quinta-feira, 17 de agosto de 2017

O JARDIM DAS DESILUSÕES – CAPÍTULO VI – FINAL






O funeral aconteceu em um dia especialmente frio no qual uma chuva fina e cortante era derramada em rajadas pelo vento. Os pais de Maria acharam melhor sepultá-la em Paris. Seria doloroso demais levar o corpo de volta ao Brasil. 

Abracei Nando, e ele correspondeu-me, me apertando com força. Abracei as amigas-girafa, que choravam copiosamente, e também abracei os pais de Maria. Todos me abraçaram de volta calorosamente, como seu eu fosse alguma espécie de porto seguro. Senti-me hipócrita: ah, se eles soubessem! Ninguém desconfiava do que estava acontecendo entre mim e o namorado de Maria enquanto ela morria. 

Na volta, fui caminhando com Giulia, os braços em volta dela, querendo proteger minha amiga da dor que sentia. Finalmente, a minha ficha caiu, e todo o drama da situação veio à tona, me fazendo recuperar a minha capacidade de sentir, a minha empatia. Chorei também. Por Maria, por todos nós, que andamos por aí tentando aprender a viver. 

No dia seguinte ao funeral, a primeira coisa que eu vi ao abrir a porta do quarto, foram as malas de Nando. Ele foi embora naquele dia. Não disse a ninguém para onde ia, apenas que ia viajar pelo mundo, e nem sabia como ou por onde começar, mas que não aguentava mais ficar em Paris. Nós nos abraçamos à porta, quando nos despedimos. Ele chorou muito no meu ombro, e me deu um beijo demorado na boca. 

Perguntei se ele voltava. Ele encolheu os ombros, enxugando as lágrimas. Disse que talvez voltasse quando - e se - estivesse curado. Eu disse a ele que estaria ali, esperando.

E eu esperei por ele durante meses, que se transformaram em anos. Errou feio quem disse aquela célebre frase, “Longe dos olhos, longe do coração.” Tentei contato pelo seu telefone, mas com certeza, estava desligado, ou ele trocara o chip. No Brasil, a família dele dizia que ele estava viajando pela África. Não quiseram dar seu telefone, a pedido dele. 

Giulia se formou, voltou ao Brasil. Fiquei no mesmo apartamento, que aluguei. Consegui um emprego em uma cafeteria, que permitia – com a ajuda financeira de meus pais – que eu pagasse as contas. Foram dois anos e meio naquela espera. Foram verões, outonos, invernos e primaveras, em que eu me sentei naquele jardim mágico – o Jardin de l'Hôpital Vaugirard - e esperei por ele. 
Meus pais diziam que alguém tão graduado não poderia passar a vida trabalhando em uma lanchonete, e eu sabia que eles tinham razão. Estava chegando a hora de ir embora. As amigas de Maria acabaram virando minhas amigas, e descobri que elas eram apenas garotas, como eu, com suas inseguranças e medos. Aprendi que eu era uma pessoa que tinha valor, e que tinha muito a aprender e a ensinar.

 Comecei a visitar asilos nas minhas horas vagas. Levava livros, e lia para os idosos, e conversava com eles. Já falava francês fluentemente – precisei me empenhar, agora que estava sozinha e precisava resolver tudo . E conversar com os idosos me ajudou muito a melhorar meu desempenho na língua. Também abriu uma parte sensível dentro de mim que eu não conhecia bem; eu tinha a impressão que eles me ensinaram sentir de novo, a fazer parte. 

Mas a hora de voltar ao Brasil estava chegando, e eu me dizia, toda vez que tal pensamento me acometia, ou que eu recebia um telefonema falando sobre isso: “Só mais uma semana...”

Certa tarde, eu estava no hospital, pronta para começar minha tarde de leituras, quando a enfermeira me chamou, dizendo que havia um novo paciente que precisava muito de companhia, pois estava bastante entristecido. Segui-a até o quarto, pronta para me apresentar e começar a ler para ele. A enfermeira me explicou que seu nome era Augustin. Ela abriu a porta, e eu entrei, me aproximando do leito:

- Bon après-midi, monsieur Augustin...

Minhas sobrancelhas se ergueram de surpresa quando o vi: era o velhinho do parque! Ele sorriu, me cumprimentando em português:

-Ora, se não é a minha velha jovem amiga! Como vai?

-Olá! Estou feliz em vê-lo... quero dizer... preferiria que o senhor não estivesse de cama...

Ele riu, divertido com o meu constrangimento:

-Não precisa se desculpar. Parece que você sempre se desculpa quando nos encontramos.

-Só nos encontramos uma vez antes desta, suponho...

-É verdade... mas eu a vi muitas vezes antes. 

Sorri de volta para ele, começando a mostrar-lhe os livros que trouxera para que ele escolhesse um, mas ele disse:

-Esqueça os livros. Vamos conversar. Estou no final da minha vida e não me interessa ler mais nada. 

Concordei com ele, colocando os livros na mesinha.

-Sobre o que quer conversar?

-Sobre você. Já se casou com aquele jovem?

Fiquei triste de repente, e por mais que eu desfarçasse, ele percebeu. 

-Vejo que não...

Balancei a cabeça, negando e respirando fundo. E de repente, eu estava contando a ele toda a minha história com Nando. Falei sobre como me senti ao saber sobre o acidente de Maria, e ele me ouviu sem me julgar. Quando terminei meu relato, ele disse:

-Eu também quis que o desgraçado que me roubou a esposa morresse... mas ele está bem vivo, e eu estou morrendo. 

Assenti com a cabeça, ajeitando os travesseiros dele, querendo fazer alguma coisa que o deixasse melhor. 

-O que o senhor tem?

-Tenho o que quase todo mundo que está morrendo têm hoje em dia: câncer em estado terminal. Se bem que eu estaria em estado terminal mesmo sem ele... afinal, tenho 92 anos!

Ele riu, e eu ri junto. Era importante ter bom humor em uma hora como aquela. Ele me perguntou:

-Mas você acha que ele vai voltar?

Balancei a cabeça, negando, e baixei os olhos para as minhas próprias mãos, que eu torcia em meu colo. Senti que lágrimas começaram a se formar devagarinho, e engoli a fim de sufocá-las. 

-Meus pais me dizem que já está na hora de voltar ao Brasil, e eu concordo com eles. Preciso deixar tudo isso para trás, esquecer Nando e essa história. Mas como?

Ele não respondeu minha pergunta; mas disse:

- Algumas histórias não terminam bem. A vida é assim. Mas eu vi nos olhos daquele rapaz que ele a amava. Penso que ele se sente culpado pelo que aconteceu à namorada quando olha para você. É difícil para ele admitir que estava se apaixonando por outra mulher. E ele perdeu duas pessoas: a mulher e o filho que ela estava esperando. 

Concordei com a cabeça. Estava ficando tarde e eu precisava ir. Olhei para Augustin, afagando a mão dele sobre o lençol: 

-Infelizmente, preciso ir. Mas eu volto amanhã. Prometo!

Ele segurou a minha mão antes que eu pudesse retirá-la, e me disse:

-Não volte mais aqui. Este lugar não é para você. Aqui só há morte. Você é jovem demais, e precisa recomeçar a viver e a ser feliz. Procure pela vida! E ela não está aqui, pode ter certeza. Aqui somos todos velhos e estamos morrendo. E há por aqui muitos velhos egoístas que não souberam viver suas vidas e que vampirizam os jovens através de seus lamentos e exigências.

Ele esperou um pouco antes de continuar:

-Muitas pessoas vêm aqui mais por elas mesmas do que por nós, a fim de se esconderem de seus próprios fantasmas. Como você. Acha que assim vai redimir-se de seus pecados. Mas escute: você não tem pecado algum! Seu único pecado será, no futuro, arrepender-se por ter desperdiçado uma parte importante da sua juventude em uma história que acabou. E com pessoas que você vai perder. Porque você é do tipo que se apega, e vai sofrer quando as pessoas que você vem visitar partirem. Não faça de sua vida um martírio! Você merece coisa melhor.

Eu não sabia o que dizer enquanto as coisas que ele estava falando para mim me caíam como luvas. Afaguei a mão dele, e nós nos despedimos. Quando eu estava à porta, ele me chamou:

-Prometa que vai ter uma boa vida.

-Eu prometo.

Nunca mais voltei ao hospital. 

Arrumar as malas e deixar Paris não foi nada fácil. Eu o fiz em uma manhã de outono, escura e fria. Sobre o mundo, estendia-se um céu quase negro. Propício ao que eu sentia por dentro. No táxi, eu olhava as ruas que se tornaram tão minhas conhecidas pela última vez. Pensava que não conseguiria voltar a Paris nunca mais, nem mesmo em viagem de férias, pois deixava lá muitas lembranças e muitas saudades. 

