sexta-feira, 5 de março de 2021

EU (NÃO) CONFESSO - CONTO CURTO

 





Quando entrei pela primeira vez na sala de espera do psicólogo, a primeira coisa que me chamou a atenção foi um pequeno jardim-zen em frente à porta. Era realmente pequeno, daqueles jardins feitos de areia com um ancinho não maior que meu dedo indicador para que a gente forme com ele alguns padrões (dizem que ajuda a relaxar). Brinquei um pouco com ele enquanto esperava.

Minutos depois, ele abriu a porta, eu entrei e me instalei em frente a ele, em uma poltrona. Silêncio. Comecei a indagar a mim mesma o motivo de eu estar ali, pagando uma fortuna por hora, para que aquele perfeito estranho me olhasse por cima dos óculos com cara de “Eu-sei-mais -sobre-você-do-que-você-imagina.”

Eu sorri, e ele me sorriu de volta, discretamente.

Não sei se ele era mágico ou coisa assim, mas de repente tive um insight sobre mim mesma que me fez ver claramente que ele jamais poderia me ajudar em nada; não era falando com ele que eu me descobriria, mas olhando para mim mesma e para tudo do qual eu me cercara durante toda a minha vida: objetos, pessoas, lembranças. Para me conhecer de verdade, eu teria que responder sinceramente a algumas perguntas práticas: sou feliz? Desejo mudar? O que eu quero? Naquele momento, eu só queria ir embora.

Respirei fundo, peguei minha bolsa e me despedi dele. Aproveitei para passar na loja esotérica e comprar para mim um jardim zen.






quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

O DIA EM QUE A LUA ENGOLIU O MUNDO

 


 Era uma noite de luar enorme – enorme o luar, não a noite. Acho que era lua azul. Deitada no gramado, eu utilizava algumas estrelas para jogar caxangá no veludo azul-marinho do céu. De repente, eu percebi, com o canto do olho, que a grande abóbada se moveu um pouquinho. Achei que talvez tivesse sido uma ilusão de ótica, e continuei a brincar com as estrelas, distraída. 

Mas o fenômeno se repetiu, daquela vez, mais nitidamente. E então eu vi a lua abrir sua grande boca e respirar fundo. Algumas árvores que estavam por perto começaram a se agitar, como se tivessem sido balançadas por uma ventania forte, mas não havia vento. Notei que os grilos e corujas tinham parado de cantar. Vi quando o telhado de uma casa se desprendeu com um som de coisa quebrando, seguido por outro e outro. Logo, havia dezenas de telhados sendo sugados diretamente para dentro da boca do luar.

Apavorada, sentei-me e olhei em volta. Vi que pessoas passavam voando por mim, subindo aos céus, agitando braços e pernas no ar numa tentativa inútil de se agarrarem a alguma coisa. Seus olhos esbugalhados me olhavam, suas bocas abertas gritavam por ajuda, mas eu nada podia fazer. 

Naquela noite, a lua estava engolindo o mundo. E ela tinha fome. A rua foi ficando deserta, e me perguntei se o mesmo estaria acontecendo no resto do mundo, mas eu jamais poderia saber, já que as antenas de TV e as conexões de internet também se desprendiam e entravam na boca da lua, que sugava com força. Logo o sino de bronze da catedral passou por mim, subindo e desaparecendo entre fortes badaladas para dentro da boca da lua. 

E então eu despertei para descobrir que eu não tinha mais um corpo e que não tinha sido um sonho. Nem mesmo uma ilusão de ótica. A humanidade tinha sido finalmente varrida da face do planeta. Era um castigo pela nossa ilusão de ética.





terça-feira, 22 de dezembro de 2020

NINGUÉM VOLTA TOTALMENTE - CONTO CURTO

 

 


 

Dizem que ninguém volta com todas as partes que tinha quando se foi. E também que quem volta, traz consigo outras partes agregadas pelo caminho. Assim pensava Suzanna enquanto olhava a paisagem que passava rapidamente pela janela do trem. Ela imaginava o que teria mudado durante todos aqueles anos durante os quais vivera fora de sua cidadezinha natal, depois da morte dos pais. Pensava se a casa fechada teria resistido ao abandono – casa é igual a gente, também morre de tristeza e solidão.


