quinta-feira, 29 de setembro de 2016

FEITIÇOS DE AMOR – PARTE IX








Sexta-feira: o último dia de aula foi como sempre: camisas assinadas à caneta, cabelos cheios de talco, despedidas e saudades antecipadas – embora morássemos todos na mesma cidadezinha. Alguns combinaram de se encontrar durante as férias, mas todo mundo sabia que com o término da escola, estaríamos ocupados com decisões mais sérias, como vestibular e a escolha do curso da faculdade. A maioria iria cursá-la em outras cidades, pois a nossa só oferecia dois cursos: agronomia e biologia. Outros começariam a trabalhar imediatamente, levando em frente os negócios de suas famílias. Escolhas que não eram escolhas. 

Flora ainda tinha mais um ano pela frente, e estava mais tranquila, mas eu e Dora começávamos a pensar no futuro que estava por vir, e que já batia às nossas portas. Eu ainda não tinha ideia do que gostaria de fazer, e nem os testes vocacionais tinham feito surgir alguma luz. Dora pensava mesmo em ser cantora, e quem sabe, se tudo desse errado, cursaria faculdade de música em São Paulo.
De qualquer maneira, acabaríamos nos afastando, e aquela certeza me deixava muito melancólica. Eu achava que tiraria um ano sabático antes de começar a pensar em profissões. Poderia trabalhar na loja de papai e Tio Nestor, ajudando-os no que fosse preciso.

No sábado de manhã, acordei com os gritos histéricos de uma mulher:

-Mas você precisa me ajudar, Agnes! Não consigo viver sem meu marido! Você precisa me ajudar a trazê-lo de volta!

Quando me levantei, ainda de camisola, a fim de ver o que estava acontecendo, encontrei Tia Maya e Flora já de pé no corredor, olhando para baixo de maneira que não pudessem ser vistas. Juntei-me a elas, e vi mamãe e papai tentando acalmar Dona Fernanda, uma vizinha nossa cujo marido a deixara por outra mulher há alguns dias. Corria solta na vizinhança a história de que ele mantinha um caso com outra mulher há alguns anos. Ninguém dava muito por ele, que era mulherengo e não gostava muito de trabalhar, a não ser a pobre Dona Fernanda, que cismava em fingir que não via as sandices do marido.

-Acalme-se, Fernanda. Ainda são seis da manhã de sábado, vai acordar Vó Duda – disse papai, a voz quase sussurrante.

Mas quanto mais eles tentavam acalmá-la, mais ela chorava e erguia a voz. Finalmente, escutamos a porta do quarto de vó Duda se abrindo, e ela apareceu, embrulhada em seu penhoar azul-claro. 

-O que está acontecendo aí?

Tia Maya encolheu os ombros, pois não conhecia nossa vizinha e não podia responder à pergunta de vó Duda, mas Flora respondeu:

-É a Dona Fernanda. Quer que mamãe faça um feitiço para trazer o marido dela de volta.

Vó Duda deu uma espiada, coçando o queixo, e começou a descer as escadas. Chegando lá em baixo, mandou que papai fosse fazer um chá para acalmar a mulher, e fez com que ela se sentasse entre mamãe e ela. Segurando suas mãos, vó Duda disse:

-Cara Fernanda, todo mundo já sabia que isso poderia acontecer de uma hora para outra, e sua irmã tentou avisá-la, mas você não quis ouvir! Mas saiba que Deus a livrou de um grande canalha, e não vale  a pena chorar por ele.

Mamãe protestou;

-Mãe! Que falta de sensibilidade!

Vó Duda disse:

-Ora, todo mundo sabe que foi um livramento para ela, Agnes, e ela precisa enxergar a verdade. Para quê trazê-lo de volta?

Dona Fernanda exclamou:

-Robério sempre foi ótimo marido, até ficar de cabeça virada por aquela uma, Vó Duda, e ela fez feitiço para isso. Sei, porque a Clotilde mesmo me disse que viu ela entrando lá na casa da Sônia cartomante. E todo mundo sabe o tipo de trabalho de magia negra que ela executa. Meu marido é uma vítima, Vó Duda!

Naquele momento, papai entregou a ela uma xícara de chá. Sem saber mais o que fazer, ele pediu licença e começou a subir as escadas. Deparou conosco lá, escutando escondido, e riu:

-Sabiam que é feio escutar a conversa alheia?

Flora exclamou:

-Sinto muito pai, mas esta está divertida.

Ele ralhou:

-Não se ri dos problemas alheios, filha! Lembre-se que poderia estar acontecendo a você!

Tia Maya e papai se entreolharam, e só mesmo um idiota não perceberia a eletricidade que circulou entre eles. Os olhos dos dois brilhavam. Ele passou por nós de cabeça baixa, indo para o quarto e fechando a porta. Lá em baixo, Vó Duda fazia com que Dona Fernanda bebesse o chá, dizendo palavras mais tranquilizadoras:

-Escute, filha... ouça o que eu tenho a dizer. Não foi feitiço algum que levou seu marido. Ele se foi porque é um canalha mesmo. 

-Mas mesmo assim, foi comigo que ele se casou! Temos quatro crianças, Vó Duda, e elas precisam do pai por perto. Elas amam o pai! 

Mamãe interferiu:

-OK; vamos fazer o seguinte: farei o feitiço, mas com uma condição: ele voltará para você se tiver sido vítima de trabalho feito, e caso não tenha sido, continuará com ela. Está bem assim? 

Finalmente, a mulher pareceu acalmar-se:

-E em quanto tempo ele poderá estar de volta?

-Vamos lá para dentro; vamos aproveitar que ainda estou em jejum, e farei o feitiço agora mesmo. Se tudo for como você acha, ele estará de volta amanhã de manhã. Preciso de uma foto dele, ou de uma peça de roupa.

Dona Fernanda puxou um par de meias do bolso da saia, entregando-o à mamãe. As duas foram entrando na sala de consultas de mamãe, e Vó Duda foi para a cozinha, levando a xícara vazia. Fiquei pensando no quanto mamãe usava a psicologia a fim de convencer suas clientes, pois quer o marido voltasse, quer não, a mulher ficaria satisfeita. Mas Flora comentou, corando de autoconfiança:

-Viram só? Os feitiços de amor podem funcionar sim! E mamãe já até me ensinou a fazer um.

Tia Maya ficou totalmente sem-graça, e eu quase pulei no pescoço de minha irmã devido à sua falta de sensibilidade, mas ela imediatamente deu-se conta de sua indiscrição, desculpando-se com Tia Maya. Flora era sempre assim: dizia o que vinha à cabeça, sem pensar muito. Tentei-a:

-Se feitiços funcionassem realmente, por que ninguém faz um para curar a vó Duda? Já que vocês são tão poderosas...

E entrei no meu quarto, batendo a porta.


. . . . . .


Às dez da manhã de uma manhã de sábado, meu telefone tocou; era Dora:

-Pode vir até aqui um instante, Eleanor?

Tomei café da manhã na cozinha (a família já tinha tomado café, e é claro, Vó Duda me intimidou com sua frase clássica: “Você perdeu o café da manhã!”) e fui direto para a casa de Dora, achando que Fred poderia estar lá. Mas encontrei-a sozinha em seu quarto, e Tia Joana me mandou subir, dizendo que ela me esperava.

Achei minha prima um pouco triste:

-Eu queria te lembrar que nós vamos viajar amanhã de manhã.

Achei que ela deveria estar dando pulos de alegria; afinal, era por aquilo que ela tanto lutara. Tentei encorajá-la:

-Legal, prima! Te desejo a melhor sorte do mundo. Eu gostaria muito de ir também, mas não me deixaram.

-Eu sei.

Fiquei vermelha até as raízes do cabelo quando ela me olhou, e disse:

-Sei também o motivo. Não querem que você vá por causa do Fred, não é?

Gaguejei:

-Talvez... a... a mamãe me disse que você e ele... que vocês... eu não quero...

Criei coragem de perguntar o que queria, firmando a voz, que saiu de supetão:

-Vocês estão juntos?

Ela ficou me olhando durante um longo tempo, e o olhar que nós estávamos trocando me fez entender tudo. Eles se apaixonaram, e ela só estava esperando o meu consentimento. Mas apesar de querer muito, eu não conseguia dizer a ela o que ela gostaria de ouvir. Senti as lágrimas ardendo no meu rosto, escorrendo até o queixo como se fosse um rio de lavas. Eu estava me sentindo humilhada e inferior a ela. Dora conseguira ser livre pela primeira vez, e  ela não precisava mais de mim. 

Percebi que o tempo todo, tinha sido eu quem mais precisara dela. Na verdade, a insegura era eu.
Ela se levantou, e me abraçou de modo desajeitado. Deixei-me ser abraçada, mas meu corpo retesou-se, contraindo-se em um espasmo doloroso. Não conseguia abraça-la de volta, e ela estava magoada. Eu queria parar de chorar e dizer a ela que estava tudo bem; ou que estava tudo mal. Queria olhar minha amiga nos olhos, despedir-me e desejar a ela boa sorte. Mas tudo o que consegui dizer, foi:

-Ele sabe? Que eu estou apaixonada por ele?