Entrei no avião que me levaria de volta ao Brasil. Ele decolou, e esticando o pescoço, dei minha última olhada na cidade-luz. Depois, fechei os olhos. 
Não tive mais tive notícias de Nando. Soube que Giulia se casara com um espanhol. Ela me visitou uma vez, quando passava férias no Brasil – estava morando na Espanha com o marido. Vê-la despertou tantos sentimentos adormecidos, que quando ela se foi, após dois dias, custei a voltar a ser eu mesma. 

Eu estava trabalhando, e tinha namorado alguns homens. Mas não amei nenhum deles. 

Seis meses após voltar ao Brasil, cheguei em casa após um dia de trabalho e quando passava por meu pai, que fazia o jardim, ele me disse que havia alguém na sala de estar esperando por mim. Pensei que fosse um de meus amigos, e entrei. Ouvi minha mãe conversando com alguém, e quando ela me ouviu entrar, disse:

-Filha! Que bom que chegou. Seu amigo já está esperando a mais de uma hora!

Cheguei na sala e deparei com Nando à minha espera. Minha mãe logo percebeu o clima, e retirou-se em silêncio, passando por mim e piscando um olho. 
Só consegui abrir os braços e me jogar nos braços abertos que ele me estendeu.
Afinal, nem todas as histórias de amor terminam mal. Ele me disse que estava pronto para esquecer o passado, e que queria um futuro comigo. E eu o dei a ele.

FIM







terça-feira, 15 de agosto de 2017

JARDIM DAS DESILUSÕES – CAPÍTULO V







Horas mais tarde, nós abrimos a porta do quarto. 

Mas isto só aconteceu horas mais tarde. Antes de abrirmos a porta, tudo o que eu sempre sonhara, desde que o conheci, aconteceu. Ninguém disse nada. Só nos beijávamos, nos abraçávamos e fazíamos amor. Eu aproveitava cada segundo, e alisava o corpo dele como se quisesse absorver seu cheiro e o toque de sua pele para sempre, para levar comigo quando ele fosse apenas uma lembrança – porque, de qualquer forma, eu instintivamente sabia que Nando não era e nem seria meu. Mas eu tentava negar aquela certeza com todas as minhas forças. 

Horas mais tarde, nós pensaríamos em como continuar com nossas vidas; mas não naquele momento! Precisávamos um do outro. Necessitávamos encontrar um no outro alento e consolo, paixão e satisfação. Acho que houve amor. Nós realmente nos amávamos. Eu sentia, pelo olhar dele, que ele me amava. De verdade. 

Horas mais tarde, resolveríamos o lado prático da coisa, se ele ficaria comigo ou não, se Maria viveria ou não, e se ela vivesse, se eles voltariam a ser um casal ou não. Mas naquele momento, havia coisas muito mais urgentes a serem resolvidas. Havia a fome de muitos meses, a ânsia de muitas noites, as incertezas que ambos precisávamos esclarecer de alguma forma – porque quando nos cansamos de tanto transar, ele me disse, baixinho, que também achava que me amava. Foi bem assim: “Eu acho que amo você, Cris.”

E por causa daquela curta frase, de repente, toda a minha vida valeu a pena. Todas as vezes em que não me senti bonita ou inteligente o suficiente, magra o suficiente, amada o suficiente. Tudo valeu a pena, e eu senti que estaria disposta a viver uma vida bem mais difícil que a que eu tivera se houvesse nela a promessa de novamente viver aquele momento, ouvir aquelas palavras: “Acho que eu amo você, Cris.” Eu poderia morar na rua e ser chutada todos os dias, me sentindo inadequada, desamada ou ignorada, se alguém me dissesse que um dia Nando me diria aquilo: “Eu acho que amo você, Cris.”

Dormimos abraçados a noite toda. Ou seja, ele dormiu. Eu fiquei acordada, bebendo as curvas do corpo dele, os cílios aloirados, a boca entreaberta, os cabelos claros enrodilhados em meus dedos. Eu seguia o ritmo da respiração dele, deitando a cabeça em seu peito e respirando profundamente. Achei que o perfume que ele sempre usava acabaria se entranhando em mim. Eu entrelaçava minhas pernas às dele, meus dedos aos dele, meus sonhos... não sei se ele os sonhava também. 

Horas mais tarde, nós abrimos a porta do quarto. E deparamos com a realidade. Giulia nos olhava. 

Estávamos de pé à porta, eu, enrolada em um robe, o corpo nu por baixo dele, e Nando, vestindo apenas suas cuecas samba-canção. Trazíamos sobre a pele os cheiros da noite. Eu tinha  a impressão de que nós exalávamos aquele cheiro pelo apartamento todo. Não esperávamos vê-la ali, pois ainda eram seis horas da manhã. Nossa intenção era ... eu não sei qual era a nossa intenção, pois não disséramos nada antes de sairmos do quarto. Só nos olhamos, sorrimos, entrelaçamos as mãos. E nos levantamos, abrindo a porta. 

E Giulia estava li, de pé, olhando para nós, acusando-nos com os olhos, apontando para nossos rostos um dedo imaginário cheio de culpa e vergonha. Eu vi quando Nando abriu a boca para dizer alguma coisa, mas Giulia o cortou com a voz fria:

-Ela acordou. 

E quando Maria acordou, meu pesadelo começou. 

Ele largou a minha mão de repente, entrando no banheiro:

-Vou tomar um banho e vou direto para lá.

Quando ele disse “Vou tomar um banho,” fechei os olhos de tanta dor. Senti que eu escorregava para o chão do corredor, e olhei para Giulia, mas ela apenas virou as costas e me deixou ali. Eu me sentia suja, e pensava que ele me achava suja. Não queria estar ali quando ele saísse do banheiro, então eu me levantei com esforço e me arrastei de volta para o quarto, deitando na cama onde, há apenas alguns minutos, ele tinha sido meu, completamente meu. 

Com o rosto à altura do travesseiro dele, peguei um fio de cabelo loiro que ficara por lá. Soprei-o, e as lágrimas começaram a cair. 

Nando e Giulia passaram o dia todo fora. Ainda tentei enviar uma mensagem para Giulia, mas ela não a respondeu. Eu não sabia mais o que fazer. Andava pelo apartamento, sabendo que minha presença ali não seria mais tolerada, nem sequer por mim mesma. Pensava no que faria. Teria que achar outro apartamento para terminar o curso... mas... não; melhor seria largar tudo e voltar ao Brasil. 

Esquecer aquelas pessoas, aqueles amigos que eu traíra. Todos eles me odiariam quando soubessem. Pensei nas amigas-girafa de Maria me olhando de cima de seus pescoços compridos, as pupilas dilatadas de ódio entre os cílios postiços. Pensei nos pais de Maria, me olhando com desprezo como se eu fosse a vagabunda que tentou destruir o relacionamento de sua filha querida enquanto ela estava correndo risco de morte. Pensei em Giulia e em seu olhar gelado, ela,  que tanto me avisou que aquilo ia acabar acontecendo. Mas não conseguia pensar no que Nando ia fazer. Certamente, não terminaria com Maria. Ele não trocaria sua bela namorada por mim. Ele não trocaria... afinal, ele dissera que a amava.

De repente, eu me lembrei de que ele também dissera que me amava!

Mas eu não estava pronta para ser “A outra.” Jamais aceitaria imaginar que ele estaria fazendo com Maria tudo o que tínhamos feito no quarto naquela noite de sonhos. Eu não poderia aceitar. E acho que Nando também não era esse tipo de cara. Teria que fazer uma escolha. 

Me olhei no espelho, deixando que o robe caísse aos meus pés: não, eu não era feia, embora não fosse o padrão de beleza ideal, como Maria e suas amigas modelos. Lembrei-me das palavras do velho do jardim: “Você tem uma beleza sutil. A beleza sutil é mais duradoura.” Como eu queria acreditar nele! Naquele momento, tudo o que eu queria, é saber-me bonita. Pensando assim, sem tomar banho, pois ainda não estava pronta para ‘lavar’ o corpo de Nando do meu, vesti-me e fui até o meu jardim. Quem sabe, eu pudesse encontrar o homem velho de novo?

Sentei-me no banco, sentindo o frio de final de tarde. Esperei. Mas ele não apareceu. Começou a escurecer. Começou a esfriar mais, e a nevar. Levantei-me e fui para casa. O apartamento estava escuro quando entrei, e bati a porta. 

Me assustei quando uma voz veio do sofá:

-Onde você estava, Cristina?

Sem acender a luz, pois não saberia como olhá-la nos olhos, sentei-me na poltrona oposta a Giulia:

-Passeando no jardim. Precisava pensar. Ficar sozinha. Sentir alguma coisa, nem que fosse frio... como está a Maria?

