segunda-feira, 13 de novembro de 2017

AMOR E REVOLTA – capítulo V








AMOR E REVOLTA – capítulo V

Gabi sofria em silêncio. Jane passou a frequentar a casa de Marvin, e também alguns dos seus novos amigos. Eles passavam por ela e Luis na sala, mal falando um “oi”, e iam para a piscina. Gabi percebeu a atenção exagerada que Marvin dedicava a Jane, e o quanto Jane era o centro das atenções. Sentiu-se enciumada. Jamais conseguiria concorrer com alguém como ela. Gabi era o tipo de garota que existia, mas sem demasiado brilho. Era bonita, mas não bonita demais, como Jane. Não era tão rica, nem tão intelectualizada. E não tinha aquele séquito de admiradores. 

Os avós reclamavam porque Marvin raramente estava presente nas reuniões de família nos finais de semana, mas Rafaela sentia um prazer fininho ao perceber que aquilo magoava Helena. Ela dizia que seu filho estava bem, e que pela primeira vez, estava enturmado e tinha muitos amigos, além de estar gostando da escola. Nas poucas vezes em que Marvin se fazia presente, ele ficava apenas alguns minutos – no máximo, uma hora – e logo se despedia de todos, dizendo que tinha que encontrar os amigos.

E as reuniões de final de semana dele passaram a ser na casa de Jane. Ele foi convidado para lá pela primeira vez quando Sunny, a mãe de Jane, fez aniversário. Marvin não estava preparado para o que viu quando naquela tarde de sábado chegou à casa de Jane, e ficou parado junto a piscina, enquanto as pessoas circulavam em volta dele como se ele fosse invisível... completamente nuas. Algumas mulheres usavam apenas bijuterias (ou jóias caras, ele não saberia dizer), ou lenços de seda transparente em volta dos ombros,  e os homens usavam gravatas borboleta. Marvin sentiu-se totalmente deslocado, enquanto ficava parado ali, segurando uma dúzia de rosas – presente que comprara para Jane, que ainda não conhecia, a conselho do pai: “Toda mulher adora flores. E se você não a conhece, é um presente que com certeza vai pegar bem.”

Finalmente, Jane veio caminhando em direção a ele. Totalmente nua. Usava apenas um par de sandálias altas, e os cabelos longos e soltos balançavam suavemente atrás dela como uma aura em volta do seu corpo, conforme ela caminhava. Ela estava magnífica! Marvin quase engasgou ao vê-la. Sem pestanejar, Jane aproximou-se dele, abraçando-o e beijando-o demoradamente na boca. Ele pensou se para ela aquele beijo significava alguma coisa. Quando se separaram, ele disse a primeira coisa que lhe veio à cabeça, apenas para não deixar transparecer o quanto ele se sentia embaraçado:

-E onde está a turma?

Ela respondeu, com naturalidade:

-Só convidei você. É o aniversário de Sunny. Ela me autorizou a convidar apenas um amigo.

Ele percebeu o quanto aquilo fazia dele alguém especial, e alegrou-se. Jane pegou-o pelo braço:

-Venha, vou te apresentar os meus pais.

Ele foi caminhando ao lado dela, tentando não prestar atenção ao fato de que ela estava nua, e ele, muito excitado; Jane foi puxando-o pelo jardim, até que chegaram a um grupo de pessoas que estava de pé em um dos cantos do jardim, tomando champanhe e conversando. Ela cutucou um casal, que virou-se para olhar para ela:

-Sunny, Paco... este é meu amigo Marvin. Ele é novo na escola.

Marvin achou estranho que Jane se referisse aos próprios pais pelo nome, e não chamando-os de mãe ou pai. Ele estendeu a mão, dizendo:

-É um prazer. 

Sunny e Paco cumprimentaram Marvin, que agora sentia os olhos das pessoas fixos nele. Ele entregou as flores a Sunny, que agradeceu sorrindo, acolhendo-o em um abraço apertado. Marvin notou que ela deveria ter quarenta anos de idade. Era quase tão bonita quanto a filha, e estava em muito boa forma. Paco também mostrava músculos cultivados em academia, e uma cor bronze-dourada na pele, ressaltada pelo louro dos cabelos ondulados cortados em camadas. Aquela era a família mais bonita que Marvin já vira. 

Sunny chamou um dos seguranças e entregou-lhe as flores. O homem pegou-as e sem dizer palavra, desapareceu na direção da mansão. Depois, virando-se para Jane, disse:

-Deixe seu amigo mais à vontade, querida. 

E em seguida, olhando para Marvin:

-Minha linda filha vai leva-lo para conhecer a casa. Fique à vontade. Eu digo... literalmente.
Jane pegou Marvin pela mão, e ele a todo momento lutava contra o forte desejo que sentia por ela. Ela mostrou-lhe a casa, servindo-lhe uma taça de champanhe, que ele literalmente engoliu de uma só vez; ela serviu-lhe outra, e mais outra. A casa era imensa e linda, muito luxuosa e bem decorada. Eles foram caminhando para longe da sala de estar e do barulho, em direção a uma outra ala da casa. Seguiram por um longo corredor com janelas de vidro, de onde Marvin viu as pessoas e a festa em volta da piscina, e também lindos trechos do jardim. Quando chegaram em frente a uma porta larga, ela parou:

-Venha. Vamos tirar um pouco dessa roupa. 

Marvin sentia-se muito embaraçado, pois ao entrarem no quarto, Jane ficou olhando para ele, esperando que ele se despisse, sem demonstrar que sairia e o deixaria à vontade. Marvin não sabia como esconderia dela a sua excitação. Ela logo percebeu qual era o problema, e aproximou-se dele, enlaçando-lhe o pescoço e dizendo:

-Vamos dar um jeito nisso.

E começou a despi-lo, ela mesma, beijando cada parte de seu corpo. Marvin não entendia muito bem como uma menina tão nova podia ter tanta experiência – muito mais experiência do que ele. Mas concluiu que naquele momento, aquela deveria ser a menor de suas preocupações. Ele estava a ponto de explodir. Ela o chamou e ambos deitaram-se na cama de casal dela, entre macios lençóis de cetim e almofadas que cheiravam a alfazema. Marvin estava meio-bêbado, e enquanto ela fazia coisas deliciosas no corpo dele, ele via, com os olhos entreabertos, a atmosfera aconchegante e sensual do quarto. Aquele, definitivamente, não era o quarto de uma adolescente.
Quando terminaram, ele descansou por um tempo, deitado ao lado dela. Jane virou-se de bruços e olhou para ele:

-Gostou?

Só de olhar para ela, ele sentiu sua excitação chegando novamente, e abraçou-a com força. 
Duas horas depois, e após a quarta vez, eles saíram do quarto. No caminho para o jardim, Marvin tomou outra taça de champanhe. Ele gostaria de saber qual seria, então, a sua posição na vida de Jane. Era seu namorado, ou continuavam apenas bons amigos? De brincadeira, segurou-a pelas mãos e obrigou-a a olhar para ele:

-E agora?

-E agora o que?

-Eu queria saber o que eu sou para você, Jane.

Ela ficou séria, e Marvin percebeu que Jane sentia-se desconfortável. Jane sorriu de repente, dizendo:

-Não me faça perguntas. Você não sabe ser feliz, viver o momento?

Ele ia retrucar, mas naquele instante, Sunny apareceu:

-Jane, querida, o Deputado Tavinho chegou, e está procurando por você. Por favor, dê a ele um pouquinho de atenção. Venha, Marvin, eu lhe faço companhia.

-Marvin não entendeu nada daquilo. Viu apenas que Jane ficou séria de repente, antes de afastar-se deles. Também viu, enquanto conversava com Sunny, que Jane caminhava ao lado de um homem moreno, bem mais velho, que cultivava uma barriguinha. Ambos afastaram-se em direção à casa. Marvin sentia-se enciumado; não conseguiu deixar de perguntar a Sunny:

-Quem é aquele homem?

Sunny sorriu:

-Ele é o deputado Tavinho. É como se fosse um tio para Jane. Um grande amigo nosso. Sabe, temos vários projetos sociais. Eu mesma administro uma ONG que cuida dos direitos das crianças. O deputado Tavinho nos ajuda muito, e somos muito gratos a ele. 

-Bem... acho isso bacana, Sunny.

Naquele instante, Paco passou por eles segurando uma linda jovem pela mão. Ambos pareciam muito entretidos, enquanto conversavam, e Marvin viu, estupefato, quando Paco passou o braço em volta da cintura da jovem, conduzindo-a a um canto escuro do jardim. Os dois desapareceram. Ele olhou para Sunny, a fim de certificar-se se ela tinha ou não visto a cena. Notou que uma pequena sombra passou diante dos olhos dela, mas ela logo a espantou com um sorriso:

-Eu sei que você deve estar achando muitas coisas estranhas aqui em minha casa, Marvin.

Ele tentou soar natural:

-Não, que isso... eu... ok! Confesso que fiquei surpreso. Nunca tinha estado em uma festa assim.

