quinta-feira, 18 de maio de 2017

A MÃO E O LAÇO – CAPÍTULO VII






Fiquei esperando, os olhos presos em Drica, especialmente nos lábios dela, que pareciam pronunciar palavras absurdas enquanto ela falava:

-Diana me telefonou na noite em que ela desapareceu. O que eu vou contar pra você, ninguém sabe. É que nós não sabemos o eu fazer com esta informação.

As duas se entreolharam, e Drica continuou:

-Ela me disse que tinha acabado de ver o pai na cidade, e ela o tinha seguido. Ele foi até um bar esquisito, onde ele sempre costumava ir. Ela ficou na calçada, mas havia uma vitrine de vidro, e Diana ficou vigiando o pai... ele pediu uma cerveja... e logo Shirley apareceu, vindo de dentro do bar – provavelmente, do banheiro – e sentou-se ao lado dele. 

Engoli em seco; por que Shirley não me contara que tinha estado com o pai na noite do desaparecimento de Diana? Por que ela não tinha contado aquilo a ninguém? Drica fechou os olhos durante algum tempo, apoiando-se no braço do sofá. Notei que ela tentava conter o choro. Continuou, após respirar fundo algumas vezes:

-Diana me disse que os dois conversaram durante algum tempo; ele parecia estar furioso, e em um certo momento, entregou a ela um pacote que ela guardou na mochila. Shirley parecia estar se divertindo com a situação, enquanto Pedro, o pai, estava muito zangado. 

Tentei imaginar a cena. Algumas coisas passaram pela minha cabeça; uma delas, é que talvez Shirley estivesse contando a ele que agora elas não estavam mais sozinhas, e que havia gente ajudando-as, e que ele não poderia mais aproveitar-se de Diana. Talvez ela só quisesse ver a cara dele enquanto ela falava aquilo, e por isso, marcara o encontro. Ou então o pacote que ele lhe entregara era dinheiro, e ela o estivesse chantageando. Pensei naquilo, e uma luz se acendeu. Porque eu me lembrei de que quando mamãe e eu fôramos à casa de Diana para falar com Doralice, ela dissera que Pedro havia desaparecido e que ela não sabia do paradeiro dele. Mas se ninguém sabia, como Shirley ficara sabendo? E uma outra coisa que passou-me pela cabeça, era que eu poderia estar errada, e que provavelmente Shirley tinha uma boa razão para não ter contado aquilo a ninguém. Será que estaria protegendo o pai? Se ela sabia do paradeiro dele, por que não o denunciava à polícia, se ele era suspeito pela morte da irmã?

Perguntei a Drica:

-E o que mais ela disse?

Ela continuou:

-Disse que ficou olhando os dois durante algum tempo. Shirley falava com o pai e às vezes ria. Naquelas horas, ele ficava ainda mais enfurecido. Depois, ele se levantou e atravessou o bar feito um furacão, saindo para a calçada e se perdendo na multidão. 

-E quanto a Shirley?

-Pois é... esta é a parte estranha. Estávamos conversando sobre isso ao telefone, quando de repente, ela deixou de me responder, e disse: “Você? O que você quer de mim?” E então, o telefone ficou mudo. Tive a impressão de que ela gritou. 

Gelei; senti calafrios subindo pela minha espinha. Provavelmente, Pedro a encontrara, e acabara com ela, por medo de que ela contasse à polícia tudo o que vinha acontecendo. Pelo menos, era nessa história que eu queria acreditar. Mas ao mesmo tempo, a ideia de que o pacote que Pedro entregara à Shirley continha dinheiro, não me saía da cabeça. 


Eu disse às meninas que elas deveriam ter contado aquela história à polícia. As duas disseram que não sabiam se seria adequado, pois poderiam estar comprometendo Shirley; então preferiram contar a mim, que naquele momento, era sua melhor amiga. Notei que elas tinham medo de Shirley, e minhas suspeitas se confirmaram logo em seguida, quando Susi disse de repente, já à porta de casa, de saída:

-Você tem sorte por ela gostar de você. Já vi o que ela faz às pessoas de quem ela não gosta. 

-O que você quer dizer?

Ela hesitou. Drica segurou-a pelo antebraço, dizendo:

-Vamos embora. Precisamos ir. Já ficamos tempo demais aqui. 

Mas Susi se desvencilhou dela, e explicou:

-Shirley pode parecer ser alguém que ela realmente não é. Às vezes parece doce, outras vezes parece amarga feito fel. Se ela gosta de você, fará de tudo para ajudar em tudo o que for preciso, mas se ela não gosta, ou se sente contrariada por alguma coisa que você disse, ela é capaz de derrubá-la no chão. Ela pode colocar as pessoas contra você. 

Eu fiquei ali, parada e confusa, olhando para elas sem saber o que dizer. Drica tinha chamado o elevador, e quando ele chegou, praticamente arrastou a amiga para dentro dele. Fechei a porta, ainda sentindo no ar o peso das palavras de Susi ecoando em meus ouvidos.
Mamãe estava parada à porta da sala, os braços cruzados, recostada à parede; pensei no quanto daquela conversa ela tinha ouvido, e ela perguntou:

-O que elas queriam?

-Você não escutou a conversa?

-Não, eu estava no banho.

Eu poderia ter contado a ela. Eu poderia ter aberto minha boca e colocado Shirley em uma situação muito difícil, mas sem saber porque, inventei uma mentira. Era a primeira vez que eu mentia para minha mãe:

-Vieram apenas agradecer pelo que fizemos pela Diana. Sabe, elas eram muito amigas.

Minha mãe não pareceu muito convencida:

-Hum... então por que essa cara espantada?

Eu tentei rir:

-Mãe, essas meninas quase acabaram comigo no primeiro dia de aula... sinceramente, quando as vi, gelei por dentro. Elas são bem... esquisitas. Metem medo na gente. Vou dormir um pouco.

Dei-lhe um beijo no rosto, e enterrei em meu quarto, desabando de joelhos no tapete. Meu coração começou a bater mais rápido do que o normal. Eu me sentia dona de um segredo muito grande, que eu não sabia se deveria carregar. Estava ansiosa, e não sabia o que fazer. Shirley mentira para mim duas vezes: sobre a noite do desaparecimento de Diana, e também sobre o que fizera após o velório. 
Resolvi tomar um dos comprimidos para dormir de minha mãe – sem que ela soubesse, é claro- e apagar. E foi o que fiz.

No dia seguinte, bem cedo, acordei e custei a me centralizar dentro daquela realidade que eu teria que lidar em apenas algumas horas. Porque decidi que precisava confrontar Shirley e perguntar a ela seus motivos antes de contar tudo à minha mãe e à polícia. Cheguei à janela, e vi um caminhão de mudanças parado junto à portaria do prédio. Havia mobília sendo carregada para dentro. 

Tomei uma ducha, e fui tomar o café da manhã. Mamãe já tinha posto a mesa quando cheguei na cozinha. 

-Bom dia, filha linda. conseguiu dormir bem?

-Bom dia, mãe querida. Sim, dormi. E você?

-Mais ou menos. Mas hoje é domingo, e posso recuperar meu sono à tarde.

Nós nos sentamos e notei que, enquanto comíamos, minha mãe me olhava com o canto dos olhos. Ela era mestra em descobrir os segredos que a gente não queria contar, e parecia ler dentro das pessoas. Geralmente, suas impressões eram acertadas. Eu não queria falar sobre a visita da noite passada, e então saí pela tangente, antes que ela começasse a fazer perguntas:

-Parece que tem alguém se mudando para o prédio.

-É verdade. O casal de idosos do primeiro andar me contou, no elevador, que há um rapaz se mudando para o apartamento vazio do quinto andar. Bem debaixo do nosso. Dizem que é um estudante de Direito.

-Pôxa, eles prestam atenção, hein? 

-Disseram que têm medo que ele transforme o apartamento em um bordel, já que é solteiro.

-Quanto preconceito!

Rimos. Terminamos de comer em silêncio, e perguntei:

-O que vai fazer hoje? 

Ela encolheu os ombros, dizendo que ia ficar em casa, enrolada em cobertores, assistindo a uma pilha de filmes antigos. Perguntou se eu queria ficar com ela, e eu concordei, mas disse que antes precisava sair para falar com Shirley e ver como ela estava. Ela ficou séria, respirou fundo, mas não disse nada. Beijei-a, e enquanto deixava o apartamento, liguei para Shirley. Marcamos um encontro na pracinha. 

Ao chegar na portaria do prédio, deparei com o novo morador. Ele era simplesmente lindo! Um gato! Ele me olhou, sinalizando um olá com a cabeça, e sorrindo discretamente. Passei por ele, e senti os olhos dele fixos às minhas costas enquanto eu passava. Já estava na calçada, quando escutei-o me chamar:

-Hey! Por favor...

Virei-me na direção dele. Ele se aproximou, apresentando-se:

-Sou Noel.

Segurei a mão estendida:

-Sou Jordana. Prazer em conhecer você.

-Prazer, Jordana. Você mora aqui no prédio?

-Sim. Sexto andar. Bem acima do seu apartamento. 

De repente, achei meu comentário desnecessariamente sugestivo, e senti meu rosto corar. Ele pareceu não perceber, e continuou:

-Eu estou aqui para estudar. Na verdade, vou começar a estudar Direito no ano que vem, mas meus pais acharam melhor que eu me mudasse de uma vez e me adaptasse ao apartamento, e à vida sozinho. 

Ele sorriu, talvez constrangido por dizer tanto de si mesmo a uma perfeita estranha. Tentei deixa-lo à vontade:

-Estou terminando o segundo grau também. Semana que vem será minha última semana. Mas ainda vou fazer um ano de vestibular antes de tentar a faculdade.

-E o que você quer estudar?

-Arquitetura. Adoro casas. 

Ficamos ali na calçada, um tanto embaraçados, sem saber o que mais dizer um ao outro, mas sem vontade de nos afastarmos. Olhei nos olhos dele, e meu coração fez um movimento estranho dentro do meu peito. Eu nunca tinha me sentido daquele jeito perto de nenhum garoto, mas os olhos azuis  de Noel me arrebataram. Seu cabelo cheio de cachinhos loiros também. E logo a mim, que nunca gostara de meninos loiros. Mas nele, tudo parecia perfeitamente harmonioso. Tudo nele estava exatamente no lugar certo, como tinha que ser, e seria impossível imaginar que seus cabelos pudessem ser de outra cor – pretos, como eu gostava – ou que seus olhos não tivessem aquele tom de azul cobalto, escuro e absurdamente raro. Uma brisa fria soprou em meu rosto, e pensei que alguma coisa muito boa estava acontecendo a mim, a primeira coisa realmente boa depois de tudo pelo que vinha passando desde a morte de meu pai. 

Mas eu precisava ir. Shirley já deveria estar a minha espera, e ela não gostava de esperar. Eu disse:

-A gente se vê, Noel. 

