quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

INOCÊNCIA - Parte I - Capítulo VII









SOBRE MAMÃE

É claro que eu amava minha mãe! Ao contrário de sua irmã, Tia Aurora, minha mãe era uma pessoa calada e sem afetações. Alta, magra e elegante, vestia-se com simplicidade e esmero, mas não se preocupava com aparências. Costumava prender os cabelos em um rabo de cavalo ou em um coque, e raramente aparecia com eles soltos. Mas apesar de amá-la muito, eu era bem mais próxima de meu pai. 

Porque mamãe sofria de depressão, uma doença que naquela época era ignorada, considerada muitas vezes como “fricote de madame.” A doença a afastava de nós por longos períodos, nos quais ela se trancava no quarto e não falava com ninguém, e perdia a paciência facilmente. Naqueles períodos, ninguém ousava aproximar-se dela. Papai principalmente. 

Eu hoje vejo o casamento deles como uma relação que era cheia de silêncios e hiatos. Algo formal, quase forçado. Eles se davam muito bem, andavam de mãos dadas pela rua, recebiam os convidados com graça e simpatia, eram respeitosos um com o outro e pareciam apreciar a companhia um do outro, mas havia uma camada de gelo entre eles, algum mistério, que hoje eu sei o que é, mas que naquela época me deixava intrigada. 

Minha mãe era como um quadro na parede que eu passava horas apreciando, alguém cujos trejeitos eu às vezes tentava copiar. Eu a admirava. Durante um tempo, eu a odiei, e até mesmo desprezei. Na verdade, eu não a compreendia, como acontecia com a maioria das pessoas (exceto tio Duílio, sócio de papai, com quem ela parecia se abrir). Eles passavam horas conversando, e quando ele ia embora, mamãe parecia melhorar muito, e nossas vidas voltavam ao normal. Por isso, para mim as visitas dele eram sempre bem-vindas. 

Mamãe foi uma verdadeira leoa em ocasião da doença de meu pai, sempre ao lado dele, sempre tentando superar os próprios problemas a fim de cuidar dele. Passava dias a fio no hospital sem admitir que alguém a substituísse. Depois, caía em um longo período de letargia e sono. Acredito que estivesse sob o efeito de medicamentos. 

Pena que nossos últimos anos foram tão distantes... eu gostaria de poder fazer o tempo voltar a fim de acertar minhas diferenças com ela. Mas a gente sempre pensa que as pessoas estarão ali para nós a vida toda. 

(continua...)



segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

INOCÊNCIA - parte I- CAPITULO VII






MEU PAI

Meu pai era advogado, e chamava-se Nelson. Um nome simples para um homem de coração e hábitos simples. Era calado, e passava horas no escritório lendo jornal e estudando seus casos. Se era um homem bonito, não tenho muita certeza, mas minha tia Aurora de vez em quando comentava que ele era sim, um belo homem, ao contrário de seu marido, Tio Antônio, que ela dizia ter as pernas um pouco tortas. 

Meu pai era meu escudo, e existir sabendo que ele estava por perto me deixava sempre muito mais tranquila. Naqueles tempos, os pais tinham uma importância hierárquica muito diferente dos dias de hoje, e eram respeitados de uma maneira que os jovens de hoje não compreenderiam. Meu pai despertava respeito naturalmente, sem impor-se. E eu o amava loucamente!

Minhas melhores lembranças de infância são dos momentos que passamos juntos. Jamais me esquecerei da maneira como eu segurava seu polegar com meus dedos pequeninos de criança, enquanto passeávamos pela calçada de Rio da Prata e ele parava para cumprimentar conhecidos, que afagavam o topo da minha cabeça. Papai dizia: “Esta é a minha mais nova, Yara.” E o orgulho na voz dele me fazia inflar o peito. 

Muitas vezes ele foi severo comigo, e me disse coisas que me magoaram muito – talvez porque o amor que eu sentia por ele era tão profundo, que magoar-me era muito fácil. Passei algumas noites sem dormir pensando em como fazê-lo me amar de novo, após as broncas, sem nem imaginar que elas existiam justamente por causa do amor dele por mim. 

A insegurança que senti durante sua doença enchia minhas noites de fantasmas. Sofri muito, e amadureci precocemente por isso. O medo de perder meu pai era tão grande, que eu às vezes rezava e pedia a Deus que, se ele tivesse que ir embora, que me levasse junto. Secretamente, eu preferiria perder mamãe a perdê-lo, mas não confessava isso nem a mim mesma. Meu pai, mesmo doente, sempre foi a mão firme que me segurava nos meus momentos de fraqueza. E ele nem precisava dizer nada: bastava me olhar. Bastava puxar o lenço que sempre carregava no bolso e estendê-lo para mim quando eu chorava, passando a mão de leve sobre o topo da minha cabeça antes de ir embora. 




(CONTINUA...)

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

INOCÊNCIA - Parte I, Capítulo VI







SOBRE SEBASTIAN

 Berta e Sebastian se conheceram no penúltimo ano letivo, quando ele começou a estudar na mesma escola conosco. Sua família tinha acabado de mudar-se, vindos de Porto Alegre, e quando os dois se olharam, foi amor à primeira vista. Berta tinha quinze anos na ocasião, ele, dezessete. Papai não queria que minha irmã namorasse, e houve muitos episódios estressantes por causa disso, mas mamãe acabou convencendo-o de que o que quer que os dois pombinhos pudessem fazer juntos seria melhor se o fizessem com o conhecimento dos pais, ao invés de sem a presença deles. Assim, os dois começaram a namorar em casa, o que naqueles tempos, era sinônimo de namoro sério. Porém, só podiam se encontrar duas vezes por semana, e sempre na companhia de alguém.

Sebastian era atleta na escola. Bonitão, estava sempre cercado de amigos e principalmente, de garotas. Mas ele abdicou de todas elas quando conheceu Berta. Eu tinha uma quedinha por ele, e gostava de fantasiar o dia em que ele olharia para mim e diria: “Nossa, Yara, como você cresceu! Isso me faz pensar que a mulher da minha vida, na verdade é você!” E então ele me beijaria e nós nos casaríamos, vivendo felizes para sempre. Eu tinha apenas nove anos naquela época, e Sebastian me tratava como a uma criancinha. Quase o odiei quando, em um aniversário, ele me presenteou com um fogãozinho de brinquedo!

Quando Sebastian foi à nossa casa pela primeira vez, eu me lembro que me sentei nos degraus mais altos (de onde ele não podia me ver) e fiquei olhando para ele. Uma coisa que eu nunca contei a ninguém, nem mesmo anos depois, foi o seguinte: Cristina entrou na sala com uma jarra de suco, e começou a servi-lo. Ela tinha prendido os cabelos, e estava muito bonita em um vestido azul-claro que fora de Berta. O vestido marcava sua cintura fina e mostrava suas canelas bem torneadas. Quando ela se inclinou para servi-lo, vi que Sebastian quase mergulhou dentro do decote do vestido dela. Cristina sorriu para ele, e ele retribuiu o sorriso, perguntando: “Quem é você?” Ela baixou os olhos, e murmurou seu nome. Os dois ficaram se olhando por um tempo, e ela finalmente deixou a sala. Naquele momento, Berta passou por mim, que ainda estava sentada nas escadas, e começando a descer, me disse para não ficar bisbilhotando. Meus pais chegaram na sala e os três cumprimentaram Sebastian.

Apesar das advertências de  Berta, eu não deixei meu posto, e continuei bisbilhotando aquele moço bonito que tinha ido namorar a minha irmã. De repente, Cristina entrou na sala novamente para avisar que o jantar estava servido, e vi que os olhos de Sebastian novamente se arregalaram ao olhar para ela. Vi também o olhar ressentido de Berta em direção a Cristina, que sorria. Berta se ergueu do sofá, e pegando Cristina pela mão, apresentou-a a Sebastian: 

Deixa eu te apresentar Cristina. Ela é filha de Eugênio, nosso jardineiro, e Flora, nossa empregada. É cria da casa.

 Vi o rosto de Cristina ficar muito vermelho, enquanto Sebastian a cumprimentava com um sério 'muito prazer' e um leve aceno de cabeça. Ela voltou para a cozinha e não reapareceu naquela noite.

Eu não entendi o que estava acontecendo naquela época, mas mais tarde compreendi que Berta tentara colocar Cristina “em seu verdadeiro lugar.”  Eu gostava de escutar atrás das portas quando criança, e naquela mesma noite, quando escapei do meu quarto de dormir para ir ver estrelas no jardim como gostava de fazer, escutei vozes alteradas na casa de Cristina; Eugênio gritava: 

-Você não pode continuar achando que é uma deles! Foi bem feito para você!