-Ela estudou-o por um momento, antes de dizer:

-Então relaxe e aproveite, querido. E saiba que aqui nada é proibido. Eu disse: NADA. 
Marvin pensou ter percebido uma insinuação na voz dela, que tornou-se rouca no final, mas procurou espantar aquele pensamento. Afinal, ela tinha idade para ser mãe dele. Mas quando Sunny esticou a mão, alisando vagarosamente seu ventre nu, ele quase engasgou de surpresa; Marvin disse;

-Ops... Sunny... que negócio é esse? 

Ela o encarou, e depois disse:

-Só queria provar a você que eu estou falando realmente sério quando disse que aqui nada é proibido. 
Dizendo aquilo, ela deu uma gargalhada sonora, e arrematou:


-Não faça essa cara. Estou apenas brincando com você. 

Um garçom passou por eles, e Sunny o fez parar, pegando na bandeja um cigarro de maconha. O garçom acendeu-o para ela. Ela deu uma longa tragada e entregou-o a Marvin, dizendo:

-Tome. Isso vai ajudá-lo a relaxar. 

Marvin nunca tinha experimentado nenhum tipo de droga. Nem sequer cigarros. Sunny ensinou-lhe o caminho das pedras. O que aconteceu naquela noite ficou guardado para sempre na mente dele, mesmo depois que tornou-se um adulto. 

Chegou em casa às quatro e trinta e cinco da manhã, e em silêncio, foi deitar-se e pensar em tudo o que tinha acontecido naquela noite. 





segunda-feira, 6 de novembro de 2017

AMOR E REVOLTA – Capítulo IV





Mas na hora do intervalo, enquanto se dirigia a uma das mesas vazias do refeitório a fim de comer seu lanche sozinho, Marvin foi surpreendido: vários colegas foram sentar-se com ele, e começaram a se apresentar e a trata-lo muito bem. E o melhor de tudo, é que nenhum deles tocou no assunto ou o tratou de forma estranha ou protetora. Após terminarem de comer, alguns se afastaram, e Marvin se viu sozinho à mesa com apenas Fabinho, um menino de estatura baixa e cabelos lisos que caíam sobre um dos olhos. Fabinho atacava mais um sanduíche, quando Marvin criou coragem e perguntou:

-Quem é aquela menina que chegou por último na sala hoje? 

-Ah, aquela menina? É a Jane Rain.

-O que?

-Jane Rain! Este é o nome dela. Mas todo mundo a chama só de Jane. 

-Uau! Nome diferente. Ela é muito linda. 

-É...

Marvin percebeu um tom de voz e um olhar estranhos em Fabinho, e perguntou:

-Algo errado com ela?

Fabinho encolheu os ombros, dando mais uma mordida no sanduíche:

-Não, nada. É que... bem, descubra por si mesmo. Ela é uma garota diferente das outras. 

-Diferente como?

-Difícil dizer. Mas você vai acabar notando. Não vou estragar a surpresa. Bem, vou dar um giro. Quer vir?

-Não, obrigada. Acho que vou ficar por aqui. A gente se vê.

Naquele momento, ele viu que Fabinho olhava para alguma coisa acima e por trás dele, e instintivamente, Marvin olhou para trás. Deu com Jane. Jane Rain. Ela estava de pé logo atrás dele, e ele se perguntou o quanto daquela conversa ela havia escutado. Sem pedir licença, Jane sentou-se em frente a ele.

-O que quer saber sobre mim?

-Olha eu... desculpe, eu não queria... fofocar... nem sei onde enfio a cara.

Ela riu alto:

-Não se preocupe, ninguém liga muito para nada por aqui, e ninguém tem segredos também. Costumamos partilhar tudo uns com os outros. Faz parte da doutrina da escola: sem segredos!

Ele pensou um pouco antes de dizer:

-Sem segredos? Mas por que?

-Porque é melhor assim.

-Há quanto tempo está aqui?

-Dezesseis anos. Desde sempre. É que aqui nós aprendemos que sermos verdadeiros a respeito de nós mesmos ajuda-nos a sermos verdadeiros uns com os outros, o que nos leva a mentes mais saudáveis. Sem máscaras. Você marcou pontos hoje na sala com o Fernando, dizendo a verdade sobre você. 

Ele pensou mais um pouco, e concordou com a cabeça.

-Então eu posso te perguntar o que eu quiser?

Ela concordou com a cabeça. Marvin sentiu que o olhar dela era profundo. Quase queimava. Notou o esmalte preto descascando um pouco nas pontas das unhas. Viu que a cor rosada forte dos lábios dela era natural, e que ela não usava batom. Ela era realmente linda. 

-Aquele menino que você beijou. É seu namorado?

Ela olhou-o divertida, antes de cair na gargalhada:

-Não! O que o fez pensar que fosse?

-Bem, o óbvio: vocês se beijaram!

-Um beijo não quer dizer nada. E que palavra mais antiga essa: “namorado!”

Ele riu, confuso:

-Então... do que devo chamar duas pessoas que se gostam e estão juntas?

-De nada! Por que você quer dar nomes a tudo? As pessoas apenas são! Por que rotulá-las? 
Marvin pensou que ela era uma garota estranha. Resolveu investir mais fundo na conversa:

-Qual é o seu segredo?

Ela respondeu quase que imediatamente:

-Eu não tenho segredos.

-Você parece estar na defensiva.

Ela ficou olhando para o chão por um longo tempo, antes de responder. Finalmente, concordou com a cabeça:

-É verdade. Mas se eu te contar, não será mais segredo. 

Olhou-o nos olhos, sorrindo, e o sorriso dela pareceu a Marvin a própria luz do sol. Adorou os dentes brancos de Jane, e o charme que os caninos ligeiramente maiores que os demais dentes lhe davam. 

Ela suspirou antes de dizer:

-Vou te contar o meu segredo, porque eu gostei de você, e não quero que fique chateado comigo se descobrir por outra pessoa. 

Ele a olhou nos olhos, esperando.

-Eu fui menino. Até os sete anos de idade. 

Marvin sentiu a própria boca se entreabrir, e a cor fugiu de seu rosto. Ele realmente não estava pronto para aquela revelação. Ela estudou a reação dele, e erguendo uma mão, completou:

-Deixe eu explicar: eu tinha os dois sexos. Nasci uma menina que tinha um pênis e os sacos escrotais. E todo o aparelho reprodutor feminino. Mas eu sempre me senti menina. Minha mãe me deu o nome do meu avô: Jaime.

Marvin não sabia o que dizer, e confessou aquilo a ela. Jane continuou sua história:

- Os médicos disseram aos meus pais, quando nasci, que eu poderia optar. Eles esperaram até que eu crescesse. Estudaram minhas reações. Viram que eu preferia bonecas e vestidos, e gostava de maquiagem. Um dia, eles me perguntaram se eu queria ser menino ou menina. Mostraram-me algumas fotos – até então eu não tinha ideia de que eu era diferente das outras crianças. O médico me esclareceu as dúvidas. Disse que eu poderia escolher ser o que eu quisesse, e que se escolhesse ser menino, tomaria alguns remédios que me ajudariam, e em ambos os casos, teria que passar por uma cirurgia, mas teria que esperar mais um pouco. Mas eu não tive dúvidas: eu sempre me senti menina. 

-E aí você fez ... uma operação?

Ela concordou com a cabeça. 

-Removeram meus órgãos masculinos. Hoje, se você olhar, nem notará a diferença, ou quase... há algumas poucas cicatrizes, mas os pelos pubianos as escondem. 

-E você é... menina de verdade, quero dizer, pode ter filhos se quiser?

-Claro. Como qualquer mulher. Pelo menos, acho que sim, porque eu tenho o aparelho completo. 

-E você jamais se arrependeu da sua escolha?

-Até agora, não. 

Marvin ficou pensando no que ela queria dizer com “Até agora,” mas não disse nada. Ao invés disso, perguntou;

-E por que você beijou aquele cara? Eu tive uma forte impressão de que ele está a fim de você.

Ela ergueu as sobrancelhas:

-Impossível.

-Por que? 

- Porque seria mais provável que ele se interessasse por você. Juninho é gay. 

Ele engoliu em seco. Nunca tinha estado diante de uma situação como aquela. 
Naquele instante, o sinal para entrarem tocou, salvando-o de dizer qualquer coisa. 
Marvin nunca sentira preconceito de qualquer tipo, mas estar interessado em uma garota que foi menino até os sete anos, deixou-o um tanto confuso. Ao mesmo tempo, não conseguia tirar os olhos de Jane. Ela era linda demais! Havia tantas coisas que gostaria de perguntar a ela... será que já tinha ficado com outros meninos? Será que ela se interessava por meninas? Ele rezava para que ela se interessasse por ele. Ao mesmo tempo, dizia que não. Como contaria aquela história para seus pais e avós? Eles entenderiam? 
E eles precisavam mesmo saber?

