terça-feira, 12 de dezembro de 2017

AMOR E REVOLTA - CAPÍTULO VIII









-Nós não pudemos deixar de escutar vocês gritando, meninos! – Disse Sunny, em tom conciliatório. 

Mas de repente, Jane explodiu:

-Nem nós! Escutamos vocês brigando no escritório.

Sunny olhou para Paco, que disse:

-E é exatamente no escritório, por trás de  portas trancadas, que resolvemos nossos conflitos, e não nas partes comuns da casa, por onde os empregados circulam. 

Os dois se desculparam:

-Sinto muito, Sunny e sinto muito, Paco. Esta não é a minha casa, e eu extrapolei.

Paco olhou-o sério, antes de responder:

-Marvin, nós o acolhemos na nossa casa sem qualquer problema. Fizemos e fazemos de tudo para que você se sinta à vontade aqui dentro, mas eu não vou admitir, nem por um instante, que você nos julgue ou questione os nossos valores. Aqui, somos nós que estabelecemos as regras, e se você não concorda com elas, está convidado a não mais frequentar a casa. 

Marvin sentiu-se muito magoado, e pensou que nenhum dos colegas de escola, a não ser ele, frequentavam a casa de Jane. Mas iam à casa dele. Achou que eles também deveriam ter passado por aquele momento. Sunny acrescentou:

-Não podemos admitir que você tente fazer da nossa filha alguém preconceituoso, “quadrado” e infeliz. 

Ele olhou para Jane, que não o olhou de volta e nem disse qualquer palavra. Respirou profundamente; afinal, quem era ele para questionar a maneira como as pessoas viviam? Sentiu-se como seus avós: careta e controlador. Desculpou-se novamente:

-Me desculpem. Não vai acontecer de novo. 

A tensão foi cedendo aos poucos, e logo, todos estavam recostados no sofá, conversando sobre o jogo que aconteceria naquela noite. Seria uma final de campeonato, e Paco, que amava futebol, tinha entradas para todos eles. Mas embora eles tenham se divertido muito durante o jogo, Marvin estava com alguma coisa entalada na garganta que ele não conseguia definir. E achava que não poderia conversar com seus pais, porque, instintivamente, sabia que se eles soubessem o que rolava na casa de Jane, com certeza tentariam proibi-lo de encontrar-se com ela ou frequentar a sua casa. E ele sabia que já tinha swe envolvido com ela mais do que poderia controlar. Não podia, simplesmente, voltar atrás e fingir que Jane não era parte de sua vida. A paixão que sentia por ela era tão forte, que ele não sabia direito o que fazer com ela. Jane era linda. Era uma estrela que brilhava forte. A vioz dela deixava-o totalmente sem reação, e vê-la se aproximando fazia com que o mundo inteiro derretesse e sumisse debaixo dos seus pés. 

Jane era quase toda a sua existência – e ele nem percebia que estava deixando de lado seus amigos de infância e sua própria família para passar tempo com ela. E se fosse preciso mudar para que ela o amasse, ele seria capaz de fazê-lo. O futuro? Uma incógnita. Preferia não pensar muito nele. Temia o dia em que teria que enfrentar ver Jane saindo com outro garoto. E ela sempre lhe prometia que talvez aquilo fosse acontecer um dia.

Numa manhã de sábado, em que Marvin fora mais uma vez passar o dia na casa de Jane, Melissa e Rafaela estavam sozinhas na piscina, pois Cadu tinha ido levar Teófilo, Helena e Gertrude até o ônibus de excursão que os levaria a Caldas Novas – eles iam passar uma semana em uma estação de águas quentes. Melissa pensou se não seria uma boa ideia abordar com a mãe o assunto que lhe perturbava a mente há vários dias: seu irmão. Ela baixou os óculos escuros e olhou para Rafaela de soslaio. Ela parecia concentrada na leitura de uma revista de modas. Melissa pigarreou:

-Mãe... você acha que o Marvin está legal?

Rafaela ergueu os olhos da revista:

-Claro. E ele tem ido ao Dr. Figueiredo uma vez por semana. Se algo errado estivesse acontecendo, ele já teria me ligado. Mas por que pergunta?

-É que... ele anda distante da gente. Diferente...

-Seu irmão está apaixonado. É normal na idade dele. 

-Sim, mas... você já prestou atenção na Jane?

Rafaela baixou a revista, e inclinou-se na direção da filha:

-Sim. Ela é um estouro! Menina linda. Não é à toa que seu irmão está babando em cima dela. 
Melissa tirou os óculos, e sentou-se com as pernas cruzadas, olhando a mãe de frente:

-É, ela é linda sim, mas... já conversaram alguma vez?

Rafaela encolheu os ombros?

-Na verdade, não...

-E ela frequenta a nossa casa há mais de dois meses! Não seria natural que já tivesse aceitado um dos convites para almoçar? Ou que ao menos se interessasse um pouquinho pela nossa vida, por nós? Parece que essa garota esconde alguma coisa. Uma vez tentei conversar com ela, e ela foi monossilábica! Sem contar que ela ignora completamente o Luis e a Gabi. Nem os cumprimenta. Não come nem bebe nada aqui, mal chega e os dois se trancam no quarto do Marvin. e quanto ao vovô e as vovós... ela parece tão desconfortável quando eles estão aqui! E uma vez aquele Max, irmão da Jane, veio aqui para busca-la... e que cara esquisito! 

-Conflito de gerações. Nada demais. O que uma menina como ela teria para conversar com seus avós, Melissa?

Melissa percebeu que não importava como ela abordasse o assunto, a mãe tentava fugir dele, talvez para que a paz temporária pudesse durar. Rafaela não queria se preocupar. Resolveu ser direta:

-Mãe... eu achei maconha na mochila do Marvin. E uns comprimidos estranhos também. 

Rafaela engoliu em seco, e seu rosto perdeu a cor.

-Tem certeza? Porque... o Dr. Figueiredo receitou-lhe uns comprimidos, e...

-Eu conheço remédio para depressão e também comprimidos esquisitos, mãe. Sou adolescente, lembra? Já me ofereceram essas coisas. E também conheço maconha, o cheiro é inconfundível. Você precisa conversar com o Marvin e com o papai.

Rafaela sentiu um alarme soar fininho dentro dela. 

-Eu vou fazer isso, filha. Mas por favor, não deixe que seus avós fiquem sabendo, ou eles vão ter mais um motivo para dizerem o quanto eu sou uma mãe incompetente. 

Melissa percebeu que não ser julgada pelos sogros era quase uma prioridade para a mãe. 

-Aproveite que eles vão ficar uma semana fora. 

-Rafaela colocou os óculos escuros novamente, recostando-se na espreguiçadeira:

-Eu vou falar com seu pai. 

Fingiu estar concentrada na leitura, mas seus pensamentos eram alarmantes: e se precisassem internar o filho de novo? E se Marvin estivesse viciado?
Naquela mesma noite, Rafaela conversou com Cadu sobre o assunto. Ele ficou transtornado:

-Mas Rafaela, você sempre me diz que ele está bem quando eu pergunto! Como é que uma coisa dessas está acontecendo debaixo do seu nariz, e sua filha adolescente precisa alertá-la para que você enxergue?

-Pare de gritar, Cadu! Você, que é o pai, também não notou nada!

-Mas você é a mãe, Rafaela! A mãe! A responsável pelo bem estar dos filhos enquanto eu me arrebento para sustentar todo mundo!

-Peraí, Cadu! Você não faz isso sozinho, eu também trabalho, e ponho dinheiro aqui dentro! E você está me culpando de tudo, como se a responsabilidade fosse só minha?!

Cadu sentou-se na cama, passando as mãos sobre os cabelos, e respirando profundamente. Acalmou-se, e respondeu:

-Me desculpe, é que eu fiquei nervoso, só isso, você tem toda razão. 

Rafela sentou-se ao lado dele, segurando-lhe a mão:

-Precisamos conversar com nosso filho. O mais rápido possível.

Ele concordou com a cabeça. 

-Acho melhor não dizermos que a Melissa nos alertou. Eu... vou dizer que eu achei a droga na mochila dele.

-E ele vai acreditar?

-Não sei... mas não quero que os meninos briguem.

-Só te peço uma coisa: deixe seus pais fora disso, Cadu. Não aguentaria o olhar de censura da sua mãe. Você sabe que  a Helena me detesta.

-Isso não é verdade! Ela apenas se preocupa, Rafaela.

-Não; ela extrapola seus direitos de avó, e se mete em tudo. Não quero os dramalhões dela envolvidos nisso. Não quero ela perseguindo o Marvin e andando em volta dele o tempo todo, sufocando-o. 

Cadu guardou para si a sua irritação, e concordou:

-Ok, eu vou deixar minha mãe fora disso. 

Os dois ficaram acordados até tarde, esperando Marvin chegar. Mandaram Melissa ir para o quarto e deixar que eles tivessem aquela conversa à sós. Marvin chegou por volta das duas da manhã, parecendo levemente embriagado. Ao ver os pais sentados no sofá com ar preocupado, ele olhou de um para o outro e sentiu um certo alarme:

-Tudo bem, pessoal? Aconteceu alguma coisa? Meus avós estão bem?

