quinta-feira, 20 de abril de 2017

A MÃO E O LAÇO – CAPÍTULO III







Na segunda-feira após a festa, Shirley me contou que tinha transado com Julio atrás do sofá de minha avó. Fiquei chocada, pois eles poderiam ter sido descobertos; afinal, era uma festa! Havia gente na casa toda. Ela me respondeu dizendo que aquilo dava um ar de perigo à relação, deixando tudo ainda mais excitante. Perguntei a ela quando eles iam se ver de novo, e ela me olhou espantada:

-Como assim, nos ver de novo? Foi só uma transa sem importância. Eu, hein...

Fiquei boquiaberta, pois eu mesma jamais pensaria em transar por transar. Aos dezesseis, ainda era virgem. Ela riu quando eu disse a ela, mas depois, ficou me olhando durante algum tempo, e em seguida, baixou os olhos, parecendo triste. 
Às vezes eu achava que aquela Shirley que eu conhecia não passava de uma fachada, uma proteção que ela criara. Mesmo assim, gostava cada vez mais dela. 

Estávamos sempre juntas: eu, ela e Laura. Adílio sempre aparecia, mas éramos diferentes quando ele estava perto – talvez por ele ser menino – mas nós o adorávamos. Até que eu e Shirley percebemos que Laura gostava mais dele do que nós... quando Shirley perguntou a ela: “Por que você não dá em cima dele?” Laura apenas encolheu os ombros, dizendo:

-Se ele não me enxergava antes, como vai me enxergar agora, que só tem olhos para a Jordana?

Garanti que eu não queria nada de mais com ele, mas ela disse que aquilo não fazia com que ele ficasse a fim dela. Eu não queria que uma rivalidade nos afastasse, mas ela me garantiu que aquilo jamais aconteceria, mesmo se ele e eu ficássemos juntos. 

As aulas estavam terminando. As férias começariam em alguns dias, e havia algumas aulas vagas durante as quais tínhamos autorização para ler, conversar baixinho ou passear pelo pátio. Quase todas as  provas finais já tinham sido feitas, e minhas notas tinham sido ótimas. Eu estava feliz. 

Shirley dava e pedia ‘cola’, e ela o fazia de forma tão descarada, que nem chegava a corar quando o professor quase a pegava no ato. Trocava de prova com os outros alunos, passava e recebia papeizinhos com colas, dava dicas com as mãos quando o professor virava de costas. Eu achava imperdoável colar, mas ela me dizia que eu era correta demais; ora, a maioria das coisas que nos ensinavam na escola, jamais seriam usadas na vida prática; então, por que repetir um ano escolar apenas por não saber qual a raiz quadrada de algum número absurdo, ou quem descobriu um país do qual ninguém nunca tinha ouvido falar? Acabei tendo que concordar com ela, mas mesmo assim, ainda estudava para as provas, como sempre fizera. 

Naquela manhã de começo dezembro, eu de repente senti falta de Diana entre os de sua turminha de revoltados, e perguntei a Shirley se ela sabia aonde ela estava. Shirley desconversou, dizendo que não tinha notícias dela. Sem a presença de Diana, eu me sentia bem mais à vontade. Quando ela estava presente, sentia os olhos dela me queimando as costas sempre que eu passava. Tinha a sensação de que ela poderia pular sobre mim a qualquer momento, mesmo eu sendo uma protegida de Shirley. Mas mesmo assim, de certa forma, eu me preocupava com ela. 

No aniversário de Adílio, ela apareceu na festa. Seus cabelos negros e muito longos tinham sido cortados bem curtos, mas isso não diminuiu sua beleza selvagem nem um pouco. Quando eu a vi entrando no apartamento, quase desmaiei de susto, mas Adílio me disse para ficar tranquila; ele a tinha convidado porque já se conheciam há muito tempo, e me contou que tinham ‘ficado’ em uma festa, antes de ele me conhecer. 

Shirley ainda não havia chegado, como sempre, desejando que sua chegada se tornasse um evento notado por todos. 

O  clima entre Adílio e eu acabou esquentando, e durante uma dança lenta, ele me abraçou mais forte. Senti um calafrio, algo que nunca sentira antes quando estava com ele. Eu dizia a mim mesma que não estava a fim, mas então por que sentia aquele calafrio? Por que o cheiro dele estava me despertando sentimentos novos, que eu nunca sentira antes? De repente, o cabelo dele roçando minha têmpora deixava minha pele arrepiada, e a voz dele no meu ouvido quando conversávamos enquanto dançávamos, me fazia sentir uma coisa estranha entre as pernas. Algo que eu só sentia quando estava sozinha, tomando meus longos banhos de banheira.

Só sei que, quando dei por mim, o clima esquentara tanto que eu o estava beijando. Eu me deixei envolver por ele. Adílio estava muito bonito na festa, usando uma camisa preta e calças jeans novas. Tinha cortado o cabelo, repicando-o, e tirando aquela franja ridícula que lhe dava um ar infantil. Percebi que a camisa mais justa deixava entrever alguns músculos que eu não notara antes, sob as camisetas de malha largonas que ele gostava de usar. 

Eu deixei que ele me beijasse, e gostei. Senti que alguém nos olhava, e quando abri os olhos, vi Laura indo embora da festa. Sem querer, eu disse:

-Mas que merda...

Ele percebeu sobre quem eu falava, mas não porque.

-Mas por que? Você e Laura brigaram?

Olhei-o nos olhos; continuávamos dançando:

-Não sei, acho que sim...

-Acha?

-Vai me dizer que você não sabe que ela é a fim de você?

Ele fez a cara mais surpresa do mundo:

-Não, eu não sabia! Juro! Pôxa... que merda. 

-Pois é... e agora?

Ele me olhou, e me beijou de novo. E eu deixei. Mais uma vez, senti que alguém me olhava insistentemente, e quando olhei, vi Diana de pé num canto da parede, nos observando. 

-Ah, não – eu disse – era só o que faltava!

Ele olhou para onde eu estava olhando, e entendeu.

-Parece que está todo mundo a fim de mim hoje... será que é porque é meu aniversário?
Eu ri:

-Seu metido! Até parece. 

Diana estava com as mãos abertas encostadas à parede, como se pudesse sair correndo a qualquer momento. A música terminou, e Adílio foi até a cozinha pegar alguma bebida para nós – ao contrário de vovó, os pais dele não se importavam se misturássemos gim ou rum à Coca-Cola, desde que ninguém ficasse bêbado. O apartamento de Adílio não chegava a ser metade da metade do tamanho da casa de minha avó, mas a festa estava tão concorrida quanto. A porta da frente estava aberta, e havia gente até no corredor do prédio. 

Joguei-me rapidamente em uma poltrona que ficou vazia de repente, e para meu espanto, vi Diana caminhando em minha direção. Engoli em seco. Ela se inclinou para mim, e eu pude olhá-la nos olhos e sentir seu perfume forte de Patchuli:

-Espero que você seja legal com ele. 

Continuei olhando para ela, mas não respondi, pois não sabia o que dizer. 

-Adílio é um dos meus melhores amigos. Ele me contou que estava apaixonado por você. Ele disse que você é legal. Shirley também. Ela é...

Diana ia me contar alguma coisa, mas de repente, pareceu mudar de ideia. A frase ficou no ar, cortada pela metade. Tentei emendar:

-...Ela?... 

Diana respirou fundo, olhando para o chão. Ajoelhou-se perto da minha poltrona. Chegou mais perto de mim.

-Ela é minha quase meia-irmã. 

Meu queixo caiu:

-Sua quase-meia-irmã? Eu não sabia!

-Ninguém mais sabe. Meu pai... meu padrasto é pai dela. Quando ele se separou da mãe dela, ainda éramos crianças. E então ele se casou com a minha mãe. Mas ela não gosta que as pessoas saibam. 

Senti muita pena de Diana. 

-Por que?

-Porque... se eles souberem, saberão o que ele fazia com ela também. 

De repente, ela se levantou depressa, caminhando para o outro lado da sala de cabeça baixa. Adílio voltou com dois copos de Coca-Cola e gim. Achei melhor não comentar nada com ele. Fiquei pensando na história que Shirley me contara; ela havia me dito que o padrasto de Diana morava com a mãe dela e com ela há apenas dois anos. Aquilo era uma mentira! Diana acabara de me contar que ele se casara com sua mãe quando elas ainda eram crianças; mas por que Shirley mentia para mim, para todos? Ou será que Diana tinha mentido?

Enquanto pensava naquilo, escutei vozes exaltadas e assovios: era Shirley que chegava. Entendi imediatamente porque Diana fora embora correndo. Ela tinha medo de Shirley. Tinha medo de que Shirley a visse comigo. 
Shirley veio até nós, e quando nos viu de mãos dadas, ela arregalou os olhos:

-Hum... então, finalmente acertaram os ponteiros?
Eu não soube o que dizer; na verdade, ainda não sabia o que estava sentindo por 
Adílio. Ela não esperou que respondêssemos, e foi logo perguntando:

-Cadê a Laura?

Adílio e eu nos entreolhamos, e ele disse:

-Foi embora. Acho que não gostou de nos ver juntos...

Shirley ficou séria de repente, e olhando para mim, disse:

-Também... assim que ela contou a Jordana que gostava de você, ela vê vocês dois juntos! Parece que você só se interessou por Adílio porque soube que Laura gostava dele, Jordana! Êta amiga falsa!

Dizendo aquilo, ela deu uma gargalhada, e ao ver meu constrangimento, disse:

-Hey! Brincadeirinha! Espero que vocês sejam felizes juntos.

Eu não respondi, mas Adílio observou, em tom casual e divertido:

-Você fala como se estivéssemos nos casando, Shirley. Só estamos ficando. 
Achei muita cara-de-pau dele dizer aquilo, depois da intensidade dos beijos que déramos. Fiquei zangada:

-Acho que eu já vou indo. 

Adílio imediatamente notou a besteira que acabara de dizer:

-Hey, espere aí... ainda é cedo, Jordana. 

Shirley riu, dando-me dois beijos na bochecha. Depois, ela foi falar com Diana, assim que a viu do outro lado da sala. Eu insisti:

-Preciso ir, Adílio. Aliás... nem sei por que fizemos aquilo. Considere da seguinte forma: ficamos... e desficamos! Tchau!

Ele foi atrás de mim. Na calçada, ele me puxou de leve pelo braço:

-Vamos dar uma volta à pé? 

-Não!

-Posso ao menos te levar em casa? Já está tarde. Olha, eu não quis dizer aquilo... sou a fim de você desde que nos conhecemos.

-Tudo bem. Não precisa, moro a dois quarteirões daqui. Amanhã a gente se fala. Me liga. Agora eu preciso ir. Estou muito confusa...

Deixei-o plantado na calçada. Estava mesmo confusa, mas não por causa dele; pensava em Diana e Shirley: quase meio irmãs! Por que ela me escondera – por que ela escondera de todos? Será mesmo que Diana dissera a verdade? Será que minha amiga tinha sido abusada pelo próprio pai na infância?

Minha mãe estranhou quando cheguei em casa tão cedo após a festa – eram apenas 11 da noite. Ela estava com amigas na sala, jogando cartas. Dei boa noite a todas, e fui para o meu quarto. Ela foi atrás de mim.

-Tudo bem, filha?

-Tudo, mãe. Só estou um pouco indisposta.

Ela entrou, fechando a porta:

-Você sabe que pode me contar tudo. O que aconteceu? Há tempos não a vejo assim!

Na hora, senti uma vontade enorme de desabafar com ela. Olhei-a nos olhos; sabia que aquela não era uma boa hora, pois ela tinha convidados. Prometi;

-Conversaremos amanhã. Prometo. Mas não fique preocupada, não é nada comigo. É com uma de minhas amigas. Um problema. Não sei como ajudar ou o que fazer a respeito. Mas agora estou cansada, só quero dormir um pouco.

-Promete que não é nada com você?

-Não é não, mãe. Vá ficar com suas amigas! Vou tomar uma ducha, uma aspirina e ir dormir. 


Mas assim que saí do chuveiro, o meu telefone tocou; olhei no visor e vi o número de Laura. Respirei fundo, achando se deveria atender, e atendi. Ela disse:

-Me desculpe a atitude infantil na festa, Jordana. Só queria que você soubesse que está tudo bem. Isso é, não me importo de você e Adílio estão juntos. Ou melhor, eu me importo, mas não estou com raiva, entende?

-Laura, a gente só deu uns beijos... nem sei por que fiz aquilo, acho que bebi muito gim com Coca-Cola e fiquei meio-zonza. Eu... olha, não vai acontecer mais nada entre nós, Ok?

Ouvi a respiração dela do outro lado, e percebi que ela estava tentando conter o choro. Finalmente, ela disse, após uma breve fungada que ela tentou disfarçar, afastando o telefone:

-Olha, tá tudo bem mesmo!

-Eu sei. E vai continuar assim, amiga. Eu te devo desculpas. Sabe... não sei o que deu em mim, acho que foi a bebida... é isso. Não estou a fim dele, somos apenas amigos. Juro. Acho que você deveria se insinuar um pouco mais. Você quer que ele te note mais do que a uma amiga, não?

-Era tudo o que eu queria... mas ele está louco por você.

-Não está não. É porque sou nova no pedaço.

-Ele me disse. Nem se tocou o quanto estava me magoando. 

Me senti péssima. Nem sabia o que dizer a ela. Pensei naquela noite e em tudo o que fizera, e na maneira insensível que agi com duas pessoas de quem gostava demais. Falei:

-Essa noite foi um caos, Laura. Dei muita bandeira. Eu vou dormir, e amanhã conversamos melhor, Ok? Me desculpe.

-Ok. Não tem por que pedir desculpas. 

Nos despedimos, e fui dormir com os cabelos ainda molhados. 

(continua...)

segunda-feira, 17 de abril de 2017

A MÃO E O LAÇO – CAPÍTULO II







Eu estava chegando em casa da escola um dia, e quando fechei a porta do hall, ouvi vozes na sala. Alguma coisa me fez parar e escutar um pouco da conversa antes de entrar: eram minha mãe e minha avó. Fiquei feliz em ouvir a voz de minha avó, pois eu sabia que ela e papai não se davam muito bem quando ele vivia, e que por causa disso, ela nos visitava muito pouco – sempre quando ele não estava – e nossos encontros de família, quase sempre tensos, eram limitados a natais e alguns aniversários. Quem sabe, pelo menos uma coisa boa poderia advir da morte de papai, ou seja, a reaproximação de vovó? 

Ela era uma mulher na casa dos setenta anos, alta, esguia e muito bonita. Se eu pudesse escolher um sinônimo que bem a definisse, seria elegância. Eu me orgulhava de minha avó, e durante muito tempo, ela foi meu ‘role model.’ 

Quando criança, eu ficava na frente do espelho tentando copiar-lhe os gestos, olhares e a também a maneira como ela se sentava sempre reta, as costas totalmente encostadas no espaldar das cadeiras, as pernas com os tornozelos cruzados e levemente inclinados para o lado esquerdo do corpo. Conseguia tomar uma xícara de chá inteirinha sem fazer qualquer ruído quando a xícara encontrava o pires. Por mais que eu tentasse, não conseguia realizar aquela façanha. O tom de voz quase nunca se erguia, mantendo-se sempre no mesmo nível em que podia ser claramente escutada sem soar irritante aos ouvidos de ninguém. Só ouvi minha avó gritar uma única vez, pouco antes da morte de papai. Ela e mamãe conversavam a portas fechadas no escritório de nossa antiga casa. Nunca fiquei sabendo o motivo. 

