sexta-feira, 22 de maio de 2020

AS CASAS VELHAS E AS VIDAS ABANDONADAS - Parte 3




Ao ler a última carta de Leonardo, Bob percebeu que o dia já ia longe. O céu tingira-se de vermelho, e ele ainda não tinha sequer começado a fotografar a velha casa. Ainda tomado pela forte emoção do que acabara de vivenciar, ele dobrou as cartas, colocando-as de volta na caixa, mas ao fazê-lo, percebeu que a mesma tinha um fundo falso. Devagar, com a ponta da faca, ele ergueu o fundo e encontrou um saquinho de veludo azul. Ao abri-lo, deparou com as pedras preciosas mencionadas na carta!

Boquiaberto, Bob entornou o conteúdo do saquinho no chão da escada, e elas brilharam. Deveriam valer uma fortuna! Eram diamantes, esmeraldas e pequenos rubis. Sem saber porque, Bob se viu tomado de grande emoção. Recolheu as pedras, colocou dentro da caixa e levou tudo para dentro. Comeu o sanduíche que sobrou, bebeu o restante do refrigerante e preparou-se para dormir. 

 O casarão estava escuro e silencioso. Ruídos leves da noite entravam pelas vidraças quebradas: pássaros noturnos, zumbidos de insetos, grilos. Mas minutos depois de cair no sono, Bob despertou com o toque sutil de uma mão em seu ombro. Abriu os olhos, e deparou com a sombra de um rosto que o fitava, alguém ajoelhado no chão ao lado dele. Pensou que estivesse sonhando e esfregou os olhos, mas ao abri-los novamente, a pessoa ainda estava lá; era uma mulher. Bob Sentou-se, assustado, mas a voz dela, doce e tranquila, o acalmou:

-Não tenha medo! Não consegue me reconhecer?

Ela estalou o dedo, e a sala se iluminou como em um toque de mágica. Mas ao invés de detritos e ruínas, Bob encontrou uma sala muito bonita, bem conservada  e arrumada. Pensou que estava sonhando novamente. Mas era tudo tão real! Olhou para a mulher e reconheceu nela a mesma jovem das fotografias que estavam dentro das caixas. Ao mesmo tempo, percebeu que as roupas que ambos vestiam eram de uma outra época. Bob se levantou do tapete, ficando de pé, e ao olhar para o lado, deparou com um rosto no espelho que não era o seu, mas... ele levou as mãos ao próprio rosto, e seu ato foi refletido pelo espelho. Bob era Leonardo! Eram a mesma pessoa! A moça na sua frente era Bernadete!

Ele disse, confuso:

-Não entendo... estou morto? Estou sonhando? O que aconteceu?

Ela sorriu:

-Não, não está morto nem sonhando. Isso é real!

Dizendo aquilo, ela pegou o saquinho de jóias e colocou nas mãos dele, fechando-as sob as suas:

-Quero que fique com isso! Elas são o preço que pagaram pelo meu coração, pela minha vida. Não achei justo que ficassem com um homem que me vendeu  a alguém que eu nunca amei. Se alguém merece ficar com isso, esse alguém é você.

Bob - ou Leonardo - sentiu o calor das mãos dela sobre as dele, e todo o amor que os unia voltou com força total. Eles se abraçaram com força, e mataram a fome e a sede de uma paixão que estava adormecida há quase um século. Mais tarde, quando estavam juntos na grande cama de abóboda do quarto, Ele perguntou:

-Eu... estou tão feliz de encontrar de novo, Bernadete! Mas... por que não fez isso quando ainda estávamos juntos e vivos? Por que esperou tanto tempo? Nós poderíamos ter pego essas pedras e fugido juntos, poderíamos ter vivido o nosso amor!

-Eles nos encontrariam! Eles fariam de tudo para nos separar, e eles conseguiriam, pois eram poderosos! Logo, seguiriam nossos rastros e nos separariam. Eu preferi esperar, Leonardo! Esperar a hora certa, até que pudéssemos estar juntos novamente sem qualquer interferência!

-Mas... que lugar é esse?

-Aqui é um universo paralelo. As pessoas podem vir para cá e recriarem suas vidas e sonhos após morrerem. Isso é, se elas quiserem.

Ele a tomou em seus braços, com medo de que de repente ele acordasse e ambos se separassem outra vez. Ela murmurou:

-Você quer ficar aqui comigo, Leonardo?

Nenhuma dúvida o confundia quando respondeu:

-Sim! Para sempre! Nunca mais eu quero deixar você!

Ela ergueu a cabeça, deitando-se de bruços e acariciando os cabelos dele de leve:

-Mas isso não poderá acontecer agora. Você precisa voltar antes. Viver toda a sua vida. Só então poderemos nos reencontrar e ficar juntos para sempre! Poderemos também, mais tarde, renascer juntos!

A ideia de deixá-la e viver o resto da sua vida sem ela deixou Bob muito triste. 

-Mas... se eu estou aqui agora, por que preciso voltar? Por que precisamos nos separar de novo, Bernadete?

-Porque existem as leis do tempo. Elas não podem ser burladas. Escute... quero que você volte e converta essas pedras em dinheiro. Quero que restaure a casa. Procure nos cartórios e verá que é um herdeiro natural dela. Mas ela foi abandonada há muitos anos pela sua família, depois que Leonardo... digo, que você se suicidou ao saber da minha morte. 

Conforme ela falava, cenas dos acontecimentos de uma outra vida vinham à memória de Bob. Ele lembrou-se da arma com a qual atirou na própria cabeça ao receber a notícia de que Bernadete e o filho ao qual ela dava à luz morreram durante o parto. Depois, houve um período de escuridão... e ele renasceu. Sempre fora alguém solitário. Perdera os pais muito cedo, não tinha irmãos, nem amigos íntimos. Seu único passatempo era seu canal, onde publicava vídeos sobre casas abandonadas. Agora ele descobrira o motivo de sua fascinação por elas! Era sempre alguém melancólico, com a sensação de um vazio que nada nem ninguém podia preencher. E agora ele sabia o motivo.

O destino fez com que ele fosse levado de volta àquela casa, a fim de reviver seu amor. 

Bob (ou Leonardo) e Bernadete fizeram suas juras finais, e quando o dia finalmente nasceu, Bob despertou sozinho no chão da casa em ruínas. Mas desta vez, ele tinha um motivo para viver, uma inspiração. Fotografou a casa e colocou-a no seu canal, contando toda a experiência que vivera nela. O vídeo teve mais de cinco milhões de acessos em poucas semanas!

Ele usou o dinheiro das pedras para restaurar a casa, exatamente como Bernadete sugerira. Passou a viver nela e a cobrar por visitações. As cartas foram colocadas à vista sob vidros, em um cômodo que ele reformou para tornar-se um museu.  As pessoas de corações partidos, os que tinham perdido seus amores para a morte, iam ali para encontrar um pouco de esperança.

Ele morreu aos 86 anos, sozinho na casa. 

Ninguém sabe se ele reencontrou Bernadete. Mas eu acho que sim.


FIM



terça-feira, 12 de maio de 2020

AS CASAS VELHAS E AS VIDAS ABANDONADAS - CAPÍTULO 2





Bob teve um sonho estranho naquela noite: sonhou que era uma criança, um menino que usava roupas antigas e corria alegremente pela casa. Viu pessoas que pareciam muito familiares a ele no sonho, mas que não conhecia na vida real. Todas elas usavam roupas do começo do século passado. Havia uma mulher loira de cabelos cacheados presos em um coque mal-feito, muito jovem e bonita, a quem ele chamava de mãe. Ele podia sentir seu espírito livre e alegre, pela maneira como ela andava pela casa arranjando vasos de flores, seu riso fácil e pouco condizente com os costumes da época, a mania de andar descalça pelos cômodos da casa e até pelo jardim. Ela conseguia arrancar sorrisos de seu pai carrancudo, embora ele sempre tentasse resistir, mas logo se rendia a ela e aos seus encantos. 

 Já seu pai era um homem sisudo que aparentava ser bem mais velho que a delicada jovem que acolhia o filho de braços abertos enquanto brincava com ele descalça, no lindo jardim gramado. 

Sentado em uma cadeira de balanço na varanda da casa, seu pai os observava por cima do jornal que fingia ler. A moça acenava para ele, chamando-o para que se juntasse a eles no gramado, mas ele apenas sacudia o jornal e continuava a ler, fingindo impaciência. Mas no fundo, Bob sabia que ele era um homem bom, e sentia-se amado por ele. 

Havia também uma menina de uma casa vizinha que vinha brincar com ele. Eram da mesma idade - cerca de onze anos - e ela era esguia, de longos cabelos negros e olhos coloridos, como dois pedaços de vidro azul-cobalto brilhantes. Bob sabia que ela se chamava Bernadete. Os dois corriam pelo jardim, rindo e brincando de pique-esconde. Em um determinado momento, deram a volta por trás da casa e Bernadete ajoelhou-se no chão, junto à porta que dava para o porão, e cavando com um pedaço de madeira, desenterrou uma pequena caixa. Bob olhou para a caixa que ela abrira, e visualizou coisas como pedras coloridas e brilhantes  que estavam guardadas em um saco de veludo azul-marinho, papéis de carta dobrados em envelopes amassados e algumas fotografias. Ela olhou para ele e fez sinal de silêncio, enterrando novamente a caixa.