 Cristina tinha a voz chorosa e era difícil entender o que ela dizia, mas ouvi fragmentos como 

Ela me humilhou... não esperava isso dela... pensei que era minha amiga...

 E então a voz de Flora os interrompeu, firme e forte: 

-Seu pai tem razão, Cristina. Somos empregados aqui. Que ideia foi aquela de olhar para o namorado da patroa? Está querendo arranjar problemas para nós? Quer que sejamos mandados embora daqui?

 Eu não consegui ouvir mais nada, pois saí correndo dali, a garganta doendo pelo aperto que eu sentia. Desabei junto ao riacho, onde a lua se refletia na água corrente.

Como eles poderiam dizer aquelas coisas para Cristina, que era a própria filha deles? Ela não era uma empregada! No dia seguinte, perguntei discretamente à mamãe o que significava ser uma “cria da casa,” e notei que ela compreendeu que eu andara ouvindo conversas; ela respondeu, sem me dar muita atenção: 

-Cria da casa é alguém que trabalha em um lugar desde pequeno. Uma empregada, por exemplo.

A verdade daquilo doeu em mim: Cristina era uma empregada. Eugênio e Flora eram empregados. Não eram como eu. Não eram como nós.

Cristina jamais poderia sonhar com alguém como Sebastian.

(continua...)




segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

INOCÊNCIA - Parte I, capítulo V





TIA AURORA E TIO ANTÔNIO

Tia Aurora era uma “mulher de revista” – era assim que eu me referia a ela, quando ela não estava presente. Era parecida com aquelas mulheres que apareciam na capa da Revista Cruzeiro dos anos 60, que estavam esquecidas sob a mesinha de telefone do corredor lá em casa: sempre impecável, maquiada e bem penteada, com um sorriso branco demais no rosto, emoldurado por um batom vermelho berrante. Gostava de usar um avental leve sobre o vestido quando estava em casa, embora todos soubéssemos que ela só entrava na cozinha para dar ordens. Extremamente preocupada com aparências, muito doce, de fala mansa e calculada, Tia Aurora era o retrato de tudo o que se podia chamar convencional. Nunca dizia ou fazia nada que fosse imprevisível, nunca contestava ninguém, nunca discutia as regras. A esposa perfeita, a mãe perfeita, a dona de casa perfeita, a grande dama da sociedade. Eu nunca escutava Tia Aurora perder a paciência ou gritar, e se ela o fazia, jamais o fazia em público. Chamava sempre Tio Antônio de 'querido' em público. Nós crianças costumávamos imitá-los quando eles iam embora, e mamãe ralhava conosco quando isso acontecia, enquanto papai dava gargalhadas.

Era muito comum, ao visitá-la de surpresa, encontrá-la vestida e maquiada, arrumando flores em um vaso grande sobre a mesa de jantar. Ela olharia para nós e diria: “Oh, querida, que surpresa agradável!” Deixando todos com a impressão de que, na verdade, não era surpresa nenhuma, e que ela calculara cuidadosamente aquela cena. Um dia, Joana me contou que era verdade; se sua mãe olhasse pela janela e visse alguém chegando na estradinha que levava à casa, ela corria para a sala de jantar, e retirando as flores do vaso, passava a arrumá-las de novo.

Tia Aurora parecia inofensiva, e era assim considerada pela maioria das pessoas: frívola, alegre, coquete. Mas por trás daquela máscara de perfeição e solicitude (eu descobriria mais tarde) havia o medo de ser julgada e uma disposição imensa para julgar a todos. Casara-se com Tio Antônio, dez anos mais velho, quando ainda tinha dezesseis anos, e todos diziam que tinha sido um casamento arranjado. Mamãe era considerada a rebelde da família, enquanto Tia Aurora era a filha perfeita. Não conheci meus avós muito bem, pois morreram quando eu ainda era bem pequena, mas Berta me contava que os pais de mamãe e Tia Aurora eram um casal quatrocentão, tradicional e cheios de convenções e preconceitos.

A casa de meus tios era o oposto da nossa: sempre muito arrumada, limpa e organizada, impecável em todos os aspectos. Não havia sequer uma parede com marcas de umidade; a casa era sempre repintada, e qualquer pequeno problema era imediatamente consertado. Havia muitas peças de arte, vasos caríssimos dos quais nós crianças estávamos frequentemente sendo advertidos para mantermos distância, pisos espelhados de tão brilhantes, e roupas de cama perfumadas. O jardim devia ser uma réplica do jardim do Éden, eu acho. Nenhuma flor fora do lugar, nenhuma folhinha fora dos limites da poda. Eles tinham três empregadas trabalhando dentro da casa, e dois jardineiros. Mesmo assim, em casa Tia Aurora usava aqueles aventais impecáveis em tons pastel sobre seus vestidos perfeitos.

Tio Antônio era muito mais simples e menos sofisticado, embora seguisse os padrões impecáveis de vestir-se. Eu não prestava muita atenção nele, talvez porque ele estivesse sempre trabalhando, ora na fábrica de laticínios, ora no restaurante luxuoso que mantinha na cidade. Costumava chegar tarde em casa todas as noites – muitas vezes, de madrugada – e também viajava muito. Mamãe maliciosamente dizia que por isso os dois ainda eram casados, pois quem poderia suportar conviver com alguém tão perfeito como Tia Aurora? Enfim: meus tios eram a parte rica da família. Meu pai era advogado e mantinha sua própria firma, o que era considerado uma profissão muito rendosa naqueles tempos, mas estávamos longe de sermos ricos. Além disso, meus pais nunca gostaram de ostentar.

Nossa casa era limpa, mas um tanto bagunçada, pois era para lá que as crianças iam quando queriam brincar. Porque  lá nós podíamos correr no jardim sem medo de pisar no gramado,  brincar de guerra de água de mangueira, ficar enlameados até a alma e depois tomar banho no banheiro do jardineiro, que ficava do lado de fora. As crianças podiam brincar de esconde-esconde dentro de casa, por trás dos sofás, sem medo de quebrar coisas valiosas, pois elas não existiam em nossa casa de campo. Mas quando as brincadeiras terminavam, mamãe nos punha – eu, Berta, Cristina e até Joana – para limpar tudo e guardar os brinquedos. Não gostava de sobrecarregar Flora por causa de nossas “artes.”

Mas em casa de meus tios, só podíamos ouvir música (sem dançar), assistir TV ou pular corda no quarto de brinquedos – um espaço no sótão da casa onde meus tios tinham forrado o piso com um carpete grosso, para não fazer muito barulho, e colocado caixas e prateleiras cheias de brinquedos com os quais ninguém mais brincava por medo de quebrá-los e ficar de castigo.

Eu amava meus tios, e sei que eles nos amavam à sua maneira. Tia Aurora era carinhosa comigo e com Berta, e sempre nos presenteava com coisas caras em nossos aniversários. Mamãe e ela eram boas amigas, apesar das diferenças, e costumavam fazer compras juntas quando estávamos por lá. Nós nos visitávamos e comíamos juntos com frequência. E eu simplesmente amava entrar naquele restaurante maravilhoso que pertencia aos meus tios, e que ficava situado em uma enorme mansão na cidade, e ser atendida por garçons de luvas brancas que nos levavam até a nossa mesa e nos serviam com toda cerimônia. Aquelas eram ocasiões muito felizes, e eu me lembro com carinho de todas elas. Mamãe nos fazia vestir nossos melhores vestidos. Às vezes, quando nós insistíamos, ela deixava que Cristina nos acompanhasse, mas ela mesma fazia questão de escolher um dos vestidos de Berta para ela usar, e também fazia com que Cristina nos acompanhasse ao salão de beleza antes dos eventos.

(continua...)



Inocência - Parte I, capítulo IV





SOBRE MARCELO E JOANA

Marcelo e Joana eram nossos  primos. Nós nos encontrávamos durante as férias, todos os anos. Eles viviam em Rio da Prata, e fora por isso que mamãe e papai quiseram comprar a casa de campo lá. Assim, mamãe poderia continuar mantendo contato com sua única irmã e seus sobrinhos, já que elas só tinham uma a outra.

 Marcelo era um menino bonito, mas não bonito demais. Lembro-me de que até os dezesseis anos, ele era muito magro e alto, tinha espinhas na testa e pés grandes demais, e nós colocávamos apelidos nele por causa disso. De repente, parece que os hormônios masculinos começaram a fazer o seu trabalho, e as espinhas desapareceram, o queixo ficou mais quadrado, os músculos surgiram e ele se transformou em um belo exemplar masculino, um “partidão”, como se dizia na época, pois o pai era dono de um restaurante e uma fábrica de laticínios na cidade, e a família podia ser considerada rica para os padrões locais. Mas a vida toda ele só teve olhos de verdade para uma mulher: Cristina.