Seu tio Raul prometera tomar conta de tudo para ela enquanto ela estudava na cidade grande para tornar-se advogada. Mas mesmo com todos os cuidados, a casa era antiga: resistira?


Finalmente, depois de pegar a chave com o tio, Suzanna parou em frente à porta da casa. Tinha quase certeza de que ela estava feliz em revê-la. Quanto a Suzanna, tinha medo do que aconteceria quando a casa descobrisse que estava ali para despedir-se: iria vende-la. Naquela tarde, ela sentou-se no alpendre, xícara de café na mão, olhando a chuva cair e lembrando de muitas outras tardes como aquela, quando ela sentia que cabia perfeitamente naquela casa.


Aos poucos, sentia que a casa também se despedia dela; afinal, tornara-se uma estranha. Já não via magia naqueles cômodos, só saudades e tristeza. As partes que trouxera não cabiam entre aquelas paredes, e as partes que deixara para trás tinham se perdido para sempre.


Suzanna levantou-se do alpendre e preparou-se para sua última noite naquela casa e naquela cidade. Lá fora ainda chovia. Em alguma parte dentro dela, choveria sempre. Na parede do quarto, em uma fotografia amarelada, alguém zelava pelo seu sono.





quarta-feira, 23 de setembro de 2020

O DIA QUE MUDOU MINHA VIDA - FINAL


 



Parte 11


O contrato da casinha alugada venceu, e eu não quis mais renová-lo. Achei que nada havia para mim naquela pequena cidade, onde não conheci ninguém, nem mesmo a mim mesma. Coloquei minhas poucas roupas na mala do meu carro velho e fui embora dali, sem destino, deixando o espelho para trás. Comecei a dirigir, apenas seguindo adiante. Dirigi durante um dia e uma noite inteiros, cruzando rodovias e mais rodovias, sem parar para descansar ou comer. Tinha uma garrafa de água comigo, e quando sentia vontade de ir ao banheiro, eu parava no acostamento e me aliviava atrás do carro. 

Ainda tinha bastante dinheiro, mas um dia ele acabaria. Quanto tempo mais ele duraria? Um bom tempo, se eu continuasse a economizar bastante, pensei. 

Foi quando eu resolvi morar no carro. Afinal, para que eu precisava de uma casa, de quatro paredes em volta de mim? Assim, eu dirigia durante os dias e dormia no acostamento ou em qualquer lugar de qualquer cidade durante a noite. Raramente tomava um banho ou trocava de roupa. Parecia uma mendiga e nem me importava. Sequer sabia o nome das cidades onde eu parava. 

Eu era alguma coisa solta no mundo, sem peso, sem consistência, que um dia acabaria desaparecendo sem deixar qualquer vestígio. Por isso, não precisava de um endereço. 

Um dia, parei para descansar junto a uma praia. Encostei no carro e fiquei observando as poucas pessoas por ali, que se divertiam na areia – era uma tarde de terça-feira. Eu olhava as crianças e as pessoas sorrindo e se divertindo, e pensava que logo elas iriam para suas casas, para suas famílias, jantares, escolas, empregos e vidas. Talvez assistissem às notícias na TV, ou lavassem suas roupas. As meninas pintariam as unhas e os meninos sonhariam com os lindos corpos femininos que tinham visto na praia. Eu não tinha nada: nem uma vida sequer, nenhum lugar para onde voltar, ninguém que se importasse comigo. 

  Vi quando uma mulher se aproximava. Ela usava uma saia rodada verde-folha, cheia de camadas de babados, e uma blusa florida que parecia conter todas as cores do planeta em sua estampa. Os cabelos longos e cheios estavam presos em um rabo de cavalo que chegava até a cintura. Ela usava argolas grandes nas orelhas e muitas pulseiras, anéis e colares baratos. Aparentava ter algo entre quarenta e cinquenta anos, mas ainda guardava uma beleza da sua juventude e tinha um certo ar altivo. 

Fiquei olhando para ela, que parou na minha frente com a mão na cintura. Carregava uma sacola vermelha de veludo. A cigana  me encarou e disse:

- Futuro?

