sábado, 22 de outubro de 2016

FEITIÇO DE AMOR – PARTE FINAL







Noite de Natal. Gente circulando pela casa. Música, risos, vestidos esvoaçantes passando pelas salas e corredores. Vermelhos, verdes, dourados, brancos, azuis... comidas sobre a mesa: um verdadeiro banquete, preparado por mamãe, Tia Joana e Tia Maya. Algumas sobremesas e vinhos trazidas pelos vizinhos. A festa natalina em nossa casa era um evento, e praticamente todo mundo que a gente conhecia estava por lá, ou passava por lá, nem que fosse por alguns minutos apenas. Inclusive meus ex-colegas de escola.

Só Vó Duda não estava. Mamãe trancara o quarto dela, com medo de que alguém pudesse, inadvertidamente, entrar lá. Vó Duda detestava que entrassem no quarto dela. 

Tia Maya, feliz da vida, namorava Davi pelos cantos da casa, e os dois eram discretamente (cada vez menos discretamente) observados por meu pai, que não conseguia tirar os olhos deles por muito tempo. Mamãe estava linda e sorridente. Tia Joana estava linda, sorridente e falante. Tio Nestor, sempre segurando um copo de alguma coisa, andava pelos cantos, conversando um pouco aqui e ali. Dora e Fred estavam juntos, conversando com todos mas sem qualquer olhar ou gesto de intimidade entre eles. 

Erica ficava andando atrás de mim onde quer que eu fosse, e aquilo já estava me irritando, mas era Natal. Fui gentil com ela. Acabei apresentando-a a um vizinho que estava morando por ali há pouco tempo, e como eles logo se interessaram um pelo outro, consegui livrar-me dela. Observei Davi por um longo tempo também. Notei que era conhecido da maioria das pessoas, viúvo, sem filhos, um cidadão honesto da comunidade. E rico, muito rico. Fiquei pensando se, afinal de contas, mamãe não fizera a escolha certa para Tia Maya, mesmo que de maneira manipuladora. Eles pareciam felizes juntos. Ele olhava para ela da maneira certa, pensei, e ela o olhava de volta da mesma forma. 

Tia Maya anunciara que iria embora depois do ano novo, o que deixou mamãe visivelmente aliviada. Ela achava que tinha conseguido evitar o pior. Tia Maya dissera que iria ver como estavam seus negócios, e após vender seu apartamento em São Paulo, voltaria a Rio Verde para casar-se com Davi. Fizeram o pronunciamento durante a ceia de natal, após os brindes, e então houve mais brindes. As mulheres da cidade olhavam para minha tia com visível inveja; afinal, ela era linda, e conseguira conquistar o maior partido da cidade. Papai estava taciturno, calado, e vi Tio Nestor tirar um copo de bebida quase à força da mão dele. Mamãe parecia não enxergar nada mais além do que desejava ver. 

A festa foi um verdadeiro sucesso. Como sempre era. Todos estavam felizes, e no final, após o jantar e o amigo oculto gigante, que acabou por volta das três da manhã, houve ainda um baile com música ao vivo onde todo mundo dançou e se acabou – menos eu. Fiquei olhando as pessoas, observando e tirando minhas conclusões:

-Papai e mamãe dançavam animadamente (pelo menos, ela dançava assim, rindo e abraçando-o a todo momento, enquanto ele sorria meio sem-graça, um pouco bêbado, os olhos grudados em Tia Maya e Davi que... 

-Só tinham olhos um para o outro.

-Tio Nestor e Tia Joana, sempre apaixonados e felizes, ficavam de olho em Dora, que fingia estar feliz, mas que finalmente começara a perceber que talvez Fred não fosse tão apaixonado por ela assim, já que ele não conseguia tirar os olhos...

-De mim. Que fiz de tudo para não corresponder aos olhares dele, fugindo para o banheiro sempre que podia, respirando de alívio na solidão dos azulejos cor de creme do banheiro da suíte dos meus pais. Tentando negar o coração que quase me sufocava de tão forte que batia sempre que eu e Fred olhávamos um para o outro. 