Ao final das aulas, Jane pegou seus livros e saiu correndo, e Marvin sentiu-se frustrado por ela não tê-lo esperado. Tomou o ônibus para casa, e ao chegar, fechou-se em seu quarto a fim de pensar melhor nos acontecimentos daquele dia. 
Disse aos pais, mais tarde no jantar, que tinha gostado da escola, e viu os dois suspirarem de alívio. Atendeu a um telefonema da vó Helena, e assegurou-lhe que a escola era ótima, e que ele estava bem. 

Marvin ficava mais fascinado por Jane a cada dia que passava. Tudo o que fazia, tudo o que vestia, ele pensava na aprovação dela. Toda manhã, antes de sair de casa, ele se olhava no espelho e se perguntava se Jane aprovaria o que ele estava vestindo. Sua imaginação não tinha limites quando ele pensava na possibilidade de que ela um dia fosse sua namorada – ou qualquer coisa parecida, já que ela não gostava de rótulos. As ideias dela eram diferentes das ideias de todas as meninas que conhecera até então, e ela o deixava intrigado, curioso e entusiasmado por coisas que ele nunca tinha prestado atenção antes. 

Jane tinha um irmão chamado Max – Max Sol, dois anos mais velho que ela, e ele estudava na mesma escola. Quando Marvin foi apresentado a ele, Max tratou-o como se ele fosse uma criança, sem demonstrar qualquer interesse especial em conhece-lo melhor. Jane apresentou-os na hora do recreio. Max era mais alto do que os rapazes de 18 anos que Marvin conhecia. Também tinha cabelos muito loiros, como a irmã, e olhos claros e brilhantes sob sobrancelhas grossas e arqueadas. Parecia uma cópia da irmã na versão masculina. Max apertou a mão estendida de Marvin por alguns segundos, e depois, dirigindo-se a Jane, disse que precisava ir, e saiu sem despedir-se de Marvin, que ficou um pouco sem graça, mas Jane agiu como se não tivesse percebido. Marvin logo pensou: “Playboyzinho de merda.” Mas depois censurou-se por rotular Max.

Os amigos de Jane estavam se tornando seus amigos também. Ela vivia em um universo que girava em volta dela, e sem perceber, Marvin estava se tornando um de seus satélites. Juninho sempre levava coisas que achava que Jane fosse gostar de ver, como revistas de moda e novas tendências de maquiagem.  Os outros meninos pareciam ser todos meio-apaixonados por ela, e Marvin logo percebeu que as meninas da escola a viam como um exemplo a ser seguido. Algumas inclusive tentavam copiar as roupas e maquiagens de Jane.

Para tristeza de Gabi, um mês após mudar de escola, o que ela tinha previsto estava acontecendo: Marvin afastava-se cada vez mais dos velhos amigos, e só queria passar tempo com os amigos recentes. 

Nas aulas de história, o professor Fernando, preferido da maioria, tratava os alunos como se eles fossem apenas bons amigos. Indicava algumas leituras de textos selecionados que eles discutiam em classe, e Marvin ficava sempre impressionado do quanto Jane e seus amigos conheciam sobre figuras as quais ele jamais dera muita importância, como Marx e Che Guevara. Também ele começou a estudá-las com afinco e entrar nas discussões, ganhando muitos elogios do seu professor. 

Em casa, Caio e Rafaela voltaram à sua antiga rotina, pois assistindo ao aparente progresso social e 
acadêmico do filho, achavam-se tranquilos. Logo estavam trabalhando tão arduamente quanto antes. Caio esquecia-se da hora no escritório, enquanto fazia reuniões que adentravam a madrugada, e Rafaela saía do trabalho e trancava-se em casa, no escritório, a fim de terminar alguns projetos. Melissa levava sua vidinha de ir à escola, sair com os amigos e estudar arduamente para as provas, o que fazia dela uma aluna brilhante, mas ela se ressentia de nunca ser parabenizada ou reconhecida por isso. Seu relacionamento com o irmão, que já não era tão profundo, tornava-se cada vez mais superficial, depois que ele parou de sair com ela, Gabi e Luis. 


(continua...)





quarta-feira, 1 de novembro de 2017

AMOR E REVOLTA – CAPÍTULO III






Estar com os amigos trouxe de volta uma certa leveza a Marvin. Eles assistiram a uma comédia, e depois foram a um fast food. Depois, caminhavam pela rua tomando suas casquinhas de baunilha; Gabi ao lado de Marvin. 

Luis e Melissa se afastaram um pouco, pois ficaram olhando um computador em uma vitrine, e os dois se sentaram em um banco de praça para esperar por eles. Gabi mantinha os olhos fixos em Marvin. Sempre fora apaixonada por ele, mas não achava bom misturar namoro com amizade, e já que eram amigos desde sempre, disfarçava muito bem os seus sentimentos. Ela sobrevivera a algumas namoradas de Marvin, e também tivera alguns relacionamentos de uma semana, mas nada mais sério. O tempo todo, quando um garoto a beijava, ela fechava os olhos e pensava em Marvin. Mas disfarçava tão bem, que nem mesmo Melissa percebia. 

A maioria de suas amigas não era mais virgem, mas ela não conseguira ainda encontrar alguém que estivesse à sua altura, como Marvin. Sonhava em perder sua virgindade com ele. 
Olhando para ele tão perto dela, há apenas alguns centímetros de um toque de mão, Gabi se lembrava de que ele quase tinha morrido. Se Rafaela tivesse chegado mais alguns instantes depois, ele não estaria ali. Aquele pensamento a apavorava: um mundo sem Marvin dentro dele. Perguntou:

-Como foi?

Ele olhou para ela confuso:

-Hein?

-No hospital... como foi?

Ela viu o maxilar dele tremer, e arrependeu-se de perguntar. Mas Marvin foi muito doce ao responder:

-Você é a primeira pessoa que me pergunta isso assim, diretamente. Todo mundo só fica me olhando, andando em volta de mim e tomando cuidado como se eu fosse de vidro... obrigado pelo interesse, Gabi. Bem, mas foi... surreal. Um conselho: não tente fazer isso.

-Não vou. Sabe, eu fiquei muito preocupada, e um pouco magoadinha porque você não nos deixou vê-lo. 

Na verdade, ela passara dias e dias chorando por causa dele; primeiro, de medo, e depois, sentindo-se rejeitada. 

-Desculpe... é que eu estava muito confuso também. Me sentindo fraco. Não gosto que olhem para mim quando estou assim. Mas eu vou te confessar uma coisa que só a mamãe e o papai sabem. E a Melissa, é claro. Pedi a eles que não contassem a ninguém. Mas pra você eu vou contar:

Ela arregalou os olhos ao perguntar:

-E o que é?

-Eu não queria morrer de verdade... foi tudo... uma simulação. Só que acabou saindo do controle. Eu só queria chamar a atenção dos meus pais. Usei éter para limpar a lâmina, inclusive, pois não queria pegar uma infecção no corte. Também cheirei um pouco para criar coragem. Mas acho que cheirei demais, perdi a noção e afundei a faca mais do que deveria, e depois... eu apaguei.

Ela abriu a boca, surpresa e ao mesmo tempo zangada e aliviada:

-Não posso acreditar! Seu moleque mimado filho-da-mãe! Eu não sei se te odeio ou se eu...

Ela parou de falar, e deixou a frase não dita suspensa entre eles. Ficou zangada por Marvin ter agido de forma tão imatura e inconsequente. Ao mesmo tempo, tirou um peso dos ombros ao saber que ele não quisera morrer de verdade. Porque ela não queria mais ficar tantos dias chorando escondido por causa dele. 

Para disfarçar o que quase dissera, ela deu um soco no braço dele, que levou a mão ao local e deu um gritinho. Os dois voltaram a se dedicar exclusivamente aos sorvetes, e enquanto Gabi via Luis e Melissa caminhando na direção deles, pensou no quanto o mundo ficara mais bonito de repente. Se um dia Marvin seria seu namorado, ela não sabia. Mas mesmo que nunca fosse, era bem melhor saber que ele estava vivo, e que era seu amigo. Seu melhor amigo.

Gabi sentia vontade de beijá-lo. E antes que Luis e Melissa chegassem mais perto, foi o que ela fez: inclinou-se e beijou o rosto dele. Foi um beijo um pouco demorado. Ela deixou que seus lábios gelados por causa do sorvete pousassem na bochecha dele, bem perto da boca, por mais tempo que o necessário. Na verdade, depois que ela colou os lábios no rosto dele, teve vontade de nunca mais sair. Sentiu o cheiro da colônia que ela sabia que ele sempre pegava emprestada do pai. O cheiro era familiar e confortável. 

Marvin ficou surpreso, e sentiu o coração dar um pequeno salto, mas também teve um sentimento de estranheza, pois para ele, Gabi era como uma irmã. Sentia-se a respeito dela da mesma maneira que se sentia a respeito de Melissa. Ou quase... nunca tinha pensado naquilo antes, até aquela noite. Ele a olhou e viu uma outra menina, diferente da menina a qual ele estava tão acostumado, a sua amiga de infância. A sua Gabi. Mas logo o espaço dos dois foi invadido pelas risadas de Melissa e Luis, e a conversa tomou um outro rumo. 