Giulia não respondeu. O silêncio baixou sobre nós duas. Escutei que ela se mexeu no sofá, respirando mais profundamente e fungando.
E eu compreendi imediatamente o que tinha acontecido:

-Ah, meu Deus... onde está Nando?

Ela respondeu, as lágrimas quase fazendo com que ela engasgasse:

-Deram um sedativo forte para ele. Está dormindo. 

-Eu... não entendo! Ela tinha acordado, pensei que estivesse melhorando.

-Todos pensamos. Mas ela teve um AVC. Na frente do Nando. Ele a estava olhando através do vidro. Viu quando os médicos chegaram correndo para ressuscitá-la, até que alguém percebeu que ele estava ali e fechou a cortina. Nando disse que ela estava sorrindo para ele, apesar de muito machucada, quando passou mal. 

Eu sentia que estava encolhendo aos poucos, e que logo caberia dentro de algum buraco no canto do rodapé. Eu queria desaparecer. Nenhuma de nós acendeu a luz. Comecei a sentir uma fome enorme –afinal, não comera nada naquele dia, nem na noite anterior. Fui até a cozinha e deparei com a vasilha cheia de macarrão com molho, e coloquei-a no micro-ondas. Apertei o botão e o aparelho acendeu, iluminando em volta. 

Giulia estava de pé à porta. Ela me olhava. De repente, acendeu a luz.

-Obrigada por perguntar como eu estou me sentindo, Cris. 

-Me desculpe, eu... achei que você estivesse com ódio de mim... tentei te mandar mensagens mas você não respondia...

Fui até ela, e nós nos abraçamos, chorando. O micro-ondas apitou, dizendo que o jantar estava quente. 


(continua...)





sábado, 12 de agosto de 2017

JARDIM DAS DESILUSÕES – Capítulo IV






Dois dias depois, Nando veio me dizer que Maria estava voltando. Ela tinha decidido ficar com a criança, e os dois planejavam morar juntos. Terminariam os seus cursos em Paris e iriam embora para o Brasil. Ele queria que o filho dele fosse brasileiro. Giulia ficou surpresa ao saber que Nando ia ser pai. Enquanto ele contava para a ela a novidade, não cabendo em si de alegria, ela me olhou por cima do ombro dele. Saí de cena, e fui dar uma volta à pé. Sentia que estava sobrando naquela história; aliás, eu sempre me sentia sobrando, e ter ido morar em Paris por algum tempo também tinha sido uma fuga da vida que eu tinha – na qual eu me sentia sobrando. 

Nunca fizera amizades duradouras. Não conseguia me adaptar às pessoas e aos seus humores. Minha mãe me dizia que eu era exigente demais, sensível demais, e que acabaria sozinha. E sozinha eu era, pois nem mesmo tivera algum namorado durante mais de dois meses, e nunca tinha me apaixonado de verdade por ninguém – a não ser pelo Nando, que não era e nem nunca seria meu. 

Certa vez, Giulia me disse que nós não tínhamos sido feitos um para o outro. Éramos como a água e o óleo, que jamais se misturariam, pois nossas personalidades eram totalmente diferentes; enquanto eu era quieta, calada e quase melancólica, Nando era o retrato da alegria esfuziante. Cheio de amigos, a vida de qualquer festa, aventureiro, ligado à beleza. Quando ela disse a última frase, percebeu a besteira que tinha dito, pois me senti mais feia ainda, e ela notou, pedindo desculpas. Encolhi os ombros: ela estava certa. Porém, também estava certo quem disse que os opostos se atraem – mesmo que a atração não seja mútua. 

Finalmente, chegou o grande dia da volta de Maria. Giulia tinha preparado uma comidinha especial para recebê-la, e convidara as amigas que moravam junto com ela. Maria dividia o apartamento com quatro modelos, todas elas perfeitas, lindas, altas e magras. Nunca me senti tão feia!

Estávamos todos reunidos na sala, conversando e esperando por ela, embora eu desejasse estar em qualquer outro lugar do mundo, nem que fosse no Iraque. Mas Giulia me pediu que fosse razoável, e me comportasse como adulta ao invés de uma criança mimada e voluntariosa. Nando já tinha ‘dona’, ela frisou. E eu sabia muito bem disso. Saber perder, segundo ela, também era uma virtude. E arrematou dizendo que eu era ainda muito jovem, e que eu acabaria me apaixonando de novo. 

Nando foi buscar a namorada na estação, onde ela chegaria depois de tomar um trem próximo ao aeroporto. Ficamos só nós, as mulheres, e me senti excluída da conversa, como sempre. Giulia tentava me enturmar, mas eu realmente não via nenhum interesse comum entre mim e aquelas avestruzes de passarela. Eu ia até a cozinha, trazendo bandejas de canapés, bebidas  e copos limpos. Cheguei a pensar que elas achavam que eu era a empregada da casa, ou uma garçonete. 

Mais de uma hora já tinha se passado desde que Nando saíra. As meninas começaram a olhar seus reloginhos de pulso ou seus IPhones, olhando pela janela com impaciência, e depois de duas horas, com preocupação. Eu disse que era normal que voos atrasassem, mas depois de três horas, até eu fiquei preocupada. 
Resolvi ligar a TV para que as convidadas se distraíssem. E foi então que o horror nos pegou de surpresa: a imagem na tela mostrava um ataque terrorista recente em um dos trens do metrô.

Lulu, uma das amigas de Maria, imediatamente pegou o telefone e começou a ligar para a amiga, mas ninguém atendeu. Giulia tentou falar com Nando. Enquanto isso, uma das outras meninas tentava contato com a polícia local e com a estação de metrô para saber se Maria estava no trem. Após várias tentativas, Nando atendeu o telefone. Giulia fez sinal para que nos calássemos enquanto ela falava com ele. Ficamos todas prestando atenção. Tentando adivinhar o teor da conversa:

-Em que hospital? ... Ela está bem?... E você?... Calma, Nando... estamos indo encontrar você.

Maria estivera naquele trem.  

Estava hospitalizada e muito ferida. Nando tinha sido informado de que ela sofrera uma perfuração no abdômem. Ela tinha perdido o bebê, e corria risco de morte. O horror daquilo tudo me atingiu, muito mais forte do que a qualquer um. Porque eu não sabia lidar com o horror de perceber que eu desejava a morte dela. 

Ao chegarmos no hospital, encontramos Nando sentado em uma cadeira na sala de espera, as mãos segurando a cabeça, os cotovelos apoiados nos joelhos. Tinha os olhos vermelhos, e tremia. Quando nos viu, ele se levantou e veio correndo em nossa direção, recebendo um abraço coletivo. Uma das meninas perguntou-lhe se tinha mais notícias, e ele disse que Maria estava sendo operada:

-E muito grave, o médico disse que ela pode... ela pode...

Ele começou a chorar convulsivamente, e senti muita pena dele. 
Ficamos lá durante horas, nos revezando entre a cafeteria e a sala de espera. Sentei-me perto de Nando a maior parte do tempo. Levava-lhe café, água e mais tarde, um sanduíche, que ele não quis comer. A cirurgia durou a noite toda. Foi angustiante e muito cansativo. De manhã, o médico, com aparência muito cansada, chamou por Nando, e os dois ficaram conversando durante algum tempo. Eu não conseguia entender muito bem o que diziam, mas sabia que a situação não era das melhores. Eu olhava para Nando, e via que ele se encolhia cada vez mais, e ficava cada vez mais pálido. Finalmente, o médico se foi e ele veio até nós, que o cercamos, querendo saber mais notícias.

Engoli em seco, tentando espantar o pensamento de que eu desejava ouvir que não tinha mais jeito para Maria, que ela não se recuperaria. Eu fazia de tudo para espantar aquele pensamento maldoso, mas ele ficava no fundo da minha cabeça, me cutucando feito um arame farpado. Às vezes eu deparava com Giulia me olhando, e sabia que eu estava sendo cristalina demais, e então, tentava fazer uma cara mais constrangida.

Nando disse, passando a mão sobre o rosto cansado:

-A operação correu bem, mas apareceu mais uma complicação. Ela teve uma hemorragia interna. Eles conseguiram estancar, mas ela perdeu muito sangue e corre risco de infecção, já que... o abdômen dela foi transpassado por um pedaço de ferro. 

Todas cobrimos a boca, tentando conter o horror. Ele continuou:

-Tudo depende das próximas horas. Se ela reagir...

Uma das meninas perguntou se ela estava acordada, e ele respondeu:

-Não. Está em coma induzido. Eu queria ficar com ela, mas ninguém pode entrar...

