segunda-feira, 19 de junho de 2017

A MÃO & O LAÇO – CAPÍTULO XI







Oito anos depois, minha vida estava diferente. Nossas vidas estavam diferentes. Eu estava com vinte e quatro anos, e estava casada com Noel. Minha melhor amiga era Elisa, irmã de Noel, e nós duas nos tornamos inseparáveis. Ela mudou-se para nossa cidade e abrimos juntas nosso escritório de arquitetura e decoração de ambientes. Noel tinha seu próprio escritório de advocacia. Às vezes, nas noites de sexta-feira, tocava em um bar com seus amigos da antiga banda; assim, podia exercitar sua música, que ele nunca conseguiu abandonar de vez. 

Adílio e Laura estavam casados, tinham uma filhinha de dois anos chamada Patrícia e viviam em outra cidade. Às vezes nós nos telefonávamos, e também nos visitávamos quando dava tempo. Mas estas ocasiões estavam se tornando cada vez mais raras, desde a mudança e o nascimento de Beatriz, a filhinha deles. Com o trabalho, a distância e os compromissos da vida de casados, mal tínhamos tempo para uma mensagem por telefone.

Doralice saíra da clínica. Shirley jamais devolveu-lhe parte do dinheiro que Pedro lhe entregara após sua chantagem, e quando se viu sozinha e sem dinheiro, Doralice começou a traficar drogas. Foi morta por um traficante alguns meses após deixar a clínica. Mamãe lamentou profundamente, e ela e minha avó deram-lhe um enterro digno no qual apenas as duas compareceram. 

Vovó estava bem idosa, e locomovia-se com a ajuda de uma bengala; mas artrites à parte, tinha saúde de ferro, apesar da idade avançada. 

Mamãe tivera dois namorados naqueles anos, mas quando eles começavam a falar em casamento, ela terminava com eles. Dizia que tivera um único marido, e que amaria apenas um homem pelo resto de sua vida. Ninguém entendia sua atitude, mas ela não admitia discutir sua vida íntima com ninguém.

O paradeiro de Pedro nunca foi descoberto, e a morte de Diana nunca foi esclarecida. Nunca mais tivemos notícias de Shirley – seu padrasto falecera, deixando ela e a mãe muito ricas. A última vez que todos nós nos encontramos, foi no velório de Santoro. Conheci a mãe de Shirley, cuja personalidade parecia-se muito com a da filha. Ela foi polida e tremendamente fria com todos nós, amigos de Shirley, e nunca entendi suas razões. Mãe e filha mudaram-se da cidade e jamais voltaram. Ainda tentei contato com ela, e procurei por seu perfil em redes sociais, mas foi tudo inútil: ela não queria ser encontrada. Eu ainda guardava uma desconfiança de que Shirley tinha algo a ver com a morte da irmã, ou que talvez ela mesma a tivesse matado, mas ao mesmo tempo, eu sabia que ela não faria tal coisa. 

Nunca mais ouvi falar de Susi, ou de Drica. Elas também foram embora da cidade quando a escola terminou. Aquela história toda deixara muitas linhas esfiapadas, voando pelo caminho. Linhas que, tão cedo, não seriam atadas. 

O tempo passa, e nos obriga a esquecer. Esquecemos para sobreviver, e também para não enlouquecermos. A vida continua, e isto não é apenas um cliché sem significados. Continuei com a minha vida, mesmo sentindo falta de meus amigos e sem saber a resposta para uma porção de coisas que ficaram mal explicadas a respeito de Shirley e da morte de Diana. 

Até que o casal de idosos que morava em nosso prédio faleceu. Dona Marta se foi primeiro, e meses depois, seu marido a seguiu. Os filhos colocaram o imóvel à venda, e Noel mostrou-se interessado em compra-lo, pois ainda morávamos no apartamento de mamãe, que se mudara para a casa de vovó para tomar conta dela e fazer-lhe companhia em sua velhice. Mas quando ele fez uma oferta, disseram-lhe que o imóvel já tinha sido vendido. Ficamos nos perguntando: tão rapidamente? Apenas algumas semanas após a morte do casal? João, um dos filhos do casal, explicou que recebera um telefonema alguns dias após a morte do pai. Fizeram-lhe uma boa oferta pelo imóvel. Ele ainda nem tinha decidido vende-lo, mas após pensar melhor, achou que era uma grande oportunidade, e fechou negócio. 

Eu e Noel ficamos decepcionados; adorávamos viver na Rua dos Ipês, e o prédio era ótimo. Mas como sempre, o que está feito não tem mais jeito, e continuamos com nossas vidas. O apartamento vendido começou a entrar em reformas, que duraram alguns meses. 

Um dia, numa manhã de sábado, meses após o começo da reforma, curiosa, ao invés de tomar o elevador, subi pelas escadas e resolvi tentar dar uma olhadinha no que estava sendo feito. Eu não sabia quem eram os novos proprietários, que nunca apareciam.  A porta estava entreaberta, e tudo estava silencioso. Devagarinho, bati na madeira da porta, e perguntei se havia alguém em casa. Como não houve resposta, empurrei a porta e olhei para dentro. A reforma estava pronta, e o apartamento havia sido mobiliado. A visão da sala de estar parecia fazer parte de um cenário da Casa Cláudia, de tão bela e moderna que era a decoração! Fiquei alguns segundos ali, boquiaberta, olhando tudo e me lembrando de como o apartamento costumava ser antes da reforma: escuro, com móveis envelhecidos que não combinavam entre si, cortinas desbotadas e cheiro de mofo. Agora, estava diante de uma sala ampla, arejada e clara. A parede da sala de estar havia sido derrubada, ampliando o ambiente, e as paredes pintadas de branco gelo contrastavam com o enorme sofá e as poltronas de veludo vermelho escuro, e com o tapete persa azul cobalto com desenhos em cores que combinavam com o sofá e as cortinas brancas de seda. Havia um grande espelho italiano atrás do sofá. A moldura era dourada e trabalhada à mão. A parede em frente ao espelho era pintada de preto-fosco, e eu jamais pensei que uma parede preta pudesse conferir tanta sofisticação a um ambiente. Até hoje, é difícil descrever a beleza que eu vi ao deparar com aquela sala excêntrica e luxuosa, mas de bom gosto. Eu ainda estava de queixo caído, pensando em copiar alguns detalhes para usar no apartamento de um de meus clientes, quando um leve movimento atrás de mim me fez ter um estremecimento. Me virei para olhar, sentindo a nuca arrepiada pelo susto, e deparei com uma mulher loura e alta, de longos cabelos ondulados. Ela vestia um macacão frente única vermelho decotado, saltos muito altos e usava brincos exagerados de pedrarias que pareciam valer uma fortuna. Seus olhos azuis eram brilhantes e frios, e não acompanhavam o sorriso que ela me dirigiu. 