Joana era uma menina mimada, um tanto afetada. Não sei como ela gostava de andar comigo, pois ela era o padrão perfeito da menina rica e mimada, e eu, a menina de classe média revoltada e rejeitada. Mas Joana parecia gostar de mim de verdade, o que era um ponto a meu favor, já que ela era muito seletiva com suas amizades. Durante o ano, quando não estávamos na casa, eu sabia (de ouvir falar) que ela só andava com as meninas de classe alta da cidade. Mas quando eu chegava, ela parecia tirar férias daquilo tudo. Um dia, Joana me confessou que achava suas amigas chatas e pedantes, e que só andava com elas porque as meninas mais simples não lhe davam atenção, e seus pais (principalmente tia Aurora, que se preocupava muito com aparências) lhe pediam que ela tivesse boas relações com as pessoas que realmente “faziam a diferença.”

Quando estávamos por lá, quase sempre encontrávamos nossos primos. Às vezes eles viajavam de férias para outros lugares, mas sempre voltavam antes que nós fôssemos embora. Gostávamos sinceramente uns dos outros. Principalmente naqueles tempos em que eu não procurava defeitos nas pessoas, aceitando-as como eram sem discutir, e dando o melhor de mim sempre, sem ficar pensando se eu recebia a mesma coisa de volta. Mas se existe uma coisa que a inocência nos tira, é essa coisa de doar-se sem restrições. O medo de ser ferido faz com que nos tornemos cínicos, hesitantes e desconfiados. E eu fui me tornando assim com o passar do tempo, sem perceber. Papai tentou conversar comigo sobre isso algumas vezes – em uma delas, ele já estava doente – mas eu simplesmente não quis ouvir.

Zangado, após eu procurá-lo após uma discussão com Berta, mesmo fraco e acamado, ele me segurou pelo braço, e me olhando nos olhos, disse: 

-Você vai acabar sozinha se não aprender a controlar esse gênio terrível e parar de julgar as pessoas segundo seus padrões limitados de comportamento!

 Chorei muito naquele dia, e fiquei zangada com ele.


(continua...)

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

INOCÊNCIA - PARTE 1, CAPÍTULO III







SOBRE BERTA

Quando eu nasci, Berta tinha seis anos. Mamãe contava que começara a sentir as dores do parto na véspera do aniversário de Berta, e devido a correria, todos tinham se esquecido de comprar-lhe um presente. Até mesmo vovó, que ainda era viva naqueles tempos. Quando me trouxeram para casa (as pessoas contavam aquelas histórias achando muita graça, menos Berta, que escutava tudo de braços cruzados e cara fechada), mamãe pareceu se lembrar do aniversário de sua filha mais velha de  repente, e por falta de presente, sentou Berta no sofá, colocando-me no seu colo e dizendo: “Tome! Aqui está o seu melhor presente: uma irmãzinha!” Dizem que Berta pareceu confusa, e depois começou a chorar e berrar tão alto, que tiveram que me tirar do seu colo!

Nossos aniversários – meu, de Berta e de Cristina - eram comemorados juntos, já que havia apenas uma semana de diferença entre as datas de Berta e Cristina e  um mês de diferença entre as datas de Berta e eu, e minha irmã odiava ter que aturar as decorações nas festinhas. Cristina não se importava, e até ajudava nos detalhes.

Não sei se por causa do nosso começo traumático, sempre senti que Berta guardava um pouco de ressentimento contra mim. Sabia que ela me amava, assim como eu a amava muito, mas às vezes, ela agia de maneira um pouco cruel, e sabia ser competitiva – principalmente quanto à afeição de papai, de quem sentia muito ciúme. Mas para seu desgosto, papai sempre demonstrou um carinho enorme por mim. Ele me chamava de “Minha Bonequinha.” Até mesmo depois que me tornei adulta. É claro que ele amava Berta, mas às vezes, ele se esquecia de deixar aquilo bem claro para ela. Berta orbitava em volta dele, principalmente quando eu estava por perto. Ela o rodeava quando ele estava no escritório, lendo seu jornal, e eu brincava de recortar minhas bonecas de papel sobre a sua escrivaninha. Berta chegava por trás dele e o abraçava, cobrindo-o de beijos. Papai às vezes ralhava com ela em tom de brincadeira: “Hey! Desse jeito, você vai acabar me enforcando, menina!”

Aquilo era o suficiente para que Berta saísse da sala pisando duro e me olhando de soslaio, como se eu tivesse alguma culpa.

Papai adorava sair com a gente. Aos sábados, enquanto mamãe e Flora cuidavam da casa e preparavam o almoço, ele colocava a mim, Berta e Cristina no carro, e nos levava ao zoo, à praia ou a qualquer outro lugar que crianças adoravam. Às vezes ele nos levava para pescar no lago. Quando  meus tios Aurora e Antonio compraram uma casa de campo perto da nossa, ele também levava meus primos Joanna e Marcelo. Éramos cinco crianças ao todo, e Berta quase tinha um ataque de nervos se ela não viajasse no banco da frente, perto de papai. Nós nos ajeitávamos na traseira do Aero Willys de papai. Aqueles eram dias felizes! Por volta do meio-dia e meio, estávamos todos em casa, e corríamos para tomar banho antes do almoço. Eu e Berta tínhamos permissão para usar o banheiro da suíte dos nossos pais, que tinha uma banheira enorme, enquanto meus primos tomavam banho em sua casa e Cristina podia tomar banho na nossa casa, no banheiro do corredor. Ela adorava usar nosso banheiro, pois dizia que ele era grande e arejado, diferente do banheiro do apartamento sobre a garagem onde ela morava com os pais, que era pequeno e escuro, sem janelas, com apenas um pequeno basculante.

Depois almoçávamos todos juntos. Se o dia estivesse bonito, Flora e Eugênio armavam uma grande mesa no jardim, debaixo da jabuticabeira, e juntavam-se a nós. Aquelas tardes sempre terminavam com todo mundo dançando “Twist” no piso escorregadio da varanda. Às vezes, eu me afastava de todos e ficava sentada em um canto, observando tudo aquilo, sentindo uma saudade estranha e sem razão de ser. Intuitivamente, eu sabia que um dia tudo aquilo seriam apenas memórias... eu nem suspeitava, ainda, que a perda da minha inocência seria uma coisa gradativa, e que cada episódio causaria muita dor. Aqueles dias se aproximavam no horizonte. Vinham junto com as nuvens negras de chuva que os derramavam sobre o telhado feliz da nossa casa. Aos poucos, eles aguardavam nos cantos da casa, em volta do jardim, prontos para esperar a hora certa para destruir tudo.

Berta tinha muitos amigos na escola. Era muito popular, e muito bonita também, embora eu achasse que ela não fosse tão bonita quanto Cristina. Ela tinha uma personalidade alegre, quase esfuziante, dominadora. Uma líder nata. Aonde quer que Berta estivesse, estaria cercada de admiradores. Os rapazes se apaixonavam por ela facilmente, embora raramente fossem correspondidos, e as moças tentavam copiar seu modo de vestir e se pentear. Eu a admirava, mas a maneira condescendente e distante com a qual Berta me tratava, fazia com que eu me mantivesse longe. Eu queria muito que ela me amasse. Faria qualquer coisa para que aquilo acontecesse, e quanto mais eu tentava e fracassava, mais eu me aproximava de Cristina. Berta não me tratava mal; simplesmente me ignorava a maior parte do tempo. Quando eu forçava as circunstâncias para tentar ficar por perto, ela se irritava e me colocava para correr, dizendo que eu não passava de uma criança. Se eu conseguisse ficar longe dela e de seus amigos, e fizesse tudo o que ela queria (às vezes ela precisava de mim para que papai a deixasse ir a certos lugares aos quais não permitiria que fosse sozinha, principalmente quando começou a namorar Sebastian) ela me tratava muito bem. Se eu concordasse em fazer pequenas tarefas para ela, quando estava em casa rodeada de seus amigos, como ir até a cozinha e pedir que Flora preparasse um lanche para todos, ela me tratava bem e permitia que eu ficasse por perto observando, “desde que eu não fosse uma intrometida.”

Quando eu reclamava com mamãe sobre essas coisas, ela apenas dizia, sem dar muita atenção às minhas mazelas: “Sua irmã já é uma mocinha. É natural que ela queira estar entre pessoas da sua própria idade. Você precisa fazer seus próprios amigos, Yara.” E eu tentava. Mas acho que na tentativa de parecer-me com o que eu achava que Berta era, e de agir como ela agia, as outras crianças acabavam me achando autoritária e metida, se afastando de mim. Daí eu me agarrava à Joana, e ficava pendurada na saia de Cristina quando me sentia fragilizada.

