exceto tio Duílio, sócio de papai, com quem ela parecia se abrir). Eles passavam horas conversando, e quando ele ia embora, mamãe parecia melhorar muito, e nossas vidas voltavam ao normal. Por isso, para mim as visitas dele eram sempre bem-vindas. 

Mamãe foi uma verdadeira leoa em ocasião da doença de meu pai, sempre ao lado dele, sempre tentando superar os próprios problemas a fim de cuidar dele. Passava dias a fio no hospital sem admitir que alguém a substituísse. Depois, caía em um longo período de letargia e sono. Acredito que estivesse sob o efeito de medicamentos. 

Pena que nossos últimos anos foram tão distantes... eu gostaria de poder fazer o tempo voltar a fim de acertar minhas diferenças com ela. Mas a gente sempre pensa que as pessoas estarão ali para nós a vida toda. 

(continua...)



segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

INOCÊNCIA - parte I- CAPITULO VII






MEU PAI

Meu pai era advogado, e chamava-se Nelson. Um nome simples para um homem de coração e hábitos simples. Era calado, e passava horas no escritório lendo jornal e estudando seus casos. Se era um homem bonito, não tenho muita certeza, mas minha tia Aurora de vez em quando comentava que ele era sim, um belo homem, ao contrário de seu marido, Tio Antônio, que ela dizia ter as pernas um pouco tortas. 

Meu pai era meu escudo, e existir sabendo que ele estava por perto me deixava sempre muito mais tranquila. Naqueles tempos, os pais tinham uma importância hierárquica muito diferente dos dias de hoje, e eram respeitados de uma maneira que os jovens de hoje não compreenderiam. Meu pai despertava respeito naturalmente, sem impor-se. E eu o amava loucamente!

Minhas melhores lembranças de infância são dos momentos que passamos juntos. Jamais me esquecerei da maneira como eu segurava seu polegar com meus dedos pequeninos de criança, enquanto passeávamos pela calçada de Rio da Prata e ele parava para cumprimentar conhecidos, que afagavam o topo da minha cabeça. Papai dizia: “Esta é a minha mais nova, Yara.” E o orgulho na voz dele me fazia inflar o peito. 

Muitas vezes ele foi severo comigo, e me disse coisas que me magoaram muito – talvez porque o amor que eu sentia por ele era tão profundo, que magoar-me era muito fácil. Passei algumas noites sem dormir pensando em como fazê-lo me amar de novo, após as broncas, sem nem imaginar que elas existiam justamente por causa do amor dele por mim. 

A insegurança que senti durante sua doença enchia minhas noites de fantasmas. Sofri muito, e amadureci precocemente por isso. O medo de perder meu pai era tão grande, que eu às vezes rezava e pedia a Deus que, se ele tivesse que ir embora, que me levasse junto. Secretamente, eu preferiria perder mamãe a perdê-lo, mas não confessava isso nem a mim mesma. Meu pai, mesmo doente, sempre foi a mão firme que me segurava nos meus momentos de fraqueza. E ele nem precisava dizer nada: bastava me olhar. Bastava puxar o lenço que sempre carregava no bolso e estendê-lo para mim quando eu chorava, passando a mão de leve sobre o topo da minha cabeça antes de ir embora. 




(CONTINUA...)

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

INOCÊNCIA - Parte I, Capítulo VI







SOBRE SEBASTIAN

 Berta e Sebastian se conheceram no penúltimo ano letivo, quando ele começou a estudar na mesma escola conosco. Sua família tinha acabado de mudar-se, vindos de Porto Alegre, e quando os dois se olharam, foi amor à primeira vista. Berta tinha quinze anos na ocasião, ele, dezessete. Papai não queria que minha irmã namorasse, e houve muitos episódios estressantes por causa disso, mas mamãe acabou convencendo-o de que o que quer que os dois pombinhos pudessem fazer juntos seria melhor se o fizessem com o conhecimento dos pais, ao invés de sem a presença deles. Assim, os dois começaram a namorar em casa, o que naqueles tempos, era sinônimo de namoro sério. Porém, só podiam se encontrar duas vezes por semana, e sempre na companhia de alguém.

Sebastian era atleta na escola. Bonitão, estava sempre cercado de amigos e principalmente, de garotas. Mas ele abdicou de todas elas quando conheceu Berta. Eu tinha uma quedinha por ele, e gostava de fantasiar o dia em que ele olharia para mim e diria: “Nossa, Yara, como você cresceu! Isso me faz pensar que a mulher da minha vida, na verdade é você!” E então ele me beijaria e nós nos casaríamos, vivendo felizes para sempre. Eu tinha apenas nove anos naquela época, e Sebastian me tratava como a uma criancinha. Quase o odiei quando, em um aniversário, ele me presenteou com um fogãozinho de brinquedo!

