segunda-feira, 31 de outubro de 2016

O FURACÃO - (CONTO COMPLETO)







O FURACÃO - (conto completo)




Não, não há necessidade de explicações. Principalmente porque ninguém estaria interessado em ouvi-las. Se eu fechasse a porta nesse instante, se eu me desintegrasse, sumisse, ou então se de repente eu decidisse fazer um discurso, escrever cartas, explicar-me – não haveria ninguém que quisesse me ouvir. Porque ninguém está interessado em compreender as razões alheias, mas apenas criticar, apontar, acusar, escarnecer. 

Mas eu sinto que enquanto eles se ausentam, pairando sobre mim como se eu fosse uma carniça apodrecida num deserto, eles me olham. Me assistem. Tomam conclusões ao meu respeito. Acima de tudo, eles me julgam. Fazem questão de permanecerem distantes para que possam demonstrar, nem que seja pelo esforço dirigido, a sua indiferença. (Existe indiferença através do esforço dirigido?) Eles desejam a minha atenção à sua desatenção. Se eu falasse, virar-me iam as costas; se eu gritasse, tapariam os ouvidos – embora eles pudessem me escutar perfeitamente, fingiriam que não. Porque é mister que eles me magoem. Querem ter certeza de que seus esforços sejam recompensados, ou seja, que eu me sinta menos. 

Razões? Cansei-me de procurá-las. Explicações? Cansei-me de dá-las. Os sinos tocaram centenas de vezes, os laços foram tão repuxados, que acabaram esgarçados. E um dia, após um puxão mais forte, romperam-se. E quando eles arrebentaram, abrindo comportas de toneladas de água que formaram um rio de distâncias, só eu ouvi. Eles não ligaram. Talvez achassem que eu acabaria, como sempre, tomando o primeiro barco de volta ao porto. Se estranharam ou não, também não sei. Nunca me disseram. Nunca me perguntaram nada. Se falaram alguma coisa a respeito de mim, nunca fiquei sabendo. 

A vida sempre continua. Não importa o que aconteça, ela sempre segue em frente – com ou sem o nosso consentimento, com ou sem a nossa participação. Ou nós a conduzimos ou seremos pisoteados por ela, e eu decidi que gostaria de conduzi-la, afinal. 

Diga centenas de sins a vida toda; seja cordato, solidário, condescendente, maleável, bondoso, compreensivo. Perdoe tudo. Perdoe sempre, e esqueça sempre. Recomece milhões de vezes. Dê razão a quem não a tem. Seja sempre aquela pessoa adorável e sempre disponível. 

Diga não apenas uma vez. Ou apenas diga que vai pensar – às vezes, é o suficiente para que passem a odiá-lo e desprezá-lo com todas as forças. Você será relegado ao último lugar da fila, e finalmente, você será esquecido. Você será alvo de vinganças e de maledicências. Atreva-se a dizer não, se tiver coragem.
E será nessa hora que você enxergará a verdade, aquela mesma verdade que vinha batendo à sua porta tão insistentemente quanto um vendedor de enciclopédia, mas você fingia que não estava em casa ou que não escutava, porque abrir a porta teria significado a necessidade de rompimentos, mudanças, separações. 

O problema com a verdade, é que no momento em que nos atrevemos a dar uma olhadinha para ela, nem que seja de rabo de olho, nunca mais conseguiremos cobrir tudo com o velho véu cor-de-rosa de sempre. Um pequeno vislumbre e terá sido o suficiente para que ela derrame suas cores fortes no nosso campo de visão, e eu prometo que nada nunca mais será como antes, pois quem enxergou a verdade uma vez, nunca mais conseguirá conviver com a inverdade ou remendar o pano da vida com as linhas doces da mentira. 

Não é nada fácil descobrir como os outros nos veem realmente. Não é fácil descobrir que estamos e sempre estivemos irremediavelmente sozinhos. Mas depois, fica mais fácil quando a gente se acostuma e aceita. Com o tempo, vai ficando cada vez mais fácil. Haverá muitas recaídas, nas quais você há de se perguntar se não seria possível voltar atrás e reencontrar aquele velho e conhecido caminho, por onde você já passou centenas de milhares de vezes, mas descobrirá que não; uma vez que a escolha foi feita, não há como retornar ao velho caminho. O que existe adiante é apenas... uma estrada incógnita. Uma história que você terá que aprender a escrever sozinho, sem as penas alheias, sem os direcionamentos alheios. Você sentirá medo e solidão. Depois, compreenderá que todo caminho é difícil no começo, e que a solidão é tudo o que você sempre teve. Porque ela é tudo o que todo mundo sempre teve, mesmo os que não enxergam isso. 

Como olhar no espelho e tentar reencontrar velhos rostos traçados pela linha da falsa aparência? Não há como jogar com a verdade. Ela não tem parceiros de jogo, ela só tem súditos. É ela quem comanda tudo, embora seja paciente até que a descubramos. E para que isso aconteça, será preciso que haja muitos tombos e decepções, muitas lágrimas e traições, muito medo sob os véus cor-de-rosa.

A gente espera que as pessoas mudem. A gente espera que o sofrimento seja como uma bigorna na qual todos somos moldados, assumindo novas formas mais condizentes com o que se espera dos relacionamentos e convivências. É difícil descobrir que existam pessoas a quem o sofrimento nada causa; elas não se deixam moldar. Choram, imploram e rezam enquanto estão sofrendo, fazendo promessas de que se conseguirem tal e tal coisa, tornar-se hão pessoas melhores; mas quando a nuvem de poeira finalmente baixa, elas voltam a ser como sempre foram. Porque elas não mudam. E descobrir isso é realmente frustrante. A dor deveria unir; pelo menos, é isso que dizem todos os poetas. Ou quase todos. Mas muitas vezes, a dor separa, e a perda é como a cola que unia as páginas de um livro e que se quebrou, e as páginas passam a voar por aí sem direção ao primeiro vento.

E diante disso tudo, você descobre que seu caminho será solitário. Você perdeu o respeito pelas pessoas que deveria respeitar, porque descobriu que elas nunca respeitaram você. Você percebe que passou anos desperdiçando seu amor com quem nunca o amou. Dedicou seu respeito e sua consideração a quem jamais mostrou reciprocidade. Mas se você puder ser forte, perceberá que foi melhor assim. Porque nada o deixará mais forte do que sentir-se fraco algumas vezes. Nada abrirá mais os seus olhos do que uma coleção enfileirada de desilusões de todos os tipos. Nada fará com que você reconheça melhor a verdade e as dissimulações do que cair em armadilhas de mentiras várias vezes na vida. Nada o deixará mais forte do que chorar lágrimas amargas pelo que perdeu, e perceber que no final das contas, você nunca realmente teve aquilo que pensava que tinha. 

E então, um dia você acorda e percebe que não perdeu nada. Quem perdeu foram eles. 

O que dirão de você o escandalizará, até que chegue ao ponto em que só o fará rir: você será chamado de orgulhoso, distante, frio, incompreensível, difícil, preconceituoso. Servirá como um espelho para que eles recitem seus próprios defeitos enquanto pensam que estão falando de você. 

De longe, você vai observar os mesmos velhos jogos sendo jogados, as mesmas armadilhas e trapaças sendo armadas, as mesmas velhas regras sendo recriadas e burladas, as promessas sendo quebradas, e dará graças por não estar mais no meio daquele furacão. 





sábado, 22 de outubro de 2016

FEITIÇO DE AMOR – PARTE FINAL







Noite de Natal. Gente circulando pela casa. Música, risos, vestidos esvoaçantes passando pelas salas e corredores. Vermelhos, verdes, dourados, brancos, azuis... comidas sobre a mesa: um verdadeiro banquete, preparado por mamãe, Tia Joana e Tia Maya. Algumas sobremesas e vinhos trazidas pelos vizinhos. A festa natalina em nossa casa era um evento, e praticamente todo mundo que a gente conhecia estava por lá, ou passava por lá, nem que fosse por alguns minutos apenas. Inclusive meus ex-colegas de escola.

Só Vó Duda não estava. Mamãe trancara o quarto dela, com medo de que alguém pudesse, inadvertidamente, entrar lá. Vó Duda detestava que entrassem no quarto dela. 

Tia Maya, feliz da vida, namorava Davi pelos cantos da casa, e os dois eram discretamente (cada vez menos discretamente) observados por meu pai, que não conseguia tirar os olhos deles por muito tempo. Mamãe estava linda e sorridente. Tia Joana estava linda, sorridente e falante. Tio Nestor, sempre segurando um copo de alguma coisa, andava pelos cantos, conversando um pouco aqui e ali. Dora e Fred estavam juntos, conversando com todos mas sem qualquer olhar ou gesto de intimidade entre eles. 

Erica ficava andando atrás de mim onde quer que eu fosse, e aquilo já estava me irritando, mas era Natal. Fui gentil com ela. Acabei apresentando-a a um vizinho que estava morando por ali há pouco tempo, e como eles logo se interessaram um pelo outro, consegui livrar-me dela. Observei Davi por um longo tempo também. Notei que era conhecido da maioria das pessoas, viúvo, sem filhos, um cidadão honesto da comunidade. E rico, muito rico. Fiquei pensando se, afinal de contas, mamãe não fizera a escolha certa para Tia Maya, mesmo que de maneira manipuladora. Eles pareciam felizes juntos. Ele olhava para ela da maneira certa, pensei, e ela o olhava de volta da mesma forma. 

Tia Maya anunciara que iria embora depois do ano novo, o que deixou mamãe visivelmente aliviada. Ela achava que tinha conseguido evitar o pior. Tia Maya dissera que iria ver como estavam seus negócios, e após vender seu apartamento em São Paulo, voltaria a Rio Verde para casar-se com Davi. Fizeram o pronunciamento durante a ceia de natal, após os brindes, e então houve mais brindes. As mulheres da cidade olhavam para minha tia com visível inveja; afinal, ela era linda, e conseguira conquistar o maior partido da cidade. Papai estava taciturno, calado, e vi Tio Nestor tirar um copo de bebida quase à força da mão dele. Mamãe parecia não enxergar nada mais além do que desejava ver. 

A festa foi um verdadeiro sucesso. Como sempre era. Todos estavam felizes, e no final, após o jantar e o amigo oculto gigante, que acabou por volta das três da manhã, houve ainda um baile com música ao vivo onde todo mundo dançou e se acabou – menos eu. Fiquei olhando as pessoas, observando e tirando minhas conclusões:

-Papai e mamãe dançavam animadamente (pelo menos, ela dançava assim, rindo e abraçando-o a todo momento, enquanto ele sorria meio sem-graça, um pouco bêbado, os olhos grudados em Tia Maya e Davi que... 