Ele respondeu, sem tirar os olhos dos meus:

-Com certeza. A gente se vê, sim.

-Se precisar de alguma coisa... eu e minha mãe moramos no sexto andar. Digo, às vezes... você acaba de se mudar, e pode precisar de ... sei lá...

-Uma xícara de açúcar?

Eu ri:

-Quem sabe? Pode ser. Tchau!

Saí quase flutuando pela rua, sentindo meu andar desengonçado e finalmente tropeçando numa parte mais alta da calçada. Não olhei para trás para ver se ele tinha notado. Apertei o passo, e quando cheguei na pracinha, estava quase correndo. Vi Shirley sentada em um dos balanços. Estava muito frio, e ameaçava chover, e por isso, a pracinha estava vazia. 

Shirley se levantou quando me viu. Notei as olheiras profundas sob seus olhos, e o cabelo mal arrumado, preso em um rabo de cavalo. Também notei os jeans velhos, rasgados nos joelhos, e a camiseta preta de mangas compridas sob a jaqueta jeans surrada. Ela sempre procurava andar muito bem arrumada, e aquele visual não combinava com ela. Mas mesmo assim, estava estonteantemente linda. 

Nos abraçamos, e depois nos sentamos nos balanços, lado a lado.  Perguntei:

-Como você está?

-Mais ou menos. Não dormi muito bem, mas acho que vou ficar bem. Eu sempre fico. E você?

-Estou indo...

Fez-se silêncio, e após alguns minutos, ela perguntou:

-Por que me chamou para vir aqui com esse frio? Poderíamos ir até a sua casa...

Me perguntei por que ela jamais me convidara para ir até a casa dela. Mas deixaria aquele assunto para depois. 

-É que eu não queria que minha mãe escutasse a nossa conversa. 

-Vamos a uma lanchonete então. Acho que vai chover.

-Não... Shirley, ninguém pode escutar o que eu vou te contar, e nem o que eu vou te perguntar. 

Ela me olhou de uma maneira preocupada e curiosa:

-Bem, desembucha!

-Por que mentiu para mim?

Ela ficou visivelmente perturbada. Vi quando uma pequena veia em sua têmpora se agitou, e seu rosto corou um pouco. Ela pigarreou:

-Tá bom. Você está falando de ontem à noite, não é? Logo após o velório. Eu disse que ia para casa. Que queria ficar sozinha. Mas não fui. 

-Isso mesmo.

-Como você descobriu?

-As amigas de Diana estiveram lá em casa. Me contaram que você as procurou.

Vi os olhos dela se tornarem frios e raivosos, mas ela se controlou.

-Você contou a elas sobre Diana ser abusada pelo pai. Por que? Por que você as procuraria para contar uma coisa dessas, agora que ela se foi? Por que não tentou ajuda-la antes?

-Sei lá, eu só achei que se elas são... eram... as melhores amigas de Diana, mereciam saber da verdade. E se eu nunca contei nada a ninguém antes, foi porque a própria Diana me pediu. 

Tentei me acalmar. Ela estava mentindo de novo.

-Não foi isso que a Diana me disse na festa de aniversário do Adílio! Ela me contou que foi você que não queria que ninguém soubesse o que acontecia com ela, porque se alguém ficasse sabendo, saberiam logo de que a mesma coisa também acontecia com você. Ela também me disse que você não queria que ninguém soubesse na escola que vocês eram irmãs. Por que fez isso, Shirley?

Ela se levantou do balanço, e passou a medir o chão de um lado ao outro na minha frente, dando passos largos. Seu rosto era uma incógnita, algo entre medo, ódio, vergonha, raiva, decepção, ressentimento. Por um momento, tive medo de que acontecesse uma explosão, que ela iria começar a gritar ou me agredir em plena praça. Por detrás dela, no céu cinzento e pesado, um raio cortou as nuvens ao meio. 

De repente, ela começou a chorar. Parecia tão indefesa e frágil, que eu me levantei e a abracei, tentando acalmá-la. Ela se deixo ser reconfortada, deitando a cabeça em meu ombro. Shirley era mais alta que eu, e tive dificuldades de suportar seu peso. Quando se acalmou, ela me olhou:

-Você não entende...

-É claro que não, Shirley. Mas gostaria de entender. Somos amigas, não?

-Somos sim. Vou te contar tudo. Tudo mesmo. 



(continua...)




quarta-feira, 10 de maio de 2017

A MÃO E O LAÇO – CAPÍTULO VI







Diana foi encontrada morta, à beira da represa da cidade. A polícia pensou em suicídio, mas após encontrarem indícios de uma pancada na cabeça, a hipótese foi descartada. Pedro, o pai, era suspeito. 

Fiquei sem saber como contar à Shirley. Sabia que precisava fazê-lo antes que alguém mais soubesse e contasse a ela de qualquer maneira.

Era sábado. Abri a janela e pensei no quanto a vida era uma história enfadonha e absurda. Lá em baixo, na nossa rua pouco movimentada, os velhinhos chegavam para sua partida de bingo no primeiro andar. O carro da proprietária do apartamento do quarto andar estava parado junto ao meio-fio. A rua dos Ipês continuava encantadora, com suas árvores altas e magníficas, o vento assoviando entre as folhas. E havia uma menina morta, deitada sobre o alumínio frio de uma sala de necrotério, esperando que a mãe a fosse reconhecer. Seus cabelos estariam molhados e penteados para trás. Seus olhos poderiam estar abertos, fitando o teto. Talvez as mãos estivessem ao longo do corpo. Roxas. Ela estava morta. 

E o mundo não sabia. As pessoas continuavam vivendo suas vidas, até que a vez delas chegasse. Haveria festas, música, casamentos, viagens, passeios. As férias começariam. As pessoas que conheceram Diana a esqueceriam. Ela seria enterrada, e não sobraria nada do corpo dela, do seu belo rosto, da sua história. Ela viraria pó. Teria sido amada por alguém? Será que sua mãe a amara, pelo menos? 

Quando Shirley chegou, encontrou-nos com os olhos vermelhos. Ela entrou, e sentando-se à mesa do café, perguntou, pegando um pãozinho e espalhando geleia sobre ele:

-O que aconteceu? Vocês andaram chorando?

Fui cuidadosa:

-Shirley... a gente precisa de contar uma coisa. 

Ela parou de comer. Sentei-me perto dela, e minha mãe sentou-se do outro lado da mesa. Eu disse:

-Encontraram Diana. Ela está morta. Foi assassinada. 

Shirley arregalou os olhos, e as lágrimas brotaram, caindo em fileiras salgadas. Ela parecia muito emocionada. Talvez, pensei, ela tivesse achado que teria mais algum tempo com a irmã, agora que as coisas estavam mudando. Mas era tarde. 

Abracei-a, e ela perguntou:

-Mas... como, assassinada?
-A polícia suspeita de Pedro... seu pai, amiga. 

Ela tapou a boca com a mão. Minha mãe estendeu-lhe uma xícara de café. Notei que mamãe permanecera calada durante todo o tempo, olhando muito para Shirley. Conhecendo minha mãe muito bem e sabendo que ela não gostava de Shirley, achei injusto o olhar de  desconfiança dela, principalmente naquela hora tão difícil.

Shirley pegou a xícara, e tomou um gole do café. Estranhamente, vimos quando ela pegou o pãozinho e continuou a comer. 

A escola compareceu em peso ao velório. As amigas de Diana choravam muito. 
Fizeram uma homenagem para ela, cantando uma de suas músicas preferidas. Doralice também chorava muito. Após o enterro, mamãe levou-a de volta à clínica, dizendo que continuaria a pagar pelo tratamento mesmo assim. Ela jurou à polícia não saber do paradeiro do marido.

Shirley chorou também. Ela segurava a minha mão. As mãos dela estavam muito frias. Ela quase desmaiou na hora da despedida final. Achei que ela estava realmente abalada. Talvez a maneira que ela tinha de sentir as coisas fosse daquela forma estranha mesmo, entre o riso e o choro, entre o comentário animado sobre a novela e o comentário triste, ao lembrar da irmã. 
Após o velório, eu estava descansando em meu quarto quando a campainha tocou. Shirley tinha ido para casa, dispensando a mim, Adílio e Laura, dizendo que preferia ficar sozinha.  Escutei mamãe abrir a porta, e vozes abafadas. Logo, mamãe estava à porta do meu quarto:

-Filha, há algumas meninas à porta querendo falar com você, quer que eu as mande embora?

-Quem são, mãe?

-Ninguém que eu conheça. Dizem que são da escola. 

Respirei fundo, e após alguns minutos me recompondo, fui atender. Fiquei surpresa ao reconhecer duas amigas de Diana, as esquisitas que haviam rido de mim e me perturbado em meu primeiro dia de aula. Fiquei parada, olhando para elas. Uma delas usava roupas totalmente pretas – não que estivesse de luto, pois na escola, ela sempre se vestia assim – e tinha um horrível piercing no nariz. A outra, de cabelos curtos e espetados, tinha um traço borrado de delineador preto em volta dos olhos. Usava uma minissaia muito curta e meias raladas. Tentei manter a voz firme:

-Pois não?

A de meias raladas falou primeiro:

-Oi, somos Drica e Susi, amigas de Diana.

-Eu sei. O que desejam?

Elas se entreolharam. Fiz sinal para que se sentassem, e ocupei a poltrona diante delas. 

-Soubemos que você e sua mãe estavam tentando ajudar Diana. 

Concordei com a cabeça, e respondi friamente:

-Pois é. Nós estávamos tentando. Coisa que vocês, que se dizem as melhores amigas dela, nunca fizeram. Mas o que vocês disseram que queriam mesmo?

Drica, a menina de preto, balbuciou:

-A gente não sabia. A Diana não falava muito de si mesma. Parecia ser tão forte e decidida...

-O que? Quer dizer que vocês não sabiam de nada? E... como ficaram sabendo? Quero dizer, a gente não contou a ninguém.

Susi respondeu:

-Shirley. Ela nos contou tudo após o velório. 

Achei aquele comentário um tanto estranho, já que Shirley tinha dito que voltaria para casa porque queria ficar sozinha. Mas preferi não comentar. Ao invés disso, perguntei:

-O que ela disse a vocês?

-Contou tudo... que Diana era abusada pelo pai. Que a mãe era drogada – disso a gente já sabia, pois de vez em quando Diana levava umas coisinhas pra gente usar depois da aula, e dizia que eram da mãe. Mas a gente não fazia ideia de que o pai abusava dela. Shirley disse que Diana tinha muita vergonha, e não contava a ninguém, e que tinha proibido que ela contasse à polícia ou a qualquer pessoa. 

Fiquei pasma, pois Shirley contara a elas apenas uma parte da história, omitindo a parte que falava dos abusos sofridos por ela mesma na infância. Mesmo assim, fiquei calada. Susi continuou:

-Viemos agradecer. E pedir desculpas pelo tratamento que demos a você no primeiro dia de aula. Você... é legal. Sua mãe também. São boas pessoas. 

