segunda-feira, 3 de outubro de 2016

FEITIÇOS DE AMOR – PARTE X








Dora foi aprovada, e estava concorrendo. Era uma das candidatas mais fortes. Pelo menos, é o que diziam as revistas e sites de fofocas. Todos comentavam sobre o jovem casal, tão apaixonados um pelo outro, que o amor deles borbulhava nas músicas e nas interpretações. Eram o casalzinho mais querido do Brasil. Iam a programas de entrevistas, apresentavam-se nas tardes de domingo cantando juntos nos programas da emissora que transmitia o programa e mesmo antes do final, já choviam convites de gravadoras que queriam contratá-los. A vida de Dora já estava definida, e ela seria longe de mim. Longe de Rio Verde. Ao lado de Fred. 

Dora recebera tratamentos de beleza. Perdera bastante peso e teve o cabelo clareado, ganhando um novo corte que afinou seu rosto. Os olhos azuis foram destacados com cílios que davam-lhe um ar de boneca, e a maquiagem deixava a pele de seu rosto perfeita como porcelana. Ela estava linda. ela era famosa e talentosa. Ela estava feliz.

Na nossa casa, todos se reuniam nas noites de quarta-feira para assistir ao programa, e a cada vez, ficava mais claro que Dora sairia vencedora. Apenas uma outra dupla era páreo para eles, mas os dois não eram um casal, e por isso, eram bem menos glamorosos. 

Tia Joana e Tio Nestor não cabiam em si de tanto orgulho e contentamento, e mamãe e Tia Maya partilhavam aqueles momentos com eles e com Vó Duda, que parecia estar cada vez melhor – por mais incrível que aquilo pudesse ser. Érica, uma colega da escola com quem mantive contato, dizia que era muito comum as pessoas melhorarem de repente antes de partir. Ela não era exatamente inteligente ou sensível, mas era o melhor que eu conseguira ter para substituir Dora. 

Eu tinha conversado com meus pais sobre meu ano sabático, e eles concordaram – contanto que eu trabalhasse meio expediente na loja todos os dias, de segunda à sexta-feira, e continuasse aprendendo inglês. Concordei. Não estava com cabeça para os estudos. Talvez trabalhar me fizesse bem. 

Eu e Tia Maya nos tornamos grandes amigas, e passávamos bastante tempo juntas, com a aprovação de meus pais. Eu sabia que mamãe sentia ciúmes de nosso relacionamento, pois Tia Maya passou a ser a minha maior confidente, enquanto Flora continuava a preferir a companhia de mamãe. Mesmo assim, ela dizia que aprovava que eu e Tia Maya fôssemos amigas, embora temesse que eu me apegasse demais; afinal, um dia ela iria ter que voltar para sua vida. Mamãe pensava que eu já tinha sofrido uma grande perda com a ausência de Dora e o meu primeiro amor que fracassara, e não queria que eu sofresse de novo.

E em breve seria Vó Duda... mas por incrível que pareça, ela não estava com cara de quem ia morrer. Ninguém sabia explicar o que estava acontecendo, nem ela própria; só dizia que a proximidade da morte a estava deixando cada vez mais forte.
Em um dia no qual a acompanhei a uma consulta médica, acabei olhando em um documento e descobrindo sua idade: Vó Duda tinha setenta e um anos. Se estivesse saudável, ainda poderia viver muito, pois eu sempre ouvia histórias que diziam que as mulheres da nossa família eram geralmente muito longevas. Uma tia-avó de mamãe vivera até os cento e cinco anos.

Papai e mamãe pareciam mais unidos. Depois que ela parou de hostilizar Tia Maya, o relacionamento deles melhorou bastante, pois ele sentiu mais segurança nela. Segurança atrai segurança, acho. Quem se ama desperta amor mais facilmente. E mamãe aprendera a cuidar mais dela mesma.
Quando o natal se aproximou, mamãe, Tia Maya e Tia Joana foram juntas ao shopping para fazer as compras de natal, e levaram a mim e Flora com elas. Passamos um dia muito divertido, cinco mulheres experimentando e comprando roupas e sapatos, fazendo as unhas e cuidando dos cabelos. 

