segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

INOCÊNCIA - PARTE 1, Capítulo IX








AQUELA DOENÇA

Naquele ano de 1976  eu tinha onze anos, e ficou decidido que nós não poderíamos ir para a casa de campo nas férias. Ao invés disso, mamãe chamou Flora e Eugênio para virem ficar conosco no apartamento do Leblon, na cidade do Rio de Janeiro, onde morávamos a maior parte do ano. Pela primeira vez, nós os receberíamos em nosso apartamento. Cristina viria também. Ainda não sabia como Berta reagiria à presença dela, porque após aquela noite na casa de campo, as coisas entre as duas haviam mudado. Berta não mais a convidou para sair com seus amigos, e Cristina parou de cumprimentá-la ou falar com ela.

Mamãe viajaria com papai para São Paulo, a fim de acompanhá-lo em um tratamento de saúde. Eu escutara dizer que ele estava com “aquela doença,” mas não fazia ideia sobre qual doença eles se referiam, e mamãe e papai se recusavam a tocar no assunto; aliás, a palavra para “aquela doença” era impronunciável naqueles tempos, como se dizê-la significasse desencadear uma maldição sobre quem a utilizava. Eu tinha a impressão de que Berta e Cristina sabiam exatamente do que se tratava – aliás, todos sabiam, menos eu – mas ninguém me dizia nada.

Flora e Eugênio chegaram com Cristina na mesma manhã na qual meus pais viajariam, e as duas famílias se encontraram, tomando o café da manhã juntos. Notei que meu pai estava pálido e magro, mas que tentava aparentar que tudo estava normal, rindo e brincando conosco como sempre. Aquela palidez já vinha de alguns dias, mas quando Berta ou eu perguntávamos alguma coisa, meus pais diziam que ele estava com um forte resfriado, mas nós sabíamos melhor: havia conversas murmuradas pelos cantos, e frascos de remédios na mesinha de cabeceira e no armário da suíte. Havia vozes reprimidas durante a noite, luzes acesas fora de hora e conversas com 'doutores' ao telefone, após as quais os dois desapareciam da casa por horas seguidas. Havia “viagens” que papai fazia de repente, e sumiços sem explicação de mamãe que podiam durar um dia inteiro, e para os quais ela não dava qualquer explicação; havia olhos vermelhos à mesa no café da manhã, olheiras e bocejos no meio da tarde. E agora, a chegada de Flora, Eugênio e Cristina ao nosso apartamento, lugar onde eles nunca tinham pisado antes. E a escola ainda nem tinha acabado.

Mamãe despediu-se de nós com abraços e afagos, e papai também. Ele tinha lágrimas nos olhos, mas sorria, desculpando-se de que as lágrimas eram resultado do resfriado. Antes de sair, à porta, mamãe disse para Flora que ficassem no quarto de hóspedes, e que armassem a cama de montar para Cristina em nosso quarto. Olhei para Cristina, e ela e Berta se entreolharam, sérias, mas nada disseram.

Naquela noite, Cristina e Berta fizeram as pazes. Não sei se era uma trégua, mas as duas voltaram a se falar. Conversaram até tarde, e a conversa terminou quando Berta anunciou que ela e Sebastian estavam namorando sério e pensando em noivar. Eu passei a noite toda sem conseguir dormir, pois sem meus pais, a casa parecia um lugar estranho. Era a primeira vez que eu estava sentindo um medo enorme que eu não sabia de onde vinha, mas que eu sabia que era devido a alguma coisa muito perigosa que estava acontecendo, como se houvesse um monstro à espreita. Senti que meu mundo e minha família poderiam ruir a qualquer momento, e não sabia como lidar com aquilo.

No dia seguinte na escola, uma colega veio me perguntar se meu pai estava mesmo “Com aquela doença.” Li comiseração nos olhos dela, e também um pouco de curiosidade hipócrita, e não sabendo o que responder, eu a empurrei, dizendo que meu pai estava muito bem, e que tinha viajado em uma segunda lua-de-mel com mamãe. Também disse um palavrão, mandando que ela parasse de bisbilhotar a vida alheia. A garota começou a chorar e chamou a professora, que veio conversar comigo. Tive que entregar a Flora um bilhete da diretora quando voltei da escola.

Mamãe telefonou no final da tarde, conversando com todas nos por alguns minutos – até mesmo com Cristina, que desejou-lhes sorte. Na minha vez, perguntei a ela o que era “aquela doença” que todos diziam que papai tinha, e ela me fez passar o telefone para Flora sem responder a minha pergunta.

As duas conversaram durante algum tempo, e Flora contou a ela sobre o bilhete da professora. Houve um longo momento de silêncio, no qual Flora apenas concordou com a cabeça. Depois, ela desligou o telefone. Nós ficamos olhando para ela aguardando alguma explicação, mas Flora limitou-se a dizer que ia preparar o jantar, retirando-se para a cozinha.

Na tarde seguinte, quando eu estava pronta para ir à escola, ela disse que ia me levar ela mesma, ao invés de me deixar ir no transporte fornecido pela escola.

Flora me fez entrar na sala de aula, enquanto ela ficou no corredor aguardando ser chamada pela diretora da escola. Não sei o que as duas conversaram, mas eu sabia que era a meu respeito. Fiquei achando que poderia ser expulsa por ter dito palavrões no dia anterior. Mal consegui prestar atenção à aula, e notei que as outras meninas me olhavam de soslaio e faziam comentários sussurrados sobre mim. Aquilo estava me deixando muito desconfortável. Eu queria saber o que estava acontecendo.

Na hora do recreio, minha professora me fez pedir desculpas à menina que eu havia empurrado, e eu me desculpei. Ela me olhou, ainda magoada, mas me perdoou.

Quando saí da sala de aula, Flora ainda estava ali, me esperando. Fomos para casa de ônibus naquele fim de tarde. Durante a viagem, ela anunciou: 

-Você vai fazer as provas finais e será dispensada das aulas. Vai entrar de férias mais cedo. E então, iremos todos para Rio da Prata!

 Perguntei por Berta, mas ela me explicou que Berta também iria adiantar as provas finais, e que já estava tudo resolvido, a pedido de minha mãe. Hoje eu entendo que aquela era uma maneira que meus pais encontraram de nos proteger da dor de saber a verdade. Eles queriam que acreditássemos que tudo estava bem, e que nosso lar era um lugar seguro, e que logo tudo voltaria ao normal. Não queriam que pessoas curiosas destruíssem a nossa paz de espírito e causassem inseguranças.

Ainda permanecemos em casa naquela semana, e terminamos as provas finais, entrando de férias quase um mês antes. Foi muito estranho entrar na Rural de Eugênio e ir para Rio da Prata sem meus pais, com todo aquele silêncio forçado dentro do carro, sem as costumeiras brincadeiras que papai fazia e as músicas que cantávamos durante o trajeto. Estávamos todos emburrados, e a atmosfera estava tão carregada que eu podia sentir a eletricidade que circulava entre nós. Eu tinha medo de falar e provocar um ataque de nervos em Berta, que permanecia séria, olhando pela janela. Ela estava aborrecida porque estávamos viajando sem Sebastian, que ainda estava em período de aulas. Eu também temia aborrecer Eugênio, carrancudo ao volante, resmungando sobre os outros motoristas. Cristina era a única que parecia calma, mas não dizia nada, e de vez em quando, ela estendia a mão e cobria a minha, com uma carícia leve.

Eu queria apenas que tudo voltasse a ser como era antes.

(continua...)





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