Quando Bob despertou, sentiu um peso no coração ao abrir os olhos na casa vazia e suja. Podia sentir que toda a vida que ali existira há muito estava ausente, e que as pessoas que moraram na casa a tinham deixado contra a vontade. Como ele sabia daquilo? Bob não tinha  menor ideia!

Ele se levantou, guardando o saco de dormir e foi para a cozinha preparar um café com alguns utensílios que encontrou por lá. O bule e a chaleira estavam fechados em um armário. Ele usou a água que trouxera com ele para lavá-los e preparar o café em um fogareiro que montou sobre a pia após limpá-la um pouco. Mas enquanto tomava o café, Bob começou a lembrar-se de elementos do sonho, e também da caixa que Bernadete enterrara junto à entrada de um porão que ele nem sabia se existia.

Ainda mastigando os últimos pedaços de pão, ele foi até a parte de trás da casa e encontrou um ambiente exatamente igual ao do sonho, embora coberto pelo mato. Não precisou muito para que identificasse o local onde Bernadete havia enterrado  a caixa em seu sonho! Ele afastou o mato com o facão, e jogando-se no chão de joelhos, começou a cavar o chão com a ponta da lâmina do facão. Não demorou muito para esbarrar em algo duro. Com o coração aos pulos, Bob terminou de desenterrar a caixa de madeira com as próprias mãos.

Era uma caixa pequena, e havia restos de alguma pintura feita na tampa, provavelmente por uma criança. Era fechada por um pequeno cadeado que Bob conseguiu abrir facilmente após usar a ponta de um canivete. O coração de Bob dava saltos dentro do peito: o que haveria na caixa? 

Agarrado a ela, Bob foi até os degraus da varanda da casa, onde o sol da manhã brilhava. Reparou que havia muitos pássaros cantando nas árvores, e por instantes, sentiu que já tinha vivido uma experiência parecida com aquela. Ao abrir a caixa, deparou com os envelopes e com o saquinho de veludo marinho. Abriu um dos envelopes: era uma carta de amor onde uma letra infantil confessava seu amor por um menino chamado Leonardo. De repente, Bob sentiu-se aquele menino! Não ficou surpreso ao ver a assinatura: Bernadete. Encontrou outras cartas dela para Leonardo - ou para ele, e também as respostas que ele escrevera para ela. As letras nas cartas iam amadurecendo conforme o tempo passava, e Bob percebeu que elas tinham sido escritas em um período de oito anos. 

Nas fotografias amarelecidas, Bob identificou Leonardo e Bernadete em diferentes fases de suas vidas. As cartas falavam em um amor que começou cedo, aos onze anos de idade, mas que por interferência da família dela, foi interrompido. Aos dezenove anos, Bernadete menciona um noivo escolhido para ela por seus pais, e do dote em pedras preciosas que ele, seu pai,  receberia por ela após o casamento. A família estava em sérias dificuldades financeiras, e não havia outra saída a não ser o casamento. Mas Bernadete, profundamente infeliz, acabou encontrando as pedras preciosas dadas ao seu pai e as escondendo na caixa que enterrara no jardim da casa de Leonardo. Se ela fosse obrigada a se casar com alguém que não amava, não admitiria que seu pai lucrasse através daquilo! 

Ao dar pelo sumiço das pedras, o pai de Bernadete esbravejou, demitiu empregados, culpou Leonardo e sua família pelo desaparecimento, acionou investigadores policiais para investigar o caso, sem sucesso, e até surrou Bernardete... mas ela não confessou a ele o seu crime, ou onde estavam as pedras. No fim, ele acabou desistindo de encontrar as pedras preciosas, e a família do noivo fez uma nova doação, já que eram muito ricos.

Assim, o casamento aconteceu. Os dois namorados não mais podiam se ver, embora vivessem tão próximos um do outro, mas continuaram se correspondendo secretamente. As cartas iam todas sendo colocadas na caixa de madeira que ficava enterrada nos fundos do jardim de Leonardo. Bernadete as escrevia, ele as respondia e depois ela  remetia as respostas de volta para ele, junto com uma nova carta. Havia uma jovem  empregada da casa de Leonardo que servia de pombo correio ao jovem casal: ela esperava que o marido de Bernadete saísse para o trabalho e então ia até lá, entregar as novas cartas de Leonardo e recolher as respostas de Bernadete e as cartas já lidas por ela. 

 Mas Leonardo escrevia também cartas a si mesmo, nas quais falava sobre como se sentia mortificado e infeliz pela ausência física de sua amada. Enquanto lia tais cartas. Bob experienciava as emoções de Leonardo com todo o realismo, como se as emoções fossem suas, e a dor de Leonardo era ressuscitada e revivida através dele. 

(continua...)







sexta-feira, 8 de maio de 2020

AS CASAS VELHAS E AS VIDAS ABANDONADAS - Capítulo 1









Bob tinha uma página no YouTube na qual ele postava vídeos sobre velhas casas abandonadas - e seus fantasmas, caso eles existissem. O nome do canal era VIDAS ABANDONADAS. A atividade o levava a viajar muito nos finais de semana, assim que ficava sabendo de uma nova velha casa - e quase sempre, os próprios seguidores do canal o alertavam sobre elas. Quando Bob tirava férias do trabalho, ele geralmente viajava para locais mais distantes, onde passava todo o tempo visitando velhas casas e fazendo vídeos sobre elas. Era sua atividade preferida.

Mas tal atividade fez dele uma pessoa bastante solitária. Solteiro aos 33 anos, embora fosse considerado um homem atraente, Bob decidira que, como as freiras que se casavam com Jesus Cristo, ele se casaria com suas casas velhas. E dentro dele, a cada visita, ele ia acrescentando-as à memória uma a uma. Seu interior era cheio de velhas casas abandonadas, nas quais ele morava. Muitas vezes, Bob as revisitava e fazia novas postagens sobre elas; "afinal, é preciso rever os velhos amigos", ele dizia. E a cada vez que revisitava uma de "suas" casas, Bob encontrava-a mais  vazia, pois as pessoas as invadiam e depredavam. Ele não: sempre deixava-as intactas após as suas visitas e filmagens, e jamais revelava os endereços das casas, exatamente para não encorajar os vândalos.

Um dia, ele ficou sabendo sobre uma casa dentro de uma floresta, que estava abandonada há mais de trinta anos, sem que ninguém a tivesse habitado ou visitado naquele período de tempo. A pessoa que o informou sobre a casa não se identificou: deu-lhe apenas as coordenadas para que Bob encontrasse a tal casa. Naquele mesmo final de semana, Bob entrou no seu carro com o equipamento de filmagem e os habituais suprimentos, como velas, baterias, comida, um cobertor (caso precisasse passar a noite) e uma garrafa de vinho tinto. Dirigiu durante horas. Passou a entrada duas vezes, tendo que voltar quilômetros, mas finalmente, encontrou a estradinha de terra que levava floresta adentro, em direção à casa. O caminho era difícil, e o jipe chacoalhou durante quase uma hora. Bob já estava pensando em desistir quando finalmente avistou um imponente portão de ferro no meio de uma clareira. Estava trancado à cadeado. Bob desceu do carro e forçou-o, e o cadeado, devido à ferrujem, caiu no chão. Ele olhou para dentro do portão e avistou um terreno muito grande e um caminho tomado pelo matagal. Seria difícil entrar alí. Mas ele voltou ao carro, pegou um facão de cortar mato que levava em suas empreitadas e começou o trabalho de desbravar o caminho, até que após meia hora de trabalho, um Bob suado avistou finalmente a casa.

Entrou no jipe e dirigiu até a porta. Era uma casa em estilo vitoriano, de dois andares, a varanda suportada por duas grossas colunas gregas. No andar inferior havia uma porta de madeira, e de cada lado desta porta, três janelas envidraçadas abertas, de venezianas - todos os vidros estavam intactos. A parede ainda era branca, embora suja e tomada por ervas que se arrastavam sobre ela e entravam pelas telhas. No segundo an dar havia quatro janelas iguais às do piso inferior, também com as venezianas abertas e os vidros intactos.

Fascinado, Bob fez sua primeira tomada de vídeo. Descreveu a casa e a emoção ao encontrá-la ainda tão conservada após tantos anos de abandono. Depois, colocou luvas e a máscara cirúrgica para proteger-se de poeira tóxica e mofo e subiu os degraus da varanda.

Bob forçou a porta: estava trancada. A madeira, apesar de velha, era muito sólida e forte. Tentou a brir uma das janelas, e foi experimentando-as até que encontrou uma que não estava trancada. Ele passou o equipamento de filmagem pela janela, e também pegou no carro as suas provisões, pois já tinha decidido passar a noite ali.

Antes de filmar o interior da casa, que apesar de empoeirado, estava totalmente conservado, com móveis, fotografias, copos, talheres e demais utensílios, Bob decidiu dar uma olhada no local. O teto mofado desabava aqui e ali, mas de um modo geral, a casa estava firme. Ele passou pelos sofás de brocado que ficavam sobre um tapete empoeirado e úmido, olhou os armários cheios de copos de cristal, bibelôs antigos e louças maravilhosas, as cadeiras cuidadosamente arranjadas em volta da mesa de jantar de madeira, ainda arrumada para uma refeição que não acontecera, e subindo as escadas curvas de madeira , Bob  percorreu os seis quartos do segundo andar, todos ainda mobiliados , as camas arrumadas como se as pessoas ainda fossem dormir ali. Abriu os armários e encontrou roupas muito antigas dependuradas nos cabides. Em um dos quartos, as roupas eram de uma criança. Um menino.