-Sabe.

Aquela era a coroação da minha humilhação total: Fred sabia que eu gostava dele, e não gostava de mim da mesma forma. A menina mais popular, mais bonita, mais esperta e encantadora, perdera. E perdera para a gordinha tímida e não muito bonita. Antes tivesse sido para a Magda, a garota mais bonita e popular da escola. Teria doido bem menos. Mas não: tinha que ter sido para a minha própria prima e amiga de infância!

Limpei as lágrimas com a manga da camisa, e funguei. Olhei para ela rapidamente, acenando com a cabeça um ‘sim’ que eu esperava que dispensasse qualquer oura palavra, e saí do quarto. Ainda no corredor, escutei Dora chorando. 

Desci as escadas correndo, passei por Tia Joana e Tio Nestor, que me olharam, atônitos, e ganhei a rua. Quase derrubei Fred que estava entrando, quando cheguei ao portão da casa. Ele me segurou:
-O que está acontecendo, Eleanor? Por que você está chorando?

Eu não conseguia falar, eu não conseguia olhar para ele. Eu o amava, e eu o odiava ao mesmo tempo. Parece que para os adolescentes, não existem meios termos no que diz respeito a sentimentos: todos são intensos, mortais, definitivos.

Ele me abraçou, talvez porque pensou que era daquilo que eu precisava naquele momento. Eu me deixei ser abraçada, e abracei-o de volta, deslizando as mãos pela primeira e última vez naquelas costas que eu tanto desejava, e encostando meu rosto no pescoço dele, aspirei seu cheiro, senti o toque da pele que eu não deveria tocar nunca mais, e fechando mais ainda os olhos, senti os dedos dele acariciando as minhas costas. Foi um momento doce, quente, feliz, triste, alegre, terrível... foi tudo ao mesmo tempo. Como se aquilo fosse fazer com que ele gostasse de mim, deixei que algumas lágrimas molhassem a gola da camisa xadrez que ele estava usando. Era o meu feitiço de amor. 
Eu queria que aquele momento ficasse marcado para sempre em minha pele, em minha alma, em minha memória, pois ele redefinia toda a minha vida. Pela primeira vez, eu sabia o que significava amar alguém. Logo eu, que sempre zombava dos que se apaixonavam, e dizia com orgulho que tal coisa nunca me aconteceria, saindo com vários meninos diferentes, fazendo com que se apaixonassem por mim e não me apaixonando nunca por nenhum deles.

Fred representava um marco em minha vida: meu primeiro amor. Eu queria guardar aquele momento em uma caixinha bem fechada, para que pudesse revivê-lo muitas e muitas vezes. Sabia que dali a alguns anos, eu me lembraria de tudo com menos intensidade, e não doeria tanto, e seria bonito reviver. 

E então, para quebrar a mágica, olhei por cima do ombro dele, para a casa de Dora, e a vi por trás da vidraça, nos observando. Abracei-o  com ainda mais força, e depois, saí correndo, deixando-o parado ao portão. 






segunda-feira, 26 de setembro de 2016

FEITIÇOS DE AMOR - CAPÍTULO VIII








FEITIÇO DE AMOR – PARTE VIII

Na segunda-feira fomos todas à escola, como sempre: Dora, Flora e eu. Tentei ser mais gentil com minha prima, pois afinal de contas, queria impressionar Fred, e se quisesse ficar por perto quando eles estivessem ensaiando, teria que me dar bem com ela. Flora, que já tinha percebido meu interesse pelo rapaz, dissera-me no domingo à noite que estava boquiaberta com meu sangue frio e poder de manipulação – um lado meu que ela não conhecia. Quase brigamos, pois não conseguia ver a mim mesma daquela forma, mas achei melhor não complicar ainda mais as coisas, e fomos dormir.

Tia Maya e mamãe estavam mais amigáveis. Eu nunca vira minha mãe aparecer sempre tão bem arrumada em casa. Tinha certeza de que ela estava tentando superar Tia Maya. 

Na volta da escola, eu pensava no ano letivo eu estava terminando. Mais duas semanas, e Dora partiria para  a audição junto com Fred. Os dois juntos. Eu faria de tudo para ir também. Já tinha conversado com Tia Joana e Tio Nestor, tentando convencê-los a me levar. Disse que gostaria de estar perto de Dora em um momento tão importante, mas os dois se entreolharam e disseram que iam ver o que poderiam fazer. Achei que não tinha conseguido convencê-los, afinal. 

Mamãe continuava recebendo alguns de seus – clientes? Pacientes? – para algumas consultas e sessões de meditação. A vida seguia quase normalmente, e nada de muito diferente aconteceu durante aquela semana. 

Papai trabalhava na loja o dia todo, só voltando para casa na hora do jantar. Ele, que sempre almoçara em casa, passou a comer em um restaurante na cidade. Eu tinha certeza que era para evitar Tia Maya, e achei que aquele não era um bom sinal, pois se os dois não sentissem mais nada um pelo outro, tal comportamento seria desnecessário. Flora e Dora achavam a mesma coisa. Mamãe fazia de tudo para agradá-lo, cozinhando seus pratos prediletos no jantar e andando cada vez mais bonita e bem-arrumada. Derramava-se em gentilezas, ignorando a presença de Tia Maya, tentando não demonstrar o ciúme que todos sabíamos que a roía por dentro. Tia Maya seguia a vida, cuidando de Vó Duda o tempo todo. As duas passavam muitas horas juntas no quarto de minha avó, ou sentadas na varanda da casa recordando os velhos tempos, muitas vezes, acompanhadas de Tia Joana. Mamãe cuidava de suas aulas de meditação, da casa e de si mesma. 

Eu estava me apaixonando cada vez mais por Fred, que passou a frequentar a casa de Dora diariamente. Os dois ficavam algumas horas ensaiando as canções que pretendiam apresentar juntos. Os arranjos que ele preparava eram delicados, condizentes com a voz cristalina de minha prima, e o violão e o piano pareciam nascer de dentro de um mesmo coração quando eles tocavam juntos. 
Na escola, todo mundo já estava sabendo da participação de Dora no programa, e ela era um tipo de celebridade. Aquilo me incomodava um pouco, pois pela primeira vez, ela estava aparecendo mais do que eu. Na hora do intervalo, alunos e alguns professores se juntavam em volta dela, pedindo que tocasse alguma coisa. Eu ficava entre eles, olhando, sentindo um misto de orgulho e de medo, amor e despeito. 

Ao final daquela semana, que fora mais tranquila em todos os aspectos, Vó Duda sentiu-se mal e precisou ser internada às pressas. Aquilo foi demais para mim. Aquela casa sem ela passou a ser, pela primeira vez, uma coisa concreta e ameaçadora. A realidade dolorida de sua ausência era algo com o qual eu não tinha conseguido assimilar. Flora parecia mais conformada, pois ela acreditava na vida após a morte e nas coisas que mamãe dizia sobre a alma, a existência extracorpórea e a vida que continuava além deste mundo. Ela e mamãe acreditavam em coisas como reencarnação, carma, vidas passadas. Conceitos que para mim não faziam muito sentido. Mamãe acreditava em magia. Flora estava ficando exatamente como ela, e já sabia preparar algumas ‘poções’ mágicas para combater resfriados, dores de garganta, cólicas, acne e outras coisas. Eu não sabia se acreditava naquelas coisas. 

Dora era a mais forte. Após uma noite no hospital com vovó, Tia Maya pediu que alguém a substituísse, e Dora imediatamente se ofereceu. Ficou duas noites com vó Duda. Logo em seguida, mamãe a substituiu, e depois, Tia Joana. Eu estava ansiosa, pois temia que me pedissem para ficar no hospital durante a noite – eu tinha pavor dos corredores imensos, longos e vazios do hospital. Tudo cheirava a morte e solidão. Eu definitivamente não sabia lidar com aquelas coisas.

Felizmente, ao final daqueles cinco dias e cinco noites, Vó Duda recebeu altas e voltou para casa. Parecia bem mais fraca, mas mesmo assim, ainda andava pela casa toda dando suas ordens. E ninguém se atrevia a contestá-la. 

Durante a estadia de Vó Duda no hospital, eu e mamãe tivemos uma conversa estranha. Eu estava em meu quarto fingindo que estudava para a prova final de inglês quando ela bateu. Abri o livro e mandei-a entrar. Mamãe já tinha notado a minha dificuldade em lidar com o que estava acontecendo. 

Ela sabia que eu não era forte como Flora e Dora. E que eu não sabia como falar sobre a morte, como começar a aceitar aquilo tudo. 

Ela entrou, sentando-se na beirada da cama, e pegando meu livro, fechou-o. obrigou-me a olhar para ela:

-Filha... você quer conversar?

Endureci o rosto:

-Não, mãe. Eu estou bem!