Parada no hall, em silêncio, respirando devagar para não chamar a atenção das duas, escutei; vovó dizia:

-...Eu sempre soube que acabaria assim. Jander não tinha tino para os negócios. Afundou a empresa. Felizmente, seu pai desmembrou parte dela e a colocou no seu nome antes de morrer, ou ele teria afundado com tudo.

-Mamãe, por favor, eu não gostaria que continuasse a falar assim de Jander. Não é justo, agora que ele se foi e não está mais aqui para se defender. 

-É verdade, ele não está mais aqui. Pois quando estava, defendia-se muito bem. Mas vamos deixar este assunto de lado, Letícia. Você sabe que a casa estará sempre de portas abertas para receber você e minha neta. Pense melhor no assunto. Poderiam mudar-se para lá no momento que desejassem. 

-Agradeço muito, mamãe, mas eu e Jordana estamos bem. Acho melhor eu tentar levar a minha vida e fazer alguma coisa por ela e por mim mesma, para variar. Queria aprender a ser mais independente. 

-Mas pelo menos, aceite a mesada. É de coração, e vocês ficariam bem mais tranquilas.

-Está bem, eu aceito, não estou em condições de ser orgulhosa. 

-E me deixe pagar a escola de Jordana. Coloque-a de volta no Nossa Senhora de Lourdes.

Naquele momento, eu respirei fundo e fiz um ruído de propósito, para denunciar a minha presença. Entrei, e vovó ergueu-se da cadeira, abrindo os braços para mim. Abracei-a, aspirando seu perfume delicado, e depois disse:

-Escutei parte da conversa, vovó, e gradeço muito tudo o que faz por nós. Mas prefiro continuar na minha atual escola. Fiz alguns bons amigos, amigos verdadeiros. No Nossa Senhora de Lourdes, descobri que não fiz nenhum amigo. Assim que eu e mamãe perdemos tudo, as pessoas viraram as costas para nós. Nenhuma de minhas antigas amigas me procurou, nem as de mamãe. Fomos esquecidas, deixadas para trás como lixo. Quero uma vida mais verdadeira.

Vovó me olhou longamente, e senti minha autoconfiança esfriar; mas ela apenas acariciou meu rosto, dizendo:

-Está bem, querida. Que seja como você quiser. Sei muito bem do que você está falando, mas infelizmente, nesse mundo nós somos julgados pelo que representamos – posição social, dinheiro, essas coisas. Pode não ser uma ideia muito agradável e verdadeira, mas é assim que as coisas são.

Eu agradeci de novo, e emendei:

-Mas há pessoas verdadeiras, Vó Aurora. Estou feliz em poder conhecê-las finalmente, em minha nova escola. 

Eu pensava em Shirley, Adílio e Laura; de repente, comecei a pensar também em Diana, que apesar de ter sido muito agressiva comigo, pelo menos não teve medo de mostrar o que realmente era. 

Quando vovó saiu, minha mãe veio ter comigo. Eu estava em meu quarto, já de roupa trocada, pronta para almoçarmos. Vó Aurora recusara o convite de juntar-se a nós, pois tinha um compromisso com as amigas no clube. Minha mãe bateu, e eu mandei-a entrar:

-Jordana... podemos ter uma conversa?

-Claro, mãe. Entre, sente-se aí na cama.

Notei o quanto ela parecia cansada e triste. A morte de papai ainda a fazia sofrer muito, pois eram um casal muito apaixonado. Ela não podia contar muito com vovó para desabafar, e suas amigas antigas também a tinham deixado do lado de fora de seus mundinhos perfeitos assim que o funeral terminou. Mamãe nunca falava de si mesma comigo, fazendo questão de que eu a enxergasse como um porto seguro, alguém em quem eu poderia confiar em todos os momentos, e não um adulto fraco que não podia cuidar de si. Ela emagrecera alguns quilos, e seus cabelos, antes tão bem cuidados, permaneciam presos em um coque à altura da nuca. As raízes precisavam de retoques, mas ela parecia não ligar. Mesmo assim, era uma mulher muito bonita. Puxara à minha avó. 

Ela sentou-se, alisando a colcha com a mão. Parecia tomar coragem para me dizer alguma coisa. Finalmente, ela me olhou – eu estava sentada na cadeira da escrivaninha, bem em  frente a ela.

-Jordana... nós não falamos muito sobre a morte de seu pai. Quero saber como você está. 

-Bem... na medida do possível, estou bem, mamãe. Acho que já superei, se é que é possível superar a ausência de alguém que a gente ama tanto. Mas... acho que você entende o que eu quero dizer.

-Sim, entendo... já faz mais de um ano.

Atrevi-me:

-E você, mãe? Como está?

Ela demorou um pouco a responder. Era difícil para ela falar sobre aquilo. 

-Bem, acho. As noites são mais difíceis. Acho que sempre serão. Eu... estou procurando emprego, como você sabe. Ainda temos dinheiro suficiente para alguns anos sem preocupações, e agora que finalmente resolvi aceitar a mesada de sua avó, nós ficaremos bem, mas... quero fazer alguma coisa por mim mesma. Você compreende?

-Claro! Já está mais do que na hora. Quero dizer, você merece ser feliz, mãe. Ainda é jovem e bonita. 

-Você está mesmo bem nessa escola? Não gostaria de voltar para o Nossa Senhora?

-Não. Estou realmente bem. Fiz alguns amigos. O Sidarta é um colégio bem diferente do outro, mas é muito bom assim mesmo. É uma escola particular, temos bons professores. A única diferença, é que ele não é bilíngue nem oferece cursos complementares, como línguas, artes, esportes... fora isso, é perfeito. E nós podemos pagar. 

-Não, querida... se a questão for dinheiro, saiba que não é problema, filha.

-Já disse, está tudo bem, mãe.

Ela fez silêncio, depois disse:

-Por que não traz suas amigas aqui?

-Vou trazê-las, mãe. Posso convidá-las para o almoço na sexta?

-Pode sim, filha. Farei aquela massa deliciosa que aprendi na internet. 

Mamãe andava aprendendo a cozinhar, e estava indo muito bem. Sorri, e pegando na mão dela, fomos almoçar. 

Na sexta-feira, cheguei em casa com Shirley, Adílio e Laura. Apresentei-os à minha mãe, que sorriu e foi muito gentil com todos. Adílio comentou ao pé do meu ouvido o quanto minha mãe era bonita, e disse que tinha entendido de onde eu tirara a minha beleza. Laura foi quem passou mais tempo conversando com mamãe. Enquanto isso, Shirley andava pela sala, examinando porta-retratos, almofadas, tapetes e tudo o que seus olhos pudessem alcançar. Reparei que ela pediu para usar o banheiro e demorou um pouco mais do que o normal. Depois, veio pelo corredor, olhando as fotos de família na parede. Também atreveu-se a abrir a janela da sala e olhar para baixo. 

Almoçamos, conversando sobre os assuntos da escola. Foi uma tarde leve e agradável. Shirley trocou poucas palavras com minha mãe, mas foi educada. Percebi que elas não exatamente morreram de amores uma pela outra. Quando meus amigos finalmente foram embora, eu e minha mãe nos jogamos no sofá da sala. Eu já sabia o que ela ia dizer, mas esperei.

-Gostei deles, filha. Parecem legais... quero dizer, refiro-me ao menino e à Laura, de quem gostei muito. A outra menina... Shirley... achei-a um tanto abusadinha. 

Eu tentei levar na brincadeira:

-Imagine... ela é ótima, mãe! Minha melhor amiga. É que ela é assim mesmo, sempre curiosa.

-Ela é bem diferente de você. Filha... acho que ela não combina com seus modos, com sua educação... é claro que eu posso estar errada, mas você sabe que eu dificilmente me engano quanto ao caráter das pessoas. 

Naquele momento, um sininho de advertência soou bem baixinho no fundo da minha cabeça, mas eu não queria pensar no assunto, e fiz com que ele silenciasse. Ao invés disso, parti em defesa de minha amiga:

-Não se preocupe, mãe. Teremos outras oportunidades para desfazer a má impressão. Também não gostei dela assim que a vi, mas Shirley tem se mostrado uma amiga presente e bastante fiel. Ela ajuda a todos. Sabe, é muito boa em matemática. 

-Mesmo assim, ela é diferente de você... muito diferente.

Eu pus minha mão sobre a dela:

-Nós somos diferentes agora, mãe. Nossa vida é diferente. Nosso mundo é diferente.

Ela concordou com a cabeça:

-Talvez você tenha razão. 

Mamãe acabou arranjando um emprego em uma imobiliária, como corretora. Eu não conseguia imaginar minha mãe vendendo casas, mas ela conseguiu sair-se muito bem logo na primeira semana, vendendo um apartamento e uma sala comercial por um bom preço. Após um mês, já conseguia uma boa comissão. Mesmo assim, vovó recusou-se a deixar de mandar a mesada. Minha mãe aceitou-a, e pudemos viver mais folgadamente, embora bem longe do estilo ao qual estávamos acostumadas. 

Ela vendeu seu Mercedes e comprou um carro bem mais em conta – zero, mas bem mais simples. Logo, minha mãe estava fazendo amizades no trabalho, e saindo para ir ao cinema e aceitando convites para almoçar com suas novas amigas. Fiquei feliz; as coisas estavam realmente indo bem. Vovó estava muito mais presente em nossas vidas, e ela permitia que eu convidasse meus amigos aos sábados para usar a piscina de sua casa. 
Novembro chegou rapidamente. Minha festa de aniversário de 16 anos foi lá; pude convidar meus amigos da escola, e vovó contratou um bufê maravilhoso. Também deu autorização para eu contratar um DJ. A festa foi no jardim da mansão, e tudo estava lindo. 

Na noite da festa, pouco antes que os convidados chegassem, mamãe me deu de presente um vale compras em uma butique da cidade, dizendo que eu precisava comprar roupas novas, o que me deixou muito feliz, já que não comprava nada novo há quase um ano. Agradeci, beijando-a. Vovó me abraçou e deu-me uma caixinha de joias, e quando abri, havia uma correntinha de ouro e um pingente com um relicário que continha uma foto dos meus pais. Comovi-me às lágrimas; achei lindo ela fazer aquilo por mim, mesmo não gostando de papai. Ela disse:

-É uma maneira de você sentir que ele está perto de você. 

Depois, elas despediram-se de mim, dizendo que eu aproveitasse a festa, e recolheram-se na outra ala da casa, bem longe do barulho das comemorações. Vovó deixou-me seu mordomo, dois garçons que havia contratado e duas copeiras. Fora eles, não havia mais nenhum adulto na festa. A única condição que minha avó impôs, é que não houvesse bebidas alcoólicas na casa, e eu prometi cumprir a promessa. 

Por volta das nove da noite, Shirley finalmente apareceu. Foi quase a última convidada a chegar, o que causou muitos gritos de boas vindas e urras. Ela realmente roubou a festa: bronzeadíssima, devido às idas à piscina de minha avó, ela usava um vestido de lamé prateado, bem colado no corpo, que se abria logo abaixo dos quadris, em uma saia godé que terminava acima dos joelhos. O decote era um pouco profundo demais para o meu gosto, mas não chegava a ser vulgar. Ela tinha clareado os cabelos, e tive a impressão de que fizera algum tipo de tratamento neles, pois ao invés de ressecados e manchados como sempre, estavam com aparência saudável e macia. Shirley estava linda! A pele bronzeada destacava seus olhos claros e dentes muito brancos. 

Seus trajes extravagantes contrastavam com meu vestido de linho e seda bege com rendas cor-de-chá, simples e de corte reto, que mamãe escolhera para a ocasião em uma das mais badaladas lojas de alta costura. O dela parecia ser alguma coisa barata, comprada, quem sabe, em uma loja de departamentos, mas tinha bem mais efeito.

Ela veio até mim, desfilando como se estivesse em uma passarela, e me abraçou com força. Depois, estendeu uma caixa; agradeci, e abri, e enquanto abria, notei que as outras pessoas estavam ansiosas para saber o conteúdo da caixa. 
Era uma caixa de camisa, e pensei tratar-se de um vestido ou uma blusa, mas quando abri, mal pude acreditar no que estava lá: era um enorme pênis de cera, cercado por acessórios eróticos. Acho que corei até a raiz dos cabelos, e fechei a caixa. As pessoas insistiam para ver o conteúdo, mas eu estava tão sem graça, que abracei a caixa com força, me negando a abri-la. Esperava que ninguém mais insistisse, o que logo aconteceu, mas Shirley tomou-me a caixa de repente, expondo a todos o seu conteúdo. 

Algumas pessoas riram, deram gargalhadas. Mas as que me conheciam melhor, notaram meu constrangimento e se afastaram quietas. Olhei para Shirley, tentando entender o motivo daquela brincadeira horrível e sem graça. Eu me sentia agredida, humilhada e traída ao mesmo tempo. Mas ela apenas ria, dizendo:

-Uma pequena iniciação sexual para minha amiga querida! Agora que fez 16, já pode ir treinando!

Laura fez de tudo para tomar a caixa de Shirley, mas não conseguiu. Adílio me pegou pela mão e me puxou para longe dali. Fomos para um canto afastado do jardim, e o DJ colocou uma música bem alegre. Logo, todos estavam dançando e se divertindo novamente. Comecei a chorar. Adílio me abraçou, e recostei a cabeça em seu ombro.

-Por que ela fez aquilo comigo, Adílio?

-Não foi nada pessoal. Shirley gosta de ser o centro das atenções. Ela nem sabe o que fez. Não ligue tanto, Jordana. Vamos voltar, é a sua festa de aniversário.

-Não consigo. Acho que nunca mais vou aparecer lá.

-Deixa de ser tola, venha comigo. A galera já esqueceu o que houve. Eles conhecem a Shirley, sabem que ela é totalmente sem noção. 

Naquele momento, Shirley apareceu, rindo muito, acompanhada de Laura, que parecia muito zangada; Shirley perguntou:

-O que houve? Não gostou do presente?

Adílio, muito sério, ralhou com ela:

-Você está maluca, Shirley? Não tem noção de nada?

Ela ficou muito séria, dizendo:

-Deixe a gente à sós, Adílio.

Ele tentou protestar, mas ela ergueu um pouco a voz. Ele olhou para mim, como para certificar-se de que eu estaria bem. Assenti com a cabeça, e ele foi embora com Laura. Shirley se aproximou, me estendendo uma outra caixa.

-Este é seu presente. O verdadeiro. O que você realmente merece, pela pessoa bacana que você é. Desculpe se eu te perturbei, não quis te deixar tão ‘bolada.’ Era só brincadeira!

Hesitei, mas ela sacudiu a caixinha, com o sorriso mais doce do mundo. Peguei-a e abri: era um anel de prata, muito bonito. Agradeci, soltando um ‘obrigada’ quase inaudível. Ela sorriu de leve:

-Viu? Eu amo você, sua tonta! Agora vamos voltar para lá. Me desculpe novamente se eu de alguma forma te chateei! Vou tentar pegar mais leve com você. Porque você é... diferente.

