segunda-feira, 30 de novembro de 2015

O DOM DE ESQUECER - PARTE VI - FINAL






Anna me perguntou qual era meu nome de verdade. Foi numa  noite movimentada, durante o jantar na pousada, enquanto eu saboreava meu caldo de ervilhas. Ela estava sentada, me olhando comer, calada, as mãos cruzadas sobre a mesa. Achei a atitude dela estranha, pois Anna era muito faladeira, e estava quietinha há mais de cinco minutos... os outros hóspedes já tinham desistido, de mim... o rapaz que me olhava estava acompanhado de uma menina recém-chegada, o que me deixou aliviada. 
E foi assim, "do nada," que Anna de repente perguntou: "Você não se chama Nanda, não é?" Senti o rosto queimar e quase engasguei com o caldo, mas me mantive firme, e tentei fazer uma cara engraçada: "Como assim? Meu nome é Nanda sim... aliás, você está certa, não é Nanda, é Fernanda" Ela prosseguiu como se não tivesse me ouvido: "Ontem te chamei de Nanda cinco vezes e você não respondeu..." Eu ri, tentando manter uma aparência casual, mas meu rosto queimava, minha garganta fechou e não consegui mais comer. Anna disse: "Minha mãe gosta muito de você, mas ela também já percebeu isso. E... lembra quando eu te disse que ela era médium? Pois é... ela me falou que vê sempre um menino acompanhando você, o tempo quase todo."

Meu coração gelou, e eu tossi, deixando a colher cair. Anna era bem direta. E eu gostava de gente assim, mas ao mesmo tempo, se eu não sustentasse a minha história, logo todo mundo ficaria sabendo quem eu era. Eu mesma já tinha descolado alguns cartazes com meu antigo rosto dos postes, rasgando-os em seguida. Nos jornais, meu antigo rosto, de cabelos loiros, longos e olhar feliz e sorridente, roupas da moda e nenhuma preocupação no semblante, aparecia constantemente. Eu me sentia estranha quando olhava para ele. Assim, menti: "Não sei do que você está falando, Anna, e pra dizer a verdade, não acredito nessas coisas." Anna riu: "Acredita sim. Ontem, quando você dormiu no sofá lá em casa, disse um nome. Uma lágrima rolou do seu olho, mesmo ele estando fechado, e eu escutei claramwente: "Fred." Depois, você ficou sorrindo e dizendo umas coisas estranhas.

Eu me levantei, dando-lhe boa noite, rindo muito e dizendo que não tinha paciência para aquele joguinho dela. Mas Anna se levantou e foi atrás de mim:

"Escute, Nanda, ou seja lá qual for o seu nome, eu não vou te dedurar. Sei que seu nome não é esse, e creio que se você está escondendo seu nome verdadeiro, deve ter suas razões. Eu só queria ajudar, entender melhor. Não vou sair por aí falando." Olhei para ela em silêncio, durante algum tempo, e convidei-a para entrar em meu quarto. Nós nos falamos durante um longo tempo, e contei tudo a Anna. Só não lhe disse meu nome verdadeiro, com medo de que ela o usasse sem querer, e ela concordou comigo. Eu já não aguentava mais tantos segredos. Ela me ouviu em silêncio, às vezes fazendo algumas perguntas, mas não me julgou ou tentou dar conselhos. Quando eu terminei minha história, ela disse:

"Minha mãe  acredita que os mortos ficam colados na gente quando a gente não os deixa ir, e isso é ruim para eles e para nós. Você precisa desapegar-se do Fred, Nanda. Você ainda tem sua vida pra viver, ele já viveu a dele. Acabou. Pelo menos, por enquanto."

Eu não entendi quando ela disse "por enquanto," e Anna me esclareceu: "Porque o tempo dele aqui nessa vida acabou, mas ele vai continuar vivo em outra lugar, e depois, daqui a algum tempo, vai nascer aqui de novo em outro corpo. É nisso que minha mãe crê." 

Perguntei no que ela acreditava, e Anna olhou para o teto, brincando com uma mecha de cabelo antes de responder: "Dou a tudo o benefício da dúvida. Às vezes acredito no que minha mãe diz, mas acho que muitas coisas não são bem como ela fala. Não pode ser assim tão simples como a religião dela prega, acho que tem coisas que não podemos explicar, e eles dão explicações para tudo. Parece uma fórmula, um livro de receitas!"

Anna me prometeu um livro, que explicaria a doutrina na qual sua mãe acreditava. No dia seguinte, ela trouxe o livro, que eu não larguei o dia todo. Não saí do quarto nem para comer, e no meio da tarde, ela me trouxe um sanduíche e um suco, que eu devorei, ainda na cama, enquanto lia o livro, de camisola. Anna estava certa: algumas coisas até faziam sentido, mas para mim, muitas outras eram absurdas. E de qualquer forma, nada daquilo me traria Fred de volta... foi quando Anna teve uma ideia: e se eu tentasse falar com Fred através de uma sessão espírita? Sua mãe poderia ajudar! No início, fiquei um tanto apreensiva, mas Anna me convenceu de que poderia ser bom para mim - sua mãe era uma médium muito potente. Concordei, ainda hesitante, mas Anna pegou o telefone e marcou tudo com Gabriela, para aquela mesma noite.

Quando chegamos na casa de Anna, Gabriela estava me esperando. Já era noite. O pai de Anna foi dormir - tive a impressão de que ele já sabia o que estava para acontecer, e achou melhor deixar-nos a sós - e Anna também foi para o seu quarto. Prometi que contaria tudo a ela depois. 

Fiquei esperando que Gabriela entrasse em transe ou algo assim, mas ela me pediu para sentar à mesa da cozinha, e olhando para algum ponto à sua direita, começou a conversar baixinho com alguém que só ela parecia ver. Achei que fosse Fred, e quando perguntei com quem ela falava, ela me pediu para ficar em silêncio. Eu me calei, ela fechou os olhos, respirando fundo, e depois que os abriu novamente, olhava para alguém que ela dizia estar de pé à minha direita. Eu quis perguntar se era Fred, mas antes que eu pudesse dizer alguma coisa, ela me calou: "Não diga nada, pois não quero que você pense que me influenciou ou me deu dicas." Antes de ela começar a 'falar' com Fred, eu não tinha dado a ela o nome dele, e ela nada sabia sobre nossa história. 

Ela começou: "Este rapaz a ama muito... ele é alto, tem cabelos castanhos, olhos verdes, um pequeno sinal perto do nariz... uma pequena pinta. As sobrancelhas são grossas, os dedos das mãos são longos e finos. Ele usa um piercing na orelha esquerda... uma meia-lua."  Meu coração quase saiu pela boca: era Fred! Gabriela continuou: "Ele morreu há pouco tempo, alguns meses... acidente... uma motocicleta. Morreu na hora. Ficou confuso por algum tempo, mas você o chamou de volta, e como não sabe para onde ir, ele está sempre com você. Perto de você. Às vezes, ele está tão perto que você pode sentí-lo, e ir a alguns lugares com ele..." Eu comecei a chorar. Gabriela disse: "Ele pede que você não chore mais, Nina." 

Gabriela acabara de me chamar pelo meu nome verdadeiro! Era inacreditável... Eu estava absolutamente surpresa, encantada! Gabriela permanecia de olhos fechados, às vezes, acenando com a cabeça, bem lentamente. Algum tempo se passou antes que ela voltasse a abrir os olhos. Ficamos nos olhando durante um pouco de tempo antes que ela falasse:

"Nina - este é seu nome verdadeiro, não é?" Concordei com a cabeça, e ela prosseguiu: " Lamento profundamente por tudo o que está passando. Sinto muito, a morte é sempre dolorosa, principalmente quando se trata de alguém tão jovem. Mas se eu te dissesse que a vida não acaba nunca, que ela continua, isso faria com que você se sentisse melhor?" 

Não respondi. Ela continuou: 

" Pois é assim, Nina: a vida continua após a morte. A morte é só um caminho novo. Mas para seguirmos bem por esse caminho, não podemos levar nenhuma bagagem e nenhum peso. Ninguém pode ir e permanecer, entende? Você precisa desprender-se de Fred, libertá-lo. Ele ainda não foi porque está preocupado com você. Ele está sofrendo."

Lembrei-me de um dos sonhos que tivera com ele, no qual eu via um portão cheio de luz, que ele desejava cruzar, mas sem mim. Lembrei-me de quando ele me disse que teríamos que nos despedir. Eu chorava muito, mas Gabriela permanecia calma:

"Você já teve seu tempo de chorar por ele. Sei que não foi fácil, pois sua mãe queria livrá-la do luto, como se ele fosse algo que pudesse ser removido com as mãos. Mas já se foram muitos meses... está na hora de começar a despedir-se, ao invés de tentar manter Fred aqui, o que é péssimo para ele e para você. Entenda que sua  mãe a ama muito. Às vezes, qaundo a gente ama tanto assim, não sabe como agir, comete erros... precisa perdoá-la. Aceitar que ela tem defeitos, mas é sua mãe. 

Protestei: "Mas ela quer me dominar, determinar como eu posso ou não me sentir! Ela nem admite que o nome de Fred seja mencionado! Eu não aguentava mais viver tão sufocada, sem poder chorar, sentir, conversar sobre ele com alguém. Não tenho amigas. Nenhuma amiga! E tudo por causa dela, que me educou dessa forma preconceituosa e egoísta."

Gabriela fez sinal para que eu me calasse: "Sua mãe a educou da forma como ela foi educada. Achou que estava lhe dando o melhor que tinha, Nina. Você não tem que concordar com ela, mas precisa encontrar um jeito de amá-la. Não precisa fazer o que ela quer, mas precisa aprender a discordar sem brigar com ela. Isto depende de você, não é só dela."

"Mas... eu nunca mais vou ver o Fred, ou sentí-lo perto de mim? isso é absurdamente doloros, eu não posso deixar!" Gabriela me abraçou, acariciando meus cabelos para que eu me acalmasse: "Querida, não se trata de deixar ou não. Você pode lidar com a perda como quiser: abrir mão de quem se foi, mantendo na lembrança os bons momentos - que são seus, você os viveu e jamais os perderá - ou tentar agarrar-se a alguém que não está mais presente fisicamente, e tornar-se escura, pesada, depressiva, além de empacar o caminho dele e o seu. O que você prefere?"

Eu ergui meu rosto para olhar para ela: "Eu... acho que não quero que Fred sofra mais."

Assim, Gabriela fez com que eu me sentasse a fim de encerrar a sessão, mas ela ainda ficou algum tempo de olhos fechados, e vi quando lágrimas rolaram dos olhos dela, até que ela não pode mais controlar-se e chorou copiosamente. Quando abriu os olhos, Gabriela me disse que a partir daquele instante, tudo ficaria bem. De repente, eu senti uma mudança na atmosfera. Era como se eu começasse a me sentir mais leve. Eu andava me sentindo pesada há tanto tempo e nem percebia, mas agora que me sentia leve novamente, era como se algo muito escuro, como tentáculos de tristeza, se desprendessem de mim. 