Em uma das gavetas da cômoda, encontrou documentos que datavam  dos anos trinta aos anos cinquenta, e também muitas fotografias. O coração de Bob dava saltos: aquele seria o seu melhor vídeo! Nunca tinha encontrado uma casa tão bem conservada e com todos os objetos dentro, ainda intactos, como se a família tivesse apenas viajado! 

Como já estivesse começando a escurecer, Bob decidiu deixar as filmagens para a manhã seguinte. Escolheu um dos quartos, pelo qual passou uma vassoura que encontrou na cozinha, e arrumando seu saco de dormir no chão, preparou-se para a noite.

(continua...)

quinta-feira, 7 de maio de 2020

MADRE - Final







MADRE – Capítulo 13 - FINAL

Minha mãe era filha de pais muito rígidos e religiosos, que, ao saberem que ela tinha engravidado do namorado, a expulsaram de casa e viraram as costas para ela. Sozinha, ela foi ter suas bebês no mesmo hospital onde a minha mãe adotiva tinha ido para ter a sua filha. As duas se conheceram e conversaram longamente, e minha mãe adotiva ficou sabendo das dificuldades que minha mãe natural – com apenas quinze anos de idade – teria para criar sozinha duas meninas. Meu pai tinha fugido das responsabilidades da paternidade por ser muito jovem, e minha mãe natural não queria força-lo a nada, pois nem estava apaixonada por ele. 

Ao ter sua bebê, minha mãe adotiva, ao visita-la no berçário, percebeu que ela estava morta. Desesperada, trocou a sua bebê morta por uma das bebês vivas de minha mãe – eu. A cor dos cabelos era a mesma e as bebês eram até parecidas. Minha mãe natural percebeu a troca, mas decidiu ficar quieta a respeito pois achou que seria mais fácil criar apenas uma menina; além disso, sabia que minha mãe adotiva seria uma boa mãe. 
Realmente, fui muito amada e bem criada por meus pais adotivos (sem saber da minha verdadeira história); a única coisa que me incomodava, eram as mudanças repentinas para lugares distantes, que não me deixavam criar raízes ou fazer amizades duradouras. Isso tudo me causou síndrome do pânico e ansiedade, e desde cedo, precisei de medicação para lidar com isso. Meus pais diziam que as mudanças eram devido às mudanças exigidas pelo trabalho do meu pai. Também me incomodava o fato de eu jamais poder ter redes sociais usando a minha verdadeira identidade ou fotografias. 

Minha mãe natural continuou levando sua vida longe de mim, criando minha irmã gêmea a quem chamou de Georgina. Mas ela conheceu um homem muito rico e bem mais velho que ela, que lhe deu suporte e escutou sua história sem julgá-la. 
Minha mãe casou-se com ele e ficou muito rica. Herdeira do ex-marido, um empresário do ramo imobiliário que morrera de uma doença no coração. Bem mais velho do que ela, apaixonaram-se quando ele foi até uma loja aonde ela trabalhava para comprar um presente para sua então namorada. Ele não apenas aceitou sua filha (minha irmã) de dois anos de idade, como criou-a como se fosse sua e amou-a como a uma filha natural.

Anos após o casamento, ao saber que minha mãe tivera outra filha, decidiu ajudá-la a encontrar a menina (eu), respeitando o pedido de minha mãe de não querer a polícia envolvida na história.  Para ele, também seria melhor se nenhuma propaganda negativa interferisse em seus negócios e expusesse o nome da sua empresa.  Ele contratou um detetive particular que conseguiu encontrar meus pais adotivos. Mas ao saberem da intenção que minha mãe tinha de retomar sua filha, meus pais adotivos simplesmente fugiram, e continuaram a fugir durante anos. 

Enquanto isso, o marido de minha verdadeira mãe deu a ela o suporte que ela precisava para criar minha irmã e a continuar a procurar por mim. Fez por minha mãe tudo o que uma mulher poderia desejar, e ao morrer, deixou-a muito rica, pois não tinha herdeiros. 
Quando meus pais adotivos morreram em um acidente, fiquei sabendo da história toda e decidi ir a procura de minha verdadeira história. 

Encontrei minha mãe verdadeira com a ajuda de minha avó adotiva, conheci uma pessoa que foi muito importante para me ajudar a tomar a decisão certa (meu amigo Mateus) e agora estou aqui, morando na casa de Mayara. A história que ela me contou bateu com a que minha mãe adotiva deixou escrita para mim em uma carta. Mas Mayara me disse que não tinha parentes vivos, e agora aparece minha tia Mércia, irmã gêmea de minha mãe verdadeira, e vira tudo de cabeça para baixo. Logo agora, que minha vida estava começando a tomar um ritmo normal. Logo agora que pela primeira vez, eu estava começando a me sentir em paz. 

Este foi um dos motivos pelo qual eu não fui ao encontro que marquei com minha tia Mércia. Haveria a festa no dia seguinte, onde eu conheceria o mundo de minha mãe – seus amigos – e tentaria fazer parte daquele mundo. Eu queria estar feliz. O vestido que eu e Mayara escolhêramos era simplesmente lindo, e a expectativa da festa estava me deixando muito excitada e feliz. 
O outro motivo, foi que minha mãe e eu tivemos uma conversa na manhã seguinte àquela do shopping center, onde eu conhecera minha tia Mércia. Foi à mesa do café, logo após a noite na qual a síndrome do pânico tinha me atacado de novo. A manhã estava um tanto pesada, o céu coberto por nuvens cinzentas. 

Ela me disse:

-Aisha, você não imagina o quanto estou feliz porque você quis me conhecer! Sou grata porque você me perdoou por não tê-la procurado com mais afinco, e por ter entendido meus motivos. O que eu quero dizer é que... bem, nós... todos temos um passado e fazemos algumas coisas das quais não nos orgulhamos muito. Gostaria que você não se tornasse uma menina amarga, que não culpasse seus pais adotivos pelo que aconteceu, e nem a mim. 

-Eu já perdoei meus pais. E a você também. 

Ela respirou fundo, tomando um gole de café e erguendo as sobrancelhas. 

-Não é isso. O que eu queria que você entendesse, é que não existe nada a ser perdoado. Um dia, quando for adulta, você cometerá erros também. Faz parte de sermos humanos. Ninguém precisa perdoar ninguém, Aisha! Basta que aceitemos uns aos outros como somos, sem julgamentos. Algumas pessoas se julgam nobres ao dizerem que perdoam alguém, mas na verdade, ao dizerem isso, só estão demonstrando o quanto são (ela desenhou aspas no ar com as mãos) “nobres e bondosas, superiores e espiritualizadas.” Na verdade, são apenas hipócritas, pois elas também não são perfeitas! 

Eu fiquei calada, mas meu rosto revelou a minha confusão a respeito do que ela dizia, e Mayara acrescentou:

-Eu só queria pedir a você que seguíssemos em frente e deixássemos para trás tudo o que aconteceu, todo o passado. É a única maneira de sermos felizes. 

Concordei com a cabeça, meu cérebro dando voltas. Retruquei:

-Mas isso significa que eu não posso mais ver a minha vó? E Tina?

Ela riu:

-Não, não! Você pode visita-las se quiser, pode trazê-las aqui, não importa! Elas fazem parte da sua vida. Também pode visitar seus pais no cemitério, mandar rezar missas por eles, enfim... é a sua vida e eu não vou interferir. Só queria que ficasse morando aqui comigo, porque já ficamos tempo demais separadas. Quero conhecer você, e quero que você me conheça. E temos a vida toda para isso.

Eu senti uma paz enorme tomando conta de mim. Olhei para o céu à janela, atrás dela, e vi que uma enorme nuvem cinza se afastava, dando lugar a um céu tão azul, que chegava a deixar a gente sem ar. Havia uma cerejeira cheia de flores no jardim, e Ronaldo, o jardineiro, ajeitava uma pequena cerca sob ela. Eu decidi que queria ter aquela vida para mim. Olhei para minha mãe, e ela tentava conter a emoção. 

-Ok, eu vou ficar morando aqui com você... mãe!

Naquele mesmo dia, bloqueei o número do telefone de minha tia Mércia. Nunca mais a vi ou soube dela, nem perguntei à minha mãe sobre ela. Também apaguei minhas redes sociais, pois deixar o passado para trás também significava começar tudo de novo. TUDO. Não queria mais me lembrar daquela festa de quinze anos que nunca aconteceu, nem ter que virar a esquisita da turma, a menina que chega e é olhada por todos, que começam a murmurar sobre ela e a fofocar sobre sua vida. Já estava cansada das perguntas indiscretas dos meus velhos amigos, que, descobri, nem valiam tanto a pena assim. 

A festa de Dalva, amiga de minha mãe, foi maravilhosa! Fiquei conhecendo seus amigos e eles me trataram muito bem. Ninguém me fez perguntas desagradáveis ou indiscretas. Todos se preocuparam em me mimar e me deixar à vontade para ser eu mesma. Na mesma noite, eu e Ian, filho de Dalva, nos conhecemos e começamos a namorar. 

A vida foi se encaixando; minha avó Beatriz e Tina nos visitavam às vezes, e costumavam passar as festas de fim de ano na nossa casa. Eu também viajava para visita-las sempre que podia, até que minha avó faleceu quando eu fiz vinte e dois anos. Logo depois, Tina também se foi. 