O nariz estava diferente, mais afilado, e ela havia perdido alguns quilos que davam a ela a exata aparência de um manequim de passarela. Estonteantemente bonita, Shirley me olhava. 

Percorri com os olhos rapidamente suas longas e pontudas unhas vermelhas, os muitos anéis e pulseiras, a maquiagem esmerada e a pele de pêssego do rosto. O tom bronzeado, agora mais leve, dava a impressão de ter sido conseguido em uma clínica de bronzeamento artificial. Senti minha boca se entreabrir diante da surpresa, e fiquei sem palavras. Sentindo-me uma tola, balbuciei:

-Shirley! Que... que surpresa! O que a traz aqui?

Não houve abraços ou sorrisos de reconhecimento. Não houve demonstrações de saudades ou de alegria ao nos revermos. Ela ficou séria antes de responder:

-Comprei este apartamento. Seremos vizinhas, suponho.

-Que... bom! Nossa, você sempre descuidada, hein? Deixou a porta entreaberta e saiu...

-|Fui comprar cigarros. Nem reparei que tinha deixado a porta aberta.

Ela estudou minha reação durante algum tempo, e eu me senti de repente muito fraca. As coisas começaram a escurecer no meu campo de visão, e tive que me apoiar na parede para não cair. Ela percebeu, e perguntou, demonstrando uma preocupação que me pareceu dissimulada:

-Você está bem, Jordana?

-Sim... acho que é o calor.

-Vamos entrar. Eu te sirvo um copo d’água. 

Dizendo aquilo, ela me pegou pelo braço com cuidado, e eu me vi sentada naquele luxuoso sofá vermelho, me sentindo pequena e inadequada para aquele ambiente, já que eu usava um vestido caseiro e um par de sandálias havaianas. Ainda tonta, percebi o que me deixara tão fascinada por aquele ambiente: ele era uma cópia quase exata da sala de minha avó quando Shirley me conhecera! 

Havia algumas diferenças, como a parede negra em frente ao sofá, mas o modelo do sofá era o mesmo, com a diferença de que o sofá de minha avó era marrom claro; o tapete tinha os mesmos desenhos. Poderia dizer que era o mesmo que minha avó vendera há alguns anos, quando fez modificações na sala. Ela me viu olhando para o tapete, e disse, enquanto voltava da cozinha segurando um copo d’água de cristal:

-Reconhece o tapete? Era de sua avó. Comprei-o em um antiquário quando me disseram que pertencera a ela. Em resgate dos bons tempos. Ela redecorou, suponho?

Retomei o folego antes de responder, tentando soar natural:

-Sim. Há algum tempo. na verdade, foi minha primeira cliente. Sou decoradora agora. E como está você, o que tem feito?

Ela sorriu:

-Casei, separei... sem filhos. Meu casamento foi um erro que durou apenas um ano e pouco. Estou me divorciando agora. O processo está no final. Eu consegui concluir meus estudos. Formei-me em medicina, mas não exerço a profissão. Nem cheguei a fazer residência. Apenas tentei satisfazer mamãe.

-Medicina, você? Eu não poderia imaginar. Você sempre dizia que não podia ver sangue...

-As pessoas mudam. Você mudou. Está mais... não sei... está diferente, muito diferente.

-Você também. Mais bonita, mais séria.

-Séria? Só na aparência. (ela deu uma gargalhada). E como estão Adílio e Laura? Vocês mantém contato?

-Eles se casaram e têm uma filha de dois anos. O nome dela é Patrícia. Mas mal nos falamos agora, sabe... a vida ... a rotina.

Tomei um golinho da água que ela me oferecera, sentindo um leve sabor de maçã verde. Olhei em volta, procurando um motivo para me despedir. Mas ela não me deu a oportunidade:

-Precisamos colocar a conversa em dia, amiga. Você ... está trabalhando?

-Estou. Tenho um escritório de arquitetura e decoração. Minha sócia é minha cunhada, Elisa. 

Ela ergueu as sobrancelhas e pareceu refletir sobre o assunto. Depois, deu um daqueles lindos sorrisos que desarmavam qualquer pessoa:

-Adoraria conhece-la! Afinal, se ela é sua amiga, deverá ser minha amiga também. E como está Noel?

-Está bem, obrigada.

-E filhos? Tiveram algum?

-Estamos deixando para mais tarde. Ainda estamos começando nossas carreiras, e estamos casados há apenas dois anos. Queremos aproveitar um pouquinho mais. E você? sozinha no momento?

Ela ficou séria, e disse:

-Sozinha a maior parte do tempo, como sempre. Mas rica e feliz. Santoro deixou-nos muito bem de vida.

-E como está sua mãe?

-Casou-se novamente, está ótima. Tornei-me dispensável na vida dela outra vez depois disso... - (O rosto dela tornou-se sombrio e muito sério ao dizer aquilo, mas logo depois, Shirley suspirou profundamente, e me olhou, sorrindo de novo) - mas o que importa, é que ela está feliz. E você? está feliz?

-Sim. 

-E como está Letícia? E sua avó?

-Ótimas! Morando juntas. Mamãe deixou-nos ficar no apartamento e mudou-se para tomar conta de vovó. Ela já é bem idosa, sabe. Mas está bem de saúde. 

-Letícia se casou de novo?

-Não. Mamãe é uma mulher independente, não quer se casar... acho que nunca vai se esquecer de papai. Teve alguns namorados, mas...

Notei o poder que Shirley sempre tivera de fazer as pessoas falarem mais do que gostariam, e interrompi o que estava dizendo, olhando no relógio de pulso:

-Bem, preciso ir. A gente se vê.

-Que pena. Tão cedo? Gostaria de conversar mais... que tal se jantássemos juntas?

-Hoje eu não posso. Tenho um compromisso, mas quem sabe outro dia?

Ela ficou séria por um instante, e depois concordou com a cabeça:

-Quem sabe outro dia. Vou leva-la até a porta. Tem certeza de que está bem?

-Ótima, obrigada, Shirley.

Ao chegarmos à porta, ela me envolveu em um abraço demorado que me deixou, ao mesmo tempo, desconfortável e constrangida. Mas eu achei melhor corresponder. Notei o perfume caro que ela usava e pensei em meus cabelos cheirando a gordura (estivera na cozinha preparando o almoço). Quando nos separamos, ela sorriu, e eu sorri de volta. Entrei no elevador com as pernas ainda bambas. 