Eles balançaram a cabeça, e se entreolharam. Cadu falou:

-Seus avós estão ótimos, foram passear por uma semana. Mas temos que ter uma conversa. Sente-se aí, filho. 

Marvin sentiu um certo nervosismo, pois a mãe torcia as mãos sobre o colo, e evitava olhar para ele. Cadu estava assumindo o controle da conversa:

-Eu encontrei uma coisa na sua mochila ontem à noite, filho. Era maconha. Mas o que ram aqueles comprimidos?

Marvin sentiu o rosto ficar vermelho, e explodiu:

-Foi a Melissa, não é? Aquela fofoqueira!

-Não, deixe sua irmã fora disso! Queremos saber o que são os comprimidos.

Marvin viu que não tinha saída, e após um suspiro, disse:

-Alguma coisa para espantar o cansaço. Assim eu posso aproveitar as festas. Mas é tranquilo, pai. Olha, não faz mal se a gente ingerir só um e beber bastante água.

Rafaela disse:

-Meu filho, você sabe o que essas coisas podem causar? Ataque cardíaco! Você pode morrer de repente!

Ele riu:

-Mãe, eu tenho só dezessete anos, e não vou ter um ataque cardíaco, Ok?

Ela ignorou o que seu filho firmou, e perguntou:

-O Dr. Figueiredo sabe disso?

Ele negou com a cabeça:

-É claro que não, mãe! Se eu contasse, ele viria correndo contar a vocês. 

-Ela se alarmou:

-Você vem mentindo para nós e para o seu psiquiatra, Marvin? Onde pretende chegar com isso?

Cadu sentiu que ela estava perdendo o controle, e interrompeu-a:

-Rafaela, espere... o mais importante aqui é que saibamos o que está acontecendo com o nosso filho. Marvin, você sabe que a gente te ama, não é?

Marvin olhou para o pai, parecendo confuso:

-Por que isso agora, pai? Só porque eu fumei um cigarrinho e tomei um ou dois comprimidos? Aí de repente você descobre que me ama?

Cadu ignorou a ironia de Marvin:

-Filho, como são os amigos e a família de sua namorada?

-O que a Jane tem a ver com isso?

Os pais notaram o tom alarmado na voz do filho, e sentiram que tinham colocado o dedo na ferida. 

Cadu tentou uma abordagem mais suave:

-Nada... não temos nada contra ela, mas como você passa a maior parte do seu tempo lá, gostaríamos de conhece-los melhor. 

Rafaela interrompeu:

-Filho, você precisa nos prometer que vai parar de tomar drogas. E que vai parar de usar maconha também. É perigoso, e contra a lei! Você pode ir preso, nós podemos ir presos, somos os responsáveis por você. E a maconha leva ao uso de drogas mais pesadas, nós já conversamos sobre isso, e você sabe!

Marvin achou melhor não discutir. No fundo, ele sabia que estava errado. Concordou com  a cabeça. 

-Eu vou falar com os pais da Jane. Dizer que vocês querem conhecer eles. Mas não sei como vai ser, pois eles são muito ocupados. Sabem, a mãe dela tem uma ONG muito importante, e ajuda um monte de gente carente. E o pai dela é um empresário, ele é muito legal. Os dois são... muito legais. Eu... gosto muito deles. 

Tanto Cadu quanto Rafaela notaram que o filho afirmava algo em que não acreditava, mas que tentava convencer a si mesmo do que dizia. Rafaela tentou sorrir, e acariciou o rosto do filho:

-Mas se é assim... então eles não se negarão a nos receber, ou a aceitar o nosso convite para um café. Mas por favor, diga que não vai mais beber ou tomar qualquer tipo de droga, Marvin. Você está tomando antidepressivos, e a mistura pode ser muito perigosa. E você vai falar com o Dr. Figueiredo. Vai contar a ele a verdade. 

Marvin concordou, e foi autorizado a ir para o quarto. Rafaela e Cadu ainda permaneceram na sala durante algum tempo, tentando convencer um ao outro de que tudo ficaria bem, e que aquilo não passava de uma fase passageira. Ainda se lembraram das vezes em que fumaram maconha juntos quando eram jovens, e riram. Mas ambos sabiam que a coisa não seria tão simples assim. 


(continua...)




quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

AMOR E REVOLTA - CAPÍTULO VII






As férias chegaram, e Marvin sentia-se aliviado por não estar sob a pressão das provas finais. Escrevera algumas dissertações, fizera trabalhos e exercícios de gramática e matemática em grupo, passara por algumas entrevistas. O suficiente para que decidissem que ele estava aprovado para cursar o último ano. Às vezes, as coisas que a irmã lhe dissera ficavam martelando em sua cabeça. Mas Marvin era apenas um adolescente apaixonado, e a testosterona era sua maior conselheira. Seu relacionamento com Jane continuava como sempre – quente, apaixonado, instável. Marvin ia do paraíso ao verdadeiro inferno em questão de minutos. Não gostava quando ela cumprimentava seus amigos com beijos na boca. Não aprovava quando ela abusava das drogas ou do álcool, ficando totalmente fora de sí, dançando a noite toda em uma das festas que sempre aconteciam em sua casa, movendo-se entre os amigos de seu pai, que a olhavam com olhos gulosos e faziam questão de dançar com ela de maneira íntima, apertando-a contra seus corpos. 

Acima de tudo, ele não se sentia à vontade quando chegava na casa dela e encontrava o Deputado Tavinho circulando por lá. Havia algo de muito negativo naquele homem. 
Certa vez, ele estava passeando no jardim, quando viu Paco e o deputado conversando em voz baixa. Marvin agiu por curiosidade apenas; parou, e ficou escutando a conversa deles. De onde estava, os dois não poderiam perceber sua presença, pois havia um denso arbusto entre eles. Marvin prendeu a respiração, concentrando-se para escutar melhor. Fragmentos de frases chegavam até ele:

-...Paco... eu vou mandar o dinheiro pela Jane... mande o material...

-...ninguém desconfia de nada, ... tenho certeza que... 

-olhe lá, hein!  Esse garoto que anda com ela... muito observador...

-...Ciúme de adolescente... nada sério.

-Se eu fosse você mandava ele vazar...

-A menina precisa sair... se divertir...

-Mas ela tem que estar disponível... se precisar...

-Não se preocupe... amanhã ela leva...

-A encomenda é grande, tem certeza?

-Sem problemas... deixo ela na porta... ela entrega e sai. Quem ia desconfiar dela?

-Então mando  a grana da “ONG.”

Tavinho dissera a última frase em tom de ironia. Os dois começaram a rir. 
O coração de Marvin batia descompassado. Havia algo de muito errado acontecendo ali! Ele estava tão distraído, que não percebeu a aproximação de Sunny, que logo percebeu o que ele andara fazendo. Mesmo assim, para não assustá-lo, ela usou um tom de voz casual, e estranhamente sussurrante, como se não desejasse que Paco e Tavinho os escutasse:

-Olá, Marvin. Perdido por aqui? Venha comigo, vamos almoçar. Você é nosso convidado de honra hoje!

Marvin levou um baita susto, mas notou que ela parecia mais assustada do que ele, enquanto o segurava pelo braço e se afastava dali rapidamente. No caminho, ela chegou a tropeçar, e Marvin notou que Sunny estava ofegante. Ele a amparou, e ela agradeceu. Ficaram se olhando por um tempo, até que ela percebeu que ele exigia uma explicação. Ela ajeitou o cabelo, e disse:

-Sei que pode ser que você pensou ter ouvido alguma coisa... mas deixe-me explicar, Marvin: você nos conhece há apenas alguns meses. Já notou que não somos uma família convencional. O Deputado Tavinho não é o que parece, ele é um bom homem. Ele faz gordas contribuições à nossa ONG, e através dela, nós ajudamos muitas pessoas necessitadas. Venha, vou lhe mostrar!

Dizendo aquilo, ela conduziu-o a um escritório, e convidou-o a sentar-se em frente ao computador. Abriu um site, mostrando a ele:

-Olhe... este é o site da ONG Coração Aberto. A ONG que eu administro. Veja só quantos projetos realizamos!

Marvin passou o cursor pela tela, e leu sobre projetos que levavam água a locais de sêca, alimentos a crianças carentes e até mesmo construção de casas populares para moradores de rua. Nas fotografias, mostravam o “antes” das pessoas e o “depois”, em imagens onde elas apareciam magras, sujas e carentes, e depois felizes e sorridentes, limpas e arrumadas em frente a casas com canteiros floridos na frente. 

-Este é o nosso trabalho. Acredito nas causas sociais!

Marvin não sabia o que dizer. Finalmente, olhou para Sunny e exclamou:

-Nossa, isso é... massa! Muito legal o trabalho de vocês. Mas...

Sunny, que sorria, satisfeita, deixou o sorriso morrer após indagação final de Marvin:

-Eu... esse senhor, o Deputado Tavinho... ele é sinistro. Não gosto dele... e você?