No primeiro dia de aula na nova escola, uma segunda-feira chuvosa, Rafaela parou o carro em frente à luxuosa entrada. Marvin, que não tinha ido conhecer o local antes, deixou seu queixo cair, surpreso pela beleza do local. Reparou nas hortênsias rosadas plantadas junto ao portão, e no brilho do asfalto negro que conduzia à entrada, que ele percorreria à pé. Leu o letreiro sobre o portão: “Escola da Luz.” Também reparou nos outros alunos que chegavam, a maioria usando fones de ouvido, os capuzes erguidos devido à chuva fina, caminhando lentamente em direção à escola. Ele respirou fundo, e olhou a mãe, sentindo um arrepio incômodo na base da espinha:

-É isso, então... lá vou eu, acho.

Rafaela sorriu:

-Está tudo bem? Quer que eu entre com você?

Ele revirou os olhos:

-Mãe, pelo amor de Deus! Eu não tenho cinco anos. Não me faça pagar esse mico. Vou indo, tchau!
Sem esperar por uma resposta, ele abriu a porta do carro de repente e saiu. Rafaela observou-o durante algum tempo, enquanto ele misturava-se aos outros adolescentes, e sumia na curva do caminho. Foi trabalhar, sentindo-se ansiosa. Parecia que era ela a nova aluna em uma escola estranha bem no final do segundo semestre. 

A caminho da escola, acompanhada do pai, Melissa pensava no irmão. Achou estranho, e não queria admitir para si mesma, que estava sentindo falta dele, e que dali em diante, seria assim: ambos em escolas diferentes. Ela temia que em breve, ele estaria entrosado com seus novos amigos, e se esqueceria dos outros amigos da antiga escola. Luis tinha dito aquilo a ela na noite em que tinham ido juntos ao cinema. Ela ainda se lembra do ar melancólico que ele tinha ao dizer: “Marvin? Agora ele está em outra. Acho que não vai mais querer passar tanto tempo com a gente.” Ela retrucou o que ele disse, afirmando que eram amigos de infância e que uma amizade daquelas não acabaria assim, mas 

Luis apenas encolheu os ombros, mudando de assunto. 

Na escola, Gabi esperava por Melissa, e sentiu um nó apertado na garganta quando não viu Marvin. Torcia para que ele odiasse a nova escola e quisesse voltar para a antiga, mas sabia que aquilo não ia acontecer. Lembrou-se de quando Melissa e Marvin anunciaram que estavam para mudar de escola, há dois anos, e do quanto fora difícil para ela convencer seus pais a mudá-la junto com eles. O mesmo se dera com Luis. Eles queriam ficar juntos. Se conheciam desde sempre, eram amigos, mais que amigos até, quase irmãos, e o que ela sentia (ela bem sabia) não ia diminuir com a distância. Mas e quanto a Marvin? Se esqueceria dela? Se esqueceria deles e dos demais amigos que fizeram na escola naqueles dois anos? Mudar novamente de escola estava fora de cogitação, ainda mais sendo a Escola da Luz tão cara (ela havia pesquisado). Gabi temia perder Marvin. Teria que fazer um esforço enorme para que aquilo jamais acontecesse.

Na nova escola, Marvin dirigiu-se ao único lugar vazio – a primeira carteira na terceira fileira junto à janela, à direita da mesa do professor. Nunca gostara de sentar-se na frente, mas era o único lugar disponível. Sentia-se um tanto nervoso, pois sabia que estava sendo observado e julgado pelos alunos mais antigos, e que a impressão que deixaria com eles naquele primeiro dia, era a que ficaria. Tentou ser sociável, dirigindo-se a alguns deles e fazendo perguntas sobre a escola, e eles foram simpáticos e acessíveis. 

De repente, notou uma menina que estava acabando de entrar na sala. O professor entrou logo depois dela. A menina era loira, de longos cabelos levemente ondulados que caíam até a cintura. Alta e magra, a pele branca feito porcelana, olhos azul escuros e lábios naturalmente vermelhos. Ela lançou-lhe um olhar ao passar por ele, e Marvin sentiu que seu coração parou por alguns segundos quando seus olhos se cruzaram. Ela sorriu de leve e encaminhou-se para a parte de trás da sala, sentando-se ao lado de um rapaz de cabelos pretos e escorridos até os ombros, como os de um índio. Marvin viu quando ele tirou a mochila da cadeira para que ela se sentasse, e percebeu que ele estivera guardando o lugar para ela. Ambos se cumprimentaram com um beijo rápido nos lábios, e ficaram cochichando por algum tempo. A menina lançou-lhe um outro olhar furtivo, e Marvin virou-se para frente, parando de olhá-los quando o professor começou a falar. Estava sem fôlego, pois nunca tinha visto uma menina tão bonita. Lamentou que ela tivesse namorado, porém. 

O professor apresentou-se a Marvin, antes de começar a aula. Encaminhou-se até onde ele estava sentado, estendendo a mão: 

-Olá! Você é o Marvin, não é? Sou o professor de história. Meu nome é Fernando.

Os dois apertaram a mão rapidamente. À essa altura, os outros alunos estavam começando a ficar em silêncio, e passaram a observá-los, o que fez Marvin corar. Mas ele ergueu a cabeça e olhou em volta, sorrindo. Fernando apresentou-o à turma:

-Pessoal, este é o Marvin. Ele veio juntar-se  a nós. 

Marvin ouviu alguém perguntar, mas não viu quem:

-Mas por que ele está começando agora, no final do ano?

Fernando olhou para Marvin, e a turma toda estava em silêncio profundo naquele momento:
-Gostaria de responde seu colega, Marvin?

Marvin hesitou um pouco, mas sentiu que era muito importante se enturmar o mais rapidamente possível, e que recusar-se a responder, além de ser uma atitude antipática, causaria ainda mais curiosidade nos outros alunos. Olhou para trás, e viu a menina de olhos fixos nele. Ela assentiu com a cabeça de leve, como se estivesse dando força para que ele falasse. Marvin pigarreou:

-Eu não estava adaptado na minha outra escola. Pressão demais. 

Uma outra voz veio do fundo da sala, desta vez, uma menina ruiva:

-E por que não esperou até o final do ano letivo?

Marvin olhou para o professor como se pedisse socorro, mas este apenas permaneceu fitando-o com a expressão mais serena do mundo. Marvin não teve outra saída, senão responder. Pensou que deveria ter ensaiado alguma resposta para aquele momento, mas na verdade, ele nem sequer pensara que aquele tipo de pergunta poderia surgir. Abriu a boca, e o que disse em seguida, simplesmente saiu sem querer:

-Eu tentei me matar.

Imediatamente, murmúrios percorreram a sala de aula. Fernando colocou a mão no ombro de Marvin, dizendo:

-Muito corajoso por nos dizer a verdade, Marvin. (E virando-se para o restante dos alunos:) - Mais alguma pergunta, turma?

Silêncio. Marvin suspirou aliviado, sentindo o rosto arder: que coisa mais idiota para se dizer! Ele queria que o chão abrisse e o engolisse. Pelo menos, não teria que responder mais nenhuma pergunta. Até que uma voz doce e musical veio do fundo da sala. Ele olhou para trás: era a menina.

-Por que? 

Ela fincou os olhos nele, e Marvin sentiu-se invadido. A pressão estava sendo maior do que ele esperava. Os demais alunos também o olhavam fixamente, e o professor não o salvaria. Ele gaguejou:

-Eu... é que... bem... na verdade, eu não sei. Acho que estava cansado, me sentindo muito pressionado pelas exigências da escola. E dos meus pais, talvez. Eu... 

Sem saber mais o que dizer, ele se calou, olhando para as próprias mãos que estavam cruzadas sobre a carteira. Olhou para trás, bem direto nos olhos dela, e disse, com a voz mais firme que conseguiu:

-Vocês se importariam de nunca mais tocar neste assunto?

A menina concordou com a cabeça. Os outros alunos começaram a abrir seus livros, e Fernando finalmente começou a aula. Marvin ficou achando que tinha arrasado com todas as suas possibilidades de fazer amigos ali. Quem ia querer ser amigo de um cara tão estranho e covarde? De onde diabos surgiu aquela ideia de dizer aquilo assim, em plena sala de aula, na frente de todo mundo?

(continua...)




segunda-feira, 30 de outubro de 2017

AMOR E REVOLTA – CAPÍTULO II






A volta para casa foi comemorada entre família, com uma festinha na qual os avós por parte de pai – Teófilo e Helena – e por parte de mãe – Gertrude – também estavam presentes. Rafaela e Cadu recomendaram aos pais não dramatizarem a situação e nem tocarem no assunto; estavam ali para comemorar uma ocasião feliz: a volta de Marvin. Esperavam que o que tinha acontecido fosse esquecido. Mesmo assim, Helena mal conseguia disfarçar sua ansiedade exagerada em agradar, e em um certo momento, Gertrude chamou-a para conversar:

-Helena, tente se controlar! Parece que o menino é de vidro! Você fica seguindo-o até quando ele vai ao banheiro! Relaxe!

-Relaxar? Como? Você não sabe que nosso neto quase morreu? Precisamos ficar atentos!