Quando cheguei em casa, joguei-me no sofá, pensando naqueles últimos momentos. Mas logo, os momentos transformaram-se em anos, e em tudo o que acontecera no passado. Pensei em Diana, em sua mãe, em Pedro; pensei no dia em que conhecera Shirley na escola, quando ela me livrara do bullying; pensei na morte de Diana, nas festinhas, nas aulas, nas saídas juntas e nos finais de semana em que nós nos reuníamos todos em volta da piscina da casa de minha avó. Lembrei-me dos bons e dos maus momentos com Shirley, que se intercalavam sempre numa rapidez frenética, de suas mentiras e de suas verdades. Lembrei-me daquela nossa última noite como amigas, na casa de minha avó, quando eu, Laura e Adílio a confrontamos e decidimos que não a queríamos mais em nossas vidas. Lembrei-me da frieza com que nós três fomos tratados por ela e sua mãe quando fomos ao funeral de Santoro – última vez que nos vimos. E então, elas se foram sem despedidas e sem mais notícias. 

Oito anos se passaram. E agora, ela estava de volta. Por que? O que tinha feito com que ela voltasse, e comprasse, justamente, o apartamento que ficava no mesmo prédio onde eu morava? Noel entrou na sala naquele momento, e me viu preocupada. Após beijar-me na testa e começar a tomar café, perguntou:

-Que bicho te mordeu, amor?

-Adivinha quem está de volta... e morando no primeiro andar, exatamente no apartamento que nós queríamos comprar.

Ele sabia de toda a minha história com Shirley. Eu contara tudo a ele, e de vez em quando, ainda me via falando sobre ela com ele. Noel achava que eu tinha uma obsessão por minha ex-amiga, e dizia que eu deveria esquecer-me dela. E de tudo o que acontecera; afinal, não era problema meu. 

Ele comeu um biscoito, mastigando ruidosamente, e tomou um gole de café antes de perguntar.

-Não sei. Quem?

-Shirley.

Ele mastigou mais devagar:

-Jura? Como você sabe?

-Acabo de me encontrar com ela. Ela me convidou para entrar um pouco... se você visse o apartamento, que luxo que está... e ela... Shirley parece uma modelo de capa de revista, dessas famosas. Ela sempre foi bonita, mas agora, diria que ela exagerou.

Ele disse, brincando:

-Olha a inveja! Mas... o que a traz de volta?

-Não sei. Não ficou claro. Mas ela está... tão... diferente. Mais sofisticada, imagine... ela estudou medicina, mas não exerce a profissão. Acha que ser rica é mais fácil. Bem, ela sempre quis ter grana, e hoje, ela tem. Muita. 

-Bem... que tal convidá-la para vir aqui um dia? Gostaria de conhecer essa figura tão exótica. Afinal, ela fez parte da sua vida. A não ser que você não queira, é claro.

-Não... acho melhor convidá-la. Ela até sugeriu que jantássemos juntas hoje. E tenho certeza de que ela não vai desistir tão facilmente. Mas como Elisa e Breno vêm hoje à noite, achei melhor não misturar os assuntos, entende?

-Hum-hum. 

Noel sentou-se ao meu lado, e começou a beijar meu pescoço enquanto eu falava, e logo, o assunto morreu. Nós fomos para o quarto, de onde só saímos mais tarde, para almoçar. 

À noitinha, Elisa e Breno chegaram. Nós os aguardávamos com uma boa garrafa de vinho e massa, preparada por Noel. Nós éramos dois casais muito amigos e nos dávamos muito bem. Elisa era tudo o que eu sempre queria ter como amiga, e como sócia: honesta, verdadeira, assertiva, positiva, discreta, respeitadora. O oposto de Shirley. Com ela, eu me sentia sempre segura. Nós confiávamos totalmente uma na outra, e tínhamos um relacionamento de irmãs. Breno e Noel comportavam-se da mesma forma um com o outro, e nós quatro nos completávamos. A vida era bem mais fácil sabendo que poderíamos sempre contar uns com os outros.

Assim, o assunto da noite, após o jantar, enquanto jogávamos cartas, tornou-se Shirley. Não havia segredos entre nós. Breno escutou meu relato, dizendo:

-Se essa garota foi tão negativa assim na vida de todos, se eu fosse você, a evitaria.

Elisa concordou com ele:

-Eu também.

Eu sacudi a cabeça, negando:

-Não é tão fácil assim. Não posso simplesmente fingir que ela não existe. É claro, manterei uma distância segura, mas acho que um almoço ou jantar não fará nenhum mal. Cortesia. Apenas cortesia.

Elisa ergueu uma sobrancelha:

-Hum... acho que é mais curiosidade, isso sim. Coisa de mulher. Mas você ainda gosta dela, não é?

Todos riram, menos eu. Pensei naquela pergunta:

-Gostar de Shirley? Não sei. Houve uma época em que eu adorava a companhia dela. Ela era alegre, engraçada, espontânea... diferente das garotas que eu conhecera. Mas depois eu descobri que ela mentia o tempo todo, e fiquei com um pé – digo, os dois pés-atrás. 

Elisa perguntou:

-Você ainda acha que ela pode ter matado a irmã?

-Não... sim... sei lá. Ela é uma incógnita. Mas acho que não. Não, definitivamente, não. Isso é coisa de filme de suspense. Pedro, o pai, matou Diana. E sumiu no mundo para não ser pego pela polícia. 

Noel disse:

-Você está muito perturbada com a volta dela. Acho que vocês ainda podem ter coisas a dizer uma à outra. 

-Mas... por que ela foi voltar logo para este prédio? Isso me intriga!

Todos concordaram comigo. Servimos outra garrafa de vinho e continuamos a jogar, tendo Shirley como o assunto principal da noite. 


(continua...)









sábado, 10 de junho de 2017

A MÃO & O LAÇO – Capítulo X







E nós fomos ao cinema. Apesar de achar que tudo estava indo rápido demais, eu deixei que acontecesse. Nós nos beijamos durante o filme. A respiração dele estava alterada, a minha também. Eu estava completamente ligada, os hormônios à flor da pele, mais ainda – muito mais – do que quando eu dançara com Adílio na festa de aniversário dele. Eu agarrava a nuca dele, forçando seu rosto contra o meu durante o beijo como nunca sonhara fazer um dia. Noel cheirava bem. Eu gostava do perfume dele, do seu hálito, da textura e da temperatura de sua pele.  Nossa química era perfeita. Eu me lembrei de um dia em que uma amiga me dissera que para que um casal desse certo juntos, era preciso que houvesse química entre eles. Na época, eu não entendi o que ela queria dizer, mas agora, eu entendia perfeitamente. 

Saímos abraçados do cinema, como dois namorados que se conheciam há muito tempo. Eu estava definitivamente apaixonada por Noel. Mas não sabia o que ia na cabeça dele. Afinal, ele era mais velho, e poderia estar apenas se divertindo, saindo com uma bela garota que acabara de conhecer. Ele entrara na minha vida tão de repente, e de forma tão intensa, que sua presença ficara marcada na minha pele e na minha vida, embora nos conhecêssemos há apenas algumas horas. Se ele tivesse me pedido, eu teria me casado com ele. 

Mas uma campainha soou lá no fundo da cabeça: “Vá devagar! Você pode se machucar!” Eu parecia estar ouvindo a voz do meu pai. 