Ela me olhou, e pude ver um carinho muito grande nos olhos dela. Achei que tinha sido uma reação exagerada de minha parte, e voltei com ela para a festa, pensando em como os outros nos olhariam, mas para minha surpresa, ninguém nos olhou. Era como se nada tivesse acontecido, e aos poucos, fui me soltando novamente. A noite toda, ela foi muito atenciosa comigo. 

Depois que partimos o bolo, o DJ começou a tocar músicas mais movimentadas ainda, e todos fomos para a pista de dança. 

À certa altura da noite, vejo Shirley surgir de dentro da casa segurando duas garrafas de bebida. Fui até ela:

-Não podemos trazer bebidas alcoólicas para a casa! Vovó me proibiu!

Ela riu, sacudindo uma garrafa em cada mão:

-Ora, mas estas não foram trazidas! Já estavam aqui o tempo todo. 

Adílio e Laura se entreolharam, e pareciam nervosos. Eu disse:

-Shirley, as garrafas são de minha avó! Coloque elas de volta no lugar! Por favor!

-Mas o que é uma festa sem birita? Você faz 16 nos hoje, precisamos comemorar de verdade! 

Fui categórica, e mandei que ela colocasse as garrafas de volta imediatamente. Ela pareceu entender, e me pedindo desculpas, foi em direção à casa, levando as garrafas. Mas quando Shirley já estava à porta, um dos convidados – Julio, um rapaz de 18 anos que convidei a pedido de Shirley, pois mal o conhecia – a interceptou, e acabou tomando-lhe da mão uma das garrafas. Ela foi para dentro da casa, voltando de mãos vazias. Fui atrás de Julio, mas ele já abrira a garrafa e estava bebendo do gargalo, passando para outras pessoas. 

Logo, alguém surgiu de carro, e depositou algumas caixas de cerveja no chão. A coisa fugiu ao meu controle. Às três da manhã, havia jovens bêbados de roupa e tudo dentro da piscina, urros, gritos, vômitos pelos cantos do jardim, plantas pisoteadas, e até uma briga que resultou em uma mesa de doces virada e alguns copos quebrados. Eu olhava aquilo tudo sem saber o que fazer, pois nas festas às quais eu estava acostumada, aquele tipo de coisa nunca acontecera antes. 

Laura despediu-se quando notou que a coisa ia ficar feia, por volta das duas da manhã. Ela tinha ido com Adílio, que sentiu-se na obrigação de acompanhá-la de volta para casa. Antes de sair, ele me disse: “Se eu fosse você, chamava sua avó.” Mas eu não o escutei, e me arrependi logo depois. 

Às quatro, havia algumas pessoas dormindo nas espreguiçadeiras do jardim. O DJ estava desfazendo o palco, e a música cessara totalmente. Eu tentava acordar as pessoas, pois não queria que minha avó acordasse e deparasse com elas. Estava desesperada, tentando colocar latas vazias de cerveja em sacos de lixo, recolher cacos de vidro quebrado e colocar a mesa de pé novamente. Pedi ajuda ao DJ, mas ele negou, dizendo que não estava sendo pago para aquilo. Shirley não estava em parte alguma. 

De repente, Adílio apareceu novamente, sem Laura. Sem nada dizer, ele levantou a mesa, e pegando um saco de lixo, começou a me ajudar com as latas de cerveja vazias. Com a ajuda dele, consegui esconder as provas da bebedeira bem antes de vovó acordar. Adílio também acordou os jovens que estavam adormecidos, levando-os para fora da casa. Pedi desculpas a vovó pelos copos quebrados, dizendo que tinha sido um acidente, mas ela não se importou, dizendo que coisas assim sempre aconteciam em festas de jovens. 

Estávamos – eu, mamãe e vovó – calmamente sentadas à mesa da sala de almoço, tomando nosso café da manhã, quando Shirley apareceu do nada. Estava um tanto descabelada, a maquiagem borrada, carregando as sandálias na mão. Ao nos ver sentadas à mesa, ela estancou no meio da sala, parecendo constrangida. Mamãe e vovó a olhavam como se ela fosse um ET ou algo assim. Mas minha amiga não perdeu a graça. Aproximou-se, desejando-nos bom dia, e disse:

-Festa maravilhosa! Desculpe interromper o café da manhã de vocês, mas eu já tinha ido embora quando notei que tinha esquecido minha bolsa. Voltei para buscar. Estava sobre o sofá da sala... sinto muito pela inconveniência. 

Vovó olhou-a dos pés à cabeça, mas nada disse. Eu não conseguia dizer nada. 

Mamãe tentou apaziguar a situação:

-Bem, já que está aqui, por que não se junta a nós e toma o café da manhã? 


Shirley me olhou, e eu assenti com a cabeça. Vovó fez sinal para que a copeira pusesse mais uma xícara e talheres à mesa. Shirley calçou as sandálias rapidamente após sentar-se. Ajeitou os cabelos com a mão, passou os dedos sob os olhos para tirar o excesso de rímel borrado. Eu ri discretamente. Ela estava realmente constrangida pela primeira vez na vida, acho. Fiquei me perguntando de onde diabos ela surgira, e onde tinha dormido. Ainda pensava sobre isso, quando, do mesmo lugar de onde ela tinha vindo (sala de estar), surgiu um jovem com cara de sono, abotoando as calças; era Julio. Ele também parou diante da mesa, e após dizer um ‘bom dia’ entre bocejos, saiu pela porta da frente e não olhou para trás. 

Graças a Deus, mamãe e vovó pareciam bem-humoradas naquela manhã. As duas se entreolharam, e notei um sinal de riso no canto da boca de vovó. Shirley tomou três xícaras de café preto e mordiscou um biscoito. Depois, tomou quase uma jarra de água. Vovó perguntou:

-Por um acaso você bebeu, mocinha?

Senti meu rosto esquentar. Mas Shirley manteve a calma:

-Não! É que comi bolo demais e o açúcar me faz sentir sede. Eu jamais bebo. A propósito, gostaria de agradecer por ter sido convidada para essa linda festa. Tudo lindo, muito bem organizado, ótimo bufê! 

Vovó tomou um gole de café, e agradeceu. 

Após aquelas cenas constrangedoras, Shirley despediu-se educadamente, dizendo que precisava ir para casa. Agradeceu novamente pela festa e pelo café. Mamãe ergueu-se da mesa, dizendo:

-Estamos indo também. Jordana precisa dormir. Se quiser, eu a deixo em casa. 

Pela segunda vez, vi Shirley agir como se estivesse constrangida. Na verdade, parecia quase em pânico:

-Não precisa, obrigada!

-Eu insisto.

-Eu moro do outro lado da cidade! É longe daqui.

-Eu também. Não custa nada, eu a deixo em casa.

-Não, obrigada, não se preocupe. Na verdade, já liguei para minha mãe e ela vai me pegar ali na esquina. Adeus. Tenham um ótimo domingo!

E ela saiu quase correndo da casa.


(continua...)


quinta-feira, 13 de abril de 2017

A MÃO E O LAÇO








CAPÍTULO I 

Jamais me esquecerei do dia em que a conheci. Como poderia? Ela me salvou de uma possível surra na hora do recreio. Eu era a aluna nova, transferida do Centro Educacional Nossa Senhora de Lourdes, uma das escolas mais caras da pacata cidade de Rio das Acácias, frequentada apenas pela nata da nata da sociedade local. Minha nova escola, o Colégio Sidarta,  apesar de ser particular, era bem mais em conta. Mamãe teve que me transferir para lá quando fiz quinze anos de idade, um ano após a morte repentina de meu pai. 

Eu estudara a vida toda no Nossa Senhora de Lourdes, e mudar-me de lá foi bastante traumático. Tive que deixar para trás as minhas amigas, meninas com quem cresci. Mas o mais traumático, não foi deixar a escola, mas perceber que ao fazê-lo, as meninas com quem cresci e que considerava minhas amigas passaram a ignorar-me. Se nos encontrássemos na rua, elas cumprimentavam com um sorriso sem graça, e após trocarmos algumas palavras, iam logo embora, até que que os cumprimentos reduziram-se a simples “Ois.” Eu não fazia mais parte do mundo delas. Se eu telefonasse para alguma delas, as mães diziam que não estavam em casa, ou que estavam estudando para alguma prova importante e não podiam ser interrompidas, mas que elas ficariam felizes em passar algum recado. Mas elas nunca ligaram de volta. Não demorou muito para eu perceber o que estava acontecendo.

Após a morte de meu pai – ele suicidou-se sem deixar sequer um bilhete, após decretar falência em sua empresa de engenharia – mamãe teve que apertar o cinto; o dinheiro que restava na conta ainda daria para um ou dois anos, se economizássemos bastante, e havia três imóveis em nome dela que foram transferidos para o meu nome e vendidos logo em seguida, por aconselhamento do Dr. James, amigo e advogado de meu pai. Alguns meses depois, ela demitiu o motorista e o mordomo, e então, a arrumadeira, a cozinheira e a diarista. Seis meses após a morte de meu pai, ainda morávamos na nossa mansão, mas os custos de manutenção eram altos demais, os impostos eram exorbitantes e então, finalmente, a justiça tomou-nos a casa para pagamento de dívidas.

Nós nos nos mudamos para um prédio de apartamentos no final da rua, em um bairro afastado do centro da cidade. Nossa rua era sem saída e tinha poucas casas – a maioria delas, em mal estado de conservação, e fechadas. Eram mansões que já tinham visto dias melhores, e que, segundo o advogado, estavam legalmente envolvidas em brigas judiciais e inventários que se arrastavam há anos. A rua era bonita, arborizada e ajardinada. Alguém a mantinha assim, e eu me perguntava por que. 

Rua dos Ipês. A maioria das árvores por ali eram ipês amarelos, e quando floriam, o lugar parecia mágico.

Nosso prédio também tinha poucos moradores. Eram apenas seis apartamentos, um por andar, e ocupávamos a cobertura. O primeiro andar pertencia a um casal idoso, que de vez em quando era visitado pelos filhos. Gostavam de promover alguns jogos de bingo de vez em quando, e quando o faziam, havia pessoas idosas entrando e saindo o tempo todo. O segundo e o terceiro andares estavam vazios, e o quarto andar pertencia a uma mulher que não morava na cidade, e só aparecia de vez em quando, abria as janelas, passava a noite, contratava uma faxineira para limpar o lugar e depois ia embora. Isso acontecia a cada dois ou três meses. O quinto andar também estava vazio. 

Nosso apartamento era o melhor, pois tínhamos  direito a desfrutar da cobertura, onde minha mãe, com muito bom gosto, fez um lindo jardim de inverno onde eu passava grande parte do meu tempo. Havia uma pequena parte ao ar livre, onde ela colocou espreguiçadeiras para que pudéssemos nos sentar ao sol de vez em quando. Decoramos o apartamento com alguns dos móveis de nossa antiga casa, e ele ficou muito bonito. Mamãe vendeu o restante dos móveis, que eram valiosos e de estilo,  e aplicou o dinheiro em um fundo para garantir a minha faculdade. 

Mas foi na minha primeira semana de aula – segundo dia, para ser mais precisa – que eu conheci aquela que se tornaria a minha melhor amiga. 

Era hora do recreio; eu estava descendo as escadas em direção ao pátio. Havia algumas meninas sentadas nos degraus, e sem querer, acabei pisando na mão de uma delas, uma morena de cabelos muito negros que a colocou sob meus pés distraidamente justamente na hora em que eu pisei. Pedi desculpas, mas ela se levantou, zangada, me encostando na parede, apertando-me contra ela. Mais tarde, eu descobriria que tinha pisado na mão de Diana, uma das meninas mais temidas da escola, uma bully. Fiquei sem saber como agir. Quanto mais eu me desculpava, mais Diana gritava comigo, e suas amigas riam e batiam palmas, chamando-me de ‘novata desastrada.’ Logo, um grupo de alunos começou a se formar no sopé e no topo da escada. Alguns me olhavam com pena, mas ninguém ousou interferir a meu favor. Animada pela pequena plateia, Diana socava a parede atrás de mim, e eu fechava os olhos a cada vez, pensando quando ela atingiria meu rosto. 

As lágrimas rolavam pelo meu rosto sem que eu conseguisse detê-las. A dor da humilhação era maior do que o medo de levar um soco. De repente, fez-se silêncio, e eu abri os olhos devagar. Diana me olhava, os olhos semicerrados. Ela disse;

-Hey, eu estou conhecendo você, novata! Vi a foto da sua família na internet. (E olhando para os outros) Gente, essa aí é Jordana Alexander, filha de Jander e Letícia Alexander! Lembram, há mais ou menos um ano, aquele cara que deu o golpe na empresa e depois se suicidou?

Não suportei mais, e me vi gritando;

-Meu pai não deu golpe em ninguém!

Ela me olhou, e seus olhos verdes e frios penetraram minha alma:

-Por causa do que seu pai fez, o meu pai perdeu o emprego, e tem que ficar em casa o dia todo! E os pais de mais um monte de gente aqui! Ele aplicou dinheiro em mercado de risco, perdeu e faliu a companhia. Ferrou com todo mundo! 

-Não é verdade!

Diana riu:

-Você sabe que é!

E ela estava certa. Eu sabia de tudo. Diana tinha os olhos rasos d’água, e pensei que o que quer que meu pai tivesse feito, tinha afetado também a vida dela, e que seu ódio por mim poderia ser justificável. Pedi:

- Me deixe ir em paz. Não quero confusão com ninguém. Se seu pai perdeu o emprego, eu sinto muito. Em e minha mãe também perdemos tudo o que tínhamos. Já disse, me deixe ir, eu não quero confusão.

-Não?! Pois saiba que eu vou fazer de tudo para tornar a sua estadia por aqui um verdadeiro inferno, assim como é a minha por causa do que seu pai fez! E quem vai defender você? Você está sozinha aqui! Não conhece ninguém!

Naquele momento, uma menina alta e magra, com cabelos longos e castanhos, cheio de mechas loiras provavelmente feitas em casa, se aproximou. Ela era imponente, e extremamente bonita. Os cabelos, um pouco ressecados, às vezes caiam sobre o olho esquerdo, o que fazia com que ela erguesse a cabeça para afastá-los. Ela cruzou os braços e disse baixinho, bem junto ao ouvido de Diana;

-Ela está comigo. 

Imediatamente, Diana me soltou, dirigindo a ela um olhar zangado, mas submisso. Virou as costas, e chamando suas amigas, afastou-se. Espetáculo terminado, as outras pessoas também foram se afastando aos poucos.  Eu a reconheci finalmente. Éramos da mesma classe. Agradeci:

-Obrigada por salvar a minha vida.

Ela me olhou. E naquele olhar, parecia julgar-me e decidir que lugar eu poderia ocupar em sua vida dali em diante. Ela me olhou durante um tempo desconfortavelmente longo, e então, balançando a cabeça em sinal de aprovação, disse:

-Sou Shirley. 

Respondi, tentando manter um tom de voz normal:

-Sou Jordana.

E após alguns segundos de silêncio, eu disse:

-Como você conseguiu fazer ela ir embora?

-Digamos que ela me deve. Sei de algumas coisas que ela não gostaria que outras pessoas soubessem. 

-E que coisas são essas?

-Nada. Esquece. Venha, vamos ficar com a minha turma.