Olhei para ela, balançando a cabeça. Fez-se um silêncio embaraçante, e pensei que tudo já tinha sido dito e a conversa tinha terminado, mas  Drica disse:

-A gente... bem... queríamos contar uma coisa. 

Senti que meus dedos se agarraram ao braço da poltrona com força. Por algum motivo, eu não tinha certeza se queria ouvir o que elas queriam me contar. 

(continua...)





terça-feira, 2 de maio de 2017

A MÃO E O LAÇO – CAPÍTULO V






No dia seguinte, fomos à casa de Diana. Shirley achou melhor não ir, pois não queria encontrar o pai, a quem não via há anos. Doralice, a mãe, mandou-nos entrar. Parecia constrangida, mas ao mesmo tempo, notei nos olhos dela o mesmo olhar desafiador que eu via nos olhos da filha. Ela aparentava ter quase cinquenta anos; era muito magra. Os cabelos eram de um castanho esbranquiçado e sem vida, muito escorridos, caído sobre ombros ossudos. Doralice também tinha olheiras profundas e os dentes amarelados devido ao fumo. Mesmo assim, dava para identificar traços da mesma beleza que eu via em Diana, se Doralice tivesse se cuidado melhor.

Ela fez sinal para que entrássemos; a casa era humilde, mas não foi isso que me chamou a atenção, e sim o descaso, o descuido, a negligência que imperavam ao redor. O assoalho sujo parecia ter sido varrido há muito tempo. Ao lado do sofá havia uma pilha de jornais, sendo que eram amarelecidos no fundo da pilha e mais novos por cima dela. O lugar cheirava a fumaça de cigarro e gordura. Engoli em seco quando ela nos perguntou se queríamos um café, e quase em uníssono, mamãe e eu agradecemos e recusamos.

Nós nos sentamos no sofá. Havia o som de um rádio fora da estação vindo da cozinha. Doralice explicou que Diana não estava. Não passara a noite em casa, e quando mamãe demonstrou preocupação, ela riu:

-Ela sempre faz isso. Raramente dorme em casa. 

-E... para onde ela vai?

Ela encolheu os ombros, dando uma longa tragada, enquanto sentava-se na cadeira à nossa frente, esticando-se para pegar um cinzeiro cheio que estava sobre a mesinha de centro empoeirada. 

-Fica na casa das amigas da escola... pelo menos, é o que ela diz.

Mamãe foi categórica:

-E você nunca se preocupou em verificar? 

Dei-lhe uma cotovelada, mas foi tarde demais. A mulher nos olhou com raiva:

-O que as madames pensam da vida? Acham que tenho tempo para ficar correndo atrás dela? Tenho a casa para cuidar. E ainda preciso terminar as encomendas...

Mamãe desculpou-se, perguntando:

-Você trabalha? Em que?

Ela demorou um pouquinho antes de responder:

-Eu sou costureira. Faço consertos para uma loja de consertos de roupas que fica na cidade. Eles me enviam serviço de vez em quando. Não dá para ganhar muito, mas paga as contas.

Pensei: “Paga as bebidas, o cigarro e sabe-se lá o que mais...” tive a impressão que minha mãe pensou o mesmo, mas nada dissemos. Mamãe disse:

-Bem... nós estamos aqui porque queremos ajudar Diana. A senhora sabe... sobre aquele assunto que falamos ao telefone...

Ela concordou com a cabeça. Apagou o cigarro, esmagando-o no cinzeiro, que colocou no chão ao lado da poltrona, mas não respondeu. Parecia muito desconfortável. Achei que pela primeira vez, ela estava enfrentando a verdade do que vinha acontecendo com sua filha, e não estava sendo fácil. Ela coçou a cabeça, e notei que seus olhos estavam marejados, mas Doralice cerrou os lábios e não chorou. Mamãe continuou:

-Eu quero ajudar você também, Doralice. Sei que é dependente de drogas, e ontem você concordou em ir para uma clínica de reabilitação. Mas você precisa se livrar do seu marido. Não pode permitir que ele continue fazendo o que vem fazendo com a sua filha! Isso é um absurdo!

Ela secou uma lágrima, e olhando mamãe nos olhos, perguntou:

-Você me surpreende... nunca ninguém ligou muito para mim, a não ser... a não ser o Pedro, meu marido. Ele me tirou da vida, das ruas. Me deu esta casa. Ele compra  a comida. Mal ou bem, ele cuida de Diana. Paga a escola, as roupas... ou seja, pagava. Desde que ficou sem emprego, a escola está vencida. Disseram que ela não vai poder renovar a matrícula no próximo ano. Ele não é tão ruim quanto dizem... mas o que me surpreende, é: por que você está fazendo isso?

Minha mãe se levantou do sofá, caminhando até a janela e ficando de costas para nós durante um tempo. Achei que ela estava chorando, mas quando ela se virou e começou a falar, sua voz era firme:

-Porque eu acho que as pessoas merecem uma segunda chance. Porque eu acho que toda vida deve ser valorizada, toda pessoa merece ter ajuda. Meu marido matou-se porque tinha vergonha de ter falhado. Matou-se por causa da falência da empresa. O que é uma empresa, diante de uma vida? Talvez se minha mãe não tivesse sido tão dura com ele... talvez se as outra pessoas não tivessem sido tão duras com vocês... quem sabe, a vida de Diana pode ser uma boa vida? E a sua também? Você me perguntou por que, e eu respondo:  Por que não?

Doralice respondeu:

-Não se preocupe com Pedro. Ele sumiu. Foi embora levando suas coisas. Acho que não volta mais. Eu... nós estamos sós. Eu fui abandonada.

-Não, não estão. Você não foi abandonada, Doralice. Foi um livramento.

Depois daquela visita e daquela conversa estranhas, Doralice foi com mamãe até a clínica e se internou. Eu fui para casa.

Telefonei para Shirley, já que não tinha ido à escola naquele dia, a fim de contar a ela o que tinha acontecido. Aproveitei para perguntar se ela sabia de Diana. Ela disse que não. 

No dia seguinte, na escola, Diana não apareceu para a aula. Procuramos por ela entre as amigas, mas ninguém sabia dizer onde ela estava ou onde ela poderia ter ido. Um medo começou a surgir: e se ela tivesse sido levada pelo pai? E se ela estivesse sendo mantida em algum lugar, à força? Shirley confirmou minhas suspeitas, dizendo que Pedro era bem capaz daquilo. 

No final da tarde, mamãe comunicou o desaparecimento de Pedro e Diana à polícia, e as buscas começaram. Enquanto isso, em casa, ela fez o cheque das mensalidades atrasadas de Diana na escola, dizendo que pagaria por elas no dia seguinte. Também conversou muito com Shirley. Ela chorou algumas vezes, ao lembrar-se de algumas coisas; mas havia algo estranho, e eu não conseguia decidir o que era. Ela parecia que não estava realmente sentindo o que tentava demonstrar, e às vezes deixava transparecer que na verdade, não se importava com o que quer que tivesse acontecido à irmã. Tive a impressão de que a preocupação dela era dissimulada, mas me neguei a acreditar que aquilo fosse verdade. 

Quando ela foi embora, minha mãe ficou em silêncio, sentada no sofá, pensativa. Sentei-me ao lado dela. Tinha sido um dia muito longo e difícil. Ela me olhou, dizendo:

-Ainda não gosto muito da sua amiga. Ela parece... estranha.

Tentei defender Shirley:

-Não... é que ela está passando por poucas e boas agora. Aliás, a vida toda. Ela é boa gente, mãe.

Ela continuou me olhando, e depois sorriu, mudando de assunto:

-Vou tomar um banho de banheira bem longo. Depois, vou para o quarto assistir a um filme para relaxar. Quer vir também?

-Mais tarde, mãe. Vou tomar uma ducha. 

Meu telefone tocou assim que liguei o chuveiro, e era Laura. Atendi, embora estivesse tão cansada, que preferiria não falar com mais ninguém. Não queria que ela pensasse que eu estava chateada com ela por causa de Adílio. Ela ligou para me contar que os dois estavam juntos, e eu fiquei sinceramente feliz. Finalmente, eles acertaram os ponteiros, e as coisas entre eles ficaram como deveriam ser. Senti alívio ao saber que poderia ficar amiga dele sem a preocupação de tê-lo no meu calcanhar, querendo ficar comigo. E sem ter medo de machucar Laura. 
Depois da ducha, juntei-me à mamãe no quarto dela, e ambas assistimos a um filme. Acabei caindo no sono por lá mesmo. 

Acordamos na manhã seguinte com o telefone tocando. Era da polícia. Tinham encontrado Diana. 



(continua...)






terça-feira, 25 de abril de 2017

A MÃO E O LAÇO - CAPÍTULO IV






Na manhã seguinte, durante o café, fiz um resumo da história toda para minha mãe. Contei a ela tudo o que eu sabia sobre Diana e Shirley, e ela me ouviu com muita atenção, sem me censurar e sem censurar a Shirley ou a Diana pelo que ela tinha feito comigo no primeiro dia de aula. Não falei nada sobre Adílio, entretanto. Eram duas histórias diferentes e eu não queria misturá-las. Minha mãe demonstrou muita indignação quando cheguei na parte do abuso sexual. Ela me disse que deveríamos falar com a diretora da escola, ou com uma orientadora educacional sobe o assunto. Quando eu disse a ela que Shirley e Diana não queriam que ninguém soubesse, ela fechou os olhos durante alguns instantes:

-Meu Deus... como coisas assim podem acontecer? Pais deveriam cuidar de seus filhos, ajuda-los a se tornarem pessoas de bem, dar-lhes segurança para crescerem e amadurecerem se sentindo amados! Como posso aceitar que algo assim permaneça oculto? Temos que fazer alguma coisa para ajudar aquelas duas!

Eu arregalei os olhos, e meu coração saltou para a garganta. Se Shirley soubesse que eu tinha contado sobre sua vida à minha mãe, provavelmente nunca mais falaria comigo. Ainda mais sem ter certeza de nada, fazendo apenas especulações. Pedi;

-Mãe, deixe eu falar com a Shirley antes. Por favor, me prometa que não vai fazer nada!