-Sim, mas faça isso sem pressioná-lo, por favor!

Helena calou-se, e Gertrude voltou para a sala de estar, deixando Helena a sós com seus pensamentos na varanda da casa. Ela pensou que talvez Gertrude tivesse razão sobre seus modos exagerados e superprotetores; mas ela sempre tinha a mania de mandar em todo mundo! Nas ocasiões festivas, era Gertrude quem fazia questão de decidir o que seria servido e o que cada pessoa da família deveria levar; ela até mesmo sugeria as cores das roupas que achava que as pessoas deveriam vestir nos casamentos de amigos!

No fundo, Helena gostava de Gertrude, mas sua mania de querer estar sempre em evidência às vezes a irritava. Coisa que Rafaela também herdara da mãe, e que às vezes fazia com que sogra e nora tivessem alguns desentendimentos. Helena só queria participar mais da vida da família, mas Rafaela e Gertrude pareciam fazer questão de mostrar que havia um limite até o qual ela e Teófilo deveriam ir. Teófilo achava que tudo aquilo era uma bobagem, e concordava com tudo, desde que todos estivessem felizes. Mas ela questionava: “Todos felizes, exceto eu!” E daí em diante, alguma rusga começava. 

Melissa ficara um pouco triste por não poder convidar Luis e Gabi para a festinha, e sabia que os amigos também estavam ficando magoados com a atitude de Marvin. Mas eles se conformaram, quando Melissa garantiu-lhes que tentaria conversar com o irmão, assegurando-lhes que era apenas uma fase passageira, e que Marvin estava apenas se sentindo envergonhado pelo que tentara fazer. 
Após a festinha, Cadu bateu à porta do quarto do filho, que jogava vídeo game. Marvin murmurou em “entre” um tanto cansado, e Cadu colocou a cabeça para dentro do quarto:
-Posso entrar um pouquinho?

Marvin assentiu com a cabeça, largando a maquete e desligando o vídeo game. O pai sentou-se na beirada da cama:

-Como você está?

Marvin fez um muxoxo:

-Tudo bem. Só um pouco cansado. Esses remédios me deixam meio sonolento... não vejo a hora de 
parar. 

Cadu olhava para o filho, e percebia o quanto ele crescera. A voz estava mudando, e os braços e pernas estavam começando a se cobrirem de pelos alourados. Ele se parecia muito com ele: o mesmo cabelo cacheado, os olhos castanho claros, a cova suave no queixo. Marvin era um lindo menino, pensou. E Cadu se perguntava aonde estivera nos últimos anos, que não percebera aquela mudança. Melissa era uma menina bem mais simples e comunicativa, e estava sempre disposta a conversar, enquanto Marvin era mais fechado e raramente dava sua opinião sobre qualquer coisa espontaneamente. Puxara o avô! 
Cadu passou a mão sobre os cabelos do filho, o que fez com que Marvin o olhasse com uma expressão um pouco confusa, já que aquele tipo de gesto não era frequente. Marvin sentia que havia algo que o pai adoraria dizer a ele, mas não tinha certeza se gostaria de ouvir, então desviou os olhos para a TV. Depois, pensou melhor e respirou fundo, dizendo:

-Desembucha logo, pai. O que é que está pegando?

Cadu foi pego de surpresa. Ficou um tempo com os lábios entreabertos, a palavra presa na ponta da língua. Depois, disse:

-Você cresceu. Está tão... diferente. Bonito, sabe. Eu queria dizer a você que pode contar com a gente sempre, filho. Não sou muito bom nessas coisas...

-Que coisas? – perguntou Marvin com um tom irônico.

-Você sabe...

-Relacionamentos?

Cadu engoliu a afronta, e desviou o assunto:

-Deixa pra lá. Amanhã a gente conversa melhor.
Dizendo aquilo, escapuliu pela porta rapidamente, fechando-a atrás de si. Marvin deitou-se na cama, olhando o teto. Por que a comunicação com Cadu era sempre tão difícil? E por que ele não facilitava as coisas para o pai? Arrependeu-se do que dissera, e jurou que no dia seguinte consertaria as  coisas. 
E o dia seguinte foi um domingo ensolarado. A família toda – inclusive os avós – resolveram ficar lagarteando na piscina, fazendo churrasco. Marvin era o mesmo de sempre: mais isolado dos outros, preferia ficar no seu cantinho. Era assim sempre, mas depois de tudo o que acontecera, os olhares dirigiam-se a ele disfarçadamente a todo momento. Principalmente a avó, Helena, ficava tentando puxar conversa com ele o tempo todo. Cansado daquilo, ele se levantou da espreguiçadeira:

-Está muito calor aqui. Vou ficar no quarto, ligar o ar e assistir a um filme. 

Helena logo se adiantou, dizendo:

-Quer que eu leve a sobremesa para você lá, querido?

Mas Marvin não respondeu. Impotente, Helena procurou apoio em Rafaela, dirigindo-lhe um olhar significativo, mas ela desviou os olhos, irritada. Teófilo, que presenciara a cena, preferiu afundar a cara no jornal e não se envolver, e Cadu, que já conhecia as manhas da mãe, foi dar um mergulho. Melissa bufou disfarçadamente. Amava a avó, mas às vezes sentia-se sufocada com tanta atenção. Mas Gertrude não perdeu a oportunidade de criticar Helena:

-Helena! Por que fica rodeando o garoto feito um satélite? Deixe ele em paz!
Irritada, Helena vociferou:

-Deixar o garoto em paz é tudo o que todos vocês sabem fazer, e vejam no que deu! 
Aquela frase foi como um soco no estômago para Rafela, e Cadu, sentindo a tensão do momento, ainda tentou mudar de assunto, perguntando em voz alta ao pai sobre o jogo daquela tarde. Mas era tarde demais. Rafaela já caminhava na direção de Helena feito uma locomotiva desgovernada:

-Agora vai questionar  a maneira como eu crio meus filhos dentro da minha casa?

Cadu interviu:

-Amor... deixe...

-Deixe uma ova! Já aguentei tempo demais, Cadu. E você nunca faz nada a respeito! 

Impotente, Teófilo sequer levantou-se da espreguiçadeira. Apenas desejou que aquele dia terminasse imediatamente. Helena, simulando estar muito ofendida, defendeu-se:

-Eu só quis ajudar! Mas parece que você e Gertrude dão as cartas sempre por aqui. Nunca aceitam minha ajuda, nunca acatam uma opinião!

-E já que sabe disso, por que insiste tanto em se meter, Helena?

-Me meter? Esta família também é minha! Não se esqueça que se eu e Teófilo não tivéssemos emprestado o dinheiro para pagar a casa, vocês nem estariam morando aqui!


-Ah, lá vem você de novo! Pagamos centavo por centavo, e não devemos nada! Sou grata pelo que fizeram, mas isso não dá a você o direito de se meter em minha vida.

A discussão estava ficando cada vez mais acalorada. Gertrude resolveu interferir, pegando a filha 
pelo braço e levando-a até a cozinha. 

Do quarto, Marvin podia ouvir tudo. Aumentou o volume da TV, cobrindo a cabeça com um travesseiro. 

Não achava que ia conseguir ficar em casa o resto do ano: queria voltar a estudar. E foi o que disse aos pais naquela mesma noite. Rafaela contou-lhe sobre a escola sugerida pelo psiquiatra:

-Dr. Figueiredo sugeriu esta escola, a “Escola da Luz.” Disse que eles têm uma abordagem menos estressante, algo mais... leve, holístico. 

Marvin concordou imediatamente. Não sabia muito bem o que “holístico” significava, mas qualquer coisa devia ser melhor do que sua escola.  E qualquer coisa seria melhor do que ficar em casa, enfrentando os olhares preocupados e a naturalidade forçada. 

E no início da semana, Rafaela e Cadu foram conhecer a Escola da Luz. Entraram de carro por um portão antigo de ferro, dirigindo por uma alameda asfaltada até a porta de uma mansão pintada de branco. Admirarm-se do quanto a escola era bonita e luxuosa. Pensaram que a mensalidade deveria custar uma fortuna, o que foi comprovado logo depois – quase o dobro que pagavam na antiga escola. 
Era a hora da saída, e eles repararam que os alunos não usavam uniformes, e todos pareciam pertencer às classes média-alta e alta. Telefones, tablets e computadores de marca circulavam livremente entre eles. Rafaela pensou que eles mesmos não pertenciam à classe média baixa, mas que as pessoas ali estavam acima.

Foram recebidos pela diretora, Maria Luiza, uma mulher de cabelos negros e curtos que aparentava algo entre 45 e 50 anos, vestindo pantalonas, tamancos de plataforma, jeans e blusa de seda multicolorida. Rafaela pensou que ela parecia uma figura saída de alguma fotografia dos anos 70, mas mesmo assim, achou-a bonita, e decidiu não julgá-la pela aparência das roupas. 