-Flora estava mais alegre, rodeada pelas colegas da escola, e linda em seu vestido amarelo-canário. 

E eu pensava no que seria da minha família depois que a festa acabasse, depois que os pileques fossem curados e a vida cotidiana voltasse a acontecer entre seus membros. Sem Vó Duda para apaziguar as mágoas e discussões, dizendo a todos como as coisas deveriam ser. 

Eu estava caminhando sozinha pelo jardim da casa, deixando o barulho, as luzes e as danças lá dentro. A noite estava estrelada, e o ar, fresco e com perfume de jasmim. Chovera durante a tarde, e ainda havia algumas pocinhas pelo chão, entre as pedras lisas que calçavam o caminho. Eu pensava em vó Duda. Conversava com ela mentalmente, como se ela estivesse ali e pudesse me ouvir. Contava a ela as novidades e pedia ajuda. Conversava com ela de uma forma como eu nunca conseguira conversar antes, e pensava no quanto a gente podia se sentir mais próximos ainda de alguém que já morreu. 

Flora me dissera que os mortos podiam nos ver. Mamãe ensinara a ela que a vida continuava. Eu não tinha muita certeza, mas por via das dúvidas, estava conversando com minha vó morta. Mentalmente apenas. Tinha medo de que alguém me surpreendesse e pensasse que eu enlouqueci. E eu tentava imaginar as respostas que ela daria às minhas perguntas, e então minha mente começava a fazer um barulho incrível, que eu tentava silenciar me concentrando no canto dos grilos. 

Perguntei o que aconteceria com minha família:

-Vó, as coisas não estão nada bem. Minha mãe mentiu para Tia Maya de novo, arranjando um namorado para ela através de um site, e tenho medo do que vai acontecer quando ela descobrir; meu pai está apaixonado por Tia Maya, e sente ciúmes, mas minha mãe age como se nada estivesse acontecendo, e só enxerga o que quer. Dora ama o Fred, mas Tio Nestor me disse que acha que ele não está apaixonado por ela, mas por mim, que sou louca por ele e não sei o que fazer. Tia Joana não está pronta para lidar com essa bagunça toda, e acho que ela não vai tomar conta desta família de forma adequada. Quem vai, vó? Tia Maya anunciou que vai se casar com Davi, o namorado que mamãe arranjou para ela sem que ela soubesse – e que é rico, viúvo, bonitão e parece estar de quatro por ela, e ela por ele. Mas e meu pai? Vai segurar essa barra, e continuar morando com a gente como se nada tivesse acontecido? É possível que ele e minha mãe voltem a se apaixonar um pelo outro depois que tia Maya for embora? A única que parece bem, é Flora. Ela vai superar sua perda, e ficará bem. Talvez seja a mais forte, quem sabe... mas eu estou péssima. Não conheço mais minha mãe. Não consigo admirar meu pai pela sua covardia em não assumir o que sente por Tia Maya. E morro de medo de ferir Dora ainda mais. 

Fiz silêncio. Fechei os olhos, e fiquei escutando o vento que passava entre as folhas das árvores, e os ruídos da festa ao longe. De repente, me senti invadida por uma grande paz. Ouvi claramente a voz de vó Duda dentro de minha cabeça – e até hoje não sei o quanto daquilo foi fruto da minha imaginação ou do meu desespero:

-Largue tudo, deixe as coisas se acertarem. Vai ficar tudo bem no final. Sempre fica. Não há como controlar tudo. Não é responsabilidade sua. 

Abri os olhos, o coração pulando. Tinha certeza de que olharia para trás e veria Vó Duda de pé junto de mim, pois o perfume do talco que ela usava estava forte. Virei-me devagar; a presença dela era forte, mas quando olhei, não havia ninguém ali. Mas não posso negar a força daquele momento, mesmo anos após ele ter acontecido. 

Naquele momento, eu me senti tranquila e feliz pela primeira vez em meses. Então era isso: não era responsabilidade minha. 