E ela me apresentou aos outros. Fiquei amiga de todos, especialmente de Laura e Adílio. Laura era uma menina morena de cabelos cortados à altura dos ombros, e olhos muito negros. Tinha uma beleza suave e discreta, bem diferente da beleza selvagem de Shirley. Adílio era um pouco mais baixo que eu, tinha cabelos loiros e escorridos, e usava uma franja lisa sobre as sobrancelhas. Logo percebi seu interesse por mim, mas eu não me sentia atraída por ele. Mas nos tornamos bons amigos, e andávamos sempre juntos pela escola. 

Algum tempo depois, fiquei sabendo do segredo de Diana: um dia, ela apareceu na escola com um olho roxo, e alguns arranhões no braço. Quando Shirley a viu, foi falar com ela, e as duas ficaram conversando durante um bom tempo. Quando Shirley voltou, perguntei a ela o que tinha acontecido com Diana, e ela, me dando o braço e se afastando comigo do grupo, murmurou:

-É segredo, e você não deve contar a ninguém: o padrasto  bateu nela. Não é a primeira vez. E ele... bem... ele abusa dela. Sexualmente, quero dizer.

-Meu Deus! Que coisa terrível! Como você sabe?

-Ela me contou um dia. 

Imediatamente, senti um arrepio na coluna; então, aquele era o segredo de Diana! E no dia em que me salvou, Shirley o usara para tirar-me das garras dela, em uma espécie de chantagem! Fiquei calada, pensando em quantas outras situações Shirley já a chantageara antes. Mas pensei, também, que ela tinha me salvado, e que Diana era uma bully. 

Olhei na direção de Diana, que estava sentada sobre uma pedra no pátio, lendo ou  fingindo ler alguma coisa, o capuz de malha azul-marinho jogado sobre o rosto. Tive pena dela, e compreendi o que significava, para ela, ter o padrasto desempregado e em casa o tempo todo. Disse a Shirley:

-Você precisa ajudá-la! Ela precisa contar à polícia!

-Isso seria admitir uma fraqueza. Diana não quer saber disso. Além do mais, a mãe dela está muito doente, e Diana não quer aborrecê-la. 

-Shirley... há quanto tempo sabe disso?

Ela olhou para cima, parecendo pensar:

-Acho que... há uns dois anos. É, dois anos. Desde que ele foi morar com elas.
Fiquei pasma: como ela poderia saber de um segredo daqueles durante tanto tempo, sem tentar ajudar Diana?

-E você nunca contou a um adulto, a um professor, ou ao psicólogo da escola?

Shirley parou de andar, e virando-me para ela, disse:

-Escute aqui: eu guardo segredos quando me pedem. É assunto dela, não seu. Não se meta nisso, mesmo porque se ela pudesse, te mataria de tanto te socar! Diana só está esperando a mãe melhorar. Daí ela vai contar tudo. 

Tentei argumentar, mas ela foi categórica. Acabou gritando comigo e me pedindo para esquecer o assunto, mais uma vez. Alegou que estava arrependida de ter me confiado um segredo tão grave, que pensou que eu fosse alguém de confiança, e depois de tudo o que ela fez por mim, era o mínimo que eu poderia fazer, etc, etc.; acabou me convencendo a ficar calada.

(continua...)


segunda-feira, 27 de março de 2017

LIMBO - conto surreal completo







Estou aqui, sozinha. Às vezes fica tudo muito confuso, e não consigo me lembrar do que fiz há apenas alguns minutos – acho que o tempo aqui é um conceito totalmente abstrato, e se uso a palavra ‘tempo’, é por falta de uma denominação melhor. A cada dia eu desperto sem saber há quanto tempo estive dormindo. A cada dia eu adormeço sem perceber que isso vai acontecer.
Levo algum tempo para lembrar-me de tudo quando acordo. Esfrego os olhos e o pensamento antes de me lembrar que estou aqui, talvez há um tempo longo demais, e não sei quanto tempo mais eu terei que ficar. Não sei o que fui antes. Não me lembro de nada, embora eu possa sentir, por questão de milissegundos, um aroma que me arremete para trás e rapidamente me traz de volta. Ou então ouço uma risada que me parece familiar, mesmo que ela só dure menos que um milésimo de segundo. Tento agarrar-me a alguma dessas supostas lembranças, mas elas brincam de esconder.

Há um bosque. Escuto passarinhos enquanto passeio por ele, e vejo suas sombras se movendo entre as árvores. Ouço o barulho de um córrego, mas nunca consigo chegar até ele. O verde é quase um veludo de musgo, uma cor que não sei definir, mas diferente do verde que penso ter conhecido um dia. As cores são as mesmas – posso denominá-las como verdes, azuis, amarelas, brancas, vermelhas. Mas ao mesmo tempo, elas são diferentes dos verdes, azuis, amarelos, brancos e vermelhos dos quais eu me esqueci. 

Há uma casa. Volto para ela quando o sol começa a avermelhar o horizonte. Temo a escuridão. Sempre que volto, encontro velas acesas em todos os cômodos, mas não sei como elas surgem. Só sei que estão ali. fecho as portas e janelas para não ver o que há lá fora, se movimentando na escuridão. Sei que há alguma coisa, e ela me causa medo, seja o que for. Tranco-me no quarto com a grande cama de dossel. Desço o véu e fecho os olhos, e tudo desaparece.

Há livros. Eu os leio e releio, mas logo me esqueço do que está escrito, então eu leio tudo outra vez. Para logo esquecer-me de novo. As capas são muito antigas. As letras nas capas são douradas e rebuscadas, e as lombadas, grossas e gastas. Parece que esses livros já foram lidos muitas vezes, por outras pessoas. Na última página de cada um deles, sempre está escrito à caneta tinteiro: “Um dia, você vai lembrar de tudo.”

Há música. Ela é suave e começa a tocar de repente, sem que eu tenha controle e sem que eu saiba de onde ela vem. Parece estar em todo lugar. É doce, ritmada e suave. Nunca ouvi nada parecido, mesmo sabendo que se eu tivesse ouvido, certamente não me lembraria. A música às vezes me faz chorar, pois ela é tão triste e tão bonita ao mesmo tempo... mas ela me alimenta. Assim como o vento: fico lá fora, de braços abertos em direção ao bosque, e quando o vento vem, eu abro bem a boca. Não sei porque eu faço isso, mas parece ser a coisa certa a se fazer. Porque aqui não existe nenhuma água e nenhuma comida. Preciso me alimentar de alguma coisa, e acho – sei – que a música e o vento servem para este propósito. 

Há um vestido. Ele me espera sempre que eu acordo. Ele é azul, e o tecido é leve e esvoaçante. Parece-se com um céu de crepúsculo, quando as estrelas começam a surgir. A barra é da cor do horizonte quando o sol se põe, sendo que a parte mais escura, que fica sobre os pés, é de um roxo avermelhado vivo. O vestido vai clareando até a parte de cima, e torna-se branco nas mangas. Usá-lo faz com que eu me sinta muito especial, mas eu não sei para que. Nem porquê. Todas as noites, antes de deitar-me, eu dispo o vestido e o coloco sobre a cadeira – acho. Na verdade, eu não tenho certeza. Só sei que quando eu acordo, estou nua, e o vestido está lá, me esperando, como se alguém o tivesse lavado e passado. 

Há um par de sapatos. Eles são de tecido, uma espécie de cetim de cor bege, macios e silenciosos. Quando eu os calço, é como se eu deslizasse pelo chão de mármore quadriculado da casa, sem fazer qualquer ruído ou deixar qualquer marca. É engraçado, porque eu às vezes sinto como se meus pés não tocassem o chão realmente, como se eu deslizasse a alguns centímetros acima do piso. Pareço flutuar. Sinto como se eu dançasse, e quando isso acontece, começo a rodopiar à música que toca, e então eu me perco de mim, do cenário que me cerca e eu não sei o que acontece, para onde eu vou, para onde tais sapatos me levam.

Há sonhos. Quando eu acordo, eu sei que passei muito tempo em outro lugar, com pessoas que eu devo conhecer muito bem, mas das quais eu não guardo a menor lembrança. Mesmo assim, sinto saudades delas. Isso faz com que acordar seja bem melancólico, mas logo me esqueço de tudo, até mesmo das pessoas dos sonhos. Mas fica um rosto, que aparece e desaparece em lampejos muito rápidos. É engraçado vê-lo aparecer e desaparecer da minha frente, e lembrar-me dele e esquecê-lo logo imediatamente. Em questão de segundos, sinto dor e indiferença. Há o reconhecimento e o esquecimento. Posso ficar deitada na cama, vivendo isso até que olho para o vestido e o par de sapatos, e então eu os visto e vou até o bosque.

Há silêncio. Ele goteja das paredes sem fazer qualquer ruído, mas ecoando pela casa toda. Ele penetra a minha pele, dando uma sensação gelada de medo, e de alívio. Ele desliza entre as copas das árvores do bosque, e entra pelos olhos dos passarinhos, transformando-se em canto. Ele me aperta pela cintura, e me conduz para dentro de um lugar que eu sei ser eu mesma, e me obriga a olhar em um espelho. É difícil e doloroso. Mas eu nunca me lembro o que eu vi quando olhei. O silêncio ensurdecedor fala comigo. Ele me agita, me acalma, me atiça e me protege. 

Há coisas das quais eu gostaria de me lembrar, mas acho que há mais coisas das quais eu gostaria de me esquecer para sempre. Talvez por isso eu fique aqui, protegida delas. Talvez por isso eu só tenha este vestido, feito de gaze de céu noturno, e esse bosque em volta de mim feito uma redoma que me protege daquilo que está além, mas que também me isola de mim mesma e do que eu não quero ver, nem lembrar. Talvez por isso haja livros que eu leio, e que me dizem a verdade, e ela seja tão dolorosa, que eu me esqueço do que li. E a música pode ser o meu último contato com a realidade, e as cores, eu mesma as inventei para que pudesse pintar o meu mundo da maneira que eu mesma escolhi. Calço meu par de sapatos mágicos e caminho pelo mundo do esquecimento. Ninguém há de se lembrar de mim, e eu não mais me lembrarei de ninguém.

Eu e o silêncio caminhamos de mãos dadas, e eu o suporto porque posso fingir que não o escuto.





quinta-feira, 2 de março de 2017

#Amadurecer





#Amadurecer- PARTE I

Lara entreabre os olhos ao som do zumbido do celular vibrando sobre a mesinha de cabeceira para avisá-la de que está na hora de levantar. Um facho de luz de sol matutina entra pelas frestas das persianas, indo parar aos pés do edredom cor-de-rosa com estampas florais. Ela se espreguiça e boceja; a escola começa cedo, às sete e meia, e ao olhar a tela do celular, Lara descobre que ainda tem alguns minutos. Pega o celular, arranja os cabelos longuíssimos e loiros com as mãos, limpa os cantos dos olhos com os dedos e prepara o formato dos lábios – que a uma simples contração toma a forma de um coração – . Depois, jogando a alça da camisola para o lado e fim de expor um ombro branco e macio como seda, ela faz a sua primeira selfie do dia:
#não estou muito bem hoje
#acabando de acordar
#school sucks.

Ela posta a fotografia na rede social, e aguarda alguns segundos: logo surgem mensagens de solidariedade e outras, como: “O que houve, my love?” Ela vê que é de Rick, um cara que usa uma cara de urso como avatar. Ele é meio-obcecado por ela, e às vezes posta declarações de amor em seu perfil. Lara não sabe quem ele é, mas não o deleta porque gosta dos elogios que ele posta a respeito do quanto ela é linda e incrível.  Em seguida, a mensagem de Bia, amiga da escola: “#Levanta daí e vai pra escola!” E muitas outras mensagens com emoticons de coraçõezinhos, flores, carinhas de cachorros e gatinhos, e em menos de um minuto, já são quase cinquenta. Satisfeita, Lara afasta as cobertas e vai para o banho. Aos quinze anos, ela é mais uma jovem que acha que virou mulher mas ainda não passa de uma criança. Ainda é virgem – embora pretenda acabar com esse problema dentro em breve, na festa de final de ano da escola que frequenta, terminando o segundo ano do ensino médio. Ainda não sabe com quem perderá sua virgindade, já que terminou com o namorado há uma semana. Namoraram durante bastante tempo – cerca de dois meses – mas quando Lara percebeu que todo mundo começou a se referir a eles como LaraeBruno, ela se sentiu desconfortável. Além do mais, Bruno estava forçando muito a barra, e ela simplesmente não estava a fim. No fundo, só ficou com ele porque ele estava no time de futebol e era bastante popular – sonho de consumo de quase toda garota da escola. Ficou com ele para provar que podia ficar, e pronto.

Ela coloca o uniforme da escola (detestava uniformes), enrolando a saia na cintura para torná-la um pouco mais curta. Veste a suéter azul-marinho sobre a blusa branca, e jogando os cabelos para um dos lados, tece neles uma longa trança frouxa, que dá a ela um ar ainda mais juvenil. Passa batom rosado nos lábios, novamente contraindo os cantos da boca para dar-lhes um formato de coração, passa lápis preto no contorno inferior dos olhos e desmanchando a trança um pouquinho mais, borrifa perfume no ar, colocando-se sob a nuvem perfumada, agarra sua mochila da escola e faz uma pose no espelho antes de ir, jogando-a sobre o ombro esquerdo e colocando a mão direita na cintura. Mais uma selfie: #indopraescola.

Na cozinha, Valentina – sua irmã mais velha de 21 anos e meio – já está tomando café, sentada à mesa com os pais, Vítor e Louise. Lara chega, jogando a mochila num canto da cozinha e beijando os pais no rosto. A mãe diz “Bom dia, filha!” Enquanto a segura pela cintura, descendo a saia, que cai quase até os joelhos Bia, a irmã, ri: “Já passei por isso.” Vítor diz: “Olá, minha princesa!” e Lara finalmente senta-se à mesa, pegando um potinho de iogurte e começando a comer.

Louise pergunta: “Vai comer só isso? Você não acha que deveria comer um pedaço de pão e uma xícara de café com leite?” Lara revira os olhos com impaciência, e não responde. O pai finge não ouvir, e termina sua xícara de café preto, levantando-se da mesa e desejando a todos um ótimo dia. Ele beija Louise na testa, e vai para o trabalho, deixando no ar o cheiro de sua colônia de barba caríssima. Louise se levanta, e começa a tirar a mesa. Ainda tenta convencer Lara a comer alguma coisa mais substancial, mas naquele momento, Valentina olha o relógio de pulso, dizendo que precisa ir, pois é dia de arrumar a vitrine da loja. Valentina possuía uma loja de roupas em um dos shoppings mais badalados da cidade onde moravam. Na verdade, a loja não era lá um grande sucesso, mas o pai ajudava a pagar as dívidas quando a loja não se pagava, e como Valentina decidira não ir para uma faculdade, ele concordou quando ela disse que gostaria de ter uma loja de roupas. Afinal, era preciso que a filha se ocupasse com alguma coisa! É claro que Valentina nem sempre ia trabalhar; às vezes, ela ficava em casa, trancada em seu quarto, usando o Skype para conversar com alguém que ninguém sabia quem era. Louise Parava à porta do quarto, tentando escutar, mas eles conversavam em voz baixa. Ela só conseguia ouvir as gargalhadas.