Maria Luiza mostrou-lhes a escola, dando explicações e respondendo perguntas. Cadu e Rafaela explicaram a ela as condições de Marvin, contando-lhe sua história recente, e Maria Luiza ouviu atentamente, concordando com a cabeça, e depois assegurou-lhes que aquela escola era realmente o que Marvin precisava. Cadu adorou tudo o que viu, e ambos se despediram dizendo que entrariam novamente em contato no dia seguinte, comunicando Maria Luiza de sua decisão. 

No carro, a caminho de casa (ambos tinham tirado o dia de folga), discutiram a situação:

-Rafaela, o que você achou?

-Bem... o lugar é bonito. As salas de aula são equipadas com computadores individuais... há um ótimo refeitório, e eu gostei muito da horta também. Mas é um tanto cara!

-Também achei, mas dá para pagar. Papai ofereceu-se para ajudar em alguma coisa.

Rafaela franziu as sobrancelhas:

-Se não se importa, gostaria que você recusasse a ajuda. Não quero ouvir Helena se gabando do quanto somos incapazes de cuidar de nossos filhos sozinhos. Seu pai é um amor, mas prefiro não aceitar a ajuda deles. 

Cadu sacudiu a cabeça, impaciente:

-Então vou ter que continuar com as horas extra no escritório. Como você acha que vou conseguir arcar com todas as despesas? 

-Vamos conseguir. É claro que eu vou ajudar também. Ficamos assim: eu pago a escola de Melissa sozinha, e você assume a escola de Marvin. 

Ele concordou.

À tarde, depois que Melissa voltou da escola, os pais comunicaram aos irmãos a decisão já tomada. Marvin sentiu-se aliviado por não ter que voltar à antiga escola, e Melissa tentou mostrar-se contente, mas alguma coisa no fundo da sua mente a incomodava. Tanta atenção ao irmão, a matrícula em uma escola melhor e mais cara, enquanto ela, que era praticamente uma filha modelo, mal recebia atenção! Ela tentou varrer aqueles pensamentos para longe, mas eles continuavam insistindo em incomodá-la. 

Deitou-se ao sol, na piscina, para aproveitar o final de tarde após o almoço. Fechou os olhos, deixando-se cair em um estado de sonolência. Foi despertada pelo barulho de alguém mergulhando: era Marvin. Ele deu algumas braçadas, e depois foi sentar-se na espreguiçadeira ao lado dela. Melissa voltou a fechar os olhos. Ela e o irmão nunca tinham sido inimigos, mas também não eram o que se podia chamar de grandes amigos; é claro que ela o amava, mas os dois não tinham quase nada em comum, e nem muito a conversar. Ela só ficava mais tempo com ela quando Gabi e Luis estavam junto, mas mesmo assim, com a presença dos dois e de outros amigos, eles não conversavam muito entre si. Ela sentiu que Marvin queria dizer alguma coisa, mas não o encorajou: permaneceu calda, de olhos fechados, e já tinha recomeçado a dormir quando a voz dele a despertou com um sobressalto:

-É... agora vamos estudar em escolas diferentes pela primeira vez. 

Ela não respondeu, nem abriu os olhos. Após alguns instantes, ele continuou:

-Vou sentir falta de ir para a escola com você.

Ela pensou nas manhãs em que o pai os levava de carro até a escola, antes de ir trabalhar, e nos longos silêncios que se estabeleciam entre eles durante a maior parte do trajeto. Ela abriu um olho, e perguntou:

-Falta de quê? Das nossas conversas interessantes e profundas? Dos nossos diálogos eloquentes?

Ele riu:

-Não... falta de estar com vocês, só isso.

-Não fiquei tão deprimido, irmãozinho. Com certeza, papai vai continuar nos levando a ambos.

-Creio que não. As escolas ficam em direções opostas. Ele chegaria atrasado, ou então teríamos que acordar muito cedo para evitar o tráfego. Talvez mamãe me leve. 

Ela sentou-se na espreguiçadeira, olhando para ele com ar zombeteiro e brincalhão:

-Posso pedir a vó Helena para vir buscar você todos os dias.

Ele fez uma cara engraçada, e ambos caíram na gargalhada. 

-Pelo amor de Deus, não!

Após rirem um pouco mais, fazendo caretas, ele perguntou:

-E quanto a Luis e Gabi? 

-Perguntam sempre por você. Mas você não quer vê-los...

-Vamos fazer o seguinte: que tal pegarmos um cinema hoje à noite? 

-Cinema na segunda-feira?

-É! O que é que tem de mal?

Ela sentiu o entusiasmo tomando conta dela:

-Vou ligar para eles agora mesmo!

(continua...)





quarta-feira, 25 de outubro de 2017

AMOR E REVOLTA – CAPÍTULO I








Era o mês de setembro. Rafaela parou o carro em frente à clínica de reabilitação mental onde o filho Marvin de 16 anos estava internado há quase duas semanas, em tratamento psicológico. Respirou fundo, e como se suas pernas pesassem toneladas, hesitou antes de sair do carro. Era dia de visita, e Paco, seu marido, que estava fora em uma viagem de negócios, não poderia ir. Melissa, sua filha de quinze anos, também não poderia visitar Marvin, pois estava em época de provas e não podia faltar à escola naquele dia. Aquela seria a primeira vez que Rafaela entraria por aquela porta sozinha, e sentia-se fraca. Não sabia como Marvin reagiria ao ver que o pai e a irmã não tinham vindo.

As memórias daquele dia terrível voltaram à sua mente. Rafaela foi quem o encontrou ao chegar do trabalho e passar pela sala de estar que se encontrava revirada, e ela pensou tratar-se de um assalto ao ver a TV espatifada no chão, os livros das prateleiras, objetos de decoração e demais móveis espalhados pelo chão, quebrados ou revirados. Ela se lembrou de que Melissa estaria na casa da amiga Gabi àquela hora, estudando para uma prova, e que Cadu tinha telefonado dizendo que ficaria no escritório até mais tarde. Com lentidão, seu cérebro registrou a informação de que apenas Marvin estaria em casa àquela hora, sozinho, e ela correu até o quarto dele angustiada, encontrando-o vazio. Chamou-o pelo nome, e como não houvesse resposta, ela começou a andar pela casa procurando por ele, passando sobre pilhas de livros escolares e papéis da escola que estavam em todos os lugares. 
Finalmente, atraída por um forte cheiro de éter, encontrou-o no banheiro do corredor, desacordado entre um mar de sangue que a fez escorregar e quebrar o braço. Mesmo assim, sentindo dor, ela conseguiu erguer-se e chamar a ambulância. Quando eles chegaram e os paramédicos a viram cheia de sangue, logo correram para ela, mas ela gritou: “Eu estou bem. É meu filho! É meu filho!” E apontou em direção ao banheiro. Enquanto os paramédicos iam na direção apontada, ela encostou na parede e deixou-se escorregar até o chão. Foi quando todo o estresse veio à tona, e ela começou a chorar e tremer.

Marvin ficou no hospital por quase uma semana. Perdera muito sangue. Ela não sabia há quanto tempo ele estivera naquela situação até ser encontrado. Rafaela e Cadu não puderam conter a emoção que sentiram quando o filho abriu os olhos pela primeira vez depois de dias. É claro, a pergunta que fizeram, em primeiro lugar, foi “por que?” Marvin chorou muito, explicando que não tinha a intenção real de se matar. Rafaela perguntou sobre o cheiro forte de éter que ela sentira ao encontra-lo, e ele confessou que tinha usado o éter a fim de desinfetar a lâmina com a qual cortara os pulsos, e também para cheirar e desmaiar a fim de suportar a dor e o sangramento sem entrar em pânico total. 
Rafaela e Cadu ficaram muito magoados com a atitude do filho, e várias vezes chegaram a discutir o porquê de todos eles terem chegado aonde chegaram. Cadu prometera que dali em diante procuraria chegar mais cedo em casa e participar mais da vida em família, e Rafaela também prometera a mesma coisa. Tentaria mudar seus horários no trabalho para estar em casa com as crianças quando eles chegassem da escola, e por causa disso, acordava duas horas mais cedo. Mas Cadu ainda não cumprira sua promessa, e continuava dedicando-se muito ao trabalho. Dizia que era apenas até terminar um trabalho que já tinha começado, um caso difícil que ficaria muito inconveniente transferir para outro advogado da firma onde trabalhava. 

Durante o período de análise psiquiátrica, Marvin dissera que desejava apenas chamar a atenção dos pais para seus problemas, porque eles não o escutavam. Jamais pensara que acabaria quase conseguindo morrer de verdade.