Ela balançou a cabeça, apertando os olhos, alisando a colcha, como quem procura as palavras certas para dizer.

-Notei que você e eu estamos um tanto distantes. É por causa do que você ficou sabendo sobre o meu passado?

-Não, mãe. Eu não a julgo. Todo mundo erra.

-Sim. E é por isso que eu estou aqui. tenho medo do que eu estou vendo, Eleanor. Temo que você esteja pronta a cometer o mesmo erro que eu. Quero dizer, quanto à sua prima Dora e... Fred.

Permaneci calada, brincando com a tampa da caneta.

-Joana veio me perguntar o que eu acho de você acompanhá-los na viagem, junto com Dora. E eu disse que não vou deixá-la ir.

Meu coração deu um pulo:
-Mãe! Como você pôde fazer isso? Sabe o quanto eu desejo ir!

-Sim, e também o porquê. Filha, Dora está apaixonada pelo Fred. Joana me disse. Ela está totalmente, completamente apaixonada por ele.


Eu ri, meu riso mais sarcástico:

-Ah, mas o que isso tem a ver? A senhora deixou de amar meu pai quando o conheceu, só porque ele estava com Tia Maya?

Ela me fuzilou com os olhos:

-E então, você não tinha dito há apenas alguns minutos que não me julgava? Só porque quer cometer o mesmo erro que eu cometi? Ainda não te contei o resto da história, Eleanor! Joana acha que Fred também está se apaixonando por Dora.

Aquilo me exasperou:

-E como ela pode saber? Eu sei que ele é o cara certo para mim, mãe! Se Dora está apaixonada pelo Fred, pronto: eu também estou! E ele tem o direito de escolher entre nós duas! E eu sei muito bem que eu tenho chances, pois ele me olha... ele me olha de um jeito... diferente... eu sei, mãe!

-Talvez ele esteja confuso. Mas você se arriscaria a perder a amizade de Dora por causa de um menino que amanhã pode ir embora?

-Ora, e ela está preocupada em não se envolver com ele por causa de mim? Parece que não!
Mamãe afastou uma mecha do meu cabelo, acariciando meu queixo:
-É aí que você se engana, filha. Joana me disse que ela ainda não ficou com o Fred por causa de você. 

Por aquilo eu não esperava, e fiquei sem reação. Mamãe respirou fundo, e me dando um beijo na testa, levantou-se, dizendo:

-Pense nisso, querida.

E saiu do quarto.  Logo em seguida, comecei a me sentir sufocada, e saí também. Fui para o quintal dos fundos, e sentei-me no meu velho balanço de infância.  Papai o tinha construído, um para mim e outro para Flora. Eu costumava ir para aquele lugar, bem junto à floresta, sempre que queria pensar. E eu estava tão envolvida por meus pensamentos que não notei Tia Maya chegando por trás de mim. Ela chamou meu nome, e eu estremeci. Naquelas quase três semanas, nunca tinha ficado à sós com ela. Tia Maya se aproximou devagar, sentando-se no balanço ao lado do meu.

-Estamos todos preocupados com você, Eleanor.

-É, parece que de repente a minha vida virou problema de todo mudo.

Ela pareceu magoada, pois eu colocara uma boa dose de fúria em meu tom de voz.

-Esse tom agressivo me fez lembrar a sua mãe quando tinha a sua idade.

Pensei melhor: por que eu não gostaria de Tia Maya? Afinal, que culpa ela tinha de tudo o que acontecera? Minha mãe tinha tomado o homem da vida dela! Olhei para ela pela primeira vez, quero dizer, olhei de verdade. E o que eu vi, foi algo bem diferente da mulher destruidora de lares que eu tinha em mente. Eu vi uma mulher linda, e muito sofrida. Alguém que abriu mão de tudo o que mais quis na vida para que a família não fosse destruída. Uma mulher que perdera até mesmo o filho do amor de sua vida. E que era o tempo todo julgada por isso.

A pergunta que eu tanto queria fazer desde o início aflorou em meus lábios:

-Tia... por que você não lutou pelo amor da sua vida?

Vi que lágrimas vieram aos seus olhos, mas ela conseguiu disfarça-las com um sorriso triste. Parecia para mim que ela estava pensando no que iria – ou no que poderia – me dizer. E que talvez ela nunca tivesse respondido àquela pergunta antes. Finalmente, a voz de Tia Maya saiu como um pedacinho de vidro quebrado:

-Não lutei porque eu amava Agnes. Eu amava Vó Duda e Vô Sérgio, e queria mostrar gratidão por eles terem me recebido em sua família. Eu não queria causar nenhum conflito. Na verdade, eu achei que um dia eu poderia ser feliz de outra forma, com outra pessoa...

-E não conseguiu, não é?

Ela negou com a cabeça, os olhos baixos. 

-Eu não entendo... Vó Duda sempre disse que a amava da mesma forma que amou Tia Joana e mamãe. Disse que a mandou para longe para defende-la de mamãe. Mas... sabe, tia Maya, eu não acredito nisso.

-Nem eu, querida. Depois que eu tive um filho, eu entendi que é impossível amar a outra pessoa da mesma forma que se ama a um filho. Sua avó quis defender sua verdadeira filha, e ajudá-la a ser feliz. Eu não era, nunca fui e jamais serei amada por ela da mesma forma.

Eu senti pena dela.

-E mesmo assim, você voltou só porque ela pediu? Por que?

-Porque eu sei que ela me ama da maneira dela. E precisa de mim aqui. E eu farei por ela o que eu puder, pois nem mesmo assim, poderei compensar o que ela deu para mim: uma família. E porque... Joana e Agnes também precisam de mim.

Eu fiquei pensando naquilo durante algum tempo. Trovões ribombaram ao longe. O vento fez o vestido dela produzir um farfalhar gostoso, e pela primeira vez, gostei realmente de Tia Maya. A presença dela me agradava, e eu sabia que ficaria triste quando ela fosse embora.

-Tia... pelo menos a sua parte na herança você vai reclamar, não é?

-Não... eu não preciso. Meu primeiro marido me dá uma ótima pensão, e minha firma de construção é um trabalho rendoso. 

Fiquei boquiaberta:
-Mas... a casa, a loja, até a casa de tia Joana e Tio Nestor... sei que Vó Duda tem muito dinheiro aplicado... tudo também lhe pertence!

-Não quero nada, Eleanor. 

-Mas...

-Não quero nada, a não ser estabelecer a paz entre nós novamente. Poder saber que vocês estão aqui, que eu posso visita-los e dizer a qualquer um que eu tenho uma família. 

Eu me levantei do balanço, e caminhando até ela,  a abracei. Eu não tinha muitos gestos de carinho em relação a ninguém, mas Tia Maya era especial, e eu senti vontade de dar a ela aquele presente. 
-Tia... saiba que em mim você sempre terá uma família. E tenho certeza que em Flora, Dora, Tia Joana e Tio Nestor, papai... e até em mamãe. E também nos nossos cachorrinhos, que parecem que já se apaixonaram por você. também, você leva eles para passear todos os dias... 

Ela riu:

-É verdade, eu adoro animais, mas moro em um apartamento e não posso tê-los, pois passo muitas horas fora de casa trabalhando. Mas levarei saudades deles quando eu me for. E de vocês.

Abracei-a novamente, querendo que aquele momento jamais chegasse: o momento em que Vó Duda morreria, e Tia Maya iria embora. 





segunda-feira, 19 de setembro de 2016

FEITIÇOS DE AMOR – CAPÍTULO VII







Na manhã de domingo, antes mesmo que todos se levantassem, acordei com o som da TV no quarto de Flora. Vesti meu roupão e fui até lá, pois queria saber o que tinha acontecido no dia anterior, quando eu estava fora, que poderia ter levado papai a sair de casa sem sequer despedir-se de mim. Encontrei Flora entretida com um filme de terror. Ela nem ergueu os olhos da telinha quando entrei e me esparramei na cama ao lado dela. Olhei o relógio na cabeceira: ainda eram seis e quinze da manhã, e as cortinas ainda estavam fechadas, mas uma luz pálida já atravessava as frestas quando a brisa da manhã, fresca e cheirando a chuva, soprava.

Na tela, uma estranha e medonha criatura perseguia um grupo de adolescentes em uma casa velha, no meio de uma floresta. Flora não gostava daquele tipo de filme, e estranhei que ela o estivesse assistindo. Aproveitei um intervalo para tocar no assunto:

-O que aconteceu ontem quando me ausentei?

Ela bocejou, espreguiçando-se:

-Uma cena de ciúmes, só porque após o jantar papai e Maya foram levar as coisas da mesa até a cozinha e demoraram um pouco a voltar, e mamãe foi atrás deles, e achou os dois de papo perto da pia. Ela fez uma cena tremenda de ciúmes, gritou, esbravejou, tia Maya disse que ia embora, mas Vó Duda a impediu, e então papai achou melhor que ele saísse para evitar novas cenas como aquela. Mas fique tranquila, eles não se separaram nem nada... é temporário, só enquanto a Tia Maya estiver aqui.