No dia seguinte, telefonei para meus pais, que foram me buscar. Fiquei surpresa ao ver que Cátia também estava lá, e que ela e mamãe conversavam pacificamente. Quando falei com meu pai sobre aquilo, mais tarde, ele me disse que a dor as unira. Finalmente, mamãe havia se aberto e aceitado que o casamento deles já tinha acabado há muito tempo, mesmo antes de Cátia aparecer na vida dele. Portanto, não havia motivos para que as duas se odiassem. Talvez jamais fossem amigas, mas era possível que ambas estivessem presentes nas mesmas festas de aniversário. 

Fiz as apresentações entre meus pais e Anna e sua família. Havia uma faculdade de agronomia em Sinai, e manifestei meu desejo de frequentá-la. Mamãe lamentou que eu não quisesse estudar Direito, mas prometeu que eu poderia estudar e morar em Sinai, assim que terminasse a escola. Depedi-me de Anna e de sua família, mas mantivemos contato sempre através de telefonemas, e-mails e visitas em alguns finais de semana, até que eu terminei a escola, fiz o vestibular e pude mudar-me para Sinai, onde fui muito feliz. Ah, e o rapaz que sempre me olhava... Sérgio... bem, estamos juntos. Fazemos um ano de namoro amanhã.



. . . . . . . . .. . . . . . . . . . 




GABRIELA




Devo dizer que sou, realmente, médium. Tenho sensações e percepções a respeito das pessoas, embora não encorpore espíritos. Posso ter sonhos premonitórios, porém tais acontecimentos não dependem de minha vontade. Antes mesmo que Nina chegasse à cidade, sonhei com uma menina, cujo rosto não pude ver. Meus guias me diziam que a estavam mandando para que eu a ajudasse. Falaram também o espírito de um rapaz que precisava de ajuda. Porém, quase dois meses se passaram, antes que eu tivesse contato com Nina. 

Quando Anna chegou em casa, trazendo pela mão aquela mocinha de semblante triste, eu logo percebi que Nina carregava uma grande dor dentro dela, e que se tratava da menina do meu sonho. Nina passou a frequentar nossa casa, mas era sempre 'escorregadia' quando eu fazia perguntas sobre sua vida, de onde ela vinha, seus pais. Eu percebia que ela estava mentindo, mas não queria confrontá-la, com medo que ela fugisse. Logo, percebi que a raiz do cabelo dela era clara, e portanto, ela os tingira de castanho. Bem, quase toda mocinha deseja clarear os cabelos; por que ela os escurecera? Só poderia estar se escondendo!

Um dia, abri o jornal e deparei com a fotografia de uma menina desaparecida, que morava em uma cidade que ficava a alguns quilômetros de distãncia. Os cabelos eram diferentes. As sobrancelhas eram diferentes, e as roupas, nem se fala... mas ela tinha o mesmo queixo, os mesmos olhos claros, o mesmo nariz afilado... apenas parecia bem mais feliz. Pedi a Anna que tirasse uma fotografia de Nanda - ou Nina - com seu celular, sem que esta percebesse, e ela o fez, trazendo-a para mim. Nós comparamos as imagens e constatamos que se tratavam da mesma pessoa. 

Liguei para o telefone que estava no jornal, e fiz contato com a mãe de Nina. Ela estava desesperada! Queria vir pegar a filha na mesma hora. Tentei conversar melhor com ela, e de alguma forma, convenci-a a contar-me tudo o que tinha acontecido, e que fizera com que Nina fugisse de casa. No dia seguinte, ela, o marido e a a nova esposa chegaram a Sinai, mas sem  que Nina soubesse. Nós os recebemos em nossa casa no meio da madrugada, para não corrermos o risco de que Nina aparecesse para uma visita. 

Após conversar com Marta, a mãe de Nina, por algum tempo, notei o porquê de Nina ter preferido fugir de casa... ela era intransigente, um tanto mandona e não gostava de ser contrariada. Mesmo assim, senti que tinha uma alma sincera e boa, apenas encoberta por uma educação rígida e preconceituosa. Aconselhei-a a tentar ser mais flexível com Nina. Ela me olhou 'de cima' e agradeceu por eu ter feito contato, mas respondeu-me que da educação da filha, ela mesma cuidaria. 

Foi quando Cátia teve uma idéia: quem sabe, a minha mediunidade pudesse ajudar Nina? Após os protestos de Marta, dizendo que não permitiria que sua filha fosse envolvida "naquelas coisas," Cátia explicou-nos seu plano: eu ajudaria Nina a fazer contato com Fred, e a despedir-se dele. Talvez, se ela visse a perda através de um ponto de vista mais espiritual, fosse fácil para ela deixá-lo ir. Eu respondi que não fraudaria uma sessão espírita, pois era totalmente contra meus princípios. Eles insistiram, dizendo que era por uma boa causa, e mesmo quando eu disse que eu não via espíritos, mas que agia somente através da intuição, elas disseram-me que uma pequena mentirinha, apenas para ajudar Nina, seria perdoada por Deus.

Eles se foram, e fiquei de pensar sobre o assunto. naquela noite, um novo sonho deu-me a certeza que eu precisava: eu deveria ajudar Nina, nem que para isso, eu tivesse que mentir. Marta entregou-me uma fotografia de Fred, que me serviu para descrevê-lo para Nina. Depois, combinei com Anna que ela despertasse em Nina a vontade de falar com Fred, o que não foi tão difícil.

Mas durante a falsa sessão espírita, já quase no final da mesma, tive uma surpresa: eu estava de olhos fechados, simulando o encerramento da sessão, quando eu senti a presença de Fred ao meu lado. Ele sussurrou um agradecimento em meu ouvido, e disse que tudo ficaria bem, e que ele agora estaria livre, pois meu guia o estava ajudando. Também senti quando ele foi embora. Ao abrir os olhos, tive a certeza de que ele não estaria mais presente. a emoção foi grandiosa, e então eu soube que tinha feito a coisa certa.

Nina e Anna ainda são amigas, e estão sempre juntas. Nina planeja ficar em Sinai após formar-se, e seu pai está de olho em um pequeno sítio aqui perto. Marta e eu também ficamos amigas, e ela também vem com frequência. Ela planeja abrir uma pequena pensão, mas deseja que eu me torne sua sócia, tomando conta de tudo quando ela estiver na cidade. Acho que vou aceitar.





"Às vezes as mentiras também ajudam a viver" - Roberto Carlos, na canção "Traumas"







quinta-feira, 26 de novembro de 2015

O DOM DE ESQUECER - PARTE V






Dormi, e quando acordei, o quarto estava bem escuro, e chovia muito pesado. Meu estômago roncou, mas apesar da fome, eu sabia que não conseguiria comer nada, pois sentia muita ansiedade, e a boca estava seca. Fui ao banheiro e tomei água da torneira, escovei os dentes. Olhei meu novo rosto no espelho e resolvi modificar minhas sobrancelhas, que eram cheias, arqueadas e marcantes. Peguei a pinça na mochila, e deixei-a bem mais fina que o normal. Ensaiei afinar os lábios com a ajuda de um batom marrom-claro sem brilho, e o resultado foi surpreendente: aquela pessoa ali no espelho não era eu. Achei melhor escolher outro nome também, e criar uma história para mim, caso alguém perguntasse. E é claro, durante o dia continuaria a usar meu chapéu e óculos escuros, se necessário.

Achei que meu novo nome seria Fernanda. Sempre gostei deste nome. Eu era do Rio de Janeiro, e estava passando férias pela primeira vez sozinha, pois descobrira que meu namorado estava tendo um caso... não; não gostei daquela ideia. Eu estava passando férias sozinha porque tinha perdido meus pais, que me deixaram uma herança e... não; aquela história também não estava boa, exagerada e dramática demais.

Finalmente, decidi: Meu nome seria Fernanda, ou Nanda para os íntimos; eu tinha dezoito anos recém-completados, vinha do Rio de Janeiro (morava na Barra da Tijuca) e estava passando férias sozinha pela primeira vez porque queria. Estava cansada de viajar com meus pais todo ano. Não gostava muito de conversar com estranhos, e era de falar bem pouco.

Meu estômago roncou de novo. Achei melhor ir procurar alguma coisa para tentar comer. Não comia desde cedo. Não tinha almoçado, e sequer terminara meu café com pão no Tavinho's. Tranquei a mochila no armário e joguei a chave dentro de um par de sapatos, que deixei em baixo da cama. Peguei um pouco de dinehiro e coloquei no bolso. Desci as escadas, e escutei música de violão, gaita e gente cantando. Anna ainda estava na recepção, e perguntei se ela sabia onde eu poderia comer. Anna me disse que a pousada servia um caldo toda noite, com croutons e fatias de pão, e que eu podia escolher entre abóbora com gorgonzola ou creme de ervilhas. Ela me levou até a cozinha, que era um espaço grande, cheio de mesinhas, onde meia-dúzia de jovens jantava, e dois deles tocavam a música que eu estava ouvindo. Sentei-me em uma mesa no canto, me sentindo observada. Acenei para eles, mas procurando não ser simpática demais,  e fiquei observando o ambiente.

Era self-service, por isso levantei-me e peguei um pouco do caldo de abóbora com gorgonzola, uma fatia de pão e um copo de suco de cajú de garrafa. Sentei-me para comer, a cara enfiada no prato para não ter que olhar para ninguém. Mais uma vez, imaginei que Fred estava ao meu lado, me dizendo para erguer a cabeça. Ele também comentou sobre meu novo corte de cabelo, e zombou de minha nova aparência. Eu ri disfarçadamente. Fred pegou a colher e provou do meu caldo, fazendo careta e dizendo que detestava gorgonzola. Eu sabia. Depois, ele ficou muito sério, e me olhando bem fundo, disse: "Você precisa descobrir uma maneira de voltar a ser feliz. Não de ser a mesma, pois tudo o que aconteceu mudou você. Sua vida mudou, seus pais se separaram, eu morri, e você descobriu algumas coisas importantes, como por exemplo, o que suas amigas realmente pensam sobre você, e porque... agora, precisa encontrar um jeito de se readaptar, mudar suas atitudes em relação às pessoas e seguir em frente." 

Eu disse que não conseguiria sem ele. Precisava dele. Ele não tinha o direito de morrer e me deixar tão sozinha. Ele era a única pessoa que me amava e me entendia, mesmo sabendo o quanto eu era besta e metida. Uma metida a besta. Ele sacudiu a cabeça, e ainda sério, respondeu: "Eu sempre vou amar você assim, ou seja como for, pois eu já te amo há mais tempo do que você imagina. Já nos conhecemos antes, Nina, mas você não se lembra... " aquilo me deixou confusa: perguntei, 'Como assim nos conhecemos antes?' Ele disse que um dia eu ia entender tudo, mas que não era importante agora. 

Eu estava chorando quando ergui a cabeça, e mexia o caldo já frio e quase intocado com a colher. Dei com um menino me olhando. Ele tinha cabelos compridos e loiros, e vestia uma camisa de xadrez, de flanela que eu achei o cúmulo da cafonice. Era bonitinho, mas a antiga Nina jamais olharia para ele com interesse, pois a aparência dele não era 'cool.' Ele não parava de me olhar mas antes que ele viesse com ideias de me perguntar qualquer coisa, peguei o pão, dei uma duas ou três colheradas no caldo, bebi o suco todo de uma vez só e voltei correndo para o quarto. Deixei para trás o som alegre da música de Bob Marley que eles começaram a tocar. 