-Só tinham olhos um para o outro.

-Tio Nestor e Tia Joana, sempre apaixonados e felizes, ficavam de olho em Dora, que fingia estar feliz, mas que finalmente começara a perceber que talvez Fred não fosse tão apaixonado por ela assim, já que ele não conseguia tirar os olhos...

-De mim. Que fiz de tudo para não corresponder aos olhares dele, fugindo para o banheiro sempre que podia, respirando de alívio na solidão dos azulejos cor de creme do banheiro da suíte dos meus pais. Tentando negar o coração que quase me sufocava de tão forte que batia sempre que eu e Fred olhávamos um para o outro. 

-Flora estava mais alegre, rodeada pelas colegas da escola, e linda em seu vestido amarelo-canário. 

E eu pensava no que seria da minha família depois que a festa acabasse, depois que os pileques fossem curados e a vida cotidiana voltasse a acontecer entre seus membros. Sem Vó Duda para apaziguar as mágoas e discussões, dizendo a todos como as coisas deveriam ser. 

Eu estava caminhando sozinha pelo jardim da casa, deixando o barulho, as luzes e as danças lá dentro. A noite estava estrelada, e o ar, fresco e com perfume de jasmim. Chovera durante a tarde, e ainda havia algumas pocinhas pelo chão, entre as pedras lisas que calçavam o caminho. Eu pensava em vó Duda. Conversava com ela mentalmente, como se ela estivesse ali e pudesse me ouvir. Contava a ela as novidades e pedia ajuda. Conversava com ela de uma forma como eu nunca conseguira conversar antes, e pensava no quanto a gente podia se sentir mais próximos ainda de alguém que já morreu. 

Flora me dissera que os mortos podiam nos ver. Mamãe ensinara a ela que a vida continuava. Eu não tinha muita certeza, mas por via das dúvidas, estava conversando com minha vó morta. Mentalmente apenas. Tinha medo de que alguém me surpreendesse e pensasse que eu enlouqueci. E eu tentava imaginar as respostas que ela daria às minhas perguntas, e então minha mente começava a fazer um barulho incrível, que eu tentava silenciar me concentrando no canto dos grilos. 

Perguntei o que aconteceria com minha família:

-Vó, as coisas não estão nada bem. Minha mãe mentiu para Tia Maya de novo, arranjando um namorado para ela através de um site, e tenho medo do que vai acontecer quando ela descobrir; meu pai está apaixonado por Tia Maya, e sente ciúmes, mas minha mãe age como se nada estivesse acontecendo, e só enxerga o que quer. Dora ama o Fred, mas Tio Nestor me disse que acha que ele não está apaixonado por ela, mas por mim, que sou louca por ele e não sei o que fazer. Tia Joana não está pronta para lidar com essa bagunça toda, e acho que ela não vai tomar conta desta família de forma adequada. Quem vai, vó? Tia Maya anunciou que vai se casar com Davi, o namorado que mamãe arranjou para ela sem que ela soubesse – e que é rico, viúvo, bonitão e parece estar de quatro por ela, e ela por ele. Mas e meu pai? Vai segurar essa barra, e continuar morando com a gente como se nada tivesse acontecido? É possível que ele e minha mãe voltem a se apaixonar um pelo outro depois que tia Maya for embora? A única que parece bem, é Flora. Ela vai superar sua perda, e ficará bem. Talvez seja a mais forte, quem sabe... mas eu estou péssima. Não conheço mais minha mãe. Não consigo admirar meu pai pela sua covardia em não assumir o que sente por Tia Maya. E morro de medo de ferir Dora ainda mais. 

Fiz silêncio. Fechei os olhos, e fiquei escutando o vento que passava entre as folhas das árvores, e os ruídos da festa ao longe. De repente, me senti invadida por uma grande paz. Ouvi claramente a voz de vó Duda dentro de minha cabeça – e até hoje não sei o quanto daquilo foi fruto da minha imaginação ou do meu desespero:

-Largue tudo, deixe as coisas se acertarem. Vai ficar tudo bem no final. Sempre fica. Não há como controlar tudo. Não é responsabilidade sua. 

Abri os olhos, o coração pulando. Tinha certeza de que olharia para trás e veria Vó Duda de pé junto de mim, pois o perfume do talco que ela usava estava forte. Virei-me devagar; a presença dela era forte, mas quando olhei, não havia ninguém ali. Mas não posso negar a força daquele momento, mesmo anos após ele ter acontecido. 

Naquele momento, eu me senti tranquila e feliz pela primeira vez em meses. Então era isso: não era responsabilidade minha. 

E eu enfrentei com tranquilidade o casamento de Tia Maya e Davi, que saíram em uma longa viagem de lua de mel pelo mundo – mesmo depois que ele contou para ela toda a verdade, dizendo que se queriam ser felizes, não poderia deixar que um segredo daqueles ficasse entre eles. Mais uma vez, Tia Maya perdoou minha mãe. Mas meu pai, não. 

E logo depois do casamento de minha tia, eles se divorciaram. Mamãe ficou tranquila o tempo todo, sabendo que ela bem merecia o desfecho que se apresentava. O divórcio aconteceu sem mágoas e sem dramas, e meu pai frequentava nossa casa habitualmente. Mesmo depois que se casou de novo, dois anos mais tarde, e teve outro filho com Sara, sua nova – e jovem - esposa. 
Dora venceu o programa, e foi convidada por uma grande gravadora que alavancou seu sucesso. Lançou um CD que logo tornou-se mania absoluta entre os adolescentes, e foi convidada para escrever um musical teen que até hoje faz grande sucesso no teatro. Ela e Fred escreveram as músicas juntos, fizeram os arranjos e treinaram os cantores da peça. Hoje, ela vive em Nova Iorque.

Ela, sem Fred. 

Tio Nestor e Tia Joana venderam sua parte na loja ao meu pai, e a casa, e mudaram-se com ela para a Big Apple. 

Minha irmã Flora está ajudando mamãe nas consultas. As duas abriram um site, onde vendem seus produtos – coisas que elas mesmas fabricam: cosméticos, poções de beleza, amuletos de sorte, e é claro, dão consultas de tarô online e pessoalmente. Até as celebridades costumam consultar-se com elas. Rio Verde finalmente apareceu no mapa como uma cidade mística, graças a elas, e é visitada por turistas e celebridades que buscam conhecimento espiritual e também uma ajudazinha do destino em suas questões. Muitos seguiram o rastro do sucesso delas, tornando-se ‘médiuns’ e ‘consultores espirituais’ em Rio Verde, mas nenhum deles são realmente respeitados e reconhecidos, como minha mãe e minha irmã. Flora nunca foi para a faculdade, pois descobriu sua verdadeira vocação. Tenho que admitir que ela quase sempre acerta em suas previsões. 

Ah, já quase ia me esquecendo: elas não fazem feitiços de amor. Não trazem seu amor de volta em quatro dias, não separam casais, não enfeitiçam pessoas.

Quanto a Fred... ele é meu marido. Moramos hoje na casa que foi de Tia Joana e Tio Nestor, presenteada a nós por meu pai. Fiz minha faculdade. Formei-me em agronomia, aqui mesmo em Rio Verde – cidade que nunca pretendo deixar, e onde espero poder criar o filho que Fred e eu estamos esperando. 

Aprendi que as coisas mudam porque tem que mudar. As pessoas ficam juntas enquanto tem coisas a aprender umas com as outras, e depois seguem seus próprios caminhos a fim de aprenderem o que ficou faltando e que tambem é esencial. Forçar presenças e situações em nossas vidas não é apenas contraproducente, mas também interfere na evolução pessoal. Nem sempre é fácil deixar ir aqueles que amamaos, porém. Mas é necessário. E coisas novas sempre surgem quando a gente deixa as portas e janelas abertas para que elas entrem e saiam.

E quando surgem problemas, costumo lembrar-me da voz calma e clara de Vó Duda, quando ela me falou naquela noite de natal:

“Largue tudo, deixe as coisas se acertarem. Vai ficar tudo bem no final. Sempre fica. Não há como controlar tudo. Não é responsabilidade sua.”


FIM




segunda-feira, 17 de outubro de 2016

FEITIÇOS DE AMOR – CAPÍTULO XII







Dora chegou no dia seguinte. Perderia o final da nova fase do programa, e apesar de todos terem insistido para que ela ficasse, já que não havia mais nada a ser feito, ela preferiu voltar. Com certeza, teria sido a vencedora. O programa iria ao ar na noite de natal – dali a três dias – e ela não estaria lá. Eu achei uma bobagem ela ter jogado fora a chance de sua vida por causa da morte de vó Duda, que já era anunciada. No contrato estava explícito que desistentes não teriam uma nova chance. 

Eu acho que não teria feito a mesma coisa, mas muitos anos depois, compreendi que Dora tinha uma grandeza de espírito e valores bem diferentes dos meus naquela época. Era mais sensível e madura, e a coisa mais importante para ela, era a família. 

Quando nos vimos, já no velório de Vó Duda, Dora, que tinha ido direto para lá, chegada de viagem, estava de mãos dadas com Fred. Ao ver-me, ela soltou a mão dele, e veio em minha direção, envolvendo-me num abraço que fez desmoronarem todas as minhas resistências: eu literalmente desabei nos braços dela, e naquele momento, Fred era a figura menos importante daquele cenário. Eu o vi cumprimentando formalmente cada membro da família, e depois, ele veio até mim, apertando minha mão formalmente, e depois, sentou-se em um canto da sala, sozinho. Dora ficou comigo o tempo todo, abraçada a mim, ora enxugando minhas lágrimas, ora chorando junto comigo. Mamãe estava inconsolável, enquanto Tia Maya, mais serena, segurava a mão dela. Tia Joana, mais madura, tentava ser forte para as outras duas, mas também estava muito triste. Vó Duda, a figura mais importante daquela família, estava morta. Tia Joana prometera a ela que cuidaria daquela família e a manteria unida. Eu imaginava o peso enorme que ela carregava nos ombros, sem nem mesmo saber de toda a história com a qual teria que lidar. 

Flora, abraçada a papai, não chorava; parecia em estado de choque, e imaginei que ela ficava pensando na cena que vira ao chegar na sala, no dia anterior, e do susto que levara. Alguém dera-lhe um comprimido que a deixara apática, e talvez fosse melhor assim, pois em casa, antes de sairmos para o velório, ela tivera um ataque de nervos, chorando e tremendo sem parar. 

Érica aproximou-se, me abraçou, deu-me os pêsames, e quando nossos olhares se cruzaram, pude ler suas palavras, embora não ditas naquele momento: “Eu não te disse?”