Giulia falou:

-Vamos para casa, estamos cansados e não há nada que possamos fazer aqui. Nando, você avisou os pais dela?

-Sim... eles devem chegar ainda hoje. Talvez no final do dia.

-Então vamos dormir, descansar... precisamos estar bem para recebê-los. Vai ser muito difícil para eles, e precisarão do nosso apoio.

Todas balançamos as cabeças, concordando com ela. Nando disse:

-Vou ficar aqui.

Giulia insistiu:

-Nada disso. Não há nada que você possa fazer por ela agora, Nando. Você precisa descansar, tomar um banho e comer alguma coisa.

Ela puxou-o devagar pelo braço, conduzindo-o para fora do hospital. Eu fui caminhando atrás deles, me sentindo inútil. Não podia ajudar o Nando. Não podia – nem desejava – ajudar Maria. Eu estava espantada com a descoberta daquele meu lado ruim, egoísta e maldoso. Queria negá-lo, sufocá-lo e escondê-lo de todos. Não conseguia entender o que estava acontecendo comigo!

Chegamos em casa, e após comermos alguma coisa, as amigas de Maria foram embora, com a promessa de que mandaríamos notícias assim que soubéssemos de alguma coisa. Giulia colocou Nando dentro do banheiro com o chuveiro ligado. Do lado de fora, no corredor, ouvi quando ele chorou. Eu não podia competir com aquele amor.

Giulia me pegou no flagra, encostada à porta do banheiro, e me puxou para o meu quarto dela. Parecia zangada:

- Não é hora para isso, Cristina! Deixe ele em paz. Se não pode consolá-lo, não tente seduzi-lo. Seria inadequado e cruel. 

Dizendo aquilo, ela saiu, fechando a porta. 

Dormi o dia todo, um sono de pedra. Quando acordei e olhei em volta, lá fora já escurecia. Minha cabeça deu uma forte latejada assim que me levantei, e respirei fundo, pegando uma aspirina na gaveta da mesinha. Escutei vozes na sala ao passar pelo corredor. Fui até o banheiro e escovei os dentes, e depois engoli a aspirina. Me sentia faminta. Na sala, vi que Giulia estava ao telefone. Entrei na cozinha e comecei a preparar um macarrão para jantarmos, e quando ela desligou, veio para perto de mim, sentando-se à mesa. Perguntei:

-Alguma novidade?

-Nada ainda. Ela continua em coma induzido. Os pais chegaram e Nando foi com eles até o hospital.

-Os pais dela estiveram aqui?

-Sim.

-Por que não me acordou?

-Para quê, na verdade? Eles nem a conhecem. Você sequer gosta da filha deles.
A voz zangada de Giulia quase me cortou a pele:

-Hey, eu não tenho culpa do que aconteceu! Por que está me tratando como se eu tivesse?

-Por que você está agindo como se o mundo girasse à sua volta, Cris! Nem se importa comigo, que sou amiga de Maria! Não me perguntou nenhuma vez como eu me sinto, ou como o Nando se sente! E eu vi o ar de riso que você tentou disfarçar quando recebeu a notícia!

Fiquei boquiaberta, sem saber o que dizer. Jamais poderia imaginar que ela tinha percebido. Após alguns segundos, eu abri a boca e comecei a falar:

-Escute, eu sinto muito, tá legal? Mas não posso fingir que eu adoro a Maria, ela nem sequer me tratava bem!

-Tratava?! Pare de se referir a ela no passado! Maria está viva! 

-Eu sei! 

Comecei a chorar, porque não sabia mais o que fazer ou o que dizer, já que ela estava certa. Joguei o macarrão na água fervendo, e cruzei os braços, ficando de costas para ela. Eu estava sendo julgada, e severamente julgada! E de nada adiantava rebater o que Giulia dizia, pois eu sabia que estaria mentindo para ela e para mim mesma. Resolvi dizer a verdade, com toda franqueza possível:

-Giulia, você sabe o quanto eu estou apaixonada pelo Nando! Eu o amo! Acha que está sendo fácil para mim, ver o quanto ele está sofrendo por ela? Acha que é fácil ficar consolando o Nando, e torcendo para que a Maria se recupere? Eu... no fundo, eu não quero o mal dela, juro... quero que ela fique boa... mas não amar o Nando não é algo que eu possa decidir fazer. É mais forte do que eu, entende? Eu o amo, e pronto! Você pode me dizer o que eu faço para arrancar esse sentimento de dentro de mim? Agora sou eu que peço: Você pode, por favor, me ajudar?

Ela me olhou, enquanto eu desmoronava na frente dela, os olhos percorrendo meu rosto. De repente, ela se levantou da cadeira e veio me abraçar.

-Desculpe, amiga... desculpe... eu... acho que estamos todos muito nervosos. 

Eu soluçava e tremia nos braços dela.

-Eu só estava preocupada com a Maria. Desculpe por não ter visto o seu lado nessa história toda, Cristina... quem sou eu para julgá-la?

Naquele momento, com o canto do olho, percebi que havia alguém de pé atrás de nós, na entrada da cozinha. Era Nando. Há quanto tempo ele estava ali? O que tinha escutado? Ficamos ambas muito surpresas e sem graça, especialmente pelo silêncio que se seguiu, e que deixava claro que ele tinha escutado o bastante. Fui escorrer o macarrão, pois precisava fazer alguma coisa, ficar de costas para ele, que não podia perceber o que se passava comigo. Giulia enxugou os olhos e fungou:

-Como está ela? Como foi tudo? E os pais...

Nando demorou um pouco a responder, e disse devagar:

-Ela está na mesma. Os pais vão ficar em um hotel. Próximo ao hospital. Eles estão arrasados... 

-Sente-se, eu e Cris estamos preparando o jantar.

Eu permaneci de costas para Nando, incapaz de encará-lo. Ouvi quando ele arrastou a cadeira, e então, Giulia disse: “O que?” E saiu da cozinha, deixando-nos à sós. Achei que ele tinha pedido a ela, por gestos, que saísse. Eu estava colocando o molho do macarrão no fogo. Enquanto ele esquentava, eu derramava o conteúdo do escorredor em uma terrina. Procurei pelo queijo ralado na geladeira. O tempo todo, eu estava consciente da presença dele, de seus olhos grudados às minhas costas. Quase derrubei no chão o molho que eu estava jogando sobre o macarrão quando ouvi a voz dele.

-Cris... olhe para mim!

Larguei tudo sobre o mármore da pia. Não tinha coragem de encará-lo. Nando insistiu:

-Olhe para mim, por favor. 

Eu me virei devagar, os olhos presos no tampo da mesa, onde ele descansava uma das mãos. Eu me apoiava na pia com medo de cair. Ele se ergueu da cadeira e veio andando em minha direção; segurou meu queixo, erguendo minha cabeça e me obrigando a olhar para ele. Eu mal conseguia ver o rosto dele, pois minha visão estava turva pelas lágrimas. Mas ele as secou com suas mãos, e então algo inusitado aconteceu: ele me abraçou e beijou com força, com urgência e sofreguidão. 

Meu corpo se ajustava ao dele, e faíscas percorriam o meu cérebro. Eu não sabia se deveria estar alegre ou envergonhada, mas de repente, a culpa começou a tomar conta de mim. A namorada daquele cara estava em uma cama de hospital, e poderia morrer. Mas tudo o que eu conseguia fazer era  corresponder àquele beijo com a mesma urgência, a mesma paixão. Senti que ele estava pronto para mim. Arrastei-o até o meu quarto, e o macarrão ficou esfriando sobre a pia. 





sexta-feira, 11 de agosto de 2017

JARDIM DAS DESILUSÕES Capítulo III






Saí do jardim e fui direto para casa, me sentindo bem melhor depois do que o misterioso velhinho me dissera. Chegando lá, contei tudo a Giulia, que me ouviu com ar descrente, e depois comentou:

-Cristina, esse homem não passa de um estranho, e pode estar enxergando o que não existe... como eu já te disse antes, já passei por esse caminho onde você está, e não foi nada bom me desiludir. Cuidado para não se ferir. Além do mais, embora você não goste dela, a Maria é uma ótima pessoa, e não é legal a gente se meter no relacionamento alheio.

Me joguei no sofá, emburrada:

-Você não torce para que o Nando fiquei comigo, não é?

-Não. E sabe por que? Porque isso não está certo! Ele tem uma namorada, Cris. E é apaixonado por ela. Vê se esquece! Além disso, eu gosto demais de vocês três e não quero ver ninguém machucado.

Eu olhei bem dentro dos olhos dela, que estava sentada na poltrona em frente ao sofá e disse:

-Alguém sempre sai machucado, Giulia. Eu já estou machucada. Mas... de repente, o velhinho tem razão! Ele tem experiência de vida e percebeu que o Nando me olha diferente.