Ela riu:

-Sim, eu concordo! Acho que essa é uma característica dos políticos. De todos eles. Mas pode acreditar em mim, ele é dos bons! Uma referência para nós e nossos projetos, e também para os projetos de várias ONGS. Sabe, Marvin... você não sabe o que é a política. Às vezes, é necessário fazer algumas concessões, agir de maneira menos ética, a fim de se alcançar objetivos... ou eles o colocam para fora, arruínam com a sua vida. Existe todo um sistema lá dentro... mas deputados como o Tavinho tentam derrubar esse sistema, criando e incentivando projetos sociais. Você precisa conhece-lo melhor.

Marvin apavorou-se, sentindo um arrepio na espinha:

-Talvez algum dia. Ele... vai almoçar com a gente?

-Não. Hoje não. Passou apenas para acertar alguns detalhes com meu marido sobre um novo projeto. 
Marvin suspirou de alívio. Como Sunny estivesse sendo aberta com ele, atreveu-se a perguntar o que Jane tinha a ver com tais projetos.

Ela ergueu as sobrancelhas, mostrando-se confusa:

-Jane? Nada... por que? É claro que ela às vezes gosta de visitar as crianças, mas... não está pessoalmente envolvida.

-Porque eu escutei o nome dela sendo falado várias vezes. Sabe, lá fora. 

Jane abriu a boca para responder, mas não tinha a menor ideia do que dizer. Foi salva pela chegada de Jane e Max, que entraram na sala conversando e rindo alto. Ela saiu de fininho, dizendo que ia deixar os jovens à sós. 

O almoço foi um pouco tenso entre Marvin e Sunny. Jane também não parecia muito feliz, mas sorria e tentava disfarçar. Max, porém, parecia até quase simpático naquela tarde, pois seu pai lhe prometera um carro de luxo para o seu aniversário. Max discursava sobre o modelo e as facilidades que o carro oferecia, enquanto Paco o incentivava. Os dois dominavam a conversa. Até que Max, virando-se repentinamente para Marvin, perguntou:

-E você, Marvin? Não tem um carro ainda?

Marvin, surpreso, até tentou responder, mas Max cortou-o:

-Ah, é... você é de menor. – E riu, de maneira irônica. Jane mostrou-se furiosa, e os olhos dela se encheram de lágrimas, mas ela nada disse; apenas pousou os talheres, tomando um gole de água. 

Marvin corou, engolindo a humilhação, enquanto Sunny, parecendo muito desconfortável, servia-se de mais vinho. Marvin percebeu quando ela e Paco trocaram olhares nervosos. 

Após o almoço, Marvin escutou os dois discutindo no escritório, e suas vozes abafadas às vezes se erguiam, mas logo voltavam a sussurrar. Jane pegou-o pela mão, e ambos foram até o jardim. Max tinha saído, para alívio de Marvin, que já não gostava do cunhado antes, e agora, menos ainda.
À sós com Jane, Marvin decidiu passar as coisas a limpo:

-Eu pensei que seus pais fossem o casal perfeito. Parece que estão discutindo. Desculpe, não pude deixar de ouvir.

Ela retesou-se:

-Isso é problema deles. 

Depois, retratou-se:

-Olhe, Marvin, eu gosto de você de verdade, mas queria que você não julgasse a minha família. Já disse que somos diferentes.

-Mas me explique mais sobre essa diferença. Eu só queria entender!

Ela olhou para ele:

- Um exemplo: Eles não acreditam em monogamia. Sunny sai com quem ela quiser, e Paco também. 

-Por que você não os chama de “pai” e “mãe?”

Ela sacudiu a cabeça, enrolando os longos cabelos em um coque sob a nuca:

-Que importância isso tem? Gente, são só nomes! Aqui fomos acostumados assim, só isso. Além do mais, não achamos que alguém deva ser limitado a ser definido como ‘pai’ ou ‘mãe’ de alguém pelo resto da vida. Aqui, nós temos nomes, personalidades. 

Paco concordou com a cabeça, achando que ela estava certa:

-Fale mais sobre a sua família.

-Bem... o que quer saber?

-A Sunny e o Paco não ligam se você dorme comigo aqui dentro?

Ela riu:

-Claro que não! Eles acreditam no amor livre, eu já disse. E em todas as formas de amor. 
De repente, um travo de ciúme e estranheza cortou a paz de Marvin. Ele ficou pensando em quantos meninos ela já tivera naquela cama de casal confortável que ficava em seu quarto. Mas resolveu não perguntar. Ao invés disso, perguntou:

-Quantos anos você tinha quando transou pela primeira vez?

Ela não pareceu constrangida, e respondeu, olhando-o nos olhos:

-Doze anos. Mas por que isso é tão importante?

-Não é, e que... eu só queria entender vocês melhor. E... quem foi?...

-Você quer saber com quem eu perdi a “virgindade?” – ela tinha um tom de zombaria na voz que não o agradou – mas que caretice, Marvin! Mas tá bom, se é tão importante assim... eu perdi a virgindade com um primo. Ele era oito anos mais velho que eu. 

Marvin engoliu em seco, tentando digerir aquela informação.

-Mas isso não é ...

Ela completou:

-Pedofilia? Sim, no seu mundinho, é sim. Mas como você é careta, Marvin!

De alguma forma, e pela maneira com que ela disse aquela frase, Marvin sentiu que ela não pensava realmente daquela forma, mas que repetia frases que se acostumara a ouvir. Pois os olhos dela fugiam dos dele, pela primeira vez, desde que se conheceram. Jane tentava desesperadamente soar natural, rir, e abusar da ironia, mas não olhava mais para ele. Não parecia estar convencida do que dizia. Ela convidou-o:

-Vamos lá para cima. Acho que você precisa “dar um tapa”, e de também transar um pouco. 

Mas ele a segurou, obrigando-a a ficar aonde estavam:

-Não, antes... quero que você me responda uma coisa. 

Ela revirou os olhos, em sinal de impaciência. 

-Você também é assim tão liberal? Você acha que é certo ficar com outros meninos, transar com eles, estando comigo?

Ela demorou a responder, mas finalmente, ergueu os olhos e disse:

- Acho que devemos viver o momento. A vida é curta. Temos que ser resilientes, temos que aproveitar a vida, Marvin. Gosto de você e no momento, estamos juntos. Isto deveria ser o suficiente. 

-Mas você não me respondeu.

-Sim, eu sou liberal. Mas se quer saber se fiquei com alguém enquanto estou com você, a resposta é não. 

-Mas isso quer dizer que pode vir a ficar.

-Sim. Posso. Se eu sentir que devo. Esta sou eu, Marvin, este é o meu mundo, e ou você se encaixa dentro dele, ou não. 

Ele respondeu com irritação na voz:

-E quanto ao meu mundo?

-O seu mundo não deu certo. Todos os dias, vocês matam por ciúmes, vocês matam por preconceito, vivem uma vida hipócrita onde a fidelidade é exaltada a qualquer custo, enquanto todo mundo trai. Falam de valores, de família, mas todos vivem brigando e vivendo de forma vil. 

-Minha família não é assim!

-Ótimo!

-Você deveria conhecê-los melhor. Sempre vamos lá em casa, mas você nunca conversa com eles!

-Eu não vou lá para ver seus pais, mas para ver você!

-E se de repente eu aparecesse de mãos dadas com outra garota na sua frente, como você ficaria?

Ela levou ambas as mãos à cabeça, fazendo uma cara irritada:

-Mas você não entendeu? Você é uma pessoa livre! Você pode ficar com quem quiser, quando quiser, e não me deve satisfações da sua vida! Estamos juntos porque queremos, não existe hipocrisia, não existem laços ou nós que nos prendam! 

Eles se deram conta de que estavam gritando um com o outro. Um dos jardineiros, que trabalhava ali perto, fingia não escutá-los. Ambos se afastaram um do outro, caminhando alguns passos, e depois voltaram a se olhar. Suas mentes estavam confusas. Jane sabia que nunca sentira por ninguém o que sentia por Marvin, e no fundo, vê-lo com oura garota não seria nada agradável. Mas ela aprendera a ver seus pais saindo com outras pessoas, e até mesmo convidando-as para seus quartos. É claro que muitas vezes, ela notava que Sunny estava infeliz. Ela sabia que a mãe, no fundo, sofria. Pensou se gostaria de ter uma vida como a dela. 

Marvin olhava para ela, tentando administrar a dor que suas palavras causaram dentro dele. Crescera entre pessoas que valorizavam a família, a fidelidade e o respeito. Não estava acostumado àquelas ideias. 

Nem notaram quando Pacco e Sunny se aproximaram deles. Os dois levaram-nos para dentro da casa, segurando-os pelas mãos. 

(continua...)






quarta-feira, 22 de novembro de 2017

AMOR E REVOLTA - Capítulo VI







Gabi conversava com Melissa. Ambas estavam sentadas no pátio da escola, durante o intervalo. Tinham acabado de discutir as questões do teste que fizeram. Era um teste final de matemática, e após compararem suas respostas, chegaram à conclusão de que ambas tinham conseguido passar muito bem. 

