sábado, 9 de outubro de 2021

AS ESTRELAS QUE EU CONTEI Capítulo 13



 CAPÍTULO 13


Achei estranho que o sol parecia nunca se por naquele lugar, e perguntei sobre isso. Imediatamente, começou a escurecer, e lindas estrelas apareceram num céu colorido de lilás e rosa, que escureceu gradativamente. Senti vontade de voltar para casa, e disse aquilo em voz alta. Naquele instante, olhei para o lado e as duas mulheres não estavam mais lá. Mas Téo, o avô de Afonso, estava sentado ao meu lado, e disse:

-Você já vai embora, mas antes de ir, achei que gostaria de em encontrar algumas pessoas.

Ele apontou para frente, para a mesma entrada junto à floresta por onde eu tinha chegado, e eu avistei três sombras que se aproximavam devagar. Apertei os olhos para enxergar melhor, e lá estavam papai, Tia Samira e minha avó Dora. Senti como se meu coração fosse sair pela boca de tanta alegria, e me levantando da cadeira, desci as escadas da varanda correndo, ganhei a distância que nos separava e me joguei nos braços de meu pai, chorando tanto que mal podia me controlar. Deixei-me ficar nos braços dele, sentindo sua mão acariciando meus cabelos, aproveitando a certeza de ainda poder ser amada por ele. Quando o olhei, ele sorria, tranquilo. Abracei minha tia Samira também, e minha avó. Nós os sentamos no gramado, que estava fresco e perfumado. Acima de nossas cabeças, planetas giravam, estrelas cintilavam e uma lua muito branca iluminava tudo. Avistei pontos de luz nas árvores, e eu logo soube que eram minhas amigas.

Meu pai foi quem falou primeiro:

-Você cresceu tanto, Chiara, está tão linda! 

Minha avó e tia Samira permaneceram em silêncio. Respondi:

-Pai, você é feliz?

Ele demorou um pouco, mas acenou positivamente com um leve gesto da cabeça. 

-Eu seria bem mais feliz junto de vocês. Mas é a vida... 

-Vocês três... moram juntos?

Tia Samira respondeu:

-Não, nós nos encontramos aqui apenas para ver você, mas estamos em lugares diferentes. Não se preocupe, não havia nada entre seu pai e mim antes, e não há nada agora. Diga a todos que eu sinto saudades. 

Ela começou a desaparecer devagar, e  junto com ela, minha avó.

Olhei para o meu pai, e abracei-o com força, com medo de que ele também desaparecesse. Fechei os olhos e tentei imaginar que sempre estaríamos juntos, que ele jamais iria embora para longe de mim, e ele disse, como se adivinhasse meus pensamentos:

- De certa forma, jamais a deixarei, minha filha querida. Sempre que precisar de mim, basta pensar. Não poderei responder a você sempre, mas saiba que estarei sempre ouvindo, e farei o que for possível. 

A voz dele foi sumindo nas últimas palavras que ele disse. Senti que nós desaparecíamos juntos daquele lugar, como se voássemos. Ainda olhei para trás, e vi a casa se afastando. 

Comecei a me sentir levemente tonta e indisposta. Senti minha visão tornar-se turva, enquanto o rosto de meu pai, inclinado em minha direção, ia aos poucos desaparecendo. Tudo começou a girar, e eu me senti muito enjoada. Quando abri os olhos novamente, eu estava deitada junto ao tronco de árvore, no meio da floresta. Uma dor aguda fez minha cabeça latejar, e levando a mão até a parte de trás da cabeça, senti uma protuberância úmida; era sangue. Eu pensei que havia caído e batido a cabeça, desmaiando. Sentei-me devagar no solo, olhando em volta. Será que eu tinha sonhado tudo aquilo?

Ao ter aquele pensamento, senti uma presença perto de mim. Era uma fada, que sentada no tronco junto a mim, me olhava. Ela balançou a cabeça me sorrindo, e tive certeza de que tudo fora real. 

Escutei ruídos de passos e vozes  na floresta, chamando meu nome. Olhei para cima, e o sol estava alto, como se muitas horas tivessem passado. Virei para o lado e vomitei. A sensação de enjoo começou a desaparecer. Logo vi surgirem as figuras de Afonso e mamãe, aflitos. Procuravam por mim, acompanhados de dois homens que trabalhavam na fazenda. Ao me verem no chão, um dos homens gritou: “Ela está aqui!” Mamãe correu na minha direção, e me abraçou com força:

-Estávamos tão aflitos, Chiara! O que aconteceu?

-Eu... acho que eu desmaiei. Bati a  cabeça. Mas... 

Naquele  momento, vários homens e mulheres da fazenda nos rodeavam, conversando baixinho. Afonso me ajudou a me levantar, me perguntando se eu conseguiria andar, e eu disse que sim.

Logo chegamos à fazenda, e me colocaram na cama imediatamente. Tamara nos seguiu, parecendo muito preocupada. Minha irmã Sara também nos seguiu até o quarto.  Mamãe pediu:

- Tamara, por favor, traga alguma coisa para ela comer.

Protestei:

-Não precisa, já comi. 

Minha mãe me olhou:

-Como assim? Você deve estar confusa, pois  saiu de casa ainda de madrugada, e já são quase quatro da tarde. Perdeu o café e o almoço. Filha, nunca mais quero que você adentre a floresta sozinha. 

-Mãe, eu não estou com fome. Mais tarde eu como. Preciso descansar. Quero ficar sozinha. Mas antes, me deixe conversar com Afonso. A sós.

Minha mãe e Sara me olharam, confusas, mas saíram do quarto seguidas por Tamara. Afonso sentou-se na beirada da cama, pegando minha mão devagar.

-Ficamos todos tão aflitos, Chiara. Nunca mais faça isso. A mata pode ser perigosa. 

- Prometo. Mas eu preciso te dizer uma coisa importante. Não sei se minha mãe já falou de mim... sabe, eu... eu tenho sonhos e visões. 

Falei aquilo com muito medo de que Afonso pensasse que eu era uma menina louca, ou que simplesmente não acreditasse em mim, mas ele me olhou com todo respeito, sem nada dizer, disposto a me escutar. Gostei dele ainda mais. Ele me ouviu em silêncio, acenando com a cabeça, e lágrimas caíram de seus olhos muitas vezes. Mas ele nunca me interrompeu. Finalmente, quando terminei de contar tudo a ele, ele me disse:

-Eu acredito em você, Chiara. Porque na noite passada, tive um sonho com Clara, e ela me pedia para escutar a sua história. Eu não consegui parar de pensar nisso o dia todo, enquanto procurava você. Eu... jamais... nunca tinha sonhado com ela antes. O sonho foi confuso e muito rápido, mas ao mesmo tempo, muito forte. Era como se estivéssemos conversando por um telefone com muitos chiados.

Eu me sentei na cama:

-E agora, Afonso, o que vai fazer, sabendo que Rosália é tão perigosa? 

Ele respirou profundamente, baixando os olhos.

-Sinto muito por Tamara, mas... eu vou ter que chamar a polícia. Mas antes, precisamos encontrar o corpo de Clara, e reunir provas contra ela. Precisamos provar que essa história louca é verdadeira.

Eu me lembrei do que Rosália me dissera:

-As provas estão todas em um baú, debaixo da cama de Rosália. Clara me disse.

Ele ficou boquiaberto. Vou lá imediatamente.

Dizendo aquilo, ele se ergueu da cama. Quando Afonso chegou à porta, eu disse:

-Tome muito cuidado, ela é perigosa!

Ele sorriu de leve antes de fechar a porta. Depois, caí em um sono profundo e sem sonhos  que durou até o dia seguinte, quando despertei varada de fome. Levantei-me da cama e tomei uma chuveirada, me vestindo. Achei que era cedo e que todos ainda dormiam, tal o silêncio dentro da casa. Calcei meu tênis e abri a porta do quarto, me dirigindo até a cozinha, mas ao chegar lá, não encontrei as pessoas trabalhando, como sempre. Tudo estava vazio e silencioso. 

Fui até o quarto de mamãe e Afonso, e eles ainda dormiam. Chamei-os da porta, tentando acordá-los, mas eles não responderam.  Corri até o quarto de Clara, e ela também dormia profundamente. O mesmo aconteceu ao procurar por Tamara e pelas cozinheiras. Todos na casa dormiam. 

Lembrei-me de que eu tinha sido a única a não comer nada que tinha sido preparado no dia anterior, e senti um medo enorme tomar conta  de mim. Corri até o telefone, e aliviada, escutei o sinal de linha ativa. Abri o caderninho de endereços, trêmula, e localizei o telefone da polícia, que disquei. Uma voz fria me respondeu:

-Delegacia de polícia, bom dia.

Eu estava tão nervosa, que minha voz custou a sair, e a pessoa do outro lado teve que dizer “alô” duas vezes. Finalmente, minha voz saiu pela garganta, alta e histérica:

- Estou na Fazenda Santa Clara, e tem alguma coisa errada. Ninguém acorda, estão todos dormindo e não acordam!

O homem do outro lado respondeu:

- Calma, fique calma. Qual é o seu nome, menina?

-Chiara. Sou enteada de Afonso, dono da fazenda. Eles não abrem os olhos! Acho que alguém colocou remédio no jantar de ontem. Venham rápido, por favor!

Foi quando escutei um ruído de algo queimando, e pensei ser a lareira. Mas ao olhar para o meu lado direito, percebi que havia um fogo começando na cozinha. Eu podia ver o corredor longo, e a fumaça começando a se formar. Gritei ao telefone:

-Venham logo, a casa está pegando fogo!

- Já estamos a caminho. Mandei uma viatura agora mesmo. Você consegue sair da casa? Saia da casa!

-Mas não posso deixar todo mundo aqui dentro! Minha mãe, Afonso, minha irmã, as pessoas...

-Corra e busque ajuda! Levaremos pelo menos vinte minutos até conseguirmos chegar, então vá buscar ajuda!

Desliguei o telefone, e ao passar pelo corredor, vi que o fogo na cozinha estava crescendo. As cadeiras e a mesa já começavam a queimar. Tentei abrir a porta da sala, mas ela estava trancada. As janelas da sala também. A fumaça começava a se espalhar mais rapidamente. Olhei em volta, procurando alguma coisa com a qual pudesse tentar quebrar uma janela, e vi o atiçador da lareira. Peguei-o, e arremessando-o contra a vidraça com toda a minha força, consegui quebrá-la. Saí pela janela, gritando por socorro. 

Para meu alívio, alguns trabalhadores vieram em meu auxílio, e eles conseguiram tirar as pessoas de dentro da casa antes que o pior pudesse acontecer. Porém, infelizmente, não pudemos salvar a vida de Tamara. O fogo se alastrou rapidamente, destruindo toda a casa. Quando a polícia chegou com os bombeiros, não havia mais nada que pudesse ser feito. 

Tamara se tornaria mais uma estrela no céu da minha vida. 