Valentina diz à irmã: “Vamos! Estou atrasada!” Lara se levanta, deixando o pote de iogurte por terminar, ao som dos protestos da mãe, a quem ela abraça e beija no rosto mais uma vez, ignorando o que ela diz. As meninas saem, e entram no carro de Valentina. Louise está à porta, acenando-lhes e dizendo à Valentina que dirija com cuidado. Quando o carro some na esquina da rua, ela entra e começa a preparar-se para ir trabalhar. Louise é publicitária, e tem um escritório na cidade. Naquele momento, Iara, a empregada doméstica que está com a família desde que Vítor e Louise se casaram, abre a porta da cozinha, esbaforida: “Greve de ônibus de novo. Quase não consigo chegar! Ainda bem que a van passou.” 

Louise deseja-lhe um bom dia, dando as ordens para o almoço e o jantar da família antes de sair de casa. Iara leva-a até a porta, e Louise despede-se dela com um beijo no rosto.

Iara fica à porta, pensando no porquê de precisar preparar duas refeições todos os dias se eles quase nunca almoçavam em casa. Bem, mas pelo menos, Louise nunca se importou que ela levasse as sobras de comida para casa, e era bastante generosa com ela. Dava-lhes muitas roupas e sapatos, bolsas e artigos de cama e mesa. Louise vivia comprando coisas, e quando os armários ficavam cheios demais, ela chamava Iara e as duas ficavam no quarto, experimentando peças. Iara ficava com muitas delas, e levava outras para distribuir entre as mulheres do bairro onde moravam. Com certeza, aquela era uma comunidade muito bem vestida!

As duas tinham um relacionamento de mãe e filha, apesar de Iara ser apenas quinze anos mais velha que sua patroa. As meninas também tratavam Iara como se ela fosse uma avó muito querida, jamais se lembrando de que ela era a empregada doméstica da casa. Muitas vezes, Lara sentia-se mais próxima a ela do que à mãe, que estava sempre trabalhando e mal tinha tempo para ela.

Mas era Valentina o verdadeiro ídolo de Lara. A irmã mais velha, linda, magra e com cara de top model, era admirada por todos os seus colegas de escola – masculinos e femininos – e Lara adorava quando Valentina parava o carro no portão da escola e todos os olhares se voltavam para elas. Lara sempre recorria a Valentina quando tinha dúvidas sobre o que vestir, o que dizer a um menino ou como agir. A irmã era sua grande conselheira e amiga.

Valentina para o carro no portão da escola. Antes de sair, Lara puxa assunto com ela, para desfrutar da atenção das pessoas que as observavam por mais alguns minutos: “Você vai almoçar em casa hoje?” A irmã responde: “Não sei. Se der. Mas acho que não.  Caso eu vá, passo para te pagar. Te mando uma mensagem.” “Tá bom. Tchau!” e as duas se despedem com dois beijinhos. Antes da irmã sair, Lara mantém a porta do carro aberta por alguns segundos, de forma que os amigos não a vejam enquanto enrola a saia novamente. Valentina ri, sacudindo a cabeça.

No corredor cheio da escola, Lara sente uma mão apoiando-se em seu ombro, e o cheiro de chiclete de menta de Bia. As duas amigas se abraçam, e vão abraçadas para a sala de aula – primeira aula, matemática. Antes do professor entrar em sala, as duas têm tempo para uma selfie com os amigos ao fundo. Ao olhar suas postagens, Lara fica orgulhosa ao ver que suas duas últimas fotos já têm mais de duzentas visualizações e curtidas.

Em casa, Iara arruma as camas. Ao chegar no quarto de Valentina, acontece uma chamada por Skype. Ao ouvir a famosa musiquinha, Iara não consegue deixar de olhar para a tela, e vê a imagem de um homem bem mais velho, sorridente e com cara de galã de cinema cafajeste . Ela não se atreve a atender, mas fica ali parada, olhando para a fotografia dele e se perguntando quem ele poderia ser. Aparentava ter uns quarenta e cinco anos – Iara raramente errava ao tentar adivinhar a idade de alguém. O que um homem como aquele estaria fazendo na lista de amigos de Valentina?

A musiquinha finalmente para de tocar, e aparece uma mensagem de texto, que Iara lê: “Não vou poder ir hoje. Julia vem me encontrar para almoçarmos juntos.”
Ela aperta os olhos para ler, pois está sem os óculos. Vê o nome do rosto na tela: “Renato.” Sem poder fazer mais nada, e ainda pensando no assunto, ela começa a arrumar o resto da casa. Mas nem mesmo o ruído do aspirador de pó consegue afastar sua preocupação com a sua menina mais velha. Era assim: Iara sentia-se como se fosse a mãe das meninas.

Nunca se esquecera de como Vitor e Louise a acolheram quando ela, mãe solteira, engravidou de seu filho Sérgio. Jamais seria grata o suficiente por seus patrões terem pago pela educação dele até que o rapaz terminasse o ensino médio, e do quanto o incentivaram a entrar para uma faculdade pública e continuar seus estudos. Hoje, Sérgio – um ano mais velho do que Valentina - estava cursando o segundo ano de engenharia mecânica, e tinha um futuro promissor. De vez em quando, ele aparecia para uma visita, e a família o recebia como a irmão que passara para ver como estão as coisas. Valentina e Lara o carregavam lá para cima, e eles ficavam conversando, ouvindo música e assistindo a filmes. Depois, quando ele ia embora, as duas faziam-no prometer que voltaria logo.

Na verdade, assim que o seu filho nasceu, Vitor e Louise convidaram Iara e o bebê para viverem com eles na casa. Lá eles ficaram, até que o menino completou dez anos, e Iara casou-se.

Iara desligou o aspirador e foi preparar o almoço. Tentava decidir se seria uma boa ideia mencionar Renato a Louise.

Depois da escola, com pilhas de tarefas de casa na mochila, Lara e sua amiga Bia aguardam Valentina chegar para levá-las para casa. Quando ela chega, percebem logo que Valentina não está bem, e se entreolham, caladas. Conhecem-na o suficiente para saberem que em momentos assim, ela constrói um muro em volta de si mesma, e torna-se impossível fazer com que ela fale alguma coisa. Então as duas colocam seus fones de ouvido. 

Iara fica feliz ao ver que as três chegaram para comer a refeição que ela preparou com tanto carinho. Porém, Valentina mal fala com ela, e sobe para o quarto. Iara olha para Bia e Lara, perguntando o que houve, mas elas não sabem dizer. Sentam-se à mesa e comem, conversando sobre as provas que farão. Vítor e Louise ligam para avisar que vão almoçar juntos na cidade. Louise pede a Iara que fique de olho em Lara e que a faça comer. Iara sente uma comichão na língua para falar sobre Renato, mas acaba decidindo que não é uma boa hora. Ao invés disso, sobe e vai até o quarto de Valentina. Bate à porta, e ela não responde. Iara bate outra vez, e ela finalmente diz, impaciente: “O que é?” Valentina respira fundo: “Não vem almoçar? Preparei as panquecas que você adora!” Valentina abre a porta após alguns segundos, e Iara percebe os olhos vermelhos.

Ela olha para Valentina, fazendo uma cara curiosa e, ao mesmo tempo, engraçada. Valentina sorri, mas os olhos estão tristes. Diz: “Estou sem apetite. Acho que vou dormir um pouco, Iara.” “Você não está se sentindo bem, minha flor? Quer conversar? Problemas na loja?” Valentina demora um pouco a responder, e depois concorda com a cabeça: “É. Problemas na loja. Amanhã eu resolvo, agora estou com dor de cabeça. Mais tarde eu como alguma coisa.”
Quando Iara chega à sala de jantar, as duas meninas já não estavam mais lá.


#Amadurecer - PARTE II

Deitadas na cama de Lara, que faz mais uma selfie com os cabelos das duas esparramados sobre os travesseiros – duas ondas, uma loira e outra totalmente negra se encontrando entre as duas cabeças unidas. Lara lê mais uma das declarações de Rick, o urso: “Assim você me deixa completamente louco por você!”  Ela ri, mostrando o post à amiga, que diz: “Você sabe quem é esse cara? Pode ser algum maníaco!” Lara arregala os olhos ante aquela possibilidade. Se fosse, ela ficaria famosa nas redes. Imaginem, ela, sendo perseguida na internet por um maluco tarado! Todo mundo ficaria sabendo, e mandariam mensagens de apoio. Quem sabe, ela até saísse no jornal? Ou em algum site de notícias?
Ela manda mais uma foto, desta vez, com uma carinha bem triste, caprichando nos lábios-coração: “#Tristinha...” logo, uma mensagem de Rick aparece: “Eu adoraria poder consolar você!” As duas amigas dão gargalhadas. De repente, Bia sugere: “Vamos abrir um blog juntas!” Lara pensa, e responde: “Blog de quê? Eu mal consigo escrever  a minha redação de português!” Bia responde: “E quem disse que você tem que saber escrever para abrir um blog? Pode ser um blog de fotos... ou de moda!” “Não é minha praia...” “Pensa! Você bate as fotos, eu escrevo. Podemos usar as roupas da loja da Valentina!”

Imediatamente, a imagem de fotos dela usando as roupas caras da loja da irmã começam a criar vida na mente de Lara. Ela gosta da ideia: “Eu posso ser a modelo, você a escritora e Valentina a patrocinadora!”  “E isso vai ajudar a alavancar as vendas da loja!”

Na tela do celular, o urso está desesperado: “Me manda uma mensagem, meu amor!” A caixa de mensagens de Lara estava repleta. Ela não verificava as mensagens com muita frequência. Preferia postar fotografias e ler os comentários. Ela jogou o celular sobre a cama, e começou a andar pelo quarto, fazendo planos:

“A gente podia convidar os amigos da escola para seguir o blog!” “Mas só os mais descolados. Como as meninas do terceiro ano!” “É! Imagine, se eu ia convidar alguém da nossa sala... aquelas garotas não tem a menor noção!”  “Verdade. Só nós escapamos!”

E as duas amigas ficam a tarde toda fazendo planos, enquanto o dever de casa aguarda na mochila. Às cinco e trinta, Louise chega em casa, indo direto ao quarto de Lara, e em tom de brincadeira, despede-se de Bia: “Ora de ir para casa, mocinha. Amanhã cedo tem aula, e aposto que vocês não estavam aqui estudando ou fazendo a tarefa de casa.” “Lara franze as sobrancelhas: “Mãe! Você tá mandando a Bia embora assim, na lata?” “Estou sim. Mas amanhã ela volta! Boa tarde, Bia. Vá, antes que escureça.” E Bia pega sua mochila, despedindo-se delas com um beijo soprado.

Assim que a menina sai, Louise pega a mochila da filha: “Dever de casa. Agora.” Lana dá uma profunda bufada, e abrindo a mochila, espalha os livros e cadernos sobre a cama, escolhendo alguns, que leva com ela para a escrivaninha. Somente quando ela começa a escrever, Louise sai, fechando a porta.

Quando chega na sala de estar, Iara está pronta para ir para casa.

“Já vai, Iara?” Iara balança a cabeça, concordando. As duas se conhecem há anos, e logo Louise percebe que há algo errado. “Aconteceu alguma coisa?” Iara faz sinal para que Louise a siga até a cozinha, e chegando lá, as duas sentam-se à mesa. Lembrando-se de repente de fechar a porta, Iara se levanta, e depois de fechá-la, senta-se novamente. Louise percebe que o assunto deve ser grave.
Iara começa a falar: “Hoje, sem querer, eu estava arrumando o quarto de Valentina quando o Skype dela tocou. Era um homem. Um homem bonitão, de gravata, arrumadinho... e bem mais velho do que ela.” Louise escuta, sem interromper, franzindo as sobrancelhas de preocupação. Iara continua: “Não atendi, é claro, mas ele deixou uma mensagem cancelando um encontro hoje, e mencionando uma tal Julia que ia almoçar com ele. Nada demais, eu suponho... mas achei que você deveria saber. Depois, na hora do almoço, ela chegou aqui, não comeu nada e se trancou no quarto. Estava chorando.”

 Louise engoliu em seco; não sabia o que fazer, por onde começar. A filha estaria se relacionando com alguém sem contar a eles? “E o que ela disse?” “Nada, apenas que tinha um problema na loja. Mas eu a conheço, e sei que ela estava mentindo.” Louise se lembra de ocasiões em que ela mesma desconfiou de que algo estava acontecendo. As conversas sussurradas no quarto de Valentina, os ares misteriosos, a filha calada durante o jantar.

Com certeza, ela estava apaixonada. Mas por que estaria escondendo de todos? Naquele momento, Vitor bate à porta da cozinha. Antes que elas abrissem a porta, ele coloca a cabeça para dentro: “Olá, minhas queridas! O que é isso? Um complô? Conversas à portas fechadas?” Louise olha para Iris, e ela imediatamente compreende que não deve tocar no assunto com Vitor: “Estou aqui pedindo um aumento, patrãozinho.” Iara diz aquilo de uma maneira muito engraçada, e os três riem. Depois, ela desmente; “Na verdade, estamos tendo um papo de mulheres. Caia fora daqui.” Vitor fecha a porta, fingindo ganir como um cãozinho ferido.

Em seu quarto, Valentina escuta o zumbir do seu telefone. Ela atende: é Renato.
“Pode falar agora, amor?”   Ela demora um pouco a responder, mas respira fundo e diz: “Posso. Vi que você me mandou mensagem no Skype. Já te pedi para não fazer isso, alguém pode ver!”  “Desculpe... eu me esqueci. Sinto muito por não ter ido ao nosso encontro hoje.” Ela enxuga uma lágrima. “Tudo bem, eu sabia no que estava me envolvendo. Não vou cobrar nada de você.” Ao dizer aquilo, Valentina sentiu-se como se estivesse sendo a mais compreensiva e bondosa de todas as criaturas vivas. No fundo, ela sentia raiva, frustração e ciúmes. Queria que ele fosse só dela. Queria poder andar com ele de mãos dadas pelas ruas, ir a restaurantes, fazer compras... ter filhos. Uma vida.

Lembrou-se da primeira vez que o vira: ele entrou, acompanhado da mulher bonita, de meia-idade – que mais tarde, ela ficaria sabendo que  se chamava Julia. Os dois entraram na loja, ficando de pé junto a vitrine, falando aos sussurros. Ela olhou do balcão, e entendeu que não deveria interferir: os dois pareciam estar discutindo. Ela levava a mão à cabeça, escondendo os olhos, e ele tentava argumentar com ela. Finalmente, os dois se abraçaram, e então olharam para dentro da loja, vendo Valentina, que na mesma hora, fingiu estar olhando algo no computador. Os dois sorriram. Valentina sorriu de volta.

No dia seguinte, ele voltou à loja, mas daquela vez, sozinho. Apresentou-se e pediu desculpas pelo inconveniente. Ela disse que estava tudo bem. Os dois começaram a conversar, e finalmente, ele saiu da loja levando um presente para a filha adolescente. Dois dias depois, ele voltou com  a menina: ela queria trocar o presente, pois ficara grande demais. Valentina percebeu que ele não conseguia tirar os olhos dela. Começou a sentir-se tímida. Ele era lindo, afinal... os dois foram embora, e na semana seguinte, ele voltou à loja, novamente sozinho.
Valentina disse à atendente que deixasse com ela, e caminhou até a entrada da loja, onde ele estava parado, fingindo observar algumas roupas penduradas. “Posso ajuda-lo?” Ele olhou para ela, abrindo o mais lindo sorriso que Valentina já vira: “Não sei... quem sabe?” Os olhares de ambos se prenderam por mais tempo do que seria conveniente. Ela baixou os olhos, e disse: “Outro presente para a filha?” “Não; desta vez, eu vim porque queria ver você de novo. Não consigo parar de pensar em você.”