O ano letivo terminaria em apenas duas semanas. Luis tinha terminado as provas mais cedo do que os demais alunos, em condições especiais, pois partiria com sua família em uma longa viagem de férias. As duas meninas estavam sentadas juntas, sentindo-se um tanto melancólicas. De repente, Gabi, que esmigalhava entre os dedos algumas folhas de grama, soltou um longo suspiro. As duas se conheciam muito bem, e logo Melissa percebeu que a amiga estava triste.

-É chato estar aqui sem o Luis, né?

Gabi concordou com a cabeça. Depois de algum tempo, disse:

-É, sim. Mas mais chato ainda, é a maneira fria como seu irmão vem me tratando. Sabe, Melissa, desde que ele fez amizade com aquela tal de Jane, tem nos ignorado.

-Já reparei... mas mamãe e papai dizem que ele está se adaptando à nova escola, fazendo novos amigos, e que isso é bom. Eu... não sei se é tão bom assim.

-Por que?

Melissa levantou-se do gramado, batendo as palmas das mãos no jeans, a fim de tirar as folhinhas de grama. Gabi seguiu-a, e ambas começaram a caminhar devagar em direção à cerca do pátio, um local mais afastado. Quando chegaram debaixo de uma grande árvore, melissa segredou:

-Achei um cigarro de maconha nas coisas dele.

Gabi levou um tempo para digerir aquela informação:

-Você mexeu nas coisas dele?

Melissa pareceu um pouco sem graça, mas disse:

-É que uma vez, de madrugada, eu me levantei para ir até a cozinha beber água. Ele estava chegando em casa naquele momento, e o cheiro era inconfundível! Daí, esperei ele ir dormir e revistei a mochila dele. Achei um cigarro de maconha. E uns comprimidos estranhos. Não sei o que são.

Gabi levou uma das mãos à boca:

-E o que você fez? Contou aos seus pais?

-Não. Não quero passar por dedo duro.

-Pois eu acho que você deveria contar. Isso é muito sério, amiga!

Melissa ergueu os cantos dos lábios:

-Eu sei... só não queria provocar uma outra crise lá em casa... as coisas andam tão calmas! Até mesmo minhas avós pararam de brigar.

As duas riram. Gabi disse:

-Melissa... e se você conversasse com ele?

Aquela possibilidade nunca tinha passado na cabeça dela.
Afinal, ela e o irmão nunca tinham sido, necessariamente, amigos íntimos.

-É... é uma boa ideia. Acho que eu vou pensar nisso. Mas... essa tristeza sua não tem só a ver com a ausência de Luis e do meu irmão, não é? Eu conheço você, e a última vez que suspirou assim, estava de paixões por um menino...

Gabi sorriu:

-É... mas não deu em nada, lembra? Depois que nós saímos juntos, eu me desapaixonei. Ele era um verdadeiro babaca. Nada parecido com o...

Gabi calou-se antes de revelar seu antigo segredo. Mas Melissa logo percebeu que a amiga não tinha completado a frase, e pulando e batendo palmas em volta dela, exclamou:

-Peraí! Tem coelho nessa moita! Conta aí, amiga: quem é o felizardo? Uma paixão secreta, e você está escondendo de mim??? Como foi que eu não notei?

Gabi olhou para ela, em pânico, e seu rosto cobriu-se de manchas vermelhas. Ela engoliu em seco, tentando mudar de assunto:

-Não, não é nada disso!

Mas seus olhos se encheram de lágrimas de repente, e Melissa ficou séria quando percebeu a verdade: Gabi estava apaixonada por Marvin! Melissa andou até ela, abraçando-a e pedindo desculpas:

-Desculpe, amiga.. mas há quanto tempo está assim, nesse estado tão desinteressante? Sabe, tem tanto cara mais legal do que o meu irmão, que é tão problemático, e agora está tão besta!

Gabi riu entre as lágrimas:

-É, mas acho que eu sou mais besta do que ele. Acho que eu me apaixonei pelo Marvin na primeira vez que deitei meus olhos nele.

-E por que nunca deixou ele saber?

Gabi fungou:

-Ele nem percebe que eu existo. Olhe só para mim! Esse cabelo cacheado, essas pernas grossas... e agora tem a Jane. A garota perfeita. Sabe, às vezes fico olhando para ela, tentando encontrar algum defeito, mas não tem nenhum: ela é perfeita. 

-Não. Ninguém é. Quer saber? Eu não vou muito com a cara dela e de seus amigos. Os pais dela estavam na escola no outro dia, quando eu fui pegar o Marvin com a mamãe... e se você visse... a mãe dela parece uma versão da boneca Barbie da terceira idade, e o pai, uma cópia do Tarzan. 

As duas deram gargalhadas. Gabi comentou:

-É... mas dizem que o irmão – Max – é uma perdição.

-Um babaca arrogante e convencido. Uma vez eu estava com o Marvin e a Jane na rua, ele parou, falou alguma coisa com ela e nem nos cumprimentou. Além disso, é alto demais.  E você é melhor do que ela. Dá de mil a zero.

-Obrigada, amiga, mas infelizmente, não é você que precisa achar isso...

Naquela tarde, ao chegar da escola, Melissa surpreendeu-se por achar Marvin em casa. Ele parecia um tanto aborrecido. Estava sentado no sofá da sala, jogando vídeo game – coisa que ele sempre fazia no quarto. Seus pais tinham combinado de se encontrar após o trabalho para irem ao cinema, portanto, eles estavam sozinhos em casa. Ela murmurou um “oi”, e ele respondeu com um grunhido. Melissa pensou no quanto seu irmão estava ficando cada vez mais parecido com o cunhado arrogante. Mas também percebeu que ele não estava bem. 

Pegou um refrigerante na geladeira; depois, pensou melhor e pegou dois. Chegou na sala e sentou-se ao lado de Marvin, deixando uma das garrafas em frente a ele. Marvin, com os olhos grudados na tela, nada disse. Melissa arriscou:

-Nossa! Já está na última fase?

Naquele momento, Marvin perdeu sua última vida, e deu um soco na almofada. Ela tremeu. Marvin pegou o refrigerante, tomando vários goles:

-Estou. Mas não consigo passar. 

-Essa é a mais difícil...

Ele recostou-se no sofá, pegando o controle remoto e mudando para um canal de TV, onde um surfista fazia manobras radicais. Os dois ficaram calados durante um tempo, olhando a tela. Melissa podia sentir a tensão do irmão. Melissa perguntou:

-Está tudo bem com você?

-Hein? Está sim. 

-Não parece...

Marvin passou a mão pelo cabelo, olhando a irmã. Seria bom ter alguém com quem conversar sobre aquilo. Naquela tarde, após a escola, Jane mal despediu-se dele. Tinham combinado de ir juntos a uma lanchonete para almoçar, mas o tal Deputado Tavinho estava parado á porta da escola esperando por Jane. Ao ver o carro de luxo com vidros escuros estacionado, ela estancou, ficou séria de repente e largou a mão dele, dizendo:

-Não vai rolar hoje. Preciso ir. 

E estalando um beijo na bochecha de Marvin, entrou correndo no carro, deixando-o de pé na calçada. Melissa escutou tudo com atenção, e também ouviu dele a explicação que Sunny lhe dera sobre o Deputado Tavinho na noite da festa (mas não contou a irmã nem a ninguém que era uma festa de nudismo). Melissa pensou um pouco a respeito:

-Bem, se ele é amigo dos pais dela, e ajuda na tal ONG... e se a própria mãe disse a você que ele é como um tio para ela, eu não vejo porque você...

Marvin a interrompeu:

- Mas é aí que está o problema: a Jane não parece gostar dele, entende? Eu às vezes tenho a impressão de que ela o detesta. Que é forçada a estar com ele. E ele é um cara nojento.

-Estar com ele... como? 

Marvin retesou os músculos só de pensar na resposta para aquela pergunta. Melissa ouviu-o bufar de raiva, e socar novamente a almofada que estava em seu colo. Ela mesma se assustou, encolhendo-se do seu lado do sofá. 

-Eu não sei! Quer saber? Esquece tudo o que eu disse. 

Dizendo aquilo, ele se levantou do sofá. Melissa tomou coragem, e foi atrás dele em direção ao quarto:

-Talvez a Jane não seja a menina certa para você. Ela é muito moderninha. Quem sabe, se você olhasse melhor, veria que existem muitas meninas legais interessadas em você? 

Ele riu, nervoso:

-Ah, é? E se eu estiver interessado apenas na Jane?

-Eu diria que você pode estar perdendo seu tempo... escuta, irmão... aquela família é um tanto esquisita. Você nunca notou?

Marvin parou na porta do quarto, olhando para ela com raiva:

-Esquisita? Você nem os conhece!

Melissa encarou-o com firmeza:

-Mas apesar da minha pouca idade, eu sei que pessoas boas são aquelas que se preocupam com a gente e nos deixam com uma sensação de paz. São as pessoas com quem nos sentimos relaxados e felizes. Pessoas boas não nos deixam ansiosos, nem parecem estar sempre escondendo alguma coisa, e nem andam com pessoas como esse Deputado Tavinho. E pelo amor de Deus, aqueles seus amigos são super estranhos... E pessoas legais não dão drogas para adolescentes.