Vó Duda se fora. Eu nunca mais a veria. Chegaria em casa sem deparar com sua figura forte e decidida resolvendo todos os problemas, e ralhando comigo: “Você perdeu o almoço.”  Seu quarto estaria vazio para sempre, e suas coisas seriam doadas algum dia. Sua presença ficaria apenas nas fotos e nas lembranças. 
Após o funeral, que aconteceu debaixo de uma chuva de primavera contínua e fresca, fomos todos para casa em silêncio. Ao abrirmos a porta, vimos a casa toda decorada para o Natal, a árvore de família comprada há muitos anos por Vó Duda num canto da sala, os presentes já empacotados sob ela. A presença dela ainda era forte, e eu respirei fundo, descobrindo no ar o mesmo perfume de talco floral que eu sentira ao cobri-la na tarde do dia anterior. Ela ainda estava lá, e eu poderia fingir, durante alguns segundos, que tudo estava bem. Sentei-me no sofá, fechando os olhos e tentando captar a atmosfera da casa dos tempos em que minha avó andava por ela, dando ordens e colocando as coisas todas em seus lugares. Lembrei-me das tantas vezes em que ela me aconselhara, resolvendo meus grandes problemas de menina, transformando-os em pequenos assuntos perfeitamente tratáveis. Ela tinha o poder de dar aos problemas suas verdadeiras dimensões, expondo sua visão prática das coisas e levando todo mundo junto com ela em seu raciocínio sempre lógico e sensato. 

Eu tive, naquele instante, a clara impressão de que era por causa dela que aquela família ainda estava unida. O que seria de nós agora, que teríamos que resolver nossos próprios problemas e lidar com nossas limitações sem a ajuda dela? 
Flora subiu para o seu quarto, e papai e mamãe também. Tia Maya foi para a casa de Tia Joana com ela e Tio Nestor. Dora me abraçou, dizendo que estava exausta pela viagem e que iria descansar um pouco, e deixou a casa junto com Fred. Fiquei sozinha na sala de estar, ouvindo o relógio de parede tiquetaquear. 
De repente, senti o assento do sofá mover-se com o peso de alguém que se sentava suavemente ao meu lado. Abri os olhos, e deparei com Fred. Surpresa, endireitei-me, passando as mãos pelos cabelos instintivamente. Ele me olhou com carinho, e nossos olhares se prenderam por um longo momento, até que ele falou:

-Sinto muito pela sua avó, Eleanor. Mal a conheci, mas gostei dela imediatamente. Era uma pessoa muito sensata e boa, e... bem, eu sinto muito que as coisas tenham terminado assim.

-Todos sabíamos como as coisas terminariam, Fred, inclusive ela. Mesmo assim, obrigada. Mas... nós ... ela tinha realmente melhorado, e chegamos a acreditar que estava e curando. Ela nem ia mais às consultas médicas... achamos que o médico tinha se enganado. Outro dia mesmo, eu e Flora falamos sobre o quanto Vó Duda parecia melhor, e Flora disse que tinha feito um feitiço para que ela se curasse, sabe... e foi exatamente Flora quem a encontrou, ontem. Ela deu um grito. Eu vim correndo lá da cozinha. Eu a cobrira há apenas alguns minutos, sem perceber que estava morta. Foi horrível, Fred... ainda bem que Dora não estava aqui nos piores momentos, dei graças por ela estar bem longe, e feliz, e com você...

De repente, dei-me conta das bobagens que estava dizendo, e corei. Baixei os olhos, calando-me, e Fred, as sobrancelhas cerradas, o rosto muito vermelho, nada disse. Ele apenas deixou que eu falasse e desabafasse. De repente, compreendi que fora Dora quem o mandara ver como eu estava. 

-Foi Dora quem pediu para você vir, não foi?

-Foi, mas eu viria de qualquer jeito. Afinal, somos amigos, não somos? Ela me disse o quanto você era ligada à vó Duda, e... é importante para Dora que você e eu sejamos amigos, sem ressentimentos.

-Talvez ela queira ter certeza de que não vai rolar nada... (mais uma vez, envergonhei-me da minha falta de tato, e desculpei-me imediatamente).

Fred não respondeu, mudando de assunto:

-Mas a vida não parou, Eleanor. Daqui a pouco será Natal, e tenho certeza de que sua avó gostaria que vocês celebrassem a data juntos. A vida continua, sabe... e sempre que você precisar de um amigo para conversar, pode contar comigo.

Ele falou aquilo com tanta certeza que fiquei me perguntando o quanto Dora contara a ele sobre os problemas e segredos de nossa família. Ao mesmo tempo, senti que ele falava exatamente como se fosse um homem bem mais velho, tentando me dar conselhos e apontar o óbvio, usando os clichés que eram geralmente usados por pessoas comuns em situações como aquela. Fiquei com raiva dele, pois não gostava de ser tratada daquela forma. Sempre odiei clichés e opiniões de pessoas de fora sobre meus problemas, opiniões de quem não convivia comigo e queria me dizer o que fazer. Já tinha brigado com uma professora por causa daquilo: ela estava sempre tentando fazer perguntas sobre minha vida pessoal, em uma época em que minhas notas na escola estiveram baixas.

-Sabe Fred... eu tenho uma porção de pessoas com quem contar antes que eu precise contar com você. Mas obrigada mesmo assim.

Eu nem sabia direito porque dissera aquilo para ele. Mas eu disse, e fiquei vendo o constrangimento formar-se no rosto dele, enchendo seus olhos d’água, fazendo com que ele torcesse as mãos de tanto desconforto. Mas no fundo, eu sabia muito bem porque eu estava sendo cruel: meu orgulho estava ferido porque ele não me amava.

E eu amava aquele garoto. De uma forma violenta. Constrangedora. Absurda. Fossem ou não os sentimentos confusos de uma adolescente, eu o amava. E meu ressentimento por não ser amada de volta, me fazia dizer aquelas coisas. Quem sabe, a dor faria com que ele me notasse?

Mas eu sabia que tinha sido grosseira, e achei melhor não pedir desculpas novamente. Ao invés disso, mudei de assunto, poupando a ambos ainda mais constrangimento:

-Sinto muito por vocês terem sido desclassificados do programa.

Ele fez uma cara confusa:

-Como assim, desclassificados?

Fiquei atônita; ele não tinha lido o contrato? Insisti:

-Vocês abandonaram o programa, e então serão desclassificados. É parte das regras!

Ele riu, compreendendo, afinal, e respondeu:

-Não; passamos a noite gravando nossa última participação nesta fase. O diretor concordou. Foi muito cansativo e difícil, mas pudemos contar com o apoio e a compreensão de toda a equipe. Não seremos desclassificados, Eleanor. É por isso que Dora está tão cansada; nós não dormimos a noite toda. E pegamos o voo das cinco da manhã para chegar aqui a tempo, e viajamos uma hora de ônibus do aeroporto até o velório. 

Compreendi as olheiras profundas debaixo dos olhos de ambos. Saber que ainda estavam concorrendo me fez deparar com sentimentos confusos: Dora não estava de volta, afinal. Depois do Natal, eles iriam embora. Ela iria embora. Fiquei ressentida e feliz por ela ao mesmo tempo. Feliz também por ele. Mas triste por mim. Decepcionada. Confusa.

Confusa.

Minha cabeça doía, e eu disse a ele que eu também estava muito cansada, e precisava dormir. Ele se despediu com um beijo que queimou a minha testa, e que me fez sentir o calor dos lábios dele  na minha  pele até eu adormecer.
Acordei algumas meia hora depois com gente falando na sala de estar. Ainda zonza de sono, desci e deparei com a sala cheia de vizinhos e amigos, que traziam todo tipo de comida. Mamãe, papai, Tia Joana, Tia Maya, Tio Nestor, Érica e seus pais, Flora, Dora, Fred e até mesmo Davi estavam lá, recebendo as pessoas, levando tudo para a geladeira. Eu me sentei nos degraus e fiquei desfrutando aquele cenário, agradecida por ter pessoas tão bacanas em volta de nós. Mas eu não estava a fim de ser sociável. Quando todos foram embora, minutos depois, e ficamos apenas mamãe, papai, Dora e eu, desci as escadas e fui até a cozinha. Encontrei-os sentados à mesa, dividindo a refeição. Quando me viram, ergueram os olhos na minha direção, convidando-me a juntar-me a eles. 
Mamãe explicou-me que Tia Joana, Tio Nestor, Dora, Fred, Tia Maya e Davi estavam na outra casa. Achei melhor assim. Não queria ver Dora e Fred “arrulhando” um para o outro na minha frente. Na mesma hora, senti-me mesquinha por pensar daquela forma. Papai disse:

-Bem, gente... a vida continua. E nós vamos ter a nossa festa de natal aqui em casa, como fazemos todo ano. Convidaremos as mesmas pessoas. Será uma linda ocasião.

Protestei:

-Mas Vó Duda acaba de ser enterrada! Não acho conveniente que a gente comemore!

Mamãe disse:

-Querida... naquela mesma tarde, depois que você foi para o seu quarto, nós estávamos na sala conversando sobre isso, e vó Duda manifestou o desejo de que a festa fosse feita, caso ela morresse. Ela disse que queria ter o prazer de ver a família toda reunida, estivesse onde estivesse. Achei estranha aquela conversa... mas agora eu compreendo melhor.

Olhei para Flora, e ela concordou com a cabeça, dizendo que era verdade o que nossos pais diziam. Uma lágrima desceu pelo rosto dela, que parou de mastigar e disse, a bochecha ainda cheia de comida:

-Ela se despediu da gente, Eleanor... e a gente nem percebeu. Ela sabia que ia morrer ontem. Abraçou todo mundo. Pena que você não estava aqui em baixo.

Papai consolou-a:

-Não chore, minha menininha... tudo isso vai passar. Vamos tentar levar nossas vidas adiante. Vamos fazer o que ela tanto queria, e ficar unidos. Vocês sabem que Vó Duda foi  mãe que eu não tive. Nunca a vi como minha sogra, ela me recebeu de braços abertos e eu lamento muito pelas vezes em que a magoei... precisamos compensar por todos os erros que cometemos.

Eu estava achando aquela conversa toda patética. Parecia ser parte de um dramalhão mexicano. Vó Duda não era daquela maneira, ela não era de fazer dramas! Toda aquela lengalenga me irritava profundamente. Sem querer, ergui a voz:

-Mas o que está acontecendo com vocês? Nós não somos assim, tão... piegas! Vó Duda não era assim. O que deu nessa família? Acham que esse ar de arrependimento enganará Vó Duda, esteja ela onde estiver? 