(continua)














terça-feira, 14 de setembro de 2021

AS ESTRELAS QUE EU CONTEI - CAPÍTULO 12


 Capítulo 12


-Ela nos matou porque estava apaixonada por Afonso, e nós éramos contra o relacionamento deles. Sentíamos que Rosália tinha alguma coisa de selvagem, inominável, ruim. Apesar de tentar fazer tudo para nos agradar, sabíamos que cada gesto seu e cada palavra gentil era eivada de falsidade. Ela queria possuir Afonso. Chegou a ficar grávida dele, mas felizmente, perdeu a criança após dois meses de gravidez. Os preparativos para o casamento estavam sendo feitos quando Afonso descobriu que ela não estava mais grávida. Tamara, a própria mãe de Rosália, contou a ele. Ela tinha então dezessete anos, e ele, dezoito. Viveram uma paixão adolescente que, na cabeça dela, era a solução para a sua vida. Na verdade, ela só queria saber do dinheiro de Afonso. Tamara tentava controlar a filha, mas nunca conseguiu deter a impulsividade dela. Lembro-me de que ela ia para o quarto de meu filho à noite. Eu podia escutar os dois. Disse a ele que tivesse cuidado, mas ele não nos ouviu. Até que o mandamos embora da fazenda, para estudar no exterior, numa tentativa de afastá-los.

- Mas... por que não mandaram Rosália embora? Não teria sido mais simples? 

- Nós tentamos, mas ela não quis ir, ameaçou um escândalo. E tínhamos muito apreço por Tamara, sua mãe, que é uma pessoa maravilhosa. Mas Rosália herdou a amargura e a frieza do pai. Ele foi um homem mau, que seduziu Tamara quando ela ainda era bem jovem. Engravidou-a, e assim que a criança nasceu, foi embora da fazenda com outra.

-Uau! Que história! 

Ela ignorou meu comentário:

-Bem, assim que Afonso partiu, ela se tornou insuportável. Ficava pelos cantos, nos olhando com raiva. Se recusava a ajudar Tamara nos trabalhos da fazenda. 

O olhar dela voltou a ficar cheio de horror, enquanto Elvira narrava seus últimos momentos de vida:

-Um dia bem cedinho, quando Téo e eu nos aprontamos para ir pescar, deparamos com uma mesa maravilhosa. Rosália nos esperava com um farto café da manhã, e parecia outra pessoa. Seu olhar estava mais doce e conformado, e ela se desculpou por tudo o que fizera, jurando que melhoraria dali para frente. Nós acreditamos nela, e nos sentimos aliviados. Tomamos o café da manhã, e assim que chegamos ao barco e nos afastamos da margem, começamos a nos sentir tontos e pesados. Eu tentei me mexer, mas meu corpo parecia anestesiado. Téo e eu compreendemos que ela tinha colocado alguma coisa na nossa comida. Apavorados, mas incapazes de reagir, vimos quando ela se aproximou do barco nadando, e então nos puxou para dentro da água. 

Depois, usando um machado, Rosália fez um buraco no fundo do barco, que afundou, e então... ela segurou nossas cabeças dentro da água. Simulou um acidente. 

Eu estava horrorizada e preocupada ao ouvir tal narrativa. Afinal, minha mãe e minha irmã estavam lá naquela casa de fazenda, com aquela criatura horrorosa.

O restante da história me foi contado por Clara. Notei que Clara estivera de pé atrás de nós o tempo todo. Elvira levantou-se, e Clara sentou-se no lugar dela, ao meu lado. A presença dela emanava frio. Senti que a energia dela não era tão tranquila quanto a de Elvira. Clara continuou a história de onde Elvira tinha parado.

-Quando cheguei na fazenda, sete anos após a morte pais de Afonso, estávamos casados. Ele tinha se formado e assumira os negócios da família. Éramos felizes, nos amávamos. Maldita a hora em que concordei vir para cá.

Seu rosto crispou-se de raiva, mas ela logo se controlou:

Os avós estavam idosos, e ele decidiu que deveria tomar conta deles, já que devia muito a eles, que o criaram após a morte dos pais. Seu avô tinha câncer terminal, e a avó sofria de problemas cardíacos sérios. Achei nobre a atitude dele. O médico nos dissera que, infelizmente, ambos morreriam em breve. Concordei em ficar e ajudar. 

Mas aquele demônio de mulher... ela o seduziu novamente. Ela ficava o tempo todo rodeando meu marido, me afrontando... e eu não queria causar problemas para os avós de Afonso. Mesmo após as surras que Tamara dava nela, Rosália não tomava jeito. Tanto fez, que conseguiu o que queria: meu marido em sua cama. 

-Que coisa horrível! 

Pensei no quanto minha mãe estava em risco naquela fazenda, e desejei voltar para alertá-la. Mas eu sabia que precisava escutar o final da história, então me calei. O dia ali parecia não passar nunca. Eu tinha perdido a noção do tempo. Não tinha ideia de quanto tempo já estivera ali. Clara continuou:

- Eu e Afonso tivemos uma discussão horrível, e ele se desculpou, mas eu não consegui perdoá-lo. Mesmo assim, ficamos juntos até que seus avós faleceram com uma diferença de apenas duas semanas entre suas mortes. 

Logo após o falecimento dos avós de Afonso, decidi que o perdoaria, se ele concordasse em ir embora daquele lugar. E eu estava justamente me aprontando para dizer aquilo a ele, assim que ele voltasse de uma viagem que tinha feito a São Paulo a fim de organizar alguns papéis referentes à sua herança. Tamara tinha ido junto com ele, pois os avós de Afonso tinham deixado para ela algum dinheiro em testamento. Eu estava sozinha com Rosália na fazenda, esperando-o voltar.

Mas uma noite na qual fui dormir me sentindo exausta, acordei de repente na caçamba de um caminhão. Estava amarrada e amordaçada. 

Notei que estava junto a mim a minha mala de roupas. Rosália me obrigou a escrever um bilhete a Afonso, dizendo que eu estava indo embora do país e que ele não me procurasse nunca mais. Ela sabia que eu não tinha uma família, e que ninguém procuraria por mim. Achei que se eu fizesse o que ela queria, ela me levaria para longe dali e me deixaria em algum lugar distante, não sei... jamais pensei que ela seria capaz de... escrevi o tal bilhete, enquanto ela segurava uma arma de fogo contra a minha testa. Havia fúria em seus olhos. Assim que terminei, ela me atingiu com a arma. Ela me deu um tiro. Mas eu ainda estava viva quando ela me enterrou na floresta. 

Deixei escapar um grito de terror, cobrindo a boca com a mão. Àquela altura, Clara chorava muito. Ela se conteve, finalmente, e me disse:

-Mas fico feliz que ele não tenha ficado com ela. Pelo menos, isso ela não conseguiu.

-Eu sinto muito, Clara... de verdade. 

Ela me olhou, segurando minhas mãos:

-Você precisa dizer a ele a verdade. Precisa mostrar a ele onde está o meu corpo, precisa contar o que aconteceu aos pais dele. Enquanto alguém não fizer isso, estaremos presos aqui. A arma de fogo, o machado e a corda que ela usou para me amarrar estão no quarto dela, em um baú sob a cama. São as provas que precisam para acusá-la.

As crianças se aproximaram de nós, e uma delas disse:

-Faça isso pela gente também. Ela também nos matou, pois nós vimos tudo o que ela fez com os pais do senhor Afonso. Ela cortou os freios do carro escolar. Todas as crianças morreram naquele acidente. 

Ainda mais apavorada, prometi que os ajudaria a todos. 

Naquele momento, Clara projetou em minha mente uma imagem perfeita do lugar onde seu corpo estava enterrado, e de como chegar lá. Eu jamais me esqueceria. 



(CONTINUA...)







segunda-feira, 6 de setembro de 2021

AS ESTRELAS QUE EU CONTEI - CAPÍTULO 11

 


CAPÍTULO 11

Eu gostava de acordar bem cedo e caminhar sozinha pela fazenda, quando a neblina ainda estava sobre os campos antes do sol nascer, e observar os trabalhadores ordenhando as vacas, escovando os cavalos, arando o campo e colhendo lindos maços de verduras que comeríamos horas depois no almoço. Eu já conhecia algumas pessoas, que me cumprimentavam e me chamavam pelo nome, me oferecendo fatias de queijo fresquinho, frutas ou doces em compotas que eram fabricados na fazenda.

Pensei que aquela era exatamente a vida que eu gostaria de ter, e decidi que no futuro, estudaria alguma coisa que me permitisse trabalhar na fazenda. Já Sara preferia a vida na cidade, o movimento, o burburinho dos centros comerciais. Eu só pensava nas histórias maravilhosas que poderia escrever naquele lugar inspirador.

Eu olhava as copas das árvores e arbustos em busca de minhas amigas de infância, mas não conseguia vê-las; achei que tinham ido embora para sempre. Até que um dia, enquanto caminhava pela trilha da floresta, que eu já conhecia bem àquela altura, deparei com uma estradinha calçada por pedras que eu não tinha visto antes, pois havia uma árvore enorme caída sobre a entrada. Sobre o tronco coberto de musgo, avistei uma criaturinha transparente que me olhava, mas que logo desapareceu. Senti uma dor aguda na cabeça, que me levou a fechar os olhos e cobrir a cabeça com ambas as mãos, enquanto um forte zumbido em meus ouvidos me deixava surda. Acho que quase perdi a consciência, e quando reabri os olhos e olhei adiante, vi uma estradinha limosa, uma trilha coberta de mato que teria passado despercebida se eu não tivesse me sentado naquele tronco.

O caminho era um tanto estreito, se perdendo em uma curva onde as árvores se juntavam umas às outras tornando o local bastante sombrio; apenas alguns raios de sol conseguiam penetrar as copas. A curiosidade, que era algo natural em mim, me fez passar sobre o tronco e seguir o caminho.

Caminhei por alguns minutos, ainda hesitante, sempre olhando em volta, e com a forte sensação de estar sendo observada. Pensei em voltar, mas eu sentia como se uma força me atraísse a continuar naquela direção, e ela me impelia para frente, além do medo que eu sentia, além do arrepio na base da coluna e de algo em um canto do meu cérebro que me dizia para voltar. Acho que andei durante quase uma hora – não estou certa, pois os caminhos no meio das florestas nos iludem. O sol já estava alto, e todos deveriam estar acordados, procurando por mim, mas eu simplesmente tinha que seguir.