-Ou talvez ele tenha te visto triste e quis te consolar. Bem, não faça nada que possa machucar vocês, Cristina. Vou te contar a minha história: eu era apaixonada pelo namorado de uma amiga. Ela não era muito bonita... e por isso eu achei que seria fácil tirar o namorado dela.

Comecei a prestar atenção na história, apoiando a cabeça no antebraço para vê-la melhor. Ela continuou:

-Então eu dei tanto em cima do cara, que ele acabou ficando comigo... com as duas! E de repente, eu estava em um triângulo amoroso com minha amiga e seu namorado, que não fazia menção de largar nenhuma das duas. Fiz pressão... nisso, minha amiga descobriu – pegou a gente conversando – na verdade, estávamos brigando – durante uma festa. Ela logo entendeu tudo. Perdi a amiga. E perdi o carinha, que ficou atrás dela.

-Nossa... sinto muito!

-Não sinta. Eu mereci.

-E quanto tempo isso durou?

-Fiquei com ele interpretando o papel de “A Outra” durante uns dois anos. Perdi minha melhor amiga. Hoje, eles estão casados. Os dois viravam a cara para mim quando passavam por mim, e eu me sentia péssima...

Pensei naquilo tudo, e comentei:

-Mas você disse que ela não era bonita... no meu caso, é o contrário: Maria é linda, e eu não sou.

Ela arregalou os olhos:

-Quem disse que não?

Eu ri:

-Eu tenho espelho. Sou a pessoa mais... sem graça do mundo, no que tange a beleza física. Não nasci com esse dom. Porque beleza deve ser um dom que alguma fada madrinha dá a alguém. A minha era uma fada meio-malvada, acho.

Ela se levantou, e passou por mim batendo em meu joelho, e indo em direção à cozinha:

-O papel de coitadinha não lhe cai bem. Pare com isso. Além do mais, amor nada tem a ver com beleza física.

Ela voltou de lá minutos depois, com duas xícaras de chá:

-Vamos fazer o seguinte: é quase natal e estamos sozinhas aqui. Nós vamos “turistar” por Paris! Com direito a Torre Eiffel, Louvre e tudo o mais. Começamos amanhã cedo. Até o natal, teremos visitado a cidade toda, e tomado um copo de vinho em cada bar desse lugar. E quem sabe, a gente não acaba se apaixonando por alguém?

Eu ri alto:

-Você, pode ser, mas eu...

-Ora, cale essa boca! Estamos em Paris, está nevando e é natal! Tudo pode acontecer. Amanhã vamos começar fazendo umas comprinhas. Roupas novas. 

E assim fizemos. Passamos o dia seguinte buscando roupas, sapatos, bolsas, maquiagem. Também passamos por um salão de beleza. Descontamos os meses de economia que tínhamos vivido desde que chegáramos àquela cidade. 

Aproveitamos a quota extra de dinheiro mandada pelos nossos pais, e esquecemos a promessa de economizar. E nos cinco dias que faltavam para o Natal, nós fomos ao cinema, ficamos bêbadas, visitamos museus e nos sentamos em cafés. 

Só não nos apaixonamos.

No dia 28 de dezembro, bem cedo pela manhã, Nando apareceu de volta. Eu estava sentada no sofá, estudando algumas matérias, quando ouvi a chave na fechadura, e meu coração quase saiu pela boca. Fiquei feliz quando ele entrou e fechou a porta: estava sozinho. Com certeza, Maria, cansada da viagem, tinha ido para a casa dela. Ele atravessou a sala até mim, e me pegou nos braços, me tirando do sofá (fiquei suspensa no ar, no colo dele) e me dando um beijo na bochecha. Nando era assim: espontâneo e meio maluco. 

-Bem vindo de volta ao lar, filho pródigo! Foi bem de viagem?

Ele fez uma cara estranha, e mudou de assunto:

-E como foi o natal por aqui?

-Foi ótimo. Enchemos a cara todos os dias, passeamos, fizemos compras e comemos feito duas vacas. A Noite Feliz foi regada a vinho tinto e nós nos empanturramos de brioches e massa. E o de vocês, lá no Brasil?

-Legal.

Eu logo percebi que ele não queria tocar no assunto, e mudei o rumo da conversa:

-Eu ... nós compramos um presente para você.

Corri até o quarto e trouxe a caixa com a camisa que eu e Giulia tínhamos escolhido para ele. Quando cheguei, ele também segurava um pacote. Trocamos os presentes. Ele me trouxera uma caixa de bombons de frutas brasileiras, que eu adorava. E disse ter gostado muito da camisa. Eu disse que tínhamos algo para Maria também. Ele desconversou, perguntando por Giulia em voz alta:

-Onde está a Giulia? Se ela estiver dormindo, vou comer os bombons dela!

Ela logo apareceu à porta do quarto, enrolada em um robe cor-de-rosa e calçando chinelos com caras de gato. Ao vê-lo, abraçou-o. Enquanto o fazia, me olhou diretamente. Ela perguntou:

-Pensei que Maria estaria com você. Compramos algo para ela. Onde ela está?

Ele percebeu que seria difícil não falar sobre o assunto, e respondeu, coçando a cabeça e se jogando no sofá:

-Ficou no Brasil. Decidiu que vai voltar em janeiro. Ela tem umas coisas para resolver por lá.

Giulia concordou com a cabeça, e não querendo ser intrusiva, mudou de assunto. 
Fomos todos tomar café na rua. Claro, eu estava exultante de felicidade, e não conseguia esconder. Porém, Nando não estava muito bem, e também não conseguia esconder. Mas tentava. Pela hora do almoço, acabou entrando no nosso clima, e fomos dar uma volta pelas ruas a fim de apreciar o dia ensolarado. 

Quando voltamos ao apartamento, já entardecia.

Durante aquele tempo juntos, notei que ele não checara suas mensagens nenhuma vez, o que me deixou mais feliz ainda. Quando ele foi para o quarto mais cedo, a fim de descansar da viagem, corri para a cama de Giulia, e me enfiei debaixo das cobertas com ela. Eu dava risadinhas e esfregava as mãos, e ela pareceu não gostar muito da minha cara de felicidade:

-Estou cansada, Cris... queria dormir.

-E você vai! Mas antes... acho que eles brigaram.

Ela abriu um olho.

-É óbvio. Mas isso não lhe dá o direito. 

-Mas... que mal existe em lutar pelo que se quer? Não estou entendendo você, Giulia. Pensei que fôssemos amigas. Afinal, se não estiverem mais juntos, o que me impede de tentar?

-Você nem sabe se eles estão juntos, droga. Segure sua peteca e controle seu entusiasmo. Agora, boa noite.

Fui dormir, mas fiquei “fritando” na cama a noite toda. Pensava que afinal, o destino estava sendo mais generoso comigo. Pensei, a noite toda, em estratégias para conquistar o Nando, e também fantasiei sobre nosso primeiro beijo e nossa primeira noite juntos... eu estava exultante! 

De manhã, na mesa do café, encontrei um Nando aborrecido e calado. O contrário do que ele geralmente era. Giulia tinha ido caminhar, e estávamos sozinhos em casa. Sentei-me e comecei a me servir, olhando-o de soslaio. Ele deu um sorrisinho triste e ficou brincando com o dedo no desenho da toalha. 

Arrisquei:

-Parece que alguém não dormiu muito bem... o que está te mordendo, Nando?

Ele me olhou longamente antes de responder:

-A Maria está grávida.

Senti meu coração parar durante dez segundos. O mundo começou a girar, e senti náuseas. O pão que estava em minha boca não poderia ser engolido, mas tive que fazer um esforço, então tomei um grande gole de suco de laranja. Senti que meu rosto estava vermelho, e meus olhos, cheios d’água. Tentei disfarçar, mas ele percebeu. Não disse nada, porém. Perguntei, a voz pequenininha, tentando engolir o choro:

-E o que vocês vão fazer?

-Ela quer tirar. 

-E você?

-Eu... não sei. Não gosto da ideia. É meu filho também. Ela ficou no Brasil para tomar uma decisão... o pior de tudo, é que ela pensa que esta decisão só cabe a ela, já que o corpo é dela, e esse monte de bobagens que a feministas dizem. Eu não sou favorável... ao mesmo tempo, não estou pronto para ser pai, casar, assumir esta responsabilidade...

Eu queria morrer. Queria chorar. Queria matar a Maria. Mas me limitei a dizer:

-Acho que vocês podem ter o filho sem casar. Uma coisa não tem nada a ver com a outra...

Ele concordou com a cabeça:

-Mas isso uniria a gente para sempre. Acho que deu uma esfriada, depois que ela me excluiu da decisão com tanta veemência.