Ele disse aquilo sem pestanejar, e o olhar dele queimou a pele dela. Ela sentiu o coração crescer e ficar grande demais para o espaço que ocupava. O cheiro da colônia dele – a mesma que seu próprio pai usava – chegou-lhe forte às narinas. Ela pensou no que poderia estar acontecendo com ela, e não encontrou uma resposta. Então, ela sorriu – a única coisa que conseguiu fazer. E ele interpretou aquele sorriso como uma resposta positiva, o que de fato, era. Só que ela ainda não sabia. Valentina sussurrou: “Mas você é casado...” “Pois é. Ninguém é perfeito. Mas se você me der uma chance, farei você enxergar que este não é um problema tão grande assim.”  Um cafajeste, ela pensou. Um enorme, óbvio, incontestável cafajeste. Mas ela se derreteu diante do sorriso torto e o olhar maldoso dele. Teve que fazer um esforço para reunir toda a sua dignidade para dizer a ele que fosse embora, porque ela não se relacionava com homens casados. Ele ficou muito sério, e dando meia-volta nos calcanhares, desapareceu dentro do shopping.

Para voltar no dia seguinte, acompanhado da esposa e da filha. Enquanto os três conversavam, Valentina descobriu que o nome dele era Renato, a menina chamava-se Cláudia e a esposa, como já sabia, Julia. Ela notou que havia alguma coisa pesada entre eles, apesar das tentativas – principalmente, da parte de Julia – de aparentar serem uma família normal e feliz. A filha era uma Barbie clássica: muito magra (mais do que a boa saúde recomenda), fez com que palavras como bulimia e anorexia cruzassem a mente de Valentina. A mulher também não parecia muito bem – igualmente magra, afetada, maquiada demais, penteada demais. Apenas Renato tinha uma aparência normal. Ela notou o quanto ele flutuava entre as vontades da mãe e da filha, como um gênio da lâmpada. Elas faziam seus pedidos, e ele balançava a cabeça, dando sua permissão. Pareciam usá-lo como uma máquina de assinar cheques e passar cartões. Já entraram na loja trazendo bolsas de várias lojas caras, e ele carregava a maioria delas.

Mais tarde, quando fecharam a conta e ele assinou um cheque de valor absurdamente alto, eles se foram.

Mas ele voltou novamente, no dia seguinte, ao final da tarde, quando Valentina fechava a loja.

“Posso oferecer-lhe um jantar?” Ela achou que deveria aceitar só porque ele era um cliente da loja, e um dos bons. Mas na verdade, ela teve dó do seu ar cansado e do seu olhar de cafajeste triste. E eles foram jantar. Ele escolheu um restaurante afastado, e uma mesa escondida. Após jantarem e conversarem sobre amenidades, ele disse: “Acho que ontem você notou porque eu preciso tanto de você.” Ela não respondeu, baixando os olhos. Ele ergueu o rosto dela, pondo a mão sob seu queixo: “Minha mulher e minha filha têm sérios problemas emocionais. As duas... frequentam um psiquiatra e tomam muitos remédios. Eu não amo mais a minha esposa, mas se deixá-las agora, tenho certeza de que não viverão sem mim. Não posso, simplesmente, abandoná-las à própria sorte neste momento. Eu me apaixonei por você.” “Mas nem nos conhecemos...” “O amor não demanda muito tempo para ser despertado. Tenho certeza de que você poderá ser a mulher da minha vida, e de que eu farei tudo para que você seja feliz.”

Valentina quis perguntar: “Como você faz felizes sua esposa e filha?” Mas dizer algo assim teria quebrado o encanto e destruído sua fantasia. Ela não queria estragar aquela ilusão. Ficou calada. Deixou que  a mão dele repousasse sobre a dela. E então concordou em ir com ele a um motel após o jantar. Quando entraram no carro dele, ela já sabia, sem perguntar, para onde estavam indo.
E as duas horas que passaram juntos foram as melhores de sua vida. Assim, já estavam juntos há mais de um mês.

As memórias de Valentina foram interrompidas pela voz dele ao telefone: “Me desculpe. Mais uma vez, me perdoe... farei tudo para recompensar amanhã. Olha, é sábado, podemos pegar a estrada, ir a outra cidade... direi a minha esposa que tenho uma viagem de negócios. Será a nossa primeira viagem juntos.” A possibilidade de passar um dia inteiro com ele, sozinhos, de mãos dadas, deixou-a excitada: “Para onde iremos?” Do outro lado da linha, ele sorriu, satisfeito. Tinha ganho novamente.

Valentina desligou o celular, apagando o registro da chamada. Apagou também a mensagem dele no Skype, no tablet. Sabia que o que estava fazendo era errado, mas não conseguiria parar, e nem queria.

Mais tarde, a irmã invadiu seu quarto:

“Tenho a melhor das ideias, Val!” Ela disse, esparramando-se na cama ao lado da irmã, que zangou com ela: “Hum... não me chame de Val.” “Sorry... mas eu e Bia estamos pensando em abrir  um blog de moda. E achamos que você gostaria de ser a nossa produtora!”  Valentina respirou fundo, olhando a irmã, que piscava exageradamente para ela. “Que tal? Eu serei a modelo, Bia escreverá os textos (ela é boa nisso) e você emprestará as roupas para as fotos. Será uma boa promoção para sua loja!” Valentina ergueu as sobrancelhas: “Hum... até que pode ser uma boa ideia! Juro que vou pensar no assunto, mas agora vou comer alguma coisa. Estou morrendo de fome!”

E as duas desceram as escadas correndo, em direção à geladeira da casa.
Iara já tinha ido embora, e elas beijaram o pai, que lia um jornal em frente à TV. Entraram na cozinha, e depararam com Louise dando os últimos toques no jantar. Ao ver Valentina tão alegre, Louise achou melhor não tocar em assuntos que poderiam tornar-se problemáticos, especialmente, antes do jantar de família. E foi um verdadeiro jantar de família feliz e normal.
No final de semana, Valentina anunciou que estaria viajando à praia com amigos. E que não poderia levar Lara, apesar dos protestos da irmã, pois não havia lugar no carro.

Louise ficou desconfiada, mas ao mesmo tempo, preferiu não ligar para um dos amigos da filha para confirmar a história. Não queria aborrecer-se à toa. Afinal, tudo estava indo bem. Chamou Vitor, Lara e Bia, que levou Annie, uma outra amiga da escola, e foram todos passar o final de semana na casa da montanha.
Jantaram fora, foram ao parque, tomaram sorvetes. Uma noite de sábado perfeita. Depois que os pais foram dormir, Lara, Bia e Annie ficaram sentadas em volta de uma fogueira, conversando e olhando estrelas. Lara não gostava muito de Annie, que parecia meio-fascinada por ela, mas aceitava a companhia dela porque era ‘cool’ conviver com pessoas diferentes – Annie era gordinha. Além do mais, Annie também era a CDF da turma, e dava aulas de matemática para ela de graça. Mas o mais importante, é que Annie gostava de viver à sombra, servindo de altar para que Lara e suas amigas bonitas se destacassem. Era ela também quem ajudava nas lições de casa, fazia penteados maravilhosos, emprestava dinheiro quando elas precisavam e sempre dizia ‘sim.’  Também era ótima com os garotos, levando e trazendo recados. Começaram a falar do blog, e Annie perguntou se poderia ajudar em alguma coisa. As duas amigas se entreolharam, incrédulas, e Lara disse: “Hã... é claro, imagine! Quando surgir alguma coisa a gente te fala.”

E Annie deixou que um sorriso imenso tomasse conta de seu rosto. Várias vezes, ao olhar para Annie na semiescuridão da noite, Lara notou o quanto ela lhe fitava como se ela fosse alguma espécie de deusa na terra. Só para provocar, ela fazia o famoso coração com os lábios, apenas por alguns segundos, e então notava, divertida, que Annie tentava copiá-la quando achava que ninguém estava olhando. Mais tarde, ela comentaria sobre aquilo com Bia, e as duas dariam gargalhadas.


#Amadurecer – PARTE III


O fim de semana passou rapidamente, e Lara só precisaria ir à escola para fazer uma prova final. Depois da aula, ela, Bia e alguns amigos combinaram de almoçar juntos no shopping: Joe, Marquinhos, Annie, Marcel, Duda e Clarinha. Ao todo, oito jovens que riam e chamavam a atenção por onde passavam. Joe tinha uma queda por Valentina, e topou o almoço porque alimentava a chance de vê-la no shopping. Marquinhos arrastava uma asa para Lara, mas sabia que não tinha chance alguma, pois eram amigos desde que se lembravam, e ela o via como a um irmão. Marcel, capitão do time de futebol, amigo do ex de Lara, era bonitão e estava a fim de Bia, que não sabia se estava a fim dele ou não. Duda era a fofa da turma, a menina que adorava vestir cor-de-rosa e tinha um lápis com plumas cor de rosa na ponta, que esvoaçavam quando ela escrevia. Clarinha era a pestinha, a que aprontava, fumava escondido e não tinha papas na língua.

Um grupo heterogêneo, e era assim que Lara sentia-se bem, pois ela podia destacar-se melhor entre pessoas que eram totalmente diferentes dela. É claro, postaram um selfie com seus sanduíches: #horadoalmoço. E os jovens que curtiram aquela foto, dariam tudo para estar nela. Mas Lara sentiu falta de Rick, o Urso, que não curtiu nem comentou nada daquela vez. Mas de repente, um pensamento surgiu como uma bola de chiclete estourando; Lara olhou em volta: será que Rick estaria ali, olhando para ela naquele momento? Se estivesse, ele não teria a menor chance...

Ficaram falando da festa de aniversário de Clarinha, que seria na próxima sexta-feira à noite. Discutiam sobre o que iam vestir, enquanto os meninos discutiam sobre como fariam para conseguir comprar cervejas. Lara adorava festas, principalmente porque ela costumava ser a sensação de todas elas. Dançava muito bem, era sempre  a mais bem vestida e a mais rodeada de amigos.
Após terminarem seus sanduíches e deixarem uma mesa bagunçada para a garçonete limpar, eles foram dar uma volta pelo shopping. Passaram pela loja de Valentina, mas a funcionária disse que ela tinha dado uma saída. Joe não conseguiu esconder sua decepção, e foi zoado pelos outros amigos. Annie e Bia foram ao banheiro, e os demais ficaram esperando por eles na saída do shopping.
Foi quando Lara viu um sedan preto parar do outro lado da rua, e Valentina sair de dentro dele. Os vidros eram escuros, e ela não conseguiu ver quem estava dirigindo. Por algum motivo, ela não quis que a irmã soubesse que ela a tinha visto. Arranjou um pretexto para voltar para dentro do shopping, seguida pelos amigos, antes que eles vissem a irmã que se aproximava, tentando atravessar a rua movimentada. Eles se sentaram em volta da fonte, mexendo em seus celulares. O celular de Lara bipou, e Rick, o Urso, apareceu: “Adoraria estar aí com você.” Lara riu, e ignorou a mensagem, como sempre fazia. Mas no fundo, ficou feliz. Estava começando a gostar do tal Rick. Ou pelo menos, de suas mensagens.

Mas algo a incomodava naquela tarde, e ela teve que esforçar-se bastante para que os amigos não notassem nada. A imagem da irmã abrindo a porta daquele carro preto e dando um sorriso para alguém que ficara dentro dele, fazia com que ela se sentisse, de certa forma, excluída da vida de Valentina. Será que a irmã estava namorando alguém? E se estava, por que não contou para ela?
Eles foram ao cinema ver um novo filme que estava bombando, e ela conseguiu esquecer o assunto.

À noite, quando estava chegando em casa, ouviu vozes alteradas na sala de jantar. Achou que deveria saber o que estava acontecendo antes de entrar em casa, então ela girou a maçaneta com cuidado, ficando no hall de entrada para que ninguém percebesse  que ela tinha chegado. Eram as vozes de Louise e Valentina. A mãe dizia: “Mas quem é esse homem, minha filha?” “Já disse, é um cliente da loja!” “E por que ele está no seu Skype?” “Você não tem o direito de mexer nas minhas coisas. Sou de maior, vacinada, ganho meu próprio dinheiro (o que ela sabia não ser bem verdade, já que ainda recebia uma mesada gorda do pai) e posso viver minha vida como quiser.” “Mas por que você não pode dizer quem é esse homem, minha filha?”  “Mas eu já disse, é um cliente da loja!”

Houve um momento de silêncio, e Louise disse: “E quem é Julia? Por que você deveria saber que ele e Julia almoçariam juntos, e por isso ele teria que cancelar um compromisso com você?” Após ouvir aquilo, Lara, de pé na semiescuridão do hall, viu quando a irmã passou por ela sem vê-la, feito uma fera, em direção às escadas, e a mãe segurou-a pelo braço, obrigando-a a encará-la: “Responda! Não vire as costas para mim!”

“Eu nunca vou perdoar você por estar futucando as minhas coisas, mãe!”  Louise não se deu por vencida: “Julia é a esposa dele, não é? Você está tendo um caso com um homem casado!”

Lara viu quando a irmã se virou na direção da mãe: “Sim, eu estou. Se é isso que você quer saber, então aí está: eu estou saindo com um cara casado, e bem mais velho do que eu. Gostou? Está satisfeita? E Julia é a praga da mulher dele, a que não deixa ele ser feliz!”  Lara deixou cair a mochila da escola, sem querer, e o som fez com que Valentina e Louise olhassem na direção dela. Lara tentou disfarçar, fingindo que acabara de chegar em casa, mas as duas perceberam que ela tinha ouvido pelo menos o final da conversa.

Lara passou no meio das duas sem nada dizer, e subiu para o quarto, fechando a porta. Gostaria que Iara estivesse ali, mas ela já tinha ido embora, pelo visto. Sem saber o motivo, sentiu uma vontade enorme de chorar, e deixou que as lágrimas saíssem aos borbotões, sentindo um aperto no peito causado pelos muitos soluços. Ela entendera direitinho: sua família estava passando por uma crise, e Lara estava assustada.

O telefone zumbiu: era uma mensagem de Rick, o Urso. Sem saber porquê, Lara começou a digitar: “Obrigada por estar aí do outro lado... bad moment... estou muito triste. Obrigada por estar aí.”

Rick, o Urso, surpreso por ter uma mensagem de Lara direcionada a si pela primeira vez, ficou sem saber o que digitar. Colocou uma fileira de corações coloridos.

Lá em baixo, Louise tentava se acalmar; chamou a filha para sentar-se no sofá e conversar. Valentina concordou. Afinal, já estava farta de viver aquela segunda vida, às escondidas. Quem sabe, a mãe acabaria compreendendo que logo, Renato deixaria a mulher para ficar com ela, e tivesse paciência.