Ela viu o rosto do irmão empalidecer. Percebeu que ele estava a ponto de agredí-la fisicamente, mas de repente, Marvin entrou no quarto, batendo a porta. Melissa, extenuada após a tempestade emocional, largou-se no sofá, chorando. Ela e o irmão nunca tinham tido uma briga como aquela antes! Mesmo assim, decidiu não contar aos pais sobre o cigarro e os comprimidos que achara na mochila do irmão, pois pareceria que ela estava se vingando dele. 

(CONTINUA...)







segunda-feira, 13 de novembro de 2017

AMOR E REVOLTA – capítulo V








AMOR E REVOLTA – capítulo V

Gabi sofria em silêncio. Jane passou a frequentar a casa de Marvin, e também alguns dos seus novos amigos. Eles passavam por ela e Luis na sala, mal falando um “oi”, e iam para a piscina. Gabi percebeu a atenção exagerada que Marvin dedicava a Jane, e o quanto Jane era o centro das atenções. Sentiu-se enciumada. Jamais conseguiria concorrer com alguém como ela. Gabi era o tipo de garota que existia, mas sem demasiado brilho. Era bonita, mas não bonita demais, como Jane. Não era tão rica, nem tão intelectualizada. E não tinha aquele séquito de admiradores. 

Os avós reclamavam porque Marvin raramente estava presente nas reuniões de família nos finais de semana, mas Rafaela sentia um prazer fininho ao perceber que aquilo magoava Helena. Ela dizia que seu filho estava bem, e que pela primeira vez, estava enturmado e tinha muitos amigos, além de estar gostando da escola. Nas poucas vezes em que Marvin se fazia presente, ele ficava apenas alguns minutos – no máximo, uma hora – e logo se despedia de todos, dizendo que tinha que encontrar os amigos.

E as reuniões de final de semana dele passaram a ser na casa de Jane. Ele foi convidado para lá pela primeira vez quando Sunny, a mãe de Jane, fez aniversário. Marvin não estava preparado para o que viu quando naquela tarde de sábado chegou à casa de Jane, e ficou parado junto a piscina, enquanto as pessoas circulavam em volta dele como se ele fosse invisível... completamente nuas. Algumas mulheres usavam apenas bijuterias (ou jóias caras, ele não saberia dizer), ou lenços de seda transparente em volta dos ombros,  e os homens usavam gravatas borboleta. Marvin sentiu-se totalmente deslocado, enquanto ficava parado ali, segurando uma dúzia de rosas – presente que comprara para Jane, que ainda não conhecia, a conselho do pai: “Toda mulher adora flores. E se você não a conhece, é um presente que com certeza vai pegar bem.”

Finalmente, Jane veio caminhando em direção a ele. Totalmente nua. Usava apenas um par de sandálias altas, e os cabelos longos e soltos balançavam suavemente atrás dela como uma aura em volta do seu corpo, conforme ela caminhava. Ela estava magnífica! Marvin quase engasgou ao vê-la. Sem pestanejar, Jane aproximou-se dele, abraçando-o e beijando-o demoradamente na boca. Ele pensou se para ela aquele beijo significava alguma coisa. Quando se separaram, ele disse a primeira coisa que lhe veio à cabeça, apenas para não deixar transparecer o quanto ele se sentia embaraçado:

-E onde está a turma?

Ela respondeu, com naturalidade:

-Só convidei você. É o aniversário de Sunny. Ela me autorizou a convidar apenas um amigo.

Ele percebeu o quanto aquilo fazia dele alguém especial, e alegrou-se. Jane pegou-o pelo braço:

-Venha, vou te apresentar os meus pais.

Ele foi caminhando ao lado dela, tentando não prestar atenção ao fato de que ela estava nua, e ele, muito excitado; Jane foi puxando-o pelo jardim, até que chegaram a um grupo de pessoas que estava de pé em um dos cantos do jardim, tomando champanhe e conversando. Ela cutucou um casal, que virou-se para olhar para ela:

-Sunny, Paco... este é meu amigo Marvin. Ele é novo na escola.

Marvin achou estranho que Jane se referisse aos próprios pais pelo nome, e não chamando-os de mãe ou pai. Ele estendeu a mão, dizendo:

-É um prazer. 

Sunny e Paco cumprimentaram Marvin, que agora sentia os olhos das pessoas fixos nele. Ele entregou as flores a Sunny, que agradeceu sorrindo, acolhendo-o em um abraço apertado. Marvin notou que ela deveria ter quarenta anos de idade. Era quase tão bonita quanto a filha, e estava em muito boa forma. Paco também mostrava músculos cultivados em academia, e uma cor bronze-dourada na pele, ressaltada pelo louro dos cabelos ondulados cortados em camadas. Aquela era a família mais bonita que Marvin já vira. 

Sunny chamou um dos seguranças e entregou-lhe as flores. O homem pegou-as e sem dizer palavra, desapareceu na direção da mansão. Depois, virando-se para Jane, disse:

-Deixe seu amigo mais à vontade, querida. 

E em seguida, olhando para Marvin:

-Minha linda filha vai leva-lo para conhecer a casa. Fique à vontade. Eu digo... literalmente.
Jane pegou Marvin pela mão, e ele a todo momento lutava contra o forte desejo que sentia por ela. Ela mostrou-lhe a casa, servindo-lhe uma taça de champanhe, que ele literalmente engoliu de uma só vez; ela serviu-lhe outra, e mais outra. A casa era imensa e linda, muito luxuosa e bem decorada. Eles foram caminhando para longe da sala de estar e do barulho, em direção a uma outra ala da casa. Seguiram por um longo corredor com janelas de vidro, de onde Marvin viu as pessoas e a festa em volta da piscina, e também lindos trechos do jardim. Quando chegaram em frente a uma porta larga, ela parou:

-Venha. Vamos tirar um pouco dessa roupa. 

Marvin sentia-se muito embaraçado, pois ao entrarem no quarto, Jane ficou olhando para ele, esperando que ele se despisse, sem demonstrar que sairia e o deixaria à vontade. Marvin não sabia como esconderia dela a sua excitação. Ela logo percebeu qual era o problema, e aproximou-se dele, enlaçando-lhe o pescoço e dizendo:

-Vamos dar um jeito nisso.

E começou a despi-lo, ela mesma, beijando cada parte de seu corpo. Marvin não entendia muito bem como uma menina tão nova podia ter tanta experiência – muito mais experiência do que ele. Mas concluiu que naquele momento, aquela deveria ser a menor de suas preocupações. Ele estava a ponto de explodir. Ela o chamou e ambos deitaram-se na cama de casal dela, entre macios lençóis de cetim e almofadas que cheiravam a alfazema. Marvin estava meio-bêbado, e enquanto ela fazia coisas deliciosas no corpo dele, ele via, com os olhos entreabertos, a atmosfera aconchegante e sensual do quarto. Aquele, definitivamente, não era o quarto de uma adolescente.
Quando terminaram, ele descansou por um tempo, deitado ao lado dela. Jane virou-se de bruços e olhou para ele:

-Gostou?

Só de olhar para ela, ele sentiu sua excitação chegando novamente, e abraçou-a com força. 
Duas horas depois, e após a quarta vez, eles saíram do quarto. No caminho para o jardim, Marvin tomou outra taça de champanhe. Ele gostaria de saber qual seria, então, a sua posição na vida de Jane. Era seu namorado, ou continuavam apenas bons amigos? De brincadeira, segurou-a pelas mãos e obrigou-a a olhar para ele:

-E agora?

-E agora o que?

-Eu queria saber o que eu sou para você, Jane.

Ela ficou séria, e Marvin percebeu que Jane sentia-se desconfortável. Jane sorriu de repente, dizendo:

-Não me faça perguntas. Você não sabe ser feliz, viver o momento?

Ele ia retrucar, mas naquele instante, Sunny apareceu:

-Jane, querida, o Deputado Tavinho chegou, e está procurando por você. Por favor, dê a ele um pouquinho de atenção. Venha, Marvin, eu lhe faço companhia.

-Marvin não entendeu nada daquilo. Viu apenas que Jane ficou séria de repente, antes de afastar-se deles. Também viu, enquanto conversava com Sunny, que Jane caminhava ao lado de um homem moreno, bem mais velho, que cultivava uma barriguinha. Ambos afastaram-se em direção à casa. Marvin sentia-se enciumado; não conseguiu deixar de perguntar a Sunny:

-Quem é aquele homem?

Sunny sorriu:

-Ele é o deputado Tavinho. É como se fosse um tio para Jane. Um grande amigo nosso. Sabe, temos vários projetos sociais. Eu mesma administro uma ONG que cuida dos direitos das crianças. O deputado Tavinho nos ajuda muito, e somos muito gratos a ele. 

-Bem... acho isso bacana, Sunny.