-Pois eu acho isso péssimo! Mamãe poderia demonstrar um pouco mais de amor próprio. Achei óbvio demais o modo como ela apareceu toda embonecada ontem. Deixou claro que estava com ciúmes, e deu poderes à Tia Maya. E não sei porque Tia Maya tem que ficar logo aqui, poderia ficar com a Tia Joana e o Tio Nestor. 

-Mas é Vó Duda quem insiste, pois quer que as duas façam as pazes. Ela disse isso ontem. As duas precisam se entender antes que vó Duda... você sabe.

Cortei-a de modo grosseiro:

-Morra. Por que todo mundo tem medo desta palavra? Por falar em morte, acho egoísta a maneira como mamãe está se comportando, brigando à toa na frente da vó, sabendo o quanto ela está doente. 
Poderiam ao menos fingir um pouco.

-Concordo... mas onde você estava ontem, durante todo aquele tempo?

-Lá na beira do rio, pensando na vida.
Ela riu:

-Nossa... você soa como quem tem trinta anos. Agora cale a boca, o filme começou.

Levantei-me da cama em um salto, e voltei para o meu quarto a tempo de ver o celular piscar. Uma mensagem de voz de papai:

-Oi, querida. Estou no Hotel Narciso, se quiser falar comigo. Não se preocupe, está tudo bem comigo e sua mãe, é que eu só quis evitar mais cenas na frente de Vó Duda. Ela ficou bem mal ontem. E por favor, não julgue sua mãe. Não nos julgue. Em breve tudo isso será apenas um pesadelo distante. Se precisar, venha aqui ou então me ligue. Beijos.

A última frase soara um tanto forçada. Se estivesse tudo bem entre eles, ele não teria ido para um hotel. Eu sabia que uma grande ameaça pairava sobre a nossa família, com a chegada de Tia Maya, a doença de vó Duda, os segredos revelados e a partida de Dora. Nada mais seria como antes, o que me assustava. Eu estava acostumada à nossa vida certinha e previsível, e apesar de dizer muitas vezes que gostaria de um pouco mais de ação, na verdade o que eu queria é segurança. Um dia, papai me dissera que segurança é uma palavra vazia de sentidos, pois nada na vida pode ser calculadamente previsto e determinado, pois a vida era sempre cheia de surpresas. Concordei com ele, mas achando que tais surpresas nunca diriam respeito à nossa família. 

Mais ou menos às sete e trinta, escutei o movimento da casa começando: portas batendo e rangendo, barulhos de chuveiro, tilintar de xícaras e talheres na cozinha. Meu estômago roncou, me lembrando de que fazia quase um dia desde a última vez que eu comera. Tomei uma ducha e desci, a fim de resolver pelo menos aquele problema. 

Encontrei Tia Joana na cozinha, pondo a mesa, ajudada por Tio Nestor. Eles me olharam de maneira estranha quando entrei, e vi que Tio Nestor me cumprimentou entre os dentes, e Tia Joana mal me olhou. Sentei-me à mesa:

-Bom dia, gente.

Ambos responderam ao mesmo tempo, as vozes baixas. Tia Joana terminou de coar o café, e sentou-se na minha frente:

-Eleanor... preciso perguntar o que está acontecendo entre você e Dora. Sempre foram tão amigas!

Fingi inocência, e comecei a brincar coma  colher dentro da xícara:

-Não sei do que você está falando, tia. 

-Não se faça de boba. Sei que você está vivendo momentos difíceis, mas isso não é motivo para destratar minha filha. O que houve?

Eu pigarreei, tentando evitar aquela conversa – que com certeza, teria que acontecer. Olhei de rabo de olho, e vi Tio Nestor me olhando fixamente, com um ar entre zangado e magoado. Ele disse:

-Nunca vi vocês assim, tão afastadas, e tudo começou quando você ficou sabendo que Dora foi aceita no programa de TV. 

Eu não respondi. Nervosa, senti a garganta apertar e doer. Se falasse, choraria, então apertei a colher com força entre os dedos e evitei olhar para eles. Tia Joana falou:

-Eleanor... esta será a primeira vez que você e Dora ficarão separadas. Talvez seja isso? Você está com medo de perder sua amiga?

Concordei com a cabeça, sabendo que ela estava certa, mas havia algo mais que eu não queria admitir: a inveja e o ciúme. O medo de ficar sozinha naquela cidadezinha enquanto acompanhava a carreira de Dora pela TV e pelas revistas. O pavor de ver minha prima gordinha alcançar um sucesso que pertencia, ao meu ver, às pessoas bonitas e populares como eu. A frustração por não ter nenhum talento especial que me diferenciasse da maioria das pessoas. Eu queria ser especial como ela, saber cantar e tocar um instrumento, compor e escrever poemas. Mas apesar de já ter secretamente tentado, eu era um fracasso. Minha voz desafinava, e quando pegava num lápis ou me sentava ao computador, só saiam coisas ridículas e desconexas, sem sentido, ridículas mesmo. Eu me sentia ridícula diante de Dora, e por isso, fingia que eu era superior e fazia com que ela andasse sempre à minha sombra, manipulando-a de todas as formas e deixando-a sempre à mercê de minhas escolhas. E queria acreditar que era assim: eu era a prima e amiga legal que ajudava a outra amiga a sentir-se alguém, e sem mim, ela não seria nada. 

Gostava de pensar que a minha amizade era um presente que ela deveria valorizar e jamais desprezar ou contestar, sob o risco de perde-la. Tia Joana suspirou:

-Menina, vocês estão crescendo. A vida não pode ficar sendo sempre a mesma coisa, sabe? As pessoas mudam, as coisas mudam. Mas mesmo assim, tais mudanças podem ser muito boas! Tenho certeza de que a amizade de vocês pode ser para sempre. Acredite em mim, Dora está sofrendo com a sua atitude. Ela esperava mais apoio de sua parte. Ela esperava que você a elogiasse, dissesse que acredita nela e que a apoia. É isso que os amigos de verdade fazem.

Dizendo aquilo, ela começou a colocar os pães e o bolo sobre a mesa. 

Tia Maya apareceu à porta, usando uma camisola preta longa sob um penhoar rendado. Os cabelos pretos estavam presos em um coque meio-desmanchado, e ela estava sem maquiagem, embora deslumbrante. Espreguiçando-se e beijando Tia Joana no rosto, exclamou:

-Nossa! Que cheirinho bom! – e me olhando: - Bom dia, Eleanor. Bom dia a todos.

Eu não respondi, mas fiquei olhando para ela de rabo de olho. Meus sentimentos a respeito de Tia Maya eram confusos, e eu não sabia como reagir a ela. Tio Nestor serviu-se de um gole de café que ele colocou em um copinho que estava sobre a pia, e pegando uma fatia de bolo, começou a comer de pé, junto à pia, e de boca cheia, disse:

-Vou indo. Bom dia pra quem fica. Tenho que abrir a loja.

Eu disse:

-Mas hoje é domingo!

Ele concordou:

-Eu sei. Mas um fornecedor fará uma entrega hoje cedo e tenho que estar lá. Mas volto para o almoço, que hoje vai ser lá em casa, Ok, Maya? Em homenagem à sua chegada.

Ela concordou, sorrindo:

-OK! Obrigada, Nestor! Vocês estão sendo uns anjos para mim. Espero conseguir dobrar Agnes... queria tanto que ela me aceitasse!

Achei a voz dela um tanto afetada. Tio Nestor saiu.  Naquele momento, mamãe entrou, já vestida e – surpresa – maquiada.

-Bom dia, gente.

Ela sentou-se e começou a tomar o café, servindo-se de uma grossa fatia de bolo. Logo, Vó Duda entrou na cozinha, usando um vestido cinza com pala bordada de preto. Eu adorava aquele bordado, feito à mão por ela mesma. Eram umas rosas de formato intrincado, que pareciam mover-se ao sabor do vento. Só ela conseguia dar movimento a um simples bordado. Flora chegou em seguida, beijando a todos – inclusive Tia Maya. Estávamos todos comendo em silêncio, quando a porta dos fundos abriu e papai entrou:

-Bom dia!

Ele também sentou-se à mesa conosco. Mamãe corou ao vê-lo, e eu notei que ele evitava olhar para Tia Maya – talvez com medo de começar outra cena. Vó Duda, com sua impecável e habitual sinceridade, cortou o silêncio:

-Bem... afinal, a família está reunida novamente. E espero que desta vez, sem nenhuma palhaçada como a de ontem (ela fuzilou minha mãe com os olhos, e mamãe corou novamente). Agora acho que já passou da hora de colocarmos os pingos nos ‘is.’ Eu não tenho mais tempo e nem energia para desperdiçar.

Ficamos todos pouco à vontade, esperando ela continuar. Vó Duda saboreou nosso silêncio, tomando seu café, e depois emendou:

-Hoje eu quero deixar uma coisa bem clara entre os membros desta família: quero que vocês possam se entender. E você, Berto, vai tratar de ficar em sua casa junto à sua esposa e filhos, onde é o seu lugar. 