Cheguei em casa pisando em nuvens, e com a cabeça em Marte. É claro que minha vontade era mandar Noel entrar e ficar com ele em meu quarto, mas não fiz aquilo, e ele não insinuou nada. Me deixou na porta de casa e foi embora. Eu ainda não sabia o que estava rolando entre a gente – se era algo parecido com o que tinha acontecido entre Adílio e eu ou se era algo mais forte. Apesar de eu pensar que era algo bem mais forte, não queria entrar de cabeça com medo de machucar. Pelo menos, não sem antes saber o que se passava na cabeça de Noel. 

Uma semana e meia depois, estava claro que nós dois estávamos namorando. Minha mãe ficou feliz, e me disse que tinha marcado hora para mim no ginecologista, o que me deixou constrangida, mas ela foi comigo, dizendo que essas coisas eram naturais, mas que eu só me entregasse se sentisse que ele era o cara certo para ser o meu primeiro. Mesmo assim, achava mais seguro se eu tomasse certas precauções, e eu concordei com ela. 

As férias começaram com dias ensolarados e quentes. Depois daquela mensagem por telefone, só vi Shirley mais uma vez, rapidamente. Ela estava claramente me evitando, e eu fiquei muito magoada com aquilo. Doralice continuava na clínica, e minha mãe sempre telefonava para saber notícias dela. 

Numa manhã de sábado, eu estava na piscina da casa de minha avó com Adílio e Laura. Noel tinha viajado para casa a fim de visitar os pais dele. Me convidou para ir também, mas eu recusei, pois achava que era cedo demais para conhecer a família dele. Eu estava apaixonada – literalmente babando por ele – mas ainda queria ir devagar. 

Nós três estávamos dentro da piscina, e o calor do sol sobre nossos ombros era delicioso. Puxei assunto sobre Shirley:

-Vocês tem visto a Shirley? Porque já faz vários dias que nós não conversamos.

Adílio tomou um gole de sua Coca-Cola e respondeu, enquanto alisava as costas de Laura:

-Na verdade, não... achamos que ela estaria aqui.

-Pois é. Liguei para convidar, mas ela não atendeu o telefone. Mandei mensagem, mas ela não respondeu. Acho que está brava comigo.

Laura perguntou:

-Brava com você? Mas por que ela estaria brava com você?

Achei melhor contar a eles tudo o que tinha acontecido. Eles me escutaram, mostrando-se chocados em várias ocasiões. Fizeram algumas perguntas cujas respostas eu desconhecia. Depois, saímos da água e fomos nos sentar nas espreguiçadeiras. Ficamos em silêncio durante um bom tempo. Laura observou:

-Conhecemos Shirley há muitos anos. Nós praticamente crescemos juntas, Jordana. Mas ela nunca me contou nada disso. Eu nem imaginava essas coisas... dela ter sido abusada pelo pai, e de ser meia-irmã de Diana... eu sempre percebi que havia alguma coisa estranha entre as duas... eu pensava que Santoro e Lígia eram os pais verdadeiros dela.

-Você conhece eles? Os pais de Shirley?

-Sim. Eles são pessoas legais. 

-Eu... sempre quis conhecê-los, mas ela sempre mudava de assunto quando eu dizia isso. Na festa do meu aniversário mamãe se ofereceu para dar uma carona para ela após a festa, mas ela ficou toda sem graça, praticamente saiu correndo. Disse que a mãe vinha busca-la de carro.

Adílio franziu a sobrancelha:

-Estranho. Porque Santoro está em uma cadeira de rodas, e Lígia não sabe dirigir. Eles nem tem carro.

Tentei raciocinar:

-Bem, talvez ela viesse buscar a filha de táxi... mas por que o pai de Shirley está em uma cadeira de rodas?

Foi Laura quem respondeu:

-A mãe dele era cuidadora de Santoro, e os dois acabaram se apaixonando. Dizem que ele teve um acidente de carro. 

-Mas Shirley me disse que mãe dela era professora!

Adílio riu, dizendo:

-Não. Ela é enfermeira. E cuidadora de idosos.

Minha cabeça deu um nó: mais uma mentira de Shirley! Mas por que ela mentia tanto? Do que tinha medo? Pedi explicações aos meus amigos:

-Esperem: vocês estão me dizendo que a mãe de Shirley é cuidadora de idosos e enfermeira... então... Santoro está em uma cadeira de rodas e os dois se apaixonaram depois que ela foi cuidar dele... conclusão: Santoro é um homem idoso?

Eles concordaram ao mesmo tempo, e Laura concluiu:

-Sim. Idoso. Ele tem 78 e Lígia tem 45. 

Fiquei boquiaberta! Então, quem sabe, Shirley se envergonhava da diferença de idade entre a mãe e o padrasto! Mas o que Adílio disse em seguida, me deixou sem chão: 

-E ele adotou Shirley. O velho é muito rico e não tem nenhum herdeiro, a não ser ela e Lígia. A vida delas está garantida.

Senti como se tivesse levado um soco no estômago: aquela história de ser filha de uma professora e de precisar chantagear o pai para pagar os estudos não tinha o menor fundamento! Shirley era rica. Uma menina rica, talvez mais rica do que eu naquele momento! Laura observou:

-É, está. Mas só depois que ele morrer. E do jeito que a Lígia cuida bem dele, parece que isso vai demorar ainda. Santoro é rico, mas não dá boa vida a Shirley agora. Ele quer que ela estude e tenha uma profissão, e por isso ele paga; mas não dá a ela uma vida de princesinha mimada. A mesada que ele paga a Shirley é frugal, só para as despesas menores. E ela fica furiosa e frustrada com isso. 

Comentei:

-Então é isso! Shirley chantageava Pedro porque ela não quer esperar até o padrasto morrer: ela quer dinheiro agora. Quer ir embora, ser independente... porque ela tinha me dito que chantageava Pedro porque precisava do dinheiro para pagar seus estudos e garantir seu futuro.

Adílio e Laura se entreolharam. Confessaram que nunca poderiam imaginar aquele lado negro de Shirley. Sabiam que ela era um pouco vingativa, talvez um tanto dominadora e até possuía um certo humor negro; mas que ela mentia tanto, nem eles poderiam imaginar. Exclamei:

-Gente... quem é essa pessoa? Por que ela mente tanto para todo mundo?

-Que merda – Adílio soltou. – Eu pensava que conhecia a minha amiga! Mas... ela mentiu principalmente para você, Jordana. Porque eu, Laura e os outros sabíamos que a mãe dela é enfermeira, que o pai – digo, padrasto – está em uma cadeira de rodas e é idoso.

-É, mas ninguém sabia sobre Pedro, o verdadeiro pai. Ou sobre ela e Diana serem irmãs. 