-Mas... e se ela decidir ficar com o bebê?

-Eu não sei se a gente se casa, mas com certeza, eu vou assumir a criança. Não sou nenhum moleque.

Respirei profundamente, e fiz a pergunta cuja resposta eu não sabia se estava preparada para ouvir:

-Você ama a Maria, não é?

Ele estava de costas para mim, olhando pela janela. Fechei os olhos para ouvir a resposta. Ele demorou um pouco para responder, e finalmente, quase em um sussurro, Nando disse:

-Amo muito.

Senti como se tivesse levado um soco no estômago. Abri os olhos e ele estava me fitando, o olhar confuso. Me levantei e fui para a cozinha, fingindo que tinha ido buscar um copo d’água para que ele não me visse chorar. Naquele momento, Giulia chegou, salvando mais uma vez a minha pátria. Os dois ficaram conversando, e eu, segurando um copo d’água com a cara dentro da geladeira.

(continua...)





domingo, 6 de agosto de 2017

JARDIM DAS DESILUSÕES – CAPÍTULO II







Era quase o Natal de 2005. Nando e Maria viajariam juntos para o Brasil para visitar as suas famílias, e ficariam lá por uma semana. Giulia não quis ir, pois precisava economizar, e eu decidi ficar com ela. Meus pais ficaram decepcionados, mas no fim acabaram concordando que seria uma grande economia se eu não viajasse. Seria meu primeiro natal em Paris, e longe de minha família. Quando Nando soube que eu passaria o natal por ali, ele disse:

-Não entendo você... vive reclamando que tem saudades de casa, dos pais, do Bob...

-Não é Bob, é Fido.

-Que seja... e resolve não viajar? Você poderia ir com a gente.

-Não, obrigada.

A possibilidade de ficar horas com eles dois em um avião, vendo eles namorarem, me dava arrepios. E a possibilidade de ficar longe dele durante uma semana inteirinha também, mas era dos males o menor. Giulia veio em meu auxílio. Estávamos todos na cozinha, e era de manhã bem cedo. Lá fora estava muito frio, e eu usava um suéter velho, as mangas compridas demais, e minhas calças de pijama. Ela veio por trás de mim, que estava sentada em uma cadeira, e pôs as mãos nos meus ombros:

-Cristina vai ficar comigo. Pedi a ela que me fizesse companhia. Além disso, vamos economizar um bom dinheiro ficando por aqui.

Ele concordou com a cabeça:

-Se a questão é essa...

Mas Nando parecia um tanto aborrecido, melancólico. Horas mais tarde, encontrei-o à janela da sala, o nariz colado na vidraça, olhando lá para baixo. Cheguei em silêncio por trás dele, cutucando  suas costelas de brincadeira. Ele levou um pequeno susto, e riu um pouco quando me viu. Fiz graça:

-Está no seu inferno astral?

No fundo, eu torcia que ele me fizesse alguma confissão, do tipo que diz: “Eu e Maria não estamos muito bem,” mas aquilo não aconteceu. Ao invés disso, ele deu de ombros:

-Acho que natal é uma época melancólica. Sabe, perdi meu pai uma semana antes do natal.

Fiz uma leve carícia no ombro dele:

-Desculpe, eu não sabia!

-Está tudo bem. Já faz mais de cinco anos. Já me conformei. Se é que um dia a gente se conforma.

Abracei-o, afundando minha cabeça em seu peito, aspirando o cheiro do seu suéter de lá velho. Ele me abraçou de volta, passando uma das mãos de leve nas minhas costas. Ficamos assim durante um tempo curto que eu quis que durasse horas. A eletricidade que percorreu meu corpo e foi parar justamente naquela pequena parte onde não deveria, me fez estremecer. Notei que ele respirou mais fundo, e em seguida, me soltou. 

Alguma coisa aconteceu, pois depois daquilo, ele franziu as sobrancelhas e ficou me olhando um pouco mais de tempo. Parecia confuso. Eu já estava me deixando levar pela minha imaginação excessivamente criativa quando a campainha tocou. Giulia passou por nós, quebrando a magia do momento – aliás, do meu momento – e foi abrir a porta. Era Maria. 

Horas depois, eu estava embrulhada em meu sobretudo, que encobria minhas três camadas de blusas de lã. Usava dois cachecóis e uma boina de lã. Andava pelo meu jardim, que de tanto frio, estava vazio. Eles partiriam na manhã seguinte. As árvores nuas estavam tão melancólicas quanto eu, e alguns flocos de neve começaram a cair. Eu me sentei em um dos bancos de madeira, e fiquei ali, o nariz congelando de tanto frio. Pelo menos, eu estava sentindo alguma coisa intensa. Nem que fosse o frio. Precisava me castigar pela minha imprudência, pela minha tola e repentina autoconfiança fora de lugar. 

Depois que Maria chegou, os olhos de Nando passaram a brilhar, e ele ficou alegre como sempre.  Na cozinha, enquanto Giulia preparava um chá para todos nós, eu fui ajuda-la. Ela me olhava de lado, tentando estudar as minhas feições. 

Ela disse baixinho:

-Eu vi.

Ergui os olhos das colheres que estava colocando sobre a mesa, e respondi no mesmo tom:

-Viu o que?

-Vocês abraçados. Cris... eu...

A coisa que eu menos queria, era que ela sentisse pena de mim. Sussurrei:

-Está tudo bem, sei o meu lugar. Foi um abraço de amigos.

Ela negou com a cabeça, respirando profundamente.

-Já estive aonde você está, Cristina. E pode crer: é o pior lugar do mundo.

De repente, meus olhos se encheram d’água, e eu simplesmente não consegui detê-las antes que caíssem. Ela atravessou para o lado da mesa onde eu estava e me abraçou sem dizer nada. Me detestei por ser a coitada daquela história. Enxuguei as lágrimas com as costas da mão, quase com raiva. Depois, sequei o restante em um pedaço de toalha de papel, respirei fundo, funguei um pouco. Ela me olhou com carinho:
-Está tudo bem?

Fiz que sim com a cabeça, e fomos levar o chá até a sala, onde os dois pombinhos namoravam no sofá. Era óbvio que os dois estavam muito apaixonados, pelo jeito como se olhavam. Bebi um gole do chá quente, e queimei a garganta de propósito. Eu merecia aquilo. Depois do chá, eles foram para o quarto dele. Antes de entrar, Nando virou o pescoço e olhou para mim de um jeito que nunca tinha olhado, e eu me detestei, porque achei que ele tinha percebido tudo, e que estava com pena de mim. Então peguei meu casaco e coloquei sobre camadas de suéteres de lã e cachecóis e fui andar sozinha pelo parque. Giulia ainda tentou me convencer a não ir:

-Logo vai escurecer, e está frio demais!

-Mas eu quero ir. Preciso sair daqui, Giulia. 

-Quer que eu vá com você?

-Não. Quero ficar um pouco sozinha. Volto logo, antes de escurecer.

E eu estava sentada ali naquela friagem, envolta em meus pensamentos, quando um senhor de idade se aproximou. Eu estava tão absorta que só percebi a presença dele quando ele chegou bem perto. Pensei que ele fosse passar direto, mas ele parou junto ao meu banco e perguntou:

- Je peux m'asseoir un petit moment ?

Devagar, o sentido da frase chegou aios píncaros do meu pequeno entendimento do francês. Ele queria se sentar por um momento. Acenei positivamente com a cabeça:

-Oui. 

Cheguei um pouco para o canto para dar-lhe lugar. Ele se sentou, erguendo a gola do casaco. Eu me senti um pouco perturbada; afinal, queria estar sozinha. Mas tinha o receio de que não seria nada educado me levantar e ir embora naquele momento. Para minha surpresa, ele me perguntou em português – com um leve sotaque:

-Onde está seu namorado?

Olhei para ele sem entender. Ele repetiu a pergunta mais devagar:

-Onde está seu namorado?

-Ah, o senhor fala a minha língua! Como sabia que eu sou do Brasil?

-Vejo que você sempre vem aqui. Fui casado com uma brasileira durante muitos anos. Eu... já a tinha visto aqui antes. Com seu namorado.

Entendi que ele só poderia estar falando de Nando, e ri, sem graça:

-Ah, ele? Bem, ele... não é meu namorado. É só um amigo.

Ele me olhou longamente. Depois, assentiu com a cabeça:

-Eu quase nunca me engano...

Eu ri de novo. Ele permaneceu sério.

-Eu venho aqui há muitos anos. Me faz bem. Foi aqui que... passei os melhores momentos de minha vida. 

Percebi que ele falava da esposa, e tentei ser solidária:

-Ah, a sua esposa... ela morreu há muito tempo?