Ela relutou um pouco, mas depois, concordou e prometeu que não faria nada até que eu conversasse com Shirley e descobrisse mais coisas. E foi o que fiz assim que o dia de aulas acabou, na segunda-feira. 
Passei a manhã me desvencilhando de Adílio. Finalmente, tive que dizer a ele com todas as letras que o que tinha acontecido na festa jamais voltaria a acontecer. Ele ficou zangado no início, mas depois aceitou e concordou comigo, dizendo que não podia me forçar a gostar dele. Eu afirmei que pretendia que nossa amizade continuasse, pois eu gostava muito dele como amigo, e ele concordou. Acabou dando um sorrisinho, meio triste, mas sincero. Depois, ficou conversando com Laura. Fiz votos para que eles se acertassem. Laura era uma menina bonita e muito legal, ele só precisava olhá-la com outros olhos.
Na saída da escola, eu e Shirley fomos caminhando pela calçada. Faltava apenas uma semana para as aulas terminarem, e ela falava, animada, da viagem de férias que faria com a mãe e o tio. Eu queria uma brechinha para tocar naquele assunto incômodo que Diana me confidenciara na noite do aniversário de Adílio, mas Shirley não parava de tagarelar; achei que a única saída, seria interrompê-la bruscamente, e foi o que fiz, pois eu tinha  a impressão de que ela estava estranha comigo desde que me vira conversando com Diana na festa. Falava demais apenas para não ouvir o que não queria.

-Shirley, a Diana me contou uma coisa no sábado à noite.

Ela parou de falar de repente, ficando séria, mas logo riu e tentou aparentar tranquilidade:

-Ah, já sei: ela falou que eu e ela somos meio irmãs, não é? Ou quase.

-Foi isso mesmo. é verdade?

-Claro que não. Ela fala isso pra todo mundo.

-E por que ela faria isso?

-Porque ela é maluca. Ou porque ela queria ser eu, ter a minha vida, sei lá. 

Notei que ela estava mentindo, e ficando irritada. Cortei-a:

-Pare com isso, Shirley. Sei que nos conhecemos há apenas alguns meses, mas já sei que você está mentindo! Pensei que me considerasse sua amiga!
Ela parou de caminhar, e eu parei logo depois dela, mais à frente, e olhei para trás. Achei que ela ia sair correndo, virar as costas, me deixar plantada ali na calçada, mas ao invés disso, ela disse:

-Você veio do seu mundinho perfeito, onde as pessoas são sempre boazinhas, todo mundo é educadinho e papai e mamãe são criaturas que amam seus filhinhos e zelam por eles. Por que eu partilharia minha intimidade com você? O que você sabe da vida, Jordana? Não passa de uma menina mimada!

Fiquei indignada:

-Ora, isso não é verdade! Se você já se esqueceu, meu pai se suicidou! Minha avó e meu pai praticamente se odiavam, perdemos tudo o que tínhamos, minha mãe teve que arrumar um emprego aos 47 anos de idade, e pela primeira vez, e eu tive que sair da escola onde cresci porque não podíamos mais pagar por ela! E as minhas antigas amigas... ou as meninas que eu pensei terem sido minhas amigas, viraram as costas para mim assim que souberam que tínhamos perdido tudo, que meu pai era um fracassado e um suicida! Eu e mamãe ficamos sozinhas, entende? Todo mundo nos desprezou! Todo mundo nos ignora, passam pela gente na rua e viram a cara, ou então ficam falando e olhando para nós! 

Eu nunca tinha parado para pensar em tudo o que dissera até aquele momento. Vivera a vida após a morte de meu pai tentando superar, ser forte, ver o lado bom, ser otimista. Procurei ser uma mocinha elegante e lidar com as coisas de modo racional, como me ensinaram a vida toda. Nem eu mesma sabia o quanto ainda estava abalada com tudo. Até aquele momento em que botei tudo para fora na calçada. E foi literal, pois assim que acabei de falar, senti um enjoo enorme, e tive que vomitar no meio-fio.

Shirley segurou meus cabelos, e depois me deu um lenço de papel. Olhei para ela, e as lágrimas começaram a jorrar, e ela me abraçou, pedindo desculpas. Depois daquilo, nós nos sentamos em um café, numa mesa afastada bem nos fundos e pedimos dois sucos de laranja. E ela se abriu comigo. Conversamos em sussurros.

-Diana disse a verdade: somos sim, meio irmãs. E não quase meio irmãs, mas meio irmãs de verdade. Meu pai é pai dela. Pai biológico. Ele tinha um caso com a mãe dela desde sempre, acho. E quando minha mãe engravidou de mim, a mãe de Diana engravidou também. Mas meu pai ficou em casa. Ele só foi embora depois que... 

Vi o quanto era difícil para ela falar daquelas coisas. Coloquei minha mão sobre a dela, tentando encorajá-la, e senti que ela tremeu ao meu contato.

-Ele foi embora depois que minha mãe descobriu o que ele fazia comigo. Eu tinha só cinco anos.

Eu quis morrer. Eu quis matar aquele grande filho-da-mãe que era o pai delas. A náusea voltou, e tive que me conter para não vomitar de novo. A garganta doía, mas eu me contive e não chorei. Ela continuou:

-Minha mãe pôs ele para fora de casa. Ele me dizia que era tudo normal, uma brincadeira entre papais e suas garotinhas. Que todas as garotinhas eram boazinhas com seus papais. Mas que a mamãe não poderia saber nunca, pois as mamães tinham ciúmes e ficavam zangadas. E eu mantive nosso segredinho sujo. 

Ela começou a chorar em silêncio. Pegou um guardanapo de papel e secou o rosto, embolando-o e jogando-o no chão, a alguns metros de distância. O garçom nos olhou de cara feia, mas não disse nada. 

-Quando meu pai foi embora, eu me lembro que fiquei com muita raiva de minha mãe, e então ela me disse que ele tinha outra filha, outra garotinha como eu. E eu morri de raiva dele. Fiquei com ciúmes, cresci odiando Diana porque para mim, ela era a responsável por meu pai ter me deixado. Só mais tarde eu tive consciência do que ele tinha feito, do quanto ele tinha ferrado com a minha vida. E me achei com sorte, porque pelo menos, minha mãe se casou de novo com um cara muito legal, e ele me trata como filha natural. É ele quem paga a escola, minhas roupas, e tudo o mais. Ele é meu pai de verdade. Santoro é pobre, luta para sobreviver, mas somos uma família feliz.  Eu tive mais sorte do que Diana. Ela ainda tem que lidar com o monstro todos os dias, e agora que ele está desempregado, ela me disse que é ainda pior.

-Por que você nunca tentou ajuda-la?

-Você não entende... 

Eu olhei para ela, tentando ver através da máscara de indiferença e dureza que ela passou a usar a partir dali. Eu não entendia por que ela estava se afastando de novo. Insisti:

-Não, não entendo. Será que você poderia me explicar?

Shirley tomou um gole do suco, fazendo uma cara feia. Continuou:

-Se ela abrir a boca, a história toda vem à tona. Todo mundo vai saber o que nosso pai fez conosco. 

-Mas... e a mãe dela?

-Não passa de uma alcoólatra e drogada. Ela tentou desde o começo explicar à mãe o que estava acontecendo, mas ela não acredita. Nunca acreditou, ou então não quis acreditar. E depois que ele descobriu que ela tinha contado, passou a bater nela. Mas Diana cresceu, e hoje em dia, quando ele tenta bater nela, ela luta com ele. Eles brigam, rolam no chão. É claro que ela sempre leva a pior, mas ele não consegue mais agarrar ela. Ela me disse que há dois anos ele não consegue. 

-Então... ela não conta nada para poupar você?

-Acho que para poupar a ela mesma. Ela não quer ser apontada nas ruas, ela não quer ser a esquisita da cidade. Ela não quer crescer com esse estigma de garota abusada pelo pai. 

-E você?

Ela suspirou. Abriu a bolsa e pegou um cigarro amassado, que acendeu e passou a fumar, dando tragadas profundas. Eu não sabia que Shirley fumava, mas não disse nada. O garçom a viu, e logo veio até a nossa mesa:

-É proibido fumar aqui, mocinha. Incomoda os outros clientes. E é lei. 

Shirley deu uma tragada profunda, e olhando nos olhos dele, argumentou:

-Mas não tem ninguém nessa droga de lanchonete, a não ser a gente.

-Apague o cigarro, por favor. Ou então saia.

Ela deu mais uma baforada, e jogando o cigarro no chão, amassou-o com o calcanhar. Ele olhou para ela com tanta raiva, que pensei que fosse nos pegar pelos colarinhos e nos expulsar dali, mas apenas sacudiu a cabeça e se afastou.

Shirley jogou uma nota sobre a mesa, dizendo:

-Vamos sair daqui. Esse lugar é uma droga e essa laranja está podre.

Fui atrás dela, e nos sentamos em uma pracinha onde havia algumas crianças brincando ao longe. Olhei para elas e pensei se alguma delas estaria passando por algo semelhante ao que Shirley e sua irmã passaram. Pensei no absurdo das mães que não acreditam nas filhas, e daquelas que as culpam pelo que acontece. Shirley prendeu o cabelo em um coque atrás da nuca, cruzando as mãos e apoiando os cotovelos nos joelhos. Deixei que ela ficasse em silêncio durante algum tempo. Reparei no quanto ela era bonita. E no número absurdo de coisas horríveis que ela já tinha enfrentado até àquela altura de sua breve vida. Eu disse:

-Precisamos ajudar Diana. 

Ela concordou com a cabeça. Pedi:

-Shirley, vamos almoçar lá em casa hoje? Minha mãe vai tirar o dia de folga.

Ela estranhou meu convite, e me olhou, curiosa. 

-Logo hoje? Acho que não. Não estou legal. 

-Eu sei. Mas tem uma coisa que eu não te contei. Sabe, eu... eu contei à minha mãe sobre você e Diana. 

Fiquei esperando o furacão terminar de girar. O rosto dela ia mudando de expressão em apenas segundos: surpresa, perplexidade, medo, raiva, ódio, tristeza, alívio... gratidão? Ela me abraçou chorando:

-Sempre temi este momento. Sempre achei que não conseguiria enfrenta-lo, sabe? E agora que ele está acontecendo, tudo o que consigo sentir é um alívio enorme. 

Eu a consolei durante algum tempo, e depois pedi a ela:

-Agora vamos ligar para Diana. Acho que tudo isso tem a ver mais com ela do que com você nesse momento. 

E Shirley mais uma vez concordou comigo. Ela caminhou para longe enquanto falava ao telefone, e quando voltou, notei que tremia. Segurei sua mão, e ela desabou:

-Eu tenho vergonha que alguém mais saiba, Jordana! 

-Ninguém há de saber, e se souberem, não são vocês que precisam se envergonhar, mas sim o cretino do seu pai. Vocês não fizeram nada de errado, foi ele quem fez!

Ela me olhou nos olhos:

-Obrigada. Mesmo que essa história toda não dê em nada, pelo menos eu pude dividi-la com mais alguém. 

-E Diana?

-Ela vai nos encontrar perto do seu prédio. Não entendeu nada ainda, mas ela virá. 
Fomos caminhando lado a lado, em silêncio. Ela abraçava o material escolar como se ele fosse uma tábua salva-vidas. Jamais pensei que fosse ver uma Shirley tão vulnerável. Quando chegamos perto do prédio, Diana já estava lá, de pé,  nos esperando. Foi apenas um olhar na direção de Shirley e ela logo percebeu que algo estava errado. Diana dirigiu-se à Shirley, me ignorando:

-Oi, Shirley. O que houve com você? É alguma coisa com a sua mãe?