Almoçamos juntas na praça de alimentação, e notei que todo mundo olhava para a nossa mesa – especialmente os homens. Eles pareciam moscas pousadas no mel, de tanto que nos olhavam. Alguns estavam acompanhados, e as suas mulheres começaram a ficar com ciúmes. Nós cinco ríamos, estávamos felizes. Consegui ficar um dia inteiro sem sofrer por causa de Fred. Me sentia linda novamente, com o novo corte de cabelo em camadas. Mamãe dizia que eu estava parecida com uma atriz famosa dos anos 70 chamada Farrah Fawcett. Olhei no Google mais tarde, e fiquei pasma: estava mesmo. Eu me sentia realmente bonita e confiante novamente. 

Mas minha autoconfiança quase foi embora quando Tia Joana anunciou, na voz um tom entusiasmado:

-Ah, quase ia me esquecendo: tenho uma surpresa para vocês! Dora vem para casa no Natal. Serão só três dias, pois eles precisam se preparar para a nova fase, mas pelo menos, terei minha menina aqui!
Todas ficaram contentes, desmanchando-se em ‘ahs’ e ‘ohs.’ Só eu parecia ter engolido um sapo que estava entalado na minha garganta. Será que Fred viria junto com ela, ou iria para a casa dele? Se ele viesse, qual seria a minha reação? E como seria rever Dora após um mês de ausência, agora que ela parecia ser outra pessoa e agia como tal? É claro que trocáramos mensagens rápidas pelo telefone, já que ela parecia estar ocupada o tempo todo com o programa (e com Fred, é claro), e a nossa amizade estava um tanto alquebrada, tanto pela distância quanto por causa do nosso último encontro. Revê-la me deixava nervosa. Quem seria a menina que voltaria para casa? E quem seria eu, a menina que ficou, diante dela?

Eu estava tão entretida com meus pensamentos que quase dei um pulo quando Flora me cutucou e com o olhar indicou um senhor algumas mesas distante da nossa, que parecia estar completamente fascinado por Tia Maya, e não conseguia tirar os olhos dela. Logo, mamãe percebeu os olhares dele, e chamou a atenção de Tia Maya:

-Parece que você está fazendo uma conquista... e ele não é nada mau. Nada mau mesmo.

Tia Maya seguiu nossos olhares, e deparou com o homem bonito e grisalho, parecendo muito distinto, que a fitava, e naquele momento, ele ergueu seu copo de papel com refrigerante e sorriu para ela, que baixou os olhos, mas não conseguiu deixar de sorrir de volta. Pensei no quanto eles pareciam ser dois adolescentes, mesmo ele aparentando estar na casa dos cinquenta anos, e ela em seus quarenta. A situação foi ficando cada vez mais óbvia. De repente, Tia Joana sugeriu:

-E se fôssemos todas embora, e Maya ficasse? Talvez ele viesse falar com ela.

Tia Maya, apavorada, respondeu:

-Por favor, não façam isso... já faz tanto tempo desde a última vez que eu... (e ela sem querer olhou para mamãe, que fingiu não ter notado que a última vez de Tia Maya fora com papai). Ao invés disso, ela incentivou:

-Ora, ele é bonitão.