No dia seguinte, a noite tempestuosa tinha cedido lugar para uma manhã radiante de luz, com direito a passarinhos cantando na janela, e o perfume do pinheiro entrando pelo quarto. Tinha sido uma noite sem sonhos, pela primeira vez desde que Fred morrera, e fiquei preocupada, apavorada diante da possibilidade de que os sonhos tão reais que eu vinha tendo com ele fossem apenas efeitos dos remédios, que eu já não tomava há dias. Mas lembrei-me da noite anterior, na cozinha da pousada, e fiquei mais tranquila. Era só fechar os olhos, e ele estaria comigo. Ele prometera.

Joguei as cobertas para o lado e fui tomar um banho, o primeiro em dois dias. No boxe do banheiro, resquícios escuros da tinta de cabelo de minha mãe escorreram pelo ralo. Sequei os cabelos curtinhos com a toalha, ajeitando-os com as mãos, e gostei do resultado. Nada de escovas demoradas sob secadores superquentes. Nada de horas e horas na cadeira do cabeleireiro, renovando o reflexo das madeixas. Cabelos curtos e escuros eram uma liberdade que eu nunca conhecera, e estava gostando.

Desci para o café, mas achei melhor tomá-lo no Tavinho's, pois não queria reencontrar o garoto da noite passada, que não parava de me olhar. Antes de sair, resolvi conversar com Anna, algo que eu jamais faria antes- puxar assunto com estranhos se não tivesse nenhum interesse pessoal neles - e Anna me recepcionou com um sorriso enquanto tirava o pó do balcão. 

Perguntei há quanto tempo ela trabalhava ali, e ela me disse que a pousada era de uma tia, que estava fora da cidade e dera-lhe o emprego há seis meses. Ela disse que gostava do contato com as pessoas, que conhecera muita gente interessante com os quais mantinha contato pela internet, e que alguns deles já tinham voltado a Sinai para revê-la. Fazia amizades facilmente. Pensei nos amigos que eu achava que tinha, e com os quais nunca me importava de verdade, e da distância deles na hora em que mais precisei - a mesma distância que eu estabelecia entre mim e alguém que estivesse em dificuldades. Pensei também que talvez Anna tivesse alguma coisa importante para me ensinar. Quem sabe, ela poderia me ensinar a ser humana?

Ficamos conversando mais alguns minutos, ela sempre me chamando pelo nome que eu assinara na ficha, ou seja, Fernanda, e eu me senti confortável por não ser mais a Nina antiga, e porque ninguém ali sabia quem eu era, ou conhecia meu passado, as coisas que eu tinha feito, meu egoísmo e superficialidade.

Quando cheguei ao Tavinho's, a lanchonete estava cheia, e fui tomar café no balcão. Fiquei surpresa ao ver que o rapaz atrás do balcão era o mesmo da noite anterior na pousada. Quando me viu, ele me atendeu de maneira simpática, mas eu me mantive distante. Ele de repente esticou a mão sobre o balcão e se apresentou: "Sou o Tavinho." Aquela atitude me desarmou, e pude sorrir e dar meu novo nome, apertando a mão dele. Perguntei-lhe se ele cuidava da cozinha da pensão, e ele me disse que gostava do caldo que eles serviam, e que ia lá quase sempre, ele e Anna eram amigos, mas que não trabalhava por lá.  Depois ele me perguntou o que eu faria após o almoço, e eu me fechei novamente.

Não estava pronta para  aquilo. Não queria. Não podia, não ia aguentar. Portanto, disse que tinha um compromisso, e pela cara dele, vi que não acreditou em mim, mas não discutiu.

 Anna me convidou para ir até sua casa após o expediente, e aceitei. Saímos juntas e fomos caminhando e conversando sobre coisas de escola. Quando estávamos nos aproximando da casa, Anna apontou-me uma casinha branca, que ficava por trás de um portão baixo de ripas de madeira. A casa era muito simples. O quintal era de terra, pequeno, com árvores frutíferas que Anna me apontou (parecia orgulhosa delas) e me apresentou como sendo a goiabeira, a jabuticabeira (coberta de frutos; me encantei, jamais imaginara como seria uma jabuticabeira), a pitangueira e o pé de limão. Havia alguns cães passeando pelo quintal, que recepcionaram Anna com festinhas e latidos alegres. Fiquei com um pouco de medo, mas ela me convenceu a acariciá-los, e eles logo tornaram-se amigáveis.

A casa de Anna era de uma simplicidade tocante, que eu nunca experimentara. Muito diferente das casas às quais eu estava acostumada, pensei. Era a primeira vez que eu entraria em uma casa daquelas, e fiquei um pouco apreensiva - resquícios da educação distorcida que recebera.

Antes de abrir a porta da sala, Anna segurou meu braço, dizendo: "Fernanda... devo prevenir você sobre minha mãe... ela às vezes é meio-esquisita." Eu ri alto: "Ah, é porque você não conhece a minha!" Ela riu também, e completou: "Não é isso... é que minha mãe é médium, e às vezes fala coisas estranhas, mas não preste atenção." Concordei com a cabeça, desta vez bem séria. Entramos.

A sala era pequena. Havia um sofá de três lugares, uma estante velha e lascada com alguns livros e um televisor antigo, uma cadeira em um dos cantos e um tapete artesanal no meio do cômodo. As paredes eram pintadas de azul claro, e havia uma imagem de Cristo, um rosto, na parede oposta a da TV, atrás do sofá. As cortinas da única janela, que dava para a frente da casa, era de renda branca barata. Mas havia uma coisa naquela pequena casa que eu nunca tinha visto ou sentido nas casas que eu estava acostumada a frequentar: paz. Logo, a mãe de Anna veio da cozinha, e quando me viu, tomou um ar um pouco formal. Anna nos apresentou: o nome dela era Gabriela, e ainda era bem jovem, aparentando ter uns quarenta anos. Um pouco cheinha, mas bonita, e quando ela me cumprimentou com um beijo no rosto, senti um perfume delicado de alfazemas.

Ela nos chamou para a cozinha, pois estava preparando o jantar, e me intimou a jantar com eles.

Na cozinha, percebi que seria melhor aceitar o convite, pois o cheiro era delicioso. Gabriela estava preparando carne moída com azeitonas, arroz e feijão, e sobre a mesa já havia um prato de salada de tomates e alface. De repente, minha fome voltou com força total!

A cozinha era bem maior que a sala. O chão, de azulejos hidráulicos antigos, era imaculadamente limpo. O fogão era branco e bem velho, a geladeira também. Havia uma mesa de madeira enorme bem no meio, com cadeiras diferentes umas das outras. Em um canto, um fogão à lenha. Eu nunca tinha visto um de perto. Gabriela me explicou que ainda preparava refeições nele, para economizar gás quando necessário, e também fazia pizzas e bolos para vender. Anna explicou que sua mãe preparava festas, fazendo doces e salgados. Seu pai era serralheiro, e tinha uma pequena oficina nos fundos do quintal. O pai de Anna entrou naquele momento, enxugando o suor da testa, e me cumprimentou com simpatia. O chiado da panela de pressão intensificava aquele ambiente tão doméstico, simples e pacífico. Pedro, o pai de Anna, pediu licença, dizendo que precisava de um banho antes  do jantar.

Gabriela, a mãe de Anna, Colocou os pratos, garfos e copos sobre a toalha imaculadamente branca da mesa, e no meio, uma garrafinha de molho que ela transformara em vaso de flores, contendo algumas margaridas. Percebi que talvez aquela fosse a melhor toalha que tinham, para ocasiões especiais, e que aqueles pratos e copos simples, mas com aparência de novos, eram os melhores que tinham, e senti-me honrada. Jantamos, e há muito tempo eu não comia tanto e com tanta vontade. Gabriela encheu meu prato três vezes, e eu tentei recusar por educação, mas as três vezes, ela repetiu: "Você precisa se alimentar melhor. Está magrinha, não come direito há muito tempo." Lembrei-me do que Anna dissera sobre a mediunidade da mãe. Eu não acreditava naquelas coisas,  e concluí que Gabriela era apenas uma boa observadora.

Após o jantar, Anna levou-me para conhecer seu quarto.

Sobre a cama, uma colcha de retalhos linda, toda colorida, que ela disse ter sido feita pela avó, que morava perto dali. Havia também uma mesa de estudos, um aparelhinho de som, um armário de roupas antigo e uma cadeira. Não havia televisor ou banheiro privado. Tudo era extremamente simples, mas também ali, eu senti uma paz enorme. Escutamos música baixinho, enquanto os pais dela assistiam TV na sala. Os ruídos domésticos eram tão serenos, a água na pia da cozinha, a TV, os cães brincando do lado de fora. Senti que gostaria de ter nascido ali. Descobri que adorava aquela vida, e comparei-a à casa enorme e luxuosa onde eu vivia e ninguém se entendia, a sala de visitas quase sempre vazia. As casas de meus antigos amigos também eram como a minha: decoradas como casas de revista, frias, impessoais.

Passei a frequentar a casa de Anna quase todos os dias, e também conheci alguns de seus vizinhos.

As pessoas ali eram simples, seus problemas eram de origem prática - o que preparar para o jantar, o tema da festinha de aniversário, a pintura da parede. Ninguém ficava racionalizando a vida, tentando ver coisas por trás das coisas, adivinhando nos outros pensamentos ou intenções que não existiam. Não havia preocupação com aparências, competições, luxo. A maioria das pessoas não frequentara faculdade, e ganhavam a vida através de trabalhos como marcenaria, artesanato, apicultura, mecânica de automóveis, confecção de doces e salgados, costura, serralheria, agricultura, administração de pequenos negócios como bares, restaurantes e pousadas. As casas eram simples e confortáveis, aquecidas e práticas. Não havia grandes ambições de vida. Eram felizes.

Quando alguém morria, eles faziam o enterro, a missa de sétimo dia, e depois deixavam a pessoa ir, continuando a levar a vida, sem questionar ou revoltarem-se contra Deus ou quem quer que fosse. No período em que estive lá, Anna perdeu uma prima ainda jovem, e todos choraram, e se despediram, e falavam sobre ela normalmente durante dias, sem constrangimentos, e aos poucos, foram curando suas dores.

Eu os invejei.

Enquanto isso, naquelas duas semanas em que comecei minha amizade com Anna e constatei todas essas coisas, eu continuava chegando ao meu quarto na pensão, fechando os olhos e chorando por Fred. Sentia saudades dele o dia todo, mas ao mesmo tempo, eu estava gostando de ser a Fernanda. Era como se meu novo nome e minha nova vida fossem também um universo no qual a dor não existia. Apenas quando eu estava só e voltava a ser a Nina, a dor também voltava. Eu me lembrava de minha antiga vida, de meus pais, da escola que abandonara. Às vezes eu pensava que poderia nunca mais voltar; poderia escolher ficar ali para sempre, sendo a Fernanda, quem sabe até conseguiria documentos falsos. Nunca mais teria que enfrentar meus velhos fantasmas e problemas novamente.