Laura disse, pensativa:

-Parece que Shirley tem várias faces. E uma memória incrível, para mentir tanto para diferentes grupos de pessoas durante tanto tempo. Eu nem sei mais o que pensar, o que dizer... nem sei se quero continuar sendo amiga dela.

Adílio respondeu:

-Quem deixa de ser amigo, é porque nunca foi, Laura. Ela precisa de ajuda, tenho certeza. 

Concordei com a cabeça, mas minha mente dava mil voltas. Mergulhei na água fria e azul para esfriar a cabeça, e vovó veio nos chamar para o almoço. Mamãe tinha chegado com duas amigas do trabalho, e o almoço foi um tanto festivo, e as conversas, animadas. Resolvemos deixar o mistério de Shirley para depois. Mas no fundo da minha mente, sibilava a chance de que Shirley era uma psicopata que poderia sim ter matado Diana, a própria irmã. Mas por que ela faria aquilo? Bem, concluí que psicopatas não precisavam de motivos. Ou precisavam? 

Passei mais uma mensagem para Shirley mais tarde, quando o sol já tinha ido embora e estávamos todos sentados junto à churrasqueira, no jardim, bebericando coquetéis de frutas e batendo papo enquanto eram servidos vários tipos de sanduíches e canapés. Escrevi:

“Pena você não estar aqui. Tivemos uma tarde maravilhosa na piscina. Agora estamos tomando drinks no jardim. Por que não se junta a nós?”

Mas novamente, ela ignorou a mensagem. 

Porém, uma hora depois, Shirley apareceu, como se nada tivesse acontecido. Ela usava um vestido preto de alcinhas, esvoaçante e curto, e sandálias rasteiras. Estava linda, muito sexy, os cabelos soltos e muito sedosos, a pele bronzeada. Cumprimentou a todos com um “olá” geral, e nós respondemos, nos entreolhando e tentando parecer naturais. 

Ela explicou que estivera fora de casa, passando alguns dias com uma tia que morava em uma cidade praiana vizinha à nossa, e que por isso não respondera às minhas mensagens e telefonemas: lá não havia internet e o sinal do celular era muito fraco. Achei que era apenas mais uma de suas mentiras, mas ela abriu o celular e começou a nos mostrar fotografias do local, onde ela aparecia sorrindo ao lado de pessoas que nós não conhecíamos. Começou a falar no lugar, nas atrações turísticas e em tudo o que fizera naqueles dias. Suas histórias logo interessaram às amigas de mamãe, que pensavam em viajar de férias. 

Ela era a mais animada entre nós, e as amigas de minha mãe a adoraram! No final da noite, elas comentavam o quanto aquela mocinha era totalmente encantadora. Mas eu, Adílio, mamãe, vovó e Laura estávamos apreensivos, embora tentássemos não demonstrar nada. 

Quando as amigas de mamãe se foram, e mamãe e vovó se recolheram aos seus quartos – passaríamos todos a noite na mansão – ficamos apenas nós quatro na sala de TV, começando a assistir a um filme antes de irmos dormir. O filme era menos interessante do que nós pensávamos. Estávamos em silêncio, fingindo prestar atenção ao filme, quando Shirley bufou:

-Gente, sou só eu que acha que esse filme é um saco? Vamos fazer alguma coisa mais interessante! 

Passava de meia-noite. Adílio bocejou, e Laura suspirou fundo, sem responder. De repente, eu me vi dizendo:

-Claro! Poderíamos começar falando sobre o porquê de você mentir tanto o tempo todo, Shirley. 

Ela me olhou como se eu fosse de outro planeta:

-Não estou entendendo, Jordana! O que você quer dizer? 

Eu nem sabia como começar. Abracei os joelhos, pondo os pés no sofá. Adílio veio em meu auxílio:

-Pôxa vida, Shirley. Estamos chateados com você. Mentiu para nós sobre a Diana e seu verdadeiro pai. Mentiu para Jordana sobre sua mãe e o Santoro... fico me perguntando sobre o que mais você pode ter mentido!

Laura fungou, enxugando as lágrimas com a manta do sofá. Shirley riu, sem graça. Parecia estar tentando deliberar até onde nós sabíamos. Adílio continuou:

-Não é legal mentir para quem gosta da gente, Shirley. E é muito perigoso mentir para os amigos, pois eles conversam entre si, trocam informações e acabam descobrindo a verdade. 

Laura choramingou:

-Eu não confio mais em você, Shirley!

Shirley encolheu os ombros, e pareceu muito cansada de repente. Eu disse:

-Por que mentiu sobre ser pobre, quando seu padrasto é um homem rico? Por que extorquir dinheiro de Pedro, se você tem muito mais do que conseguiu tirar dele?

Ela tentou se defender:

-Mas não fui só eu que menti! Você disse a mim e à Diana que sua mãe não ia contar nada sobre nós. Agora, a escola toda já sabe!

-Porque você mesma contou à Susi e Drica, e elas espalharam! Eu não contei nada a ninguém. 

Ela me olhou, furiosa:

-Sei... aposto que Adílio e Laura já sabem de tudo.

Eles se entreolharam, baixando a cabeça. Eu admiti:

-Claro! Somos seus amigos – ou pensávamos que fôssemos. Eu contei a eles o que eu sei, e eles me contaram o que sabem. Agora parece que todo mundo sabe de tudo. Mas você está tentando desviar o assunto para outro lado, Shirley. 

Abrandei o tom de voz:

-Shirley, eu gosto de você. Nunca vou me esquecer de como me ajudou na escola, de como me ajudou com matemática... do quanto foi bacana comigo se tornando minha amiga quando as minhas amigas voltaram as costas para mim. 

-Se você realmente me considerasse sua amiga, teria também me contado que está namorando! 

-Como você ficou sabendo?

-Vi você e ele no cinema há alguns dias. Naquele domingo, depois que conversamos. 

-Eu queria te contar pessoalmente, mas você me ignorou. 

Percebi que mais uma vez, ela estava desviando o assunto:

-Mas estamos falando de você agora, Shirley! Responda, por que estorquiu dinheiro de Pedro? Por que mentiu para mim, dizendo que era pobre?

E Laura completou:

-Queremos saber também por que escondeu de todos que Diana era sua irmã! E por que não fez nada para ajudá-la quando soube pelo que ela passava! 

Shirley levantou-se do sofá, e começou a medir a sala para lá e para cá:

-Chega! Eu não devo satisfações a ninguém sobre a minha vida! Ninguém está na minha pele para me julgar e às minhas ações e motivos! Ninguém me entende! 

Laura disse:

- É verdade, “Shirley, a incompreendida...” e mesmo que você contasse uma história, quem poderia dizer se você não estaria mentindo de novo? Às vezes eu acho que você é maluca, sabe?

Fiz sinal para que Laura se calasse, e comentei:

-Shirley... só queremos entender! Somos seus amigos. Queremos ajudar. 