Eu tinha poucos amigos na escola, e era muito comum que eu fosse excluída das festinhas. Muitas vezes, na segunda-feira, eu escutava os comentários dos colegas antes das aulas, enquanto eles falavam das festinhas de aniversário no final de semana anterior – as quais eu quase nunca era convidada. Eu sofria com aquilo, mas fingia não ligar.

Mas Berta era convidada para tudo. Tanto, que muitas vezes tinha dois eventos em uma só noite. Todos a queriam por perto. Eu crescia à sombra de minha irmã mais velha, amando-a e me sentindo sempre apagada junto a ela, que nada fazia para que eu me sentisse bem-vinda. Se eu sabia que ela gostava de mim, eram por causa das raras ocasiões em que ela me defendia do bullying no pátio da escola, e convencia mamãe a me comprar presentes caros de aniversário que ela sabia que eu gostaria de receber. Então eu me sentia no céu! Quando eu e Berta estávamos bem uma com a outra, eu era a pessoa mais feliz e realizada do mundo.

Mais velhas, os ciúmes e a impaciência de Berta diminuíram. Nos tornamos boas amigas. Mas eu não mais precisava da amizade dela tanto assim, pois crescera sem a atenção dela, e acabei me acostumando com aquilo. Então eu me sentia mais tranquila em relação a ela, sem a necessidade de chamar sua atenção ou conseguir sua aprovação. Por incrível que pareça, aquela atitude a trouxe para mais perto de mim – não sei se por curiosidade ou admiração. Com o tempo, compreendi que aquela mania de Berta de sempre fazer questão de estar cercada de pessoas, era carência, e não auto confiança. Ela liderava porque tinha medo de desaparecer; ela temia a solidão. Ela precisava estar no centro para saber quem ela era. Ela tinha uma necessidade quase mórbida de saber-se amada, pois ela se via dentro dos olhares alheios, e não diante do próprio espelho. Berta precisava de aprovação constante, e não sabia lidar com críticas ou fracassos.

Mesmo durante os muitos anos que passamos separadas, ela tentou me procurar poucas vezes, e não insistiu quando não lhe dei atenção. Na verdade, eu queria que ela tivesse insistido; mas Berta tinha medo de ser deixada ao relento. Ela não queria insistir, pois não suportava a rejeição. Não sabia lidar com uma pessoa que não fizesse exatamente o que ela queria, e eu não estava disposta a continuar fazendo. Eu pensei que ela tinha desistido de mim porque não me amava, mas não tinha sido por isso que ela simplesmente me deixou ir embora. Descobri isso muito mais tarde – quem sabe, tarde demais. É que ela não conseguia sentir-se rejeitada. É que ela me amava demais para isso.

Quando papai morreu, eu tinha vinte e cinco anos, e ela, trinta e um. Ela não derramou uma lágrima sequer durante o velório, enquanto eu simplesmente me desmanchava. Mas quando todos foram embora, encontrei-a sentada na sala escura, os olhos vermelhos, as mãos trêmulas. Eu não sabia que ela estava ali. Quando acendi a luz e deparei com ela ali sozinha, ela se levantou e veio até mim, implorando:


-Por favor, Yara, não vá embora... eu não sei ficar sozinha...

 Eu segurei as mãos dela, repetindo que ela jamais estaria sozinha, pois tinha Sebastian, tinha mamãe e tinha seus amigos. Ela ficou me encarando durante muito tempo, e vi quando parou de chorar e suas sobrancelhas se crisparam de dor. Na hora, eu não compreendi aquilo, não sabia por que ela me olhava como se eu não tivesse entendido alguma coisa... ela respirou fundo, suprimindo um novo soluço, e concordando com a cabeça, deixou a sala. Hoje eu entendo o que ela quis dizer com aquele gesto e aquela súplica: Era de mim que ela precisava. Era a mim que ela queria ter por perto. Ela abriria mão de tudo se eu apenas ficasse e a ajudasse a passar por tudo aquilo.

Quando Berta compreendeu a minha importância, eu compreendi que, apesar de importante, ela não era indispensável à minha vida. Entendi que era capaz de me virar sozinha, e foi ela quem me ensinou a não depender dela, a não confiar em ninguém. Quando ela finalmente compreendeu que precisava de mim, eu já não mais precisava dela. A vida é engraçada.

(continua...)





segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Inocência - Parte I, capítulo II






SOBRE CRISTINA

Porque eu tinha crescido acreditando que eu tinha uma família perfeita, eu me orgulhava muito daquela ideia. Enquanto as casas dos meus amigos da escola começavam a ruir – eram os anos setenta, e os divórcios começavam a modificar as estruturas familiares, eu me orgulhava do casamento sólido dos meus pais, da estrutura segura da qual eu e minha irmã dispúnhamos. Adorava acordar no meio da noite e escutar, no corredor vindo do quarto dos meus pais, a respiração deles enquanto dormiam.

Lamentava ver os lares desfeitos dos meus colegas de escola, que ficavam divididos entre seus pais e suas mães, que brigavam na justiça para obter pensões ou a guarda deles. Algumas situações eram ainda piores, pois os pais simplesmente saíam de casa portando suas jovens namoradas e nunca mais queriam saber dos filhos. E as mulheres divorciadas eram vistas com receio pela sociedade, caso os maridos as tivessem deixado, e com desprezo, caso elas tivessem deixado seus maridos. De qualquer forma, a culpa era sempre da mulher, não importando se seus maridos tinham ido embora, trocando-as por exemplares mais jovens.

Mas eu me considerava livre daquelas classificações, pois tínhamos “um lar sólido”, como Flora gostava de dizer.

E é claro, eu tinha Flora, a minha segunda mãe. A minha Mãe Preta. Ela estava conosco desde que eu nascera, ou melhor, antes disso. Ela sempre existira em nossas vidas, e era parte da nossa família, e quando casou-se com Eugênio, segundo mamãe contava, eles tiveram muito medo de perdê-la. Assim, meus pais ofereceram a ele um emprego de jardineiro e caseiro, e Eugênio passou a ser um novo membro da família. Mais tarde descobri que a história não era bem aquela, mas durante anos, ela bastou para mim.

Eugênio e Flora viviam em um pequeno apartamento de dois quartos que ficava sobre a garagem. Tomavam conta de tudo enquanto estávamos na cidade estudando ou trabalhando. Quando a família chegava, nas épocas de férias, natal ou finais de semana prolongados, eles estavam lá para nós. No começo, chamavam a atenção de todos por serem um casal inter-racial – Eugênio era branco e tinha olhos azuis, e Flora era negra. Esse tipo de coisa costumava chamar a atenção, principalmente numa cidade pequena como Rio da Prata. Mas o casal logo deixou de ser a curiosidade local, sendo aceito pela maioria dos moradores – a não ser algumas velhas famílias mais “tradicionais” que faziam questão de torcer o nariz quando um deles passava por Eugênio ou Flora no mercado.

Rio da Prata, que fica no interior de Minas Gerais, é uma cidade pequena, que naqueles tempos sobrevivia principalmente da atividade do comércio local e de uma ou duas fábricas que existiam por lá, sendo que uma delas, de laticínios, pertencia ao meu tio Antônio, casado com a irmã de minha mãe. Tínhamos apenas dois cinemas, um hospital, alguns restaurantes (o maior e mais tradicional também pertencente ao meu tio Antônio), o coreto da praça, um clube de elite, uma piscina pública e mais ou menos trinta mil habitantes.

Em Rio da Prata passou-se a história que eu vou contar. Apesar de só ter passado a morar em Rio da Prata na minha segunda infância, minha família estava sempre ali, nas férias e em alguns finais de semana e feriados prolongados. Foi na nossa casa de campo que eu fiz as minhas primeiras descobertas sobre mim mesma e sobre os rostos ocultos disfarçados sob as máscaras que as pessoas usavam. Nossa história começou bem antes de eu ter nascido, e o que eu escutei dela através de meus pais, Flora ou Eugênio, não era totalmente verdadeiro. Mas tudo começou assim:

Quando minha mãe engravidou de Berta, Flora também engravidou de sua única filha, Cristina. As duas meninas nasceram com apenas uma semana de diferença, e tornaram-se amigas, comemorando aniversários juntas, e sempre que minha família chegava em Rio da Prata para uma temporada, as duas não se largavam. Eu só cheguei seis anos depois. Cresci tendo Cristina, Eugênio e Flora sempre por perto, e jamais considerei-os como empregados da casa, principalmente porque eu era inocente demais para saber a diferença. Eram eles que tomavam conta de mim quando meus pais saíam à noite com minha irmã mais velha para irem aos bailes dançantes onde as crianças não entravam. Quando eu me machucava, quase sempre era Flora quem cuidava dos meus joelhos ralados, aplicando um medicamento que ardia, e soprando quando eu chorava. Às vezes, Cristina fazia isso.