Mas logo aqueles pensamentos e desejos seriam confrontados por Gabriela.




(continua...)







terça-feira, 24 de novembro de 2015

O DOM DE ESQUECER - PARTE IV






Se tive medo? Sim, o tempo todo. Mas eu precisava fazer alguma coisa com a minha vida, ou com o que restava dela. Acho que andei durante umas três horas, sem direção certa, apenas seguindo reto. Cheguei na saída da cidade e já clareava. Dirigi-me automaticamente para a rodoviária.  Os ônibus interestaduais estavam nos terminais, e algumas pessoas já esperavam para entrar. Comprei uma passagem no guichê com um funcionário sonolento, que nem olhou para a minha cara. Ele perguntou:  "Para onde?" Eu disse o primeiro nome que me veio à cabeça, ou seja, Sinai (uma cidadezinha que ficava a umas seis horas dali). "Janela ou corredor?"  Eu disse que queria a janela, peguei a passagem, e quando cheguei no terminal, o embarque já tinha começado. Eu era uma dos cinco passageiros. Eu já tinha ouvido falar daquele lugarejo, uma cidade bem pequenina e bonitinha que tem muitos sítios e comunidades hippies que cismavam em não perceber que os anos sessenta já tinham passado há muito tempo. A principal fonte de renda era o turismo nas muitas cachoeiras, o cultivo de mel de abelhas  e o artesanato.

Eu sabia daquilo tudo porque alguns amigos da escola me disseram que já tinham acampado por lá. Um deles tinha sido perseguido pelas abelhas e ido jogar-se em um riacho para proteger-se. Ele contava a história rindo muito, mostrando as marcas das picadas. Era amigo de Fred. Fred...

O peito doeu quando me lembrei dele novamente. Eu estava indo embora. Ia completar dezessete anos, em oito meses e estava fugindo de casa. Tinha trocado minha cara, cortando e pintando o cabelo (com certeza, espalhariam cartazes com fotos minhas de cabelos loiros e longos, e os meus agora eram bem curtos e castanho-dourados). Quanto mais o ônibus se afastava, mais longe eu ficava da vida que tinha tido junto a Fred, durante os três anos em que ficamos juntos. Ao mesmo tempo, eu pensava: teria agido somente pela vingança, para vingar-se de minha mãe? O que faria dali por diante? O que meus pais fariam, quando soubessem da verdade? Será que minha mãe já tinha ido ao meu quarto e dado pela minha falta?

Fred, Fred, Fred... eu olhava para fora, para a paisagem onde um sol dourado começava a se espalhar sobre tudo, e fingia que ele estava ao meu lado. Eu perguntava a ele: "E agora, Fred, amor da minha vida, o que eu faço?" Ele me abraçava e dizia que estaria sempre ao meu lado, que eu não deveria me preocupar tanto, pois ele nunca me deixaria sozinha. Ele me fazia deitar a cabeça no ombro dele, e me acariciava o rosto, e eu sentia o seu perfume, seu cheiro maravilhoso, o toque gentil e macio de seus dedos em minha pele. E tudo ia ficando melhor... o medo ia passando... ele disse que estaria sempre comigo, e era só o que eu precisava.

Quando acordei, senti que seus dedos estavam entrelaçados aos meus, mas não abri os olhos. Eu conseguia escutar o motorista do ônibus conversando com um dos passageiros, e os carros que passavam por nós. Sentia o calor do sol no meu rosto, entrando pelo vidro da janela, e o toque das almofadas do banco nas minhas costas. Sentia o cheiro do asfalto que entrava pela greta. E a mão segurando a minha, apertando a minha, me fazendo sentir segurança. Ele apertou minha mão mais forte, e depois retirou a sua bem devagar. Abri os olhos, e não havia ninguém ao meu lado. 

Quando o ônibus finalmente chegou à Sinai, já eram quase onze da manhã. O motorista estacionou, abriu a porta e todos os passageiros saíram, inclusive, eu, por último. 

Fiquei parada no meio da estação rodoviária, vendo as pessoas que seguiam cada qual o seu caminho, mas eu não sabia para onde ir, não conhecia ninguém. O motorista veio andando na minha direção, e eu tremi: será que ele estava desconfiado de alguma coisa, ou será que minha foto já estava por aí, e ele tinha me reconhecido? Fiquei parada olhando para ele, enquanto ele dizia:

"O rapaz que estava com você mandou dizer que está te esperando para o café no Tavinho's. Ele estava apertado para ir ao banheiro, e foi primeiro."

Fiquei visivelmente confusa, e não consegui responder. Que rapaz estava comigo? De quem ele estava falando? Ele interpretou meu silêncio como uma pergunta, e apontou o caminho, onde ficava o Tavinho's - uma lanchonete do outro lado da rua. Fui para lá correndo e olhei em volta, mas não vi ninguém. Sentei-me em uma das mesas e pedi um café e um pão com manteiga. Lembrei-me que não havia trazido nenhum remédio, o que deixaria minha mãe ainda mais furiosa. Quando a garçonete, uma moça nem bonita e nem feia, com cara de cansada, trouxe meu pedido, perguntei-lhe se ela conhecia alguma pousada, e ela me indicou A Leona's. Pensei: Será que tudo aqui tem um apóstrofo no nome? E ela completou: "Mas se você não se importa em ficar num quarto com mais pessoas, tem o Paulo's, logo depois da esquina." Preferi ficar na Leona's, e fui andando à pé na direção que ela me indicou. Eu estava usando um jeans velho, tênis, camiseta marrom de mangas longas e um chapéu. Não chamava muita atenção num lugar onde a maioria dos habitantes pareciam-se com hippies que tinham saído de um livro de história dos anos sessenta ou setenta. 

Já tinha caminhado alguns metros, quando a garçonete - seu nome era Gilda - veio correndo atrás de mim: "Você esqueceu isto." Peguei o envelope amassado que estava na mão dela, e já ia dizer que não era meu, quando reconheci a letra: era de Fred.

Atônita, abri-o: era uma carta que ele tinha escrito para mim há dois anos, no nosso primeiro aniversário juntos. Como ela tinha ido parar ali? Todas as cartas de papel - três, ao todo, uma para cada aniversário nosso - que Fred me escrevera estavam trancadas em uma caixa de madeira, no sótão de minha casa! Enquanto eu caminhava devagar, reli a carta:

"Oi, lindinha! Hoje é nosso primeiro aniversário (mas é claro que é, e por isso estou escrevendo para você, mas por que eu ia te escrever uma carta ao invés de mandar um e-mail? Já explico: meus pais mandavam muitas cartas um para o outro quando namoravam, e algumas delas eles leram para mim. Achei legal, e pensei: por que não?) Bem, daqui a muitos anos, quando estivermos ambos bem velhinhos, poderemos ler estas cartas para os nossos netos. Mas peraí... acabei pulando uma parte importante: antes de termos netos, precisamos ter filhos, e eu terei um enorme prazer em fazê-los junto com você. E quem sabe, leremos estas cartas para eles antes de lermos para os nossos netos? Veremos. 

Ah, tanta bobagem... sou péssimo em escrever cartas, amor. Mas só quero te dizer que você tem sido a pessoa mais importante da minha vida e que eu te amo muito, de verdade verdadeira. Você nunca vai se livrar de mim. É destino, conforme-se!" 

Assim, Fred despedia-se. Percebi, após a segunda carta, que ele nunca assinava o nome ou colocava data nas coisas que escrevia, e que era adepto dos parênteses com textos longos e das coisas sem sentido que, apesar de não dizerem nada, diziam tudo. Os envelopes eram sempre baratos, parecendo reutilizados, e ele escrevia: "Para minha lindinha."

Dobrei a carta e coloquei-a na mochila. 

Quando cheguei ao Leona's, vi que não havia muitos hóspedes. Era uma casa grande e antiga, branca de janelas azuis marinho. Havia uma trepadeira entrelaçada nos madeirames da varanda, de onde brotavam  flores lindas e perfumadas cujo nome eu não sabia, mas que mais tarde, descobri serem jasmins.  Comentei o fato da pousada estar vazia, e Anna, a  recepcionista, uma menina aparentando ter a minha idade  e  muito simpática, foi logo explicando: "É porque você veio fora da temporada. Isso aqui ferve no inverno!" Me entregou a chave, explicou o horário do café e me indicou as escadas de madeira que me levariam ao meu quarto. Fui subindo as escadas do casarão antigo, e deparei com um corredor cheio de portas. Meu quarto era o de número 100. Girei a chave na fechadura e entrei, trancando a porta atrás de mim. Larguei a mochila em um canto. Mentalmente, fiz as contas e vi que o dinheiro que eu tinha daria para mais ou menos um mês de hospedagem - se eu economizasse bastante e não almoçasse todos os dias. Quem sabe, eu conseguiria um emprego na cidade, lavando pratos ou algo assim?

"E agora?", pensei. Pulei na cama, testando as molas, e vi que eram firmes e boas. O quarto era pequeno mas aconchegante, e estava limpo. Gostei das cortinas de renda branca e do tapetinho feito de tiras reaproveitadas, de várias cores, que estava junto à cama. O banheiro era minúsculo, mas estava limpo, tinha um box que não dava espaço nem para abrir os braços, mas eu não precisava de mais nada.

Coloquei meu telefone para recarregar, mas não sem antes retirar o chip e colocá-lo na gaveta da cabeceira. Vi que havia duas mensagens de mamãe, que eu não li. Não queria ser importunada por ninguém. Abri as cortinas, e vi que havia um pinheiro bem na direção da minha janela. Era lindo, e tinha muitos pássaros cantando nos galhos. Deitei-me na cama macia, a cabeça apoiada no travesseiro enorme, e meus olhos foram se fechando à medida que eu descobria que, há muito tempo, não me sentia tão em paz. 

Você estava sentado comigo à mesa do café. Me dizia que tinha trazido a carta para que eu nunca me esquecesse de que estaria sempre ao meu lado, que eu nunca estaria sozinha, mesmo quando você parecesse estar ausente. Aproximou seu rosto do meu, e eu fechei os olhos para receber o seu beijo, que você depositou suavemente sobre minha boca. Eu queria muito mais. Você riu. De olhos fechados, eu sabia que você estava rindo. E então nós estávamos no quarto , meu quarto no Leona's, e você me abraçou, puxando meu corpo para bem perto do seu. Eu queria mais, mas você sussurrou em meu ouvido: "Sshhh... silêncio!"

Então, você me repetiu que trouxera a carta para me lembrar, para que eu nunca me esquecesse de que você estaria sempre comigo, sempre... mesmo quando parecesse estar ausente.



(continua...)

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

O DOM DE ESQUECER - PARTE III






Não adianta discutir com a minha mãe. Para ela, só os próprios interesses valem, só o que ela acha que é verdade merece crédito, e quando ela precisa de alguém, é capaz de ficar em volta da pessoa dias ou meses, agradando e elogiando, mas quando ela consegue o que quer, esquece da pessoa completamente. Mas... meu Deus, agora eu vejo porque não tenho amigas: eu agia igualzinho a ela! Não mostrava solidariedade pelas dores e problemas de minhas amigas. Achava que, por eu ser linda, rica e bem vestida, elas sentiriam-se honradas por eu falar com elas. Vivi a vida toda acreditando nos valores da minha mãe e agindo como ela. A única pessoa que me comovia, mexia com os meus sentidos e me deixava completamente rendida, era Fred. E ele era o único que dizia as verdades para mim, o único que tentava chamar a minha atenção quando eu errava em relação às amigas. Eu precisava dele, do olhar dele, das palavras dele, da boca dele, do corpo dele...