Papai interrompeu-a:

-Mas vó Duda, eu acho melhor...

-Cale a boca. O melhor para uma família é que seus membros se entendam e permaneçam unidos.
Naquele momento, notei a falta de Dora. Mas não me atrevi a interromper vó Duda a fim de perguntar sobre ela. Vó Duda continuou:

-Maya, você foi a mais injustiçada de todos. Eu a mandei para longe, quando deveria ter insistido que você ficasse e lutasse pelo que era seu. Ao invés disso, apoiei os caprichos de Agnes, achando que assim estaria protegendo você dos arroubos dela. Eu peço desculpas. Seu lugar é entre os membros desta família à qual você pertence, e é amada por todos nós, inclusive por Agnes. Porém, as coisas agora estão assim: Agnes e Berto estão casados, e tem duas lindas filhas, e é assim que as coisas devem permanecer. Respeite este arranjo.

Tia Maya baixou os olhos, mas não disse nada. Mamãe pigarreou, desconfortável, mas também ficou calada.

-Quanto a você, Agnes... você errou muito, e continua errando. Trate bem à sua prima, que na verdade, deveria ser considerada como uma irmã. Os erros do passado já estão no passado, e não podem ser mudados, mas podem ser perdoados. Perdoe Maya, pois ela tem muito mais a perdoar de você do que você dela. 

Todos achamos que ela já tinha terminado, mas após alguns minutos de silêncio, Vó Duda voltou a falar:

-Quanto a vocês, Joana e Nestor, vocês estão responsáveis por esta família depois que eu me for, já que parecem ser os mais sensatos por aqui. sua missão é manter a todos unidos, sempre. (e olhando para mim):

-E você, mocinha, não cometa os mesmos erros que estou tentando consertar: fique feliz pelo sucesso de sua prima e amiga, dando a ela o apoio de que necessita. 

Eu me encolhi na cadeira, sentindo vergonha. Olhando para Flora, Vó Duda exclamou:

-E você, minha pequena flor, é o mais lindo fruto desta família. Agora, vamos todos tratar de seguir com a vida e deixar para trás o que houve ontem. 

Após terminar de falar, o semblante de minha avó assumiu um ar cansado e triste. Pareceu a mim que ela tinha colocado uma grande parte de sua energia – a que lhe restava – na elaboração daquele discurso. Depois do café, ela foi deitar-se novamente. 

De fato, parece que depois daquela manhã as coisas começaram a melhorar entre todos. Ninguém podia negar a força da influência de vó Duda. Finalmente, pude perguntar por Dora, no que Tia Joana respondeu:

-Ela está em casa, com o seu pianista...

Quase caí da cadeira:

-Fred está lá?

-Você já o conhece?

Contive meu entusiasmo, enquanto estava sob os olhares de todos:

-Sim, de vista, pois eu indiquei o caminho para ele ontem à noitinha. 

Flora logo percebeu meu interesse:

-Pelo jeito, deve ser um tremendo gato.

Arregalei os olhos:

-É bonitinho sim...

Todos riram. O ambiente se descontraiu, e o café da manhã terminou sem maiores perturbações.
Mais tarde, fomos todos almoçar em casa de Tia Joana e Tio Nestor. Eu passei algum tempo escolhendo uma roupa legal, pois fiquei sabendo que Fred estaria lá – convidado de Dora para o almoço. O fato de minha prima não ter me falado que estava pensando em contratar um pianista para tocar com ela não me afetava mais. Eu só pensava em rever Fred. 

Acabei escolhendo um vestido estampado com flores miúdas, coberto por uma renda preta. Calcei um par de sandálias baixas, escovei os cabelos tentando fazê-los brilhar o máximo possível, passei um pouquinho de blush, delineador sob os olhos e um batom incolor. Achei que meu visual despojado agradaria um músico como ele. Flora, usando sua velha jardineira jeans, surpreendeu-se ao me ver no corredor:

--Nossa... então a coisa é séria.

Eu ri, mas não respondi. Eu não tinha a mania de responder as perguntas retóricas das pessoas. 

Quando chegamos lá, as mulheres foram para a cozinha, papai e Tio Nestor foram olhar algumas coisas na oficina e Vó Duda sentou-se na poltrona, junto à janela, onde uma brisa refrescante soprava. Eu, Flora , Dora e Fred fomos até o quarto de Flora, a fim de escutar o arranjo que Fred tinha feito para uma das músicas de Flora. A letra tinha sido escrita por ela, e o arranjo estava perfeito. Ele a acompanhou, tocando violão. Contou-nos que tocava piano, violão e baixo. 

Enquanto a música era executada – a voz perfeita de Dora parecia ter sido feita para o arranjo de Fred – eu não conseguia tirar os olhos dele. Tentei disfarçar, mas eu estava simplesmente apaixonada. Olhava os dedos dele que percorriam as cordas do violão com maestria, os cabelos ondulados que às vezes caiam sobre a testa, dando-lhe ainda mais charme, a boca perfeita se abrindo em um sorriso e deixando revelar os dentes tão brancos. Eu queria beijar aquela boca!
Finalmente, fomos chamados para almoçar, e o encanto que eu sentia foi quebrado por alguns instantes.

Eu nunca ficara tão fragilizada perto de um rapaz antes. Sempre sabia o que dizer e dominava a situação com graça, mas Fred me deixava tímida, sem-jeito. Eu derrubei o copo de suco, espetei a boca com o garfo, e ao espetar uma coxa de frango, vi-a escorregar para fora do prato e aterrissar sobre a toalha de linho branco de Tia Joana. 

Fred foi o alvo das atenções, respondendo às perguntas de todos com simpatia. Vi que Vó Duda também se deixara apaixonar pelos encantos dele. Depois do almoço, ele a ajudou a sentar-se no sofá, e pegando o violão, tocou para ela uma antiga canção, tão antiga, que surpreendeu a todos o fato de ele conhece-la. Flora me olhava de soslaio, e erguia a sobrancelha, piscando quando ninguém estava vendo. 

Era impossível não se apaixonar por ele. Eu estava bebendo de sua presença, e me deixando embriagar rapidamente, enquanto ele era tão gentil comigo quanto o era para com todos. Nem me passava pela cabeça que ele não se apaixonaria por mim, pois eu sempre tivera todos os garotos aso meus pés. Achei melhor começar a jogar o meu charme, e de tardinha, quando alguns assistiam TV, outros conversavam no jardim e vó Duda dormia no sofá, aproximei-me dele. Estava sentado na varanda, dedilhando o violão de minha prima. Dora tinha ido ajudar Tia Joana na cozinha.

-Oi, Fred.

Ele abriu um sorriso ao me ver.

-Oi, Eleanor. Sente-se aqui ao meu lado!

Obedeci bem depressa, cheia de entusiasmo, e fiz questão de roçar meu joelho no dele rapidamente. 

-O que você está tocando?

-Nada... é só uma ideia que tive para uma música.

-Dora deu sorte em poder contar com você, pois você toca muito bem!

-Obrigada, Eleanor.

Meu nome sendo dito por ele era a música mais bonita. Joguei meus cabelos para o lado, deixando que caíssem sobre um dos ombros, sabendo que meu perfume exalaria até ele. De fato, ele respirou mais fundo:

-Adoro este perfume. É Nina, não é?

Sorri, concordando com a cabeça:

-Sim, é meu favorito também.

De repente, ele pareceu melancólico, e encostou o violão contra a parede.

-O que foi?

Ele baixou os olhos, cruzando as mãos entre os joelhos entreabertos:

-Este perfume me faz lembrar de alguém.

Uma pessoa que foi muito especial para mim.

Fiquei com ciúmes; afinal, estaria ele apaixonado por alguém?

-Alguém que fez ou faz parte de sua vida?

-Alguém que fez parte... estamos separados há um ano. 

-E ficaram juntos por quanto tempo?

-Por cinco anos, desde que eu tinha 15. 

Fiz as contas rapidamente: Fred tinha vinte anos de idade. Cada coisinha que eu conseguia descobrir sobre ele ficava rolando dentro da minha cabeça de um lado para o outro, como uma bala de sabor muito doce: “Ele sabe tocar violão e baixo além de piano.... está se preparando para fazer faculdade de Direito no ano que vem... não tem irmãos nem irmãs... no momento, tem uma banda de rock, e eles tocam em alguns bares e restaurantes nas noites de quinta e sexta... e ele teve alguém importante em sua vida... e tem vinte anos...”

E ele é lindo. E cheira bem. E é a pessoa mais sexy que eu já vi. E tem uma voz de veludo azul, com toques de vermelho nos cantinhos. E seu hálito cheira a hortelã e chá de erva cidreira. E ele está sentado bem junto de mim, e se eu quiser, posso estender a mão e tocar em seu rosto. Vejo os pelos dos braços dele se arrepiarem ao falar do seu ex-amor. Me atrevi a perguntar:

-O que aconteceu? Vocês brigaram?