E foi logo depois de uma curva que eu comecei a escutar vozes: risos de crianças e cães latindo alegremente, e então comecei a andar mais rápido; mal pude conter o folego ao chegar a uma enorme clareira gramada e ensolarada, onde havia uma casa que parecia ser muito antiga, de dois andares, branca e convidativa. Fiquei parada diante daquela linda visão, o ar preso nos pulmões, uma alegre sensação de ter chegado em casa após muito, muito tempo.  As crianças (havia uma meia dúzia delas) voltaram os olhos para mim e pararam de brincar, me observando em silêncio. Uma delas gritou: “Olhem!” Imediatamente, um menino ruivo disse “Eu acho que ela pode nos ver!” Eu estava confusa, assustada, surpresa, curiosa, feliz, enfim, eu era uma mistura de vários sentimentos e pensamentos que se moviam todos em círculos ao redor de mim, sem encontrar uma certeza. Na varanda da casa, um casal  me observava, parecendo muito surpresos. Havia também uma mulher mais jovem que eles, de longos cabelos negros, lindíssima, parada junto à porta de entrada, que parecia tão perplexa quanto os demais. Senti que uma mão nas minhas costas me deu um leve empurrão na direção da casa, mas quando me voltei para olhar, não havia ninguém. Caminhei, hesitante, e logo estava cercada pelas crianças, que me puxavam pela mão em direção à casa, acariciavam meus cabelos e davam risadinhas. Uma delas sussurrou: “O nome dela é Chiara. Está hospedada na fazenda!” No que a outra respondeu: “Sim! Ela é filha adotiva dele.” Eu fiquei surpresa pela maneira como as notícias corriam naquele lugar.

Quando cheguei à porta, a mulher mais velha estendeu os braços para mim, dizendo:

-Entre, menina. Você parece cansada. Venha comer alguma coisa! Posso apostar que ainda não comeu nada hoje.

Concordei com a cabeça e me deixei ser guiada para dentro da casa, seguida pelas crianças e pelos outros dois adultos, o homem e a mulher de cabelos negros.

 O interior da casa não era menos impressionante do que o exterior: a luz do sol entrava em faixas pelas janelas enormes, iluminando a casa magicamente, caindo sobre os jarros de flores coloridas, o piso de madeira brilhante, as cadeiras e sofás brancos, as cortinas finas e transparentes também brancas. O pé direito alto acolhia as vozes das crianças, transformando-as em música para os ouvidos, e reverberava os cantos dos pássaros da floresta. Fiquei pensando em como uma casa no meio de uma floresta e cheia de crianças podia ser tão limpa, tão branca. A casa era mágica, eu tinha certeza!

A mulher mais velha sentou-me à uma mesa na cozinha, e foi colocando sobre a mesa o café mais perfumado que eu já tinha visto, potes de geleias de frutas caseiras  brilhantes e cheirosas, pão feito em casa ainda quente, biscoitos e um bolo de laranja que eu devorei quase a metade. Enquanto eu comia, a mulher mais nova ralhou com as crianças e fez com que fossem continuar suas brincadeiras lá fora, pois elas faziam um ruído enorme, mexendo no meu cabelo, falando todas ao mesmo tempo e dando risadas. Eu interagia com elas apenas sorrindo. Eu me sentia totalmente à vontade entre eles, embora não os conhecesse. O homem estava sentado diante de mim, me olhando com carinho, como se eu fosse uma de suas netas (achei que era esse o grau de parentesco entre ele e as crianças). Reparei em sua camisa branca e simples, e também que o rosto dele era belíssimo, ornado por uma barba grisalha cerrada. Parecia haver uma aura de luz em volta dele e das demais pessoas, até que eu percebi, estendo a mão na frente do meu rosto, que ela estava também sobre mim.

Ele me disse, assim que pousei a xícara vazia sobre o pires:

-Você veio de longe, minha menina. Estamos muito alegres e surpresos de você ter chegado até aqui.

Eu sorri, confusa:

-Mas a fazenda fica a apenas alguns metros daqui... ou quilômetros? Bem, não é muito longe, o senhor sabe.

Eles três trocaram olhares, e nada disseram, mudando logo de assunto. A mulher mais velha disse:

-Deixe a gente se apresentar: meu nome é Elvira, e este é Téo, meu marido. A moça é Clara, nossa nora.

-Eu sou Chiara. Estou hospedada na fazenda com minha irmã Sara e minha mãe Vanessa, como vocês já sabem, e minha mãe se casou com Afonso. Vocês o conhecem, não é?

A mulher respondeu, quase sussurrando:

-Sim, nós o conhecemos.

A voz dela parecia muito triste, mas quando olhei para ela, ela sorriu.

Clara, a moça de cabelos longos, parecia ter uma tristeza dentro dela que se derramava em cada gesto. Ela não sorria muito, e mantinha os olhos presos em mim. Ela perguntou, a voz quase sumida:

-Como está Afonso?

-Bem. Ele está ótimo. Você o conhece bem?

Os olhos dela ficaram marejados, mas ela não respondeu; ao invés disso, pegou a minha xícara usada e levou-a para a cozinha, de onde não voltou. Téo foi atrás dela, e fiquei sozinha com Elvira, que sentou-se ao meu lado, cortando mais um pedaço de bolo e colocando em meu prato, apesar da minha recusa. Perguntei a ela:

-O que deu em Clara? Ela está bem?

-Sim, e... não. Chiara, você sabe que esta casa não é uma casa normal, não é?

Meditei um pouco naquelas palavras antes de responder, e conclui que ela estava certa: aquela casa não era uma casa normal. Não podia ser. Como aquela casa poderia existir ali, no meio de uma densa floresta, imaculadamente branca, mesmo cheia de crianças? Como podiam as pessoas que ali estavam – inclusive eu mesma – emanar aquela luz branca? Não respondo. Ela acariciou meu ombro levemente, e disse:

-Venha comigo.

Segui-a até a varanda da casa, e de lá ficamos olhando as crianças e os cães, que brincavam juntos novamente. Percebi que uma menina estendeu a mão e um passarinho pousou nela. Não, aquela não era uma casa normal. Perguntei quem eram as crianças.

-Elas... bem... são crianças que vieram morar aqui por escolha. Elas costumavam morar na fazenda antes de...

Completei a frase:

-...de morrerem?

Elvira concordou com a cabeça. Eu logo entendi tudo: todos naquela casa estavam mortos! E se eu estava ali, entre eles, estava morta também. Instintivamente, apertei meu punho, tentando sentir as batidas do meu coração. Nada. Nem um sinal. Minha pele era uma coisa branca e brilhante, nem fria nem quente, macia e fluida ao mesmo tempo. Mas eu podia sentir alguma solidez no meu corpo, pois estivera sentada comendo e bebendo, sentia cheiros, ouvia, falava, enfim: não estava entendendo nada. De repente, as coisas começaram a fazer sentido, como se a verdade se desenhasse devagarinho dentro de mim. Tudo começou a se desembaraçar, e percebi a verdade. Eu não sabia se era Elvira quem estava fazendo aquilo comigo, mas a compreensão vinha aos poucos, sem deixar qualquer sombra de dúvidas. Sim, estávamos todos mortos. Ao mesmo tempo, mil perguntas novas brotavam na minha cabeça.

- Afonso nos disse que sua ex-esposa tinha ido embora da fazenda e que eles tinham se separado. No entanto, ela está aqui, morta!

- Clara jamais deixou a fazenda. Ela foi morta aqui, e seu corpo está enterrado na floresta.

O horror daquelas palavras quase me sufocou.

- E vocês... a senhora e seu marido Téo... vocês ... Afonso nos contou que ele foi criado pelos avós. Vocês são os pais de Afonso, não são? Se Clara é sua nora...

Ela concordou com a cabeça.

-E o que aconteceu com vocês? Afonso jamais nos contou, sempre muda de assunto. Só explicou que vocês morreram quando ele era ainda adolescente.

Ela concordou com a cabeça.

-Sim. Talvez ele não tenha contado a verdade porque as lembranças relacionadas a ela sejam muito tristes. Nós nos afogamos.

Ela fechou os olhos, e suas sobrancelhas se crisparam, trazendo de volta momentos certamente muito dolorosos. Elvira continuou:

-Eu e Téo adorávamos sair de barco pelo rio, pescar, ir até a ilhota...

-Ilhota?

-Claro, Afonso não falou dela a vocês... bem, há uma ilha, uma pequena ilha na fazenda que fica há quinze minutos de barco à remo, onde os pais de Téo construíram um chalé de toras de madeira muito confortável e bonito. Gostávamos de ir até lá, às vezes, passar a noite...  Téo adorava remar...

Ela ficou em silêncio, envolta pelas boas memórias, enquanto seu rosto assumia um ar mais tranquilo e feliz.

-A ilha não é muito grande; tem apenas dois quilômetros e meio de extensão. Há muitos pinheiros por lá, alguns eucaliptos, flores que os avós de Afonso plantaram, muito verde. Você ia adorar. Pena que está abandonada agora. Há também algumas criaturas...

Naquele momento, pelo olhar dela, senti que ela falava de fadas. Sorri para ela, e ela me sorriu de volta, concordando com a cabeça.

-Sim, elas estão por lá. Onde não são perturbadas. Eu não sabia da existência delas, não antes de morrer. Mas sempre amei aquele lugar, pois eu sentia que havia alguma coisa muito boa ali. Mas... muitas coisas aconteceram. Você conheceu Rosália?

-Sim. Para dizer a verdade, não gostei muito dela. Minha mãe me disse que as pessoas do campo às vezes são assim, meio ariscas...

Ela cortou minha fala:

-Fique longe dela.

Eu fiquei boquiaberta; afinal, se eu estava morta, é claro que ficaria bem longe dela. Eu disse aquilo em voz alta, e ela respondeu:

-Você não está morta. Seu corpo descansa na floresta, e você vai voltar para ele. Mas antes você precisa saber do resto da história.

 

(Continua...)




 

 

 


 

segunda-feira, 16 de agosto de 2021

AS ESTRELAS QUE EU CONTEI - CAPÍTULO 10


 Capítulo 10


A morte de Tia Samira foi um dos eventos mais chocantes para todos nós, depois da morte de papai. Minha mãe andava sempre triste e cabisbaixa, calada e distante. Eu pensava demais nela, e em tudo o que as nossas vidas poderiam ter sido se ela não tivesse se apaixonado pelo nosso pai. Mas ninguém manda no coração, e Tia Samira, assim como mamãe, tinha sido uma mulher forte e apaixonada, que se jogava com força naquilo que acreditava. Era uma característica das mulheres daquela família, eu perceberia mais tarde.

Um mês se passou da morte de tia Samira, e aos poucos, fomos aprendendo a conviver com a realidade daquela perda; porque uma coisa, é a gente brigar com alguém que a gente ama muito, mas saber que a pessoa está viva em algum lugar, e que ainda pode ser feliz e quem sabe, a gente possa até mesmo fazer as pazes um dia. Outra coisa bem diferente, é saber que aquela pessoa se foi, e que nada que fizermos poderá trazê-la de volta para que a gente possa consertar os erros do passado.

Nós falávamos com nossos primos por telefone de vez em quando, e eles nos contavam sobre a nova vida que tinham. Não pareciam muito felizes, mas procuravam seguir em frente. Nós trocávamos ideias sobre nossos estudos e cursos no estrangeiro. Joana dissera ao pai que pretendia morar fora quando terminasse a escola, e ele não apenas aprovou a ideia como considerava mudarem-se todos juntos para algum lugar na Europa, onde poderiam continuar com suas vidas longe de todas aquelas lembranças tristes. Mais uma vez, ficaríamos longe uns dos outros durante bastante tempo – quem sabe, para sempre.