Tia Maya concordou com a cabeça, e com os olhos. Na verdade, o tal homem não era apenas bonitão: ele era um arraso! Ela também não parava de olhar para ele. Finalmente, após mais algumas conversas e risadas, ela anunciou:

-Meninas... vão para casa sem mim. Por favor, levem minhas compras, acho que vou mais tarde. 
E ela chegou bem mais tarde, para surpresa de todos. Parecia estar nas nuvens. Quando chegou, estávamos terminando o jantar. Tia Joana e Tio Nestor estavam jantando conosco. Todo mundo tinha prestado atenção à reação de papai quando mamãe anunciou que Tia Maya tinha um paquera no shopping. Ele apenas sorrira, erguendo as sobrancelhas e dizendo que seria bom se ela arranjasse alguém. Então, mudou de assunto.

Vó Duda parecia feliz, e durante a sobremesa, disse:

-Eu estou realmente muito feliz por ver vocês tão unidas... minhas três filhas, amigas, comemorando a vida, indo ao shopping, fazendo compras juntas. Não sabem o quanto isso me deixa feliz.

E ela chorou. Ficamos todos surpresos, pois nunca tínhamos visto Vó Duda chorar em público, nem mesmo no enterro de vovô. Mamãe dizia que ela era sempre muito forte. Mamãe, que estava sentada mais perto dela, colocou a mão sobre a dela, e do outro lado, Tia Maya fez a mesma coisa.

Ao término do jantar, as louças sujas ficaram para mim e para Flora. Os outros foram para a sala de TV a fim de assistir a um filme que Tio Nestor alugara. Flora estava quieta e muito séria, o que não era nada normal. Minha irmã estava sempre falando alguma coisa, ou rindo de alguma coisa. Olhei para ela, enquanto enxugava a louça: ela tinha crescido. Estava com um ar mais ‘mulher.’ Trocara o corte Chanel por um repicado moderno, mais curto, o que lhe emprestara um ar mais jovial, menos sério. Flora estava mais alta. As unhas pintadas de preto e a camiseta preta com uma estampa dourada de uma banda de rock no centro – presente de um amigo oculto roqueiro da escola - davam a ela um ar mais dramático. Minha irmã estava linda. Arrisquei:

-Um centavo por seus pensamentos.

Ela bufou, virando os olhos:

-Uf! Que coisa mais antiga. Parece a Vó Duda falando. Além disso, meus pensamentos valem bem mais do que apenas um centavo. 

E continuou enxugando a louça. Mas logo disse:

-Sabe... essa coisa de Vó Duda estar melhorando enquanto morre. Não é estranho? 

-Cale essa boca, Flora! Você tem sempre que dizer o que pensa de forma tão rasgada? Não dá pra ser mais sutil?

-Tá bom, você entendeu, não entendeu? E o que você acha disso tudo?

Acabei de enxaguar um copo, pensativa.

-Eu acho que coisas assim podem acontecer. Sabe, eu li que o câncer é mais vagaroso nas pessoas mais velhas, porque elas tem o metabolismo mais lento. Podem viver anos com ele. Talvez esta seja a resposta. 

Ela ficou calada, e percebi logo que tinha alguma coisa que ela queria me dizer, mas estava com receio. 

-Vai, desembucha. O que você quer dizer, Flora?

Ela pendurou o pano molhado sobre a tampa de vidro do fogão. Colocou a mão na cintura:

-Eu... fiz uma coisa. Lembra o que você me falou quando a Dona Fernanda invadiu nossa casa de madrugada? 

Pensei um pouco antes de responder, mas nada me veio à memória. 

-Não. O que eu falei?

-Você me desafiou; disse que se feitiços realmente funcionavam, por que eu e mamãe  não fazíamos um para curar Vó Duda. Lembra?

Eu me lembrei daquela fala imediatamente. Ela ergueu a cabeça, dizendo:

-Pois é. Eu fiz um. 

-O que? Tá delirando, Flora? Acha mesmo que pode curar alguém de câncer?

-Não. Mas ninguém pode negar o fato de que ela está melhorando. E você sabe que o marido da Dona Fernanda voltou para casa na manhã seguinte, igualzinho mamãe disse que aconteceria se ele tivesse sido vítima de feitiço. 