Cristina era uma menina excepcionalmente bonita; tinha a pele morena, quase mulata, os olhos azuis do pai e cabelos negros e ondulados. Logo começou a chamar a atenção pela sua extrema beleza, e por onde passava, as pessoas olhavam para ela. Eu a considerava uma irmã mais velha – ela era uma irmã mais velha, nunca me ensinaram a vê-la de outra forma. Pelo menos, não até os meus dez anos de idade. Eu era uma criança pequena, e não me perguntava o motivo pelo qual ela dormia no quarto comigo e Berta quando estávamos lá, enquanto Eugênio e Flora dormiam no apartamento sobre a garagem. Tinha sido sempre daquela forma. Também nunca tinha me perguntado por que Cristina voltava para o apartamento e meus pais trancavam as portas da casa quando íamos embora, deixando as chaves com Eugênio e Flora, recomendando que “a menina” (Cristina) não ficasse brincando lá dentro sozinha. Era assim que as coisas se davam, e pronto.

Algumas vezes eu via minha mãe dando ordens na cozinha, e notava que Flora a chamava de Dona Mirtes, mesmo que as duas tivessem a mesma idade, e eu não entendia muito bem aquilo; mas acabava concluindo que era coisa de gente grande e que não era da minha conta. Da mesma forma, Eugênio se dirigia aos meus pais chamando-os por Dona Mirtes e 'Seu' Nelson. Mas meus pais os chamavam pelos seus nomes, simplesmente.

Cristina era meu 'role model.' Eu não era lá muito bem-vinda junto à Berta quando ela estava com os amigos, pois eram todos bem mais velhos que eu. Ela simplesmente aturava a minha presença, livrando-se de mim sempre que podia, dizendo que os lugares que eles frequentavam não aceitavam crianças. Cristina muitas vezes era convidada para sair com minha irmã e os amigos, e às vezes, Berta emprestava-lhe algumas roupas mais bonitas – embora Cristina sempre ganhasse as roupas usadas de Berta, mas eu também “herdava” as roupas da minha prima Joana, um ano mais velha, quando elas não serviam mais. Eu me sentava na cama e ficava olhando as duas se arrumando para sair, passando lápis preto nas pálpebras inferiores, usando o mesmo brilho labial rosa discreto e perguntando uma à outra se a calcinha estava 'marcando' sob a calça comprida justa estilo pantalona.

Eu adorava Cristina, não somente porque ela era linda, mas porque ela sempre me tratava bem. Quando Berta perdia a paciência comigo, era nos braços dela que eu chorava. Ela me pedia que tivesse um pouco de paciência, pois logo estaria maior e teria meus próprios amigos. E para me fazer parar de chorar, ela pegava o estojo de maquiagem usado que ganhara de Berta e começava a me pintar. “Beeem clarinho,” ela dizia, enquanto espalhava a sombra azul sobre minhas pálpebras fechadas e eu sentia seu hálito com cheiro de chicletes de hortelã. Minha mãe não gostava de me ver maquiada, e sempre ralhava com Cristina quando isso acontecia, e quando mamãe ralhava com Cristina, Flora também ralhava com ela. Dizia que ela estava ali para se comportar e fazer o que tinha que fazer. E logo dava a ela uma tarefa – buscar os ovos no galinheiro, ou um pé de alface na horta. Ela obedecia sem contestar, rindo e piscando um olho para mim, e eu ia com ela.

Eu também amava Flora, e guardo memórias dos tempos em que eu era muito pequena e ela me punha para dormir. Ainda posso sentir seu cheiro, uma mistura de sabonete e desodorantes baratos com os cheiros de laranja, maçãs e temperos das muitas comidas que ela cozinhava para nós. Flora era um pouco gordinha, e tinha seios grandes. Era naqueles seios que eu muitas vezes deitava a minha cabeça de criança antes de adormecer. Meus pais me contavam que mamãe não tivera muito leite quando Berta nascera, e que Flora tinha sido sua ama de leite.

Eu era uma menina magrinha, cabelos castanhos muito lisos e escorridos cortados em estilo channel na altura dos ombros. Usava uma franja lisa que vivia precisando ser aparada, pois eu detestava cortar a franja, e então mamãe muitas vezes me obrigava a usar grampinhos que mantinham a franja 'no lugar' e não prejudicavam a 'vista,'. Eu detestava aquilo! E quando Cristina descobriu o quanto eu detestava, ela mesma passou a aparar a minha franja a cada duas semanas, mantendo-a sempre do mesmo tamanho – escondido de mamãe, é claro. E eu não me importava quando era ela que cortava meu cabelo. Ela tinha mãos precisas e firmes, e o fazia muito bem. Dizia que um dia teria seu próprio salão de cabeleireira – o que mais tarde realizou-se. Me ensinava a fazer tranças e coques, e para isso, eu penteava os cabelos dela, que eram longos. Eu adorava quando nos sentávamos nas escadas da frente da casa, ela na minha frente, cotovelos apoiados nos meus joelhos, enquanto eu trançava seu cabelo.

Gostava de andar com ela pela rua, quando Flora pedia que ela fosse ao mercado comprar qualquer coisa, pois todo mundo olhava para ela, e consequentemente, eu também me sentia observada. Eu andava de mãos dadas com ela pelas calçadas, sorrisinho maroto no rosto e cabeça erguida. Um dia, ao passarmos por um grupo de rapazes, um deles sorriu para nós e perguntou-me, em tom de graça, qual era o nome da beldade.  Enquanto passávamos por eles, olhei para trás e respondi. “É Cristina. Ela é minha irmã!”

Somente anos mais tarde eu entenderia o porquê das gargalhadas deles e das pessoas que estavam próximas, e das lágrimas que arderam no rosto de Cristina enquanto ela começou a andar mais rapidamente, puxando-me pela mão. No mercado, ela me chamou em um canto, secando as lágrimas com as costas das mãos, e me disse: 

-Nós não somos irmãs, Yara, e você não pode ficar repetindo isso por aí, entendeu?

 Eu não entendi nada, e tentei argumentar com ela, que me explicou: 

-Irmãos são filhos do mesmo pai e da mesma mãe. Irmãos têm a mesma cor de pele.  

Eu disse: 

-Mas eu gosto mais de você do que da Berta!

 Ela sorriu um pouco, mas logo ficou séria de novo: 

-Nunca mais diga isso, Yara. Berta é a sua irmã. Eu sou negra, e não posso nunca ser chamada de sua irmã.

Naquele dia, eu cheguei em casa muito magoada, e não quis almoçar. Ignorei o convite de uma amiguinha para brincar. Acho que eu tinha uns cinco anos naqueles tempos, e não compreendia o porquê de Cristina não querer ser a minha irmã. Mas não tive coragem de perguntar a ninguém sobre aquilo, talvez temendo, instintivamente, que alguma coisa se quebraria. Então, eu simplesmente esqueci. Continuei fingindo que Cristina era minha irmã, e ignorei todo o resto, embora nunca mais tivesse dito aquilo em público.

(continua)





quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

INOCÊNCIA - Parte I, capítulo I








PARTE I - YARA




A CHEGADA


Quando abri a porta da frente e coloquei as malas no chão, fiquei lá parada algum tempo, olhando para a casa escurecida, como se estivesse esperando que alguma coisa acontecesse. Tive a esperança – ou talvez, o medo – de que as memórias  que estiveram trancadas dentro daquela casa pudessem se transformar em criaturas sólidas e virem me abraçar (ou me sufocar). Quem sabe, minha mãe viria da cozinha enxugando as mãos no avental e me perguntando como tinha sido a escola; talvez meu pai estivesse sentado na sala de estar fumando aquele cachimbo que minha mãe costumava chamar de irritante, mas cujo cheiro eu adorava e que passou a fazer parte da personalidade da casa, entranhado nas paredes e cortinas; talvez Berta, minha irmã seis anos mais velha, estivesse falando ao telefone no corredor da casa com Sebastian, que então ainda seria seu namorado, o fio do telefone bem esticado até o armário que ficava sob a escada onde ela estaria a fim de ter alguma privacidade. Se eu olhasse para trás, quem sabe veria Eugênio trabalhando no jardim, enquanto Flora, que eu considerava a  minha segunda mãe, - a minha mãe preta - estaria lendo para ele a lista de compras para o jantar.