Neguei com a cabeça, rindo levemente e desviando os olhos para a praia. Que futuro? Ela só poderia estar brincando.  Eu sequer tinha um presente. Ela insistiu, após me olhar longamente:

-Eu posso ler o seu futuro de graça. Você parece estar precisando.

Olhei para ela de soslaio, tentando demonstrar minha impaciência:

-Escuta, moça, eu não acredito nessas coisas.

-Em leitura de sorte?

-Não: em futuro.

Ela concordou com a cabeça, e após um tempo no qual ela passou me olhando, como se estivesse procurando por alguma coisa, disse:

-Tudo bem, mas me deixe dizer apenas uma coisa ou essa moça não vai me deixar em paz! Se eu não disser o que ela quer, vai ficar me seguindo, entende?

Olhei para ela, engolindo em seco:

-Que moça? Do que você está falando?

-Essa moça loira e bonita, dos olhos azuis, que usa uma pedra azul no anel.

Meu coração acelerou, e eu tentei falar, mas minha voz não saiu. A cigana continuou:

-Você a carrega durante muitos anos ao seu lado, dentro de você. É ela que você vê quando fecha os olhos... ela não consegue ter paz, e nem você. 

-Eu desencostei do carro, olhando para ela:

-Do que você está falando? Eu... eu...

-Essa moça que você arrasta é sua prisioneira, e você é prisioneira dela. Mas ela me mandou dizer uma coisa: não foi você. Ia acontecer de qualquer jeito. Ela pede desculpas, implicava muito com você quando eram crianças. Mas ela gostava de provocar, era só brincadeira. Era o jeito dela. E ela... ela... 

A mulher arregalou os olhos. 

Eu sabia que ela estava enxergando o que eu fizera. Ao pensar aquilo, ela segurou minha mão, prendendo-a entre as suas:

-Não, não foi você! Ela o faria de qualquer jeito. A moça loira ia se matar naquele dia. Você apenas a interrompeu e depois, sem querer, acabou ajudando-a naquilo que ela queria fazer. Ela se sentia muito solitária, era infeliz por causa dos pais sempre ausentes e porque era frustrada no amor. Ela carregava um vazio enorme que já vinha de outras vidas, e o vazio que você sente hoje, é dela. Era assim que ela se sentia. Ela quer que você a liberte e se liberte também. Ela pede a você que a deixe ir. 

Dizendo aquilo, a cigana soprou sobre o meu rosto e eu fechei os olhos, enquanto ela continuava a segurar a minha mão. 

Eu me vi em um longo túnel escuro, iluminado apenas por tochas esporádicas que se apagavam quando eu passava. Eu ia seguindo em frente, me embrenhando cada vez mais, e quando eu parava e olhava para trás, havia apenas escuridão, negra, densa e aveludada. Eu sabia exatamente o que eu encontraria no final daquele túnel, depois de todas aquelas curvas.

E eu a vi agachada no chão em uma clareira no fim daquele túnel, em um canto, os braços em volta dos joelhos. Usava a mesma camiseta roxa rendada daquele dia fatídico. As pernas nuas e brancas traziam marcas arroxeadas, e ela chorava baixinho. Mesmo com medo, eu me aproximei dela devagar. Eu via cada detalhe: o cabelo loiro empapado de sangue, a pedra do anel brilhando e cintilando à luz da tocha, os pés descalços, o pulso qujeb rado em um ângulo estranho. Chamei-a baixinho, talvez com medo que eu mesma despertasse:

-Betina...

Ela parou de chorar e ergueu a cabeça na minha direção. Reparei nas olheiras roxas e nas lágrimas escuras e escorridas pelo rímel. Era ela, a mesma Betina que eu conhecera há anos, mas sem a mesma vitalidade de antes. Ela parecia fraca e esgotada, e visivelmente, ela sofria uma dor que era tanto física quanto mental e anímica. Ela esticou um braço na minha direção, sorrindo, e eu a segurei pela mão. Estava muito gelada. Ela se levantou com a minha ajuda. Senti a respiração gelada dela no meu rosto. Eu comecei a chorar:

-Me perdoe, por favor, me perdoe!