Ainda no carro, após  reviver aquelas memórias horríveis, Rafaela fechou os vidros e saiu, acionando o alarme. Foi caminhando devagar. Após conversar com o psiquiatra, Dr. Figueiredo, achou Marvin sentado em um banco do jardim da clínica, as mãos cruzadas e os cotovelos apoiados nos joelhos, olhando para o gramado. Ela estancou o passo e ficou ali, observando-o, antes de deixar que ele a visse. Percebeu que Marvin estava mais corado, e tinha ganho um pouco de peso. De repente, ele ergueu a cabeça e olhou na direção dela, sorrindo, e aquele sorriso iluminou seu dia. Eram raras as ocasiões em que ela o via sorrir. Andou até ele, que se ergueu e aninhou-se entre os braços dela. Rafaela o abraçou com cuidado, como quem tem medo de quebrar as asas de um pássaro frágil. 
Antes de vê-lo, ela tinha falado com o Dr. Figueiredo, psiquiatra da clínica, que cuidava do caso do seu filho. Ele lhe dissera que Marvin estava bem melhor, mas que teria que continuar o tratamento terapêutico e com medicamentos para controle da ansiedade por algum tempo ainda. As pressões da escola e das muitas atividades extra-classe na qual estava engajado não poderiam continuar. Ele precisava de um tempo. Talvez fosse melhor que ele não voltasse à escola naquele ano, e no ano seguinte, eles deveriam considerar mudá-lo de escola, já que aquela onde o matricularam há dois anos, seguia um regime muito rígido e competitivo para o qual Marvin não estava preparado para voltar ainda. Talvez jamais estivesse. O médico explicou mais uma vez que ele tinha personalidade sensível e impressionável, e seu excesso de empatia fazia com que ele absorvesse para si as reações das pessoas em volta. As constantes cobranças dos professores para que ele melhorasse seu desempenho faziam com que se sentisse inferior aos demais colegas. Marvin poderia ser um aluno mediano por toda a sua vida se continuasse naquela escola tão rígida, e isto poderia afetar negativamente sua autoestima e sua noção de valores. Uma escola mais liberal e menos exigente poderia ajudá-lo a se adaptar melhor e a melhorar seu desempenho como aluno. Dr. Figueiredo deu a ela um cartão de visita indicando uma escola com aquelas qualificações. Rafaela olhou o cartão: “Escola da Luz.” Achou o nome muito estranho; afinal, todas as escolas que conhecia tinham nomes mais imponentes, ou então homenageavam alguém. Dr. Figueiredo logo notou seu olhar descrente, e assegurou-lhe:

-Esta escola é muito boa. Meus filhos estudaram lá. A única diferença entre as outras escolas, é que os alunos são convidados a pensar e concluir sem pressões ou afirmações pessoais por parte dos professores, que apenas mostram o caminho. Também não existem as pressões das provas e testes, pois o desempenho dos alunos é testado desde o primeiro dia de aula através do seu desempenho geral. 

-Mas é uma boa escola? O nível de ensino não é fraco?

-Não se preocupe; meu filho formou-se em engenharia e minha filha em psicologia. Se o ensino fosse fraco, nem teriam passado no vestibular...

Dr. Figueiredo achou melhor não mencionar o fato de que seus dois filhos precisaram fazer cursos pré-vestibular durante três anos, após duas tentativas fracassadas de ingressarem em uma universidade. Mas na certeza de que aquela seria a melhor alternativa para alguém como Marvin, recomendou a escola, estressando o fato de que Rafaela poderia procurar outras escolas, se achasse melhor. E de fato, era uma boa escola. Seus filhos, porém, mimados que eram, não sabiam valorizar a sorte que tinham. 

Dr. Figueiredo também disse que o fato de ter sido uma tentativa de suicídio forjada – ninguém que tenciona realmente morrer tem a preocupação de desinfetar as lâminas que vão cortar seus pulsos antes – era melhor estarem seguros de que, ao deixar a clínica, Marvin estivesse se sentindo mais tranquilo. Achou melhor que Marvin fizesse novos testes na clínica, e que fosse liberado apenas após os resultados serem analisados, na semana seguinte.

Ao abraçar a mãe, Marvin logo perguntou:

-E papai e Melissa?
-Não puderam vir hoje, mas mandaram mil beijos para você. Melissa está estudando muito para as provas... teve um teste hoje... e seu pai está em viagem.

Ela viu o rosto dele ficar sério por alguns instantes, e uma sombra rápida passar sobre ele. Ela emendou:

-Mas tenho novidades: no final de semana, ela virá com a Gabi e o Luis. E eu e seu pai também. Trarei alguns livros para você. Sobre o que você quiser, é claro.

-Mãe... agradeço, mas a última coisa que eu quero ver nesse momento, são livros. Nem os não-didáticos. 

Ela ficou sem graça:

-Claro... que falta de sensibilidade... desculpe. 

-Também não quero que a Gabi e o Luis me vejam aqui. 

Ela ficou triste:

-Por que? São seus amigos! Se preocupam com você!

-Eu sei... mas... prefiro não vê-los por enquanto, mãe. É que eles me lembram a escola. Eles me lembram o que aconteceu naquele dia... quando eu estiver em casa eu juro que falo com eles.

Ela tentou demonstrar mais entusiasmo:

-Doutor Figueiredo me disse que talvez você possa ir para casa na próxima semana!

Marvin balançou a cabeça, deixando com que os cantos da boca se erguessem em um tímido sorriso. 

-Hey! Achei que fosse ficar mais feliz!

-Eu estou... mas vou ser obrigado a voltar para aquela escola, mãe?

Ela o abraçou de maneira protetora, beijando-lhe os cabelos e dizendo:

-Nunca mais.


(continua...)




sábado, 23 de setembro de 2017

ELA ERA LINDA! - MICROCONTO






ELA ERA LINDA!

Passamos por ela, que estava parada à porta de uma loja de grife em Milão, próximo à Duomo. Por um segundo, ou uma fração de segundo, nossos olhares se cruzaram, e eu consegui ver um pouco de timidez nos olhos dela e sentir que ela talvez não estivesse muito confortável ali. Notei também, é claro, que ela era linda: uma verdadeira diva de Milão, quem sabe, uma modelo? Ela dizia algo que eu não conseguia compreender, pois não falo italiano, e distribuía alguns panfletos, talvez convidando pessoas a entrarem na loja. Sorri, e passei adiante, dizendo a única palavra que poderia ter dito: “Grazie!” 

Durante aquele curto espaço de tempo, percebi que estava muito bem penteada, vestida e maquiada, que era alta, que parecia tímida, e é claro, que tinha uma beleza impossível de passar despercebida, pois era óbvia, natural e impactante. Nem precisaria daquela maquiagem ou daquele penteado.

Um pouco adiante, comentei com meu marido o quanto ela era bela, e ele concordou; os outros homens do grupo, de brincadeira, diziam nem tê-la notado, e as mulheres riram, pois sabiam que não tê-la notado seria impossível. Ao mesmo tempo, depois que eu a mencionei, as mulheres também começaram a dizer o quanto também a acharam linda, como se estivessem guardando aquela impressão para elas mesmas, e meu comentário tivesse aberto as comportas e ajudado todas nós a vencermos aquela pontinha de insegurança quando estamos com nossos homens diante de alguém como ela: Ok, ela era linda. Muito mais do que qualquer uma de nós jamais tinha sido ou viria a ser, e também muito mais jovem. Ponto. Fato constatado, admitido e superado.

Dias depois, uma das mulheres do grupo disse tê-la visto em um cartaz de roupas de grife. “Era ela sim,”  afirmava. “Eu jamais esqueceria aquelas pernas... acho que se eu começar a malhar, as minhas ficarão como as dela.” Não respondi, mas concordei, lamentando não poder dizer a mesma coisa sobre minhas pernas, que me carregam há 52 anos. 

Toda mulher sente uma pontinha de inveja quando se depara com outra que a supera. Não sou diferente, mas do fundo do meu coração, admiti a derrota rapidamente e segui adiante sem tentar negar o óbvio, pois quando a gente aceita o que não pode ser mudado, dói bem menos. Não olhei para trás a fim de procurar na moça um dedão do pé torto, uma cicatriz  ou marca de nascença que pudesse me fazer sentir melhor. Não sou desse tipo. Quando encaro a perfeição, eu admito, respiro fundo e sigo em frente. 




quinta-feira, 17 de agosto de 2017

JARDIM DAS DESILUSÕES – CAPÍTULO VI – FINAL






O funeral aconteceu em um dia especialmente frio no qual uma chuva fina e cortante era derramada em rajadas pelo vento. Os pais de Maria acharam melhor sepultá-la em Paris. Seria doloroso demais levar o corpo de volta ao Brasil. 

Abracei Nando, e ele correspondeu-me, me apertando com força. Abracei as amigas-girafa, que choravam copiosamente, e também abracei os pais de Maria. Todos me abraçaram de volta calorosamente, como seu eu fosse alguma espécie de porto seguro. Senti-me hipócrita: ah, se eles soubessem! Ninguém desconfiava do que estava acontecendo entre mim e o namorado de Maria enquanto ela morria. 

Na volta, fui caminhando com Giulia, os braços em volta dela, querendo proteger minha amiga da dor que sentia. Finalmente, a minha ficha caiu, e todo o drama da situação veio à tona, me fazendo recuperar a minha capacidade de sentir, a minha empatia. Chorei também. Por Maria, por todos nós, que andamos por aí tentando aprender a viver. 