“Minha filha, como você pôde ver, Lara sabe. Como você acha que isso está dentro da cabecinha dela?” “Mãe, você sabe que eu amo a Lara, mas preciso pensar em mim também. Ela vai entender. Nós duas sempre nos entendemos bem. Ela vai ficar bem.” “Ela vai, mas... e você, minha filha? Como vamos contar isso para o seu pai?” “Ele não precisa ficar sabendo, até o Renato separar-se da esposa. Não precisa contar para ele.” “Está sugerindo que eu minta para o seu pai? Para o meu marido? Ele é parte da família!” “Mãe, eu sinto muito...as coisas foram acontecendo, eu me apaixonei por ele! Não queria, mas... aconteceu!” “Mas você acha mesmo que ele vai deixar a esposa? Dificilmente eles deixam.” “A filha dele é maluca igual à esposa, ele não suporta mais a pressão, mãe, e me disse que vai deixa-las, assim que elas estiverem melhor.” “Então ele tem uma filha??? Oh, céus, ele tem uma filha! E você está metida no meio dessa família, servindo como uma marreta para destruí-la!” “Que drama, mãe! O casamento deles já ia mal antes de eu entrar. A culpa não é minha!”
Louise ergueu-se, passando a andar de um lado para o outro da sala. Não acreditava no que estava ouvindo Valentina dizer-lhe!
“Valentina, como pode achar isso? É claro que você está contribuindo para o fim dessa família! Acha mesmo que vai ser feliz em cima da desgraça alheia?” “Mãe, que tom! Que desgraça? Um casamento falido?”

Louise sentou-se novamente, tentando acalmar-se:

“Filha, o que sentiria se soubesse que seu pai está fazendo uma coisa dessas comigo... com vocês? E o que diria, se soubesse que algo assim estivesse acontecendo com a Lara?”
Valentina olhou para a mãe, e sem ter uma resposta para dar a ela, subiu as escadas correndo, trancando a porta do quarto. Lara ouviu quando ela bateu a porta. Parou de chorar, e ficou escutando os soluções da irmã no quarto ao lado. Será que deveria ir até lá, ou falar com a mãe? O telefone tremeu: “Me diga o que está acontecendo com você, meu amor...” e sem pensar, ela digitou; “Meu mundo está caindo...”

Em poucos minutos, mas sem entrar em detalhes sobre os motivos, Lara disse a Rick, o Urso, como se sentia. E ele mandou-lhe dezenas de corações coloridos e carinhas tristes. Disse a ela que estaria sempre disponível se ela precisasse conversar, e que a amava ainda mais, agora que ela se abrira com ele. Como agradecimento, ela fez uma selfie com uma lágrima escorrida, e a boquinha de coração, e mandou para ele. Rick retribuiu com mais corações e desejos de que ela ficasse logo bem.

Sem pensar direito, Lara ergueu a blusa e retirou-a, ficando somente de sutiã. Depois, tirou os shorts, ficando apenas de calcinha, e sem colocar o rosto na foto, mandou para Rick, o Urso, uma fotografia de seu corpo seminu. Ela estava sentada na cama, as pernas cruzadas, os longos cabelos loiros repartidos e cuidadosamente colocados sobre os seios. Era uma foto sensual, e mesmo que ele fosse o garoto mais cretino do mundo e compartilhasse com todos os amigos, ninguém poderia ter certeza de que era ela na foto. Poderia ser qualquer uma. Na escola, havia várias garotas como ela, com longos cabelos loiros.
Mas Lara esqueceu-se  de um pequeno detalhe: o cordão com a medalhinha em forma de coração que ela sempre usava. E que todo mundo que a conhecia sabia que existia. E que não tinha como ser de outra pessoa, já que o pai mandara fazer para ela sob medida para dar-lhe de presente em seu aniversário de quinze anos – sua festa de debutantes – e todo mundo estava lá, e todo mundo viu. Ela se arrependeu de enviar a foto, mas era tarde demais. Corações, flores e cachorrinhos de agradecimento encheram a tela do seu celular. Ela digitou: “Não compartilhe, por favor!” Ele respondeu: “Eu jamais faria isso!”

#Amadurecer – PARTE IV

Quando Lara chegou à escola, no dia seguinte (seu pai a levara de carro, pois Valentina estava adoentada) não soube se era paranoia ou se os amigos estavam olhando demais para ela, e comentando quando ela passava. Ora, aquilo sempre acontecia! Afinal, ela sempre tivera muitos admiradores. Era a menina mais bonita da sala, senão, da escola! Tinha milhares de amigos nas redes sociais. Todos a admiravam e mandavam mensagens fofas todos os dias, mensagens que ela quase nunca respondia. Com certeza, era alguma paranoia.

Naquela manhã, ela não postara nenhum selfie. Estava tão atormentada pelos acontecimentos do dia anterior, que não conseguiu encontrar inspiração para tal. Mas na verdade, ela estava com medo de olhar o celular e descobrir que... nem pensar! Rick dera a ela a sua palavra. Disse que jamais partilharia sua foto sensual. Ela confiava nele.

Mas quem era ele, afinal?

Bia logo veio abraçá-la, como fazia todas as manhãs. Sem querer despertar suspeitas, Lara não fez nenhuma pergunta sobre se por um acaso, a amiga tinha ficado sabendo de algo estranho a seu respeito. Bia disse:

“Senti sua falta hoje no Insta...” “Indisposta. Também gosto de fazer um pouco de suspense...”
Bia continuou: “Mas que ideia foi aquela ontem à noite?” Lara gelou: “Do que você está falando?” A amiga riu: “Cara, você colocou uma foto de calcinha e sutiã na rede!”  “O que??? Eu não fiz isso!”
Bia abriu a bolsa, sacando o celular, e mostrou-o à amiga: mais de setecentas curtidas!

Lara ainda tentou se defender: “Mas... não sou eu!” “E essa correntinha, amiga? E não sei se você se lembra, mas fomos comprar esse conjunto de langerie juntas.” Lara sentiu o rosto ficar vermelho. Todo mundo estava olhando para ela, mas ninguém estava rindo ou zombando. Parecia que a admiração que ela causava tinha virado uma espécie de fascínio! Ela começou a gostar daquilo. Ergueu a cabeça, jogou o cabelo para o lado, e entrou na sala de aula, deixando uma porção de gente parada à porta, murmurando e olhando celulares. Ela ficou se achando o máximo naquele dia. As outras meninas a rodeavam, mostrando suas próprias fotos – tiradas após a dela. Algumas a olhavam com desprezo (as invejosas, com certeza) mas os garotos se reuniam em volta dela feito moscas. 

Lara adorou toda aquela atenção! Já estava pensando em postar outra foto.

Até que, ao chegar em casa, deparou com o pai sentado na sala, ao lado da mãe.
Algumas horas antes, Louise recebera um telefonema da mãe de Clarinha: “Olá, Louise. Aqui é Mariana, mãe de Clarinha.” “Oh, como vai, Mariana! Há quanto tempo não nos vemos. Precisamos sair qualquer dia desses! Adorei ouvir sua voz!” “Igualmente, querida. Mas o assunto que me traz não é nada agradável. Vou mandar uma foto pra você, e você olha antes de continuarmos a conversa.” 

Alguns segundos depois, chegava-lhe a fotografia de uma menina de longos cabelos loiros usando apenas calcinha e sutiã. E ela teve a impressão de que conhecia aquela menina. Quase não pode acreditar! Era Lara, a sua filha mais jovem! Lá estava a correntinha que o pai lhe dera no aniversário, e a langerie que ela mesma já colocara na máquina de lavar tantas vezes. Ela colocou o fone novamente no ouvido: “Meu Deus! Nem sei o que dizer, Mariana!” “Nem eu... sei como são as meninas. Achei esta foto no celular de Clarinha. Minha filha não é fácil, então eu frequentemente monitoro o celular dela. Achei que você não sabia de nada, e pelo que vejo, estava certa.” “Oh... muito obrigada por me avisar, mariana. Poderia por favor... não contar a mais ninguém?” “Eu nunca faria isso, mas... a foto já tem mais de oitocentas curtidas na rede.” Louise exclamou: “Meu deus! O que deu na minha filha?” “Bem... sinto não saber dizer... a minha já é um tanto difícil. Mas... eu sinto muito, mas acho melhor – e foi muito difícil tomar esta decisão – que sua filha não venha À festa de Clarinha na sexta-feira. Melhor deixar a poeira baixar. Não quero causar confusões.” 

Louise levou alguns segundos para entender: “Então... você está desconvidando a Lara para a festa de Clarinha?” Mariana hesitou, mas respondeu: “Sim... será para o próprio bem dela. Espero que entenda.”

Imediatamente após desligar o telefone, Louise ligou para o trabalho, alegando não estar se sentindo bem, e em seguida, para Vitor, pedindo-lhe que fosse para casa o mais rápido possível. Quando ele chegou, ela mostrou-lhe a foto, contando tudo. Achou melhor não falar sobre Valentina, porém. Uma coisa de cada vez seria melhor.
Vítor olhou a foto, coçando o queixo, e ela viu o rosto dele ir ficando vermelho. Ele caminhou até  a mesa da sala, apoiando-se nela com as duas mãos. Respirou fundo, antes de dizer: “É por isso que eu dizia que seria bem melhor você ficar em casa cuidando das meninas!”  Louise riu: “Espere aí! Você está me culpando por isso?” “Se você tomasse conta dela, ela não teria...” Louise interrompe o marido: “Hey! Nada disso! Você acha que as mães que ficam em casa sabem de tudo o que acontece com as filhas? Sua irmã casou-se grávida aos dezessete anos, e sua mãe era uma fera de plantão. Já se esqueceu?”  Ele olhou para ela, concordando: “Desculpe, você tem razão... é que eu estou muito chocado com tudo isso.”

Iara, que ia passando, não pôde deixar de perceber a aflição dos dois. Perguntou: “O que aconteceu?” Louise estendeu-lhe o telefone, e Iara ficou olhando para a foto durante um longo tempo, e finalmente, fez o sinal da cruz. Perguntou: “E agora? O que vocês vão fazer?” Louise choramingou: “Não sei como falar com ela, Iara! Tenho medo de aborrecê-la, de coloca-la contra nós!”

Iara pegou-os pelas mãos, fazendo-os se sentar à mesa. Trouxe um copo de água com açúcar para cada um deles, e depois, um para ela mesma. Falou: “Vocês não podem ter medo de suas filhas: elas é que tem que ter medo de vocês, se for o caso! Essa menina precisa ser repreendida, e já! A coisa é séria. O importante não é que sua filha seja sua amiga, e sim, uma pessoa que cresça equilibrada, sabendo a diferença entre o que é certo e o que não é. E são vocês que vão ter que ensinar a ela! Enxugue essas lágrimas, Louise, e seja forte. Use sua autoridade de mãe! E você, Vítor, trate de concordar com ela e ficar do lado dela em tudo o que ela disser! Nem se atreva a contestá-la na frente de Lara!”
Vendo a aflição dos dois, Iara abrandou a voz: “Lara é uma boa menina. Talvez muito influenciada por essa coisa de internet, mas, uma boa menina. Vocês precisam lutar por ela, para que ela consiga superar essa fase. Se for preciso, tirem o celular, o tablete e o computador dela!”

Louise disse: “Mas... se eu fizer isso, ela vai me odiar!” “Ora, melhor odiar agora do que chorar depois!” Para Iara, as coisas eram muito simples, Louise pensou. Mas Iara continuou: “Só Deus sabe o que passei com o meu menino quando nos mudamos para aquele bairro! A barra lá é pesada. Tive que jogar duro com ele para que ele não se desviasse do caminho, e olhem para o meu Sérgio hoje! É um bom menino, vai ser engenheiro! Graças a ajuda de vocês, é claro. Mas não foi fácil lidar com ele, eu me lembro. Quando entrei em casa um dia e o peguei jogado na frente da TV, o cabelo pintado de branco... onde já se viu preto de cabelo branco? Agarrei o menino pelas orelhas e fiz ele ir comprar tinta preta. Eu mesma pintei os cabelos dele de novo, e depois, dei-lhe um bom sermão e botei ele para estudar. Deixei claro quem é que manda na casa. Vocês tem que fazer o mesmo.”

Vitor e Louise se entreolharam, dando-se as mãos. Vítor agradeceu; “Obrigada, Iara. Não sei o que seria de nós sem você!”
E naquele momento, Lara estava parada, olhando para os pais.

Lara pensou que os pais pudessem estar ali, àquela hora, por causa de Valentina. Afinal, era ela quem estava saindo com um cara casado. É claro: só podia ser aquilo! Ela se recompôs, e entrou em casa como se não estivesse nada apreensiva, e disse um ‘olá’ bem normal aos pais. Ia subindo para o quarto, quando o pai ordenou, a voz fria: “Menina, volte aqui!” Ela congelou no primeiro degrau, fechando os olhos. As notícias corriam rapidamente naquela cidade, afinal.
Lara olhou para trás, a cara mais casual do mundo:

“Algum problema?” Vítor fez sinal para que ela se sentasse. Entregou a ela o smartphone, com a foto. Lara ficou olhando, e o rosto, foi ficando vermelho. Vítor perguntou: “O que significa isso?”

Ela tentou rir, dizendo: “Ora, pai... é uma foto sensual. Todas as meninas postam. E eu nem coloquei meu rosto.” Louise disse: “Todo mundo já sabe que é você, Lara.” Lara gelou, e não disse nada. Olhou para a toalha de mesa. Sem pensar, disse a primeira bobagem que passou pela sua cabeça desesperada: “Bem, é melhor do que namorar homem casado!” Louise ficou branca, e Vítor fez uma cara curiosa: “O que? Não estou entendendo. Pode me explicar melhor?”

Lara já estava arrependida de ter entregado a irmã, e colocado a mãe em maus lençóis, mas nada disse. Sabia que se tentasse consertar a situação, poderia deixa-la ainda pior. Olhou para a mãe com olhos desesperados, como se pedisse perdão. Louise parecia cansada e aflita. Lara teve pena dela. A mãe baixou a cabeça, e disse: “Este... bem, este é um assunto que eu tinha planejado discutir com você uma outra hora, Vítor, mas já que alguém tocou no assunto indevidamente, melhor falarmos dele também. Mas não pense, minha filha, que dedurar sua irmã vai fazer com que seu castigo seja atenuado. Ele vai ser duro, muito duro, mais ainda agora, depois do que você acaba de fazer!”

Vitor olhava de uma para outra, e explodiu: “Alguém pode me explicar o que está acontecendo aqui, que todo mundo sabe, menos eu?”
Tentando manter a calma, Louise começou: “É Valentina. Ela está saindo com um homem casado, e bem mais velho do que ela.”



#Amadurecer– PARTE V

Vitor mal conseguiu absorver o impacto daquela notícia. Ele engasgou, e bebeu o resto da água com açúcar que Iara tinha servido há algumas horas. Depois, o olhar dele fuzilou Louise: “E quando é que você pretendia me contar? Até quando você planejava esconder as coisas de mim? Eu sou o pai dela, droga!”
Ele se levantou de repente, derrubando a cadeira, e Louise fechou os olhos. Lara encolheu-se na cadeira, amedrontada com a reação do pai. Ele passou a mão pelos cabelos, andando de um lado ao outro da sala, e finalmente olhou para ela: apontoando o dedo no rosto da filha, ele gritou: “Sem celular, sem computador, sem câmera, sem tablete. De casa para a escola, da escola para casa. Sem shopping, cinema, casa de praia, montanha, nada! Por tempo indeterminado.” Lara sentiu as lágrimas engrossarem e caírem. Ela não conseguia ficar muito tempo fora da rede! Precisava do amor que as pessoas passavam para ela, da admiração que demonstravam! Sem aquilo, ela se sentia vazia, solitária, desamada! Precisava das palavras doces de seus amigos, gostava dos elogios que eles faziam a ela, das frases apaixonadas, dos emoticons...