Afonso diminuíra o ritmo de trabalho, mas ainda pretendia diminuir mais. Eu e Sara sentíamos o quanto nós significávamos para ele. Era como se fôssemos suas filhas de verdade, e sabíamos que ele faria tudo o que pudesse para nos ver felizes. Era tranquilizador saber que poderíamos escolher qualquer coisa que quiséssemos fazer de nossas vidas, pois teríamos tudo o que precisássemos para alcançar nossos sonhos e metas. 

Afonso sempre me dizia que eu deveria entrar em um concurso literário, mas eu ainda não me sentia pronta. Ele procurava sempre me animar e encorajar, lendo meus manuscritos e sugerindo alguns detalhes. Era um tanto agradável ter alguém como ele ao meu lado, uma figura masculina forte e protetora. Sentia um pouco de culpa, pois eu tinha certeza que meu pai jamais teria conseguido ser como ele para nós. Papai tinha um coração meio-nômade, aventureiro e louco. Era um sonhador. Mantinha um dos pés no chão, mas o outro, estava sempre junto com a cabeça, nas nuvens. Este tinha sido um dos maiores motivos das brigas entre meus pais. 

Mamãe ficou bem mais triste do que Sara e eu. Andava perdida pela casa, falava pouco. Tentava se animar quando estávamos por perto, mas era como um arremedo de alegria. Todos estávamos tristes. Nossa família tinha perdido dois membros importantes e queridos – papai e tia Samira. Duas estrelas no meu céu de lembranças. Pensei em mamãe: ela perdera os pais também. Quanta gente já tinha ido embora de sua vida! Os pais, a irmã, o marido. Se não fosse por nós, ela estaria praticamente sozinha no mundo. Mas mamãe ainda era uma mulher jovem – tinha apenas quarenta e três anos.

Tínhamos Afonso conosco, e ele estava sendo mais do que um simples pai, mas um verdadeiro amigo, sempre presente. 

As pessoas que trabalhavam na casa, ao nos conhecerem melhor, também se tornaram um pouco mais doces e menos formais. Um dia, distraída, Sara entrou pela cozinha de manhã e deu um beijo no rosto de Elga, que estava lavando as xícaras. Ela corou, e sorriu. Eu achava que tínhamos formado um novo tipo de família, e me sentia novamente segura outra vez. Minha amiga Fernanda tinha passe livre na casa, e vivia por lá. Era uma casa feliz – a não ser pela nossa última perda.

Um mês após a morte de tia Samira, Afonso e mamãe nos deram uma boa notícia, logo após o jantar. Foi mamãe quem anunciou:

- Temos uma novidade: vamos viajar em lua de mel. Nós nos casamos, mas não tivemos uma.

Eu e Sara os entreolhamos, surpresas. Minha irmã perguntou:

- Para onde vamos? Quanto tempo vamos ficar longe? 

Eu a interrompi:

-Sara, é uma viagem de lua de mel. Isso significa que nós duas não estamos incluídas, sua enxerida.

Ela levou a mão à boca, dando uma risadinha. Afonso disse:

- Mas nós temos uma surpresa para vocês duas: as férias de dezembro estão chegando, e antes de viajarmos em lua de mel, vamos todos passar uns dias na fazenda. Depois do Natal, viajamos para a Inglaterra.

Batemos palmas de alegria. Mamãe disse:

-Acho que todos precisamos de uma mudança de ares.

Sara reclamou:

-Meu sonho é conhecer a Inglaterra...

Afonso prometeu que um dia, iríamos todos juntos. Ainda disse que conheceríamos o mundo todo. Ele ia promover uma pessoa junto com ele na companhia a fim de ajudá-lo, para que pudéssemos ter mais tempo para ficarmos todos juntos. Minha mãe corou de satisfação. Para ela, era muito importante o fato de que Afonso sempre nos incluía em seus planos. Ela ouvira falar de uma amiga de escola viúva que se casara de novo, e o marido não aceitava as crianças do primeiro casamento, colocando-as em colégios internos. Afonso jamais pensaria numa coisa dessas. Ele nos chamava de filhas – embora jamais tivesse exigido que o chamássemos de pai. Mas Um dia, pela manhã, Sara entrou correndo na cozinha (estava atrasada para o café) e disse “Bom dia, mãe, bom dia, pai.” Todos nós ficamos paralisados, nos entreolhando, enquanto ela se sentou à mesa e começou a tomar seu café da manhã normalmente, tagarelando sobre a prova que teria na escola. Vi que Afonso deixou escapar um leve sorriso de satisfação, ao responder: “Bom dia, filha.”

É, a vida sempre continua.

E assim, chegou dezembro.

A escola terminou, e começamos a planejar uma festa de Natal, que tinha sido tradicional na família de Afonso, e que ele gostaria de retomar. Assim, dizia ele, poderia apresentar sua família aos amigos. A festa não seria no dia de Natal, mas no dia 20 de dezembro. Mamãe estava muito nervosa em conhecer os amigos de Afonso – todos tão ou mais ricos do que ele. Ela sabia que não fazia parte daquele mundo. Eu e Sara nos sentíamos da mesma forma, e uma noite enquanto estávamos todos acomodados na sala, conversando sobre os preparatórios para a festa, quando sem querer, Sara deixou escapar a seguinte frase:

-Ai, meu Deus do céu, fico nervosa só de pensar em estar cercada por todas essas pessoas ‘bacanas...’ 

Mamãe a fuzilou com os olhos, embora se sentisse da mesma forma, mas antes que ela pudesse repreendê-la, Afonso disse:

- Meninas, eu sei que vocês estão preocupadas em conhecer meus amigos, mas quero que saibam que nenhum deles é mais importante do que vocês. Se vocês acham que não estão à altura deles, eu preciso concordar: vocês estão em um patamar muito mais alto. Sabem por quê? Porque vocês fazem parte da minha vida e moram no meu coração. E não se preocupem, eles não mordem. Tenho certeza de que ficarão muito felizes em conhecerem minha nova família. E isso vale para você também, Vanessa.

Todas ficamos felizes, mas constrangidas, e mamãe tentou se desculpar, mas ele disse a ela que ficasse em paz, segurando a mão dela:

- Eu tenho certeza de que você vai ser muito admirada, Vanessa. Afinal, será a mulher mais bonita da festa. Além disso, é inteligente, espirituosa e muito forte. Se eu pude ver em você essas qualidades, meus amigos também as verão. Vai dar tudo certo! Estarei sempre ao seu lado, não se esqueça. E Geraldo está acostumado a esses eventos, ele vai tomar conta de todos os detalhes. 

-Mas eu quero que tudo fique perfeito para você, Afonso – mamãe respondeu.

- Já está tudo perfeito. 

Ele a olhou tão apaixonadamente, que eu senti pena dele, pois eu sabia que mamãe jamais o amaria daquela forma. Mas sabia também que ela era sim, uma  mulher forte e leal, e que faria tudo o que pudesse para fazer de Afonso um homem feliz. Até pensei que a vida deles seria bem mais fácil justamente por ela não estar apaixonada por ele, e assim poder controlar melhor seu gênio forte. Há tempos mamãe não tinha um de seus ataques de fúria. Afonso a deixava tranquila em todos os sentidos. Ela gostava dele profundamente e o amava como a um grande amigo, e talvez para ela, naquela altura da vida, aquilo fosse o suficiente. Mas conhecendo minha mãe como eu a conhecia, e tendo visto o relacionamento que ela e meu pai desfrutavam, eu simplesmente sabia, apesar de ser apenas uma criança.

Finalmente, o dia da festa chegou. Nós, crianças, ficaríamos no salão apenas até as dez da noite, e após jantarmos na copa, iríamos para os nossos quartos. 

Quando as pessoas começaram a chegar, notei que Afonso segurava a mão de mamãe com muito orgulho, apresentando-a a todos os convidados. Achei que mamãe estava se saindo muito bem, e conseguindo conquistar a simpatia das pessoas. Os adultos cumprimentavam a mim e Sara com gentileza e depois nos esqueciam completamente. Não havia outras crianças na festa, então Sara e eu ficamos em um canto do salão, observando tudo. Havia cerca de cinquenta pessoas na casa, e nós não conhecíamos ninguém, o que era um tanto estranho para duas meninas que não estavam acostumadas com aquela situação. Foi um jantar à americana, descontraído, mas ao mesmo tempo, luxuoso. 

Geraldo e Helga tratavam de manter os convidados sempre bem servidos, entrando e saindo a todo momento com bandejas cheias de comidas e bebidas, enquanto Helena trabalhava na cozinha. Havia também mais dois garçons que tinham sido contratados para ajudar. 

Não me lembro de nada mais especial que tenha acontecido naquela festa. Às nove  e quarenta e cinco mamãe nos chamou para jantarmos na copa, na companhia de Carlos, o motorista, e então fomos dormir. Lembro-me de ter acordado por volta das três da manhã e a casa já estava em silêncio. E foi isso.

No dia 26 de dezembro, logo após o Natal, viajamos todos para a fazenda de Afonso, que ficava em uma cidade afastada no interior de Minas. Passaríamos o ano novo por lá e então voltaríamos para casa, e mamãe e Afonso partiriam em sua viagem de lua de mel. Geraldo nos levou até lá de carro e ficou de nos buscar no dia 3 de janeiro.

A fazenda era ainda maior que a casa onde morávamos, e o casarão antigo e bem conservado era branco de janelas azuis. Uma grande varanda circundava a casa. Amei as enormes janelas e portas, o chão de tábuas corridas, a cozinha enorme com piso de azulejos hidráulicos em tons de azul pastel (o mesmo piso da varanda). Tudo era grandioso, lindo, mas muito mais rústico e simples que a casa, e eu adoraria poder ficar morando lá para sempre. Havia na casa muitas pessoas trabalhando: os que cuidavam das hortas e dos animais, as cozinheiras, arrumadeiras e  lavadeiras, os que tratavam dos cavalos (Afonso tinha alguns puro-sangue) e o capataz, que comandava tudo. Nós, crianças, conhecemos algumas daquelas pessoas bem superficialmente, mas gostamos especialmente de Tamara, a governanta, uma senhora alta, robusta e enérgica que aparentava ter sessenta e tantos anos. Seus cabelos negros e grisalhos estavam sempre presos em um coque no alto da nuca, e seu sorriso largo e franco nos conquistou a todas prontamente. Ela andava pela casa cuidando de dar ordens aos empregados, tratando para que tudo estivesse ao gosto de Afonso e de mamãe. Era enérgica e incisiva, mas educada. O belo rosto de Tamara revelava que ela tinha sido uma linda mulher na sua juventude, e ela e minha mãe ficaram amigas quase imediatamente, apesar da diferença de idade. 