No dia seguinte ao funeral, a primeira coisa que eu vi ao abrir a porta do quarto, foram as malas de Nando. Ele foi embora naquele dia. Não disse a ninguém para onde ia, apenas que ia viajar pelo mundo, e nem sabia como ou por onde começar, mas que não aguentava mais ficar em Paris. Nós nos abraçamos à porta, quando nos despedimos. Ele chorou muito no meu ombro, e me deu um beijo demorado na boca. 

Perguntei se ele voltava. Ele encolheu os ombros, enxugando as lágrimas. Disse que talvez voltasse quando - e se - estivesse curado. Eu disse a ele que estaria ali, esperando.

E eu esperei por ele durante meses, que se transformaram em anos. Errou feio quem disse aquela célebre frase, “Longe dos olhos, longe do coração.” Tentei contato pelo seu telefone, mas com certeza, estava desligado, ou ele trocara o chip. No Brasil, a família dele dizia que ele estava viajando pela África. Não quiseram dar seu telefone, a pedido dele. 

Giulia se formou, voltou ao Brasil. Fiquei no mesmo apartamento, que aluguei. Consegui um emprego em uma cafeteria, que permitia – com a ajuda financeira de meus pais – que eu pagasse as contas. Foram dois anos e meio naquela espera. Foram verões, outonos, invernos e primaveras, em que eu me sentei naquele jardim mágico – o Jardin de l'Hôpital Vaugirard - e esperei por ele. 
Meus pais diziam que alguém tão graduado não poderia passar a vida trabalhando em uma lanchonete, e eu sabia que eles tinham razão. Estava chegando a hora de ir embora. As amigas de Maria acabaram virando minhas amigas, e descobri que elas eram apenas garotas, como eu, com suas inseguranças e medos. Aprendi que eu era uma pessoa que tinha valor, e que tinha muito a aprender e a ensinar.

 Comecei a visitar asilos nas minhas horas vagas. Levava livros, e lia para os idosos, e conversava com eles. Já falava francês fluentemente – precisei me empenhar, agora que estava sozinha e precisava resolver tudo . E conversar com os idosos me ajudou muito a melhorar meu desempenho na língua. Também abriu uma parte sensível dentro de mim que eu não conhecia bem; eu tinha a impressão que eles me ensinaram sentir de novo, a fazer parte. 

Mas a hora de voltar ao Brasil estava chegando, e eu me dizia, toda vez que tal pensamento me acometia, ou que eu recebia um telefonema falando sobre isso: “Só mais uma semana...”

Certa tarde, eu estava no hospital, pronta para começar minha tarde de leituras, quando a enfermeira me chamou, dizendo que havia um novo paciente que precisava muito de companhia, pois estava bastante entristecido. Segui-a até o quarto, pronta para me apresentar e começar a ler para ele. A enfermeira me explicou que seu nome era Augustin. Ela abriu a porta, e eu entrei, me aproximando do leito:

- Bon après-midi, monsieur Augustin...

Minhas sobrancelhas se ergueram de surpresa quando o vi: era o velhinho do parque! Ele sorriu, me cumprimentando em português:

-Ora, se não é a minha velha jovem amiga! Como vai?

-Olá! Estou feliz em vê-lo... quero dizer... preferiria que o senhor não estivesse de cama...

Ele riu, divertido com o meu constrangimento:

-Não precisa se desculpar. Parece que você sempre se desculpa quando nos encontramos.

-Só nos encontramos uma vez antes desta, suponho...

-É verdade... mas eu a vi muitas vezes antes. 

Sorri de volta para ele, começando a mostrar-lhe os livros que trouxera para que ele escolhesse um, mas ele disse:

-Esqueça os livros. Vamos conversar. Estou no final da minha vida e não me interessa ler mais nada. 

Concordei com ele, colocando os livros na mesinha.

-Sobre o que quer conversar?

-Sobre você. Já se casou com aquele jovem?

Fiquei triste de repente, e por mais que eu desfarçasse, ele percebeu. 

-Vejo que não...

Balancei a cabeça, negando e respirando fundo. E de repente, eu estava contando a ele toda a minha história com Nando. Falei sobre como me senti ao saber sobre o acidente de Maria, e ele me ouviu sem me julgar. Quando terminei meu relato, ele disse:

-Eu também quis que o desgraçado que me roubou a esposa morresse... mas ele está bem vivo, e eu estou morrendo. 

Assenti com a cabeça, ajeitando os travesseiros dele, querendo fazer alguma coisa que o deixasse melhor. 

-O que o senhor tem?

-Tenho o que quase todo mundo que está morrendo têm hoje em dia: câncer em estado terminal. Se bem que eu estaria em estado terminal mesmo sem ele... afinal, tenho 92 anos!

Ele riu, e eu ri junto. Era importante ter bom humor em uma hora como aquela. Ele me perguntou:

-Mas você acha que ele vai voltar?

Balancei a cabeça, negando, e baixei os olhos para as minhas próprias mãos, que eu torcia em meu colo. Senti que lágrimas começaram a se formar devagarinho, e engoli a fim de sufocá-las. 

-Meus pais me dizem que já está na hora de voltar ao Brasil, e eu concordo com eles. Preciso deixar tudo isso para trás, esquecer Nando e essa história. Mas como?

Ele não respondeu minha pergunta; mas disse:

- Algumas histórias não terminam bem. A vida é assim. Mas eu vi nos olhos daquele rapaz que ele a amava. Penso que ele se sente culpado pelo que aconteceu à namorada quando olha para você. É difícil para ele admitir que estava se apaixonando por outra mulher. E ele perdeu duas pessoas: a mulher e o filho que ela estava esperando. 

Concordei com a cabeça. Estava ficando tarde e eu precisava ir. Olhei para Augustin, afagando a mão dele sobre o lençol: 

-Infelizmente, preciso ir. Mas eu volto amanhã. Prometo!

Ele segurou a minha mão antes que eu pudesse retirá-la, e me disse:

-Não volte mais aqui. Este lugar não é para você. Aqui só há morte. Você é jovem demais, e precisa recomeçar a viver e a ser feliz. Procure pela vida! E ela não está aqui, pode ter certeza. Aqui somos todos velhos e estamos morrendo. E há por aqui muitos velhos egoístas que não souberam viver suas vidas e que vampirizam os jovens através de seus lamentos e exigências.

Ele esperou um pouco antes de continuar:

-Muitas pessoas vêm aqui mais por elas mesmas do que por nós, a fim de se esconderem de seus próprios fantasmas. Como você. Acha que assim vai redimir-se de seus pecados. Mas escute: você não tem pecado algum! Seu único pecado será, no futuro, arrepender-se por ter desperdiçado uma parte importante da sua juventude em uma história que acabou. E com pessoas que você vai perder. Porque você é do tipo que se apega, e vai sofrer quando as pessoas que você vem visitar partirem. Não faça de sua vida um martírio! Você merece coisa melhor.

Eu não sabia o que dizer enquanto as coisas que ele estava falando para mim me caíam como luvas. Afaguei a mão dele, e nós nos despedimos. Quando eu estava à porta, ele me chamou:

-Prometa que vai ter uma boa vida.

-Eu prometo.

Nunca mais voltei ao hospital. 

Arrumar as malas e deixar Paris não foi nada fácil. Eu o fiz em uma manhã de outono, escura e fria. Sobre o mundo, estendia-se um céu quase negro. Propício ao que eu sentia por dentro. No táxi, eu olhava as ruas que se tornaram tão minhas conhecidas pela última vez. Pensava que não conseguiria voltar a Paris nunca mais, nem mesmo em viagem de férias, pois deixava lá muitas lembranças e muitas saudades. 

Entrei no avião que me levaria de volta ao Brasil. Ele decolou, e esticando o pescoço, dei minha última olhada na cidade-luz. Depois, fechei os olhos. 
Não tive mais tive notícias de Nando. Soube que Giulia se casara com um espanhol. Ela me visitou uma vez, quando passava férias no Brasil – estava morando na Espanha com o marido. Vê-la despertou tantos sentimentos adormecidos, que quando ela se foi, após dois dias, custei a voltar a ser eu mesma. 

Eu estava trabalhando, e tinha namorado alguns homens. Mas não amei nenhum deles. 

Seis meses após voltar ao Brasil, cheguei em casa após um dia de trabalho e quando passava por meu pai, que fazia o jardim, ele me disse que havia alguém na sala de estar esperando por mim. Pensei que fosse um de meus amigos, e entrei. Ouvi minha mãe conversando com alguém, e quando ela me ouviu entrar, disse:

-Filha! Que bom que chegou. Seu amigo já está esperando há mais de uma hora!

Cheguei na sala e deparei com Nando à minha espera. Minha mãe logo percebeu o clima, e retirou-se em silêncio, passando por mim e piscando um olho. 
Só consegui abrir os braços e me jogar nos braços abertos que ele me estendeu.
Afinal, nem todas as histórias de amor terminam mal. Ele me disse que estava pronto para esquecer o passado, e que queria um futuro comigo. E eu o dei a ele.

FIM







AMOR E REVOLTA – capítulo V

AMOR E REVOLTA – capítulo V Gabi sofria em silêncio. Jane passou a frequentar a casa de Marvin, e também alguns dos seu...