Ela começou a chorar, e com a voz quase sumida, pediu: “Pelo menos me deixem ir à festa da Clarinha na sexta-feira. Eu já disse pra todo mundo que estarei lá!”  Louise olhou para ela, penalizada: “Sinto muito, filha. Mas a Mariana, mãe da Clarinha, me ligou e desconvidou você.”

Aquilo foi como uma avalanche de neve gelada caindo em cima de Lara! Ela havia sido desconvidada para uma festa! Bradou, os olhos nublados de lágrimas: “Ela pensa que a filha dela é santinha por acaso? Foi ela que quase colocou fogo no depósito da escola no ano passado! Foi ela também que roubou o papel higiênico e espalhou os rolos pelos corredores da escola depois da aula, há algumas semanas! E foi ela também que criou um perfil no falso da Dorinha no Facebook ! Sem contar que ela já não é mais virgem há muito tempo!
Dizendo aquilo, ela saiu, batendo os pés, em direção ao quarto. Subiu as escadas correndo, mas ao chegar lá em cima, Lara parou por uns instantes, e olhando para baixo – para os rostos preocupados e entristecidos dos pais – ela disse: “Me desculpem.”

Vitor e Louise se olharam, e sem saber bem porque, começaram a rir. Finalmente, se abraçaram. Mas sabiam que tinham problemas sérios a resolver naquela casa, e que eles seriam difíceis e não podiam mais ser adiados. Perceberam que tinham deixado as pontas soltas demais e que já estava na hora de disciplinar melhor as suas meninas. Liberdade demasiada faz mal, principalmente quando se trata de mentes imaturas que não sabem o que fazer com ela.

Na loja, Valentina quase gelou, engolindo em seco, quando viu Julia entrando na loja toda sorridente, e indo em sua direção. Ela teve que se controlar e lembrar que Julia não sabia de nada. Quando a mulher se aproximou dela, pedindo que a ajudasse a escolher um presente para uma mocinha que estaria aniversariando – colega de sua filha Cláudia – Valentina soltou um suspiro de alívio. Fez sinal à vendedora da loja para que deixasse aquela cliente com ela, e saiu de trás do balcão.

“O que seria de mim sem você e sua loja, Valentina! Imagine, não sei mais escolher presentes para essas meninas de hoje. Elas querem brincar com coisas cada vez mais complicadas nos dias de hoje, não concorda?” Valentina sentiu o peso da ironia na voz de Julia, mas tentou manter-se firme: “Bem, o que gostaria de ver?”  Julia pegou seu telefone: “Vou mostrar a você uma foto da menina, assim você ficará sabendo como ela é, qual o estilo dela... ficará mais fácil escolher.”

Valentina tentou sorrir enquanto olhava para o celular – porém sentiu que o chão faltava sob seus pés ao deparar com uma foto sua e de Renato, de mãos dadas, caminhando por uma praia. Fora tirada no sábado em que viajaram juntos.
Julia desfrutou por alguns momentos do choque no rosto da moça, antes de falar novamente:

“Então, o que acha? Não é uma menina mimada e inconsequente?” Esperou que Valentina dissesse alguma coisa, mas quando percebeu que ela perdera a voz, disse em voz alta, para que a vendedora a escutasse lá do balcão: “Vamos tomar um café antes, e então falaremos sobre isso melhor.”  Puxou-a pelo braço, levando-a até a cafeteria do shopping. Valentina estava se sentindo péssima, principalmente ao olhar para o rosto da outra mulher e perceber as olheiras que apareciam sob a camada de base que se desmanchava, enquanto ela chorava. Julia pegou um guardanapo de papel, enxugando o rosto, e embolando-o sobre a mesa. Valentina olhou para o papel colorido pela maquiagem, e não conseguia desviar os olhos dele. Sentia o rosto arder. A outra falou:

“Eu pensei em vir aqui e fazer um escândalo. Bater em você. Puxá-la para fora da loja pelos cabelos, e mostrar a todo mundo quem você é de verdade. Pensei em ligar para sua casa e contar aos seus pais. E ainda sinto vontade de fazer isso, mas antes, quero que você me escute, e então, talvez, eu decida, afinal, que não quero fazer nada disso.”

O garçom se aproximou com o menu: “O que vão tomar?” Julia respondeu: “Por enquanto, nada. Mas você vai tomar chá de sumiço, e não me interrompa novamente até que eu o chame.”  O pobre rapaz foi embora, sem entender nada. 

Julia continuou seu discurso:

“Você não é a primeira. Não é a segunda, ou a terceira tampouco, e nem será a última. Renato não sabe encarar os problemas. Quando eles aparecem, ele procura uma válvula de escape. Nossa filha Cláudia está muito doente, e ela pode morrer. Talvez ela morra. Cláudia tem leucemia. Os médicos suspenderam o tratamento, ou ela não aguentaria. Não há mais nada que eles possam fazer. Parece que o transplante de medula não está dando certo. Tivemos um outro filho, sabe, e ele morreu há alguns anos, da mesma doença, e dizem que um raio não cai duas vezes num mesmo lugar. Mas isso é mentira.

Valentina ergueu os olhos, e olhou para Julia. “Sinto muito, eu não sabia... não tinha ideia.” “Se soubesse, não estaria tendo um caso com o meu marido? “É claro que não!” “Bem, então você não é uma vagabunda qualquer: é uma vagabunda com escrúpulos. Melhor assim.” Valentina não conseguiu dizer nada em sua defesa, pois era exatamente como ela se sentia a respeito de si mesma. O nó que estava em sua garganta se desfez, e as lágrimas rolaram. Julia pegou um guardanapo de papel, estendendo-o para ela. Valentina o aceitou, assoando o nariz com força. “Por que você não se separa dele, já que ele é infiel?” Julia pensou antes de responder: “Porque Renato é um homem bom, afinal. Mas está sofrendo. Começou a ter casos depois que nosso filho morreu, antes era um excelente marido. Ele está desesperado por afeto, afeição e amor – coisas que no momento, só posso dar à nossa Cláudia. Mas depois eu acho que nosso casamento não vai resistir...” “Depois?” Joana a encarou: “Depois que nossa filha morrer.” A crueza de Joana chocou Valentina, mas ela compreendeu. Julia baixou o tom de voz a um sussurro, e implorou: “Será que você se afastaria dele por algum tempo, até que Cláudia não esteja mais aqui? Ela precisa dele. Inteiro. Ela não suportaria se nos separássemos agora, e eu não suporto que ele seja infiel tão displicentemente, onde todos os nossos amigos podem ver. Todos os nossos amigos têm casas de praia nesta cidade para onde ele levou você.”

Valentina sentiu vergonha: Renato tinha garantido que estariam seguros por lá! Ele não se preocupou com a reputação dela, ou com a própria esposa e filha. Era um egoísta. Um mentiroso, um cafajeste. Mas no fundo, ela já sabia disso, desde o começo. Só precisava que alguém lhe dissesse, para que ela pudesse acreditar. Ela respirou fundo, assoando o nariz de novo, e antes de se levantar, disse à Joana: “Você tem a minha palavra. Nunca mais verei seu marido. Nem agora, nem depois.”

Dizendo aquilo, ela se afastou, caminhando sem olhar para trás em direção ao banheiro do shopping, onde encostou-se na parede e foi descendo devagarinho, até o chão, enquanto os soluços a sacudiam.

Quando finalmente chorou todas as lágrimas que podia, Valentina lavou o rosto e foi para casa. Ao chegar, encontrou os pais sentados na sala de estar, esperando por ela, os rostos cansados. Sem nada dizer, e percebendo que Vitor já sabia de tudo, ela disse a eles, enquanto os abraçava ao mesmo tempo: “Acabou. Está tudo terminado, e nunca mais vai acontecer nada parecido, eu prometo. Me desculpem.” Vítor murmurou: “Valentina, eu queria entender...” Ela olhou para ele, e riu com tristeza: “Eu também.”

#Amadurecer – PARTE VI

No dia seguinte, na escola, Lara encontrou seus melhores amigos reunidos em um grupo no corredor. Ela percebeu que eles estavam tristes, e pararam de falar quando ela chegou. Ela disse um ‘oi’ quase murmurado. Bia sentiu falta da autoconfiança da amiga, sempre ‘lá em cima.’  Lara estava com olheiras profundas, como se tivesse ficado acordada a noite toda. Bia disse: “Senti falta dos seus selfies hoje, Lara.” Lara respondeu: “#celular e computadores confiscados. Meus pais ficaram sabendo.” Ela olhou para Clarinha, que parecia a mais triste de todos. Clarinha baixou os olhos. Disse: “Sinto muito pela minha mãe, Lara. Ela vive invadindo a minha privacidade.” Lara sacudiu a cabeça: “Está tudo bem. Eles iam acabar descobrindo mesmo. Pena que não vou poder mais ir à sua festa, sabe... um primo de longe vem ficar lá em casa, e terei que dar atenção a ele.” Ela disse aquilo, e logo percebeu que ninguém acreditou nela. Annie perguntou: “Por que você fez aquilo, Lara? O que estava pensando?”  Lara olhou para Annie, não acreditando que ela tivera a coragem de perguntar-lhe aquilo. Estava pronta para dar-lhe uma resposta atravessada, quando Marcel a interrompeu: “Nós amamos você, Lara. Aqui fora. Somos seus verdadeiros amigos.”

Lara escutou, e ficou feliz. Olhando para Annie, ela disse: “Eu... eu... queria ser admirada. Sabe o Rick Urso? Foi para ele. Pensei em agradecer por ele estar sempre ali quando eu precisava. Não sabia que ele ia me trair!” E então, Marquinhos disse: “E ele não te traiu. Você se esqueceu de postar a foto em privado. Postou na linha do tempo para todo mundo ver, como postagem pública.” Dizendo aquilo, ele mostrou a ela o celular, para comprovar o que dissera. “Rick, o Urso, cumpriu sua promessa: ele nunca faria aquilo com você.”  Lara perguntou; “Mas... como você sabe que...? Meu Deus, você é Rick, o Urso!”  Marquinhos balançou a cabeça, concordando. “Por que você me enganou, Marquinhos?” Lara estava começando a ficar zangada. Marquinhos não respondeu, mas o olhar dele na direção dela, foi a resposta. Lara compreendeu que ele a amava. Estava apaixonado por ela de verdade. Aquilo deixou-a desconcertada. Sempre vira Marquinhos como um amigo de infância, que crescera junto com ela e sempre estudara na mesma escola. Jamais imaginaria que ele estivesse apaixonado por ela.

Lana perguntou: “Mas há quanto tempo?” E ele respondeu: “Acho que desde sempre, quem sabe.” O sinal tocou, e os alunos começaram a entrar em suas salas de aula. Lara começou a entrar também, mas Clarinha segurou-a pelo braço, dizendo: “Lara! Gostaria que você soubesse que a festa foi cancelada.” Lara ficou muito surpresa: “O que? Mas por que?” “Porque eu quis assim. Disse à minha mãe que se a minha amiga não podia comparecer, então eu não queria festa nenhuma!” “Mas... é seu aniversário de dezesseis anos!” “Não me importo. De qualquer forma, a festa nem foi ideia minha, mas da minha mãe!”

Lara arrependeu-se profundamente das coisas que havia dito sobre a amiga no momento em que estava zangada. E também das que dissera sobre a irmã, passando por cima da autoridade da mãe. De repente, todas as vezes em que ela foi vaidosa e mesquinha, acusando outras pessoas  a fim de esconder uma culpa ou diminuir um erro seu, começaram a passar pela sua cabeça. E ela viu que foram muitas! Lara compreendeu que a tal “reputação” que ela precisava defender com unhas e dentes, era como um perfil falso em uma rede social, que todo mundo amava, curtia, enchia de emoticons... mas na verdade, não existia! A menina de longos cabelos loiros que postava fotos e tinha a boca em forma de coração era um perfil fake. Os milhares de amigos que ela tinha em sua lista eram, quase todos, tão fakes quanto ela. A não ser...  aqueles, que estavam em volta dela todos os dias, e que a conheciam e a amavam como ela realmente era. Com todos os seus defeitos e carências, e toda a sua vaidade. E todos eles sabiam o quanto ela era carente, pois a conheciam muito bem, há muito tempo. Com eles, ela não precisava contrair o rosto para fazer boquinha de coração, pois eles conheciam o seu coração verdadeiro. O que ninguém mais enxergava.

Mariana compreendeu que estava sendo cruel e injusta com uma das melhores amigas de sua filha, afinal. Também achou-se preconceituosa, principalmente sabendo muito bem o quanto era difícil lidar com filhos adolescentes, e admitiu que a sua própria filha também não era nada santinha. Ela descancelou o cancelamento da festa, e desfez o desconvite de Lara, re-convidando-a e pedindo desculpas à Louise.

A festa bombou, todo mundo se divertiu e Lara apareceu em muitas selfies, e foi maraca em várias fotografias.
Conversando com a mãe, ela confessou que desde que era muito pequena, sentia falta de sua presença em casa. Queria fazer coisas e mostrar a ela, mas que ela nunca estava em casa, e apesar do carinho de Iara, ela não era sua mãe. Crescera sentindo que faltava alguma coisa, seu coração estava vazio. Louise pediu desculpas, dizendo que a amava muito, que sempre a amara, mas que deu muito valor à seu trabalho, valor demais, deixando um pouco de lado o que era realmente importante. A mãe diminuiu um pouco a carga horária no trabalho, a fim de ficar mais perto das filhas e do marido. Nas férias, a família viajaria junta.
Enquanto isso, toda vez que Lara olhava para Marquinhos, percebia que um sentimento novo começava a aparecer, como as folhinhas tenras de uma plantinha que tentava brotar da terra antiga. E Marquinhos sabia que ele agora tinha todas as chances com Lara.

O blog tornou-se um sucesso! Lara posou para as fotografias – sem a boquinha de coração, mas com um sorriso verdadeiro – enquanto Bia escrevia textos incríveis, que Annie revisava e sugeria modificações. Annie, que desenhava muito bem, também criou ilustrações para várias postagens, e editava fotos como ninguém. A loja de Valentina deixou de ser um hobby e transformou-se em um negócio lucrativo.

Louise e Vítor abriram contas em redes sociais para que pudessem monitorar de perto as publicações da filha, e sempre que ela se excedia um pouco, eles chamavam sua atenção.

Quase um ano após todos aqueles acontecimentos, Valentina viu Joana entrar na loja, acompanhada de uma linda mocinha. Era Cláudia, totalmente recuperada de sua doença! Enquanto a menina escolhia algumas roupas, conversando com Lara, Annie e Bia, Joana foi até o balcão para falar com Valentina:


“Queria agradecer a você por ter cumprido a sua promessa. Foi muito importante para Cláudia ter o pai junto dela durante sua recuperação.”  Valentina respondeu: “Fico muito feliz ao ver que ela se curou. Espero que vocês três estejam felizes agora.” “Na verdade, nós nos divorciamos. Ele está disponível.” Valentina riu: “Muito obrigada. Só que não...”




A MÃO E O LAÇO – CAPÍTULO III

Na segunda-feira após a festa, Shirley me contou que tinha transado com Julio atrás do sofá de minha avó. Fiquei chocada, poi...