E eu enfrentei com tranquilidade o casamento de Tia Maya e Davi, que saíram em uma longa viagem de lua de mel pelo mundo – mesmo depois que ele contou para ela toda a verdade, dizendo que se queriam ser felizes, não poderia deixar que um segredo daqueles ficasse entre eles. Mais uma vez, Tia Maya perdoou minha mãe. Mas meu pai, não. 

E logo depois do casamento de minha tia, eles se divorciaram. Mamãe ficou tranquila o tempo todo, sabendo que ela bem merecia o desfecho que se apresentava. O divórcio aconteceu sem mágoas e sem dramas, e meu pai frequentava nossa casa habitualmente. Mesmo depois que se casou de novo, dois anos mais tarde, e teve outro filho com Sara, sua nova – e jovem - esposa. 
Dora venceu o programa, e foi convidada por uma grande gravadora que alavancou seu sucesso. Lançou um CD que logo tornou-se mania absoluta entre os adolescentes, e foi convidada para escrever um musical teen que até hoje faz grande sucesso no teatro. Ela e Fred escreveram as músicas juntos, fizeram os arranjos e treinaram os cantores da peça. Hoje, ela vive em Nova Iorque.

Ela, sem Fred. 

Tio Nestor e Tia Joana venderam sua parte na loja ao meu pai, e a casa, e mudaram-se com ela para a Big Apple. 

Minha irmã Flora está ajudando mamãe nas consultas. As duas abriram um site, onde vendem seus produtos – coisas que elas mesmas fabricam: cosméticos, poções de beleza, amuletos de sorte, e é claro, dão consultas de tarô online e pessoalmente. Até as celebridades costumam consultar-se com elas. Rio Verde finalmente apareceu no mapa como uma cidade mística, graças a elas, e é visitada por turistas e celebridades que buscam conhecimento espiritual e também uma ajudazinha do destino em suas questões. Muitos seguiram o rastro do sucesso delas, tornando-se ‘médiuns’ e ‘consultores espirituais’ em Rio Verde, mas nenhum deles são realmente respeitados e reconhecidos, como minha mãe e minha irmã. Flora nunca foi para a faculdade, pois descobriu sua verdadeira vocação. Tenho que admitir que ela quase sempre acerta em suas previsões. 

Ah, já quase ia me esquecendo: elas não fazem feitiços de amor. Não trazem seu amor de volta em quatro dias, não separam casais, não enfeitiçam pessoas.

Quanto a Fred... ele é meu marido. Moramos hoje na casa que foi de Tia Joana e Tio Nestor, presenteada a nós por meu pai. Fiz minha faculdade. Formei-me em agronomia, aqui mesmo em Rio Verde – cidade que nunca pretendo deixar, e onde espero poder criar o filho que Fred e eu estamos esperando. 

Aprendi que as coisas mudam porque tem que mudar. As pessoas ficam juntas enquanto tem coisas a aprender umas com as outras, e depois seguem seus próprios caminhos a fim de aprenderem o que ficou faltando e que tambem é esencial. Forçar presenças e situações em nossas vidas não é apenas contraproducente, mas também interfere na evolução pessoal. Nem sempre é fácil deixar ir aqueles que amamaos, porém. Mas é necessário. E coisas novas sempre surgem quando a gente deixa as portas e janelas abertas para que elas entrem e saiam.

E quando surgem problemas, costumo lembrar-me da voz calma e clara de Vó Duda, quando ela me falou naquela noite de natal:

“Largue tudo, deixe as coisas se acertarem. Vai ficar tudo bem no final. Sempre fica. Não há como controlar tudo. Não é responsabilidade sua.”


FIM




3 comentários:

  1. Um desfecho brilhante Ana
    Tudo se acerta no final. O tempo nosso melhor consultor e amigo foi benévolo com todos e trouxe a cada um a felicidade tão sonhada. Parabéns!
    Um beijo e lindo final de semana

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  2. Lindo, lindo, Lindo!!!
    Parabéns!
    Um grande abraço, com um obrigada,
    da Dilita.

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  3. Que texto lindoooo,amei !!! Estou com saudades de escrever também :)
    Beijos,obrigada por passar por lá !

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