-É. Não posso negar. Mas pode ter sido coincidência.

Ela bufou, e bateu na perna com raiva:

-Putz! Será que você tem que ser sempre tão cética? Quando não quer admitir uma coisa, você tem sempre um argumento na manga, mesmo que ele seja totalmente furado! O fato é que alguma coisa está acontecendo. Ou será impressão minha?

Eu neguei:

-Não, não é impressão sua. De repente, os remédios estão fazendo efeito. 

-Os remédios que ela toma são apenas paliativos, não agem sobre o câncer. E ela desistiu de ir às consultas médicas, pois disse que elas a faziam se sentir pior.

Tive que concordar; há mais de uma semana, vó Duda deixara de ir às consultas, alegando que o pessimismo dos médicos, e suas caras de piedade, a deixavam bem mal. Anunciou que, se estava mesmo morrendo, ela o faria de forma natural, sem angústias desnecessárias. 

Terminamos a louça, guardamos tudo e nos juntamos à família na sala de TV. O filme foi realmente muito bom, e acabamos assistindo a outro, e no final, todos estávamos cansados e sonolentos. Tia Joana e Tio Nestor foram para casa, Vó Duda e mamãe se recolheram e Flora, como sempre, adormeceu no sofá. Ficamos eu e papai na sala de TV. Ele achava que eu estivesse adormecida na poltrona, e deixei que ele pensasse assim.  Ele se serviu de um pouco de uísque com gelo. Sentou-se na poltrona em frente a minha e ficou olhando para o chão, completamente perdido em seus pensamentos. O relógio na parede marcava uma e trinta da manhã. 

Eu sabia exatamente em quem ele estava pensando.

Ouvi barulhos na cozinha, e vi quando papai passou por mim, indo para lá. Sentei-me, apurando os ouvidos, pois eu achei que aconteceria alguma conversa que eu precisava ouvir. Logo percebi que era Tia Maya que tinha ido buscar um pouco de água. Escutei as vozes deles conversando; papai disse:

-Fico feliz, Maya, que você tenha encontrado alguém.

Ela demorou um pouco a responder:

-Na verdade, acabei de conhece-lo. Não posso dizer que estamos namorando. Fomos jantar, conversamos um pouco... Davi parece ser alguém bacana.

-Ah... o nome dele é Davi.

Senti um tom de ciúmes, um tanto sarcástico na voz de meu pai, e aquilo me preocupou. Tia Maya disse, tentando manter um tom animado na voz, ignorando o sarcasmo de papai:

-Sim! Ele é empresário, no ramo de café, e tem uma fazenda a alguns quilômetros daqui. 

Combinamos de ir juntos lá amanhã para que eu possa conhecer tudo.

-Como assim? Você vai se meter em um lugar distante com um total desconhecido, Maya?

-Vou sim. Já sou bem grandinha, não se preocupe!  Os conhecidos já me causaram muitos problemas. E Davi não é um desconhecido. Enquanto conversávamos no restaurante, o prefeito da cidade se aproximou da nossa mesa e cumprimentou-o. Os dois são velhos amigos, sabe. E o proprietário do restaurante também parecia conhece-lo há muito tempo. Ele não é um estranho. 
Papai não respondeu. Maya desejou-lhe boa noite, mas quando ela ia saindo da cozinha, eu espiei e vi que papai segurou-a pelo braço, quase fazendo com que ela entornasse o copo d’água que estava levando:

-Maya, eu... eu queria que você soubesse que...

Ela desencilhou-se dele, dizendo:

-É melhor que você se cale, Berto. Eu não quero saber. Melhor assim. Boa noite.

Ela começou a subir as escadas e papai ficou lá, observando-a. Depois, ele passou as mãos pelo cabelo e quase não deu tempo de eu fingir que continuava dormindo; tive que me jogar de volta no sofá: ele entrou na sala de TV, e bebendo o que restava do seu uísque, serviu-se mais duas vezes, engolindo tudo rapidamente, e depois de acordar minha irmã e eu, que fingi estar despertando naquele momento, fomos todos juntos para os nossos quartos. 