Mamãe gritou:

-Cale-se, Eleanor! Você não respeita os sentimentos alheios?

-Respeito, quando são reais, mãe! Mas isso é patético! Olhem só pra vocês!

Saí correndo dali. Na minha cabeça, eu via minha mãe, uma manipuladora que enganara e continuava engando Tia Maya; meu pai, um homem que, por medo de mudar e assumir seus próprios sentimentos, permanecia ao lado de uma mulher que não amava mais, enquanto o grande amor de sua vida estava bem ali, se jogando nos braços de outro bem na sua frente; minha irmã, sempre tão forte, bancava a frágil garotinha. Tudo era mentira. 

Corri e corri, indo parar novamente na beira do rio onde eu sempre ia quando me sentia oprimida ou aborrecida com alguma coisa. A proximidade da água, o ruído calmante da correnteza, o canto dos passarinhos, a inocência da natureza, tudo me deixava mais calma. 

Eu me surpreendi ao encontrar Tio Nestor sentado na outra margem, pescando calmamente. Sozinho. 

Ele me viu, e era tarde demais para voltar e fingir que eu não o vira. Ele também percebeu que eu estava chorando, e vagarosamente, recolheu seu material de pesca, caminhando até onde eu estava – para meu desgosto, que tinha ido ali a fim de ficar sozinha. Tio Nestor era parte da família, mas nunca conversávamos muito. Ele era como se fosse parte do cenário, um a presença constante, alguém que estava sempre ali mas nunca participava de verdade. Calado, calmo, silencioso, avesso aos dramas familiares, quem sabe, indiferente a eles. Estranhei a presença dele ao meu lado, e nada disse. Deixei-o ficar ali. ele desenrolou a linha, colocou o anzol e jogou-o na água, sentando-se calmamente ao meu lado. Grunhiu, como era de costume:

-Você não anda nada bem, hein?

Não respondi. Como poderia estar bem com tudo o que estava acontecendo naquela família? E como ele poderia estar bem?

Ele ficou em silêncio. Vimos a rolha afundar na água, e ele ergue-se, enrolando a linha no carretel rapidamente, pegando um peixe dourado que se debatia. Senti pena do bicho, que lutava pela vida. Lembrei-me de quantas vezes eu comera os peixes pescados naquele rio sem nem sequer cogitar que para que eu os comesse, eles precisariam morrer antes, passando por todo aquele processo de lenta sufocação. Ele o colocou dentro do isopor. Num impulso, enfiei a mão lá e pegando-o, joguei-o de volta na água. O animal ainda deu um salto, as escamas brilhando aos últimos raios de sol, e nadou para longe. Eu tio me olhou, os olhos esbugalhados:

-Hey! O que foi isso, menina?

-Uma morte por dia é o bastante. Além disso, tem comida lá em casa que vai dar pra semana toda. Aposto que na casa de vocês também tem.

Ele riu, concordando com a cabeça.

-Na verdade, só vim aqui para relaxar. Muita tensão, sabe.

-É. Muita tensão.

-Tá chorando por causa da Vó Duda? Isso não vai trazê-la de volta.

-Eu sei, tio. Sabe, às vezes, você é um perfeito idiota.

Ele me olhou, rindo. Não parecia estar magoado comigo. Ao invés disso, respondeu, o tom de voz normal, de quem acaba de concluir um fato óbvio:

-Você também.

Aquela resposta me surpreendeu. Eu acabei caindo na risada. Ele desmanchou meus cabelos, passando a mão no alto de minha cabeça como se eu fosse uma garotinha. Endireitei meus cabelos. Olhei para ele, que começava a recolher sua tralha novamente:

-Já vai?

-Já. Fazer o que por aqui, se eu não posso pescar e você não está a fim de papo?

-Senta aí, tio. Por favor. 

Ele acabou de juntar as coisas, e sentou-se de novo. Os grilos já começavam a cantar, aproveitando o comecinho da noite.

-Logo vai escurecer, Eleanor. Precisamos ir. Ou isso aqui vai encher de morcegos. E mosquitos.

Dizendo aquilo, ele espantou alguns que voavam em volta da gente. Pegou o repelente na mochila, me dando um pouco, e espalhamos tudo na pele, fazendo os mosquitos se afastarem. 

-Tio, a Dora está muito apaixonada pelo Fred, não está?

-Parece que sim.

Ele não entrou em detalhes, e eu sabia que se eu perguntasse alguma coisa a mais, ele não me diria. Tio Nestor era assim: calado. Só falava o suficiente, o que era um arranjo bem adequado, pois Tia Joana falava pelos cotovelos. Mas para meu espanto, ele começou:

-Você queria saber se tem alguma chance com o Fred, não é? Pois eu acho que tem, Eleanor. E estou dizendo isso mesmo sabendo que a minha filha Dora poderá se machucar. Porque eu sinto que cedo ou tarde, é o que vai acabar acontecendo mesmo. O menino vive falando da namorada que morreu. Ele não a esqueceu. Tentei abrir os olhos de Dora, mas ela está cega de paixão. Joana também falou com ela, sabe, mas Dora acha que conseguirá fazer com que Fred esqueça a ex. mas é impossível competir com uma rival que já morreu, e que está ainda muito viva na memória de alguém que não quer esquecê-la. 

Ele fez uma breve pausa, e depois continuou:

-Joana foi arrumar as coisas dele na gaveta, e achou uma foto da menina morta entre as coisas dele. 

Achei aquilo bizarro. Senti pena de minha prima.

-Quem sabe, se você falasse com ela, ela ouviria você? sempre foram tão amigas...

Eu ri:

-É. Mas agora somos rivais... acho que não seria adequado tentar convencer Dora a tomar cuidado com o Fred, não é, tio?

Ele pensou um pouco antes de responder:

-Tem razão... mas eu acho que ele tem uma quedinha por você. Acho mesmo. Está fascinado pela Dora, por causa da música que ela faz. Mas ela não é a garota certa para ele. Eu não vejo os dois se acariciando ou se beijando. Ficam de mãos dadas como dois irmãozinhos, e ela contou à mãe que ele não... você sabe... durante todo esse tempo em que ficaram juntos e sozinhos, só namoraram. Não rolou nada entre eles. Talvez seja até por causa do programa, a imagem que eles tentam passar de casalzinho feliz. O marketing. 

-Será, tio? Mas... se isso for verdade, ela vai sofrer muito por ele!

-A gente não pode impedir quem a gente ama de sofrer. Faz parte da vida, do aprender a viver. 

Mas alguns minutos de silêncio, e ele disse:

-Eu já percebi a forma como Fred olha para você, e é bem diferente da forma como ele olha para a minha filha. Ele te olha com paixão. Uma paixão que poderia fazer com que ele esquecesse a outra.

Corei: aquela declaração, vinda de Tio Nestor, era no mínimo, inusitada. Com certeza, ele estava enganado. Eu disse aquilo a ele:

-Tio, você está errado. Só pode estar.

-Eu sou homem, e eu sei. Ele olha para você da mesma forma que...

Ele se calou, corando. Eu completei a frase:

-Da mesma forma que meu pai olha para Tia Maya, não é?

Ele concordou com a cabeça, levantando-se do chão e batendo o barro das calças. 
Me puxou pela mão:

-Vamos voltar para casa. Ainda tem muita água debaixo dessas pontes mal construídas, menina. Pontes que sua avó sedimentou, pensando ser o melhor para todo mundo. Mas agora que ela se foi, eu não sei se as estruturas vão suportar tanta água. Fique preparada, querida sobrinha. 

Eu sabia que ele estava coberto de razão. 






segunda-feira, 10 de outubro de 2016

FEITIÇOS DE AMOR – CAPÍTULO XI









FEITIÇO DE AMOR – CAPÍTULO XI




Na manhã seguinte, domingo, papai saiu e levou os cães junto com ele. Disse que passaria a manhã no rio, pescando, e Tio Nestor foi também. Joana, Maya e Flora foram juntas dar uma caminhada. Eu não quis ir, estava com preguiça. Vó Duda estava em seu quarto, ao telefone, conversando com alguém. Mamãe estava sozinha na cozinha, preparando o almoço, e acho que ela pensou que eu ainda estava em meu quarto, pois quando eu ia entrando na cozinha, escutei a voz dela ao telefone, e estanquei no corredor antes que ela pudesse me ver; escutei a conversa:

-Sim, Davi... certo. Eu disse que ela era maravilhosa! Fico feliz que tenham gostado um do outro... mas não se esqueça do que combinamos! Ela não pode saber, nunca! Sei... ok então... ela saiu para uma caminhada, mas logo estará de volta... sim, ela nos contou que passarão o dia juntos na fazenda... por favor, Davi, não a faça sofrer! Boa sorte. Até logo.

Eu estava estarrecida e muito confusa. Mamãe armara aquele encontro? Davi era alguém que ela arranjara para Tia Maya? Levei as mãos à cabeça, não querendo acreditar no que acabara de ouvir. Naquele instante, mamãe saiu da cozinha, e dando de cara comigo, entendeu logo que eu escutara a conversa. Ela ficou muito pálida, levando a mão ao peito e engolindo em seco:

-Filha... há quanto empo está aqui?

-Tempo suficiente, mãe. Eu ouvi tudo. Não posso acreditar que você tenha feito isso. Não quero acreditar!

Ela me puxou para a cozinha, fechando a porta, e me obrigou a sentar-me à mesa, em frente a ela:

-Não é o que você está pensando, Eleanor! 

-“Não é o que você está pensando, Eleanor!” Acha que sou imbecil, mãe? Você arranjou esse cara para Tia Maya!

-Fale baixo, por favor. Ninguém deve saber, filha...

Mamãe parecia desesperada, e baixei o tom de voz:

-Você vai ter que desfazer o que fez, mãe. Tia Maya não merece isso. Quando vai parar de tentar manipular os acontecimentos? Será que não vê que sua interferência na vida alheia não é saudável? Nossa... parece que a mãe aqui sou eu, e você, a filha irresponsável que precisa de limites!

Ela ergueu  a mão em frente ao rosto, num gesto que pedia silêncio, e gaguejou:

-Você precisa ficar quieta, Eleanor, e me deixar explicar tudo, e então vai entender que agi da melhor forma possível para todos! Seu pai não esqueceu Maya, ele próprio me confessou que ela ainda mexe com ele. 

Meu queixo caiu; como papai podia ter dito aquilo a ela? Achei muita falta de tato, mas mamãe insistia que ele só tinha sido sincero, e que ela dever dela salvar aquela família, e aquele casamento, fazendo o que era melhor para todos. 