Será que nunca vai parar de doer? Às vezes eu penso que ele era a minha única chance de me tornar gente, de ser humana de verdade... nunca vou me esquecer daquela noite de sábado em que eu estava na sala de estar esperando o Fred chegar, e enquanto isso, assistia TV com meus pais. Papai tinha ido até lá, em mais uma tentativa de fazer mamãe assinar os papéis do divórcio. Eu tinha acabado de falar com Fred por telefone, ele disse que estava ali pertinho e que chegaria em quinze minutos para irmos ao cinema, e depois, a uma festa de aniversário. Até aquele momento, antes de eu desligar o telefone, minha vida era um sonho, maravilhosa, eu era feliz. Não tinha ideia do inferno no qual ela se transformaria dali a trinta e cinco minutos.

Olhei no relógio pela terceira vez, e a campainha tocou. Despedi-me dos meus pais, mas ao abrir a porta, ao invés de Fred, deparei com nosso vizinho Cauê, um rapaz que morava em frente e que eu estava acostumada a ignorar ou então a cumprimentar quando achava que ele era digno da minha atenção. Decepcionada, fui logo perguntando (a voz um tanto indiferente) o que ele queria. Cauê me pediu para entrar pois precisava falar comigo. Impaciente, eu disse que tinha um compromisso. Já ia bater a porta na cara dele, quando ele a segurou e soltou: "É sobre o Fred!"

Abri de novo, e mandei ele entrar. Foi quando ele, todo cheio de delicadezas comigo, me contou, na frente dos meus pais, que Fred estava estatelado no asfalto a cinco minutos da minha casa, debaixo da sua motocicleta,  e um rio de sangue escorria de sua cabeça. Alguém já tinha chamado a ambulância. Eu corri para a porta, e a voz dos meus pais me pedindo para esperar foi ficando cada vez mais distante. Saí correndo pela rua, o Cauê atrás de mim chamando meu nome, e quando eu vi o Fred, gritei como nunca havia gritado na vida. Os paramédicos já estavam em volta dele, acho que tentando ressuscitá-lo, pois um deles fazia massagens em seu peito, massagens tão fortes que o corpo de Fred se encolhia a cada investida. Gritei para ele parar, pois ia acabar quebrando ele no meio, e ao mesmo tempo, eu tentava me desvencilhar dos braços do Cauê - o que fiz após cuspir no rosto dele - e corri, ajoelhando-me ao lado de Fred. Tentei levantá-lo, mas o corpo dele estava pesado, e minha blusa ficou cheia de sangue, e mais pessoas me afastaram, me seguraram enquanto eu só sabia gritar, e o paramédico colocou o Fred na maca e a maca na ambulância. 

Dentro da ambulância, tentaram ressuscitá-lo de novo. Antes da porta da ambulância fechar, vi quando cobriram o rosto dele com um lençol. Meus pais tentavam me fazer calar a boca, minha mãe reclamava do escândalo. Eu queria que eles continuassem tentando trazer ele de volta, mas se já tinham coberto o rosto dele, significava que tinham desistido, e eu sentia o desespero tomar conta de mim cada vez mais. 

Apaguei. Acordei em um hospital dois dias depois, meus pais mandaram os médicos me sedarem. Não acompanhei o velório e o sepultamento de Fred. Não pude nem falar com os pais dele. Fiquei furiosa com meus pais, mas eles disseram que tinha sido para o meu próprio bem. E aí vieram os médicos, os remédios. Não gostei de médico nenhum, dizia que não ia mais voltar após a primeira consulta, e então compreendi que se eu não aceitasse logo um, nunca ia me livrar daquilo. Eu tinha que fazer o que minha mãe queria. Ela ameaçou me internar. Finalmente, me ajeitei como pude com o último médico, o Doutor Rodrigo, que se não ajudava, pelo menos não atrapalhava. Eu chegava lá e duas vezes na semana,  ficava sentada quieta durante a primeira meia hora, e ele me olhando indiferente. Daí eu encolhia os ombros e falava de Fred, pois era a única coisa que eu conseguia falar e pensar. Ele só escutava. Pensei que um dia me tornaria uma psiquiatra, pois é dinheiro fácil. Depois daquele pensamento, eu me achei cínica e injusta. Fui melhorzinha com o Dr. Rodrigo. Ele até concordou quando pedi para ir apenas uma vez na semana. Eu fingia que estava melhorando, que já nem chorava mais, e isso foi após o segundo mês de consulta, e então ele me passou para a cada quinze dias. 

E então minha mãe pegou o meu computador outra vez.

Cheguei em casa e dei com ela apertando os botões, querendo apagar minhas fotos e filminhos com o Fred. Corri e arranquei o computador da mão dela. Chamei-a de vaca várias vezes. Ela me esbofeteou. Tranquei a porta do quarto, a vi que as fotos ainda estavam na lixeira, e pude recuperá-las. Papai chegou (acho que algum vizinho escutou a briga e telefonou para ele), e eles tiveram a briga mais feia de todas.  Ele me defendia, dizendo que nem todo mundo era emocionalmente distante como mamãe. Nem todo mundo era capaz de engolir um sapo com uma dose de Bourbon. Nem todo mundo conseguia distorcer a realidade de tal forma a achar que problemas não existiam. Ela chorou, e ele saiu batendo a porta. Mas no dia seguinte, à mesa do café, mamãe agia como se tudo estivesse perfeito, usando uma blusa rosa-pálido e colarzinho de pérolas. Exagerara um pouco no blush. 

Eu ignorei seu "bom dia," e agarrando uma maçã e minha mochila da escola, saí porta afora. É claro que meu computador estava comigo, e estaria comigo o tempo todo depois daquilo. Também tomei o cuidado de armazenar tudo em pelo menos cinco nuvens, dois pendrives e um CD. 

Não sei porque, mas contei tudo isso a Cátia em um domingo de manhã bem cedo, numa visita surpresa que fiz a ela quando soube que meu pai estaria viajando a negócios. Ela estava de roupão de banho quando abriu a porta, e levou um susto ao me ver. Me mandou entrar, me perguntou se eu já tinha tomado café, eu disse que não e tomamos café juntas, em silêncio. De repente, nós estávamos sentadas na varanda do apartamento olhando os carros lá embaixo, e eu estava contando tudo a ela. Cátia me ouviu sem me interromper ou fazer perguntas, e quando terminei, ela disse que eu podia contar sempre com ela e com papai, eles estavam do meu lado, e sempre que eu quisesse conversar era só ligar. 

Não sei bem porque eu comecei a chorar. Ela ficou desconcertada. O choro começou a sair em borbotões, todo o choro reprimido que não podia ter vazão diante de minha mãe, o choro que eu sufocava no travesseiro todas as noites antes de dormir. Saiu assim, livre, alto, doído, aos borbotões, e parecia que meu peito queimava em fogo. Cátia segurou minha mão, que tremia, e de repente estávamos abraçadas. Ela me segurava meio sem jeito, no início, mas depois me abraçou forte, e eu me soltei nos ombros dela. Acho que passaram-se uns vinte minutos antes que eu me acalmasse. Quando parei de chorar, ela me sentou no sofá e me trouxe um copo de água com açúcar. 

Eu poderia ter mentido para minha mãe. Isso com certeza tornaria as coisas bem mais fáceis, se ao invés de falar a verdade, eu tivesse dito a ela que tinha ido dar uma volta no parque quando ela me perguntou onde eu estivera. Mas eu estava cansada de tantas mentiras. Disse em alto e bom tom: "Fui ver a Cátia." 

Aquilo foi demais para ela! Furiosa, minha mãe começou a gritar feito louca, me acusando de ingrata, traidora, imatura. Eu tentei ir para o meu quarto, mas ela me bloqueou a entrada, me empurrando de volta para a sala e me obrigando a sentar no sofá. Achei que ela fosse me bater. Mas de repente, minha mãe desabou no sofá ao meu lado e pareceu dez anos mais velha, e muito cansada. Tive pena dela. Tentei falar com ela, mas quando comecei, ela ergueu uma mão, em um gesto para me fazer calar. Depois, retirou-se para o quarto, me deixando ali sozinha. Eu sabia que Dona Marta estava furiosa comigo daquela vez, muito magoada mesmo, mas nem assim eu senti culpa. Só pena. 

No final da tarde, eu estava em minha cama ouvindo música quando ela entrou. parecia mais calma. achei que poderíamos conversar, e sentei-me na cama. Ela sentou-se na minha frente. Me olhou. Nos olhamos por um longo tempo antes de ela dizer: "Nunca mais eu quero que você volte a procurar a mulher que levou seu pai embora desta casa!" Seu tom de voz era calmo e baixo. Respondi no mesmo tom: "Quem mandou meu pai embora foi você, com sua distância emocional e sua indiferença a tudo o que não lhe diga respeito diretamente. Sua mania de importar-se com aparências e com o que os outros estão pensando. Sua frieza extrema, sua falta de atenção para as dores dos outros, e a mania de, mesmo sabendo que ele estava saindo com outra, nunca tê-lo questionado, nunca ter conversado com ele. Você é orgulhosa demais para isso, Dona Marta. Orgulhosa demais até para admitir que estava levando um chifre! Você, mãe, é... patética! E eu estava me tornando igualzinha a você. Ainda bem que acordei!"

O tempo todo, à medida que eu falava, eu via os olhos dela começando a se esbugalharem, os lábios formando um "o", a pele ficando vermelha. Eu sabia que ela ia me bater daquela vez, e quando o tapa ardeu no meu rosto, eu ri. Ela ficou mais furiosa ainda e me agarrou pelos cabelos, e eu tentava me soltar, gritando e empurrando ela. Acabei arranhando-a no braço, arranquei sangue mesmo, mas foi sem querer. Ela me soltou, olhando o braço e tentando limpar o sangue com a mão.  Pedi desculpas. Tentei pedir desculpas, tinha sido sem querer. Mas ela não me olhou. Apenas disse: "Arrume suas coisas. Você vai morar com o seu pai."

Eu só queria morrer. Eu só queria o Fred. Era a única pessoa que me entendia, que me amava de verdade. Eu sabia que não poderia morar com meu pai e Cátia, o apartamento era pequeno, só tinha um quarto. Eu não sabia o que fazer. 