Quando Sebastian foi à nossa casa pela primeira vez, eu me lembro que me sentei nos degraus mais altos (de onde ele não podia me ver) e fiquei olhando para ele. Uma coisa que eu nunca contei a ninguém, nem mesmo anos depois, foi o seguinte: Cristina entrou na sala com uma jarra de suco, e começou a servi-lo. Ela tinha prendido os cabelos, e estava muito bonita em um vestido azul-claro que fora de Berta. O vestido marcava sua cintura fina e mostrava suas canelas bem torneadas. Quando ela se inclinou para servi-lo, vi que Sebastian quase mergulhou dentro do decote do vestido dela. Cristina sorriu para ele, e ele retribuiu o sorriso, perguntando: “Quem é você?” Ela baixou os olhos, e murmurou seu nome. Os dois ficaram se olhando por um tempo, e ela finalmente deixou a sala. Naquele momento, Berta passou por mim, que ainda estava sentada nas escadas, e começando a descer, me disse para não ficar bisbilhotando. Meus pais chegaram na sala e os três cumprimentaram Sebastian.

Apesar das advertências de  Berta, eu não deixei meu posto, e continuei bisbilhotando aquele moço bonito que tinha ido namorar a minha irmã. De repente, Cristina entrou na sala novamente para avisar que o jantar estava servido, e vi que os olhos de Sebastian novamente se arregalaram ao olhar para ela. Vi também o olhar ressentido de Berta em direção a Cristina, que sorria. Berta se ergueu do sofá, e pegando Cristina pela mão, apresentou-a a Sebastian: 

Deixa eu te apresentar Cristina. Ela é filha de Eugênio, nosso jardineiro, e Flora, nossa empregada. É cria da casa.

 Vi o rosto de Cristina ficar muito vermelho, enquanto Sebastian a cumprimentava com um sério 'muito prazer' e um leve aceno de cabeça. Ela voltou para a cozinha e não reapareceu naquela noite.

Eu não entendi o que estava acontecendo naquela época, mas mais tarde compreendi que Berta tentara colocar Cristina “em seu verdadeiro lugar.”  Eu gostava de escutar atrás das portas quando criança, e naquela mesma noite, quando escapei do meu quarto de dormir para ir ver estrelas no jardim como gostava de fazer, escutei vozes alteradas na casa de Cristina; Eugênio gritava: 

-Você não pode continuar achando que é uma deles! Foi bem feito para você!

 Cristina tinha a voz chorosa e era difícil entender o que ela dizia, mas ouvi fragmentos como 

Ela me humilhou... não esperava isso dela... pensei que era minha amiga...

 E então a voz de Flora os interrompeu, firme e forte: 

-Seu pai tem razão, Cristina. Somos empregados aqui. Que ideia foi aquela de olhar para o namorado da patroa? Está querendo arranjar problemas para nós? Quer que sejamos mandados embora daqui?

 Eu não consegui ouvir mais nada, pois saí correndo dali, a garganta doendo pelo aperto que eu sentia. Desabei junto ao riacho, onde a lua se refletia na água corrente.

Como eles poderiam dizer aquelas coisas para Cristina, que era a própria filha deles? Ela não era uma empregada! No dia seguinte, perguntei discretamente à mamãe o que significava ser uma “cria da casa,” e notei que ela compreendeu que eu andara ouvindo conversas; ela respondeu, sem me dar muita atenção: 

-Cria da casa é alguém que trabalha em um lugar desde pequeno. Uma empregada, por exemplo.

A verdade daquilo doeu em mim: Cristina era uma empregada. Eugênio e Flora eram empregados. Não eram como eu. Não eram como nós.

Cristina jamais poderia sonhar com alguém como Sebastian.

(continua...)




segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

INOCÊNCIA - Parte I, capítulo V





TIA AURORA E TIO ANTÔNIO

Tia Aurora era uma “mulher de revista” – era assim que eu me referia a ela, quando ela não estava presente. Era parecida com aquelas mulheres que apareciam na capa da Revista Cruzeiro dos anos 60, que estavam esquecidas sob a mesinha de telefone do corredor lá em casa: sempre impecável, maquiada e bem penteada, com um sorriso branco demais no rosto, emoldurado por um batom vermelho berrante. Gostava de usar um avental leve sobre o vestido quando estava em casa, embora todos soubéssemos que ela só entrava na cozinha para dar ordens. Extremamente preocupada com aparências, muito doce, de fala mansa e calculada, Tia Aurora era o retrato de tudo o que se podia chamar convencional. Nunca dizia ou fazia nada que fosse imprevisível, nunca contestava ninguém, nunca discutia as regras. A esposa perfeita, a mãe perfeita, a dona de casa perfeita, a grande dama da sociedade. Eu nunca escutava Tia Aurora perder a paciência ou gritar, e se ela o fazia, jamais o fazia em público. Chamava sempre Tio Antônio de 'querido' em público. Nós crianças costumávamos imitá-los quando eles iam embora, e mamãe ralhava conosco quando isso acontecia, enquanto papai dava gargalhadas.