-Não. Ela morreu. Ficou doente, sabe... durante um ano e meio. Sempre pensei que ela sairia daquela, afinal, essas coisas só acontecem com os outros. 

Imediatamente, entendi o carinho que ele tivera por minha avó desde o início, e me envergonhei de 
trazer à tona memórias tão doloridas.

-Me desculpe, eu não sabia... desculpe... nossa, como sou sem-jeito!

Ele sorriu tristemente:

-Não se preocupe, gosto de falar sobre Helena. Mas já estou bem agora. A gente se acostuma, sabe... eu é que peço desculpas, afinal, mal nos conhecemos e venho despejar meus problemas sobre você.
E ele imediatamente colocou uma barreira entre nós. Tornou-se mais frio, e a intimidade que nascera recolheu-se, para meu desencanto. Ele ainda estava muito apaixonado pela outra menina, ou pela imagem dela que restara. Eu teria que ir com calma, ter mais paciência e tato.

Dora aproximou-se, e logo percebeu o clima entre a gente. Não disse nada, mas eu sabia exatamente o que ela estava pensando. Esta é a vantagem (ou desvantagem) de se conhecer alguém tão bem quanto nós nos conhecíamos.


(Continua...)




sexta-feira, 16 de setembro de 2016

FEITIÇOS DE AMOR – PARTE VI









Eu ia andando rápido pela estradinha de paralelepípedos, e Dora ia quase correndo atrás de mim – era um pouco mais baixa que eu, e estava um pouco gordinha. Ela conseguiu emparelhar comigo, e disse, ofegante:

-Nossa, que confusão, hein? Família, família...

Não sei bem o motivo, mas aquele comentário me deixou irritada. Parei de caminhar, e com as mãos nos bolsos da calça jeans, virei-me para ela, e quase gritando:

- O que tem a minha família? Vai tirar onda para cima de mim agora?

Dora me olhou de volta, surpresa, e vi que seus olhos se encheram de água. Ela encolheu os ombros:

-Desculpe, eu só quis...

-Só quis encher, não é mesmo? Fique você com a sua vidinha perfeita de grande cantora, e me deixe sozinha com os meus problemas de ‘família, família!’

Vi a expressão estarrecida no rosto dela. Boquiaberta, ela gaguejou:

-Hey, espere aí! A família é minha também! O que acontece a qualquer um deles também me afeta!

Revirei os olhos, bufando, e em um tom irônico que surpreendeu até a mim mesma, respondi:

- Daqui a pouco, tudo isso vai ficar para trás para você. Nós seremos apenas pessoas com quem você cresceu, Dora. Não se preocupe tanto.

E continuei a andar, as lágrimas embaçando o caminho à minha frente. De repente, comecei a correr, não sei porquê. Corri e corri, até que não tinha mais fôlego, até que eu chegasse até perto do rio, e me enfiando entre as moitas e folhagens, encontrei a margem e sentei-me lá. Eu estava completamente só. Cigarras cantavam naquela manhã quente, e a água do rio era um espelho. Tanta beleza me deixava ainda mais triste, pois eu me lembrava de quando eu, Dora e toda a família fazíamos piquenique ali. Mas aquilo parecia ter sido há milênios, quando minha avó tinha saúde, meu pai e minha mãe se amavam, Tia Maya era apenas uma figura velada no passado de todos e Dora estaria sempre comigo. Quando eu tinha uma vida normal, e uma família normal e feliz.

Percebi, então, que o maior drama entre todos os dramas que eu estava vivendo, tinha a ver com ela. Saber que Dora poderia realmente tornar-se uma cantora de sucesso e ir embora de Rio Verde, era uma possibilidade que me apavorava. Eu sabia, mais que ninguém que ela era muito boa no que fazia, e que tinha talento e determinação de sobra para conseguir o que queria. Achei que eu ficaria para sempre ali, enterrada naquela cidadezinha (que eu costumava amar apaixonadamente, mas que naquele momento pareceu-me a opção de uma perdedora) enquanto Dora, a que não era tão bonita, nem tão popular, ganharia o mundo. Eu percebi que aquele sentimento que eu estava vivenciando tinha um nome muito feio: inveja. Pensei também na história entre mamãe e Maya, na inveja e nos ciúmes que minha mãe sentia de Maya. Será que a inveja era algo hereditário? Eu queria pensar diferente e torcer por Dora, mas eu não conseguia! Eu me sentia pequena, mesquinha, e muito feia. 

De repente, passei as unhas pelos meus braços, arranhando-me fundo. De certa forma, aquilo fez com que eu me sentisse melhor por algum tempo. Mas quando eu olhei as marcas vermelhas e sangrentas, pensei no que diria às pessoas quando me perguntassem o que era aquilo. Fiquei com medo. Então tive uma ideia: eu diria que tinha me arranhado numa moita de espinhos, quando fiquei presa perto do rio. Realmente, havia várias moitas daquelas, e tínhamos que tomar cuidado para não ficarmos presos nelas pela roupa ou pelo cabelo, ou para não acabarmos arranhados. 

Nem sei quanto tempo fiquei por ali. só voltei para casa depois que tinha chorado todas as minhas lágrimas, e quando uma grossa gota de chuva – seguida de muitas outras – me obrigou a levantar e voltar para casa, no final da tarde.

Fui caminhando devagar, deixando aquela chuva lavar meu corpo e minha mente. Chutava as poças d’água no caminho, como eu fazia na infância, e virava a cabeça para cima, a boca escancarada, tentando beber algumas gotas. E foi assim que ele me encontrou.

Nem notei que estava sendo observada. Estava girando e dançando na chuva, quando em uma das voltas, avistei um rapaz de guarda-chuva parado na calçada me olhando com ar divertido. Imediatamente, parei de girar, e continuei caminhando. Ele riu. Passei por ele com o rosto pegando fogo, e deu para ver o quanto ele era lindo. Tinha cabelos castanhos ondulados e repicados, penteados para trás, era alto, sobrancelhas grossas e bem desenhadas, lábios finos e dentes muito, muito brancos. Os olhos eram de um cinza azulado. Não pude deixar de olhar para ele. Olhei mesmo. E pela primeira vez, senti que alguma coisa acontecia no meu coração, e que ele batia de um jeito diferente, como ele nunca tinha batido antes por um garoto. Passei por ele, sentindo um formigamento pelo corpo, e ele me chamou:

-Isso foi uma dança da chuva?

Parei, sem me virar para ele:

-Foi.

Continuei andando, e ele me chamou de novo:

-Será que você pode me dar uma informação?

Parei novamente, e ele caminhou até mim.

-Você conhece a Dora?

-A Dora? Minha prima. Por que?

Ele sorriu:

-Desculpe, deixe eu me apresentar. Meu nome é Fred. 

Ele estendeu a mão, e eu a segurei, sentindo uma eletricidade diferente passando dele para mim.

-Sou Eleanor. Você quer falar com a minha prima? Ela mora logo ali (apontei na direção da casa de Dora).

Ele sorriu, e me agradeceu:

-Muito obrigada, Eleanor. – o olhar dele para mim era como um jato de ar quente. Fiquei me perguntando o que um menino como ele poderia querer com Dora. Acabei formulando a pergunta, segubdos antes que ele se virasse para ir embora:

-Por favor... se não for incômodo responder... não me considere indiscreta, mas... você e Dora são amigos?

Ele sacudiu a cabeça, negando:

-Não. Na verdade, nem a conheço. Vi o anúncio no jornal, procurando por um pianista, e eu sou um, então...

-Um pianista?

-Sim. Ela quer um pianista para acompanha-la em sua apresentação.

Ele notou o embaraço e a surpresa em meus olhos.

--Você não sabia? Sua prima foi selecionada pelo programa...

-Sim, eu sei – interrompi-o. – mas ela nunca tinha me falado que estava a procura de um pianista.

Ele pareceu um tanto constrangido:

-Bem, quem sabe ela ainda não teve tempo de contar, não é? Foi legal te conhecer, Eleanor, mas tenho que ir.

Ele se afastou, e me deixou plantada na chuva, onde ainda fiquei por alguns minutos, tentando entender o que estava acontecendo comigo – e entre Dora e eu. Ela sempre me contava tudo! Por que tinha escondido aquele fato? Fui caminhando devagar, e entrei em casa. Abri a porta – estava tudo na penumbra. Apenas um abajur aceso sobre a mesinha de canto. Já ia direto para o meu quarto, quando a voz de Vó Duda me assustou:

-Você perdeu o almoço e o jantar outra vez, menina.

Virei-me; ela estava sentada na poltrona ao lado do abajur que estava apagado, enrolada em uma manta.

-Desculpe, vó... mas... eu perdi, realmente, alguma coisa que prestasse?

Ela ergueu um pouco a voz, em um tom que era, ao mesmo tempo, sussurrante e gritante – vó Duda tinha aquela habilidade peculiar das pessoas que gritam enquanto sussurram.