Ela começou a chorar. Sentou-se no sofá, escondendo a cabeça entre as mãos, e chorou, copiosamente. Eu, Adílio e Laura nos olhávamos, sem saber como agir, ou se aquela cena não era apenas encenação. Finalmente, Adílio aproximou-se dela, sentando-se ao seu lado e passando um braço em volta dela. Laura balançou a cabeça e revirou os olhos, descrente. Eu não fiz nada. Fiquei de pé, olhando a cena sem saber o que pensar. 

Depois que Shirley se acalmou, ela aceitou o copo de água com açúcar que Adílio foi buscar na cozinha. Bebeu alguns golinhos, e começou:

-Jordana... eu menti para você sobre meus pais porque eu não queria que você soubesse que minha mãe tinha se casado com um velho doente. As pessoas julgam, sabe. Ninguém acredita que ela goste realmente dele. Por isso eu escondia de você. Porque você é uma menina de outra classe social, uma menina que eu queria ser... que eu... 

Ela hesitou, e tomou fôlego antes de completar:

-Invejo e admiro. Alguém que eu queria que pensasse só o melhor de mim. Eu... estraguei tudo, porém. E eu menti a vocês sobre a Diana porque eu tinha vergonha. Eu fui covarde. Eu não gostava dela. Pensava que ela tinha roubado meu pai. Nunca aceitei Santoro, achava que ele queria substituir meu pai, e se hoje eu e ele não temos um relacionamento de pai e filha, foi porque eu mesma não permiti. Ele é legal comigo, com a minha mãe... mas eu queria ir embora de casa. Não queria mais morar com ele e ter que sentir tanta vergonha o tempo todo. Eu sempre o enxerguei como um velho doente. 

Adílio declarou:

-Shirley, que bobagem! Isso é preconceito! 

Ela concordou:

-Eu sei, eu sei. E concordo. Mas sabe quando a gente leva uma coisa tão longe, que nem se a gente quisesse consertar, acha que não tem mais volta? (Ela me olhou) Comecei essa mentirinha, achando que ela não ia longe. Acho que nem que eu quisesse modificar as coisas lá em casa, eu já ofendi tanto minha mãe e o Santoro, que não tem mais jeito... por isso ela me mandou para a casa da minha tia para ficar uns dias por lá. 

Eu disse:

-Peça desculpas! É mais fácil do que você pensa, e pode sim, modificar uma porção de coisas. Mas agora me diga por que extorquiu seu pai verdadeiro!

Ela fez um muxoxo de desprezo, e o rosto dela mudou para uma expressão de puro ódio:

-Ele é um canalha. Teve o que mereceu. Com o dinheiro dele, eu poderia ganhar a minha independência. 

-Pois eu acho que você deveria devolver parte desse dinheiro à Doralice, esposa dele. Ela precisa mais do que você. Não terá como se manter assim que sair da clínica de reabilitação. 

Ela me olhou:

-Jordana, as coisas para você são sempre tão simples... você é tão honesta, tão certinha! Mas para mim, é tudo tão... eu não posso simplesmente dar este dinheiro a ela! Pedro me abandonou e à minha mãe por causa dela e de Diana! 

Laura berrou:

-Quando é que você vai perceber que ele não ama você, Shirley? Assim como ele não amava Diana, ou Doralice, ou Lígia? Ele é um canalha, e nesse caso, foi bem melhor que ele tivesse ido embora!

Shirley discordou:

-Não, você não sabe do que está falando. Pedro... – meu pai – era bom quando eu era criança. Ele e minha mãe eram felizes. A nossa vida começou a degringolar depois que ele passou a andar com aquela prostituta drogada da Doralice! Minha mãe sempre dizia isso. E se ela dizia, é porque era verdade. Depois... ele mudou.

Adílio tomou a palavra:

- Acho que ninguém muda tanto assim. Ele apenas se revelou. Ele já era um canalha. 

Concordei com ele. Shirley continuou:

- Gente, as mentiras que eu contei... que eu conto a todos... eu só estou tentando dar uma imagem melhor de mim mesma ao mundo, às pessoas de quem eu gosto. Não gosto quando me olham com pena, ou quando me julgam. Eu detestava, depois que meu pai foi preso, quando os vizinhos passavam por mim e diziam o quanto sentiam. O quanto seus olhares piedosos demoravam em mim... eu tinha vergonha, eu tinha nojo. Era uma história que eu quis apagar de minha vida. Mas hoje eu entendi que coisas assim são escritas à ferro quente na vida de alguém. Elas não desaparecem simplesmente. Eu só queria que vocês pudessem me perdoar.

Nós três nos entreolhamos novamente. Ninguém disse nada. Finalmente, eu respondi:

-Shirley... acho que eu preciso de um tempo.

E Adílio e Laura repetiram, quase em uníssono: 

-Eu também. 

Ela concordou com a cabeça, e passando por nós, pegou a bolsa que estava na cadeira. Escutei quando ela saiu e fechou a porta. Escutei os passos dela se afastando no caminho de pedra do jardim. Até sumirem. 

(continua...)





quinta-feira, 1 de junho de 2017

A MÃO & O LAÇO – Capítulo IX







Fiquei estarrecida ao ouvir aquilo. Shirley estava disposta a proteger um assassino – o assassino de sua própria irmã, mesmo que ela não a considerasse como tal – apenas por causa de dinheiro! É claro, nós tivemos uma briga feia. 

Ela acabou indo embora da praça, me deixando sozinha. Shirley saiu batendo o pé e chorando muito, e eu ainda fiquei ali, sentada no balanço, dando um tempo até conseguir me acalmar. Eu tinha apenas dezesseis anos, e achava que se contasse aquilo a um adulto, estaria traindo a minha amiga. Ao mesmo tempo, me sentiria péssima se não contasse, pois eu jamais mantivera segredos com minha mãe, e desde que conhecera Shirley, mantinha alguns; por exemplo, eu nunca contara a ela o que aconteceu na noite da minha festa de aniversário – que Shirley tinha transado com um garoto atrás do sofá de minha avó. Ou que ela fumava. Eu tentava me convencer de que manter segredos entre amigas era normal. Nem tudo se contava às mães, as meninas viviam dizendo nas conversas no pátio da escola. Mas eu aprendera que deveria confiar sempre em minha mãe, e que as coisas mais importantes que me acontecessem – até mesmo a minha primeira vez – deveria partilhar com ela. 
Mas aquele segredo não me dizia respeito... ou dizia? Será que eu me tornaria cúmplice de um crime, se não contasse tudo o que sabia à minha mãe? 

A chuva finalmente começou a cair – devagarinho no início. Fui caminhando de volta para casa sem saber o que diria, caso minha mãe percebesse que eu estava estranha.