Eu e Ian nos casamos e tivemos três lindos filhos, aos quais demos os nomes de Beatriz, Fernanda e Jairo (os nomes de minha avó e de meus pais adotivos). Nunca escondi dele a minha verdadeira história. Tive uma vida muito feliz e muito plena. Eu, Dalva, Ian e mamãe viajamos o mundo todo, ficamos em hotéis maravilhosos e mais tarde, meus filhos juntaram-se a nós nas nossas viagens. 

Minha mãe – Mayara – morreu quando eu tinha cinquenta anos de idade, e ela, sessenta e cinco. Nunca tivemos uma discussão sequer, nenhuma briga ou desentendimento, por menor que fosse. Éramos verdadeiras almas gêmeas. Me senti grata por poder cuidar dela até o final de sua doença, e por estar perto dela segurando a sua mão quando ela deu seu último suspiro, entre sorrisos, deixando como sua última palavra, um “obrigada.”

Após o sepultamento, todos foram embora, mas eu quis ficar um pouco mais junto ao túmulo de minha mãe. Precisava me despedir dela de verdade, agora sem o medo de perde-la, que me acordou durante os cinco anos após ela descobrir sua doença, sem o cansaço das noites em claro que eu tinha passado com ela nos seus últimos dois meses de vida, e sem as visitas que entravam e saiam de nossa casa o dia todo, pois todos adoravam Mayara. Eu queria ficar um pouco sozinha com ela, sabendo que ela não estava sorrindo para que eu não notasse que estava sentindo dor; que ela não tentava parecer que estava bem, só para que nós não nos preocupássemos tanto com ela. 

Eu queria dizer adeus à minha mãe sabendo que ela agora estaria tranquila para me ouvir. E através do meu pensamento, eu disse a ela tudo o que eu queria, e chorei todas as lágrimas que me restavam, e ri muito também, me lembrando dos nossos muitos momentos de felicidade juntas. Respirei fundo e estava pronta para ir embora, quando ergui os olhos e vi uma mulher se aproximando. Uma mulher muito parecida com minha mãe, mas não macilenta devido à doença; uma mulher que já fora bonita, e que agora estava envelhecida e amargurada demais para sua idade. Quando ela chegou mais perto, percebi as rugas profundas em volta da boca – rugas de anos de tristeza.  Ela caminhou na minha direção, e seu andar claudicante e lento  parecia carregar o peso de anos de ressentimentos. Eu percebi que ela estava ali por um motivo: destruir as memórias felizes que eu tinha de minha mãe; arruinar sua memória, matá-la uma segunda vez dentro do coração da pessoa que ela mais tinha amado e que mais a amara.

Levantei-me do banco de madeira, ajeitando a saia, agarrando com as duas mãos a bolsa preta, como se sentisse medo do que ela ia tentar roubar de mim. Ela me olhou nos olhos, e vi que sua raiva e inveja eram gritantes. Eu queria me mover, mas alguma coisa me mantinha presa ao chão, como se minha tia Mércia possuísse poderes mágicos e malignos. Ela chegou bem perto de mim e parou a menos de um metro do meu rosto, me olhando da cabeça aos pés. Notei que suas roupas eram antigas e estavam muito usadas, a saia preta plissada e desbotada, a camisa branca desgastada na gola. Eram roupas de uma mulher que não se importava consigo. Que não se importava com nada nem ninguém. 

Ela abriu a boca, e percebi que dali não sairia nada de bom ou de útil. Eu tinha certeza de que Mércia ia despejar sobre mim segredos do passado de minha mãe cuja intenção seria a de macular sua memória. Percebi também que eu não estava interessada em sabe-los agora, assim como não tinha desejado sabe-los no passado. Também notei que aquela mulher tinha sofrido muito devido a tais segredos, e se transformado em uma bruxa amarga, solitária, precocemente envelhecida e incapaz de amar. Ela não tinha seguido adiante; sua vida tinha estacionado no exato momento em que aquela antiga mágoa tinha sido perpetrada. E agora ela queria despejar tudo aquilo em cima de mim, apenas por vingança. 

Minha tia Mércia abriu a boca, e seus olhos emitiram um brilho de maldade. Mas antes que ela pudesse dizer uma única sílaba sequer, eu ergui a mão, a palma virada para o seu rosto, calando-a. Mércia hesitou, balbuciou, e eu, dando a volta por trás dela, me afastei dali a passos rápidos, de modo que ela não conseguisse me alcançar. Depois, passei a correr, e entrando no carro, bati a porta e liguei o motor, dirigindo para bem longe dela. Ainda pude ver sua imagem congelada no retrovisor do carro, me olhando, a boca entreaberta. 


FIM






segunda-feira, 27 de abril de 2020

MADRE - Capítulo 12





MADRE - Capítulo 12

Saímos da loja carregadas de pacotes. Ela disse que iria ao estacionamento colocar tudo no carro e me pediu que a esperasse na praça de alimentação, em um café chique. Fiquei por lá, olhando minha mãe se afastar e se perder na multidão de pessoas alegres. Minutos depois, pedi uma Coca, e quando comecei a tomar, vi minha mãe voltando. Ela parecia preocupada, mas o que mais me chamou a atenção, é que ela estava usando roupas diferentes da que tinha. Usava um par de calças jeans, um suéter bege com um lenço de seda rosa amarrado ao pescoço e um par de botas de camurça marrom até os joelhos. Estranhei, pois quando me deixou, ela estava usando um vestido verde musgo!

Pensei no quanto Mayara era imprevisível, e ri, mas meu sorriso se fechou quando notei que a mulher que vinha em minha direção não era minha mãe; seus cabelos eram ligeiramente mais curtos e mais escuros, embora ela fosse quase igual a Mayara e tão bonita quanto. Parecia muito nervosa e seu rosto estava avermelhado, suando na testa. Quase derramei meu refrigerante quando ela se sentou diante de mim e me olhou nos olhos profundamente. Disse:

-Não tenho muito tempo. Se ela descobrir que eu a encontrei, vai fugir de novo. Meu nome é Mércia, sou irmã de Mayara. Gêmea. 
Minha cabeça deu um nó:

-Quem??? Então... você é minha tia??? Mas minha mãe me disse que não tinha parentes!

Ela escorregou um cartão de visitas sobre a mesa até mim, e colocou-o na palma da minha mão, dizendo: 

-Venha me ver assim que puder! E por favor, é muito importante que minha irmã não saiba de nada. Não diga a ela que me conheceu, por favor, ou você nunca mais saberá da verdade...

Ela baixou os olhos, e levantando-se apressadamente da mesa, desapareceu na multidão, descendo as escadas rolantes. Ainda olhou para trás antes que eu a perdesse de vista. Enfiei o cartão na bolsa sem olhar para ele, pois avistei minha mãe se aproximando, com um baita sorriso no rosto, caminhando em minha direção. Fiz de tudo para disfarçar o que tinha acontecido, mas ela notou que havia algo estranho. Disfarcei, dizendo que não estava me sentindo muito bem e que deveria ter sido o camarão do almoço que comêramos mais cedo. Ela franziu a testa, e disse que assim que chegássemos em casa, daria uma bronca na cozinheira. Lamentei silenciosamente pela pobre cozinheira, que pagaria o pato por nada! Ainda tentei persuadir Mayara a esquecer o assunto, mas ela disse:

- Aisha, Meus empregados domésticos recebem quase seis vezes mais do que os empregados domésticos geralmente recebem! Cada um têm um carro à disposição, acomodações na casa, caso desejem morar lá ou passar a noite, e todos os seus direitos legais assegurados. O mínimo que eu exijo, é competência e um trabalho impecável. Não admito que tenha sido preparado qualquer coisa na minha cozinha que não seja absolutamente fresco.

-Eu sei, Mayara! Mas você comeu e não está passando mal, não é? Eu é que sou muito sensível a camarões. Olha, tomei esse refrigerante e já estou começando a me sentir melhor. Só vou ao banheiro um instantinho para lavar o rosto.

Ela insistiu para ir comigo, mas eu disse que estava bem, só ia lavar o rosto e voltar logo.

Chegando no banheiro, procurei o privativo e, batendo a porta, deixei que as emoções aflorassem. Me vi trêmula, ofegante e confusa. Fiquei ali pelo menos cinco minutos, tentando entender os últimos acontecimentos: Mayara mentira para mim! Disse que não tinha família, mas tinha uma irmã gêmea. O que mais ela tinha me escondido? Eu teria que procurar por minha tia para saber. Coloquei a mão dentro da bolsa e li o cartão três vezes antes de colocá-lo de volta na bolsa. Mas depois, não sei o porquê, anotei o número do telefone em meu celular com um nome fictício e joguei o cartão fora. Fiquei com medo que Mayara vasculhasse minhas coisas e o encontrasse. Eu precisava tomar cuidado, afinal, não sabia quem ela realmente era. 

Lavei o rosto com água gelada, respirei fundo e ensaiei um sorriso tranquilo antes de juntar-se novamente à minha nova mãe. 

Ao chegar em casa, mandei uma mensagem de texto para minha tia Mércia e marcamos de nos encontrar dali a dois dias. Seria um dia antes da festa de Dalva, amiga de minha mãe.  Eu só precisava de uma desculpa para justificar minha saída para Mayara. Me vi pensando no porquê estar pensando em uma desculpa para poder sair, e aquilo me preocupou. Eu tinha acabado de sair da prisão que era viver fugindo e me escondendo com meus pais, e agora, que eles não estavam mais vivos, eu temia encarar Mayara e continuava me achando presa, tendo que arranjar desculpas para sair. Eu não precisava daquilo! Pelo menos, não deveria precisar. 