Mas quando conhecemos Rosália, a filha de Tamara, a impressão não foi das melhores. Ela nos olhou como se examinasse algumas espécies de ameba, os lábios curvados para baixo, e cumprimentou-nos com um leve aceno de cabeça. Notei que ela fuzilava minha mãe com os olhos. Ela era uma mulher bonita, talvez alguns poucos anos mais jovem do que mamãe, mas havia alguma coisa nela que me desagradava profundamente. Ela só era simpática com Afonso, que a tratava com respeito, mas sem intimidades. Ele parecia visivelmente constrangido quando ela entrava em um cômodo onde todos nós estávamos sentados, comendo u conversando. Rosália atravessava a sala, nos olhando com o canto do olho, carregando pilhas de roupas passadas, ou uma bandeja com café que depositava sobre a mesinha, e quando fazia isso, eu sempre a via desviar o olhar na direção de mamãe. Achei que aquilo acabaria sendo problemático, e acertei. Mas vou contar essa história mais tarde, no seu devido tempo. 


(CONTINUA...)







quinta-feira, 5 de agosto de 2021

AS ESTRELAS QUE EU CONTEI - Capítulo 9


 Capítulo 9


Nossa nova casa era enorme e silenciosa. Havia quatro empregados fixos – Elga, a cozinheira, Helena, a faxineira e Geraldo, o mordomo, e Carlos, o motorista. A cada semana uma empresa ia fazer a limpeza pesada e cuidar do jardim. Todos eram frios, eficientes, silenciosos e distantes, e permaneciam imunes a qualquer tipo de aproximação de nossa parte. Eram polidamente corteses, educados, eficientes e sempre prontos a satisfazer nossos menores desejos e a atender as nossas ordens, mas mantinham sempre uma distância enorme e impenetrável entre nós. Dirigiam-se à minha mãe chamando-a de Madame Vanessa, e a nós, crianças, como senhorita Chiara e senhorita Sara, embora já tivéssemos dito mil vezes que não queríamos que nos chamassem daquele jeito. Acabamos desistindo e nos acostumando. Afonso nos explicou que eram ótimas pessoas, e que estavam na família há muitos anos – as mulheres, há mais de vinte, e o mordomo, há pelo menos trinta e cinco anos – e era melhor que mantivessem uma atitude formal em relação aos seus patrões, pois isso assegurava serviços bem prestados. Tinham sido treinados por seus pais, que faziam absoluta questão daquela distância. 

Mas nós tínhamos permissão para chamá-los pelos seus primeiros nomes.

Afonso era realmente um homem muito rico. Além de possuir duas fábricas, um escritório e vários apartamentos alugados, ele sempre falava de uma fazenda que herdara dos pais, e que estava na família há mais de sessenta anos. No entanto, quando Sara perguntou sobre os pais dele, vimos uma sombra atravessar seu rosto antes de ele mudar de assunto, dizendo apenas que tinham morrido quando ele ainda era um adolescente. Ele tinha sido criado pelos avós, também falecidos. Afonso também não gostava de falar sobre sua ex-esposa, com quem vivera por apenas cinco anos, bem antes de conhecer minha mãe. O casal se divorciou e ela foi embora do país, e isso foi tudo o que ele comentou sobre ela. Afonso não tinha irmãos ou parentes próximos. Pensei no quanto sua vida deve ter sido solitária antes de nós, mas Afonso não era alguém triste – pelo contrário. Fazia de tudo para nos alegrar e quase sempre que voltava para casa do trabalho, nos trazia um mimo – um doce, uma pulseirinha, um livro, canetas coloridas. Eu e Sara o adorávamos. Mamãe parecia gostar muito dele, e eles viviam muito bem, mas eu nunca consegui ver nos olhos dela a mesma coisa que eu via quando ela olhava para papai, embora eu não saiba descrever exatamente o que tinha sido; talvez um misto de ansiedade, amor, paixão, desespero, ressentimento, mais amor, mais paixão, mais loucura, raiva e tranquilidade, e paz de espírito – tudo muito misturado, subindo e descendo em ondas o tempo todo. Quando ela olhava para Afonso, havia carinho, tranquilidade, paz, um pouco de amor, sim, amizade..., mas nada de turbilhão de emoções, e eu acho que era exatamente o que ela desejava: paz. Uma vida horizontal. 

Segurança.

Nossa casa tinha um jardim bem diferente do que tínhamos antes: as sebes eram milimetricamente aparadas pelos jardineiros contratados que vinham a cada sete dias para cuidar das plantas e fazer a limpeza. Nenhum fio de grama era maior que outro. Os arbustos eram recortados em formas precisas, alguns imitando animais. As flores eram plantadas separadamente conforme suas espécies, e não misturadas, como na nossa antiga casa. 

As árvores tinham sido plantadas em pontos estratégicos, a distâncias cuidadosas da casa e umas das outras. Havia uma fonte no meio do jardim, de onde a água jorrava de um vaso que estava nas mãos de uma dama antiga toda feita de mármore branco. Tudo era perfeito. Havia nos fundos da casa uma piscina de água muito azul e límpida. Nos quatro cantos, anjos de mármore silenciosos estendiam as mãos sobre quem se banhava nela. Por trás da piscina, um prédio espelhado levava a uma sauna, uma piscina interna de água quente e uma área de lazer, com cadeiras, mesas e um sofá forrado com tecido impermeável. Havia também uma TV em um dos cantos, alguns livros e revistas (as revistas eram trocadas a cada semana, substituídas pelos exemplares mais novos) e alguns tabuleiros de jogos que ninguém nunca jogava.

Meu quarto era ao lado do quarto de Sara, no segundo andar. As cores do meu ficavam entre as tonalidades verdes, conforme eu escolhera, e Sara preferia os tons de rosa e branco. Assim que nos levantávamos e descíamos para o café da manhã, Helena, a arrumadeira silenciosa e invisível, entrava nos quartos e arrumava as camas, aspirava os tapetes e tirava o pó inexistente, e antes de sair, borrifava alguma coisa suavemente perfumada nos banheiros, trocando as toalhas que usáramos no banho. Quando o café terminava e nós subíamos para nos prepararmos para a escola já encontrávamos tudo limpo, cheiroso e arrumado. Nunca aconteceu de encontrarmos com a arrumadeira no corredor. Ela parecia ser realmente invisível. Parecia que estávamos em um hotel, e não em uma casa.

Quando comentamos com mamãe àquele respeito, ela nos disse que Helena acordava bem cedo, por volta das cinco da manhã, a fim de arrumar o restante da casa sem incomodar a ninguém, e que tinham sido treinados para serem os mais invisíveis que pudessem. 

Era muito estranho, para mim, ser tão rica. Sentia saudades da bagunça aconchegante da nossa antiga casa, das folhas secas sobre o gramado, das margaridas, rosas, cravos e demais flores todas crescendo juntas e misturadas nos canteiros, das árvores que cresceram onde tinham escolhido e que estavam lá há anos sem que ninguém as incomodasse. Eu sentia saudades de poder andar descalça dentro de casa, usar pijama o dia todo no final de semana, escutar música alta e ter os gatos dormindo comigo na cama (Afonso mandou preparar um quarto lindo e confortável para eles do lado de fora da casa, na ala dos empregados, e embora fosse cheio de almofadas macias e eles recebessem a melhor comida, eu frequentemente acordava durante a noite escutando seus miados de saudades). 

Tínhamos absolutamente tudo o que precisávamos, e muito, mas muito mais que apenas isso. Nada de economizar para comprar aquele tênis da moda, ou ir para casa da escola a pé, economizando o dinheiro da passagem para comprar sorvete no caminho. Nós íamos para a escola de carro, conduzidas pelo silencioso Carlos. Nossos amigos da escola olhavam e comentavam, o que nos deixava um pouco incomodadas. Notei que algumas de minhas amigas se afastaram de mim e passaram a me evitar na hora do recreio, e eu tinha dificuldades para entrar em um grupo quando a professora passava algum trabalho. Elas me tratavam bem, mas friamente.

Voltando a falar da casa, ela era linda, mas faltava uma coisa importante nela: vida. E os criados formais me irritavam. Eu sentia que de alguma forma, me desaprovavam. Suas pupilas cínicas, sob as sobrancelhas arqueadas, me olhavam da cabeça aos pés, demorando-se nas minhas pantalonas jeans quase sempre com os joelhos encardidos, e certa vez, Helena me perguntou polidamente se eu desejava que ela penteasse meus cabelos. No rosto, um leve toque de ironia disfarçada de servilismo. Não respondi, apenas balancei a cabeça, negando e olhando para ela da mesma forma que ela tinha me olhado.

Certa vez, levei um dos gatos para me fazer companhia na sala de TV. Geraldo entrou logo quando ele afiava as unhas na almofada, e quase teve um surto. Saiu apressado sem falar comigo, e minutos depois, minha mãe entrou, pegando o gato e dizendo que eles não podiam ficar dentro da casa. Fui atrás dela furiosa:

- Foi aquele almofadinha que te contou, não é?

Ela levou os dedos aos lábios, olhos arregalados, pedindo silêncio:

- Chiara, aqui não é a mesma casa de antes, não temos a mesma vida. Precisamos nos adaptar!

Desabafei:

- Eu estou tão cansada, mamãe! Não gosto dessa casa, não gosto dessas pessoas que trabalham aqui! 

- Mas eles são ótimos funcionários, e estão há anos na família! Afonso os considera muito, e ficaria muito chateado se ouvisse você falar assim deles, e de tudo o mais.

- Eu adoro o Afonso, mas mãe... não me sinto em casa!

Joguei-me em uma cadeira almofadada em dourado:

- Isso aqui... não tem nada a ver comigo! A Sara também não gostou (menti).

-Hum... ela parece muito bem adaptada.

- Mas eu não estou. Nem sequer posso trazer meus colegas da escola aqui! E eles estão se afastando cada vez mais de mim.

- Ninguém nunca disse que não poderia, Chiara! Se quer trazer seus amigos, tenho certeza de que Afonso não vai se importar. Será uma boa ideia, pois assim vocês poderão se aproximar novamente. Vamos fazer o seguinte: organizaremos uma festinha no final de semana!

Ao ouvir aquilo, me senti melhor. Comecei a preparar convites para o final de semana, após a total aprovação de Afonso, é claro, e ele me ajudou a escolher a comida para que tudo ficasse perfeito. Ele era muito atencioso. Ficamos elaborando o menu até tarde da noite de quinta-feira. Na sexta, distribuí os convites entre meus colegas de escola, e quase todos apareceram no sábado de manhã.

Foi um dia muito bom, até que inadvertidamente, no final da tarde acabei escutando uma conversa entre algumas meninas. Eu estava indo ao banheiro da piscina, quando as ouvi conversando dentro da sala da piscina coberta. Me escondi atrás de um biombo; eu queria apenas saber o que estavam achando da festa. Fernanda, minha melhor amiga, estava entre elas e escutava passivamente, enquanto uma das meninas dizia:

- A Chiara mudou, agora que a mãe se casou com um milionário. Só anda com aquelas roupas de menina rica e de carro com motorista. Nunca mais foi lá em casa.