Naquele instante, Paco passou por eles segurando uma linda jovem pela mão. Ambos pareciam muito entretidos, enquanto conversavam, e Marvin viu, estupefato, quando Paco passou o braço em volta da cintura da jovem, conduzindo-a a um canto escuro do jardim. Os dois desapareceram. Ele olhou para Sunny, a fim de certificar-se se ela tinha ou não visto a cena. Notou que uma pequena sombra passou diante dos olhos dela, mas ela logo a espantou com um sorriso:

-Eu sei que você deve estar achando muitas coisas estranhas aqui em minha casa, Marvin.

Ele tentou soar natural:

-Não, que isso... eu... ok! Confesso que fiquei surpreso. Nunca tinha estado em uma festa assim.

-Ela estudou-o por um momento, antes de dizer:

-Então relaxe e aproveite, querido. E saiba que aqui nada é proibido. Eu disse: NADA. 
Marvin pensou ter percebido uma insinuação na voz dela, que tornou-se rouca no final, mas procurou espantar aquele pensamento. Afinal, ela tinha idade para ser mãe dele. Mas quando Sunny esticou a mão, alisando vagarosamente seu ventre nu, ele quase engasgou de surpresa; Marvin disse;

-Ops... Sunny... que negócio é esse? 

Ela o encarou, e depois disse:

-Só queria provar a você que eu estou falando realmente sério quando disse que aqui nada é proibido. 
Dizendo aquilo, ela deu uma gargalhada sonora, e arrematou:


-Não faça essa cara. Estou apenas brincando com você. 

Um garçom passou por eles, e Sunny o fez parar, pegando na bandeja um cigarro de maconha. O garçom acendeu-o para ela. Ela deu uma longa tragada e entregou-o a Marvin, dizendo:

-Tome. Isso vai ajudá-lo a relaxar. 

Marvin nunca tinha experimentado nenhum tipo de droga. Nem sequer cigarros. Sunny ensinou-lhe o caminho das pedras. O que aconteceu naquela noite ficou guardado para sempre na mente dele, mesmo depois que tornou-se um adulto. 

Chegou em casa às quatro e trinta e cinco da manhã, e em silêncio, foi deitar-se e pensar em tudo o que tinha acontecido naquela noite. 





segunda-feira, 6 de novembro de 2017

AMOR E REVOLTA – Capítulo IV





Mas na hora do intervalo, enquanto se dirigia a uma das mesas vazias do refeitório a fim de comer seu lanche sozinho, Marvin foi surpreendido: vários colegas foram sentar-se com ele, e começaram a se apresentar e a trata-lo muito bem. E o melhor de tudo, é que nenhum deles tocou no assunto ou o tratou de forma estranha ou protetora. Após terminarem de comer, alguns se afastaram, e Marvin se viu sozinho à mesa com apenas Fabinho, um menino de estatura baixa e cabelos lisos que caíam sobre um dos olhos. Fabinho atacava mais um sanduíche, quando Marvin criou coragem e perguntou:

-Quem é aquela menina que chegou por último na sala hoje? 

-Ah, aquela menina? É a Jane Rain.

-O que?

-Jane Rain! Este é o nome dela. Mas todo mundo a chama só de Jane. 

-Uau! Nome diferente. Ela é muito linda. 

-É...

Marvin percebeu um tom de voz e um olhar estranhos em Fabinho, e perguntou:

-Algo errado com ela?

Fabinho encolheu os ombros, dando mais uma mordida no sanduíche:

-Não, nada. É que... bem, descubra por si mesmo. Ela é uma garota diferente das outras. 

-Diferente como?

-Difícil dizer. Mas você vai acabar notando. Não vou estragar a surpresa. Bem, vou dar um giro. Quer vir?

-Não, obrigada. Acho que vou ficar por aqui. A gente se vê.

Naquele momento, ele viu que Fabinho olhava para alguma coisa acima e por trás dele, e instintivamente, Marvin olhou para trás. Deu com Jane. Jane Rain. Ela estava de pé logo atrás dele, e ele se perguntou o quanto daquela conversa ela havia escutado. Sem pedir licença, Jane sentou-se em frente a ele.

-O que quer saber sobre mim?

-Olha eu... desculpe, eu não queria... fofocar... nem sei onde enfio a cara.

Ela riu alto:

-Não se preocupe, ninguém liga muito para nada por aqui, e ninguém tem segredos também. Costumamos partilhar tudo uns com os outros. Faz parte da doutrina da escola: sem segredos!

Ele pensou um pouco antes de dizer:

-Sem segredos? Mas por que?

-Porque é melhor assim.

-Há quanto tempo está aqui?

-Dezesseis anos. Desde sempre. É que aqui nós aprendemos que sermos verdadeiros a respeito de nós mesmos ajuda-nos a sermos verdadeiros uns com os outros, o que nos leva a mentes mais saudáveis. Sem máscaras. Você marcou pontos hoje na sala com o Fernando, dizendo a verdade sobre você. 

Ele pensou mais um pouco, e concordou com a cabeça.

-Então eu posso te perguntar o que eu quiser?

Ela concordou com a cabeça. Marvin sentiu que o olhar dela era profundo. Quase queimava. Notou o esmalte preto descascando um pouco nas pontas das unhas. Viu que a cor rosada forte dos lábios dela era natural, e que ela não usava batom. Ela era realmente linda. 

-Aquele menino que você beijou. É seu namorado?

Ela olhou-o divertida, antes de cair na gargalhada:

-Não! O que o fez pensar que fosse?

-Bem, o óbvio: vocês se beijaram!

-Um beijo não quer dizer nada. E que palavra mais antiga essa: “namorado!”

Ele riu, confuso:

-Então... do que devo chamar duas pessoas que se gostam e estão juntas?

-De nada! Por que você quer dar nomes a tudo? As pessoas apenas são! Por que rotulá-las? 
Marvin pensou que ela era uma garota estranha. Resolveu investir mais fundo na conversa:

-Qual é o seu segredo?

Ela respondeu quase que imediatamente:

-Eu não tenho segredos.

-Você parece estar na defensiva.

Ela ficou olhando para o chão por um longo tempo, antes de responder. Finalmente, concordou com a cabeça:

-É verdade. Mas se eu te contar, não será mais segredo. 

Olhou-o nos olhos, sorrindo, e o sorriso dela pareceu a Marvin a própria luz do sol. Adorou os dentes brancos de Jane, e o charme que os caninos ligeiramente maiores que os demais dentes lhe davam. 

Ela suspirou antes de dizer:

-Vou te contar o meu segredo, porque eu gostei de você, e não quero que fique chateado comigo se descobrir por outra pessoa. 

Ele a olhou nos olhos, esperando.

-Eu fui menino. Até os sete anos de idade. 

Marvin sentiu a própria boca se entreabrir, e a cor fugiu de seu rosto. Ele realmente não estava pronto para aquela revelação. Ela estudou a reação dele, e erguendo uma mão, completou:

-Deixe eu explicar: eu tinha os dois sexos. Nasci uma menina que tinha um pênis e os sacos escrotais. E todo o aparelho reprodutor feminino. Mas eu sempre me senti menina. Minha mãe me deu o nome do meu avô: Jaime.

Marvin não sabia o que dizer, e confessou aquilo a ela. Jane continuou sua história:

- Os médicos disseram aos meus pais, quando nasci, que eu poderia optar. Eles esperaram até que eu crescesse. Estudaram minhas reações. Viram que eu preferia bonecas e vestidos, e gostava de maquiagem. Um dia, eles me perguntaram se eu queria ser menino ou menina. Mostraram-me algumas fotos – até então eu não tinha ideia de que eu era diferente das outras crianças. O médico me esclareceu as dúvidas. Disse que eu poderia escolher ser o que eu quisesse, e que se escolhesse ser menino, tomaria alguns remédios que me ajudariam, e em ambos os casos, teria que passar por uma cirurgia, mas teria que esperar mais um pouco. Mas eu não tive dúvidas: eu sempre me senti menina. 

-E aí você fez ... uma operação?

Ela concordou com a cabeça. 

-Removeram meus órgãos masculinos. Hoje, se você olhar, nem notará a diferença, ou quase... há algumas poucas cicatrizes, mas os pelos pubianos as escondem. 

-E você é... menina de verdade, quero dizer, pode ter filhos se quiser?

-Claro. Como qualquer mulher. Pelo menos, acho que sim, porque eu tenho o aparelho completo. 

-E você jamais se arrependeu da sua escolha?

-Até agora, não. 

Marvin ficou pensando no que ela queria dizer com “Até agora,” mas não disse nada. Ao invés disso, perguntou;

-E por que você beijou aquele cara? Eu tive uma forte impressão de que ele está a fim de você.

Ela ergueu as sobrancelhas:

-Impossível.

-Por que? 

- Porque seria mais provável que ele se interessasse por você. Juninho é gay. 