Quando cheguei ao prédio, reencontrei Noel, o novo vizinho, tentando carregar um sofá de três lugares para dentro sozinho. A chuva já caía com força, e acabei ajudando-o, já que o porteiro do prédio não estava trabalhando naquele domingo. Ele me agradeceu. Quando colocamos o sofá no saguão, nós nos sentamos nele, molhados e arfantes, e rimos um para o outro. Perguntei pelos homens do caminhão de mudanças, e ele disse:

-Foram embora. Deixaram o sofá na calçada, pois queriam que eu pagasse mais pelo transporte até lá em cima, pois ele não cabe no elevador. Eu disse que só pagaria o combinado, e então, eles foram embora. 

-E o que você vai fazer agora?

Ele respirou fundo, secando as palmas das mãos na calça jeans:

-O jeito é esperar até segunda-feira e ver se o porteiro me dá uma forcinha. Ou então pagar o que eles querem.

Ficamos nos olhando por alguns instantes. A chuva lá fora estava bem forte e ruidosa, e já se formara uma enxurrada no meio-fio. Senti meu coração dar um salto, e meu rosto corar. Ele me deixava daquela maneira, como eu nunca tinha ficado antes, nem mesmo na noite em que dancei com Adílio e ele me beijou. Senti que a mesma coisa poderia estar acontecendo com ele, pois de repente, as maçãs do rosto dele também tingiram-se de vermelho. Ele deu um sorrisinho, baixando os olhos. O que ele disse em seguida me pegou de surpresa:

-Acho que eu posso gostar muito de você no futuro, e não me pergunte porque. 

Eu fiquei sem saber o que dizer, pois apesar de sentir a mesma coisa, não queria parecer precipitada. Ao invés de falar, eu ri, olhando para o chão onde as marcas molhadas dos nossos pés  ainda demorariam a secar. Comecei a sentir frio, e me arrepiei. Ele percebeu, e tirando o casaco de nylon que vestia, estendeu-o para mim. Instintivamente, sentei-me ereta, tirando as costas do encosto do sofá, e ele colocou o casaco em meus ombros bem devagar. Sentir ele tão perto de mim daquele jeito, me fez ter vontade de beijá-lo. Mas nós sequer nos conhecíamos! Eu queria dizer alguma coisa para não dar na pinta que eu estava tão constrangida, e acabei dizendo:

-Venha almoçar conosco hoje. Minha mãe vai fazer um empadão de palmito delicioso.


Ele demorou um pouco a responder, e eu fiquei embaraçada. Ora, com certeza um cara como ele tinha uma namorada em algum lugar, e os dois iam almoçar juntos no domingo. Quem sabe, ela já não estava lá em cima, esperando por ele? 

Mas ele aceitou meu convite, dizendo:

-Obrigada pelo convite. Antes, acho que preciso tomar um banho... acha que meu sofá ficará em segurança aqui?

-Com certeza! A portaria fica trancada, e apenas os moradores e seus convidados podem entrar. Vamos empurrá-lo um pouco mais para o canto... assim. Pronto! Agora... vamos subir? Acho que também preciso trocar de roupa...

Chamei o elevador, e entramos juntos. Seguimos os cinco andares sem dizer nada, apenas nos olhando, como se quiséssemos nos agarrar ali mesmo. o elevador parou, e antes de sair, ele perguntou:

-Que horas?

-Que horas o que?

-O almoço.

-À uma hora.

-Estarei lá.

Ele ficou um pouco parado à porta me olhando, antes de deixa-la fechar. Quando o elevador parou no meu andar, notei o que tinha feito: convidado um perfeito estranho para almoçar sem nem sequer pedir à minha mãe. Mas ela achou a ideia ótima, pois gostava de fazer novos amigos, e queria mesmo conhecer o novo vizinho. 

Entrei no meu quarto, e pude extravasar um pouco: recapitulei o que tinha acontecido entre mim e Shirley, as coisas que ela me contara. Eu nem conseguia imaginar o absurdo de tudo que ela passara na vida! Concluí que cada pessoa era uma incógnita, e que quando alguém julga outra pessoa, o faz sem conhecimento de causa. Decidi que não seria eu a julgá-la, mas que faria de tudo para ajudar minha amiga, nem que precisasse esconder algumas coisas de minha mãe. Peguei o celular e digitei uma mensagem para Shirley:

“Seu segredo está seguro comigo. Jamais te trairia, pois acredito em você.”

Minutos depois, ela respondeu: mandou-me uma carinha sorridente. Achei aquilo vazio e um pouco macabro, devido ao tom pesado da nossa conversa e a maneira como ela saíra, e engoli em seco, sentindo um calafrio sem razão. Ainda esperei um pouco para ver se ela digitaria mais alguma coisa, mas ela não o fez.

À uma da darde, a campainha tocou, e eu corri para abrir, saltando do sofá com uma determinação da qual me arrependi, então caminhei devagar até a porta para que minha mãe não notasse meu entusiasmo. Mas assim que abri, e ela colocou os olhos em Noel, tenho certeza, pelo olhar que ela me dirigiu, que ela percebera tudo. 
-Mãe, este é Noel; Noel, esta é minha mãe, Letícia. 

Noel cumprimentou minha mãe com um aperto de mão:

-Muito prazer, Letícia. Espero não estar incomodando. 

Minha mãe conduziu-o para dentro, fechando a porta e levando-o até o sofá. Quando ele estava de costas para nós, ela me olhou, erguendo as sobrancelhas significativamente, e respondeu:

-Você é bem vindo, Noel. Gosto de conhecer quem mora perto de mim. Sente-se, por favor. O almoço está quase pronto. Espero que goste de empadão de palmito.

-Adoro. Eu sou bom de garfo. Muito obrigada por me receber. 

Mamãe serviu-lhe um refrigerante, e pediu licença, dizendo que precisava ir até a cozinha. Ficamos sozinhos, e eu sentada bem em frente a ele, a mesinha de centro entre nós. Ele tomou um gole do refrigerante, colocando o copo sobre o descanso na mesa. Olhou em volta rapidamente:

-Lindo apartamento. Muito bem decorado também. 

Ele fixou o olhar em um relógio antigo na parede oposta, e de repente se levantou, caminhando até ele:

-É muito bonito!

-Foi dos meus tataravós. Estão na família há muito tempo. Nem sei como ainda funciona. Meu pai costumava lubrifica-lo sempre que podia... às vezes, nos domingos de manhã, antes de sair para jogar tênis. 

A lembrança repentina de meu pai deu um tom melancólico à minha voz, e ele percebeu. Eu evitava falar sobre papai, porque sabia que faria com que minha mãe se lembrasse dele, e que ela ficaria triste. Eu pensava muito nele, principalmente antes de dormir, e sempre dizia ‘boa noite’ para o teto antes de adormecer, na esperança de que ele pudesse me ouvir. Mas jamais falava nele. Noel virou-se para mim, estudando meu rosto:

-Seus pais são separados?

-Não. Meu pai faleceu há dois anos.