Na manhã seguinte, domingo, papai saiu e levou os cães junto com ele. Disse que passaria a manhã no rio, pescando, e Tio Nestor foi também. Joana, Maya e Flora foram juntas dar uma caminhada. Eu não quis ir, estava com preguiça. Vó Duda estava em seu quarto, ao telefone, conversando com alguém. Mamãe estava sozinha na cozinha, preparando o almoço, e acho que ela pensou que eu ainda estava em meu quarto, pois quando eu ia entrando na cozinha, escutei a voz dela ao telefone, e estanquei no corredor antes que ela pudesse me ver; escutei a conversa:

-Sim, Davi... certo. Eu disse que ela era maravilhosa! Fico feliz que tenham gostado um do outro... mas não se esqueça do que combinamos! Ela não pode saber, nunca! Sei... ok então... ela saiu para uma caminhada, mas logo estará de volta... sim, ela nos contou que passarão o dia juntos na fazenda... por favor, Davi, não a faça sofrer! Boa sorte. Até logo.

Eu estava estarrecida e muito confusa. Mamãe armara aquele encontro? Davi era alguém que ela arranjara para Tia Maya? Levei as mãos à cabeça, não querendo acreditar no que acabara de ouvir. Naquele instante, mamãe saiu da cozinha, e dando de cara comigo, entendeu logo que eu escutara a conversa. Ela ficou muito pálida, levando a mão ao peito e engolindo em seco:

-Filha... há quanto empo está aqui?

-Tempo suficiente, mãe. Eu ouvi tudo. Não posso acreditar que você tenha feito isso. Não quero acreditar!

Ela me puxou para a cozinha, fechando a porta, e me obrigou a sentar-me à mesa, em frente a ela:

-Não é o que você está pensando, Eleanor! 

-“Não é o que você está pensando, Eleanor!” Acha que sou imbecil, mãe? Você arranjou esse cara 
para Tia Maya!

-Fale baixo, por favor. Ninguém deve saber, filha...

Mamãe parecia desesperada, e baixei o tom de voz:

-Você vai ter que desfazer o que fez, mãe. Tia Maya não merece isso. Quando vai parar de tentar manipular os acontecimentos? Será que não vê que sua interferência na vida alheia não é saudável? Nossa... parece que a mãe aqui sou eu, e você, a filha irresponsável que precisa de limites!

Ela ergueu  a mão em frente ao rosto, num gesto que pedia silêncio, e gaguejou:

-Você precisa ficar quieta, Eleanor, e me deixar explicar tudo, e então vai entender que agi da melhor forma possível para todos! Seu pai não esqueceu Maya, ele próprio me confessou que ela ainda mexe com ele. 

Meu queixo caiu; como papai podia ter dito aquilo a ela? Achei muita falta de tato, mas mamãe insistia que ele só tinha sido sincero, e que ela dever dela salvar aquela família, e aquele casamento, fazendo o que era melhor para todos. 

-Eu entrei em um site de relacionamentos e cadastrei Maya. Eu me passei por ela, e quando encontrei Davi, que eu já conhecia de ouvir falar, começamos a conversar. Ele se interessou pelas fotos. Na primeira conversa, expliquei que eu não era Maya, mas que éramos primas e eu estava tentando arranjar alguém para ela, pois ela estava muito só. Conversamos mais duas vezes, contei-lhe coisas sobre ela, mostrei mais fotos. Ele disse que gostaria de conhece-la pessoalmente, e então eu combinei tudo. Ele me prometeu que ela nunca ficaria sabendo de nada, e que se eles não se gostassem pessoalmente, ele se afastaria sem dizer nada a ela. Mas tudo deu certo, ela gostou dele, e ele acaba de me dizer que adorou Maya! 