Naquela noite, eu não dormi. Tive uma crise de ansiedade terrível e quase fui acordar minha mãe quando a crise chegou ao ápice. Abri a porta da sacada e fui lá para fora, onde uma enorme lua branca parecia me espiar. Olhei fixamente para ela e fui tentando colocar a respiração em um nível suportável novamente, bebericando água e tentando me controlar. Engoli um comprimido para ansiedade, me sentindo péssima, já que eu queria muito deixar de toma-los e estava quase conseguindo. Porém, meus braços dormentes, o coração disparado, a pele coberta de suor, o pânico... tudo aquilo me obrigava a engolir mais um comprimido, sempre me prometendo que seria o último. Logo eles iriam acabar e eu precisaria de uma nova receita. Meu médico estava há quilômetros de distância e eu não tinha nenhum dinheiro. Teria que acabar contando a Mayara sobre o meu problema. 

Lembrei-me muito de meus pais. Senti muita saudade deles, apesar de tudo. Pensei em minha avó e em meus amigos da escola. Eu conversava com eles pela internet agora, mas as conversas online não eram suficientes para manter uma amizade! Eu gostaria de estar com eles... ou esquecê-los de vez e tentar me adaptar à minha nova vida, fazendo alguns amigos. Mas... que nova vida? Eu ia continuar morando com Mayara depois que ouvisse o que Mércia tinha a me dizer? Ou voltaria a viver com minha avó e com Tina?


(continua...)







sexta-feira, 17 de abril de 2020

MADRE- Capítulo 11








MADRE - Capítulo 11

Cada vez mais eu notava a distância entre nós e as três pessoas que trabalhavam na casa – Rosa, Elvira e Ronaldo, o jardineiro de Mayara e ocasionalmente, motorista também. Por mais que eu tentasse conversar com eles, estabelecendo um pouco mais de proximidade, eles se mantinham distantes e polidamente frios, e insistiam em me chamar de senhorita Aisha, mesmo que eu pedisse que me chamassem apenas de Aisha. Se eu fizesse alguma pergunta em relação à casa ou à minha mãe, eles apenas baixavam a cabeça e me diziam que não estavam autorizados a comentar nada ou que não sabiam nada sobre o assunto. Quando perguntei sobre a porta trancada no meu quarto, as duas mulheres se entreolharam e disseram que não passavam a noite na casa, e portanto, nada podiam me dizer sobre aquilo.

Minha mãe também mantinha um certo ar de mistério. Uma tarde, ela me convidou para o seu quarto, e enquanto eu examinava algumas fotos de meu falecido pai e de Georgina, minha falecida irmã gêmea, eu perguntei a ela como meu pai era. Mayara aproximou-se de mim, e pegando a fotografia do senhor distinto e bonito das minhas mãos, olhou para ele longamente antes de responder. 

-Eu era muito jovem e estava totalmente perdida quando o conheci. Tinha minha filha para cuidar e trabalhava em uma loja de roupas finas, que foi onde nos conhecemos. Lúcio se apaixonou por mim imediatamente. Estava lá para comprar um presente para sua namorada.

-Ele era comprometido quando a conheceu?

-Sim. Mas logo terminou. Logo após a primeira noite que me convidou para sair com ele. Seu outro relacionamento não era sério. Segundo ele mesmo, era só sexo. Eu me senti feito uma princesa decaída que encontra seu príncipe encantado de repente. Lúcio me levava a lugares incríveis, que eu jamais imaginava que poderia frequentar! Em alguns deles, eu tinha trabalhado como garçonete durante alguns eventos... agora eu entrava pela porta da frente, em grande estilo. Ele era gentil, e doce... a diferença de idade – ele era quase trinta anos mais velho – não foi importante. Lúcio não tinha família, a não ser um tio distante que já faleceu... era muito sozinho antes de me conhecer, e talvez tenha se identificado comigo por causa disso.

Enquanto ela falava, eu notava que ela revivia sua história. Dava pequenas pausas em seu relato, saboreando momentos que só ela enxergava. Perguntei sobre Georgina, e o rosto dela ficou encoberto por uma sombra, que modificava a suavidade de suas feições como uma nuvem negra que corta um céu de brigadeiro.

-Georgina era apenas uma criança quando nós a perdemos. Ela era linda e feliz, como toda criança... eu estava casada com Lúcio há dois anos. Ela era a luz e a alegria da vida dele! 

Notei um certo ressentimento quando ela disse aquilo. Não consegui deixar de perguntar:

-E você tinha ciúmes?

Ela se virou para me olhar, o rosto branco feito a parede atrás dela. Seu tom de voz foi cortante:

-Por que diz isso?

Eu engoli em seco, guardando as fotos de volta na caixa e me sentando ereta na cama:

-Nada, é que... não sei, só tive a impressão. Não sei por que perguntei, desculpe. Mas... tem uma coisa que eu gostaria de perguntar. Sobre a minha primeira noite aqui.

Ela suavizou sua expressão:

-Ora, e por que não perguntou antes, querida? Já está aqui há cinco dias!

Eu ri, tentando descontrair a atmosfera pesada do ambiente.

-Bem, vou perguntar agora! 

Ela estava sentada em uma poltrona em frente à cama, e inclinou-se em minha direção para me dar atenção. Por trás dela, a janela aberta despejava relances de verde quando a cortina de seda se levantava com a brisa. Notei o quanto ela era bonita.

-É que eu escutei alguns barulhos que me acordaram naquela noite. Depois vi uma luz debaixo da porta... e quando tentei abri-la, estava trancada.

Ela riu:

-É uma casa antiga, e as fechaduras são todas originais. Com certeza, emperrou. Bem, isso significa que você agora vive em uma casa muito velha. Mas é só tentar mais algumas vezes, e elas acabam se abrindo. 

Me senti uma tola após a explicação dela. Era lógico que ninguém havia trancado a minha porta! Eu e a minha imaginação fértil... também pensei no que ela acabara de afirmar: “Você agora vive em uma casa velha. ” Eu não me sentia assim, como alguém que morava ali, mas apenas como alguém que estava passando um tempo, visitando.

De repente, ela se levantou com um pequeno salto, e batendo as palmas das mãos, sugeriu:

-Hey! Que tal sairmos para fazer umas compras? Preciso de um vestido novo para ir a uma festa, e você também. Vai comigo, certo? Quero apresentar você a todos os meus amigos. A festa é daqui a três dias, na casa de minha amiga Dalva. Você vai adorar ela! Ela é divorciada e tem um filho da sua idade. Você vai adorar o Ian!

A mudança de humor dela foi tão repentina que eu me assustei. Mayara era uma caixinha de surpresas! Ela me segurou pelo braço, e começamos a sair do quarto, enquanto ela dizia:

-Vamos às compras! Vá se trocar. Te encontro na sala em quinze minutos!

E eu a obedeci, incapaz (e sem a menor vontade) de confrontá-la e, ao mesmo tempo, curiosa para sair um pouco e andar pela cidade. Conhecer gente nova também me faria bem. Nós fomos ao shopping center, onde Mayara me levou nas melhores lojas. Os homens viravam a cabeça quando nós passávamos por eles, esfuziantes e sorridentes. Eu estava começando a gostar muito de minha mãe, mas ao mesmo tempo, tinha alguma coisa que estava me deixando insegura e eu não sabia o que era. 

Ela experimentou vários vestidos, até que se decidiu por um longo preto todo esvoaçante que a deixava simplesmente estonteante. Eu escolhi – ou melhor, ela escolheu para mim – um vestido longo mais simples e mais condizente com a minha idade, segundo ela, de cor prata com detalhes em preto. Enquanto eu me olhava no espelho, fascinada pela beleza do que eu via, Mayara chegou perto de mim e pegando meus cabelos soltos, ergueu-os em um coque no alto da minha cabeça. Notei pela primeira vez o quanto éramos fisicamente parecidas: o mesmo nariz afilado, a mesma curva do queijo sob o lábio inferior, os olhos cinzento-azulados que costumavam trocar de cor conforme a claridade. Me senti tão bonita quanto ela! E pela primeira vez, também me senti parte dela – sua filha. Senti vontade de abraça-la, e eu o fiz. 

Quando nos separamos, notei que ela chorava. Enxugou as lágrimas furtivamente com as costas da mão, e me olhando nos olhos, sugeriu:

-Que tal me chamar de mãe daqui pra frente? Eu ficaria muito feliz.

Eu abri a boca para responder, mas minha voz não saiu. Ela tomou aquilo como uma atitude precipitada de sua parte, e logo se desculpou:

-Desculpe, eu não quero pressionar você... eu só pensei que...

Mas eu a interrompi:

-Mãe! Está tudo bem! 

Eu disse aquilo sem o menor esforço. Ela sorriu para mim, e pela primeira vez em muitos anos, eu me senti segura. Nunca mais eu precisaria sair correndo no meio da noite. Nunca mais teria que abandonar meus amigos e minha escola para fugir correndo de alguém que era parte de quem eu realmente era. Nunca mais teria que sentir medo de gostar das pessoas por  ter que perde-las mais tarde. Eu agora teria raízes. Teria um lar, uma mãe, uma vida de verdade!