-Não fale assim! Almoços e jantares em família sempre são importantes. Sente aí. Tenho algo para contar a você.

Sentei-me, e esperei.

Ela deu a notícia de supetão:

-Seu pai estará ausente desta casa. Ao menos temporariamente.

-O que? Meu pai foi embora???

Senti que as coisas desmoronavam em cima de mim.

-Sim. Depois que você saiu, as coisas ficaram difíceis.

-Cadê tia Maya? (eu esperava que ela não tivesse ido com ele).

-Está lá em cima, como os outros membros da família. Cada qual em seu próprio mundinho, pensando que assim os problemas se resolverão sozinhos. 

Respirei aliviada por Tia Maya não ter ido embora com papai. Vó Duda parecia muito cansada. Achei que estar ali me esperando para dar a notícia a tinha desgastado. Ofereci-me para leva-la para a cama, e ela aceitou, tomando meu braço ara levantar-se, mas recusando-o enquanto caminhávamos para o quarto. Eu a coloquei na cama, e quando ia saindo, ela me chamou:

-Coma alguma coisa. Está o dia todo de estômago vazio, e isso não é bom.

Apesar de  eu não sentir fome, prometi a ela que comeria uma maçã. Porém, fui para o meu quarto, onde caí na cama, deixando que as lágrimas caíssem até eu adormecer.





quinta-feira, 8 de setembro de 2016

FEITIÇOS DE AMOR - PARTE V





Tia Maya chegou em uma manhã ensolarada de sábado, e Vó Duda abriu a porta para ela. Mamãe tinha saído para ir ao mercado, dizendo que precisaria resolver algumas coisas e que não poderia estar lá para recebe-la, mas que falaria com ela assim que chegasse. Papai permaneceu ao lado de Vó Duda, e eu e Flora ficamos logo atrás, com Dora, Tia Joana e Tio Nestor. Vó Duda e Tia Joana tinham preparado uma lauta mesa de café da manhã, sabendo que Tia Maya chegaria logo cedo. 

Quando eu e Flora ficamos sabendo que mamãe não estaria presente, lamentamos pela atitude covarde dela. Eu e minha irmã não víamos Tia Maya desde o velório do vovô, quando ainda éramos pequenas, e eu mal me lembrava do rosto dela, a não ser através de fotografias antigas que eu via na casa de Tia Joana. Eu estava de pé logo atrás de Tio Nestor, e vi quando Tia Maya entrou – seu rosto escurecido pela luz do sol que vinha lá de fora e que brilhava por trás dela. Ela e vovó se abraçaram por um longo tempo, e Tia Joana juntou-se a elas, e as três ficaram chorando juntas.  Quando elas finalmente entraram e fecharam a porta, e os cumprimentos cessaram, Tia Maya virou o rosto para nós, e quase engasguei: ela era a mulher mais linda que eu já tinha visto. Os anos fizeram-lhe muito bem, e se mamãe tinha sido mais bonita do que ela na juventude, isso tinha mudado. Dora não ficou surpresa, pois ela e seus pais a visitavam algumas vezes. Mas eu e Flora nos entreolhamos, tentando fechar nossas bocas abertas pela surpresa.

Tio Nestor pegou as malas de Tia Maya, levando-as para o quarto, enquanto ela abraçou a mim e a Flora ao mesmo tempo. Ficamos um pouco sem saber o que fazer, mas achando que seria mais educado, abraçamos Tia Maya de volta. Depois, foi a vez de Dora, que demonstrou muito mais entusiasmo. As duas logo começaram uma conversa descontraída, e Dora contou a ela sobre ter sido selecionada para o programa – bufei de indignação, pois tentar colocar o foco sobre ela mesma num momento daqueles, era muita pretensão e falta de sensibilidade. 

Depois, já sentados confortavelmente pelos sofás, poltronas e cadeiras da sala de estar, Vó Duda inteirou Tia Maya sobre sua doença. Houveram mais lágrimas. Então, a conversa foi passando sobre vários tópicos, desde a vida na Espanha, onde Tia Maya passara quatro anos, até amenidades cotidianas, como a política do país, a novela das oito, o cabelo de Vó Duda. Tudo aquilo em uma tentativa de evitar assuntos embaraçosos e ranços do passado. Papai passava o tempo todo olhando para todos os lugares, menos para Tia Maya, e ela fazia a mesma coisa. Tinham se cumprimentado com um aperto de mão bastante formal, destoante da maneira como Tia Maya cumprimentara os demais. Aquela verdadeira compulsão em não olharem um para o outro me preocupava; era como se eles estivessem se olhando o tempo todo, só que de outra forma. 

Quando todos esgotaram todos os assuntos que conseguiram trazer à tona, o silêncio sentou-se entre nós de forma incômoda. Mas graças a Deus, tínhamos cães, e eles entraram naquele momento constrangedor, indo cheirar Tia Maya, que encantou-se por eles, que se tornaram então o assunto. Estávamos ficando famintos – ninguém tinha tomado café da manhã – e já passava das dez e trinta. Vó Duda perguntou em voz baixa, quase falando consigo mesma, por onde mamãe andaria. Papai encolheu os ombros, dizendo que só sabia que ela tinha ido ao mercado e depois iria pagar umas contas. Tia Maya baixou os olhos, compreendendo que mamãe só estava tentando evita-la. 

Os olhos dele e de Tia Maya se encontraram, e ambos baixaram os olhos rapidamente, corando em seguida. Aquilo estava começando a ficar insuportável. A sala parecia abafada, apesar de todas as janelas estarem abertas, e eu sentia o suor escorrendo pelas minhas costas. Escutei a barriga de Flora roncando alto. O silêncio era tão grande, que acho que todos escutamos. Foi quando Tutti e Greco ergueram-se do chão, indo cheirar a porta de entrada, as caudas se agitando felizes. Ouvimos o motor do carro sendo desligado, e a porta bater. A tensão na sala de estar era grande. Sorríamos amarelo uns para os outros. Meu coração dava pulos tão altos, que parecia que eu teria que engoli-lo a qualquer momento, para que ele não saísse pela minha boca e fosse parar no tapete da sala. Finalmente, a maçaneta da porta girou e mamãe apareceu à porta. 

Estava deslumbrante! Tinha ido ao salão, e os cabelos receberam luzes e ondas. Vestia um belo vestido verde-musgo esvoaçante cuja saia rodada ia até os joelhos. A pala era discretamente bordada por linhas em vários tons de verde e creme. Calçava sapatos scarpin de saltos baixos, e tinha uma bolsa nova pendurada no braço direito. Na mão direita, uma caixa embrulhada para presente. Todos sentimos que ela estava usando um novo perfume, provavelmente, caro. Também usava algumas jóias antigas que normalmente ficavam guardadas em uma caixa, no cofre de seu quarto. 

Achei tudo aquilo patético. As pessoas se entreolhavam, sem saber o que dizer. Flora franziu as sobrancelhas, indignada – ela me disse mais tarde – pela ‘bandeira’ que nossa mãe tinha dado, demonstrando tanta insegurança de uma só vez. Vi a cabeça de Dora mover-se quase imperceptivelmente para um lado e para o outro. Vó Duda olhou mamãe dos pés a cabeça, mas nada disse.  Papai levantou-se do sofá como se tivesse molas nos pés, mas antes que ele a beijasse no rosto, mamãe disse:

-Querido, seja um anjo e por favor, pegue as compras que estão na mala do carro e leve para a cozinha.

Constrangido, papai saiu pela porta sem olhar para trás, e suspirando de alívio, Tio Nestor foi atrás dele, dizendo que ia ajudar a guardar tudo. Então, como em uma cena em câmera lenta, mamãe olhou para tia Maya, sentada no sofá, e foi caminhando devagar e resolutamente até ela, e parando bem na frente dela, estendeu-lhe a caixa embrulhada para presente. Eu nunca tinha visto mamãe agir de maneira tão afetada, e aquilo me assustou. Ela disse:

-Olá, Maya. Seja bem vinda à minha casa. Eu... estava fazendo compras, e achei que você gostaria de receber este presente.

Tia Maya ergueu-se do sofá, e ficou olhando para mamãe sem saber como agir. Mamãe sacudiu um pouco a caixa, e ela a pegou. As duas não se tocaram. Tia Maya abriu a caixa devagar, e todos nós temíamos por ela – ninguém sabia o que mamãe poderia ter colocado naquela caixa. Porém, tudo que havia lá dentro era um perfume. Um simples e inofensivo frasco de perfume caro e importado. Tia Maya agradeceu formalmente, e mamãe fez uma mesura quase imperceptível com a cabeça.
Eu, Dora e Flora respiramos fundo, soltando o ar devagar, aliviadas. Vó Duda bradou, do seu modo autoritário e incontestável:

-Agora vamos ao café da manhã!