Eu não estava acreditando no quanto minha própria mãe podia ser manipuladora, e ainda usar aquela conversa de “Fiz o melhor para todos”  para se justificar. Segredos nunca davam certo, ela mesma tinha me ensinado aquilo! Um dia, se Davi realmente se apaixonasse por minha tia, ele iria contar a verdade a ela, pois nenhum relacionamento que começa com uma mentira poderá dar certo. E então, o que seria de minha mãe e seu casamento? E quando papai ficasse sabendo?

-Mãe, você precisa contar a verdade a ela. Não é justo o que você está fazendo com ela de novo! Vó Duda vai ficar uma fera!

-Não, se ela não souber de nada! E se esta for a oportunidade de Maya ser feliz? Você vai atrapalhar? 

Ela endureceu a voz:

-Eu te proíbo de contar alguma coisa a Maya ou a quem quer que seja, ou de tocar nesse assunto comigo novamente, Eleanor! Eu sou sua mãe e você tem que me obedecer!

Depois daquilo, eu compreendi que precisava sair da presença dela, ou acabaria dizendo alguma coisa que a feriria profundamente. Os pensamentos e palavras que passavam pela minha cabeça emaranhavam-se uns aos outros, formando frases horríveis de se dizer e de se escutar. Levantei-me, e saí da cozinha pisando duro. Precisava ficar sozinha, pensar um pouco. Enquanto saía da casa, encontrei com minhas tias e Flora voltando da caminhada. As três riam alto, e Tia Maya parecia a mais feliz de todas. As faces rosadas, as gargalhadas, o rabo-de-cavalo, tudo dava a ela um ar quase infantil que eu ainda não conhecia. Elas passaram por mim, e Flora me puxou:

-Vamos tomar café juntas!

Me deixei ser levada por ela. De volta à cozinha, olhei para mamãe e a tensão da conversa que acabáramos de ter parecia tê-la deixado completamente. Parecia serena, calma, sentando-se para o café da manhã como se nada tivesse acontecido. Aquilo fez com que um arrepio de medo percorresse a minha espinha. Quem era a mulher que eu crescera aprendendo a chamar de mãe, afinal? 

Depois daquilo, tomei uma decisão: iria para a faculdade. Estudaria muito, me dedicaria 24 horas por dia para que pudesse sair daquela casa o mais rapidamente possível. Desisti do meu ano sabático, pois eu não sabia o que poderia acontecer se eu tivesse que ficar ali, com o peso daquele segredo horrível sobre os ombros. Precisava me afastar. 

Senti muita falta de Dora, pois se ela estivesse ali, poderia me ajudar. Ela saberia me dizer o que fazer. Ela me ouviria, e eu poderia contar com sua discrição e seu silêncio. Ela dividiria aquele peso comigo, e eu poderia me sentir mais leve e tranquila. 

E ela estaria chegando na semana seguinte para o Natal. Eu aguentaria até lá?

Sabia que contar tudo à Flora, a rainha da indiscrição, seria o mesmo que colocar aquilo no jornal; ela acabaria dando com a língua nos dentes sem querer. Não sabia ser discreta, sempre dizia exatamente o que pensava. Eu precisaria aguentar calada até a chegada de minha prima e amiga. E ainda teria que lidar com a provável presença de Fred, que sabia o que eu sentia por ele, mas que tinha preferido ficar com Dora. Provavelmente, os dois falavam de mim, e quem sabe, diriam o quanto sentiam pensa de mim por causa de tudo aquilo... Dora diria a ele que eu era sua melhor amiga, que desistiria dele para que pudéssemos ficar juntos, mas ele responderia: “Não, Dora, é a você que eu amo!” E os dois se beijariam, e ela talvez chorasse por mim... aquelas cenas mentais me irritavam, pois minha imaginação era forte, o que fazia com que elas fossem bem reais. Eu conseguia ver as cenas que imaginava com clareza, e me sentia muito ferida com as situações que só estavam acontecendo, quem sabe, dentro de minha a cabeça. 