(Continua...)








quarta-feira, 8 de abril de 2020

MADRE - Capítulo 10





MADRE - Capítulo 10

O jantar foi muito tranquilo. Mayara escolhera uma música suave como pano de fundo, e fomos servidas por uma das empregadas da casa, que permaneceu junto à mesa o tempo todo, em silêncio absoluto, as mãos entrelaçadas na frente do corpo. Eu realmente não estava acostumada a tanto luxo e reverência, e estava achando aquilo tudo fantástico, mas também assustador. Mayara falava com a mulher suavemente, mas notei algo de cortante em sua voz. Era como se ela quisesse que suas ordens fossem bem compreendidas e jamais questionadas. A mulher parecia acostumada a servir, mas prestava muita atenção às ordens e tinha movimentos seguros, precisos, como alguém muito bem treinado. Fiquei pensando no que poderia acontecer se ela derramasse algo ao servir. Durante o jantar, fiquei sabendo que seu nome era Elvira. Mayara me disse que sempre que eu precisasse de alguma coisa poderia pedir a Elvira, caso ela não estivesse por perto.
A comida era algo tão delicioso e leve que nem sei descrever. Algo macio e espumoso de entrada, que derretia na boca, seguido por carne assada e legumes. As porções eram pequenas, mas após a sobremesa, descobri que eu estava satisfeita. Ela me convidou para tomarmos um chá digestivo na varanda. Chá digestivo?, pensei; aquela comida não precisava de nada digestivo, pois era perfeita! Mesmo assim, eu concordei com a cabeça. 

A outra mulher, chamada Rosa, serviu-nos um chá aromático com biscoitinhos bem pequenos de damasco. As xícaras eram tão finas que dava medo de segurá-las. Notei que Mayara colocava sua xícara de volta no pires sem fazer nenhum ruído, e mesmo que eu tentasse, não conseguia imitá-la. Eu era como um elefante em uma loja de louças. Mas ela não parecia reparar ou se importar. 

Conversamos sobre coisas mais corriqueiras, como a minha escola e meus amigos, minhas músicas e filmes prediletos, animais de estimação. Rimos muito das nossas histórias sobre eles. Mayara adorava animais de estimação, e disse que me mostraria seus dois cavalos e seus três cães de caça na manhã seguinte. Ela também tinha um casal de faisões que ficavam soltos pelo jardim, e uma águia que pertencera ao seu marido e que ela libertara após a morte dele, mas que continuava voltando para casa todas as tardes. Seu nome era Fênix. Também havia um pequeno lago com patos. Ela disse que me mostraria tudo no dia seguinte.
Sem querer, mal consegui disfarçar um bocejo. Já passavam das dez da noite, e eu estava exausta. Imediatamente, ela me disse que eu podia ir dormir, e que ela ainda tinha que dar algumas ordens na casa. 

Entrei naquele cômodo maravilhoso que agora era o meu quarto, vesti a camisola cor-de-rosa esvoaçante que Elvira separou para mim e me deitei entre o edredon macio e os lençóis perfumados. Pretendia telefonar para minha avó e Nina, mas nem deu tempo: Mal pus minha cabeça no travesseiro, adormeci.

Horas mais tarde, ainda tonta de sono, eu escutava as batidas insistentes. Me sentia como se estivesse em um limbo, entre o sono e a realidade. Estava tão cansada, tanto física quanto emocionalmente, que mal podia abrir os olhos. As batidas continuavam no fundo da minha cabeça. Eu achava que tudo não passava de um sonho. Também escutei vozes no corredor da casa, e abrindo os olhos, vi a luz acesa por debaixo da fresta da porta do quarto. Ouvi passos apressados cruzando o corredor, e uma porta ranger. Depois, pés que subiam uma escadaria. Contei: dez degraus. Naquele momento eu já estava totalmente desperta. Vozes abafadas. Alguém parecia estar chorando.

Eu me levantei, e me adaptando à escuridão, vislumbrei o caminho até a porta do quarto. Esfreguei os olhos, encostei a cabeça na porta e escutei. Tentei a maçaneta: eu estava trancada! Alguém tinha trancado a porta do meu quarto! Ainda tentei girá-la várias vezes; afinal, casas antigas podiam ter seus problemas. Nada: eu estava presa. 

Comecei a sentir uma angústia tomando conta de mim, salpicada de medo. Eu estava na casa de uma mulher que era a minha mãe verdadeira, mas quem era ela, realmente? Crescera longe dela, e na verdade, não a conhecia. Por que eu estava trancada no quarto? Minha mão direita se ergueu para começar a bater naquela porta que me impedia de sair, mas antes que ela pudesse baixar sobre a madeira com toda a força do meu desespero, ouvi um ‘click’ na fechadura. Passos apressados se afastaram da porta e morreram ao final do corredor. Uma outra porta bateu, se fechando. Testei a maçaneta: a minha porta tinha sido aberta.
Alguém saiu no meio da noite e trancou a porta do meu quarto por precaução, talvez porque não quisesse que eu visse alguma coisa. 

Abri a porta bem devagar, uma fresta suficiente para que eu pudesse enxergar o corredor escuro e silencioso. Senti calafrios na espinha. 

Na manhã seguinte, às vinte para nove da manhã, antes que eu saísse do quarto, liguei para minha avó. Nós conversamos por alguns minutos. Eu estava na sacada do meu quarto olhando o jardim lá embaixo e o movimento do jardineiro – o mesmo homem que nos recebera quando chegamos. Ele me viu, e me cumprimentou com um aceno de cabeça. Eu acenei de volta para ele. Minha avó me perguntava se eu estava bem, e como era Mayara. Eu disse que ela era linda, e que sua casa era linda. Achei melhor não mencionar a noite anterior. Nina gritava que estava com saudades. Ela às vezes pegava o fone e, chorosa, me pedia que voltasse. Impaciente, minha avó finalmente ralhou com ela, dizendo que se acalmasse e me deixasse em paz, pois toda aquela choradeira estava deixando todo mundo nervoso. 

Depois de lidar com elas, jurando que eu estava bem e que entraria em contato assim que pudesse, liguei também para Mateus, que atendeu o telefone com voz sonolenta. Me lembrei de que ele provavelmente trabalhara a noite toda, e me senti péssima por tê-lo acordado! Mas conversamos durante algum tempo, e como sempre, ele me deu toda a atenção do mundo. Também não mencionei nada sobre a noite anterior. 
Ao desligar o telefone, eu me perguntei o porquê de ter escondido deles aqueles acontecimentos estranhos, e não achei uma resposta. 

Me vesti – uma das roupas maravilhosas que Mayara comprara para mim – e desci as escadas. Ela estava tomando o café da manhã na varanda, entre bules de porcelana e xícaras com formatos e desenhos intrincados que pareciam tão caros, que davam medo de tocar. Ao me ver, seu rosto se iluminou em um sorriso e ela fez sinal para que eu me sentasse ao lado dela, e eu obedeci, me servindo de um brioche recheado com queijo quentinho e maravilhoso. Seria muito fácil me acostumar àquela vida! 

-E então, dormiu bem, - ela perguntou, mas já sabendo a resposta. Olhei para ela, acabei de mastigar meu brioche e tomando um gole de café, respondi:

-Muito bem. E você?

O tom da minha pergunta era bastante inquisidor e soou um tanto irônico, e logo me arrependi, mas ela apenas concordou com a cabeça, mudando de assunto:

-Então,  Aisha... (Ela fez sinal para que Elvira deixasse a sala, e continuou) estive pensando sobre a escola...
Eu a interrompi:

-O ano letivo está perdido, e vou continuar apenas no ano que vem. Fiquei muito tempo fora, por causa do acidente e da morte dos meus... pais. Agora eu prefiro não pensar nisso.

Ela pareceu surpresa, e corou levemente:

-Claro, mas... é que existe uma escola excelente por aqui. Estive conversando com a diretora por telefone. 
Ela acha que com aulas de reforço, você pode recuperar os meses perdidos. O que acha?

Ela parecia ter certeza de que eu ia ficar morando com ela. E também percebi que ela tinha assumido o papel de mãe completamente, não só escolhendo minhas roupas e arrumando meu quarto, mas também tentando decidir sobre minha vida escolar. Eu me lembrei da porta trancada. Me coloquei na defensiva:

-Já disse, agradeço sua preocupação, mas não voltarei para a escola esse ano. Não estou com cabeça para estudar. E nem sei se vou ficar morando aqui muito tempo, sabe. Prometi para minha avó que eu ia voltar para morar com ela. 

Uma sombra passou pelo rosto dela e apagou seu sorriso. Ela esmagou a ponta do guardanapo, e um músculo tremeu em sua testa. Mayara não gostava de ser contrariada, e aquilo estava ficando cada vez mais óbvio, na maneira como ela Às vezes perdia a paciência com os empregados e o quanto ela tentava ‘arrumar’ as coisas para mim e fazer planos para a minha vida, sem nem me conhecer direito. Quando eu vivia com meus pais adotivos, estava sempre cumprindo ordens: Não tenha redes sociais usando seu nome verdadeiro, não publique fotos suas, não ande sozinha sem avisar onde está, não fale com estranhos, arrume suas coisas AGORA e entre no carro! Eu não queria mais aquele tipo de coisa na minha vida. 

(continua...)




sexta-feira, 3 de abril de 2020

MADRE- CApítulo 9






MADRE- Capítulo 9

A última recomendação de Mateus, antes do ônibus sair, foi para eu não deixar de ligar para a minha avó e Nina. E foi o que fiz, assim que o ônibus partiu:

-Vó, eu estou bem. Estou indo conhecer minha mãe. 

-Ah, minha querida! Eu estava aqui, morrendo de preocupação. Nina está comigo. Vai ser minha acompanhante de hoje em diante. Ela está mandando um beijo pra você.