-Não, está tudo bem. Nós... vamos até a casa de Jordana.

Diana me olhou, e vi raiva em seus olhos:

-O que? Você ficou louca?

Resolvi interferir:

-Por favor, Diana. Não existem motivos para você me detestar. Eu... queria ajudar vocês. Só isso.

Diana olhou para Shirley, em pânico. Shirley tranquilizou-a:

-Está tudo bem, vamos lá. Já está na hora de nós falarmos de alguns assuntos. E com alguém que pode nos ajudar. Ela sabe de tudo, sabe que somos irmãs de verdade.

Diana me olhou, como se me analisasse a fim de decidir se confiaria em mim ou não. Depois, seguiu-nos e entramos no prédio. No elevador, ficamos em silêncio. Olhamos apenas para o chão. Chegamos, e eu abri a porta, convidando-as a entrar. Diana entrou em minha casa pela primeira vez, e olhou em volta, parecendo insegura. 

Mamãe estava na sala, e quando nos viu, aproximou-se:

-Você deve ser a Diana. Entre, por favor, e fique à vontade. O almoço já está na mesa. Espero que gostem de lasanha. Vamos comer, e depois, conversaremos.
Apesar de tudo, eu estava faminta, e Shirley também. Diana comeu pouco, e quase não falou. Apenas respondia monossilabicamente quando minha mãe se dirigia a ela. Minha mãe tentava deixa-la à vontade, mas eu notei que quanto mais ela tentava, mais Diana se fechava. Olhei para minha mãe e a encarei durante algum tempo, até que ela entendeu e parou de falar tanto. Quando terminamos o almoço, começamos a tirar a mesa, mas minha mãe nos disse para deixarmos a mesa e as louças para lá, e fomos direto para a sala de estar. Nós três nos sentamos no sofá maior, e mamãe, na poltrona, em frente a nós. Ela respirou fundo:

-Eu chamei vocês aqui porque minha filha me contou uma coisa terrível sobre vocês... e eu gostaria de ajudar de alguma forma. 

Diana desafiou-a:

-Como? O que você sabe?

-Ela olhou para Diana, mantendo o tom de voz tranquilo:

-Eu sei que seu pai abusou de Shirley, e abusa de você. eu...

Diana interrompeu-a, erguendo-se do sofá; gritou:

-E o que você tem com isso?

Era tudo o que Diana sabia fazer: gritar e esmurrar. Era tudo o que aprendera, para se defender. Shirley mandou que ela se sentasse:

-Diana, fique quieta um pouco. Isso já deveria ter acontecido.

Diana olhou para Shirley, mas não se sentou; ao invés disso, gritou novamente:

-Você e sua mamãe sempre me detestaram. Você nem queria que as pessoas soubessem que somos irmãs. Você sabia o que seu pai fazia comigo, e nunca tentou me ajudar antes. Nem sua mãe. Minha mãe é uma pessoa doente. Ela só não fez nada porque não pode. É por causa dela que eu aturo isso, não por sua causa, Shirley. 

-É verdade, Diana, eu sempre detestei você, e não será agora, de repente, que eu vou passar a amá-la. Mas pelo menos, eu estou tentando consertar um erro meu, e ajudar você a se livrar desse inferno onde vive! 

Mamãe interrompeu:

-Meninas, por favor! Vamos conversar. Eu sou adulta, e posso ajudar. (Virando-se para Diana): Você pode ficar aqui em casa, se quiser, o tempo que for necessário, Diana! Mandaremos sua mãe a uma clínica de reabilitação. Ela precisa de ajuda. Olhe, eu conversei com ela por telefone...

Eu não sabia de nada daquilo, e fiquei muito surpresa. Senti o rosto queimar, e tive medo que Shirley pensasse que eu as traíra.

-Como você conseguiu nosso número?

-Na escola. 

Eu disse, gaguejando;

-Mãe, você prometeu que não faria nada! Meninas, eu não sabia que ela...

Diana e Shirley se entreolharam, e Diana, com lágrimas nos olhos e o rosto vermelho, bradou:

-Eu sabia! Agora todo mundo sabe, a cidade toda sabe. E a culpa é sua, Shirley! Como foi contar a essas duas vacas sobre a nossa vida, sobre a minha vida?

Mamãe não se alterou:

-Escute... conversei com a orientadora. Ela fará sigilo profissional. Ninguém vai saber. Sua mãe concordou com tudo. Só falta você, Diana. E você, Shirley. Por favor, não fiquem zangadas com Jordana, pois ela não sabia. Prometi a ela. Me desculpem, mas eu tinha que fazer alguma coisa rápido, não podia simplesmente deixar que isso continuasse!

Diana dirigiu-se à porta, batendo os pés, mas Shirley ergueu-se de um salto, alcançando-a:

-Volte, Diana, e escute o que elas têm a dizer!

Diana tentou desvencilhar-se de Shirley, mas ela a segurou com força, obrigando-a a olhar para ela:

-Por que você quer fugir? A vida está te dando uma chance, não entende? Você pode ter uma boa vida, Diana. Sua mãe precisa de ajuda, e você também. E ela já concordou com tudo. Seu pai... ele... nosso pai precisa pagar pelo que fez.

Mas Diana a empurrou e saiu, batendo a porta. Desceu pelas escadas, correndo, e nem mesmo Shirley foi capaz de alcançá-la. 


(continua...)

quinta-feira, 20 de abril de 2017

A MÃO E O LAÇO – CAPÍTULO III







Na segunda-feira após a festa, Shirley me contou que tinha transado com Julio atrás do sofá de minha avó. Fiquei chocada, pois eles poderiam ter sido descobertos; afinal, era uma festa! Havia gente na casa toda. Ela me respondeu dizendo que aquilo dava um ar de perigo à relação, deixando tudo ainda mais excitante. Perguntei a ela quando eles iam se ver de novo, e ela me olhou espantada:

-Como assim, nos ver de novo? Foi só uma transa sem importância. Eu, hein...

Fiquei boquiaberta, pois eu mesma jamais pensaria em transar por transar. Aos dezesseis, ainda era virgem. Ela riu quando eu disse a ela, mas depois, ficou me olhando durante algum tempo, e em seguida, baixou os olhos, parecendo triste. 
Às vezes eu achava que aquela Shirley que eu conhecia não passava de uma fachada, uma proteção que ela criara. Mesmo assim, gostava cada vez mais dela. 

Estávamos sempre juntas: eu, ela e Laura. Adílio sempre aparecia, mas éramos diferentes quando ele estava perto – talvez por ele ser menino – mas nós o adorávamos. Até que eu e Shirley percebemos que Laura gostava mais dele do que nós... quando Shirley perguntou a ela: “Por que você não dá em cima dele?” Laura apenas encolheu os ombros, dizendo:

-Se ele não me enxergava antes, como vai me enxergar agora, que só tem olhos para a Jordana?

Garanti que eu não queria nada de mais com ele, mas ela disse que aquilo não fazia com que ele ficasse a fim dela. Eu não queria que uma rivalidade nos afastasse, mas ela me garantiu que aquilo jamais aconteceria, mesmo se ele e eu ficássemos juntos. 

As aulas estavam terminando. As férias começariam em alguns dias, e havia algumas aulas vagas durante as quais tínhamos autorização para ler, conversar baixinho ou passear pelo pátio. Quase todas as  provas finais já tinham sido feitas, e minhas notas tinham sido ótimas. Eu estava feliz. 

Shirley dava e pedia ‘cola’, e ela o fazia de forma tão descarada, que nem chegava a corar quando o professor quase a pegava no ato. Trocava de prova com os outros alunos, passava e recebia papeizinhos com colas, dava dicas com as mãos quando o professor virava de costas. Eu achava imperdoável colar, mas ela me dizia que eu era correta demais; ora, a maioria das coisas que nos ensinavam na escola, jamais seriam usadas na vida prática; então, por que repetir um ano escolar apenas por não saber qual a raiz quadrada de algum número absurdo, ou quem descobriu um país do qual ninguém nunca tinha ouvido falar? Acabei tendo que concordar com ela, mas mesmo assim, ainda estudava para as provas, como sempre fizera. 

Naquela manhã de começo dezembro, eu de repente senti falta de Diana entre os de sua turminha de revoltados, e perguntei a Shirley se ela sabia aonde ela estava. Shirley desconversou, dizendo que não tinha notícias dela. Sem a presença de Diana, eu me sentia bem mais à vontade. Quando ela estava presente, sentia os olhos dela me queimando as costas sempre que eu passava. Tinha a sensação de que ela poderia pular sobre mim a qualquer momento, mesmo eu sendo uma protegida de Shirley. Mas mesmo assim, de certa forma, eu me preocupava com ela. 

No aniversário de Adílio, ela apareceu na festa. Seus cabelos negros e muito longos tinham sido cortados bem curtos, mas isso não diminuiu sua beleza selvagem nem um pouco. Quando eu a vi entrando no apartamento, quase desmaiei de susto, mas Adílio me disse para ficar tranquila; ele a tinha convidado porque já se conheciam há muito tempo, e me contou que tinham ‘ficado’ em uma festa, antes de ele me conhecer. 

Shirley ainda não havia chegado, como sempre, desejando que sua chegada se tornasse um evento notado por todos. 

O  clima entre Adílio e eu acabou esquentando, e durante uma dança lenta, ele me abraçou mais forte. Senti um calafrio, algo que nunca sentira antes quando estava com ele. Eu dizia a mim mesma que não estava a fim, mas então por que sentia aquele calafrio? Por que o cheiro dele estava me despertando sentimentos novos, que eu nunca sentira antes? De repente, o cabelo dele roçando minha têmpora deixava minha pele arrepiada, e a voz dele no meu ouvido quando conversávamos enquanto dançávamos, me fazia sentir uma coisa estranha entre as pernas. Algo que eu só sentia quando estava sozinha, tomando meus longos banhos de banheira.

Só sei que, quando dei por mim, o clima esquentara tanto que eu o estava beijando. Eu me deixei envolver por ele. Adílio estava muito bonito na festa, usando uma camisa preta e calças jeans novas. Tinha cortado o cabelo, repicando-o, e tirando aquela franja ridícula que lhe dava um ar infantil. Percebi que a camisa mais justa deixava entrever alguns músculos que eu não notara antes, sob as camisetas de malha largonas que ele gostava de usar. 

Eu deixei que ele me beijasse, e gostei. Senti que alguém nos olhava, e quando abri os olhos, vi Laura indo embora da festa. Sem querer, eu disse:

-Mas que merda...

Ele percebeu sobre quem eu falava, mas não porque.

-Mas por que? Você e Laura brigaram?