Era muita coisa para lidar sozinha. E a doença de Vó Duda. Se ela fosse embora, eu não tinha certeza se minha mãe seria capaz de manter tudo em ordem. Achava que ela faria a família se desmoronar com seus ciúmes, segredos e manipulações. Vó Duda era o freio que a impedia de fazer besteiras. Era a cola que mantinha nossa família unida. Era a palavra sensata nas horas de incertezas. 

De repente, meu coração deu um salto: e se mamãe tivesse feito algum feitiço para que Tia Maya se apaixonasse por Davi, e vice-versa? Não... aquilo seria demais, simplesmente demais para eu suportar. Ela me proibira de voltar a tocar naquele assunto, mas eu sabia que teria que perguntar aquilo a ela. Não poderia conviver com aquela dúvida para o resto dos meus dias. 

E eu tinha medo de não suportar guardar aquele segredo, e a única saída, era se eu me afastasse. Se eu fosse para algum lugar bem longe dali, longe de todos, seria bem mais fácil. Eu teria que ir estudar em outra cidade. Faria dezessete anos em janeiro. Papai tinha que permitir.

Enquanto todos aqueles pensamentos martelavam minha mente, a conversa na cozinha era animada e alegre. Olhei para Tia Maya, que nem suspeitava da armação da qual estava sendo vítima. Logo, Vó Duda juntou-se a elas, e começaram a preparar o almoço. Tia Joana colocou uma música alegre no aparelho de som, e entre danças e risadas, as saladas e a massa ficaram prontas. Mas na hora do almoço, quando estávamos todos reunidos à mês e Tutti e Greco, cansados do passeio, dormiam em suas caminhas num canto da cozinha, eu não consegui comer direito. Aleguei uma indisposição e fui para o quarto, a cabeça girando, e uma forte dor de cabeça começou.

Meia hora depois, papai veio ter comigo, e encontrando as cortinas cerradas naquele lindo dia de sol, sentou-se ao meu lado, colocando sua mão sobre meu braço. Eu estava deitada, de olhos fechados, e continuei daquela forma, com medo de encará-lo, fazendo-o perceber que eu escondia algo. Mas até mesmo eu estando de olhos fechados, papai me conhecia muito bem. Ouvi quando ele puxou a respiração, e vi que a conversa seria longa, se eu não fosse esperta.

-O que houve, Eleanor? Você ficou calada a tarde toda, e mal tocou na comida. E eu sei que você  adora lasanha.  Está aflita com a chegada de sua prima?
Achei que aquela desculpa, oferecida de bandeja naquele momento, seria perfeita, e abri os olhos:
-Sim, pai. Não sei como ela me receberá, ou como vou encarar Fred depois de tudo... sabe, ele sabe 
que eu sou apaixonada por ele.

Ele derramou ternura sobre mim através do olhar:

-Sabe, filha, nessa idade, tudo parece ser muito intenso, muito forte. Ele é só a primeira pessoa por quem você se apaixona de verdade, e acredite, outros virão. logo, Você vai entender que existem outros garotos bacanas e que combinam muito mais com você, e vai encontrar um que a ame de volta. É muito melhor amar quando somos amados de volta, sabe?

-Eu balancei a cabeça, concordando, e voltei a fechar os olhos:

-Você tem razão, pai, mas é mais fácil falar do que fazer, não é? A gente não escolhe quem a gente ama.

Eu não pretendia soar sarcástica, mas foi o que acabou acontecendo. Abri um dos olhos, e vi que o tinha ferido. A veia em sua têmpora pulsava, e seus lábios encurvaram-se levemente para baixo. Na hora, me arrependi, mas o que foi dito não pode ser recolhido.