Coloquei minhas coisas em uma mochila sim; mas não fui procurar meu pai, nem me despedi dela. Peguei algum dinheiro da gaveta da sala, dinheiro que daria para sobreviver alguns dias se eu fosse econômica. Mas de repente, me deu na cabeça passar pelo banheiro antes de sair, e pegando a tesoura, cortei meus cabelos longos e loiros bem curtos, deixando-os bem colados no crânio. Peguei um pouco da tinta castanho-dourado de minha mãe e pintei-os. Tomei um banho para tirar a tinta e recolhi meus cabelos do chão com cuidado, colocando-os em um saco plástico que deixei na lixeira, e saí pela noite. Fiz questão de não deixar na pinta o que eu tinha feito, limpando tudo com cuidado. Quando pus os pés na calçada, passavam das duas da manhã, e as ruas estavam vazias. Não olhei para trás. 





segunda-feira, 16 de novembro de 2015

O DOM DE ESQUECER - Parte II







No teto , estrelas de luzes dançavam no espaço semiescurecido. Você me puxava para si, me fazendo dar alguns rodopios, e depois, sem parar de dançar, me abraçava por trás. Eu estava tão feliz por podermos voltar àquele lugar, o salão de baile do meu aniversário de 15 anos! Todas as minhas amigas estavam lá, e eu às vezes notava alguns olhares invejosos, mas eu estava ocupada demais dançando com você para prestar muita atenção a qualquer outra coisa. 

Engraçado, eu não estava usando o mesmo vestido da formatura; usava um branco longo de cintura marcada e saia rodada, com tule sobre os ombros no estilo anos 50. Você usava um terno preto de lapela prateada (um tuxedo? Não sou boa para descrever roupas masculinas) e tinha os cabelos controlados por uma camada de brilhantina. Achei engraçado, mas ao mesmo tempo, charmoso. 

De repente, uma valsa começou a tocar. Eu sabia que era o Danúbio Azul, embora não entenda nada de valsas. Como eu poderia saber? Só sei que olhei em volta, e todo mundo tinha sumido: sobramos apenas nós dois, e uma orquestra que tocava não sei de onde. As estrelas no teto começaram a girar rapidamente, e nós levitamos até elas, enquanto o teto se abria e elas fugiam para o céu noturno, tornando-se estrelas de verdade. Eu voava de mãos dadas com você, e o vento em meu rosto era tão real! Via a paisagem da cidade lá de cima, de um ângulo que nunca tinha visto antes , pois nunca tinha sobrevoado a cidade, mas lá estavam o telhado da escola, o parque com suas árvores e o lago, e nossa, olhe lá, a minha casa! A luz da varanda estava acesa, como todas as noites. 

Comecei a sentir um pouco de frio, e sem dizer nada, você me abraçou, passando a voar por trás de mim. Eu não via mais você, mas sentia o calor do seu corpo e o perfume tão conhecido da sua marca de desodorante. Via apenas seus braços, cobertos pelo tecido preto do terno, e parte de suas mãos sobre meus seios (sempre abusadinho!). 

Começamos a subir cada vez mais alto, mais alto e mais alto, até que pude vislumbrar o contorno do planeta. Era tão lindo! Começamos a voar em volta dele, e o dia começou a amanhecer, e vi lugares que eu sabia serem outros países. Vi a Estátua da Liberdade, e passamos voando bem perto do rosto dela. Havia pessoas lá dentro, e o sol estava alto no céu, mas elas não nos viam. Depois, conforme íamos circundando o planeta e voltando para casa, o dia ia tornando-se noite novamente. Nem sei quanto tempo se passou, mas eu sabia que aquilo era real!

Quando estávamos bem alto, paramos no ar, onde havia um portão alto, pintado de azul. Eu não sabia o que estava do outro lado, mas conseguia ouvir uma música muito linda, que eu nunca tinha ouvido antes, e havia uma luz que vinha de todos os lugares e se desmanchava em faixas ao redor do portão. Ali, você se despediu, e disse que eu tinha que voltar.

Mais uma vez, acordei e a primeira coisa que vi foi o copo d'água com o remédio do lado, e meu celular. Tive aquela familiar sensação de tédio absoluto e muita solidão. As cores não eram tão brilhantes. 

Naquele domingo, papai tinha me convidado para jantar com ele, e eu conheceria Cátia formalmente. Não estava ansiosa, mas estava curiosa. Minha mãe me encheu de recomendações absurdas, do tipo "Não fale demais e nem dê muito cartaz a ela. Seja polida, pois foi assim que eu te ensinei, mas nada de deixar que ela se aproxime demais de você, afinal, é uma péssima influência. Imagine só, meter-se em um casamento de anos e destruir um lar estável! Com certeza, não passa de uma interesseira. Ainda por cima, é bem mais nova que Estêvão. Todo mundo sabe que, assim que ele começar a envelhecer, ela o deixará por alguém da idade dela, e quem sabe,  isso aconteça até bem antes!"

Apesar de chateada, fiquei feliz porque minha mãe estava, finalmente, encarando o problema de frente. Beijei-a e abracei-a  antes de ir. Eu sabia que ela devia estar sofrendo. Ainda disse: "Fique bem, Dona Marta. Você será sempre a minha mãe, ninguém vai tomar o seu lugar." Pensei em acrescentar que isso seria impossível, já que Cátia não tinha idade para ser minha mãe, mas achei melhor não dizer mais nada.

No restaurante, notei que Cátia estava nervosa por me conhecer. Torcia as mãos sobre a mesa, e quando me viu chegando, ergueu-se e estendeu a mão para cumprimentar-me de maneira formal, e suas mãos estavam muito frias. Ela e papai se entreolharam, e enquanto eu olhava o menu (eles já tinham escolhido) os dois permaneciam de mãos dadas sobre a mesa. Achei bonitinho e ao mesmo tempo, estranho ver meu pai namorando. Quando eu, mamãe e ele saíamos para almoçar ou jantar, aquele tipo de coisa - mãos dadas sobre a mesa - jamais acontecia. 

Acabei gostando de Cátia, principalmente durante a sobremesa, quando com todo jeitinho, ela me disse que sentia muito sobre  a minha perda, e que se eu precisasse conversar, ela estaria sempre disponível. Ela era muito bonita. Aparentava ter uns 30 anos (papai tinha 52) mas mais tarde descobri que ela na verdade tinha 28. Nem me passava pela cabeça conversar com ela sobre Fred, mas de qualquer forma, gostei de sua atitude. Após a sobremesa, eles me convidaram para um cinema e depois, conhecer seu novo apartamento, mas inventei uma desculpa, dizendo que precisava estudar e ir dormir cedo, pois tinha prova na segunda-feira. 

Mamãe encheu-me de perguntas: ela era bonita mesmo? Inteligente? Não era vulgar? Os dois pareciam apaixonados? Não queria magoá-la, então fiz o que achei que ela esperava de mim: menti. Disse que, de perto, ela nem era tão bonita assim, e que talvez fosse um pouco "burrinha." Não sabia se vestir muito bem e nem tinha muita classe. papai parecia apaixonado, embora não estivesse muito à vontade - talvez por ela ser tão mais jovem. Quando terminei meu dossiê sobre Cátia, mamãe parecia triunfante.

Mas eu só estava triste.

(continua...)




sexta-feira, 13 de novembro de 2015

O DOM DE ESQUECER - parte I






Uma tarde linda, entre cores avermelhadas que se misturam sob um céu matizado de laranjas, amarelos e rosados, como se as cores tivessem sido pinceladas por algum artista habilidoso sobre uma tela azul imaculada. O burburinho das ruas, os cafés cheios de pessoas de ternos ou camisas sociais de mangas arregaçadas, carregando pastas, mostrando que estão relaxando após um dia de trabalho. Os primeiros faróis de carro se acendendo e transformando a paisagem urbana em uma miríade de cores brilhantes, enquanto o azul do céu vai, aos poucos, se transformando em uma caixa de veludo salpicada de diamantes. Nos pontos de ônibus, as pessoas aguardam, olhando ansiosamente o horizonte da avenida, tentando enxergar os letreiros dos ônibus que se aproximam para saber se finalmente, poderão embarcar e ir para suas casas, onde calçarão seus chinelos, afagarão seus cachorros e se sentarão nas salas, partilhando as novidades do dia enquanto ralham com as crianças para que façam silêncio na hora do telejornal começar.

E enquanto tudo isso acontece, sinto tua mão na minha. Tudo parece certo, tudo está em seu lugar quando o meu lugar no mundo está perto do seu. Penso: será que essas pessoas de olhares cansados sabem o quanto tem sorte, simplesmente por poderem ter um lugar para voltar no final ao cada dia? Será que elas olham para os rostos que os saúdam quando chegam em casa, e conseguem enxergar a beleza e a bênção de suas presenças? 

Há alguns dias, passei por um mendigo, e o que mais me chamou a atenção, não foram suas roupas sujas ou seu cabelo emaranhado, ou o fato de que ele mancava; é que nossos olhares se cruzaram por alguns instantes, e os olhos dele gritavam solidão. Era um perfeito estranho para mim, mas tinha a sua história escrita nas páginas deste mundo, uma história que eu não conhecia, que a maioria das pessoas não conhecia - e nem desejaria conhecer. Me perguntei o porquê de ele estar ali, naquela situação. Senti-me estranha, pois não senti nenhuma piedade por ele, e sim, uma imensa curiosidade, coisa que antes de tudo acontecer, eu jamais havia sentido em relação a qualquer pessoa. 

Sempre fui do tipo de que vive e deixa viver, sem me perder em questionamentos holísticos sobre a origem da vida, a causa das acontecimentos ou o que há depois da morte. Nunca me demorei muito nos rostos das pessoas, apenas o suficiente para identificar suas características físicas a fim de reconhecê-las ou lembrar-me delas  mais tarde. Para mim, cada um tinha seu próprio caminho a seguir, e deveria fazê-lo de modo a não perturbar os caminhos dos outros (principalmente, o meu). Ser feliz faz com que a gente se torne um tanto egoísta, com o tempo. Não é que eu não gostasse de ver as outras pessoas felizes. Não; só não me deixava afetar pela infelicidade delas, quando era o caso. Me afastava sempre que via alguém com cara de quem estava triste ou com problemas. 

Uma tarde linda, e tua mão na minha: isso era tudo o que eu mais precisava para sentir-me feliz. Quando o dia estava difícil demais, eu me lembrava de você, e que daqui a algumas horas, estaríamos juntos novamente, e tudo ficava mais fácil. Enquanto caminhamos de mãos dadas, furando anonimamente o vai e vem da multidão que nem sequer se dava conta da nossa existência, eu olhei para o lado e vi seu rosto. Reparei em cada uma das suas pintinhas. Vi seu cabelo sendo agitado por uma brisa repentina, e o movimento das suas bochechas enquanto mascava o chiclete de hortelã. Vi seus olhos focados no caminho a nossa frente, com seu ar sempre otimista. Vi a gola um pouco puída de sua camisa de malha azul, aquela que você mais gostava de usar, pois dizia que era "macia."

Vi seu rosto virar-se na minha direção, e você sorriu para mim. Senti sua mão apertando a minha, e acordei, para uma manhã cinzenta, fria e solitária, como os olhos do mendigo. 

Sobre a mesinha de cabeceira, o remédio da manhã. Ele me deixava um pouco tonta e como que anestesiada, e eu não gostava muito de tomá-lo, mas minha mãe fazia questão, e sempre verificava a cartela para ver se os comprimidos estavam sendo usados. Alguns eu conseguia jogar fora, mas um dia, ela percebeu o que eu estava fazendo após revirar a lixeira do meu quarto, e desde então, passou a fazer-me tomá-los em sua presença. Eu não conseguia entender esta mania que minha mãe tinha de querer curar as dores da alma através de remédios, pois para mim, eles não tinham nenhum efeito, a não ser colocar-me em um estado de semiletargia no qual a dor não passava, apenas tornava-se mais lenta.