-Eu entrei em um site de relacionamentos e cadastrei Maya. Eu me passei por ela, e quando encontrei Davi, que eu já conhecia de ouvir falar, começamos a conversar. Ele se interessou pelas fotos. Na primeira conversa, expliquei que eu não era Maya, mas que éramos primas e eu estava tentando arranjar alguém para ela, pois ela estava muito só. Conversamos mais duas vezes, contei-lhe coisas sobre ela, mostrei mais fotos. Ele disse que gostaria de conhece-la pessoalmente, e então eu combinei tudo. Ele me prometeu que ela nunca ficaria sabendo de nada, e que se eles não se gostassem pessoalmente, ele se afastaria sem dizer nada a ela. Mas tudo deu certo, ela gostou dele, e ele acaba de me dizer que adorou Maya! 

Eu não estava acreditando no quanto minha própria mãe podia ser manipuladora, e ainda usar aquela conversa de “Fiz o melhor para todos”  para se justificar. Segredos nunca davam certo, ela mesma tinha me ensinado aquilo! Um dia, se Davi realmente se apaixonasse por minha tia, ele iria contar a verdade a ela, pois nenhum relacionamento que começa com uma mentira poderá dar certo. E então, o que seria de minha mãe e seu casamento? E quando papai ficasse sabendo?

-Mãe, você precisa contar a verdade a ela. Não é justo o que você está fazendo com ela de novo! Vó 
Duda vai ficar uma fera!

-Não, se ela não souber de nada! E se esta for a oportunidade de Maya ser feliz? Você vai atrapalhar? 

Ela endureceu a voz:

-Eu te proíbo de contar alguma coisa a Maya ou a quem quer que seja, ou de tocar nesse assunto comigo novamente, Eleanor! Eu sou sua mãe e você tem que me obedecer!

Depois daquilo, eu compreendi que precisava sair da presença dela, ou acabaria dizendo alguma coisa que a feriria profundamente. Os pensamentos e palavras que passavam pela minha cabeça emaranhavam-se uns aos outros, formando frases horríveis de se dizer e de se escutar. Levantei-me, e saí da cozinha pisando duro. Precisava ficar sozinha, pensar um pouco. Enquanto saía da casa, encontrei com minhas tias e Flora voltando da caminhada. As três riam alto, e Tia Maya parecia a mais feliz de todas. As faces rosadas, as gargalhadas, o rabo-de-cavalo, tudo dava a ela um ar quase infantil que eu ainda não conhecia. Elas passaram por mim, e Flora me puxou:

-Vamos tomar café juntas!

Me deixei ser levada por ela. De volta à cozinha, olhei para mamãe e a tensão da conversa que acabáramos de ter parecia tê-la deixado completamente. Parecia serena, calma, sentando-se para o café da manhã como se nada tivesse acontecido. Aquilo fez com que um arrepio de medo percorresse a minha espinha. Quem era a mulher que eu crescera aprendendo a chamar de mãe, afinal? 

Depois daquilo, tomei uma decisão: iria para a faculdade. Estudaria muito, me dedicaria 24 horas por dia para que pudesse sair daquela casa o mais rapidamente possível. Desisti do meu ano sabático, pois eu não sabia o que poderia acontecer se eu tivesse que ficar ali, com o peso daquele segredo horrível sobre os ombros. Precisava me afastar. 

Senti muita falta de Dora, pois se ela estivesse ali, poderia me ajudar. Ela saberia me dizer o que fazer. Ela me ouviria, e eu poderia contar com sua discrição e seu silêncio. Ela dividiria aquele peso comigo, e eu poderia me sentir mais leve e tranquila. 
E ela estaria chegando na semana seguinte para o Natal. Eu aguentaria até lá?

Sabia que contar tudo à Flora, a rainha da indiscrição, seria o mesmo que colocar aquilo no jornal; ela acabaria dando com a língua nos dentes sem querer. Não sabia ser discreta, sempre dizia exatamente o que pensava. Eu precisaria aguentar calada até a chegada de minha prima e amiga. E ainda teria que lidar com a provável presença de Fred, que sabia o que eu sentia por ele, mas que tinha preferido ficar com Dora. Provavelmente, os dois falavam de mim, e quem sabe, diriam o quanto sentiam pensa de mim por causa de tudo aquilo... Dora diria a ele que eu era sua melhor amiga, que desistiria dele para que pudéssemos ficar juntos, mas ele responderia: “Não, Dora, é a você que eu amo!” E os dois se beijariam, e ela talvez chorasse por mim... aquelas cenas mentais me irritavam, pois minha imaginação era forte, o que fazia com que elas fossem bem reais. Eu conseguia ver as cenas que imaginava com clareza, e me sentia muito ferida com as situações que só estavam acontecendo, quem sabe, dentro de minha a cabeça. 

Era muita coisa para lidar sozinha. E a doença de Vó Duda. Se ela fosse embora, eu não tinha certeza se minha mãe seria capaz de manter tudo em ordem. Achava que ela faria a família se desmoronar com seus ciúmes, segredos e manipulações. Vó Duda era o freio que a impedia de fazer besteiras. Era a cola que mantinha nossa família unida. Era a palavra sensata nas horas de incertezas. 

De repente, meu coração deu um salto: e se mamãe tivesse feito algum feitiço para que Tia Maya se apaixonasse por Davi, e vice-versa? Não... aquilo seria demais, simplesmente demais para eu suportar. Ela me proibira de voltar a tocar naquele assunto, mas eu sabia que teria que perguntar aquilo a ela. Não poderia conviver com aquela dúvida para o resto dos meus dias. 

E eu tinha medo de não suportar guardar aquele segredo, e a única saída, era se eu me afastasse. Se eu fosse para algum lugar bem longe dali, longe de todos, seria bem mais fácil. Eu teria que ir estudar em outra cidade. Faria dezessete anos em janeiro. Papai tinha que permitir.

Enquanto todos aqueles pensamentos martelavam minha mente, a conversa na cozinha era animada e alegre. Olhei para Tia Maya, que nem suspeitava da armação da qual estava sendo vítima. Logo, Vó Duda juntou-se a elas, e começaram a preparar o almoço. Tia Joana colocou uma música alegre no aparelho de som, e entre danças e risadas, as saladas e a massa ficaram prontas. Mas na hora do almoço, quando estávamos todos reunidos à mês e Tutti e Greco, cansados do passeio, dormiam em suas caminhas num canto da cozinha, eu não consegui comer direito. Aleguei uma indisposição e fui para o quarto, a cabeça girando, e uma forte dor de cabeça começou.
Meia hora depois, papai veio ter comigo, e encontrando as cortinas cerradas naquele lindo dia de sol, sentou-se ao meu lado, colocando sua mão sobre meu braço. Eu estava deitada, de olhos fechados, e continuei daquela forma, com medo de encará-lo, fazendo-o perceber que eu escondia algo. Mas até mesmo eu estando de olhos fechados, papai me conhecia muito bem. Ouvi quando ele puxou a respiração, e vi que a conversa seria longa, se eu não fosse esperta.

-O que houve, Eleanor? Você ficou calada a tarde toda, e mal tocou na comida. E eu sei que você  adora lasanha.  Está aflita com a chegada de sua prima?

Achei que aquela desculpa, oferecida de bandeja naquele momento, seria perfeita, e abri os olhos:

-Sim, pai. Não sei como ela me receberá, ou como vou encarar Fred depois de tudo... sabe, ele sabe que eu sou apaixonada por ele.

Ele derramou ternura sobre mim através do olhar:

-Sabe, filha, nessa idade, tudo parece ser muito intenso, muito forte. Ele é só a primeira pessoa por quem você se apaixona de verdade, e acredite, outros virão. logo, Você vai entender que existem outros garotos bacanas e que combinam muito mais com você, e vai encontrar um que a ame de volta. 
É muito melhor amar quando somos amados de volta, sabe?

-Eu balancei a cabeça, concordando, e voltei a fechar os olhos:

-Você tem razão, pai, mas é mais fácil falar do que fazer, não é? A gente não escolhe quem a gente ama.

Eu não pretendia soar sarcástica, mas foi o que acabou acontecendo. Abri um dos olhos, e vi que o tinha ferido. A veia em sua têmpora pulsava, e seus lábios encurvaram-se levemente para baixo. Na hora, me arrependi, mas o que foi dito não pode ser recolhido.

-Tem razão, filha. A gente não escolhe quem ama, mas as circunstâncias nos ensinam o que é melhor para nós, e para todos.

-Como assim?

-É que... a gente segue por um caminho por tempo demais, e quando olhamos para trás, é tarde para voltar e começar tudo de novo, se é que você me entende. Portanto, procure não errar, não ferir as pessoas que ama, e seja generosa com elas, sempre. 

-Mesmo que isso signifique ser infeliz, pai?

Ele sorriu, tristemente, baixando os olhos:

-E o que é que você entende de felicidade, sua molequinha? Como é possível ser feliz sabendo que magoou uma porção de pessoas, ou então ao menos uma pessoa que a gente ama? Vamos lá para baixo. Vamos jogar cartas e assistir a um filme.

-Não, pai, eu estou com muita dor de cabeça. 

-Quer um comprimido?

-Quero.

E assim a nossa conversa terminou. Ele me trouxe um comprimido, que eu tomei, e adormeci logo em seguida.

Acordei duas horas mais tarde com uma chuva forte caindo lá fora. O quarto estava escuro devido às cortinas cerradas, e olhando pela greta, vi que a tempestade era tão forte, que a calçada estava escura, apesar de ainda ser cinco da tarde, e não havia eletricidade. Acendi a lanterna do celular e desci as escadas, livre da dor de cabeça e sentindo fome, apesar de enjoada por causa do remédio tomado com o estômago vazio.  A sala estava vazia e escura. Concluí que Tia Joana e Tio Nestor tinham ido para casa, e o resto da família estava tirando uma soneca após o dia movimentado.  Eu ia me encaminhando para a cozinha, quando deparei com um vulto escuro no sofá. Dei um pulo, assustada, mas logo me tranquilizei quando percebi que era vó Duda quem estava lá. Ela parecia profundamente adormecida, e chamei por ela. Nada de resposta. Chamei mais uma vez, e como ela não respondeu, peguei a manta que estava na poltrona e cobri seu corpo, pois a tarde tinha esfriado um pouco por causa da chuva. O perfume suave do talco floral que ela usava veio às minhas narinas. 