Ele engoliu em seco. Nunca tinha estado diante de uma situação como aquela. 
Naquele instante, o sinal para entrarem tocou, salvando-o de dizer qualquer coisa. 
Marvin nunca sentira preconceito de qualquer tipo, mas estar interessado em uma garota que foi menino até os sete anos, deixou-o um tanto confuso. Ao mesmo tempo, não conseguia tirar os olhos de Jane. Ela era linda demais! Havia tantas coisas que gostaria de perguntar a ela... será que já tinha ficado com outros meninos? Será que ela se interessava por meninas? Ele rezava para que ela se interessasse por ele. Ao mesmo tempo, dizia que não. Como contaria aquela história para seus pais e avós? Eles entenderiam? 
E eles precisavam mesmo saber?

Ao final das aulas, Jane pegou seus livros e saiu correndo, e Marvin sentiu-se frustrado por ela não tê-lo esperado. Tomou o ônibus para casa, e ao chegar, fechou-se em seu quarto a fim de pensar melhor nos acontecimentos daquele dia. 
Disse aos pais, mais tarde no jantar, que tinha gostado da escola, e viu os dois suspirarem de alívio. Atendeu a um telefonema da vó Helena, e assegurou-lhe que a escola era ótima, e que ele estava bem. 

Marvin ficava mais fascinado por Jane a cada dia que passava. Tudo o que fazia, tudo o que vestia, ele pensava na aprovação dela. Toda manhã, antes de sair de casa, ele se olhava no espelho e se perguntava se Jane aprovaria o que ele estava vestindo. Sua imaginação não tinha limites quando ele pensava na possibilidade de que ela um dia fosse sua namorada – ou qualquer coisa parecida, já que ela não gostava de rótulos. As ideias dela eram diferentes das ideias de todas as meninas que conhecera até então, e ela o deixava intrigado, curioso e entusiasmado por coisas que ele nunca tinha prestado atenção antes. 

Jane tinha um irmão chamado Max – Max Sol, dois anos mais velho que ela, e ele estudava na mesma escola. Quando Marvin foi apresentado a ele, Max tratou-o como se ele fosse uma criança, sem demonstrar qualquer interesse especial em conhece-lo melhor. Jane apresentou-os na hora do recreio. Max era mais alto do que os rapazes de 18 anos que Marvin conhecia. Também tinha cabelos muito loiros, como a irmã, e olhos claros e brilhantes sob sobrancelhas grossas e arqueadas. Parecia uma cópia da irmã na versão masculina. Max apertou a mão estendida de Marvin por alguns segundos, e depois, dirigindo-se a Jane, disse que precisava ir, e saiu sem despedir-se de Marvin, que ficou um pouco sem graça, mas Jane agiu como se não tivesse percebido. Marvin logo pensou: “Playboyzinho de merda.” Mas depois censurou-se por rotular Max.

Os amigos de Jane estavam se tornando seus amigos também. Ela vivia em um universo que girava em volta dela, e sem perceber, Marvin estava se tornando um de seus satélites. Juninho sempre levava coisas que achava que Jane fosse gostar de ver, como revistas de moda e novas tendências de maquiagem.  Os outros meninos pareciam ser todos meio-apaixonados por ela, e Marvin logo percebeu que as meninas da escola a viam como um exemplo a ser seguido. Algumas inclusive tentavam copiar as roupas e maquiagens de Jane.

Para tristeza de Gabi, um mês após mudar de escola, o que ela tinha previsto estava acontecendo: Marvin afastava-se cada vez mais dos velhos amigos, e só queria passar tempo com os amigos recentes. 

Nas aulas de história, o professor Fernando, preferido da maioria, tratava os alunos como se eles fossem apenas bons amigos. Indicava algumas leituras de textos selecionados que eles discutiam em classe, e Marvin ficava sempre impressionado do quanto Jane e seus amigos conheciam sobre figuras as quais ele jamais dera muita importância, como Marx e Che Guevara. Também ele começou a estudá-las com afinco e entrar nas discussões, ganhando muitos elogios do seu professor. 

Em casa, Caio e Rafaela voltaram à sua antiga rotina, pois assistindo ao aparente progresso social e 
acadêmico do filho, achavam-se tranquilos. Logo estavam trabalhando tão arduamente quanto antes. Caio esquecia-se da hora no escritório, enquanto fazia reuniões que adentravam a madrugada, e Rafaela saía do trabalho e trancava-se em casa, no escritório, a fim de terminar alguns projetos. Melissa levava sua vidinha de ir à escola, sair com os amigos e estudar arduamente para as provas, o que fazia dela uma aluna brilhante, mas ela se ressentia de nunca ser parabenizada ou reconhecida por isso. Seu relacionamento com o irmão, que já não era tão profundo, tornava-se cada vez mais superficial, depois que ele parou de sair com ela, Gabi e Luis. 


(continua...)





quarta-feira, 1 de novembro de 2017

AMOR E REVOLTA – CAPÍTULO III






Estar com os amigos trouxe de volta uma certa leveza a Marvin. Eles assistiram a uma comédia, e depois foram a um fast food. Depois, caminhavam pela rua tomando suas casquinhas de baunilha; Gabi ao lado de Marvin. 

Luis e Melissa se afastaram um pouco, pois ficaram olhando um computador em uma vitrine, e os dois se sentaram em um banco de praça para esperar por eles. Gabi mantinha os olhos fixos em Marvin. Sempre fora apaixonada por ele, mas não achava bom misturar namoro com amizade, e já que eram amigos desde sempre, disfarçava muito bem os seus sentimentos. Ela sobrevivera a algumas namoradas de Marvin, e também tivera alguns relacionamentos de uma semana, mas nada mais sério. O tempo todo, quando um garoto a beijava, ela fechava os olhos e pensava em Marvin. Mas disfarçava tão bem, que nem mesmo Melissa percebia. 

A maioria de suas amigas não era mais virgem, mas ela não conseguira ainda encontrar alguém que estivesse à sua altura, como Marvin. Sonhava em perder sua virgindade com ele. 
Olhando para ele tão perto dela, há apenas alguns centímetros de um toque de mão, Gabi se lembrava de que ele quase tinha morrido. Se Rafaela tivesse chegado mais alguns instantes depois, ele não estaria ali. Aquele pensamento a apavorava: um mundo sem Marvin dentro dele. Perguntou:

-Como foi?

Ele olhou para ela confuso:

-Hein?

-No hospital... como foi?

Ela viu o maxilar dele tremer, e arrependeu-se de perguntar. Mas Marvin foi muito doce ao responder:

-Você é a primeira pessoa que me pergunta isso assim, diretamente. Todo mundo só fica me olhando, andando em volta de mim e tomando cuidado como se eu fosse de vidro... obrigado pelo interesse, Gabi. Bem, mas foi... surreal. Um conselho: não tente fazer isso.

-Não vou. Sabe, eu fiquei muito preocupada, e um pouco magoadinha porque você não nos deixou vê-lo. 

Na verdade, ela passara dias e dias chorando por causa dele; primeiro, de medo, e depois, sentindo-se rejeitada. 

-Desculpe... é que eu estava muito confuso também. Me sentindo fraco. Não gosto que olhem para mim quando estou assim. Mas eu vou te confessar uma coisa que só a mamãe e o papai sabem. E a Melissa, é claro. Pedi a eles que não contassem a ninguém. Mas pra você eu vou contar:

Ela arregalou os olhos ao perguntar:

-E o que é?

-Eu não queria morrer de verdade... foi tudo... uma simulação. Só que acabou saindo do controle. Eu só queria chamar a atenção dos meus pais. Usei éter para limpar a lâmina, inclusive, pois não queria pegar uma infecção no corte. Também cheirei um pouco para criar coragem. Mas acho que cheirei demais, perdi a noção e afundei a faca mais do que deveria, e depois... eu apaguei.

Ela abriu a boca, surpresa e ao mesmo tempo zangada e aliviada:

-Não posso acreditar! Seu moleque mimado filho-da-mãe! Eu não sei se te odeio ou se eu...

Ela parou de falar, e deixou a frase não dita suspensa entre eles. Ficou zangada por Marvin ter agido de forma tão imatura e inconsequente. Ao mesmo tempo, tirou um peso dos ombros ao saber que ele não quisera morrer de verdade. Porque ela não queria mais ficar tantos dias chorando escondido por causa dele. 

Para disfarçar o que quase dissera, ela deu um soco no braço dele, que levou a mão ao local e deu um gritinho. Os dois voltaram a se dedicar exclusivamente aos sorvetes, e enquanto Gabi via Luis e Melissa caminhando na direção deles, pensou no quanto o mundo ficara mais bonito de repente. Se um dia Marvin seria seu namorado, ela não sabia. Mas mesmo que nunca fosse, era bem melhor saber que ele estava vivo, e que era seu amigo. Seu melhor amigo.

Gabi sentia vontade de beijá-lo. E antes que Luis e Melissa chegassem mais perto, foi o que ela fez: inclinou-se e beijou o rosto dele. Foi um beijo um pouco demorado. Ela deixou que seus lábios gelados por causa do sorvete pousassem na bochecha dele, bem perto da boca, por mais tempo que o necessário. Na verdade, depois que ela colou os lábios no rosto dele, teve vontade de nunca mais sair. Sentiu o cheiro da colônia que ela sabia que ele sempre pegava emprestada do pai. O cheiro era familiar e confortável. 