Magoada, tive que admitir que era verdade: eu não visitava mais meus amigos, pois a minha nova casa ficava mais longe das casas deles. Ela continuou:

- Eu gostava tanto dela..., mas não sei se ainda gosto.

Uma das meninas respondeu:

-Acho que elas estão muito “metidas.” Olha só essa casa! Gente do céu... que ostentação! Minha mãe vive dizendo que a gente deve andar com quem é igual a gente.

Uma outra arrematou:

-Gente rica é diferente. Eu não queria morar em um museu desses. Os móveis são todos antigos, vocês viram? O chão brilha feito um espelho, dá até medo de andar sobre ele. E aqueles empregados de nariz em pé, circulando pela casa, olhando a gente como se fôssemos... ratos! Deus me livre.

Naquele instante, notei que meu estômago começou a revirar-se, e saí correndo, indo vomitar atrás de uma das moitas perfeitas do jardim. Cruzei a piscina e senti os olhares presos em mim, mas passei direto, descabelada, a camisa suja de vômito. Corri para o meu quarto e fechei a porta. Ao me olhar no espelho do meu banheiro privativo, vi que meu rosto estava vermelho. Minha respiração estava ofegante. Abri a torneira, enchendo a mão de água gelada, e lavei o rosto. O que mais me feriu, foi ver minha melhor amiga no meio daquela conversa sem nada dizer.

Alguns minutos depois, bateram à porta. Fingi não escutar, mas a pessoa do lado de fora insistiu, e então eu berrei:

-Vá embora, me deixe em paz!

Ao invés de passos se afastando, ouvi a maçaneta girar, e minha amiga Fernanda entrou, olhando em volta.

-Me disseram que você estava aqui.

Eu não respondi. Estava de bruços, atravessa da na cama, e estremeci ao ouvir a voz dela. Ela se sentou devagar na beirada da cama, ao meu lado.

-Me desculpe... vi quando você correu. Não era para você ter escutado.

-Mas eu escutei, e o que isso muda? É isso que pensam de mim, agora... vocês estão  roxas de inveja. Me admiro ter visto você lá, no meio daquela fofoca toda.

Ela não respondeu imediatamente. Respirou fundo antes de dizer:

-É, pode ser... talvez eu esteja morrendo de inveja de ter uma sargenta igual aquela cozinheira atrás de mim. Ou aquele mordomo Frankenstein de pé atrás de mim enquanto eu estou almoçando e jantando. Juro que eu adoro ter pesadelos à noite. Ou então estou com inveja de levar um escorregão naquele assoalho encerado e quebrar o pescoço.

Não pude deixar de dar uma risada leve, mas ela não percebeu. 

-Chiara, eu sinto falta da gente, de como a gente era... de ir à sua casa depois da escola, me sentar naquela mesa de madeira enorme e almoçar com você, só nós duas, enquanto sua mãe está no trabalho e Sara está brincando no quarto. Eu sinto falta de quando a gente se sentava em frente à TV para assistir à Sessão da Tarde juntas. Sinto falta das festinhas na sexta à noite. O que aconteceu com a nossa amizade? Você nunca mais me visitou!

Eu me virei para encará-la:

-Talvez porque você passou a me ignorar na escola! Você e todo mundo.

Ela concordou com a cabeça:

-Ok, você tem razão. É que a gente ficou assustado... de repente, nossa amiga virou milionária, tão diferente da gente. Me desculpe. E... você está certa, dá uma certa invejinha sim...

Nós rimos, e nos abraçamos. Voltei com ela para a festa, totalmente à vontade agora, e ela me ajudou a reentrar nos grupos. Depois daquilo, minha vida na escola e na casa ficou mais fácil. Passei a aceitar que minha vida tinha mudado, mas que eu podia continuar sendo eu mesma. E Afonso jamais me condenava por isso, aceitando meus jeans surrados, minhas músicas barulhentas, meus suéteres remendados quando eu estava em casa, meus chinelos de pano e até mesmo um gato ou outro dentro de casa. Acho que ele deu algumas ordens aos empregados também, pois eles passaram a ser mais tolerantes conosco, crianças, e pararam de nos perseguir e querer pentear nossos cabelos. Na verdade, depois que me acostumei com eles, percebi que não eram ruins – estavam apenas preocupados com o nosso bem-estar. Fernanda me ajudou a perceber isso, pois ela passou a ser frequentadora assídua da casa, e eu voltei a dormir na casa dela alguns finais de semana.

Tudo ia bem. Mas quando tudo vai bem, é porque geralmente há um período de preparação para algo muito ruim. Eu sabia disso, e estava muito apreensiva. Foi quando tive um novo sonho com minha avó, anos depois do último.

Ela me olhava com os olhos muito tristes, e me dizia que em breve perderíamos tia Samira. Eu já sabia daquilo, mas ouvir assim, tão diretamente, me assustou. E logo depois, o telefone tocou tarde da noite em uma sexta-feira. Estávamos todos na sala, assistindo a um filme. Geraldo atendeu, e depois falou alguma coisa baixinho no ouvido de Afonso, que segurando a mão de nossa mãe, levou-a até o aparelho. Eu e Sara nos entreolhamos, já sabendo do que estava acontecendo. Minha irmã segurou minha mão e começou a chorar baixinho.

No funeral de Tia Sara, pudemos rever nossos primos. Eles estavam ambos pálidos e calados, abraçados um ao outro e sendo consolados pelo pai. Nós os abraçamos, desejando os pêsames, e fomos ver tia Samira pela última vez, na companhia de Afonso. 

Minha mãe pousou os olhos sobre o rosto branco, e disse baixinho, colocando uma mão sobre as mãos de nossa tia:

-Eu te perdoo, irmã. Por tudo.

Ver tia Samira morta foi muito chocante para Sara, que nunca tinha comparecido a um velório antes. Acho que a morte de papai também voltou com força total para ela naquele momento, pois voltou para mim. Nós pensamos que estamos preparados para certas coisas, mas nunca estamos. 

Abraçamos nossos primos novamente. Ficamos os quatro juntos lá fora, aguardando o momento de fecharem o caixão. Eles não queriam estar presentes quando acontecesse. Havia um bonito jardim na casa funerária, e ao olhar para cima, vi uma pequena fadinha sentada em um galho de árvore, e fiquei surpresa, pois pensei que nunca mais as avistaria depois que nos mudáramos. A fada parecia triste. Nos olhava curiosa, as sobrancelhinhas caídas, abraçando os joelhos. Sorri para ela discretamente, ela me sorriu de volta, desaparecendo.

Eu não sabia o que dizer para Joana e Décio, então não disse nada, apenas os escutei quando eles falaram sobre a mãe, trazendo de volta velhas lembranças. Em certo momento, Joana disse:

-Depois que nossa mãe e a de vocês brigaram, nossa mãe ficou extremamente triste, deprimida mesmo. Passou vários dias quase sem comer ou dormir, e papai precisou interná-la em uma clínica durante algum tempo.

-Nós nunca ficamos sabendo disso, Joana! Sinto muito – eu disse. Ela concordou com a cabeça.

-Nós sabemos. Ela pediu que não dissesse nada a vocês. Mas ela nunca mais foi a mesma, parece que... – ela parecia procurar as palavras, mas Décio completou a frase:

-Parecia que a alma dela tinha ido embora. Estava sempre apática, indiferente. Nunca mais tivemos nossa mãe de volta. A não ser no final. 

Lamentei muito pelos meus primos, por todos nós. Quantas coisas deixáramos de partilhar devido a um erro que tia Samira cometera! Talvez, se ela não tivesse feito o que fez, não teria adoecido. Enquanto eu pensava naquilo, Sara colocou minhas exatas palavras na conversa:

-Uma pena que tudo aconteceu desse jeito, não é? Se ela não tivesse feito o que fez, talvez nem tivesse adoecido e morrido.

Meus olhos se arregalaram:

-Sara, pelo amor de Deus... (e me virando para meus primos): não liguem, ela não sabe o que está dizendo.

Décio nos acalmou:

-Deixa, prima... ela tem razão. Nossa mãe errou muito. Ela nos contou toda a verdade quando começou a adoecer. Sabemos de tudo. Sabemos que ela foi apaixonada pelo tio Pedro. Ela nos contou tudo.

Balancei a cabeça:

-Nem sei o que dizer... eu só sinto muito.

Joana começou a chorar, e eu a abracei. Ficamos ali, naquele lindo jardim, sentados naquele banquinho de madeira até a hora do funeral, quando nos levantamos e seguimos o cortejo a pé. Afonso foi sempre muito presente e compreensivo. Acho que se não fosse pelo total apoio dele, as coisas teriam sido muito mais difíceis para a nossa mãe. Achei que tivéramos muita sorte em encontrá-lo.

Quando tudo acabou, ele chegou junto aos meus primos e tio, e cumprimentou-os mais uma vez, dizendo:

-Sinto tê-los conhecido nessas circunstâncias. Vocês são sempre bem-vindos à nossa casa, a qualquer momento.  Gostaríamos muito que voltassem a participar da família, na qual eu agora me incluo. Seria um grande prazer recebê-los. 

Meus primos agradeceram polidamente, e tio Helvécio apertou a mão de Afonso. Antes de ir embora, ele disse, se dirigindo a todos nós – principalmente à mamãe:

-Nós estamos de mudança. As crianças estão morando com minha irmã, e eu aluguei uma casa para nós lá. Acho melhor, até que as crianças se formem. Ficar naquela casa seria muito difícil para todos nós.

Sara concluiu:

-Então... pode ser que fiquemos novamente muito tempo sem nos encontrarmos, não é?

Tio Helvécio concordou com a cabeça.

-Mas vocês todos serão também sempre bem-vindos por lá. Eu telefono para mandar o endereço. 

Porém, apesar de tantas promessas, passaram-se muitos anos antes que nós pudéssemos nos reencontrar.


(Continua...)






segunda-feira, 26 de julho de 2021

AS ESTRELAS QUE CONTEI - CAPÍTULO 8


 Capítulo 8


Quando batemos à porta da casa de tia Samira, cerca de quinze dias depois do nosso encontro, era uma fria tarde de junho, e estávamos todos um tanto sem graça: mamãe, Sara e eu aguardamos à porta, torcendo as mãos, até que a porta se abriu e revelou a imagem tão querida do nosso tio Helvécio, os cabelos quase total e precocemente brancos. Ao nos ver, ele abriu os braços para nós, e nos aconchegamos entre eles em um abraço que durou algum tempo. Eu sentira tantas saudades dele!

Finalmente, ele nos levou para dentro da casa, onde Tia Samira aguardava, recostada em uma poltrona, as pernas cobertas com uma manta e o rosto ainda mais magro do que quando eu a vira pela última vez. Ela tentou se levantar, mas Tio Helvécio fez com que permanecesse sentada. Sara e eu nos sentamos no sofá após beijarmos e abraçarmos nossa tia, e mamãe permaneceu de pé no meio da sala, olhando para ela.