O café até que foi agradável. Mamãe estava relaxada. Papai falou o menos possível, e o rumo da conversa foi conduzido habilmente por Tia Joana e Vó Duda. Logo seria natal (era final de novembro), e Tia Joana dizia a Tia Maya o quanto seria bom que as três fossem fazer compras de natal juntas novamente, após tantos anos. Mamãe não respondeu, mas tia Maya concordou. Dora comentou da sorte de estarmos no final do ano letivo; assim ela poderia participar do programa sem comprometer seus estudos. Tia Maya prometeu-lhe um lindo vestido para o dia do teste, e ela agradeceu, entusiasmada. Logo, todos estavam falando sobre o talento de Dora, o programa, sua nova música – a que ela escolhera para o teste – e o quanto ela era talentosa. Eu me senti estranhamente desconfortável.

 Ao ver o entusiasmo de Tia Maya por Dora, mamãe comentou, um tom de voz maldoso e ferino que me deixou chocada:

-Pena que você nunca teve filhos, Maya.

Tia Maya terminou de engolir um pedaço de brioche. Os olhos dela cruzaram a mesa, percorrendo a distância que a afastava de mamãe como se fossem raios , e tia Maya, com ar muito triste, respondeu – a voz, um fio de nylon fininho, quase arrebentando:

-Eu tenho um filho. 

Tia Joana, Dora e Nestor não pareciam surpresos, mas amedrontados pelo que estava por vir.
Mas todos nós outros ficamos surpresos, inclusive vó Duda, cuja xícara teve sua viagem interrompida no meio do caminho, entre o pires e a boca. Tia Joana corou, baixando os olhos, e Dora também. Tio 

Nestor olhou para o teto, como a dizer: “Lá vem chumbo grosso!” Papai, estarrecido, fitava ora mamãe, ora Tia Maya. Ela deixou que a surpresa de suas palavras passasse por todos nós como uma corrente elétrica, um fio de alta tensão desencapado. Mamãe ficou branca feito papel, e dava para ver, mesmo debaixo das camadas de pó e de base. Então, tia Maya completou:

-Eu tenho um menino. Ele... tem doze anos, e se chama Teo. 

Vó Duda ergue-se da mesa:

-Como?! Você é mãe? E escondeu isso de mim por doze anos? Como você pode fazer isso, Maya?

Papai estava tão chocado, que seus olhos fitavam o vazio. Mamãe deixou a boca aberta, e sua expressão parecia a de uma flor murchando. Tia Maya completou:

-Eu tenho um filho de doze anos, que se chama Teo... (e olhando para vovó): Nunca contei a senhora sobre ele porque não queria que ficasse chateada. Não contei a ninguém porque não quis causar mais problemas ainda, mais do que aqueles que já causei. Joana ficou sabendo durante uma visita surpresa à minha casa, em São Paulo. Ela estava com Nestor e Dora. Eu estava grávida. Implorei a ela que não contasse à senhora, ou a qualquer pessoa. Eu vivia longe, e as vidas de vocês poderiam continuar sem este aborrecimento. 

Vó Duda exclamou:

-Mas... é meu neto! Eu precisava saber, ele é parte desta família! 

Mamãe, desesperada, respondeu:

-Mamãe, ele não é seu neto. É filho de Maya, e Maya não é sua filha!

Vó Duda olhou para ela, dizendo:

-Bem, então este é o dia de revelar segredos. Porque eu ia contar a vocês hoje, que eu e seu pai adotamos Maya, dois anos depois que ela veio morar conosco.

Aquela foi a vez de Joana e mamãe exclamarem, quase juntas:

-Como? E por que não nos contou?

Vó Duda respirou fundo:

-Eu não queria complicar ainda mais a situação entre você e Maya, Agnes, pois sabia que você morria de ciúmes dela. Por isso, achamos melhor não dizermos nada. Mesmo porque um pedaço de papel não faria diferença no relacionamento entre vocês, Maya e Joana sempre se amaram como irmãs, e você... achamos que um dia você também aprenderia a amá-la. Quando contei para Maya – e isso foi no dia do velório de seu pai, meninas – ela me pediu para não contar a vocês. 

Eu estava tonta: então, se tia Maya era irmã de mamãe e de Tia Joana, ela tinha direito à herança de vovó – a casa onde vivíamos, e o armazém de papai, que estavam em seu nome. E se ela tinha um filho de doze anos, ele poderia ser filho de meu pai; e se ele fosse filho de meu pai, então eu tinha um irmão! E mamãe e tia Joana, uma irmã! 

De repente, no meio daquilo tudo, a constatação me veio, fria e pegajosa como fel e veneno congelados: Dora sabia sobre Teo o tempo todo! E não me dissera nada. Olhei para Flora, que estava chorando, e de repente, ela começou a dar gargalhadas histéricas. Todo mundo olhou para ela. Papai encheu um copo com água, colocando uma colher de açúcar, e levantando-se, tentou fazê-la beber. 

Minha irmã estava tendo um ataque histérico? Mamãe tentou acalmá-la, enquanto fuzilava Tia Maya com o olhar: “Olhe só como você destrói tudo em que toca!”  Tia Joana e Tio Nestor tentavam acalmar Vó Duda, e Dora, a cabeça apoiada em uma mão, olhava tudo com ar de espanto. Pude ler seus pensamentos: “O que aconteceu com esta família?” finalmente, minha irmã se acalmou, e puxando o ar com força, ela ergueu seu copo com água e disse:

-Saúde! Alguém mais aí tem um segredinho para contar?

Vó Duda, soltando-se das mãos de Joana com uma sacudida de ombro, socou a mesa, fazendo xícaras e talheres tremerem:

-Sente-se, Flora! E cale a boca! 

Foi como se ela tivesse pedido a todos nós que nos calássemos. Um silêncio sepulcral tomou conta da sala. Ninguém se entreolhava; todos desviávamos os olhos uns dos outros, olhando para a janela, para a toalha ou para o chão ou o teto. 

Virando-se para Maya, ela perguntou, a voz pausada e bastante fria:

-Onde está seu filho agora, Maya?

Tia Maya respondeu, sem olhar para vó Duda:

-Meu filho... Teo... ele só viveu até os três anos de idade. Quando eu disse que ele tinha doze anos, referi0me à idade que ele teria, se estivesse vivo. Eu sempre falo de Teo como se ele ainda existisse.

Dizendo aquilo, ela começou a soluçar alto. Até mamãe pareceu sentir pena dela. Tia Joana segurou sua mão, e vó Duda permaneceu alguns minutos de olhos fechados. O resto de nós, em silêncio, aguardou o desfecho daquela história. Confesso que a confusão que eu sentira ao saber que Teo pudesse ser meu irmão, já estava se transformando em um sentimento bem mais agradável, e ganhar e perder um irmão em menos de dez minutos não estava sendo nada fácil. Vó Duda perguntou, ainda de olhos fechados:

-Quem é o pai deste menino, Maya?

Aquela pergunta era desnecessária. Mamãe já sabia a resposta, pois olhou na direção de papai, que estava com os olhos cheios d’água. Eu e Flora compreendemos que o pai do falecido filho de Tia Maya tinha sido o nosso pai. Parecia que todo o resto também entendeu logo, mas ninguém disse nada. Tia Maya disse:

-Eu engravidei de Berto quando estive aqui. Fiquei sabendo dois meses depois que fui embora.

Vó Duda continuou:

-Como ele morreu?

Tia Maya fungou, e Tio Nestor entregou-lhe um lenço de papel. Ela assoou o nariz, e respondeu:

-Teo nasceu com uma deficiência cardíaca. Os médicos tentaram de tudo, mas desde cedo, disseram que ele não tinha muitas chances. Descobrimos sobre o problema durante a gravidez. Foi por isso, também, que eu não contei a ninguém. Por que fazer todo mundo sofrer?

Vó Duda levantou-se, caminhando até ela. Abraçou-a, aninhando a cabeça de Tia Maya em seu colo, embalando-a como se ela fosse uma criança:

-Nós fizemos tanto mal a você, Maya... tanto mal! Eu tentei fazer a coisa certa, mandando você estudar fora; errei. Depois, quando Agnes e Berto se casaram, mandei-a para longe novamente... um erro atrás do outro. Nunca permitimos que você fosse realmente parte desta família! E pensar que passou por tudo isso sozinha! A doença do seu bebê, sua morte... a gravidez...

Papai chorava, sem tentar esconder sua tristeza de ninguém – nem de mamãe. Eu nunca tinha visto papai chorar antes. Ele se sacudia todo, seu corpo enorme parecendo que ia desmoronar a qualquer momento. Tia Joana também chorava num canto da sala, abraçada ao Tio Nestor. O clima estava muito triste e pesado. Eu não sabia o que fazer, ou o que dizer, e achei melhor ir lá para fora tomar um pouco de ar. Perguntei a Flora se ela queria ir comigo, mas ela negou com a cabeça. Eu comecei a andar em direção à porta, quando Dora resolveu me acompanhar.



(CONTINUA...)







O JARDIM DAS DESILUSÕES – CAPÍTULO VI – FINAL

O funeral aconteceu em um dia especialmente frio no qual uma chuva fina e cortante era derramada em rajadas pelo vento. Os pais...