Logo após o almoço, eu poderia escutar as vozes alegres de meus primos – Joana e Marcelo – entrando pela casa. Durante a tarde, Berta se trancaria no quarto com suas revistas, e Marcelo se juntaria ao meu pai ou então estaria no jardim a procura de Cristina, por quem ele nutria uma paixão mais que apenas adolescente; e eu, criança, estaria correndo pelos campos ao redor, na companhia de minha priminha Joana.

Aquela era a nossa casa de campo, que mais tarde, após a doença de papai, tornou-se o nosso lar permanente.

As vozes e cenas chegaram com muita força. Senti-me um pouco tonta, e tive vontade de fechar a porta e nunca mais voltar, mas eu sabia que já tinha passado da hora de enfrentar os meus fantasmas. Na última vez em que pusera meus pés na nossa casa de campo, há exatos onze anos, eu prometi que nunca mais voltaria. E cumprira a minha promessa até então. Para mim, foi uma grande surpresa saber que minha mãe deixara a casa para mim, e não para Berta, que tinha ficado e cuidado dela depois da morte de papai. Já eu, afundada em meus ressentimentos, que cresceram ao longo dos anos devido à minha imaginação fértil – que, segundo meu pai sempre dizia, era fadada a criar ideias equivocadas sobre as pessoas – me mantive longe. Porque eu não sabia como lidar com as coisas. Não sabia perdoar, e nem queria admitir que pudesse estar entendendo tudo erradamente.

Dei o primeiro passo e entrei na casa. Automaticamente, levei a mão ao interruptor junto à porta, e ela se iluminou de repente, revelando cenas muito conhecidas da minha vida; da porta, eu via o tapete – já um pouco gasto, mas o mesmo imenso tapete de fundo vermelho rubi com desenhos florais que mamãe escolhera ela própria. Eu estava junto com ela naquele dia, e apesar de ter apenas quatro anos, ela pediu minha opinião: “Yara, você gosta?” E eu balancei a cabeça contente, concordando com ela, sentando-me sobre o tapete e passando as mãos sobre a trama macia.

O mesmo velho grupo de sofás  – agora estofados de bege escuro – e o mesmo conjunto de mesinhas de centro e laterais de madeira clara, com pés palito e formato de aquarela. As muitas almofadas que ficavam sobre o sofá tinham desaparecido, deixando-o nu. Nas janelas, as persianas tinham sido trocadas (eram novas) mas por outras exatamente iguais às antigas. Em volta delas, as sanefas de gorgorão pesado, há muito fora de moda, tinham sido lavadas e recolocadas. Minha mãe nunca tinha se preocupado muito com a moda doméstica, e mantinha a casa sempre igual.

A cozinha tinha o mesmo aspecto de antes, parecendo agora muito antiquada. Sobre a pia de mármore branco, a janelinha que dava para a parte lateral do jardim tinha sido aumentada, mas ainda tinha cortinas estilo romântica de xadrez azul e branco.

Subi os degraus, agora acarpetados de marrom-claro, e fui olhar os quartos. Parei no corredor e acendi as luzes. Respirei fundo. Eles não tinham modificado a estrutura da casa, e ainda havia o velho banheiro de azulejos azuis até o teto e piso de pastilhas brancas já amarelecidas. A banheira de louça com pés imitando garras de urso também era a mesma.

Os primeiros quartos eram os nossos – meu e de Berta. As duas camas de solteiro continuavam por lá, e para minha surpresa, também as mesmas cortinas cor-de-rosa bebê, já muito desbotadas. Sobre a escrivaninha do meu quarto, reconheci meu velho estojo de lápis de cor, e também alguns livros didáticos que eu usara na escola e que levava para estudar nas nossas viagens durante as férias (ordens de mamãe), embora mal tivesse tocado neles. O quarto ao lado era de hóspedes. Nele havia apenas uma cama coberta com um lençol branco e um armário, onde guardávamos algumas coisas que não usávamos muito, a não ser quando Duílio, o sócio de papai, passava a noite lá em casa. Porém, mais tarde, ele passou a ocupar o quarto junto ao escritório, no primeiro andar. Acho que minha mãe não queria um garanhão junto às suas mocinhas, que estavam crescendo.

Eu abri a porta do armário devagar e deparei com os patins de Berta. Quando ela cresceu, eles ficaram para mim, mas eu nunca consegui patinar. Desisti após o primeiro grande tombo. Também vi um casaco que eu ganhei quando eu tinha mais ou menos dez anos; era de pelos falsos na gola, e xadrez vermelho com cor-de-rosa berrante. Imediatamente vieram-me à mente algumas das ocasiões em que eu o usei, e eu o adorava tanto, que só deixei de usá-lo quando as mangas ficaram curtas demais. Como ele pareceu-me feio então!  No armário também havia roupas antigas de Berta e algumas camisas que reconheci como sendo de papai. Meus olhos se encheram de lágrimas, e eu tirei uma delas do cabide, levando-as de encontro ao rosto, tentando sentir um restinho de perfume da colônia que ele usava, mas tudo o que consegui foi cheiro de mofo e espirros. Algumas coisas jamais voltam.

Havia um vestido de mamãe – o mesmo que ela usava no último dia. No nosso último dia. Me perguntei por que aquelas coisas ainda estavam ali. Deveriam tê-las jogado fora. Seria bem mais fácil não vê-las.

Fechei o armário, e atravessando o corredor, cheguei ao quarto dos meus pais. O maior quarto da casa. Fiquei surpresa ao ver que mamãe demolira parte da parede leste, dando espaço a uma enorme janela e vista para as montanhas onde o sol nascia. Pensei que ela talvez tivesse passado seus últimos dias ali, olhando para aquela paisagem, e quem sabe, recordando os momentos felizes e também se arrependendo de muitas coisas. Um bom lugar para morrer: acho que todos nós precisamos de um. Da cama alta de hospital que tinha sido colocada no quarto, ela podia ter uma linda vista, todos os dias e noites.

Todos precisamos de um lugar para morrer, onde nossas memórias possam voltar aos poucos, um lugar onde não seremos perturbados por apitos de aparelhos hospitalares que nos mantenham vivos à força, um lugar sem paredes cinzentas e, especialmente, um lugar que tenha janelas.

Berta havia me contado que mamãe morrera em casa, pacificamente, em uma manhã de sábado. Berta passara a noite praticamente em claro, controlando sua respiração difícil e erguendo-a quando ela tossia. Quando Berta abriu os olhos após cair no sono  de exaustão, mamãe a olhava fixamente, o rosto tranquilo. Berta me contou que ela sorriu, após muito tempo sem fazê-lo, e disse: “Bom dia.” E se foi com o ar da letra “a”. E isso foi tudo. Não houve últimas palavras significativas, e nem recados que ela desejasse deixar para mim. Não houve pedidos de desculpas ou explicações, e ela nem sequer mencionou o fato de que eu me recusara a visitá-la durante todos aqueles anos, mesmo após saber de sua doença. Naqueles meses que passara ali, despedindo-se da vida, segundo Berta, mamãe nunca mencionou meu nome. Mas deixara-o no testamento, onde legou-me a casa de campo, que mais tarde, tornara-se a casa onde a família viveria oficialmente. Por que? Acho que jamais descobrirei.


(Continua...)

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

SEMENTES - um micro-conto










Das mãos entreabertas, caíam as sementes no solo, vagarosamente espalhando-se em uma longa e fina fileira. Muitas caíam sobre as pedras que ladeavam o passeio, e outras, seriam levadas pelo vento ou pelos bicos dos pássaros e replantadas em lugares inimagináveis. Algumas - a minoria - germinaria, e outras não. Mesmo entre as que germinassem, nem todas cresceriam e se tornariam plantas adultas. Das que se tornassem plantas adultas, algumas não sobreviveriam, sendo dizimadas por raios, secas, tempestades ou pelos machados e motosserras dos homens. 

Eu observava as sementes que caíam daquelas mãos, enquanto soprava uma prece silenciosa a Deus, para que as protegesse, mesmo sabendo que nem todas as preces seriam atendidas. 





quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Talvez Um Dia










TALVEZ UM DIA






Estela examinou novamente suas unhas; queria que estivessem absolutamente impecáveis. Também retocou a maquiagem, borrifou um pouco mais de perfume e passou uma escova de leve pelo vestido preto colante - o mesmo que Rogério lhe dera no seu primeiro aniversário juntos, e que ela estava guardando justamente para uma ocasião como aquela. Olhou o relógio: Ele estava meia hora atrasado. Estela respirou profundamente, sentando-se no sofá e ligando a TV. Estava acostumada Àqueles atrasos, e até mesmo, a ausências sem quaisquer explicações. 