Ele me olhou espantado:

-Quem disse que ela morreu? Sofia está muito bem. Melhor do que eu.

Senti meu rosto passar do arroxeado do frio ao vermelho da vergonha:

-O senhor me desculpe... eu pensei... bem, sinto muito pelo que eu disse.

Ele fez um gesto com a mão, como se me pedisse para esquecer as desculpas:

-Mas ela não está mais comigo. Ela se foi há muitos anos. Com um outro homem que a olhou da mesma forma que aquele rapaz olha para você. Aquele, que vem sempre quando você está aqui. 

Meu coração deu uma batida muito forte, e eu quase engasguei:

-Não... o senhor está enganado. Eu e Nando somos amigos. E ele já está comprometido. Se o senhor visse a namorada dele... ela é simplesmente... perfeita. Linda. Sabe? Enquanto que eu...

Ele me interrompeu, dizendo devagar:

-Você tem uma beleza mais sutil e muito mais intensa. A beleza que é gritante e óbvia sempre morre um dia... mas a beleza que é sutil e delicada... esta pode durar uma vida toda.

Sorri para ele, me sentindo agradecida pelo elogio, mesmo sabendo que ele estava apenas tentando me animar. Ele pareceu ter adivinhado meu pensamento:

-Não estou sendo gentil. Você é uma bela mulher. Mas precisa descobrir isto. 

Fiquei pensando no que ele acabara de me dizer, quando ele se ergueu devagar, esfregando as mãos enluvadas:

-Bem... preciso ir. Bonsoir!





terça-feira, 1 de agosto de 2017

JARDIM DAS DESILUSÕES

Jardin de l'Hôpital Vaugirard

JARDIM DAS DESILUSÕES

CAPÍTULO I

Ele diria que eu estava vivendo meu inferno astral – época que se dá pouco antes da data do aniversário de alguém, segundo os astrólogos. Mas aquele período já durava mais de um ano. Talvez ele chegasse em casa mais cedo, e me vendo deitada no sofá em frente à TV com cara de tédio, dissesse: “Levanta daí, e vá vestir alguma coisa bonita. Nós vamos sair.” E se eu perguntasse para onde estaríamos indo, ele me responderia que não sabia, pois ainda não pensara no assunto. Porque ele era assim. Ele era intenso, repentino, um baú de surpresas. E a gente sempre acabava caminhando pelas ruas de Paris e ficando levemente bêbados em algum café. Depois, chegávamos tarde em casa e ele ia dormir. Eu passava pelo corredor, e o escutava falando baixinho ao celular. Sabia – e como doía – que era com ela.  

Jamais me esquecerei de um dia – uma sexta-feira – em que ele chegou em casa com uma faixa vermelha no cabelo. Achei engraçado e estranho, vê-lo com aquela mexa de cabelos vermelhos sobressaindo entre o castanho claro, quase louro. Perguntei por que ele tinha feito aquilo, e ele respondeu: “E por que não faria?” Quando minha boca recusou-se a se fechar de tanta surpresa, ele passou por mim piscando um de seus olhos azuis, e disse: “Não se preocupe: é papel crepom. Sai com água.” E eu pensei: “E por que não sairia?”

Nós dividíamos aquele apartamento em Paris com uma outra brasileira que também estudava Belas Artes, como ele, a Giulia. Eu estava fazendo pós em arquitetura. Nos encontramos através de um anúncio na internet onde Giulia oferecia duas vagas no apartamento de Paris que pertencia a um tio que morava em Los Angeles e que ela quase nunca via. Precisava dividir as despesas e conseguir dinheiro para manter-se por lá. O tio deixou que ela ficasse no apartamento o tempo que quisesse, e também que tivesse locatários.


Rue de Vaugirard


O apartamento ficava no segundo andar de um prédio antigo, na Rue de Vaugirard, uma das mais longas de Paris, e também uma das mais calmas. Eu adorava aquela rua, pois além oferecer um comércio excelente, tinha também seis estações de metrô e o belíssimo Jardin de l'Hôpital Vaugirard, que tinha sido o jardim de um hospital e depois transformado em um parque. Era lá que eu passava grande parte do meu tempo livre, caminhando entre as flores ou sentada à sombra de uma árvore. Era ali que eu ficava pensando nele, sem correr o risco de que alguém percebesse.

E por mais estranho que parecesse, era quase sempre ele quem ia me buscar; de repente, ele surgia do nada, e quando me via (meu coração sempre batia escancaradamente mais forte naqueles momentos), Nando gritava: “Oh, ma petit mademoiseille Cristina!” E vinha andando na minha direção de maneira afetada, como se fosse uma espécie de mordomo do século passado. Eu ria para não chorar. Sabia de onde ela tinha vindo, e o perfume não me deixava nenhuma dúvida.

Ele se sentava ao meu lado, o ombro esbarrando no meu. Eu fingia que estava concentrada na leitura, e ele começava a me empurrar de leve com o ombro, o que me fazia rir, mas eu não erguia os olhos do livro que fingia ler. Eu bufava de impaciência, o que fazia com que ele me esbarrasse com mais força. Eu só conseguia pensar que, há apenas alguns minutos, aquele corpo estava envolvido nos lençóis e nos braços de outra mulher. Finalmente, eu fechava o livro, olhando-o nos olhos:

-O que você quer, afinal?

Ele olhava em volta antes de responder, os olhos cerrados pelo sol. Depois, soprava em meu rosto, dizendo:

-Nada... a Giulia me disse que você estava aqui. Acabei de chegar em casa.

Era quase sempre assim. Eu não sabia qual era a dele. Não sabia se ele sabia. Talvez eu fosse tão insignificante para ele, quero dizer, como mulher, que ele nem desconfiasse. Mas a Giulia já tinha percebido, e me desencorajava:

-Ele namora essa garota há séculos, desde o Brasil. Ela vem passar as férias aqui. 

Mas a tal garota – Maria – acabou não apenas indo passar as férias, mas se mudando para Paris. Felizmente, não havia vagas no nosso apartamento, e ela foi morar em uma outra república perto dali. Eu percebia que Maria não gostava muito de mim, mas ficava na minha. Sabia que ela tinha seus motivos. Mulher sempre tem uma intuição forte para essas coisas, embora eu tivesse certeza de que ela não me via como uma ameaça. Na verdade, nem sei se ela realmente me via... 

O que me fazia sentir ainda pior, era o fato de que ela era linda. Maria tinha cabelos negros, sedosos e lisos, pesados e volumosos, uma verdadeira cascata capilar maleável e perfumada que quase chegava até o meio das costas. Quem tem cabelos assim não deveria ter o direito de usá-los soltos! Além disso, ela era alta, magra, tinha unhas longas pintadas de vermelho, usava roupas de manequim (já tinha sido modelo durante algum tempo, Nando um dia me dissera). E tinha aqueles irritantes olhos verdes de gata, encimados por um par de sobrancelhas perfeitas e arqueadas. Maria era gritantemente bonita.

E eu, uma mulher que não crescera muito – apenas 1,60 – cabelos castanhos e ondulados, que eu esticava para manter um corte Chanel na tentativa de parecer um pouco mais sofisticada, olhos castanhos do tipo comum, os dedos das mãos terminando em unhas de pontas quadradas, enfim, o retrato da pessoa corriqueira, dessas que todo mundo passa por ela nas esquinas e nem nota. 

Giulia também era muito bonita: uma ruiva natural de cabelos cortados bem curtos, olhos castanho-amarelados, pele perfeita, dentes muito brancos, pernas longas demais. Quando ela as cruzava na minha frente, sentada no sofá, eu sentia sempre uma pontinha de inveja, e encolhia as minhas perninhas na poltrona, enrodilhadas feito pequenas cobras. 

Eu estava em desvantagem ali. Nando nunca olharia para mim, nunca me enxergaria, eu tinha certeza disso. Se um dia se cansasse de Maria, com certeza não seria eu a substituta. E ela sabia disso, pois não sentia ciúmes quando nós saíamos juntos. 

Às vezes saíamos os quatro. Maria mal falava comigo, referindo-se sempre à Giulia e limitando-se a fazer algum comentário sobre o que eu dizia apenas para não parecer mal educada. Mas ela me olhava de cima – e isso nada tinha a ver com o fato de ser bem mais alta do que eu, pois naquelas ocasiões estávamos sentadas numa mesa de bar – e assentia com a cabeça a alguma coisa que eu tinha dito, dando o ar de um risinho piedoso. Ela às vezes abraçava Nando pelo pescoço, e ficava arrulhando alguma coisa no ouvido dele. Naqueles momentos, eu queria que o chão se abrisse e eu fosse tragada até a China – sem chance de volta.  E quando a noite terminava e ele ia embora com ela, eu e Giulia íamos caminhando sozinhas até o apartamento pelas calçadas vazias da nossa rua, em silêncio, até que ela explodia: 

- Nunca vou entender por que você faz isso consigo mesma. Poderia ter dado uma desculpa para não ir, sei lá. 