Olhei-o nos olhos; continuávamos dançando:

-Não sei, acho que sim...

-Acha?

-Vai me dizer que você não sabe que ela é a fim de você?

Ele fez a cara mais surpresa do mundo:

-Não, eu não sabia! Juro! Pôxa... que merda. 

-Pois é... e agora?

Ele me olhou, e me beijou de novo. E eu deixei. Mais uma vez, senti que alguém me olhava insistentemente, e quando olhei, vi Diana de pé num canto da parede, nos observando. 

-Ah, não – eu disse – era só o que faltava!

Ele olhou para onde eu estava olhando, e entendeu.

-Parece que está todo mundo a fim de mim hoje... será que é porque é meu aniversário?
Eu ri:

-Seu metido! Até parece. 

Diana estava com as mãos abertas encostadas à parede, como se pudesse sair correndo a qualquer momento. A música terminou, e Adílio foi até a cozinha pegar alguma bebida para nós – ao contrário de vovó, os pais dele não se importavam se misturássemos gim ou rum à Coca-Cola, desde que ninguém ficasse bêbado. O apartamento de Adílio não chegava a ser metade da metade do tamanho da casa de minha avó, mas a festa estava tão concorrida quanto. A porta da frente estava aberta, e havia gente até no corredor do prédio. 

Joguei-me rapidamente em uma poltrona que ficou vazia de repente, e para meu espanto, vi Diana caminhando em minha direção. Engoli em seco. Ela se inclinou para mim, e eu pude olhá-la nos olhos e sentir seu perfume forte de Patchuli:

-Espero que você seja legal com ele. 

Continuei olhando para ela, mas não respondi, pois não sabia o que dizer. 

-Adílio é um dos meus melhores amigos. Ele me contou que estava apaixonado por você. Ele disse que você é legal. Shirley também. Ela é...

Diana ia me contar alguma coisa, mas de repente, pareceu mudar de ideia. A frase ficou no ar, cortada pela metade. Tentei emendar:

-...Ela?... 

Diana respirou fundo, olhando para o chão. Ajoelhou-se perto da minha poltrona. Chegou mais perto de mim.

-Ela é minha quase meia-irmã. 

Meu queixo caiu:

-Sua quase-meia-irmã? Eu não sabia!

-Ninguém mais sabe. Meu pai... meu padrasto é pai dela. Quando ele se separou da mãe dela, ainda éramos crianças. E então ele se casou com a minha mãe. Mas ela não gosta que as pessoas saibam. 

Senti muita pena de Diana. 

-Por que?

-Porque... se eles souberem, saberão o que ele fazia com ela também. 

De repente, ela se levantou depressa, caminhando para o outro lado da sala de cabeça baixa. Adílio voltou com dois copos de Coca-Cola e gim. Achei melhor não comentar nada com ele. Fiquei pensando na história que Shirley me contara; ela havia me dito que o padrasto de Diana morava com a mãe dela e com ela há apenas dois anos. Aquilo era uma mentira! Diana acabara de me contar que ele se casara com sua mãe quando elas ainda eram crianças; mas por que Shirley mentia para mim, para todos? Ou será que Diana tinha mentido?

Enquanto pensava naquilo, escutei vozes exaltadas e assovios: era Shirley que chegava. Entendi imediatamente porque Diana fora embora correndo. Ela tinha medo de Shirley. Tinha medo de que Shirley a visse comigo. 
Shirley veio até nós, e quando nos viu de mãos dadas, ela arregalou os olhos:

-Hum... então, finalmente acertaram os ponteiros?
Eu não soube o que dizer; na verdade, ainda não sabia o que estava sentindo por 
Adílio. Ela não esperou que respondêssemos, e foi logo perguntando:

-Cadê a Laura?

Adílio e eu nos entreolhamos, e ele disse:

-Foi embora. Acho que não gostou de nos ver juntos...

Shirley ficou séria de repente, e olhando para mim, disse:

-Também... assim que ela contou a Jordana que gostava de você, ela vê vocês dois juntos! Parece que você só se interessou por Adílio porque soube que Laura gostava dele, Jordana! Êta amiga falsa!

Dizendo aquilo, ela deu uma gargalhada, e ao ver meu constrangimento, disse:

-Hey! Brincadeirinha! Espero que vocês sejam felizes juntos.

Eu não respondi, mas Adílio observou, em tom casual e divertido:

-Você fala como se estivéssemos nos casando, Shirley. Só estamos ficando. 
Achei muita cara-de-pau dele dizer aquilo, depois da intensidade dos beijos que déramos. Fiquei zangada:

-Acho que eu já vou indo. 

Adílio imediatamente notou a besteira que acabara de dizer:

-Hey, espere aí... ainda é cedo, Jordana. 

Shirley riu, dando-me dois beijos na bochecha. Depois, ela foi falar com Diana, assim que a viu do outro lado da sala. Eu insisti:

-Preciso ir, Adílio. Aliás... nem sei por que fizemos aquilo. Considere da seguinte forma: ficamos... e desficamos! Tchau!

Ele foi atrás de mim. Na calçada, ele me puxou de leve pelo braço:

-Vamos dar uma volta à pé? 

-Não!

-Posso ao menos te levar em casa? Já está tarde. Olha, eu não quis dizer aquilo... sou a fim de você desde que nos conhecemos.

-Tudo bem. Não precisa, moro a dois quarteirões daqui. Amanhã a gente se fala. Me liga. Agora eu preciso ir. Estou muito confusa...

Deixei-o plantado na calçada. Estava mesmo confusa, mas não por causa dele; pensava em Diana e Shirley: quase meio irmãs! Por que ela me escondera – por que ela escondera de todos? Será mesmo que Diana dissera a verdade? Será que minha amiga tinha sido abusada pelo próprio pai na infância?

Minha mãe estranhou quando cheguei em casa tão cedo após a festa – eram apenas 11 da noite. Ela estava com amigas na sala, jogando cartas. Dei boa noite a todas, e fui para o meu quarto. Ela foi atrás de mim.

-Tudo bem, filha?

-Tudo, mãe. Só estou um pouco indisposta.

Ela entrou, fechando a porta:

-Você sabe que pode me contar tudo. O que aconteceu? Há tempos não a vejo assim!

Na hora, senti uma vontade enorme de desabafar com ela. Olhei-a nos olhos; sabia que aquela não era uma boa hora, pois ela tinha convidados. Prometi;

-Conversaremos amanhã. Prometo. Mas não fique preocupada, não é nada comigo. É com uma de minhas amigas. Um problema. Não sei como ajudar ou o que fazer a respeito. Mas agora estou cansada, só quero dormir um pouco.

-Promete que não é nada com você?

-Não é não, mãe. Vá ficar com suas amigas! Vou tomar uma ducha, uma aspirina e ir dormir. 


Mas assim que saí do chuveiro, o meu telefone tocou; olhei no visor e vi o número de Laura. Respirei fundo, achando se deveria atender, e atendi. Ela disse:

-Me desculpe a atitude infantil na festa, Jordana. Só queria que você soubesse que está tudo bem. Isso é, não me importo de você e Adílio estão juntos. Ou melhor, eu me importo, mas não estou com raiva, entende?

-Laura, a gente só deu uns beijos... nem sei por que fiz aquilo, acho que bebi muito gim com Coca-Cola e fiquei meio-zonza. Eu... olha, não vai acontecer mais nada entre nós, Ok?

Ouvi a respiração dela do outro lado, e percebi que ela estava tentando conter o choro. Finalmente, ela disse, após uma breve fungada que ela tentou disfarçar, afastando o telefone:

-Olha, tá tudo bem mesmo!

-Eu sei. E vai continuar assim, amiga. Eu te devo desculpas. Sabe... não sei o que deu em mim, acho que foi a bebida... é isso. Não estou a fim dele, somos apenas amigos. Juro. Acho que você deveria se insinuar um pouco mais. Você quer que ele te note mais do que a uma amiga, não?

-Era tudo o que eu queria... mas ele está louco por você.

-Não está não. É porque sou nova no pedaço.

-Ele me disse. Nem se tocou o quanto estava me magoando. 

Me senti péssima. Nem sabia o que dizer a ela. Pensei naquela noite e em tudo o que fizera, e na maneira insensível que agi com duas pessoas de quem gostava demais. Falei:

-Essa noite foi um caos, Laura. Dei muita bandeira. Eu vou dormir, e amanhã conversamos melhor, Ok? Me desculpe.

-Ok. Não tem por que pedir desculpas. 

Nos despedimos, e fui dormir com os cabelos ainda molhados. 

(continua...)

segunda-feira, 17 de abril de 2017

A MÃO E O LAÇO – CAPÍTULO II







Eu estava chegando em casa da escola um dia, e quando fechei a porta do hall, ouvi vozes na sala. Alguma coisa me fez parar e escutar um pouco da conversa antes de entrar: eram minha mãe e minha avó. Fiquei feliz em ouvir a voz de minha avó, pois eu sabia que ela e papai não se davam muito bem quando ele vivia, e que por causa disso, ela nos visitava muito pouco – sempre quando ele não estava – e nossos encontros de família, quase sempre tensos, eram limitados a natais e alguns aniversários. Quem sabe, pelo menos uma coisa boa poderia advir da morte de papai, ou seja, a reaproximação de vovó? 

Ela era uma mulher na casa dos setenta anos, alta, esguia e muito bonita. Se eu pudesse escolher um sinônimo que bem a definisse, seria elegância. Eu me orgulhava de minha avó, e durante muito tempo, ela foi meu ‘role model.’ 

Quando criança, eu ficava na frente do espelho tentando copiar-lhe os gestos, olhares e a também a maneira como ela se sentava sempre reta, as costas totalmente encostadas no espaldar das cadeiras, as pernas com os tornozelos cruzados e levemente inclinados para o lado esquerdo do corpo. Conseguia tomar uma xícara de chá inteirinha sem fazer qualquer ruído quando a xícara encontrava o pires. Por mais que eu tentasse, não conseguia realizar aquela façanha. O tom de voz quase nunca se erguia, mantendo-se sempre no mesmo nível em que podia ser claramente escutada sem soar irritante aos ouvidos de ninguém. Só ouvi minha avó gritar uma única vez, pouco antes da morte de papai. Ela e mamãe conversavam a portas fechadas no escritório de nossa antiga casa. Nunca fiquei sabendo o motivo. 

Parada no hall, em silêncio, respirando devagar para não chamar a atenção das duas, escutei; vovó dizia:

-...Eu sempre soube que acabaria assim. Jander não tinha tino para os negócios. Afundou a empresa. Felizmente, seu pai desmembrou parte dela e a colocou no seu nome antes de morrer, ou ele teria afundado com tudo.

-Mamãe, por favor, eu não gostaria que continuasse a falar assim de Jander. Não é justo, agora que ele se foi e não está mais aqui para se defender. 