As duas ainda se olharam durante um longo tempo. Minha mãe tinha lágrimas nos olhos. Tia Samira também. Vagarosamente, mamãe caminhou até ela, segurando brevemente a mão que minha tia estendera em sua direção. As duas explodiram em lágrimas amargas, mas não se abraçaram. Tio Helvécio sentou-se entre mim e Sara, passando os braços sobre nossos ombros. Achamos melhor deixá-las sozinhas, e fomos para a cozinha, enquanto ele nos preparou pessoalmente xícaras de chocolate quente e marshmellows, e nos contou que Décio e Joana estavam morando em outra cidade com uma irmã sua enquanto terminavam o segundo grau e estudavam inglês, mas que voltariam nas férias de julho para ver a mãe. Ele os transferiu, mesmo contra a vontade deles, para que tia Samira não precisasse se preocupar com nada, e eles pudessem se concentrar nos estudos.

Tomamos nossos chocolates em silêncio. Estar naquela casa me trazia tantas lembranças de uma época que fora tão boa em minha vida... senti muitas saudades de meus primos, das nossas bagunças, de tia Samira ralhando conosco por causa do barulho, enquanto ela e mamãe preparavam o lanche da tarde. 

Mais ou menos uma hora depois, nos despedimos de nossos tios. No carro, permanecemos calados durante quase todo o trajeto, comentando apenas amenidades. 

Mas ao chegarmos em casa, mamãe nos chamou para o seu quarto, fechando a porta. Eu e Sara nos sentamos na cama, e ela, em uma poltrona em frente a nós. Aguardamos, enquanto ela parecia tomar coragem para nos dizer o que tinha para dizer. Finalmente, uma voz fina e contida, que não parecia pertencer à nossa mãe, começou a falar:

-Vocês sabem o quanto sua tia está doente, não sabem?

Nos entreolhamos, Sara e eu, concordando com a cabeça. Mamãe continuou:

-Ela não tem mais muito tempo. Mas me disse algumas coisas que eu quero que vocês saibam, para que a lembrança do pai de vocês (a voz dela embargou) não fique maculada. Ela e seu pai nunca tiveram nada. Ela me disse que tentou, mas que ele nunca cedeu, porque nos amava muito, e nunca amou a ela como ela queria. Isso é tudo o que vocês precisam saber.

Me adiantei:

-Você a perdoou?

Mamãe fechou os olhos, respirando profundamente. Ao abri-los, ela negou com a cabeça.

-Talvez um dia eu consiga. Mas agora eu não posso. Mas não desejo o mal dela. E disse a ela que a tinha perdoado.

Compreendi a generosidade daquele gesto. Sara perguntou:

-Você ainda ama a tia Samira?

Minha mãe encolheu os ombros:

-Ela sempre será minha irmã... quero que aprendam isso: a família é importante, e mesmo que as pessoas façam coisas imperdoáveis, devemos amá-las. Mesmo se não pudermos perdoá-las ainda.

(CONTINUA...) 




sexta-feira, 16 de julho de 2021

AS ESTRELAS QUE EU CONTEI - Capítulo7



 Capítulo 7


Quando mamãe e Afonso se casaram, dois anos após aquela festa de aniversário de Sara, eu tinha treze anos, e ela, doze. Afonso teria se casado bem antes, mas minha mãe queria ter certeza de que ele seria não apenas um bom marido para ela, mas principalmente, um bom pai para nós. Fiquei muito feliz por eles, e queria muito que minha mãe e Afonso e todos nós pudéssemos ser uma família feliz, mas no fundo, eu sentia culpa por causa de papai. Era como se estivéssemos expulsando-o das nossas vidas. Mamãe dizia que mesmo que ele estivesse vivo, provavelmente não estariam mais casados, devido a “você-sabe-o-que”, segundo ela. Mamãe nunca mais pronunciou o nome de nossos tios e primos, o que me deixava bastante triste também, pois eu os amava, apesar de tudo que tia Samira fizera. 

Nossa vida tornou-se mais tranquila e eu voltei a escrever alguns meses antes do casamento. Pude finalmente colocar no papel as histórias que mamãe me contava sobre a nossa família – e também algumas histórias que eu mesma vivera e das quais ainda me lembrava, sobre as fadas que via quando criança. Essas eram minhas melhores histórias, e eu costumava lê-las em capítulos durante dez minutos no final das aulas a pedido da professora e dos meus colegas de classe, que não mais riam delas, mas adoravam escutá-las.

Quanto a Sara, já mais madura, eu sabia que ela conhecia a verdade sobre papai e já aceitava as coisas como elas tinham acontecido. O tempo foi o melhor remédio, exatamente como a psicóloga dissera.

Após a nossa festa de casamento, mamãe vendeu a nossa casa. 

Foi muito triste para mim deixá-la! 

Enquanto Sara estava muito excitada com a mudança, e não parava de falar na nova casa onde moraríamos, que era muito grande e ainda mais bonita que a de tia Samira, eu estava arrasada por dentro, embora tentasse não demonstrar. No dia em que o caminhão de mudança carregou nossas roupas e alguns dos nossos objetos mais queridos, pedi a mamãe e Afonso que me deixassem um pouco sozinha na casa. Eu queria me despedir. Dona Meire me convidou para passar aquela noite em sua casa, e Afonso viria me buscar no dia seguinte. Acenei um adeus para eles no portão, e então entrei na nossa velha casa vazia, que não era mais nossa. Os novos proprietários começariam a reformá-la em uma semana. Tinham dito que pretendiam derrubar a árvore do quintal, a nossa querida goiabeira, a fim de construírem uma piscina, e aquela perspectiva me matava de dor. Como alguém poderia derrubar uma árvore tão linda e tão antiga?

Mas não havia absolutamente nada que eu pudesse fazer; a casa agora era de uma outra família, com outros sonhos. Da janela da sala, eu olhava para a nossa árvore, os olhos embaçados de lágrimas, que logo rolaram como cascatas quentes sobre o meu rosto. 

E foi então que eu as vi novamente. Pareciam criaturas transparentes, masculinas e femininas, sentadas sobre os ramos da árvore, e pareciam todas muito tristes. Algumas delas acariciavam as folhas, outras voavam em volta da árvore e outras... olhavam diretamente para mim! Meu coração deu um pulo enorme, me sacudindo, quando uma delas acenou para mim, me chamando.

Corri lá para fora, sentando-me sob a árvore, enquanto elas rodopiavam a minha volta. Eu estava me sentindo profundamente triste, e ao mesmo tempo feliz por revê-las depois de tantos anos. Minhas amiguinhas de infância. Elas não falavam, mas comunicavam-se comigo através dos meus sentimentos e de ideias que surgiam em minha cabeça. Era uma comunicação fluida e perfeita. Não havia a menor possibilidade de que nós nos desentendêssemos ou interpretássemos erradamente as mensagens. Elas me diziam que estavam muito tristes por eu estar indo embora, e que jamais tinham me abandonado. Estiveram sempre ali, durante todos aqueles anos, mas foi necessário que elas desaparecessem para que eu pudesse crescer e amadurecer plenamente. Me pediram que não ficasse triste pela árvore, pois ela não sentiria nenhuma dor, e se transformaria em um outro ser que habitaria um outro jardim bem longe da Terra. Perguntei se elas poderiam ir comigo para a nossa nova casa. Elas se entreolharam, e compreendi que não.

Elas iriam para o mesmo local para onde a árvore iria, pois pertenciam a ela e suas energias estavam muito conectadas e totalmente integradas. Não voltariam à Terra durante muitos e muitos séculos, mas estariam bem, e estariam felizes. 

Compreendi que elas falavam sobre a morte, uma morte que eu crescera acreditando ser algo imensamente triste, uma separação definitiva entre os que iam e os que ficavam. Elas estavam me dizendo indiretamente, que assim que a árvore caísse, elas morreriam junto com ela. Aquele pensamento me fez estremecer e chorar ainda mais, mas uma delas se aproximou dos meus ouvidos, soprando dentro deles. Entendi: “Você deveria saber que ninguém morre, nada morre. Seus avós estão vivos, seu pai está vivo, todos continuam, só que em outro lugar. Você sabe disso.”

Perguntei se sentiriam dor, e elas responderam apenas com um silêncio afirmativo. Sim, elas sentiriam dor enquanto a árvore estivesse sendo cortada, pois eram a alma dela. Todas as árvores cortadas eram poupadas das dores porque elas a sentiam por elas. Era para isso que tinham sido criadas: para cuidar das plantas, árvores, mares e rios, enquanto eles estivessem vivos, deixando de estar presentes quando eles morriam. Era um trabalho difícil, pois cada vez mais árvores e plantas estavam sendo mortas todos os dias no planeta, e rios e mares sendo poluídos. Assim, o trabalho delas tornava-se cada vez mais doloroso, e elas me deixaram saber que no futuro, tudo seria ainda mais difícil.

Vislumbrei florestas inteiras sendo derrubadas, e grandes quantidades de lixo e de plástico sendo jogados nos oceanos e mares, matando milhares de animais. Fechei os olhos: não queria saber de nada daquilo. Mas elas me disseram que eu tinha uma missão quando crescesse: escrever. Eu deveria criar histórias que ensinassem às crianças a importância de amar e respeitar a natureza. Elas estaria comigo, lá de longe, me inspirando, como musas. Tive medo; era uma responsabilidade muito grande! E se eu não conseguisse? Elas me disseram que eu seria uma grande escritora, pois aquela era a minha missão. Tudo o que eu precisava fazer era escrever, e as coisas aconteceriam naturalmente. As portas se abririam e as pessoas certas se aproximariam e se encarregariam de me ajudar a divulgar o meu trabalho. Eu não deveria ter medo de nada. Tudo ia dar certo. 

Fiquei ainda algum tempo com elas, sob a árvore. Mas aos poucos, o céu escureceu e trovões começaram a ribombar. Grossas gotas de chuva começaram a tamborilar no chão de terra batida, espalhando partículas de areia. Elas me deram permissão para entrar. Atravessei o jardim e entrei em casa correndo. Quando cheguei à janela, não as vi mais. 

Porém, ouvi um ruído de passos atrás de mim, e realmente me assustei, chegando a gritar antes de me virar correndo e deparar com tia Samira de pé atrás de mim. Eu me surpreendi tanto com a presença dela ali, que não consegui dizer nada, e fiquei olhando para ela. Parecia bem mais velha que minha mãe, e mais magra. Ainda era muito bonita, mas os cabelos tinham ficado precocemente grisalhos nas têmporas e ela não se importou em tingi-los, como mamãe, sempre muito vaidosa, fazia questão. O coque baixo, na altura da nuca, fazia com que ela parecesse ainda mais velha. Eu estava muito emocionada de vê-la. Ela sorriu levemente, e rugas profundas se formaram nas laterais da sua boca. Tia Samira estendeu os braços timidamente, e eu me abriguei entre eles de olhos fechados, matando as saudades daquele perfume tão familiar e daquelas mãos que tanto me consolaram, banharam e alimentaram quando eu era pequena. Senti que os ossos dos seus quadris estavam bem mais duros e salientes sob a roupa. Passei os dedos de leve sobre suas costas, e senti suas costelas, uma a uma. Finalmente, ela me afastou de si, e me olhou nos olhos:

- Eu soube que sua mãe se casou de novo. Ela está bem? E Sara, e você? Estão todos bem?