Eu encolhia os ombros, e não respondia. Na manhã seguinte, me refugiava em meu jardim dos sonhos, o consolador Jardin de l'Hôpital Vaugirard. Tentava não chorar muito durante a noite para não ficar com os olhos inchados demais. 

O fato é que eu estava ficando cada vez mais melancólica, desde que Maria se mudara para Paris, e Nando já tinha percebido a minha tristeza. Vivia fazendo palhaçadas para tentar me alegrar. Será que ele não sabia mesmo qual o verdadeiro motivo da minha tristeza? Quando ele perguntava alguma coisa, eu dizia que estava com saudades de casa, da minha mãe, do meu pai, do meu cachorro. Ia revezando minhas saudades entre eles. Então Nando se sentava ao meu lado e passava o braço em volta do meu pescoço, como ele faria com qualquer amigo homem, e dizia: 

-Vai passar. Com o tempo, você se acostuma.

Ou então vinha com aquela história de inferno astral. 

Eu não sabia mais o que fazer. Aquela situação já durava um pouco mais de um ano. Aquela paixão que doía, me escravizava, me fazia sangrar por dentro. E nada mudava. Maria às vezes aparecia por lá de repente, e se trancava no quarto com o Nando. Enquanto eu estava sentada na sala assistindo TV, ficava imaginando o que estava acontecendo lá dentro. Eu reclamava com Giulia:

-As regras da casa diziam que era proibido trazer namorados para casa! Você não vai falar nada? Essa situação não pode continuar!

Ela se desculpava:

-Maria agora é da casa. Ela não é alguém que o Nando pegou na rua, ela é... a namorada oficial dele. E também é nossa amiga.

-Sua amiga.

Ela bufava:

-Está bem: minha amiga! Eu gosto dela. Você só não gosta porque...

Ela se calou.

Eu recolhi a minha insignificância, pus debaixo do braço e fui para o meu quarto. 
Bati a porta quando entrei só para incomodar os dois pombinhos ao lado. Me deitei na cama, sabendo que a apenas alguns centímetros de parede de distância, os dois deveriam estar engalfinhados, ela com aquele par de pernas longas enroscadas em volta dele... ou do pescoço dele. E eu escutei um risinho seguido de um gemido. Tapei a cabeça com o travesseiro.

(continua)








domingo, 23 de julho de 2017

“A D O Ç A!”








Você pode pensar que amargura é o mesmo que tristeza. Que gente triste é, necessariamente, amarga. Mas não é verdade. Gente triste pode estar se sentindo assim por algum motivo. Na maioria das vezes, a tristeza durará enquanto durarem os motivos, ou enquanto ela for alimentada. Mas o tempo, que é o melhor médico, vem e cura, reestabelecendo as coisas e os sentimentos aos seus lugares corretos. É só deixar que ele haja. É só não se agarrar ao que passou e ao que foi perdido. Porque, se deixarmos que nossos olhos se voltem constantemente para o passado, estaremos fixando residência na segunda fase da tristeza, que é a amargura. Desta, dificilmente alguém consegue se livrar, pois que ela finca suas raízes no coração da gente. Porque a amargura pode ser a segunda fase de uma tristeza não curada. A próxima fase, quem sabe, será a solidão. Não aquela solidão de estar fisicamente sozinho, que pode até ser uma escolha, mas a pior de todas: aquela em que estamos cercados de gente e nos sentimos vazios.

Porém, existe um outro tipo de amargura, que parece ter nascido junto com alguém; quando ainda bem pequenos, esses amargos natos já demonstram sua vocação através das rusgas que estão sempre criando entre as outras crianças; é sempre assim: tudo está em paz, e quando ele chega, começam a aparecer brinquedos quebrados, rostos arranhados, brigas e desentendimentos, lágrimas e queixas. De repente, aquele grupo de crianças que há poucos minutos brincavam e se divertiam, está dividido e choroso, sentados nos colos das mães, enquanto o amargo desfruta sozinho de todos os brinquedos. Este é o amargo nato: espalha fel aonde quer que vá.

Assim nasceu Mara, e o nome que recebeu não poderia ter sido mais apropriado! Na escola, ela nunca tivera problemas em fazer amizades, mas as outras crianças não se aproximavam dela porque gostavam, realmente, de estar com ela, mas porque achavam que assim estariam protegidas contra as investidas da própria Mara. Mas a garotinha cresceu sem saber o que seus amigos falavam quando ela não estava presente.

Mas a vida, que não deixa nada de graça, fez o favor de contar a ela sobre si mesma quando, aos vinte anos de idade, Mara encontrou alguém que a enfrentou e desvencilhou-se dela, expondo as suas fraquezas. Depois daquele dia, ela nunca mais foi a mesma, e precisou de ajuda psicológica. Porque o espelho pode ser a mais terrível das coisas para alguém que nunca olhou para si mesmo de verdade.  
No divã, ela desabafava suas mágoas, dizendo ao seu analista o quanto ela não entendia porque a outra pessoa – que considerava como sendo sua melhor amiga – a tratara daquele jeito. 

Para acrescentar insulto à injúria, Mara descobriu que seu marido tinha outra família, e quando o confrontou, ele foi embora de casa. 

No consultório, Mara dizia que considerava-se alguém bom, correto, e principalmente, sincero. Sentia-se traída e abandonada pelos que amara. Aos poucos, após ficar conhecendo melhor sua paciente, o analista logo percebeu qual era o problema: Mara carregava dentro de si a maldição da amargura. Em suas falas, ela estava sempre se comparando aos outros, destacando o que ela considerava serem seus pontos fortes através do rebaixamento de alguém que conhecia. Quanto mais demonizava as pessoas, mais santa ela se sentia. Mas não era nada fácil tentar fazer com que Mara percebesse aquelas coisas, pois sempre que seu analista tentava, ela erguia um muro de indiferença entre eles e então faltava às próximas sessões.

Após alguns anos de análise, Mara ainda não admitia de onde vinha a raiz de todas as suas agruras, e então abandonou a análise e decidiu-se por entrar para uma religião a conselho da mãe. 

-A religião adoça as pessoas, Mara. Experimente! Após algum tempo, você se sentirá bem melhor. A religião vai transformar você.

A mãe dissera-lhe aquilo após de uma das explosões de raiva de Mara. Ela primeiro desprezou o conselho da mãe, mas uma das palavras que ela escutara, ficaram dançando em sua cabeça, indo e vindo: “Adoça.”  Ela não entendia por que não conseguia parar de pensar naquela palavra. 

Incoscientemente, Mara começou a adoçar demais o café e o suco. Passou a consumir doces desenfreadamente, e durante as madrugadas solitárias, na ausência destes, ela não hesitava: abria a lata de açúcar e comia colheradas generosas. Com isso, sentia-se enjoada, e precisava consumir também algo salgado. 

“Adoça.” Esta era a palavra que surgia quando Mara se sentia invejando alguém. E ela tentava apagar aquele sentimento na confeitaria mais próxima. Infelizmente, a frequência com que se sentia mal em relação a alguém era bem alta, o que fez com que Mara comesse cada vez mais doces, e depois, alguma coisa salgada para tirar o enjoo. 

No templo religioso que frequentava, ela aprendia que as coisas que sentia (e que aprendera a disfarçar muito bem) eram sentimentos nefastos, e cada vez mais, ela se sentia culpada por tê-los tão arraigados dentro dela. Então ela rezava, e participava cada vez mais dedicadamente de todos as cerimônias. Mas quando estava sozinha, se olhava no espelho, Mara descobria, no fundo dos olhos, que dentro dela, nada mudara. Então, ela cobria tudo aquilo com uma grossa camada de açúcar. 

E todos começaram a dizer o quanto ela estava mudada, o quanto era doce, bondosa e feliz. A felicidade passou a ser como alguém que ela mantivesse acorrentada ao pé de uma mesa, e como uma algoz, de vez em quando Mara a cutucava com um espeto, ordenando: “Sorria!” E a felicidade mostrava um sorriso torto e forçado. 

Assim, sob camadas e mais camadas de creme de confeiteiro, açúcar e muito glacé, Mara conseguia (pelo menos temporariamente) sobrepujar sua amargura.





O JARDIM DAS DESILUSÕES – CAPÍTULO VI – FINAL

O funeral aconteceu em um dia especialmente frio no qual uma chuva fina e cortante era derramada em rajadas pelo vento. Os pais...