-É verdade, ele não está mais aqui. Pois quando estava, defendia-se muito bem. Mas vamos deixar este assunto de lado, Letícia. Você sabe que a casa estará sempre de portas abertas para receber você e minha neta. Pense melhor no assunto. Poderiam mudar-se para lá no momento que desejassem. 

-Agradeço muito, mamãe, mas eu e Jordana estamos bem. Acho melhor eu tentar levar a minha vida e fazer alguma coisa por ela e por mim mesma, para variar. Queria aprender a ser mais independente. 

-Mas pelo menos, aceite a mesada. É de coração, e vocês ficariam bem mais tranquilas.

-Está bem, eu aceito, não estou em condições de ser orgulhosa. 

-E me deixe pagar a escola de Jordana. Coloque-a de volta no Nossa Senhora de Lourdes.

Naquele momento, eu respirei fundo e fiz um ruído de propósito, para denunciar a minha presença. Entrei, e vovó ergueu-se da cadeira, abrindo os braços para mim. Abracei-a, aspirando seu perfume delicado, e depois disse:

-Escutei parte da conversa, vovó, e gradeço muito tudo o que faz por nós. Mas prefiro continuar na minha atual escola. Fiz alguns bons amigos, amigos verdadeiros. No Nossa Senhora de Lourdes, descobri que não fiz nenhum amigo. Assim que eu e mamãe perdemos tudo, as pessoas viraram as costas para nós. Nenhuma de minhas antigas amigas me procurou, nem as de mamãe. Fomos esquecidas, deixadas para trás como lixo. Quero uma vida mais verdadeira.

Vovó me olhou longamente, e senti minha autoconfiança esfriar; mas ela apenas acariciou meu rosto, dizendo:

-Está bem, querida. Que seja como você quiser. Sei muito bem do que você está falando, mas infelizmente, nesse mundo nós somos julgados pelo que representamos – posição social, dinheiro, essas coisas. Pode não ser uma ideia muito agradável e verdadeira, mas é assim que as coisas são.

Eu agradeci de novo, e emendei:

-Mas há pessoas verdadeiras, Vó Aurora. Estou feliz em poder conhecê-las finalmente, em minha nova escola. 

Eu pensava em Shirley, Adílio e Laura; de repente, comecei a pensar também em Diana, que apesar de ter sido muito agressiva comigo, pelo menos não teve medo de mostrar o que realmente era. 

Quando vovó saiu, minha mãe veio ter comigo. Eu estava em meu quarto, já de roupa trocada, pronta para almoçarmos. Vó Aurora recusara o convite de juntar-se a nós, pois tinha um compromisso com as amigas no clube. Minha mãe bateu, e eu mandei-a entrar:

-Jordana... podemos ter uma conversa?

-Claro, mãe. Entre, sente-se aí na cama.

Notei o quanto ela parecia cansada e triste. A morte de papai ainda a fazia sofrer muito, pois eram um casal muito apaixonado. Ela não podia contar muito com vovó para desabafar, e suas amigas antigas também a tinham deixado do lado de fora de seus mundinhos perfeitos assim que o funeral terminou. Mamãe nunca falava de si mesma comigo, fazendo questão de que eu a enxergasse como um porto seguro, alguém em quem eu poderia confiar em todos os momentos, e não um adulto fraco que não podia cuidar de si. Ela emagrecera alguns quilos, e seus cabelos, antes tão bem cuidados, permaneciam presos em um coque à altura da nuca. As raízes precisavam de retoques, mas ela parecia não ligar. Mesmo assim, era uma mulher muito bonita. Puxara à minha avó. 

Ela sentou-se, alisando a colcha com a mão. Parecia tomar coragem para me dizer alguma coisa. Finalmente, ela me olhou – eu estava sentada na cadeira da escrivaninha, bem em  frente a ela.

-Jordana... nós não falamos muito sobre a morte de seu pai. Quero saber como você está. 

-Bem... na medida do possível, estou bem, mamãe. Acho que já superei, se é que é possível superar a ausência de alguém que a gente ama tanto. Mas... acho que você entende o que eu quero dizer.

-Sim, entendo... já faz mais de um ano.

Atrevi-me:

-E você, mãe? Como está?

Ela demorou um pouco a responder. Era difícil para ela falar sobre aquilo. 

-Bem, acho. As noites são mais difíceis. Acho que sempre serão. Eu... estou procurando emprego, como você sabe. Ainda temos dinheiro suficiente para alguns anos sem preocupações, e agora que finalmente resolvi aceitar a mesada de sua avó, nós ficaremos bem, mas... quero fazer alguma coisa por mim mesma. Você compreende?

-Claro! Já está mais do que na hora. Quero dizer, você merece ser feliz, mãe. Ainda é jovem e bonita. 

-Você está mesmo bem nessa escola? Não gostaria de voltar para o Nossa Senhora?

-Não. Estou realmente bem. Fiz alguns amigos. O Sidarta é um colégio bem diferente do outro, mas é muito bom assim mesmo. É uma escola particular, temos bons professores. A única diferença, é que ele não é bilíngue nem oferece cursos complementares, como línguas, artes, esportes... fora isso, é perfeito. E nós podemos pagar. 

-Não, querida... se a questão for dinheiro, saiba que não é problema, filha.

-Já disse, está tudo bem, mãe.

Ela fez silêncio, depois disse:

-Por que não traz suas amigas aqui?

-Vou trazê-las, mãe. Posso convidá-las para o almoço na sexta?

-Pode sim, filha. Farei aquela massa deliciosa que aprendi na internet. 

Mamãe andava aprendendo a cozinhar, e estava indo muito bem. Sorri, e pegando na mão dela, fomos almoçar. 

Na sexta-feira, cheguei em casa com Shirley, Adílio e Laura. Apresentei-os à minha mãe, que sorriu e foi muito gentil com todos. Adílio comentou ao pé do meu ouvido o quanto minha mãe era bonita, e disse que tinha entendido de onde eu tirara a minha beleza. Laura foi quem passou mais tempo conversando com mamãe. Enquanto isso, Shirley andava pela sala, examinando porta-retratos, almofadas, tapetes e tudo o que seus olhos pudessem alcançar. Reparei que ela pediu para usar o banheiro e demorou um pouco mais do que o normal. Depois, veio pelo corredor, olhando as fotos de família na parede. Também atreveu-se a abrir a janela da sala e olhar para baixo. 

Almoçamos, conversando sobre os assuntos da escola. Foi uma tarde leve e agradável. Shirley trocou poucas palavras com minha mãe, mas foi educada. Percebi que elas não exatamente morreram de amores uma pela outra. Quando meus amigos finalmente foram embora, eu e minha mãe nos jogamos no sofá da sala. Eu já sabia o que ela ia dizer, mas esperei.

-Gostei deles, filha. Parecem legais... quero dizer, refiro-me ao menino e à Laura, de quem gostei muito. A outra menina... Shirley... achei-a um tanto abusadinha. 

Eu tentei levar na brincadeira:

-Imagine... ela é ótima, mãe! Minha melhor amiga. É que ela é assim mesmo, sempre curiosa.

-Ela é bem diferente de você. Filha... acho que ela não combina com seus modos, com sua educação... é claro que eu posso estar errada, mas você sabe que eu dificilmente me engano quanto ao caráter das pessoas. 

Naquele momento, um sininho de advertência soou bem baixinho no fundo da minha cabeça, mas eu não queria pensar no assunto, e fiz com que ele silenciasse. Ao invés disso, parti em defesa de minha amiga:

-Não se preocupe, mãe. Teremos outras oportunidades para desfazer a má impressão. Também não gostei dela assim que a vi, mas Shirley tem se mostrado uma amiga presente e bastante fiel. Ela ajuda a todos. Sabe, é muito boa em matemática. 

-Mesmo assim, ela é diferente de você... muito diferente.

Eu pus minha mão sobre a dela:

-Nós somos diferentes agora, mãe. Nossa vida é diferente. Nosso mundo é diferente.

Ela concordou com a cabeça:

-Talvez você tenha razão. 

Mamãe acabou arranjando um emprego em uma imobiliária, como corretora. Eu não conseguia imaginar minha mãe vendendo casas, mas ela conseguiu sair-se muito bem logo na primeira semana, vendendo um apartamento e uma sala comercial por um bom preço. Após um mês, já conseguia uma boa comissão. Mesmo assim, vovó recusou-se a deixar de mandar a mesada. Minha mãe aceitou-a, e pudemos viver mais folgadamente, embora bem longe do estilo ao qual estávamos acostumadas. 

Ela vendeu seu Mercedes e comprou um carro bem mais em conta – zero, mas bem mais simples. Logo, minha mãe estava fazendo amizades no trabalho, e saindo para ir ao cinema e aceitando convites para almoçar com suas novas amigas. Fiquei feliz; as coisas estavam realmente indo bem. Vovó estava muito mais presente em nossas vidas, e ela permitia que eu convidasse meus amigos aos sábados para usar a piscina de sua casa. 
Novembro chegou rapidamente. Minha festa de aniversário de 16 anos foi lá; pude convidar meus amigos da escola, e vovó contratou um bufê maravilhoso. Também deu autorização para eu contratar um DJ. A festa foi no jardim da mansão, e tudo estava lindo. 

Na noite da festa, pouco antes que os convidados chegassem, mamãe me deu de presente um vale compras em uma butique da cidade, dizendo que eu precisava comprar roupas novas, o que me deixou muito feliz, já que não comprava nada novo há quase um ano. Agradeci, beijando-a. Vovó me abraçou e deu-me uma caixinha de joias, e quando abri, havia uma correntinha de ouro e um pingente com um relicário que continha uma foto dos meus pais. Comovi-me às lágrimas; achei lindo ela fazer aquilo por mim, mesmo não gostando de papai. Ela disse:

-É uma maneira de você sentir que ele está perto de você. 

Depois, elas despediram-se de mim, dizendo que eu aproveitasse a festa, e recolheram-se na outra ala da casa, bem longe do barulho das comemorações. Vovó deixou-me seu mordomo, dois garçons que havia contratado e duas copeiras. Fora eles, não havia mais nenhum adulto na festa. A única condição que minha avó impôs, é que não houvesse bebidas alcoólicas na casa, e eu prometi cumprir a promessa. 

Por volta das nove da noite, Shirley finalmente apareceu. Foi quase a última convidada a chegar, o que causou muitos gritos de boas vindas e urras. Ela realmente roubou a festa: bronzeadíssima, devido às idas à piscina de minha avó, ela usava um vestido de lamé prateado, bem colado no corpo, que se abria logo abaixo dos quadris, em uma saia godé que terminava acima dos joelhos. O decote era um pouco profundo demais para o meu gosto, mas não chegava a ser vulgar. Ela tinha clareado os cabelos, e tive a impressão de que fizera algum tipo de tratamento neles, pois ao invés de ressecados e manchados como sempre, estavam com aparência saudável e macia. Shirley estava linda! A pele bronzeada destacava seus olhos claros e dentes muito brancos. 