Tentando manter-se calma, procurou concentrar-se no filme, mas a história penetrava em seu cérebro como água em uma peneira, o enredo escorrendo sem esforço para o carpete bege. Ela lembrou-se da última conversa que tivera com Carla, há algumas horas - aliás, as duas tinham brigado. Carla era sua amiga desde os tempos de colégio, e não conseguia entender que apesar de serem amigas, quem mandava em sua vida ela era mesma. Havia certas áreas de sua vida que Estela não permitia que ninguém penetrasse. Lembrou-se mais uma vez das palavras duras da amiga; palavras que ela tentava esquecer, encobrir, mas que continuavam a vir à tona toda vez que ela se distraía. 

Pensou em ligar para sua mãe ou para sua irmã, mas estava nervosa demais para conversar. Sentia calafrios percorrendo a sua espinha.

Ela olhava em volta, pensando que em breve ele estaria ali, morando com ela; quem sabe, ele acharia melhor comprar um apartamento maior para eles? Estela estava cheia de esperanças. 

Porque naquela noite, ele havia prometido que a levaria a um lugar especial a fim de comemorarem seu segundo ano juntos. Tentou alegrar-se; afinal, ele lhe prometera que daquela vez conversaria com a esposa; explicaria a ela que já não a amava mais, e que deveriam separar-se. Estela varria para longe as memórias das outras vezes em que Rogério lhe fizera aquela mesma promessa, mas que não cumprira. Sempre havia um motivo para não fazê-lo: a morte da sogra, a doença da filha pequena, o aniversário da mãe, mudanças importantes no escritório que exigiam que ele passasse a imagem de alguém com uma vida sólida e regrada. E ela chorara todas as lágrimas a que tinha direito em cada uma daquelas ocasiões, mas daquela vez, ele jurara a ela que seria diferente. Pediu-lhe que ficasse bem bonita, pois quando viesse buscá-la, já estaria livre, e os dois poderiam sair para jantar fora como qualquer casal normal, sem medo de serem descobertos. 

Novamente, a voz de Carla ecoando em seus ouvidos. Estela deixou-a vir mais uma vez ao seu consciente:

-Será que você não vê que ele está enganando você? Ele não vai deixar a esposa! Para ele, é muito cômodo ficar com as duas, já que nenhuma dá um ultimato. Você já tem 35 anos, Estela! Logo sua juventude terá acabado. Você quer ser a outra para sempre? Ou quer passar seus últimos anos de juventude com um homem que não a merece, enquanto poderia estar tentando encontrar o cara certo?

-Não se meta na minha vida, Carla, já lhe pedi isso várias vezes! Somos amigas, mas se você continuar insistindo  nesse assunto, teremos que romper a amizade! Já disse que sou bem grandinha para fazer minhas próprias escolhas!

Carla havia pego sua bolsa sobre o sofá e saído do apartamento batendo a porta atrás de si, enquanto Estela secava o rímel borrado - estivera se maquiando para sair com Rogério - e tentava parar de chorar para poder reaplicá-lo. 

Agora, o atraso chegava a trinta e nove minutos. Estela tentou acalmar-se. Na TV, o filme continuava. Ela não fazia a menor ideia do que estava acontecendo naquela história. De repente, ela pensou que também não fazia ideia do que estava acontecendo na sua própria história. Só sabia que estava apaixonada por Rodrigo. Viam-se duas vezes por semana, às vezes, menos. Ela não podia mandar-lhe mensagens - ele cuidava de comunicar-se com ela quando necessário. Tinha cadastrado seu nome como sendo um tal Jean Carlos, gerente de outra filial de sua companhia. Jean Carlos realmente existia, caso a esposa desconfiasse e fosse checar, porém os dois nunca tinham se falado. Rogério pediu a Estela que, caso a esposa tentasse passar-lhe alguma mensagem por aplicativo, ela respondesse como se fosse Jean. E que jamais atendesse ligações. Mas a esposa de Rogério nunca tinha tentado se comunicar com ela, ou com Jean. 

Rogério era cuidadoso, e tinha certeza que a esposa não desconfiava de seu caso com Estela, mesmo após dois anos. Se ele pensava em deixar a esposa? Às vezes; mas, na maior parte do tempo, ele gostava do calor do lar, e da companhia da mulher e da filha, que lhe transmitiam segurança. No fundo, amava a mulher e sua vida. Amava a casa confortável e ampla onde viviam, e a ideia de sair dela não o agradava. Mas também estava apaixonado por Estela. Ela era para ele o sal da vida, o tempero, o que lhe dava forças para enfrentar um dia difícil no escritório. 

Estela era o seu segredo mágico, sua fonte de vitalidade e prazer. 

Duas horas mais tarde, Estela estremeceu ao ouvir o celular bipar. Mensagem de Rogério:

-"Oi, amor. Não vai dar. Estamos com visitas. Te vejo amanhã. Beijos."

Simples assim.


As lágrimas caíram uma a uma, molhando a saia do vestido.  




fim





domingo, 21 de outubro de 2018

O LAR DE OFÉLIA - CAPÍTULO XVII - FINAL







O Lar de Ofélia - parte XVII - FINAL


Ofélia acordou sozinha novamente, e com a voz de Anselmo ressoando em sua cabeça: "Lembre-se de quem você é, e do que necessita fazer para ficarmos juntos!"
Ela ergue-se da cama, sentindo-se muito fraca e combalida. Dirigiu-se à cozinha para tomar um copo de água e preparar alguma coIsa para comer, e ao passar pela sua imagem no espelho do corredor, notou o quanto tinha emagrecido e o quanto sua pele estava pálida. Chegou à cozinha, tomou dois grandes copos d'água e sentou-se. Abriu o armário: não havia nada para comer, a não ser um pouco de pó de café e algumas bolachas de nata. Ela não tinha feito compras. Já era madrugada, e teria que esperar até o dia amanhecer a fim de ir ao mercado fazer compras ou encomendar algo. Enquanto isso, ia ter que sobreviver daquelas bolachas e do que restava do café.

Ela comeu, e então sentiu vontade de assistir televisão - algo que já não fazia há tempos. Achou que talvez a TV, os comerciais e as pessoas na tela a lembrassem de que ainda se encontrava no mundo dos vivos, com suas urgências e concretudes. Ela sentou-se no sofá com mais uma xícara de café, e começou a assistir a um velho filme. Aos poucos, as imagens das pessoas na tela foram ficando cada vez mais distantes. Suas bocas se mexiam, mas elas não pareciam dizer nada. 

Quando despertou, uma campainha tocava insistentemente, ao mesmo tempo que alguém batia à porta. Com a cabeça entre as mãos, Ofélia levantou-se e se encaminhou à porta de entrada, sem pensar muito. Ouviu a voz de Magda chamando por ela, aflita. Como Magda descobrira que ela não tinha viajado? Achou melhor abrir a porta; ajeitou um pouco os cabelos com as mãos, e respirando fundo, abriu a fechadura.

Magda olhou para ela, dos pés à cabeça. Ela carregava algumas bolsas de supermercado. Ainda custou a dizer qualquer coisa, surpresa com a aparência macilenta de Ofélia. Deu graças a Deus por Bruno ter telefonado para ela no escritório no dia anterior, preocupado com Ofélia. Achou que mais um pouco, e Ofélia poderia ter ... preferiu não concluir seu pensamento. 

Ofélia tentou um sorriso forçado, mas ele não saiu. Ela fez um gesto para que Magda entrasse, e seguiu-a até a cozinha, onde Magda, sem nada dizer, começou a preparar uma refeição para Ofélia, que sentada à mesa de madeira antiga, a cabeça apoiada na mão, observava a mulher de meia-idade movendo-se pela sua cozinha, procurando por utensílios, acendendo o fogo, fritando os bifes e preparando a salada e o arroz. 

Magda olhou para ela, enquanto Ofélia comia, e disse:

-Você precisa ver um médico. Está deprimida, e não duvido que se eu não tivesse recebido o telefonema do seu vizinho, você poderia ter morrido dentro desta casa! Assim que terminar de comer, vai tomar um banho e eu vou levar você a um psiquiatra.

Ofélia não respondeu. Não tinha a menor intenção de obedecer Magda, mas naquele momento, não queria discutir com ela. Só queria poder alimentar-se, fortalecer seu corpo. Magda continuou:

-Aquele rapaz gosta realmente de você, Ofélia. 

-Ele é muito mais jovem do que eu, Magda. 

-E daí?

Ofélia pensou que aquela pergunta, aquela pequena indagação, fazia muita diferença, mas daria muito trabalho para explicar tudo. Mais tarde, enquanto Magda lavava a louça, Ofélia deixou-se ficar sob a água tépida do chuveiro. Conseguia escutar Magda lidando com as louças na cozinha, enquanto deixava que a água quente a reanimasse um pouco.