-Sim, estamos, tia Samira.

Ela me olhou da cabeça aos pés, segurando minhas mãos:

-Olhe só para você! Está uma moça, e tão linda! E eu perdi vocês crescendo...

Baixei os olhos por não saber o que dizer. Afinal, ela fizera por merecer, por mais que eu a amasse. Mudei de assunto:

-E como estão o tio Helvécio, o Décio e Joana? Sinto tanta saudade deles! 

- Joana está linda, e Décio também. Ambos estão muito bem, mas sempre falam de vocês e sem tem saudades daqueles tempos. Eu... nós decidimos não contar nada do que aconteceu a eles. Helvécio achou que não os faria mais felizes, então inventamos uma história sobre sua mãe e eu termos discutido por outro motivo... Helvécio está bem. Ele... mudou muito, porém. 

Vi que lágrimas começaram a brotar nos olhos dela. 

-Tia, não quero soar cruel, mas o que vocês fizeram... como puderam fazer isso com a gente, com a mamãe?

Ela secou uma lágrima com as costas da mão, e notei que não pintava mais as unhas.

-Eu vim aqui hoje porque Dona Meire me disse que você estaria aqui sozinha. 

Arregalei os olhos:

- Vocês mantiveram contato?

-Sim, esses anos todos eu ligava para ela. No começo, se recusava a dar notícias, mas com o tempo ela me contava alguma coisa. Até que percebeu que eu estava arrependida de verdade. E depois, acho que teve pena de mim, simplesmente. Mas eu fiz ela me prometer que não comentaria com minha irmã nada sobre nossas conversas. Ela teria ficado furiosa. 

Ignorando o último comentário, perguntei:

-Pena? – perguntei. – Por que ela teria pena de você, tia?

Ela molhou os lábios secos com a língua.

- É que eu estou muito doente, Chiara. Não me resta muito tempo. Eu quis muito procurar sua mãe e contar a verdade, mas confesso que não tive coragem... pedia a Dona Meire que a sondasse, se ela aceitaria me ver de novo, e as respostas eram sempre tão negativas... numa das vezes, ela disse a Dona Meire que se me visse de novo, me daria outra surra. Sua mãe simplesmente não quer me ver, e eu não a culpo. 

Concordei com a cabeça. Nós nos sentamos em um velho tapete que mamãe abandonara. Ela encostou na parede e esticou as pernas, e fiquei chocada ao ver a magreza de suas canelas. 

Ela continuou:

-Mas eu quero que ela saiba da verdade.

-Sobre a sua doença?

-Não... isso é fato consumado. 

- Tia, eu não estou entendendo...

- -É que... seu pai, ele... nunca teve nada comigo, eu mandava aquelas fotos para ele... eu estava totalmente cega de paixão. Eu faria qualquer coisa, embora amasse vocês. Mas eu não conseguia esquecê-lo, e Helvécio sabia que eu estava apaixonada por Pedro. Poderia ter me deixado, mas me amava, e queria evitar um escândalo que pudesse prejudicar as crianças e também a união das famílias. E ele achava que nós ... eu e Pedro... nunca aconteceria, por parte de Pedro. E eu juro, Chiara, nunca aconteceu nada entre seu pai e eu.

Ela interrompeu sua fala com um soluço de dor. Tia Samira torcia os dedos, sem me olhar nos olhos. 

-Eu me sinto tão envergonhada por tudo o que tentei fazer! Mas eu estava tão apaixonada, era como se... um fogo queimasse dentro de mim e a fumaça me deixasse totalmente cega! Foram anos e anos de paixão represada que eu juro, fiz de tudo para matar! Mas naquela viagem que fomos todos juntos... lembra? A nossa última viagem? Eu não conseguia suportar estar perto dele e não ser notada! Eu... pedi a uma camareira do hotel que tirasse aquelas fotos, dizendo que queria surpreender meu marido. Mas depois passei a enviá-las ao seu pai, que nunca as mencionou, o que me deixava ainda mais furiosa, até que finalmente, ao falar com ele... ele me ameaçou. Disse que as mostraria ao Helvécio. Mas houve o acidente... e eu não sabia o que ele tinha feito com as fotos, até que a polícia as entregou justamente à sua mãe.

O olhar dela se perdia nas cenas que ela me descrevia. Eu só tinha treze anos, mas podia entender o que ela falava, pois eu mesma estivera apaixonada por um menino da escola que não ligava a mínima para mim, e sabia o que é o desprezo e a paixão recolhida. 

-Mas o que exatamente, você pretendia com tudo aquilo, tia Samira? Achava que papai ia deixar a mamãe para ficar com você? Acha que ele ia nos deixar, destruir a nossa família?

-Eu só queria... eu só queria uma noite com ele, só isso. E depois... eu não sei o que seria, o que poderia ter sido, mas eu ansiava por ele..., mas nunca aconteceu, e então, depois que ele morreu, e depois que sua mãe me expulsou, eu sofri muito e compreendi que de qualquer jeito, jamais teria acontecido por um único motivo: ele era louco por Vanessa. Ele era totalmente apaixonado por ela. Eu cheguei ao cúmulo, uma vez, de procurar uma mãe de santo, acredita? Eu desci ao último degrau para tentar conquistar seu pai. Para ter uma única noite com ele que fosse. Mas depois que ele morreu, não havia mais lugar onde eu pudesse colocar minha paixão por ele. E ela foi aos poucos morrendo, e dando lugar a um sentimento de culpa enorme, muita vergonha... e muita falta de vocês, saudade... eu finalmente caí em mim e percebi o ridículo de tudo aquilo, de toda aquela fantasia que eu criei na minha cabeça. Eu destruí a nossa família por causa de um delírio... e ao mesmo tempo, eu sei que não conseguiria fazer com que tivesse sido diferente.

Então ela me olhou, a cabeça rolando na parede atrás dela e os olhos dela procurando pelos meus:

-Você acha que sua mãe poderia me perdoar?

Fiquei sem saber o que dizer. Eu já a perdoara, mas mamãe tinha um gênio muito forte, e não deixava de ter razão. Mas ela precisava saber que jamais tinha sido traída, e quando soubesse, não sei se ela passaria a odiar a irmã ainda mais, por deixá-la acreditar que sim, durante queles anos todos após a morte de papai. Encolhi os ombros:

-Não sei, tia. De verdade, não sei.

Ela sorriu tristemente, e se ergueu com dificuldades, e eu também me levantei do chão. Ela me olhou mais uma vez, e eu soube que aquela seria a última vez que nos veríamos. Ela também. Eu sabia que ela sentia a mesma coisa. Senti um misto de nostalgia, tristeza, perda antecipada, amor jogado fora. Ela piscou um olho para mim, dizendo:

- Décio e Joana estão lá fora no carro. 

Meu coração deu um salto enquanto eu corria para fora. A chuva tinha passado, mas gotas ainda caíam das árvores. Corri pelo gramado, e quando eles me viram, saíram do carro, correndo na minha direção, e nos abraçamos, e choramos, e nos abraçamos de novo... choramos de novo... juramos que nunca mais nos distanciaríamos. Eles prometeram que nos visitariam na nossa nova casa. Ainda conversamos durante uma hora, enquanto tia Samira foi fazer uma visita ao marido de Dona Meire, que piorara bastante do Alzheimer. Falamos da escola, de velhas lembranças... brincadeiras que fizéramos ali, naquele quintal. Filmes que assistíramos todos juntos em noites de sábado. De vaga-lumes que capturávamos e colocávamos dentro de vidros, e depois soltávamos. Falamos das fadas que eu via (não mencionei que as vira novamente naquela tarde) e das brigas dos nossos pais, que na época, chegavam a ser até engraçadas, às vezes. 

Joana me disse que estava namorando escondido e queria ser médica. Décio era capitão do time de futebol da escola, e ia cursar engenharia quando crescesse. Tio Helvécio trabalhava muito, mas estava bem. Eles tinham se mudado de casa, e agora moravam em um grande apartamento na cidade, pois ficava mais perto das melhores escolas. Sentiam saudades de nós. Sentiam saudades de tudo. Jamais deixaram de pensar em nós, e nunca entenderam, realmente, o motivo da briga entre nossas mães após a morte de meu pai. E eu não contei nada a eles, deixando que continuassem a acreditar no que os pais deles tinham dito, seja lá o que fosse. 

A tarde deu lugar às primeiras estrelas, e finalmente, Tia Samira chegou de sua visita e levou meus primos embora. Mas prometemos que telefonaríamos, e que nas férias, eles iriam nos visitar.

Mas eu temia, enquanto olhava o carro se afastando, que minha mãe não entendesse e não quisesse saber deles. Voltei e tranquei a casa. Ainda fiquei no jardim, olhando as plantinhas e escutando os grilos, respirando o cheiro ativo de grama e terra molhada do jardim que eu nunca mais pisaria e que eu nunca mais sentiria. Atravessei o portão e olhei para trás pela última vez. A claridade do luar de setembro parecia uma aura em volta do nosso telhado.

Quando cheguei à casa de Dona Meire, ela tinha lágrimas nos olhos; seu marido acabara de falecer, assim que Tia Samira deixara a casa. 

Após o funeral, ela iria morar com um sobrinho em outra cidade. Nunca mais a vimos ou ouvimos falar dela. É engraçada a maneira como as pessoas vêm e vão, entram e saem de nossas vidas quando aquilo que tínhamos a aprender juntos termina. Serei sempre grata à Dona Meire, que nos ajudou no momento mais difícil de nossas vidas. Ela seria mais uma estrela no céu da minha vida.

Minha mãe escutou a história que contei sobre tia Samira, e exatamente como eu pensava, ficou furiosa ao saber que ela escondera a verdade aqueles anos todos, deixando que ela pensasse mal do nosso pai. 

Minha mãe chorou muito ao desenterrar aquelas velhas histórias. Afonso foi compreensivo e deixou que ela chorasse tudo o que tinha a chorar, secando cada lágrima que ela derramou nos dias que se seguiram e levando-lhe pessoalmente inúmeras xícaras de chá acompanhadas de pequenos doces para substituir as refeições que ela se recusava a fazer, até que ela finalmente saiu do quarto da nossa nova casa e declarou:

-Quero ver minha irmã.

Estávamos sentados no sofá da sala assistindo a um programa na TV, e todos nos levantamos ao mesmo tempo. Mamãe estava muito decidida.


(continua...)





AS ESTRELAS QUE EU CONTEI Capítulo 13

 CAPÍTULO 13 Achei estranho que o sol parecia nunca se por naquele lugar, e perguntei sobre isso. Imediatamente, começou a escurecer, e lind...