Cheguei à cozinha e devorei a lasanha que sobrara com um copo de refrigerante e salada. Saciada a minha fome, coloquei os pratos na pia, e direcionando a luz da lanterna para lá, passei a lavar a louça. A luz voltou quando eu estava enxugando tudo. Ouvi passos na sala, que estancaram de repente, e achei que era Vó Duda indo para o seu quarto, mas o grito que escutei a seguir fez com que eu deixasse o prato que eu enxugava cair, despedaçando-se contra o piso frio. Os cães ergueram as cabeças, e começaram a latir. Gritei para que se calassem e fui correndo para a sala, de onde ouvira Flora gritar. O trajeto até lá parecia ter acontecido em câmera lenta. Tudo não passou de alguns segundos, mas jamais esquecerei aquele momento, e o que vi quando cheguei lá.

Flora estava pálida, as mãos cobrindo a boca. Papai e mamãe, sonolentos, desciam as escadas correndo, seguidos por Tia Maya. No sofá, Vó Duda, de olhos e boca arregalados e o rosto branco feito cera, nos fitava: ela estava morta. Eu cobrira o corpo dela, há apenas meia hora. Mamãe abraçou Flora, passando os braços em volta de seus ombros e levando-a dali. Tia Maya sentou-se ao lado de Vó Duda, chorando muito, e levou a mão aos olhos dela, fechando-os, enquanto papai, as mãos na cabeça, andava de um lado ao outro da sala. Eu estava parada à porta, os olhos fixos naquela cena dantesca, e a única coisa que me vinha à cabeça, eram as palavras de minha colega, Érica: “Às vezes, as pessoas tem uma melhora repentina antes de morrer.”  Apesar da falta de tato daquelas palavras, elas eram muito verdadeiras.





segunda-feira, 3 de outubro de 2016

FEITIÇOS DE AMOR – PARTE X








Dora foi aprovada, e estava concorrendo. Era uma das candidatas mais fortes. Pelo menos, é o que diziam as revistas e sites de fofocas. Todos comentavam sobre o jovem casal, tão apaixonados um pelo outro, que o amor deles borbulhava nas músicas e nas interpretações. Eram o casalzinho mais querido do Brasil. Iam a programas de entrevistas, apresentavam-se nas tardes de domingo cantando juntos nos programas da emissora que transmitia o programa e mesmo antes do final, já choviam convites de gravadoras que queriam contratá-los. A vida de Dora já estava definida, e ela seria longe de mim. Longe de Rio Verde. Ao lado de Fred. 

Dora recebera tratamentos de beleza. Perdera bastante peso e teve o cabelo clareado, ganhando um novo corte que afinou seu rosto. Os olhos azuis foram destacados com cílios que davam-lhe um ar de boneca, e a maquiagem deixava a pele de seu rosto perfeita como porcelana. Ela estava linda. ela era famosa e talentosa. Ela estava feliz.

Na nossa casa, todos se reuniam nas noites de quarta-feira para assistir ao programa, e a cada vez, ficava mais claro que Dora sairia vencedora. Apenas uma outra dupla era páreo para eles, mas os dois não eram um casal, e por isso, eram bem menos glamorosos. 

Tia Joana e Tio Nestor não cabiam em si de tanto orgulho e contentamento, e mamãe e Tia Maya partilhavam aqueles momentos com eles e com Vó Duda, que parecia estar cada vez melhor – por mais incrível que aquilo pudesse ser. Érica, uma colega da escola com quem mantive contato, dizia que era muito comum as pessoas melhorarem de repente antes de partir. Ela não era exatamente inteligente ou sensível, mas era o melhor que eu conseguira ter para substituir Dora. 

Eu tinha conversado com meus pais sobre meu ano sabático, e eles concordaram – contanto que eu trabalhasse meio expediente na loja todos os dias, de segunda à sexta-feira, e continuasse aprendendo inglês. Concordei. Não estava com cabeça para os estudos. Talvez trabalhar me fizesse bem. 

Eu e Tia Maya nos tornamos grandes amigas, e passávamos bastante tempo juntas, com a aprovação de meus pais. Eu sabia que mamãe sentia ciúmes de nosso relacionamento, pois Tia Maya passou a ser a minha maior confidente, enquanto Flora continuava a preferir a companhia de mamãe. Mesmo assim, ela dizia que aprovava que eu e Tia Maya fôssemos amigas, embora temesse que eu me apegasse demais; afinal, um dia ela iria ter que voltar para sua vida. Mamãe pensava que eu já tinha sofrido uma grande perda com a ausência de Dora e o meu primeiro amor que fracassara, e não queria que eu sofresse de novo.

E em breve seria Vó Duda... mas por incrível que pareça, ela não estava com cara de quem ia morrer. Ninguém sabia explicar o que estava acontecendo, nem ela própria; só dizia que a proximidade da morte a estava deixando cada vez mais forte.
Em um dia no qual a acompanhei a uma consulta médica, acabei olhando em um documento e descobrindo sua idade: Vó Duda tinha setenta e um anos. Se estivesse saudável, ainda poderia viver muito, pois eu sempre ouvia histórias que diziam que as mulheres da nossa família eram geralmente muito longevas. Uma tia-avó de mamãe vivera até os cento e cinco anos.

Papai e mamãe pareciam mais unidos. Depois que ela parou de hostilizar Tia Maya, o relacionamento deles melhorou bastante, pois ele sentiu mais segurança nela. Segurança atrai segurança, acho. Quem se ama desperta amor mais facilmente. E mamãe aprendera a cuidar mais dela mesma.
Quando o natal se aproximou, mamãe, Tia Maya e Tia Joana foram juntas ao shopping para fazer as compras de natal, e levaram a mim e Flora com elas. Passamos um dia muito divertido, cinco mulheres experimentando e comprando roupas e sapatos, fazendo as unhas e cuidando dos cabelos. 

Almoçamos juntas na praça de alimentação, e notei que todo mundo olhava para a nossa mesa – especialmente os homens. Eles pareciam moscas pousadas no mel, de tanto que nos olhavam. Alguns estavam acompanhados, e as suas mulheres começaram a ficar com ciúmes. Nós cinco ríamos, estávamos felizes. Consegui ficar um dia inteiro sem sofrer por causa de Fred. Me sentia linda novamente, com o novo corte de cabelo em camadas. Mamãe dizia que eu estava parecida com uma atriz famosa dos anos 70 chamada Farrah Fawcett. Olhei no Google mais tarde, e fiquei pasma: estava mesmo. Eu me sentia realmente bonita e confiante novamente. 

Mas minha autoconfiança quase foi embora quando Tia Joana anunciou, na voz um tom entusiasmado:

-Ah, quase ia me esquecendo: tenho uma surpresa para vocês! Dora vem para casa no Natal. Serão só três dias, pois eles precisam se preparar para a nova fase, mas pelo menos, terei minha menina aqui!
Todas ficaram contentes, desmanchando-se em ‘ahs’ e ‘ohs.’ Só eu parecia ter engolido um sapo que estava entalado na minha garganta. Será que Fred viria junto com ela, ou iria para a casa dele? Se ele viesse, qual seria a minha reação? E como seria rever Dora após um mês de ausência, agora que ela parecia ser outra pessoa e agia como tal? É claro que trocáramos mensagens rápidas pelo telefone, já que ela parecia estar ocupada o tempo todo com o programa (e com Fred, é claro), e a nossa amizade estava um tanto alquebrada, tanto pela distância quanto por causa do nosso último encontro. Revê-la me deixava nervosa. Quem seria a menina que voltaria para casa? E quem seria eu, a menina que ficou, diante dela?

Eu estava tão entretida com meus pensamentos que quase dei um pulo quando Flora me cutucou e com o olhar indicou um senhor algumas mesas distante da nossa, que parecia estar completamente fascinado por Tia Maya, e não conseguia tirar os olhos dela. Logo, mamãe percebeu os olhares dele, e chamou a atenção de Tia Maya:

-Parece que você está fazendo uma conquista... e ele não é nada mau. Nada mau mesmo.

Tia Maya seguiu nossos olhares, e deparou com o homem bonito e grisalho, parecendo muito distinto, que a fitava, e naquele momento, ele ergueu seu copo de papel com refrigerante e sorriu para ela, que baixou os olhos, mas não conseguiu deixar de sorrir de volta. Pensei no quanto eles pareciam ser dois adolescentes, mesmo ele aparentando estar na casa dos cinquenta anos, e ela em seus quarenta. A situação foi ficando cada vez mais óbvia. De repente, Tia Joana sugeriu:

-E se fôssemos todas embora, e Maya ficasse? Talvez ele viesse falar com ela.

Tia Maya, apavorada, respondeu:

-Por favor, não façam isso... já faz tanto tempo desde a última vez que eu... (e ela sem querer olhou para mamãe, que fingiu não ter notado que a última vez de Tia Maya fora com papai). Ao invés disso, ela incentivou:

-Ora, ele é bonitão.

Tia Maya concordou com a cabeça, e com os olhos. Na verdade, o tal homem não era apenas bonitão: ele era um arraso! Ela também não parava de olhar para ele. Finalmente, após mais algumas conversas e risadas, ela anunciou:

-Meninas... vão para casa sem mim. Por favor, levem minhas compras, acho que vou mais tarde. 
E ela chegou bem mais tarde, para surpresa de todos. Parecia estar nas nuvens. Quando chegou, estávamos terminando o jantar. Tia Joana e Tio Nestor estavam jantando conosco. Todo mundo tinha prestado atenção à reação de papai quando mamãe anunciou que Tia Maya tinha um paquera no shopping. Ele apenas sorrira, erguendo as sobrancelhas e dizendo que seria bom se ela arranjasse alguém. Então, mudou de assunto.

Vó Duda parecia feliz, e durante a sobremesa, disse:

-Eu estou realmente muito feliz por ver vocês tão unidas... minhas três filhas, amigas, comemorando a vida, indo ao shopping, fazendo compras juntas. Não sabem o quanto isso me deixa feliz.

E ela chorou. Ficamos todos surpresos, pois nunca tínhamos visto Vó Duda chorar em público, nem mesmo no enterro de vovô. Mamãe dizia que ela era sempre muito forte. Mamãe, que estava sentada mais perto dela, colocou a mão sobre a dela, e do outro lado, Tia Maya fez a mesma coisa.

Ao término do jantar, as louças sujas ficaram para mim e para Flora. Os outros foram para a sala de TV a fim de assistir a um filme que Tio Nestor alugara. Flora estava quieta e muito séria, o que não era nada normal. Minha irmã estava sempre falando alguma coisa, ou rindo de alguma coisa. Olhei para ela, enquanto enxugava a louça: ela tinha crescido. Estava com um ar mais ‘mulher.’ Trocara o corte Chanel por um repicado moderno, mais curto, o que lhe emprestara um ar mais jovial, menos sério. Flora estava mais alta. As unhas pintadas de preto e a camiseta preta com uma estampa dourada de uma banda de rock no centro – presente de um amigo oculto roqueiro da escola - davam a ela um ar mais dramático. Minha irmã estava linda. Arrisquei:

-Um centavo por seus pensamentos.