Na cozinha, Magda sentia a atmosfera pesada da casa como uma cortina de chumbo sobre seus ombros. Não gostava daquele lugar, e achava que morar ali não podia fazer bem a ninguém, e pensou que talvez fosse melhor demolirem a casa e venderem o terreno. Àquele penamento, uma dor fininha passou por sua testa, indo alojar-se por trás dos olhos. Ela se sentou à mesa, e pegando sua bolsa, agarrou um comprimido e engoliu-o com água. Sentia-se mal naquele lugar. Olhou em volta: apesar do luxo e da beleza da casa, havia algo de maléfico dentro dela. Ela sentia que a casa sugava as energias das pessoas - pelo menos, a dela.

De repente, Magda sentiu-se levemente sonolenta. Imagens começaram a aparecer diante dela. Imagens que ela reconheceu, embora não fizessem muito sentido, como cenas de outras vidas. Algum tempo se passou antes que Magda se recuperasse do seu transe. Já desperta, ela juntos todas as imagens como numa colcha de retalhos, e tudo pareceu fazer sentido então.

Ofélia apareceu diante dela, de cabelos molhados, usando um vestido branco leve. Magda teve um leve sobressalto à presença silenciosa dela.  A cor da sua pele e a cor do vestido eram quase idênticas. 

-Ofélia... você me assustou... bem... vamos?

-Obrigada, Magda, mas não vou a lugar nenhum... por favor. Não insista. 

Magda percebeu que poderia ser mesmo inútil insistir naquele momento, então tentou apenas conversar com ela. Fez a pergunta que não queria calar:

-É esta casa, não é? Existe alguma coisa nela. Você mudou muito desde que veio para cá. Nos vimos poucas vezes desde então, mas deu para perceber. O que está havendo, Ofélia? Você sabe que pode confiar em mim.

Ofélia queria desesperadamente poder confiar nela, em qualquer pessoa, mas temia que se dissesse alguma coisa comprometedora sobre os últimos acontecimentos, algo de terrível pudesse acontecer às pessoas com quem se abrisse. Ela olhou para Magda, e esta viu o desespero nos olhos dela. Sem nada dizer, fez sinal para que Ofélia a seguisse até o jardim.

Lá chegando, o sol da manhã aqueceu a pele de ofélia, que começou a sentir-se um pouco melhor, pois a atmosfera dentro da casa era pesada e obscura. 

Magda caminhou com ela por algum tempo, em silêncio. Pararam junto a um banquinho de madeira, onde se sentaram. Ofélia se perguntava se Anselmo poderia ouvi-las dali, e logo teve a certeza de que sim, pois ele a olhava da janela do quarto, no andar superior. O olhar dele era frio e severo.

Ofélia entendeu que se quisesse conversar com Magda sem colocá-la em risco, teriam que sair dali. Pegando-a pela mão, ela se levantou, levando Magda até o portão e abrindo-o, saiu junto com ela para a rua e para a vida real. Magda deixou-se conduzir; também ela vira o homem à janela, a figura fantasmagórica e ao mesmo tempo, bela e fascinante que as observava, e como fosse médium, logo compreendeu que aquele homem não fazia parte do mundo dos vivos. Na rua, Ofélia implorou-lhe:

-Você precisa ir embora, Magda, e não voltar mais. Aqui, você estará em perigo, podendo ser morta como... como...

-A ex-namorada de seu pai, não é?

Magda assistiu, enquanto o desespero de Ofélia dava lugar às lágrimas e a um leve aceno de cabeça, concordando com ela. Magda ergueu a mão, secando o rosto dela com um lenço de papel que tirara da bolsa. 

-Se eu corro perigo, você também, querida. Não vou deixá-la aqui sozinha. Eu a conheço desde muito pequena... trabalho para o seu pai há anos... conheci sua mãe... não vou abandonar você, que é... como uma filha para mim. 

De repente, Ofélia olhou para o rosto de Magda e percebeu que o que ela dizia fazia todo sentido: viu-a em uma outra vida, sendo, realmente, sua mãe. Lembrou-se do quanto ela sofrera, ao ver sua filha querida adolescente definhar e morrer de uma doença longa e terrível. Magda realmente tinha sido sua mãe!

Ofélia abraçou-a, e Magda sentiu que aquele abraço era uma coisa que ela esperava há anos. Magda e Ofélia começaram a afastar-se de casa aos poucos, caminhando pela rua. A manhã estava belíssima, e pássaros cantavam ali perto. Lá em baixo, Ofélia podia ver Bruno e seus amigos reunidos, conversando. Ele a viu, mas não fez menção de acenar para ela. Ao olhar para ele, Ofélia compreendeu que jamais poderia fazer o que Anselmo lhe pedia. 

Ao olhar novamente para Magda, notou que ela estava de olhos fechados. Chamou por ela, sem obter resposta. Magda estava parada, lívida, respirando quase que imperceptivelmente. As duas estavam sob uma grande árvore, um olmo, que fazia sombra sobre elas. Ofélia achou melhor não interromper o que quer que estivesse acontecendo com Magda. após alguns minutos, Magda abriu os olhos, e seu olhar era muito triste e preocupado:

-Não volte àquela casa, Ofélia. Eu lhe peço. Aquelas pessoas... aquelas.. criaturas que lá se encontram, não têm mais nada a ver com você. 

-Não é verdade! Eles são meu marido e minha filha!

-Sim, mas... você reencarnou várias vezes, seu espírito evoluiu. Você é outra pessoa, enquanto eles permaneceram ligados aos seus desejos de vingança, à sua sede de sangue. Eles precisam evoluir também! Se você voltar, estará se prendendo a eles durante séculos, que serão tempos negros, entristecidos e ... pode ser que você leve milênios antes de livrar-se de tal situação! E não os estará ajudando, apenas prolongando suas penas, além de infringir a si mesma um carma terrível! 

-Anselmo me ama! Eu o amo também!

-Não é amor, não mais! Anselmo quer usá-la para poder voltar e continuar com suas maldades. Ele e Vivian. Sem a sua ajuda, eles não podem. Ficarão presos até que compreendam que necessitam morrer para renascerem e terem uma nova chance de evoluir espiritualmente. Ele agarra-se à existência física, uma existência de sangue, sonha com ela enquanto seria tão mais sensato morrer! Deixar-se morrer, libertar seu espírito...

-Mas eu nunca mais os verei!

-Se for amor o que os une, certamente vocês se reencontrarão, Ofélia!

Ao ouvir aquilo, Ofélia sentiu que uma nuvem pesada saía de seus ombros. Magda continuou:

-Eu vi suas vidas passadas também, Ofélia, eu sou médium. Aquelas crianças em volta de você, quando você morreu... sua própria mãe nesta vida, seu pai, e também sua ex-namorada... todas aquelas pessoas... são pessoas das quais você e Anselmo se alimentaram. Você teve que voltar com elas, resgatar suas dívidas. Quando fui sua mãe, eu também fui uma delas. Em uma outra vida, eu lhe fiz muito mal.  Somos todos heróis e algozes nas vidas que vivemos. Quando morremos como algozes, retornamos como vítimas, e depois, nos tornamos heróis na vida de alguém. 

Ofélia sentia o quanto aquelas palavras eram verdadeiras. Ofélia estava chorando, mas era um choro de alívio.

Magda segurou a mão dela:

-Vamos embora, não olhe para trás. Sabe que se entrar lá novamente, jamais conseguirá sair. Eles não a deixarão. Amanhã contratarei uma firma de demolição, e colocaremos a casa abaixo. Assim, libertaremos as almas deles. 

Ofélia olhou para trás. A silhueta da casa desenhava-se contra as nuvens brancas e esfiapadas e o azul profundo do céu. No jardim, maravilhoso e verdejante, pássaros cantavam entre roseiras e árvores frondosas.  Quem passasse por ali, não saberia que aquela linda casa estava cheia de energia pesada e negativa. 

Ela olhou para o rosto de Magda, aceitando-a como sua mãe amorosa. Assentiu com a cabeça, e as duas começaram a se afastar da casa. Após alguns metros, Ofélia olhou para trás novamente, mas tudo o que viu, foi uma velha casa de paredes escurecidas e em ruínas, no meio de um jardim seco e cheio de plantas mortas e retorcidas. 

Bruno viu que elas caminhavam juntas na direção dele, e sorriu enquanto elas se aproximavam pouco a pouco. 



FIM



INOCÊNCIA - Parte I - Capítulo VII

SOBRE MAMÃE É claro que eu amava minha mãe! Ao contrário de sua irmã, Tia Aurora, minha mãe era uma pessoa calada e s...