Um dia, ela tentou apagar os arquivos do meu computador. Aquilo gerou uma grande briga entre nós, na qual eu gritei com ela e a empurrei, ganhando forças que eu nem sei de onde tirei, e proibindo-a de remexer meus arquivos de forma tão veemente, que ela chegou a chorar, e não se atreveu a discutir comigo. Não me arrependi por minha rispidez. Ela não tinha aquele direito. Conseguiu apagar algumas fotos apenas, que eu recuperei na lixeira, mas só o fato de pensar que ela poderia ter apagado, varrido para o nada, grande parte das minhas melhores lembranças, encheu-me de fúria e pavor. Definitivamente, ela não tinha aquele direito, e quando contei a papai, ele concordou. Já bastava me fazer engolir aquelas pílulas horrorosas, e me proibir de tocar no nome de Fred. 

Eu chegava em casa da escola e me trancava no quarto, para ficar longe dela e de seu blá-blá-blá doméstico, no qual eu não estava interessada. Minha mãe tem a mania de fingir que as coisas desagradáveis não existem. Pensando, bem, eu antes era como ela, exatamente como ela. Minutos depois que eu chegava, ela começava a bater na porta: "Nina, fiz aquele frango que você adora! Vamos almoçar e dar uma volta no shopping? Você precisa de vestidos novos." E eu pensava: "como ela pode sequer pensar que eu esteja disposta a dar uma volta no shopping e comprar vestidos novos? Só fazem três meses!" Assim, eu gritava: "Me deixa em paz!"

Ela insistia mais um pouco, e eu jurava que tinha comido um sanduíche na escola, e ela me deixava em paz por algum tempo - até a hora de tomar o próximo remedinho. 

Minha vida tinha se tornado um tormento. Minha mãe não percebia que quanto mais ela se empenhava em me fazer esquecer, mais me fazia lembrar. Nem mesmo quando o Dr. Rodrigo assegurou-lhe que é preciso viver o luto, ela deixou-me em paz para viver o meu. Ela respondeu ao Dr. Rodrigo rispidamente, dizendo que o estava pagando para me ajudar a esquecer, e não para me fazer lembrar. Eu fiquei ali, boquiaberta, escutando ela falar de mim como se eu não estivesse presente, e ao mesmo tempo, insultando Dr. Rodrigo, que era sempre tão gentil. O rosto dele permaneceu impassível, como o de alguém acostumado àquele tipo de reação.

Minha mãe achava que as coisas tinham se complicado mais ainda porque a morte de Fred acontecera  alguns dias antes da separação dela e de papai. Na verdade, eu estava aliviada por não ter mais que atravessar aqueles jantares de família constrangedores, nos quais ela sorria e agia como se estivesse tudo bem entre eles, temperando a comida com suas conversas casuais e fingindo crer  que papai não tinha outra há mais de dois anos, quando até eu sabia, pois já tinha visto os dois juntos algumas vezes na cidade.

Foi após o meu bolo de aniversário de dezesseis anos, que papai entrou em meu quarto uma noite e me disse que estava indo embora. Dizia que sentia muito, mas queria ser feliz. Viver com minha mãe estava cada vez mais difícil, pois ela queria sempre controlar tudo, e ele já não aguentava mais. Perguntei-lhe sobre a outra mulher, e ele ergueu as sobrancelhas tentando desconversar, mas quando insisti, dizendo não ser mais criança, ele abriu um sorriso tímido e me disse que achava que poderia ser feliz com Cátia (era o nome dela). Eu sabia que Cátia era mais jovem e muito bonita. Bem mais bonita que minha mãe.


Mas ele não foi embora naquele dia, ainda ficou mais algum tempo, pois estava procurando um apartamento para viver com sua nova mulher.



Fred escutou-me com toda atenção quando contei-lhe sobre a separação dos meus pais, mas manteve-se neutro. Ainda disse que talvez eu estivesse sendo dura demais com mamãe: "Cada um enfrenta seus problemas como sabe, Nina." Mas eu mudei de assunto, pois não queria estragar aquela noite maravilhosa e perder a trama do filme porque estávamos falando sobre a vida de meus pais. 

Um dia, quando acordei numa manhã de sábado, papai já não vivia mais conosco. Na mesa do café, mamãe estava calada e pensativa. Eu queria que ela dissesse alguma coisa. Seria possível que ela iria continuar fingindo que papai e ela estavam bem, e que ele tinha apenas saído para comprar o jornal? Resolvi arriscar, e perguntei-lhe sobre papai, fingindo que não sabia onde ele estava. Ela me olhou como se tivesse notado que eu estava ali apenas quando eu falei, e respondeu: "Ele foi embora. Decidi que seria melhor se nos separássemos. Mas a vida segue, e prefiro que você não se envolva nesses assuntos, ele continua sendo seu pai." Eu mal pude acreditar no que acabara de ouvir! Ela agia como se a decisão tivesse sido dela, quando eu sabia mais do que ninguém que se não fosse por ele, mamãe poderia continuar naquele jogo de faz-de-conta o resto da vida!

Nos dias que se seguiram, ela continuou a fazer compras e preparar as refeições, dando ordens à Diana , nossa diarista, como se estivesse tudo bem. Mas eu a via, poucos minutos antes do jantar, olhando ansiosamente pela janela como se esperasse papai voltar a qualquer momento, sentar-se à mesa como sempre e dizer que queria continuar a viver com ela, sem que houvesse necessidade de explicações ou perdão. É claro, isso nunca aconteceu.


Eu aprendera com minha mãe a lição do esquecimento. Tinha  a habilidade de colocar de lado qualquer experiência que pudesse ser dolorosa para mim. Solidariedade era uma palavra que nem existia muito em meu vocabulário. Minhas amigas me adoravam e me consideravam (eu pensava) a pessoa mais legal e divertida do mundo, mas sabiam que eu não era apropriada para ouvir problemas ou dar conselhos. Eu nem sequer percebia o quanto aquela atitude tornava meus relacionamentos superficiais. Eu não sabia o que elas falavam de mim quando eu não estava presente. Fiquei sabendo por acaso, após a morte de Fred, quando ia entrar no banheiro e me detive ao escutar as vozes de Margô e Frida; a primeira dizia: "Agora talvez ela entenda o que é sofrimento. Sinto muito por Fred, mas sinceramente, quero que Nina se dane. Ela nunca foi solidária com nenhuma de nós. Nem quando meu irmão sofreu um acidente e eu a procurei; ela disse que adoraria ir ao hospital comigo, mas tinha hora marcada na manicure! Dá pra acreditar?" Frida concordou, e acrescentou: "Eu tenho pena dela. Com aquele ar superior, vai acabar sozinha, agora que não tem mais Fred. Não sei como ele nunca percebeu o que ela é." 

Eu não entrei no banheiro; ao invés disso, corri para longe. Sentei-me atrás de uma árvore de tronco grosso, em um lugar afastado no pátio da escola, e vomitei. Jamais pensei que era aquilo que pensavam de mim, e admitir que elas tinham razão foi a parte mais difícil. A partir daquele dia, eu ficava sempre sozinha nos intervalos, isolava-me para me proteger, pois não aguentava as trocas de olhares entre elas. Depois da morte de Fred, ninguém me telefonou para perguntar como eu estava, e nem mostrou qualquer tipo de solidariedade quanto ao meu luto. E agora eu sabia porque, e bem que eu  merecia. E sabia que a culpa era toda de minha mãe, aquela rainha da frieza, que me ensinara a ser como ela.

(continua...)




segunda-feira, 9 de novembro de 2015

A OUTRA MARGEM - PARTE X






A viagem de volta para  a sua cidade foi feita naquela mesma noite. Rayssa achou melhor não se despedir. Chegou em casa, arrumou suas malas com tudo o que conseguiu carregar no carro, e antes de fechar a porta da casa, parou por um instante e olhou para trás: há apenas alguns meses, estava feliz da vida, arrumando sua nova casa, seu novo lar! Deixou que aquela sensação tomasse conta dela, antes de apagar a luz e trancar a porta, jogando a sua chave dentro da caixa de correio, em um envelope onde estava um bilhete; nele estava escrito: "Sejam felizes." 

Entrou no carro e deu partida. Não olhou para trás. 

Achou melhor, dissera à mãe ao chegar, que tivesse sido daquela forma. Por que esperar por ele, a fim de inicar uma conversa constrangedora, humilhante e desnecessária? Que tipo de satisfações ele poderia dar a ela, e o que ela poderia responder a ele? Será que ele se desculparia por não amá-la? E ela o odiaria pelo mesmo motivo, ou será que poderia perdoá-lo?

Georgina perguntou-lhe se ainda amava Luciano, e ela respondeu imediatamente que o amava, e que achava que nunca seria capaz de esquecê-lo totalmente. As lágriamas que tentava conter caíram novamente, e aquilo repetiu-se por muitas e muitas noites, até que passou a acontecer apenas algumas noites. E aos poucos, as lágrimas foram secando.

Rayssa trocou seu número de telefone, apagando os contatos de Luciano, Cláudia e seus sogros. Queria recomeçar sua vida, olhar para frente, e o que mais lhe deu forças, foi participar das reuniões dos pacientes de câncer e seus parentes, que aconteciam no Segundo Lar. Aquelas pessoas tinham tantas esperanças, agradeciam tanto pelas vidas que tinham, que ela não poderia dar-se ao luxo de ser infeliz somente porque seu relacionamento não dera certo. Apesar de algumas delas saberem que seus dias aqui nesta Terra estavam contados, que seus casos não tinham mais solução, sua maior preocupação era aproveitar o que ainda lhes restava da forma mais intensa possível, estando junto àqueles que amavam. 

Rayssa ainda teve que receber o advogado de Luciano, a fim de assinar os papéis do divórcio. Foi difícil, mas depois, pensou, sentiu-se absolutamente livre para recomeçar sua vida. 

Rayssa continuou com seu trabalho, escrevendo para a revista, e ainda começou a escrever um livro. Nele, falaria sobre a importância do amor na vida das pessoas, e na cura para as doenças. Contava com a ajuda de um psicólogo e psiquiatra na parte técnica. Seu nome era Breno. Georgina notava que Breno olhava sua filha de maneira intensa, mas também sabia que Rayssa ainda não estava pronta para amar de novo; mas conhecia bem a filha, e sabia que ela logo estaria.

Um ano depois, Georgina entrou no quarto da filha enquanto ela estava trabalhando em seu livro- ela ainda estava morando com a mãe, que lhe cedera uma das suítes da casa - e pediu-lhe que fosse ver uma das novas pacientes, que acabara de chegar e pedira para falar com ela. Rayssa perguntou a mãe de quem se tratava, mas esta respondeu-lhe apenas:

-Acho melhor que você veja com seus próprios olhos. E lembre-se, seja gentil. Seja exatamente o que você é. Como você está escrevendo, o amor é a coisa mais importante em momentos difíceis.