Ela bufou, virando os olhos:

-Uf! Que coisa mais antiga. Parece a Vó Duda falando. Além disso, meus pensamentos valem bem mais do que apenas um centavo. 

E continuou enxugando a louça. Mas logo disse:

-Sabe... essa coisa de Vó Duda estar melhorando enquanto morre. Não é estranho? 

-Cale essa boca, Flora! Você tem sempre que dizer o que pensa de forma tão rasgada? Não dá pra ser mais sutil?

-Tá bom, você entendeu, não entendeu? E o que você acha disso tudo?

Acabei de enxaguar um copo, pensativa.

-Eu acho que coisas assim podem acontecer. Sabe, eu li que o câncer é mais vagaroso nas pessoas mais velhas, porque elas tem o metabolismo mais lento. Podem viver anos com ele. Talvez esta seja a resposta. 

Ela ficou calada, e percebi logo que tinha alguma coisa que ela queria me dizer, mas estava com receio. 

-Vai, desembucha. O que você quer dizer, Flora?

Ela pendurou o pano molhado sobre a tampa de vidro do fogão. Colocou a mão na cintura:

-Eu... fiz uma coisa. Lembra o que você me falou quando a Dona Fernanda invadiu nossa casa de madrugada? 

Pensei um pouco antes de responder, mas nada me veio à memória. 

-Não. O que eu falei?

-Você me desafiou; disse que se feitiços realmente funcionavam, por que eu e mamãe  não fazíamos um para curar Vó Duda. Lembra?

Eu me lembrei daquela fala imediatamente. Ela ergueu a cabeça, dizendo:

-Pois é. Eu fiz um. 

-O que? Tá delirando, Flora? Acha mesmo que pode curar alguém de câncer?

-Não. Mas ninguém pode negar o fato de que ela está melhorando. E você sabe que o marido da Dona Fernanda voltou para casa na manhã seguinte, igualzinho mamãe disse que aconteceria se ele tivesse sido vítima de feitiço. 

-É. Não posso negar. Mas pode ter sido coincidência.

Ela bufou, e bateu na perna com raiva:

-Putz! Será que você tem que ser sempre tão cética? Quando não quer admitir uma coisa, você tem sempre um argumento na manga, mesmo que ele seja totalmente furado! O fato é que alguma coisa está acontecendo. Ou será impressão minha?

Eu neguei:

-Não, não é impressão sua. De repente, os remédios estão fazendo efeito. 

-Os remédios que ela toma são apenas paliativos, não agem sobre o câncer. E ela desistiu de ir às consultas médicas, pois disse que elas a faziam se sentir pior.

Tive que concordar; há mais de uma semana, vó Duda deixara de ir às consultas, alegando que o pessimismo dos médicos, e suas caras de piedade, a deixavam bem mal. Anunciou que, se estava mesmo morrendo, ela o faria de forma natural, sem angústias desnecessárias. 

Terminamos a louça, guardamos tudo e nos juntamos à família na sala de TV. O filme foi realmente muito bom, e acabamos assistindo a outro, e no final, todos estávamos cansados e sonolentos. Tia Joana e Tio Nestor foram para casa, Vó Duda e mamãe se recolheram e Flora, como sempre, adormeceu no sofá. Ficamos eu e papai na sala de TV. Ele achava que eu estivesse adormecida na poltrona, e deixei que ele pensasse assim.  Ele se serviu de um pouco de uísque com gelo. Sentou-se na poltrona em frente a minha e ficou olhando para o chão, completamente perdido em seus pensamentos. O relógio na parede marcava uma e trinta da manhã. 

Eu sabia exatamente em quem ele estava pensando.

Ouvi barulhos na cozinha, e vi quando papai passou por mim, indo para lá. Sentei-me, apurando os ouvidos, pois eu achei que aconteceria alguma conversa que eu precisava ouvir. Logo percebi que era Tia Maya que tinha ido buscar um pouco de água. Escutei as vozes deles conversando; papai disse:

-Fico feliz, Maya, que você tenha encontrado alguém.

Ela demorou um pouco a responder:

-Na verdade, acabei de conhece-lo. Não posso dizer que estamos namorando. Fomos jantar, conversamos um pouco... Davi parece ser alguém bacana.

-Ah... o nome dele é Davi.

Senti um tom de ciúmes, um tanto sarcástico na voz de meu pai, e aquilo me preocupou. Tia Maya disse, tentando manter um tom animado na voz, ignorando o sarcasmo de papai:

-Sim! Ele é empresário, no ramo de café, e tem uma fazenda a alguns quilômetros daqui. 

Combinamos de ir juntos lá amanhã para que eu possa conhecer tudo.

-Como assim? Você vai se meter em um lugar distante com um total desconhecido, Maya?

-Vou sim. Já sou bem grandinha, não se preocupe!  Os conhecidos já me causaram muitos problemas. E Davi não é um desconhecido. Enquanto conversávamos no restaurante, o prefeito da cidade se aproximou da nossa mesa e cumprimentou-o. Os dois são velhos amigos, sabe. E o proprietário do restaurante também parecia conhece-lo há muito tempo. Ele não é um estranho. 
Papai não respondeu. Maya desejou-lhe boa noite, mas quando ela ia saindo da cozinha, eu espiei e vi que papai segurou-a pelo braço, quase fazendo com que ela entornasse o copo d’água que estava levando:

-Maya, eu... eu queria que você soubesse que...

Ela desencilhou-se dele, dizendo:

-É melhor que você se cale, Berto. Eu não quero saber. Melhor assim. Boa noite.

Ela começou a subir as escadas e papai ficou lá, observando-a. Depois, ele passou as mãos pelo cabelo e quase não deu tempo de eu fingir que continuava dormindo; tive que me jogar de volta no sofá: ele entrou na sala de TV, e bebendo o que restava do seu uísque, serviu-se mais duas vezes, engolindo tudo rapidamente, e depois de acordar minha irmã e eu, que fingi estar despertando naquele momento, fomos todos juntos para os nossos quartos. 

Na manhã seguinte, domingo, papai saiu e levou os cães junto com ele. Disse que passaria a manhã no rio, pescando, e Tio Nestor foi também. Joana, Maya e Flora foram juntas dar uma caminhada. Eu não quis ir, estava com preguiça. Vó Duda estava em seu quarto, ao telefone, conversando com alguém. Mamãe estava sozinha na cozinha, preparando o almoço, e acho que ela pensou que eu ainda estava em meu quarto, pois quando eu ia entrando na cozinha, escutei a voz dela ao telefone, e estanquei no corredor antes que ela pudesse me ver; escutei a conversa:

-Sim, Davi... certo. Eu disse que ela era maravilhosa! Fico feliz que tenham gostado um do outro... mas não se esqueça do que combinamos! Ela não pode saber, nunca! Sei... ok então... ela saiu para uma caminhada, mas logo estará de volta... sim, ela nos contou que passarão o dia juntos na fazenda... por favor, Davi, não a faça sofrer! Boa sorte. Até logo.

Eu estava estarrecida e muito confusa. Mamãe armara aquele encontro? Davi era alguém que ela arranjara para Tia Maya? Levei as mãos à cabeça, não querendo acreditar no que acabara de ouvir. Naquele instante, mamãe saiu da cozinha, e dando de cara comigo, entendeu logo que eu escutara a conversa. Ela ficou muito pálida, levando a mão ao peito e engolindo em seco:

-Filha... há quanto empo está aqui?

-Tempo suficiente, mãe. Eu ouvi tudo. Não posso acreditar que você tenha feito isso. Não quero acreditar!

Ela me puxou para a cozinha, fechando a porta, e me obrigou a sentar-me à mesa, em frente a ela:

-Não é o que você está pensando, Eleanor! 

-“Não é o que você está pensando, Eleanor!” Acha que sou imbecil, mãe? Você arranjou esse cara 
para Tia Maya!

-Fale baixo, por favor. Ninguém deve saber, filha...

Mamãe parecia desesperada, e baixei o tom de voz:

-Você vai ter que desfazer o que fez, mãe. Tia Maya não merece isso. Quando vai parar de tentar manipular os acontecimentos? Será que não vê que sua interferência na vida alheia não é saudável? Nossa... parece que a mãe aqui sou eu, e você, a filha irresponsável que precisa de limites!

Ela ergueu  a mão em frente ao rosto, num gesto que pedia silêncio, e gaguejou:

-Você precisa ficar quieta, Eleanor, e me deixar explicar tudo, e então vai entender que agi da melhor forma possível para todos! Seu pai não esqueceu Maya, ele próprio me confessou que ela ainda mexe com ele. 

Meu queixo caiu; como papai podia ter dito aquilo a ela? Achei muita falta de tato, mas mamãe insistia que ele só tinha sido sincero, e que ela dever dela salvar aquela família, e aquele casamento, fazendo o que era melhor para todos. 

-Eu entrei em um site de relacionamentos e cadastrei Maya. Eu me passei por ela, e quando encontrei Davi, que eu já conhecia de ouvir falar, começamos a conversar. Ele se interessou pelas fotos. Na primeira conversa, expliquei que eu não era Maya, mas que éramos primas e eu estava tentando arranjar alguém para ela, pois ela estava muito só. Conversamos mais duas vezes, contei-lhe coisas sobre ela, mostrei mais fotos. Ele disse que gostaria de conhece-la pessoalmente, e então eu combinei tudo. Ele me prometeu que ela nunca ficaria sabendo de nada, e que se eles não se gostassem pessoalmente, ele se afastaria sem dizer nada a ela. Mas tudo deu certo, ela gostou dele, e ele acaba de me dizer que adorou Maya! 

Eu não estava acreditando no quanto minha própria mãe podia ser manipuladora, e ainda usar aquela conversa de “Fiz o melhor para todos”  para se justificar. Segredos nunca davam certo, ela mesma tinha me ensinado aquilo! Um dia, se Davi realmente se apaixonasse por minha tia, ele iria contar a verdade a ela, pois nenhum relacionamento que começa com uma mentira poderá dar certo. E então, o que seria de minha mãe e seu casamento? E quando papai ficasse sabendo?

-Mãe, você precisa contar a verdade a ela. Não é justo o que você está fazendo com ela de novo! Vó Duda vai ficar uma fera!

-Não, se ela não souber de nada! E se esta for a oportunidade de Maya ser feliz? Você vai atrapalhar? 

