segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Inocência - Parte I, capítulo IV





SOBRE MARCELO E JOANA

Marcelo e Joana eram nossos  primos. Nós nos encontrávamos durante as férias, todos os anos. Eles viviam em Rio da Prata, e fora por isso que mamãe e papai quiseram comprar a casa de campo lá. Assim, mamãe poderia continuar mantendo contato com sua única irmã e seus sobrinhos, já que elas só tinham uma a outra.

 Marcelo era um menino bonito, mas não bonito demais. Lembro-me de que até os dezesseis anos, ele era muito magro e alto, tinha espinhas na testa e pés grandes demais, e nós colocávamos apelidos nele por causa disso. De repente, parece que os hormônios masculinos começaram a fazer o seu trabalho, e as espinhas desapareceram, o queixo ficou mais quadrado, os músculos surgiram e ele se transformou em um belo exemplar masculino, um “partidão”, como se dizia na época, pois o pai era dono de um restaurante e uma fábrica de laticínios na cidade, e a família podia ser considerada rica para os padrões locais. Mas a vida toda ele só teve olhos de verdade para uma mulher: Cristina.

Joana era uma menina mimada, um tanto afetada. Não sei como ela gostava de andar comigo, pois ela era o padrão perfeito da menina rica e mimada, e eu, a menina de classe média revoltada e rejeitada. Mas Joana parecia gostar de mim de verdade, o que era um ponto a meu favor, já que ela era muito seletiva com suas amizades. Durante o ano, quando não estávamos na casa, eu sabia (de ouvir falar) que ela só andava com as meninas de classe alta da cidade. Mas quando eu chegava, ela parecia tirar férias daquilo tudo. Um dia, Joana me confessou que achava suas amigas chatas e pedantes, e que só andava com elas porque as meninas mais simples não lhe davam atenção, e seus pais (principalmente tia Aurora, que se preocupava muito com aparências) lhe pediam que ela tivesse boas relações com as pessoas que realmente “faziam a diferença.”

Quando estávamos por lá, quase sempre encontrávamos nossos primos. Às vezes eles viajavam de férias para outros lugares, mas sempre voltavam antes que nós fôssemos embora. Gostávamos sinceramente uns dos outros. Principalmente naqueles tempos em que eu não procurava defeitos nas pessoas, aceitando-as como eram sem discutir, e dando o melhor de mim sempre, sem ficar pensando se eu recebia a mesma coisa de volta. Mas se existe uma coisa que a inocência nos tira, é essa coisa de doar-se sem restrições. O medo de ser ferido faz com que nos tornemos cínicos, hesitantes e desconfiados. E eu fui me tornando assim com o passar do tempo, sem perceber. Papai tentou conversar comigo sobre isso algumas vezes – em uma delas, ele já estava doente – mas eu simplesmente não quis ouvir.

Zangado, após eu procurá-lo após uma discussão com Berta, mesmo fraco e acamado, ele me segurou pelo braço, e me olhando nos olhos, disse: 

-Você vai acabar sozinha se não aprender a controlar esse gênio terrível e parar de julgar as pessoas segundo seus padrões limitados de comportamento!

 Chorei muito naquele dia, e fiquei zangada com ele.


(continua...)

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