Seus trajes extravagantes contrastavam com meu vestido de linho e seda bege com rendas cor-de-chá, simples e de corte reto, que mamãe escolhera para a ocasião em uma das mais badaladas lojas de alta costura. O dela parecia ser alguma coisa barata, comprada, quem sabe, em uma loja de departamentos, mas tinha bem mais efeito.

Ela veio até mim, desfilando como se estivesse em uma passarela, e me abraçou com força. Depois, estendeu uma caixa; agradeci, e abri, e enquanto abria, notei que as outras pessoas estavam ansiosas para saber o conteúdo da caixa. 
Era uma caixa de camisa, e pensei tratar-se de um vestido ou uma blusa, mas quando abri, mal pude acreditar no que estava lá: era um enorme pênis de cera, cercado por acessórios eróticos. Acho que corei até a raiz dos cabelos, e fechei a caixa. As pessoas insistiam para ver o conteúdo, mas eu estava tão sem graça, que abracei a caixa com força, me negando a abri-la. Esperava que ninguém mais insistisse, o que logo aconteceu, mas Shirley tomou-me a caixa de repente, expondo a todos o seu conteúdo. 

Algumas pessoas riram, deram gargalhadas. Mas as que me conheciam melhor, notaram meu constrangimento e se afastaram quietas. Olhei para Shirley, tentando entender o motivo daquela brincadeira horrível e sem graça. Eu me sentia agredida, humilhada e traída ao mesmo tempo. Mas ela apenas ria, dizendo:

-Uma pequena iniciação sexual para minha amiga querida! Agora que fez 16, já pode ir treinando!

Laura fez de tudo para tomar a caixa de Shirley, mas não conseguiu. Adílio me pegou pela mão e me puxou para longe dali. Fomos para um canto afastado do jardim, e o DJ colocou uma música bem alegre. Logo, todos estavam dançando e se divertindo novamente. Comecei a chorar. Adílio me abraçou, e recostei a cabeça em seu ombro.

-Por que ela fez aquilo comigo, Adílio?

-Não foi nada pessoal. Shirley gosta de ser o centro das atenções. Ela nem sabe o que fez. Não ligue tanto, Jordana. Vamos voltar, é a sua festa de aniversário.

-Não consigo. Acho que nunca mais vou aparecer lá.

-Deixa de ser tola, venha comigo. A galera já esqueceu o que houve. Eles conhecem a Shirley, sabem que ela é totalmente sem noção. 

Naquele momento, Shirley apareceu, rindo muito, acompanhada de Laura, que parecia muito zangada; Shirley perguntou:

-O que houve? Não gostou do presente?

Adílio, muito sério, ralhou com ela:

-Você está maluca, Shirley? Não tem noção de nada?

Ela ficou muito séria, dizendo:

-Deixe a gente à sós, Adílio.

Ele tentou protestar, mas ela ergueu um pouco a voz. Ele olhou para mim, como para certificar-se de que eu estaria bem. Assenti com a cabeça, e ele foi embora com Laura. Shirley se aproximou, me estendendo uma outra caixa.

-Este é seu presente. O verdadeiro. O que você realmente merece, pela pessoa bacana que você é. Desculpe se eu te perturbei, não quis te deixar tão ‘bolada.’ Era só brincadeira!

Hesitei, mas ela sacudiu a caixinha, com o sorriso mais doce do mundo. Peguei-a e abri: era um anel de prata, muito bonito. Agradeci, soltando um ‘obrigada’ quase inaudível. Ela sorriu de leve:

-Viu? Eu amo você, sua tonta! Agora vamos voltar para lá. Me desculpe novamente se eu de alguma forma te chateei! Vou tentar pegar mais leve com você. Porque você é... diferente.

Ela me olhou, e pude ver um carinho muito grande nos olhos dela. Achei que tinha sido uma reação exagerada de minha parte, e voltei com ela para a festa, pensando em como os outros nos olhariam, mas para minha surpresa, ninguém nos olhou. Era como se nada tivesse acontecido, e aos poucos, fui me soltando novamente. A noite toda, ela foi muito atenciosa comigo. 

Depois que partimos o bolo, o DJ começou a tocar músicas mais movimentadas ainda, e todos fomos para a pista de dança. 

À certa altura da noite, vejo Shirley surgir de dentro da casa segurando duas garrafas de bebida. Fui até ela:

-Não podemos trazer bebidas alcoólicas para a casa! Vovó me proibiu!

Ela riu, sacudindo uma garrafa em cada mão:

-Ora, mas estas não foram trazidas! Já estavam aqui o tempo todo. 

Adílio e Laura se entreolharam, e pareciam nervosos. Eu disse:

-Shirley, as garrafas são de minha avó! Coloque elas de volta no lugar! Por favor!

-Mas o que é uma festa sem birita? Você faz 16 nos hoje, precisamos comemorar de verdade! 

Fui categórica, e mandei que ela colocasse as garrafas de volta imediatamente. Ela pareceu entender, e me pedindo desculpas, foi em direção à casa, levando as garrafas. Mas quando Shirley já estava à porta, um dos convidados – Julio, um rapaz de 18 anos que convidei a pedido de Shirley, pois mal o conhecia – a interceptou, e acabou tomando-lhe da mão uma das garrafas. Ela foi para dentro da casa, voltando de mãos vazias. Fui atrás de Julio, mas ele já abrira a garrafa e estava bebendo do gargalo, passando para outras pessoas. 

Logo, alguém surgiu de carro, e depositou algumas caixas de cerveja no chão. A coisa fugiu ao meu controle. Às três da manhã, havia jovens bêbados de roupa e tudo dentro da piscina, urros, gritos, vômitos pelos cantos do jardim, plantas pisoteadas, e até uma briga que resultou em uma mesa de doces virada e alguns copos quebrados. Eu olhava aquilo tudo sem saber o que fazer, pois nas festas às quais eu estava acostumada, aquele tipo de coisa nunca acontecera antes. 

Laura despediu-se quando notou que a coisa ia ficar feia, por volta das duas da manhã. Ela tinha ido com Adílio, que sentiu-se na obrigação de acompanhá-la de volta para casa. Antes de sair, ele me disse: “Se eu fosse você, chamava sua avó.” Mas eu não o escutei, e me arrependi logo depois. 

Às quatro, havia algumas pessoas dormindo nas espreguiçadeiras do jardim. O DJ estava desfazendo o palco, e a música cessara totalmente. Eu tentava acordar as pessoas, pois não queria que minha avó acordasse e deparasse com elas. Estava desesperada, tentando colocar latas vazias de cerveja em sacos de lixo, recolher cacos de vidro quebrado e colocar a mesa de pé novamente. Pedi ajuda ao DJ, mas ele negou, dizendo que não estava sendo pago para aquilo. Shirley não estava em parte alguma. 

De repente, Adílio apareceu novamente, sem Laura. Sem nada dizer, ele levantou a mesa, e pegando um saco de lixo, começou a me ajudar com as latas de cerveja vazias. Com a ajuda dele, consegui esconder as provas da bebedeira bem antes de vovó acordar. Adílio também acordou os jovens que estavam adormecidos, levando-os para fora da casa. Pedi desculpas a vovó pelos copos quebrados, dizendo que tinha sido um acidente, mas ela não se importou, dizendo que coisas assim sempre aconteciam em festas de jovens. 

Estávamos – eu, mamãe e vovó – calmamente sentadas à mesa da sala de almoço, tomando nosso café da manhã, quando Shirley apareceu do nada. Estava um tanto descabelada, a maquiagem borrada, carregando as sandálias na mão. Ao nos ver sentadas à mesa, ela estancou no meio da sala, parecendo constrangida. Mamãe e vovó a olhavam como se ela fosse um ET ou algo assim. Mas minha amiga não perdeu a graça. Aproximou-se, desejando-nos bom dia, e disse:

-Festa maravilhosa! Desculpe interromper o café da manhã de vocês, mas eu já tinha ido embora quando notei que tinha esquecido minha bolsa. Voltei para buscar. Estava sobre o sofá da sala... sinto muito pela inconveniência. 

Vovó olhou-a dos pés à cabeça, mas nada disse. Eu não conseguia dizer nada. 

Mamãe tentou apaziguar a situação:

-Bem, já que está aqui, por que não se junta a nós e toma o café da manhã? 


Shirley me olhou, e eu assenti com a cabeça. Vovó fez sinal para que a copeira pusesse mais uma xícara e talheres à mesa. Shirley calçou as sandálias rapidamente após sentar-se. Ajeitou os cabelos com a mão, passou os dedos sob os olhos para tirar o excesso de rímel borrado. Eu ri discretamente. Ela estava realmente constrangida pela primeira vez na vida, acho. Fiquei me perguntando de onde diabos ela surgira, e onde tinha dormido. Ainda pensava sobre isso, quando, do mesmo lugar de onde ela tinha vindo (sala de estar), surgiu um jovem com cara de sono, abotoando as calças; era Julio. Ele também parou diante da mesa, e após dizer um ‘bom dia’ entre bocejos, saiu pela porta da frente e não olhou para trás. 

Graças a Deus, mamãe e vovó pareciam bem-humoradas naquela manhã. As duas se entreolharam, e notei um sinal de riso no canto da boca de vovó. Shirley tomou três xícaras de café preto e mordiscou um biscoito. Depois, tomou quase uma jarra de água. Vovó perguntou:

-Por um acaso você bebeu, mocinha?

Senti meu rosto esquentar. Mas Shirley manteve a calma:

-Não! É que comi bolo demais e o açúcar me faz sentir sede. Eu jamais bebo. A propósito, gostaria de agradecer por ter sido convidada para essa linda festa. Tudo lindo, muito bem organizado, ótimo bufê! 

Vovó tomou um gole de café, e agradeceu. 

Após aquelas cenas constrangedoras, Shirley despediu-se educadamente, dizendo que precisava ir para casa. Agradeceu novamente pela festa e pelo café. Mamãe ergueu-se da mesa, dizendo:

-Estamos indo também. Jordana precisa dormir. Se quiser, eu a deixo em casa. 

Pela segunda vez, vi Shirley agir como se estivesse constrangida. Na verdade, parecia quase em pânico:

-Não precisa, obrigada!

-Eu insisto.

-Eu moro do outro lado da cidade! É longe daqui.

-Eu também. Não custa nada, eu a deixo em casa.

-Não, obrigada, não se preocupe. Na verdade, já liguei para minha mãe e ela vai me pegar ali na esquina. Adeus. Tenham um ótimo domingo!

E ela saiu quase correndo da casa.


(continua...)


A MÃO E O LAÇO – CAPÍTULO VII

Fiquei esperando, os olhos presos em Drica, especialmente nos lábios dela, que pareciam pronunciar palavras absurdas enquanto e...