-Tem razão, filha. A gente não escolhe quem ama, mas as circunstâncias nos ensinam o que é melhor para nós, e para todos.

-Como assim?

-É que... a gente segue por um caminho por tempo demais, e quando olhamos para trás, é tarde para voltar e começar tudo de novo, se é que você me entende. Portanto, procure não errar, não ferir as pessoas que ama, e seja generosa com elas, sempre. 

-Mesmo que isso signifique ser infeliz, pai?

Ele sorriu, tristemente, baixando os olhos:

-E o que é que você entende de felicidade, sua molequinha? Como é possível ser feliz sabendo que magoou uma porção de pessoas, ou então ao menos uma pessoa que a gente ama? Vamos lá para baixo. Vamos jogar cartas e assistir a um filme.

-Não, pai, eu estou com muita dor de cabeça. 

-Quer um comprimido?

-Quero.

E assim a nossa conversa terminou. Ele me trouxe um comprimido, que eu tomei, e adormeci logo em seguida.

Acordei duas horas mais tarde com uma chuva forte caindo lá fora. O quarto estava escuro devido às cortinas cerradas, e olhando pela greta, vi que a tempestade era tão forte, que a calçada estava escura, apesar de ainda ser cinco da tarde, e não havia eletricidade. Acendi a lanterna do celular e desci as escadas, livre da dor de cabeça e sentindo fome, apesar de enjoada por causa do remédio tomado com o estômago vazio.  A sala estava vazia e escura. Concluí que Tia Joana e Tio Nestor tinham ido para casa, e o resto da família estava tirando uma soneca após o dia movimentado.  Eu ia me encaminhando para a cozinha, quando deparei com um vulto escuro no sofá. Dei um pulo, assustada, mas logo me tranquilizei quando percebi que era vó Duda quem estava lá. Ela parecia profundamente adormecida, e chamei por ela. Nada de resposta. Chamei mais uma vez, e como ela não respondeu, peguei a manta que estava na poltrona e cobri seu corpo, pois a tarde tinha esfriado um pouco por causa da chuva. O perfume suave do talco floral que ela usava veio às minhas narinas. 

Cheguei à cozinha e devorei a lasanha que sobrara com um copo de refrigerante e salada. Saciada a minha fome, coloquei os pratos na pia, e direcionando a luz da lanterna para lá, passei a lavar a louça. A luz voltou quando eu estava enxugando tudo. Ouvi passos na sala, que estancaram de repente, e achei que era Vó Duda indo para o seu quarto, mas o grito que escutei a seguir fez com que eu deixasse o prato que eu enxugava cair, despedaçando-se contra o piso frio. Os cães ergueram as cabeças, e começaram a latir. Gritei para que se calassem e fui correndo para a sala, de onde ouvira Flora gritar. O trajeto até lá parecia ter acontecido em câmera lenta. Tudo não passou de alguns segundos, mas jamais esquecerei aquele momento, e o que vi quando cheguei lá.

Flora estava pálida, as mãos cobrindo a boca. Papai e mamãe, sonolentos, desciam as escadas correndo, seguidos por Tia Maya. No sofá, Vó Duda, de olhos e boca arregalados e o rosto branco feito cera, nos fitava: ela estava morta. Eu cobrira o corpo dela, há apenas meia hora. Mamãe abraçou Flora, passando os braços em volta de seus ombros e levando-a dali. Tia Maya sentou-se ao lado de Vó Duda, chorando muito, e levou a mão aos olhos dela, fechando-os, enquanto papai, as mãos na cabeça, andava de um lado ao outro da sala. Eu estava parada à porta, os olhos fixos naquela cena dantesca, e a única coisa que me vinha à cabeça, eram as palavras de minha colega, Érica: “Às vezes, as pessoas tem uma melhora repentina antes de morrer.”  Apesar da falta de tato daquelas palavras, elas eram muito verdadeiras.



(CONTINUA...)

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