Era muito comum, ao visitá-la de surpresa, encontrá-la vestida e maquiada, arrumando flores em um vaso grande sobre a mesa de jantar. Ela olharia para nós e diria: “Oh, querida, que surpresa agradável!” Deixando todos com a impressão de que, na verdade, não era surpresa nenhuma, e que ela calculara cuidadosamente aquela cena. Um dia, Joana me contou que era verdade; se sua mãe olhasse pela janela e visse alguém chegando na estradinha que levava à casa, ela corria para a sala de jantar, e retirando as flores do vaso, passava a arrumá-las de novo.

Tia Aurora parecia inofensiva, e era assim considerada pela maioria das pessoas: frívola, alegre, coquete. Mas por trás daquela máscara de perfeição e solicitude (eu descobriria mais tarde) havia o medo de ser julgada e uma disposição imensa para julgar a todos. Casara-se com Tio Antônio, dez anos mais velho, quando ainda tinha dezesseis anos, e todos diziam que tinha sido um casamento arranjado. Mamãe era considerada a rebelde da família, enquanto Tia Aurora era a filha perfeita. Não conheci meus avós muito bem, pois morreram quando eu ainda era bem pequena, mas Berta me contava que os pais de mamãe e Tia Aurora eram um casal quatrocentão, tradicional e cheios de convenções e preconceitos.

A casa de meus tios era o oposto da nossa: sempre muito arrumada, limpa e organizada, impecável em todos os aspectos. Não havia sequer uma parede com marcas de umidade; a casa era sempre repintada, e qualquer pequeno problema era imediatamente consertado. Havia muitas peças de arte, vasos caríssimos dos quais nós crianças estávamos frequentemente sendo advertidos para mantermos distância, pisos espelhados de tão brilhantes, e roupas de cama perfumadas. O jardim devia ser uma réplica do jardim do Éden, eu acho. Nenhuma flor fora do lugar, nenhuma folhinha fora dos limites da poda. Eles tinham três empregadas trabalhando dentro da casa, e dois jardineiros. Mesmo assim, em casa Tia Aurora usava aqueles aventais impecáveis em tons pastel sobre seus vestidos perfeitos.

Tio Antônio era muito mais simples e menos sofisticado, embora seguisse os padrões impecáveis de vestir-se. Eu não prestava muita atenção nele, talvez porque ele estivesse sempre trabalhando, ora na fábrica de laticínios, ora no restaurante luxuoso que mantinha na cidade. Costumava chegar tarde em casa todas as noites – muitas vezes, de madrugada – e também viajava muito. Mamãe maliciosamente dizia que por isso os dois ainda eram casados, pois quem poderia suportar conviver com alguém tão perfeito como Tia Aurora? Enfim: meus tios eram a parte rica da família. Meu pai era advogado e mantinha sua própria firma, o que era considerado uma profissão muito rendosa naqueles tempos, mas estávamos longe de sermos ricos. Além disso, meus pais nunca gostaram de ostentar.

Nossa casa era limpa, mas um tanto bagunçada, pois era para lá que as crianças iam quando queriam brincar. Porque  lá nós podíamos correr no jardim sem medo de pisar no gramado,  brincar de guerra de água de mangueira, ficar enlameados até a alma e depois tomar banho no banheiro do jardineiro, que ficava do lado de fora. As crianças podiam brincar de esconde-esconde dentro de casa, por trás dos sofás, sem medo de quebrar coisas valiosas, pois elas não existiam em nossa casa de campo. Mas quando as brincadeiras terminavam, mamãe nos punha – eu, Berta, Cristina e até Joana – para limpar tudo e guardar os brinquedos. Não gostava de sobrecarregar Flora por causa de nossas “artes.”

Mas em casa de meus tios, só podíamos ouvir música (sem dançar), assistir TV ou pular corda no quarto de brinquedos – um espaço no sótão da casa onde meus tios tinham forrado o piso com um carpete grosso, para não fazer muito barulho, e colocado caixas e prateleiras cheias de brinquedos com os quais ninguém mais brincava por medo de quebrá-los e ficar de castigo.