Marvin ficou surpreso, e sentiu o coração dar um pequeno salto, mas também teve um sentimento de estranheza, pois para ele, Gabi era como uma irmã. Sentia-se a respeito dela da mesma maneira que se sentia a respeito de Melissa. Ou quase... nunca tinha pensado naquilo antes, até aquela noite. Ele a olhou e viu uma outra menina, diferente da menina a qual ele estava tão acostumado, a sua amiga de infância. A sua Gabi. Mas logo o espaço dos dois foi invadido pelas risadas de Melissa e Luis, e a conversa tomou um outro rumo. 

No primeiro dia de aula na nova escola, uma segunda-feira chuvosa, Rafaela parou o carro em frente à luxuosa entrada. Marvin, que não tinha ido conhecer o local antes, deixou seu queixo cair, surpreso pela beleza do local. Reparou nas hortênsias rosadas plantadas junto ao portão, e no brilho do asfalto negro que conduzia à entrada, que ele percorreria à pé. Leu o letreiro sobre o portão: “Escola da Luz.” Também reparou nos outros alunos que chegavam, a maioria usando fones de ouvido, os capuzes erguidos devido à chuva fina, caminhando lentamente em direção à escola. Ele respirou fundo, e olhou a mãe, sentindo um arrepio incômodo na base da espinha:

-É isso, então... lá vou eu, acho.

Rafaela sorriu:

-Está tudo bem? Quer que eu entre com você?

Ele revirou os olhos:

-Mãe, pelo amor de Deus! Eu não tenho cinco anos. Não me faça pagar esse mico. Vou indo, tchau!
Sem esperar por uma resposta, ele abriu a porta do carro de repente e saiu. Rafaela observou-o durante algum tempo, enquanto ele misturava-se aos outros adolescentes, e sumia na curva do caminho. Foi trabalhar, sentindo-se ansiosa. Parecia que era ela a nova aluna em uma escola estranha bem no final do segundo semestre. 

A caminho da escola, acompanhada do pai, Melissa pensava no irmão. Achou estranho, e não queria admitir para si mesma, que estava sentindo falta dele, e que dali em diante, seria assim: ambos em escolas diferentes. Ela temia que em breve, ele estaria entrosado com seus novos amigos, e se esqueceria dos outros amigos da antiga escola. Luis tinha dito aquilo a ela na noite em que tinham ido juntos ao cinema. Ela ainda se lembra do ar melancólico que ele tinha ao dizer: “Marvin? Agora ele está em outra. Acho que não vai mais querer passar tanto tempo com a gente.” Ela retrucou o que ele disse, afirmando que eram amigos de infância e que uma amizade daquelas não acabaria assim, mas 

Luis apenas encolheu os ombros, mudando de assunto. 

Na escola, Gabi esperava por Melissa, e sentiu um nó apertado na garganta quando não viu Marvin. Torcia para que ele odiasse a nova escola e quisesse voltar para a antiga, mas sabia que aquilo não ia acontecer. Lembrou-se de quando Melissa e Marvin anunciaram que estavam para mudar de escola, há dois anos, e do quanto fora difícil para ela convencer seus pais a mudá-la junto com eles. O mesmo se dera com Luis. Eles queriam ficar juntos. Se conheciam desde sempre, eram amigos, mais que amigos até, quase irmãos, e o que ela sentia (ela bem sabia) não ia diminuir com a distância. Mas e quanto a Marvin? Se esqueceria dela? Se esqueceria deles e dos demais amigos que fizeram na escola naqueles dois anos? Mudar novamente de escola estava fora de cogitação, ainda mais sendo a Escola da Luz tão cara (ela havia pesquisado). Gabi temia perder Marvin. Teria que fazer um esforço enorme para que aquilo jamais acontecesse.

Na nova escola, Marvin dirigiu-se ao único lugar vazio – a primeira carteira na terceira fileira junto à janela, à direita da mesa do professor. Nunca gostara de sentar-se na frente, mas era o único lugar disponível. Sentia-se um tanto nervoso, pois sabia que estava sendo observado e julgado pelos alunos mais antigos, e que a impressão que deixaria com eles naquele primeiro dia, era a que ficaria. Tentou ser sociável, dirigindo-se a alguns deles e fazendo perguntas sobre a escola, e eles foram simpáticos e acessíveis. 

De repente, notou uma menina que estava acabando de entrar na sala. O professor entrou logo depois dela. A menina era loira, de longos cabelos levemente ondulados que caíam até a cintura. Alta e magra, a pele branca feito porcelana, olhos azul escuros e lábios naturalmente vermelhos. Ela lançou-lhe um olhar ao passar por ele, e Marvin sentiu que seu coração parou por alguns segundos quando seus olhos se cruzaram. Ela sorriu de leve e encaminhou-se para a parte de trás da sala, sentando-se ao lado de um rapaz de cabelos pretos e escorridos até os ombros, como os de um índio. Marvin viu quando ele tirou a mochila da cadeira para que ela se sentasse, e percebeu que ele estivera guardando o lugar para ela. Ambos se cumprimentaram com um beijo rápido nos lábios, e ficaram cochichando por algum tempo. A menina lançou-lhe um outro olhar furtivo, e Marvin virou-se para frente, parando de olhá-los quando o professor começou a falar. Estava sem fôlego, pois nunca tinha visto uma menina tão bonita. Lamentou que ela tivesse namorado, porém. 

O professor apresentou-se a Marvin, antes de começar a aula. Encaminhou-se até onde ele estava sentado, estendendo a mão: 

-Olá! Você é o Marvin, não é? Sou o professor de história. Meu nome é Fernando.

Os dois apertaram a mão rapidamente. À essa altura, os outros alunos estavam começando a ficar em silêncio, e passaram a observá-los, o que fez Marvin corar. Mas ele ergueu a cabeça e olhou em volta, sorrindo. Fernando apresentou-o à turma:

-Pessoal, este é o Marvin. Ele veio juntar-se  a nós. 

Marvin ouviu alguém perguntar, mas não viu quem:

-Mas por que ele está começando agora, no final do ano?

Fernando olhou para Marvin, e a turma toda estava em silêncio profundo naquele momento:
-Gostaria de responde seu colega, Marvin?

Marvin hesitou um pouco, mas sentiu que era muito importante se enturmar o mais rapidamente possível, e que recusar-se a responder, além de ser uma atitude antipática, causaria ainda mais curiosidade nos outros alunos. Olhou para trás, e viu a menina de olhos fixos nele. Ela assentiu com a cabeça de leve, como se estivesse dando força para que ele falasse. Marvin pigarreou:

-Eu não estava adaptado na minha outra escola. Pressão demais. 

Uma outra voz veio do fundo da sala, desta vez, uma menina ruiva:

-E por que não esperou até o final do ano letivo?

Marvin olhou para o professor como se pedisse socorro, mas este apenas permaneceu fitando-o com a expressão mais serena do mundo. Marvin não teve outra saída, senão responder. Pensou que deveria ter ensaiado alguma resposta para aquele momento, mas na verdade, ele nem sequer pensara que aquele tipo de pergunta poderia surgir. Abriu a boca, e o que disse em seguida, simplesmente saiu sem querer:

-Eu tentei me matar.

Imediatamente, murmúrios percorreram a sala de aula. Fernando colocou a mão no ombro de Marvin, dizendo:

-Muito corajoso por nos dizer a verdade, Marvin. (E virando-se para o restante dos alunos:) - Mais alguma pergunta, turma?

Silêncio. Marvin suspirou aliviado, sentindo o rosto arder: que coisa mais idiota para se dizer! Ele queria que o chão abrisse e o engolisse. Pelo menos, não teria que responder mais nenhuma pergunta. Até que uma voz doce e musical veio do fundo da sala. Ele olhou para trás: era a menina.

-Por que? 

Ela fincou os olhos nele, e Marvin sentiu-se invadido. A pressão estava sendo maior do que ele esperava. Os demais alunos também o olhavam fixamente, e o professor não o salvaria. Ele gaguejou:

-Eu... é que... bem... na verdade, eu não sei. Acho que estava cansado, me sentindo muito pressionado pelas exigências da escola. E dos meus pais, talvez. Eu... 

Sem saber mais o que dizer, ele se calou, olhando para as próprias mãos que estavam cruzadas sobre a carteira. Olhou para trás, bem direto nos olhos dela, e disse, com a voz mais firme que conseguiu:

-Vocês se importariam de nunca mais tocar neste assunto?

A menina concordou com a cabeça. Os outros alunos começaram a abrir seus livros, e Fernando finalmente começou a aula. Marvin ficou achando que tinha arrasado com todas as suas possibilidades de fazer amigos ali. Quem ia querer ser amigo de um cara tão estranho e covarde? De onde diabos surgiu aquela ideia de dizer aquilo assim, em plena sala de aula, na frente de todo mundo?

(continua...)




AMOR E REVOLTA - CAPÍTULO VIII

-Nós não pudemos deixar de escutar vocês gritando, meninos! – Disse Sunny, em tom conciliatório.  Mas de repente, Jane ...