Meu olhar se dirigiu para a foto de meu pai, que estava sobre o aparador da lareira, e os olhos dele o seguiram. Ao deparar com a fotografia do meu pai, notei que Noel teve um lampejo de reconhecimento- provavelmente, porque ele já vira o rosto dele nos jornais e noticiários da TV na época do escândalo e do suicídio. Ele arregalou os olhos por um segundo, a boca entreaberta. Pensei que teria que dar alguma satisfação ou responder a perguntas que eu não queria responder, mas ele se recompôs, e após dizer: “Sinto muito”, não voltou a tocar no assunto. Fiquei aliviada. Mamãe entrou naquele instante, anunciando que o almoço estava servido na sala de jantar. 

Comemos, falando de coisas triviais. Descobri que Noel era também muito próximo de seus pais, tinha uma irmã mais velha, e que ele que adorava escalar montanhas e fazer trilhas em meio à natureza. Adorava música, e tocava piano e violão. Já tinha feito parte de uma banda quando adolescente, mas quando se formou, teve que largar a banda para estudar para o vestibular. Noel era uma pessoa de riso fácil, muito educado, encantador. Minha mãe gostou dele imediatamente, e os dois se deram muito bem. O pai possuía um escritório de advocacia e queria que trabalhassem juntos, o que Noel achava que acabaria acontecendo, mas senti um tom de relutância conformada em sua voz ao dizer aquilo, o que me levou a perguntar:

-E o que você realmente gostaria de fazer?

-A pergunta o pegou de surpresa, e ele me olhou, confuso:

-Hã... como assim?

-Você acaba de dizer que seu pai quer que trabalhem juntos; mas o que você quer?

Mamãe me olhou do outro lado da mesa, cerrando os lábios, e percebi que tinha ido longe demais, fazendo uma pergunta um tanto indiscreta. Fiquei envergonhada, e me desculpei, mas ele disse:

-Não, não precisa se desculpar. Você tem razão. O que eu queria mesmo, de verdade, é ser músico. Mas... meu pai tem razão quando diz que isso não garante o futuro de ninguém a não ser que se nasça ‘virado para a lua.’  Por isso decidi estudar Direito e trabalhar com meu pai. A decisão foi minha. Sabe, acho que nem sempre podemos escolher. 

Eu não concordava com ele; mesmo assim, fiquei calada. Já tinha causado alguns constrangimentos para uma primeira vez. 

Após o almoço, ajudamos mamãe a arrumar tudo; Noel ofereceu-se para enxugar a louça, enquanto mamãe lavou e eu guardei tudo. Percebi que estava realmente adorando aquela tarde com ele. Mais tarde, nos sentamos no sofá e tomamos café. Mamãe nos olhava em silêncio, enquanto falávamos sobre matérias da escola. De repente, ela nos cortou, perguntando a ele:

-Quantos anos você tem, Noel? Desculpe a pergunta, mas você me parece bem mais velho que Jordana. 

Ele respondeu, após uma breve pausa:

-É verdade... não sei quanto anos ela tem, mas eu também já fiz esta comparação. Bem, eu tenho 22 anos. E você, Jordana?

Fiquei com vontade de mentir minha idade, achando que, ao saber que eu tinha apenas 16 anos, ele perdesse o interesse por mim. Mas mamãe me olhava, testando minhas reações, e tive que dizer a verdade:

-Dezesseis.

Mamãe acrescentou:

-Recém-completados. 

Ele concordou com a cabeça. Me olhou de rabo de olho rapidamente, e corou. 

-Na verdade, achei que ela tinha dezoito. 

Meu coração murchou. Por que mamãe tinha que ter tocado naquele assunto, logo agora? Não poderia ter deixado que eu me sentisse feliz por mais tempo? Eu tinha certeza de que ele perdera totalmente o interesse por mim, quando mamãe acrescentou: 

-Eu e o pai de Jordana também tínhamos uma diferença de idade. Meu marido era doze anos mais velho que eu. Mas posso dizer, sem sombra de dúvida, que nós fomos muito felizes, a não ser no final...

A voz dela travou, e ela respirou profundamente, rindo e mudando de assunto: 

-Vou levar estas xícaras para a cozinha. Com licença! Fiquem à vontade.

Depois que ela saiu, ficamos em silêncio. Ele olhou o relógio de pulso. Eu pigarreei, tentando quebrar a distância entre nós. Achei melhor procurar por um assunto logo, antes que ele decidisse ir embora. Comecei a falar, mas ele também começou a falar ao mesmo tempo, o que nos fez rir. Ele pediu:

-Você primeiro.

-Não, fale você.

-As damas primeiro. 

Eu achei que o que eu ia dizer já não ia fazer nenhum sentido:

-Nada importante... ia falar de um filme, só isso. E você?

-Qual o filme? 

- Na verdade, menti. Queria perguntar a você por que está começando a faculdade mais tarde, mas isso não é da minha conta. Já fui bem indiscreta por hoje. 
-Sem problemas, eu respondo: acho que tentei investir na banda antes. Mas não deu certo. Eu... desisti. Não queria chegar aos 30 anos sem uma profissão, e achei melhor escutar meu pai. 

Balancei a cabeça, concordando com ele.

-Agora você. O que ia dizer?

-Na verdade, eu ia te convidar para ir ao cinema mais tarde. 

Minha alegria voltou, e eu respondi, sem conseguir esconder um pouquinho que fosse a minha alegria:

-Se a minha mãe concordar, eu quero, sim. 

“Se a minha mãe concordar” me soou infantil e inapropriado, e eu corei mais uma vez. Ele fingiu não perceber:

-Ótimo. Vou pedir a ela agora mesmo.

Eu não esperava por aquilo e não tive tempo de dizer nada, ficando sentada no sofá, boquiaberta, enquanto ele ia para a cozinha. Ouvi suas vozes, sem conseguir compreender o que diziam, e cinco minutos depois ele voltou, balançando os braços de maneira forçosamente infantil, um sorriso maroto nos lábios:

-Ela deixou. Te pego às nove?

Concordei com a cabeça. Ele me deu um beijo no rosto, disse que ia para casa dormir um pouco e que passaria para me pegar às nove. 

Eu deveria ter me erguido do sofá e levado Noel até a porta, como uma pessoa bem educada teria feito; deveria ter dito alguma coisa, mas não consegui. Ele saiu pela porta, fechando-a atrás de si. Minha mãe veio da cozinha, dirigindo-me um olhar maroto, e pegando a bolsa e passando direto por mim, anunciou:

-Vou sair, as meninas ligaram enquanto você estava fora e me convidaram para uma partida de Bridge. Tchau! Não chegue muito tarde. 

(continua...)



O JARDIM DAS DESILUSÕES – CAPÍTULO VI – FINAL

O funeral aconteceu em um dia especialmente frio no qual uma chuva fina e cortante era derramada em rajadas pelo vento. Os pais...