-Mande outro para ela, e diga que eu amo. Estaremos juntas de novo em breve. Nós três. 

-Eu espero que você me perdoe, Aisha...

-Não tem nada para ser perdoado. A senhora fez o que papai e mamãe mandaram. Agora compreendo o porquê das discussões e da distância entre mamãe e você. E Nina... ela... sempre foi tão boa comigo! Se não fossem por vocês duas, acho que eu teria pirado de vez com tantas mudanças repentinas!

-Mas por favor, querida, não odeie seus pais! Eles podem ter errado, mas sempre amaram você demais, e tinham medo de perder você. Um medo que eu partilhava, e que nesse momento, eu confesso, é grande demais. 

-Não! Você não vai me perder, vó! Eu vou entrar em contato, estaremos sempre juntas! Mas eu preciso conhecer a Mayara! Nós devemos isso a ela, e ela é minha mãe, entende?
-Claro, Aisha. Vá conhece-la. 

Desliguei o telefone, e me deixei envolver pela paisagem lá fora, aproveitando para pensar em minha vida e no que estava para acontecer. O ônibus estava quase vazio, e eu estava sentada sozinha, o que era bom, pois pude chorar e rir à vontade, conforme as lembranças chegavam. Pensei no acidente; pensei nos meus amigos da escola, na festa de aniversário que jamais aconteceu. Tive uma ideia: Entrei em uma rede social e abri uma conta. Desta vez, com meu nome e foto verdadeiros! Adicionei todos os meus amigos, e passei a viagem conversando com eles e explicando tudo, pois queria muito resgatar minhas amizades. Elas eram importantes para mim, e não queria perde-las. 

Era tão bom não ter mais nada a esconder! Era tão bom poder postar minhas fotos e dar meu verdadeiro nome! Era tão bom não ter mais medo.

Também passei uma mensagem para meu antigo ‘crush’, que ficou muito entusiasmado ao conversar comigo. Acho que ainda não disse o nome dele: Caio. 

Fiquei sabendo, através dos meus amigos, que a festa foi devidamente aproveitada até o final. Eles me mandaram fotos de tudo, e também de uma homenagem que fizeram para mim. Me disseram que ficaram muito aflitos ao saber que minha família tinha deixado a cidade de repente. Eu pretendia revê-los em breve, na época das férias escolares – mas antes, eu tinha que resolver aonde estudaria. Minha vida escolar tinha sido interrompida no último ano. Ainda faltavam o vestibular, a faculdade. Meu futuro era uma verdadeira incógnita. 

Lá fora, começou a chover, embaçando a paisagem. Adormeci, e acordei quando o ônibus parou. Todos os poucos passageiros já tinham saído, e fui a última a deixar o ônibus. Já era quase noite. 
Torcendo as mãos, minha bela mãe esperava por mim, e ela parecia tão jovem e desamparada, que eu só pude largar a mochila no chão e abraça-la forte. Senti o cheiro dos cabelos dela de encontro ao meu rosto, e meus braços em volta da cintura dela. E tudo me pareceu tão certo, tão familiar! Era como se nós duas nunca tivéssemos sido separadas. 

Ela me levou até sua casa de carro. Após dirigir por mais ou menos cinco minutos, chegamos a um imponente portão de ferro pintado de preto. Minha mãe vivia em uma enorme casa amarela de janelas brancas, nos fundos de um longo passeio cercado por um gramado verde e iluminado por luzes laterais que ladeavam a estradinha. Havia muitas árvores, e sob uma delas, um balanço. Ela me disse que gostava de sentar-se ali, pois balançar a deixava calma.

Minha mãe morava em uma verdadeira mansão! 

Assim que ela parou o carro, um homem veio para leva-lo até a garagem. Ele aparentava ter uns cinquenta anos de idade. Mayara me apresentou:
-Geraldo, essa é minha filha Aisha. Irmã gêmea de minha falecida filha Georgina. Estive a procura dela por muitos anos, e finalmente, ela está aqui!

O pobre homem pareceu muito confuso, mas assim que recuperou a fala, disse:

-Seja bem-vinda, senhorita Aisha. Fico feliz que vocês tenham se encontrado!
Dizendo aquilo, ele entrou no carro e dirigiu para a lateral da casa. Achei estranha a atitude surpresa dele, mas nada disse. Entramos por uma varanda envidraçada e cheia de plantas, como uma estufa, e fomos dar em um salão ricamente decorado. Eu nunca tinha visto tantas coisas bonitas na minha vida.  Havia duas mulheres que trabalhavam na casa e foram nos receber e Mayara me apresentou novamente. As mulheres se entreolharam, parecendo muito confusas e espantadas, e baixando a cabeça, fizeram-me um leve cumprimento e saíram da sala. Mayara disse:

- Deixe eu levar você até o seu quarto.

Achei aquela frase surreal: será que eu ficaria morando naquela casa com ela? Tinha prometido à minha avó e Nina que voltaria! Mas aquela era uma decisão para eu tomar mais tarde. 
Ela me conduziu por uma escadaria curva e larga de madeira encerada, forrada por um belo tapete verde-escuro. Chegamos a um corredor também acarpetado de verde, e abrindo a segunda porta à direita, ela fez sinal para que eu entrasse:

Prendi a respiração: o quarto era enorme! Tinha até uma lareira. A cama era de ferro trabalhado, uma linda cabeceira cheia de rosas de padrões intrincados, pintadas em cores reais; tão reais, que davam a impressão de serem de verdade. Eu nunca tinha visto nada tão lindo! O tapete era cheio de desenhos maravilhosos de flores e ervas, uma verdadeira obra de arte onde eu planejei ficar durante muito tempo até que eu tivesse percorrido todas aquelas tramas. E as paredes... era uma casa antiga, e elas tinham uma pintura maravilhosa, uma paisagem campestre com montanhas, lagos, árvores, céu. Parecia original, embora restaurada.
Mayara abriu o armário: ele estava cheio de roupas! Diante da minha surpresa, ela disse:

-Eu as comprei para você. É claro que mais tarde poderemos sair e você escolherá tudo o que quiser, mas achei que seria bom que você tivesse algo para vestir. Espero que goste. Agora tome um banho, troque de roupa e descanse um pouco. Daqui a duas horas eu a chamarei para jantarmos juntas. 

Ela me beijou suavemente na testa e eu fiquei sentada na cama, olhando embasbacada para tudo aquilo.
Mas depois fiz o que ela tinha sugerido, e escolhi umas calças jeans e uma túnica branca bordada de linha branca na pala. Ela era linda, de mangas longas, e o tecido era macio e esvoaçante. Calcei também umas sapatilhas brancas sem salto. Fiquei espantada porque as roupas serviam perfeitamente, parecendo terem sido feitas sob medida. 

Aquilo era um conto de fadas e eu era a princesa, pensei. 

Saí do quarto e parei no sopé das escadas, a mão no corrimão. Pude vislumbrar o magnífico lustre de cristal, a beleza da escadaria curva, o bom gosto da decoração da sala silenciosa. Depois, respirando profundamente, comecei a descer os degraus bem devagar, tomando posse daquilo tudo com o olhar. Eu era a filha de Mayara, e aquilo tudo também me pertencia, afinal.

(continua...)




segunda-feira, 23 de março de 2020

Madre- Capítulo 8






MADRE -Capítulo 8

Enquanto esperava pela volta de Tomás, não tendo nada para fazer decidi pagar minha estadia: arrumei todo o apartamento e preparei uma macarronada com as coisas que achei no armário. Quando ele voltou, por volta das onze da noite, encontrou  tudo limpo e a mesa posta para dois. Tinha me dito que voltaria mais cedo para conversarmos.

Nós comemos, e surpreendentemente, descobri que eu sabia fazer uma ótima macarronada, afinal de contas. Contei a ele  o que tinha conversado com minha verdadeira mãe ao telefone. Ele me escutou com atenção, serviu-se de um pouco de vinho. Tomás era um excelente ouvinte e um sábio conselheiro. Finalmente, quando ele sentiu que eu já tinha dito tudo o que eu precisava, ele balançou a cabeça e declarou:

- Sua vida está para sofrer a segunda grande mudança, Aisha. Espero que não seja demais para sua cabecinha. Mas... você não acha que seria uma boa ideia pensar um pouco mais sobre o que sente em relação aos seus pais adotivos? Afinal, eles acabaram de falecer e você mal teve tempo para um período de luto. E saiba, o luto é importante para que a gente supere as perdas.

Eu me encolhi no sofá:

-Eu não sei se eles merecem que eu fique de luto. Me esconderam da minha mãe durante quinze anos. Me roubaram do hospital quando eu nasci. Eu tinha uma irmã gêmea que eu nunca conheci por causa deles. 

-Mas com certeza não foi tudo ruim! Pense nos momentos felizes que vocês tiveram juntos. Quantas vezes você chorou depois que eles morreram, querida?

-Só uma vez, no hospital, depois que eu li a carta que minha mãe deixou. Mas foi um choro de... sei lá... acho que de raiva. Ressentimento. Indignação. Pelo que eles me fizeram.

Ele se sentou ao meu lado, segurando minha mão:

-Olha, eu não gosto muito de me meter na vida dos outros, mas... você caiu aqui de paraquedas, e eu me sinto meio responsável por você. Acredito que tudo na vida tem um motivo, e se tudo isso te aconteceu, foi para o seu bem. Sabe-se lá que vida você ia ter, se não fossem seus pais de mentirinha? Sua própria mãe disse que não poderia cuidar de duas crianças pequenas ao mesmo tempo. Cuidar de uma só já foi difícil para ela. Seus pais fizeram um bom trabalho, não?