Ela endureceu a voz:

-Eu te proíbo de contar alguma coisa a Maya ou a quem quer que seja, ou de tocar nesse assunto comigo novamente, Eleanor! Eu sou sua mãe e você tem que me obedecer!

Depois daquilo, eu compreendi que precisava sair da presença dela, ou acabaria dizendo alguma coisa que a feriria profundamente. Os pensamentos e palavras que passavam pela minha cabeça emaranhavam-se uns aos outros, formando frases horríveis de se dizer e de se escutar. Levantei-me, e saí da cozinha pisando duro. Precisava ficar sozinha, pensar um pouco. Enquanto saía da casa, encontrei com minhas tias e Flora voltando da caminhada. As três riam alto, e Tia Maya parecia a mais feliz de todas. As faces rosadas, as gargalhadas, o rabo-de-cavalo, tudo dava a ela um ar quase infantil que eu ainda não conhecia. Elas passaram por mim, e Flora me puxou:

-Vamos tomar café juntas!

Me deixei ser levada por ela. De volta à cozinha, olhei para mamãe e a tensão da conversa que acabáramos de ter parecia tê-la deixado completamente. Parecia serena, calma, sentando-se para o café da manhã como se nada tivesse acontecido. Aquilo fez com que um arrepio de medo percorresse a minha espinha. Quem era a mulher que eu crescera aprendendo a chamar de mãe, afinal? 

Depois daquilo, tomei uma decisão: iria para a faculdade. Estudaria muito, me dedicaria 24 horas por dia para que pudesse sair daquela casa o mais rapidamente possível. Desisti do meu ano sabático, pois eu não sabia o que poderia acontecer se eu tivesse que ficar ali, com o peso daquele segredo horrível sobre os ombros. Precisava me afastar. 

Senti muita falta de Dora, pois se ela estivesse ali, poderia me ajudar. Ela saberia me dizer o que fazer. Ela me ouviria, e eu poderia contar com sua discrição e seu silêncio. Ela dividiria aquele peso comigo, e eu poderia me sentir mais leve e tranquila. 

E ela estaria chegando na semana seguinte para o Natal. Eu aguentaria até lá?

Sabia que contar tudo à Flora, a rainha da indiscrição, seria o mesmo que colocar aquilo no jornal; ela acabaria dando com a língua nos dentes sem querer. Não sabia ser discreta, sempre dizia exatamente o que pensava. Eu precisaria aguentar calada até a chegada de minha prima e amiga. E ainda teria que lidar com a provável presença de Fred, que sabia o que eu sentia por ele, mas que tinha preferido ficar com Dora. Provavelmente, os dois falavam de mim, e quem sabe, diriam o quanto sentiam pensa de mim por causa de tudo aquilo... Dora diria a ele que eu era sua melhor amiga, que desistiria dele para que pudéssemos ficar juntos, mas ele responderia: “Não, Dora, é a você que eu amo!” E os dois se beijariam, e ela talvez chorasse por mim... aquelas cenas mentais me irritavam, pois minha imaginação era forte, o que fazia com que elas fossem bem reais. Eu conseguia ver as cenas que imaginava com clareza, e me sentia muito ferida com as situações que só estavam acontecendo, quem sabe, dentro de minha a cabeça. 

Era muita coisa para lidar sozinha. E a doença de Vó Duda. Se ela fosse embora, eu não tinha certeza se minha mãe seria capaz de manter tudo em ordem. Achava que ela faria a família se desmoronar com seus ciúmes, segredos e manipulações. Vó Duda era o freio que a impedia de fazer besteiras. Era a cola que mantinha nossa família unida. Era a palavra sensata nas horas de incertezas. 

De repente, meu coração deu um salto: e se mamãe tivesse feito algum feitiço para que Tia Maya se apaixonasse por Davi, e vice-versa? Não... aquilo seria demais, simplesmente demais para eu suportar. Ela me proibira de voltar a tocar naquele assunto, mas eu sabia que teria que perguntar aquilo a ela. Não poderia conviver com aquela dúvida para o resto dos meus dias. 

E eu tinha medo de não suportar guardar aquele segredo, e a única saída, era se eu me afastasse. Se eu fosse para algum lugar bem longe dali, longe de todos, seria bem mais fácil. Eu teria que ir estudar em outra cidade. Faria dezessete anos em janeiro. Papai tinha que permitir.

Enquanto todos aqueles pensamentos martelavam minha mente, a conversa na cozinha era animada e alegre. Olhei para Tia Maya, que nem suspeitava da armação da qual estava sendo vítima. Logo, Vó Duda juntou-se a elas, e começaram a preparar o almoço. Tia Joana colocou uma música alegre no aparelho de som, e entre danças e risadas, as saladas e a massa ficaram prontas. Mas na hora do almoço, quando estávamos todos reunidos à mês e Tutti e Greco, cansados do passeio, dormiam em suas caminhas num canto da cozinha, eu não consegui comer direito. Aleguei uma indisposição e fui para o quarto, a cabeça girando, e uma forte dor de cabeça começou.

Meia hora depois, papai veio ter comigo, e encontrando as cortinas cerradas naquele lindo dia de sol, sentou-se ao meu lado, colocando sua mão sobre meu braço. Eu estava deitada, de olhos fechados, e continuei daquela forma, com medo de encará-lo, fazendo-o perceber que eu escondia algo. Mas até mesmo eu estando de olhos fechados, papai me conhecia muito bem. Ouvi quando ele puxou a respiração, e vi que a conversa seria longa, se eu não fosse esperta.

-O que houve, Eleanor? Você ficou calada a tarde toda, e mal tocou na comida. E eu sei que você  adora lasanha.  Está aflita com a chegada de sua prima?
Achei que aquela desculpa, oferecida de bandeja naquele momento, seria perfeita, e abri os olhos:
-Sim, pai. Não sei como ela me receberá, ou como vou encarar Fred depois de tudo... sabe, ele sabe 
que eu sou apaixonada por ele.

Ele derramou ternura sobre mim através do olhar:

-Sabe, filha, nessa idade, tudo parece ser muito intenso, muito forte. Ele é só a primeira pessoa por quem você se apaixona de verdade, e acredite, outros virão. logo, Você vai entender que existem outros garotos bacanas e que combinam muito mais com você, e vai encontrar um que a ame de volta. É muito melhor amar quando somos amados de volta, sabe?

-Eu balancei a cabeça, concordando, e voltei a fechar os olhos:

-Você tem razão, pai, mas é mais fácil falar do que fazer, não é? A gente não escolhe quem a gente ama.

Eu não pretendia soar sarcástica, mas foi o que acabou acontecendo. Abri um dos olhos, e vi que o tinha ferido. A veia em sua têmpora pulsava, e seus lábios encurvaram-se levemente para baixo. Na hora, me arrependi, mas o que foi dito não pode ser recolhido.

-Tem razão, filha. A gente não escolhe quem ama, mas as circunstâncias nos ensinam o que é melhor para nós, e para todos.

-Como assim?

-É que... a gente segue por um caminho por tempo demais, e quando olhamos para trás, é tarde para voltar e começar tudo de novo, se é que você me entende. Portanto, procure não errar, não ferir as pessoas que ama, e seja generosa com elas, sempre. 

-Mesmo que isso signifique ser infeliz, pai?

Ele sorriu, tristemente, baixando os olhos:

-E o que é que você entende de felicidade, sua molequinha? Como é possível ser feliz sabendo que magoou uma porção de pessoas, ou então ao menos uma pessoa que a gente ama? Vamos lá para baixo. Vamos jogar cartas e assistir a um filme.

-Não, pai, eu estou com muita dor de cabeça. 

-Quer um comprimido?

-Quero.

E assim a nossa conversa terminou. Ele me trouxe um comprimido, que eu tomei, e adormeci logo em seguida.

Acordei duas horas mais tarde com uma chuva forte caindo lá fora. O quarto estava escuro devido às cortinas cerradas, e olhando pela greta, vi que a tempestade era tão forte, que a calçada estava escura, apesar de ainda ser cinco da tarde, e não havia eletricidade. Acendi a lanterna do celular e desci as escadas, livre da dor de cabeça e sentindo fome, apesar de enjoada por causa do remédio tomado com o estômago vazio.  A sala estava vazia e escura. Concluí que Tia Joana e Tio Nestor tinham ido para casa, e o resto da família estava tirando uma soneca após o dia movimentado.  Eu ia me encaminhando para a cozinha, quando deparei com um vulto escuro no sofá. Dei um pulo, assustada, mas logo me tranquilizei quando percebi que era vó Duda quem estava lá. Ela parecia profundamente adormecida, e chamei por ela. Nada de resposta. Chamei mais uma vez, e como ela não respondeu, peguei a manta que estava na poltrona e cobri seu corpo, pois a tarde tinha esfriado um pouco por causa da chuva. O perfume suave do talco floral que ela usava veio às minhas narinas. 

Cheguei à cozinha e devorei a lasanha que sobrara com um copo de refrigerante e salada. Saciada a minha fome, coloquei os pratos na pia, e direcionando a luz da lanterna para lá, passei a lavar a louça. A luz voltou quando eu estava enxugando tudo. Ouvi passos na sala, que estancaram de repente, e achei que era Vó Duda indo para o seu quarto, mas o grito que escutei a seguir fez com que eu deixasse o prato que eu enxugava cair, despedaçando-se contra o piso frio. Os cães ergueram as cabeças, e começaram a latir. Gritei para que se calassem e fui correndo para a sala, de onde ouvira Flora gritar. O trajeto até lá parecia ter acontecido em câmera lenta. Tudo não passou de alguns segundos, mas jamais esquecerei aquele momento, e o que vi quando cheguei lá.

Flora estava pálida, as mãos cobrindo a boca. Papai e mamãe, sonolentos, desciam as escadas correndo, seguidos por Tia Maya. No sofá, Vó Duda, de olhos e boca arregalados e o rosto branco feito cera, nos fitava: ela estava morta. Eu cobrira o corpo dela, há apenas meia hora. Mamãe abraçou Flora, passando os braços em volta de seus ombros e levando-a dali. Tia Maya sentou-se ao lado de Vó Duda, chorando muito, e levou a mão aos olhos dela, fechando-os, enquanto papai, as mãos na cabeça, andava de um lado ao outro da sala. Eu estava parada à porta, os olhos fixos naquela cena dantesca, e a única coisa que me vinha à cabeça, eram as palavras de minha colega, Érica: “Às vezes, as pessoas tem uma melhora repentina antes de morrer.”  Apesar da falta de tato daquelas palavras, elas eram muito verdadeiras.



(CONTINUA...)

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