Rayssa desceu as escadas, intrigada pelas palavras da mãe, e cruzou o jardim, indo até as alas dos pacientes. O dia estava lindo, e muitos sentavam-se nos bancos do imenso jardim, apreciando a beleza da natureza. Ela subiu as escadas de mármore da recepção, indo bater à porta do quarto que sua mãe lhe indicara. Ouviu alguém dizer para ela entrar. 

De pé à porta de entrada, Rayssa viu uma mulher sentada em uma cadeira de rodas, de costas, observando o movimento no jardim. A mulher usava um lenço de seda amarelo-claro. Rayssa deu batidinhas na porta de novo, anunciando sua presença:

-A senhora pediu para me chamar?

A mulher virou-se bem devagar na direção dela, e Rayssa deparou com sua ex-sogra Joana. 

Rayssa não sabia como agir. Joana fez sinal para que ela entrasse, indicando a poltrona junto à cama. Rayssa sentou-se, enquanto Joana deitou-se na cama, cobrindo-se com o lençol. 

-Obrigada por vir, Rayssa. 

-Eu não sabia que era você. Quero dizer, eu nem imaginava que você... mas o que houve? E Carlos?

Joana suspirou, deixando que seu olhar se perdesse entre as montanhas que se estendiam lá fora:

-Ele morreu alguns meses depois que você foi embora. E dias depois, descobri que eu estava doente.

Olhando Rayssa novamente, Joana exclamou:

-Pois bem, você pode dizer que está vingada!

Rayssa começou a levantar-se:

-Olhe, não sei o que você pretende, mas...

Joana silenciou-a:

-Por favor, sente-se! Me desculpe... sou apenas uma velha doente e ranzinza. Mas há algumas coisas que eu quero que você saiba, além do fato de que eu estou morrendo e me restam poucos meses. 

Rayssa sentou-se novamente, recostando-se, mas suas mãos, agarradas aos braços da poltrona, demonstravam sua tensão. Joana continuou:

-Às vezes classificamos as pessoas como boas ou más. Certas e erradas. Não estou tentando me justificar, mas quero apenas que você saiba que nunca tive nada pessoal contra você, ou contra qualquer uma daquelas moças, ex-namoradas de Luciano. Queria que você me visse apenas como alguém que estava em uma outra margem, se for possível.

-Como assim?

-Pense da seguinte forma: cada ser humano é uma ilha.

-Quando quer ser! Viver emocionalmente isolado é uma escolha.

-Não; um dia, você vai compreender que nós nos juntamos em casais e grupos apenas para disfarçarmos a nossa intrínseca e inevitável solidão. Somos ilhas, e nos vemos à distância. Muitas vezes, tomamos um barco, visitamos uns aos outros, mas nunca entramos profundamente no coração das outras ilhas, pois há lugares remotos que apenas são percorridos por nós mesmos, que habitamos tais ilhas. Cada um é o que é, e tem seus motivos para ser como é.  

Rayssa negou com  acabeça:

-Eu não concordo com isso. Eu não sou uma ilha. Você é quem tentou colocar a si mesma e ao seu filho em uma ilha, onde ninguém pudesse chegar. E veja só no que deu: olhe para você agora!

Ao dizer aquilo, Rayssa lembrou-se do livro que estava escrevendo, e das palavras da mãe, e constrangida pelas  próprias palavras, disse:

-Me desculpe. Não faz mais diferença. Bem... ele está feliz?

Joana suspirou profundamente, antes de responder:

-Sim. Eles se casaram, e Cláudia está grávida de gêmeos. Neste momento, estão em uma viagem pela Europa.

-Mas deixaram você assim? Sozinha?

-Não. Eles não sabem de nada. Não sabem que eu estou doente. Depois que Carlos se foi, meu filho deixou de visitar-me. Engraçado como a vida é irônica... justamente eu, que sempre temi ficar sozinha, acabei ficando sozinha justamente por causa do meu medo!

-Eu acho que Luciano precisa saber como você...

-Não; prefiro que ele não saiba de nada. Quero que ele possa viver em paz, finalmente, pois esta será a minha maneira de reparar todo o mal que eu lhe fiz. A ele, à Cláudia  e a você também. A maior das ironias, é que ele será pai de gêmeos! Sabe, eu mesma já fiquei grávida de gêmeos, mas perdi os bebês. Isso foi há muito tempo.

Rayssa sentiu que suas mãos relaxavam nos braços da poltrona, pois achou que deveria desarmar-se, pois pela primeira vez, sentia que sua ex-sogra estava sendo sincera e aberta com ela, sem subterfúgios, sem ironias e sem fingimentos.

-Mas como eu estava dizendo, voltando à questão das ilhas... eu queria convidar você para fazer uma viagem comigo ao coração da minha ilha. 

-E o que isso significa, Joana? Por que, depois de tudo?

-Porque você é uma boa moça, Rayssa. A melhor. Melhor até mesmo que Cláudia.

Rayssa retesou-se novamente, erguendo a voz:

-Escute, não quero ser comparada com ela. Acha que eu vou ajudar você a separar Luciano e Cláudia? Está muito enganada! Conheço suas estratégias, e...


-Acalme-se! Não é nada disso! Apenas disse que gosto mais de você do que alguma vez gostei dela.

-Pois deveria conhecê-la melhor. É uma ótima pessoa.

-Tarde demais para isso agora, ela não quer me ver nem pintada a ouro. E admito que tem suas razões. Mas por favor, deixe-me falar o que quero, o que preciso! 

Joana encostou-se novamente, cruzando os braços e as pernas. Estava um pouco zangada com a mãe por ela não ter lhe prevenido sobre quem a estava esperando. Parecendo adivinhar seus pensamentos, Joana disse:

-Naquele tempo, antes de vocês terminarem o casamento, sua mãe me ligou e me convidou para uma conversa. Sempre fui muito fechada, mas alguma coisa no tom de voz dela me fez sentir...como se eu pudesse realmente confiar nela. Sua mãe foi incrível comigo. Ela ouviu a minha história sem me julgar. Pena que logo depois, sem que eu pudesse conversar com você, vocês se separaram. Mas eu sempre quis ter esta conversa com você, Rayssa, porque é importante para mim que você me entenda, e mesmo que não concorde comigo, me perdoe. 

Joana serviu-se de um pouco d'água de uma jarra que estava na cabeceira antes de continuar:

-Eu fui muito pobre um dia, na minha juventude; meu pai era um bêbado que me abandonou após a  morte de minha mãe, a quem ele humilhava e em quem ele batia. Sempre fui muito só, e cresci em uma instituição para meninas órfãs... o medo da solidão me perseguiu desde sempre...

Assim, naquela tarde, Joana conduziu Rayssa por dentro de sua ilha, contando a ela a sua história verdadeira desde o começo. Quando terminou, estava escuro lá fora, e um belo luar todo branco surgira por trás das montanhas à janela. Rayssa tinha acendido alguns abajures, tornando o ambiente mais aconchegante. 

-...E esta é a minha história, Rayssa. Obrigada por ouví-la. 

Rayssa ainda ficou algum tempo pensativa, sem saber o que fazer com aquele derramamento espiritual tão sincero, tão sem máscaras. Finalmente, segurou a mão da ex-sogra, dizendo:

-Já passa das seis da tarde. Hora do jantar. Quer que eu traga aqui?

Joana concordou com a cabeça, agradecendo. Mas antes que Rayssa retirasse a mão, Joana apertou-a, pedindo:

-Você pode me perdoar?

Rayssa demorou um pouquinho antes de responder:

-Eu não tenho que perdoar nada, Joana. Você foi sincera e abriu-se comigo. Eu a escutei, não por pena ou por curiosidade, mas porque eu senti que você precisava ser ouvida mais uma vez, pois na verdade, você está resgatando a sua própria história através destas narrativas. Você está se lembrando de quem realmente é, para que possa sair desta vida levando sua alma limpa, leve, sem arrependimentos. É um gesto nobre e importante, e eu agradeço por ter confiado em mim para ajudá-la. 

.    .    .    .    .    .


Meses mais tarde, após voltarem do enterro de Joana, e de ter se encontrado rapidamente com Luciano e Cláudia, a quem cumprimentou e desejou sinceramente muitas felicidades, Rayssa conversava com a mãe no jardim do Segundo Lar. Já era noite, e todos dormiam. 

-Você está tão pensativa, filha... como foi para você, reencontrar Luciano?

-Na verdade, melhor do que eu esperava. Compreendi que fui necessária na vida dele, pois através de mim, ele aprendeu a livrar-se do domínio da mãe. Cláudia e Luciano se amam, sempre se amaram, e a separação deles não foi natural, mas gerada por intrigas. Gostei de saber que estão felizes, e ele me agradeceu por termos cuidado de Joana. E tem mais uma coisa, mãe...

-O que?

Rayssa olhou para mãe com o canto do olho, fazendo suspense antes de responder:

-Eles me convidaram para ser madrinha dos gêmeos.

Georgina ficou boquiaberta:

-E você aceitou, filha?

-Mas é claro que sim! Eu gosto muito dos dois.

Naquele momento, Georgina sentiu um enorme orgulho de sua filha. Agradeceu mentalmente por tê-la ao seu lado. Uma estrela cadente cortou o céu, e Rayssa chamou-lhe  atenção para ela. Georgina mandou que fizesse um pedido, rapidamente.

-E pensa que eu já não fiz?

--Ora, ora... mas não vai me contar o que é, certo?

-Não posso contar, mãe. Mas posso dizer que amanhã vou jantar fora com o Breno.

As duas se abraçaram.


.    .    .    .    .


Às vezes, o que deixa as pessoas ilhadas é justamente a falta de diálogo. Nós enxergamos no outro não a verdade sobre o que ele é, e sim o que ele faz questão em demonstrar ser a fim de defender-se e às suas posições, muitas vezes dominado pelo medo e pelo espírito competitivo. Tornar-se uma ilha é uma maneira de mostrar-se forte, defender-se; o problema, é quando esta questão metafórica - a ilha forte, indevassável, inatingível e portanto, jamais ferida - torna-se algo concreto. 

É preciso que haja barcos a fim de cruzarmos as distâncias que existem entre nós e os outros. Mas só poderemos cruzar este mar que nos separa quando houver honestidade e verdade sob as ondas, e não maremotos ameaçadores escondidos sob elas. Somente a sinceridade, a verdade, a humildade, o olho no olho, o coração aberto e a vontade genuína de estabelecer relações que não passem pelo campo do interesse e da falsidade, podem criar laços profundos e reais. 

Ninguém navegaria por águas profundas e traiçoeiras, nas quais já quase se afogou inúmeras vezes, de livre e espontânea vontade; somente os tolos o fariam. É preciso trazer os próprios monstros à tona, admitir que eles existem e que podem ser controlados a fim de que os outros não temam aproximar-se sem voltarem a ser novamente jogados contra as pedras. É preciso humildade. É preciso integridade.

E muitas vezes, é preciso pedir desculpas. 



FIM






A MÃO & O LAÇO – CAPÍTULO XI

Oito anos depois, minha vida estava diferente. Nossas vidas estavam diferentes. Eu estava com vinte e quatro anos, e estava c...