Eu amava meus tios, e sei que eles nos amavam à sua maneira. Tia Aurora era carinhosa comigo e com Berta, e sempre nos presenteava com coisas caras em nossos aniversários. Mamãe e ela eram boas amigas, apesar das diferenças, e costumavam fazer compras juntas quando estávamos por lá. Nós nos visitávamos e comíamos juntos com frequência. E eu simplesmente amava entrar naquele restaurante maravilhoso que pertencia aos meus tios, e que ficava situado em uma enorme mansão na cidade, e ser atendida por garçons de luvas brancas que nos levavam até a nossa mesa e nos serviam com toda cerimônia. Aquelas eram ocasiões muito felizes, e eu me lembro com carinho de todas elas. Mamãe nos fazia vestir nossos melhores vestidos. Às vezes, quando nós insistíamos, ela deixava que Cristina nos acompanhasse, mas ela mesma fazia questão de escolher um dos vestidos de Berta para ela usar, e também fazia com que Cristina nos acompanhasse ao salão de beleza antes dos eventos.

(continua...)



Inocência - Parte I, capítulo IV





SOBRE MARCELO E JOANA

Marcelo e Joana eram nossos  primos. Nós nos encontrávamos durante as férias, todos os anos. Eles viviam em Rio da Prata, e fora por isso que mamãe e papai quiseram comprar a casa de campo lá. Assim, mamãe poderia continuar mantendo contato com sua única irmã e seus sobrinhos, já que elas só tinham uma a outra.

 Marcelo era um menino bonito, mas não bonito demais. Lembro-me de que até os dezesseis anos, ele era muito magro e alto, tinha espinhas na testa e pés grandes demais, e nós colocávamos apelidos nele por causa disso. De repente, parece que os hormônios masculinos começaram a fazer o seu trabalho, e as espinhas desapareceram, o queixo ficou mais quadrado, os músculos surgiram e ele se transformou em um belo exemplar masculino, um “partidão”, como se dizia na época, pois o pai era dono de um restaurante e uma fábrica de laticínios na cidade, e a família podia ser considerada rica para os padrões locais. Mas a vida toda ele só teve olhos de verdade para uma mulher: Cristina.

Joana era uma menina mimada, um tanto afetada. Não sei como ela gostava de andar comigo, pois ela era o padrão perfeito da menina rica e mimada, e eu, a menina de classe média revoltada e rejeitada. Mas Joana parecia gostar de mim de verdade, o que era um ponto a meu favor, já que ela era muito seletiva com suas amizades. Durante o ano, quando não estávamos na casa, eu sabia (de ouvir falar) que ela só andava com as meninas de classe alta da cidade. Mas quando eu chegava, ela parecia tirar férias daquilo tudo. Um dia, Joana me confessou que achava suas amigas chatas e pedantes, e que só andava com elas porque as meninas mais simples não lhe davam atenção, e seus pais (principalmente tia Aurora, que se preocupava muito com aparências) lhe pediam que ela tivesse boas relações com as pessoas que realmente “faziam a diferença.”

Quando estávamos por lá, quase sempre encontrávamos nossos primos. Às vezes eles viajavam de férias para outros lugares, mas sempre voltavam antes que nós fôssemos embora. Gostávamos sinceramente uns dos outros. Principalmente naqueles tempos em que eu não procurava defeitos nas pessoas, aceitando-as como eram sem discutir, e dando o melhor de mim sempre, sem ficar pensando se eu recebia a mesma coisa de volta. Mas se existe uma coisa que a inocência nos tira, é essa coisa de doar-se sem restrições. O medo de ser ferido faz com que nos tornemos cínicos, hesitantes e desconfiados. E eu fui me tornando assim com o passar do tempo, sem perceber. Papai tentou conversar comigo sobre isso algumas vezes – em uma delas, ele já estava doente – mas eu simplesmente não quis ouvir.

Zangado, após eu procurá-lo após uma discussão com Berta, mesmo fraco e acamado, ele me segurou pelo braço, e me olhando nos olhos, disse: 

-Você vai acabar sozinha se não aprender a controlar esse gênio terrível e parar de julgar as pessoas segundo seus padrões limitados de comportamento!

 Chorei muito naquele dia, e fiquei zangada com ele.


(continua...)

AS ESTRELAS QUE EU CONTEI - CAPÍTULO 12

 Capítulo 12 -Ela nos matou porque estava apaixonada por Afonso, e nós éramos contra o relacionamento deles. Sentíamos que Rosália tinha alg...