Comecei a sentir uma inquietação tomando conta de mim, em forma de ansiedade. Num impulso, fui até a mesa e derramei uma quantidade grande de vinho no copo, bebendo tudo de uma vez só. Não estava acostumada a beber. Mateus ainda tentou me impedir, mas eu corri para o outro lado da mesa e bebi tudo depressa. O efeito foi eficaz: senti meu corpo relaxando aos poucos, em um leve torpor. E as lágrimas de dor pela perda dos meus pais adotivos puderam finalmente romper a barreira da minha dureza e jorrar aos borbotões. Chorei durante muito tempo, e partilhei com ele boas lembranças dos muitos momentos de felicidade que eu vivera junto a eles. Nem sei por quanto tempo eu fiquei contando minha vida para ele, e hoje, quando me lembro, fico agradecida pela paciência que ele teve comigo, em me escutar. Ele riu e chorou comigo. Surpreendeu-se, indignou-se, comoveu-se, gargalhou, caminhou pelas passagens da minha vida como um espectador ativo e interessado. Era tudo o que eu precisava, e ele foi tudo o que eu precisava. Não me julgou, não julgou meus pais, não fez observações idiotas que as pessoas fazem, que começam sempre com “Eu, no seu lugar, teria feito isso e aquilo.”

Horas depois, Mateus me abraçou. Colocou-me na cama e me deu um sonífero leve, sentando-se na poltrona ao lado da minha cama. De vez em quando eu abria os olhos na minha sonolência, e ver ele sentado ali, dormindo ao meu lado, me fez sentir tranquilidade. Na manhã seguinte, quando acordei, ele tinha preparado o café da manhã. Fez eu me sentar e comer. Depois, penteou meus cabelos ainda molhados em um lindo coque (disse ter sido cabelereiro há muitos tempo).  Adorei o resultado do penteado, que fez com que eu me sentisse mais madura. 

Mateus pegou o papel onde eu tinha anotado o endereço da minha mãe, e me entregando, disse:

-Agora vá ver sua mãe. 

E foi o que eu fiz. Peguei minha mochila, despedi-me dele e parti para a rodoviária, onde tomei um ônibus e enfrentei quatro horas e meia de viagem até a cidadezinha onde minha mãe Mayara vivia. 








terça-feira, 10 de março de 2020

MADRE - Capítulo 7






Capítulo 7

No dia seguinte, acordei Às onze e trinta e cinco da manhã sentindo cheirinho de ovos, bacon e café. Meu estômago vazio logo deu sinal de vida, e vestindo minhas roupas, escovei os dentes, lavei o rosto e fui até a cozinha, onde Mateus estava preparando um lauto café da manhã para nós. Ele me explicou que chegara em casa às cinco da manhã e dormira até dez e trinta, o que fazia todos os dias. O bar costumava abrir às sete e trinta da noite, então ele tinha o dia livre para fazer o que quisesse.

Nós tomamos nosso desjejum e depois passei muito tempo contando a ele em detalhes a estranha história da minha vida. Mateus escutou tudo quase sem me interromper, e depois, quando terminei, ele deu um longo suspiro:

-Uau! Parece coisa de novela. Você me superou, Aisha! Eu achei que tinha uma história de vida difícil, isso é, sendo gay e rejeitado pela família... mas você me superou, confesso.

E deu uma grande risada. Ele não me deu conselhos, apenas me perguntou o que eu pretendia fazer em seguida. Respondi que iria procurar minha mãe de verdade, e ele concordou com a cabeça. Depois, em tom de humor, me disse:

-Mas não sem antes tomar um bom banho e lavar essa coisa grudenta que você tem na cabeça. Pode usar a banheira à vontade! Lá tem sais de banho, espuma, e todas as coisas para que você passe alguns minutos relaxando. Já eu... acho que vou dormir mais um pouco. 

Eu o obedeci.

No final da tarde, ele se despediu e foi abrir o bar. Disse que eu poderia ficar com ele o tempo que eu quisesse, que não precisava me preocupar com nada, e eu me senti tão grata, que tive vontade de abraça-lo e beijá-lo, mas não o fiz, achando que ele era só um desconhecido, afinal de contas. Senti naquele meu pensamento traços das lições sobre segurança que minha mãe sempre me passava:

“Nunca ande sozinha, principalmente por ruas escuras. Não fale com estranhos jamais, não poste fotos ou revele sua identidade na internet, ou tomaremos seu telefone e computador. Jamais pegue carona com estranhos ou deixe que estranhos toquem em você. Sempre olhe para trás para ver se não está sendo seguida. Não confie em ninguém!”

Respirei fundo e peguei a carta da minha mãe onde ela tinha escrito o número do telefone da minha mãe verdadeira. Peguei o aparelho de telefone fixo de Mateus.  Mas de repente, toda a certeza que eu tinha foi por água abaixo: quem seria ela, realmente? E se ela me rejeitasse? E se fosse louca ou algo assim, e na verdade, tivesse assassinado minha irmã gêmea? 

A ansiedade tomou conta de mim em rápidas golfadas de ar que pareciam não ajudar em nada na entrada de oxigênio nos meus pulmões. Aquele não era meu primeiro ataque de ansiedade; eu tivera tais ataques a minha vida toda, principalmente durante a noite, quando acordava banhada de suor sem conseguir respirar direito e achando que ia morrer. Geralmente, minha mãe ou Tina me faziam um suco de laranja e me davam um calmante leve, ficando comigo até que eu dormisse de novo. Mas agora eu não tinha ninguém por perto, e precisaria fazer tudo sozinha.

Peguei um copo de água com açúcar e bebi aos pouquinhos, tentando respirar devagar. Vasculhei o armário do banheiro e acabei encontrando uns comprimidos de Diazepam. Parti um deles ao meio e engoli sem água. Aos poucos, fui me acalmando. 

Peguei o telefone e disquei o número. Ele tocou nove vezes e eu já ia desligar, a ansiedade crescendo, quando uma voz cristalina respondeu: “Alô!”

Prendi a respiração, e tentei ficar calma:

-Alô.

Silêncio do outro lado. Eu conseguia sentir a tensão dela. Ela sabia que era eu. Eu sabia que ela sabia. E ela sabia que eu sabia que ela sabia. Enfim...

-Meu nome é Aisha.

-Eu sei. Eu... eu sei! Meu nome é...

- Mayara. Eu sei, é Mayara. Meus pais... eles...

-Eu sei. Sinto muito. Mas você não está sozinha, Aisha. Eu procurei por você a vida toda. A vida toda eu sonhei com o momento em que eu poderia falar com você, olhar para você...

De repente, a raiva me dominou, e eu gritei:

-É mesmo? Então por que deixou ela me levar? Por que não procurou a polícia?

-Porque durante muito tempo eu sabia que não poderia dar uma boa vida a você. Eu era extremamente pobre, e houve dias em que cheguei a passar fome. Eu não tinha ninguém! Nem sei como Georgina... sua irmã... sobreviveu!

As lágrimas desciam sem o menor esforço, formando uma cachoeira no meu rosto. Ela continuou:

- Eu conheci um homem que foi um pai para ela. Ele era muito rico, e tratou-a como a uma filha. Foi então que eu contei a ele a verdade sobre a sua existência, logo depois que ele se casou comigo. Ele me aconselhou a procurar você, mas eu não queria escândalos, não queria que a polícia se envolvesse, pois não desejava prejudica-la. 

-Minha irmã sabia de mim? Ela sabia que eu existia?

-Sim. Eu sempre disse a ela a verdade. Ela queria conhecer você, mas... você sabe, ela ficou muito doente e morreu aos seis anos. Mas ela tinha uma boneca, sabe... o nome da boneca era Aisha. (O tom de voz dela tornou-se quase animado) Ela costumava brincar muito com essa boneca.

-Mas... e meu pai? Onde ele está?

-Seu pai? Ele sumiu, há muitos anos, e ele nunca assumiu a paternidade. Na verdade, era jovem demais. Não sei se ele fez por mal, ficou assustado e ele e a família se mudaram para longe, me deixando sozinha. Meus pais, ao saberem da gravidez, queriam me obrigar a fazer um aborto. Mas eu me neguei, e fugi também. Eu não tinha nada! Consegui ajuda em uma casa para meninas como eu, grávidas e jovens demais. Hoje, seus avós já são mortos. Minha mãe morreu de câncer, e meu pai teve um ataque cardíaco. Eu... nunca pude perdoá-los. 

Deixei que ela falasse sem interrompê-la, o tempo todo dizendo a mim mesma: “Essa é a história de vida da sua mãe verdadeira.” 

-Aisha, eu não queria nada disso. Às vezes as coisas fogem do controle.

-E o seu marido? Ainda vivem juntos?

-Não, ele faleceu há cinco anos. Jorge era bem mais velho do que eu. Praticamente tinha idade para ser meu pai. 

Pensei que ela havia ficado totalmente só. Eu ainda tinha Tina e minha avó emprestada, mas ela não tinha ninguém. Eu me ouvi dizer:

-Quero te ver. Quero te conhecer melhor.

Escutei o choro dela do outro lado da linha.

(continua...)




AS CASAS VELHAS E AS VIDAS ABANDONADAS - Parte 3

Ao ler a última carta de Leonardo, Bob percebeu que o dia já ia longe. O céu tingira-se de vermelho, e ele ainda não tinha sequer c...