Ela ergueu meu queixo com seus dedos magros e gelados. Olhei dentro dos olhos dela e pela primeira vez, deparei com meu próprio vazio, aquele que eu não conseguira enxergar no espelho. Ela murmurou, lendo meus pensamentos:

-Você sentia aquele vazio e não conseguia lidar com ele porque ele não era seu; era meu o tempo todo! Por isso você não conseguia livrar-se dele. Mas eu preciso que você me deixe ir.

-Mas... o que eu preciso fazer, Betina?

Ela soltou meu queixo, deixando os braços ao longo do corpo. Quase sorriu:

-É só me esquecer e continuar vivendo. Eu preciso que você faça isso.

-Mas... eu... eu a matei!

-Não, você não me matou. Acha mesmo que uma menina de treze anos teria forças para me derrubar? Eu era bem maior do que você. Eu me joguei. Sabia exatamente onde iria cair. 

-Mas... você tentava segurar-se!

-Porque eu me arrependi no último segundo. Mas era tarde. A quantidade de drogas que eu havia tomado teria me matado, de qualquer maneira. Só tive medo. E desde aquele dia, eu tenho estado presa aqui, dentro de você. Esta tem sido a minha punição. 

Conforme ela falava, todo o vazio e tristeza que eu carregava saiam para fora de mim no formato de uma longa cauda acinzentada, e eu me sentia cada vez mais leve e tranquila. Desde os meus treze anos, eu me esquecera completamente o que significava me sentir leve e tranquila, feliz e dona de mim. A terrível sombra que ficava sempre entre mim e as outras pessoas estava se desfazendo: a sombra da culpa e da vergonha, o peso de um segredo obscuro e equivocado. 

Ela começou a ficar cada vez mais transparente. Eu conseguia ver a parede do túnel através dela. Ela sentiu aquilo, e sorriu, pela primeira vez, parecendo aliviada:

-Está acontecendo!... Eu estou... eu... 

E então ela desapareceu. No mesmo instante, me senti sendo rapidamente sugada para fora daquele túnel e abri os olhos. A cigana me olhava, tranquila. Sem dizer nada, ela acenou com a cabeça e segui seu caminho sem olhar para trás.

E foi naquele dia que o mar ficou mais azul, e eu pude escutar o canto dos pássaros outra vez; naquele mesmo dia em que eu pude me libertar de uma culpa que não era minha, perdoando a mim mesma e à Betina, desvencilhando-me dos laços apodrecidos do passado. 



FIM













 





segunda-feira, 21 de setembro de 2020

O DIA QUE MUDOU MINHA VIDA - parte 10


 PARTE 10

Na manhã seguinte, fui à delegacia de polícia e contei a minha história. Eu buscava por algum tipo de punição, alguma coisa que fosse me redimir do meu pecado. Minhas imãs tinham razão: acidentalmente ou não, eu tinha matado Betina. Eu também carregava a culpa de ter – mesmo que em segredo- culpado Breno pela morte dela durante todos aqueles anos. Desculpei-me com ele, mas ele apenas me olhou de uma forma estranha, um mito de pena e medo, e disse que estava tudo bem, mas que eu precisava buscar ajuda.

O delegado, um senhor de meia-idade, me recebeu em sua sala sem muitas delongas, pois notou o quanto eu estava oprimida e me deu toda a atenção que eu precisava. Quando terminei meu relato, ele finalmente disse: 

-Eu me lembro desse caso. Eu era bem jovem naquela época, acompanhei pelos jornais. 

Ele me estendeu um lenço de papel, pois eu chorava muito. Assoei meu nariz e olhei para ele, que me observou longamente antes de dizer:

-Moça, vá para casa. Esse caso foi há muitos anos, e você era só uma criança, não poderia ser responsabilizada pelo que fez. Ainda mais, tinha problemas... emocionais. Imagino o quanto foi difícil para você, martirizar-se durante todos esses anos... de qualquer forma, se fosse necessário ser punida, tenho certeza de que você já foi. 

Notei que ele quase dissera ‘problemas mentais’ ao referir-se a mim. Mas não me importei. Ele continuou:

-Vá para casa, siga com a sua vida e não pense mais nisso. Essa moça tinha uma boa dose de cocaína no sangue, e provavelmente, teria mesmo morrido de overdose se você não tivesse...  enfim, se achar necessário, procure ajuda de um psicólogo, ou talvez de um psiquiatra... se fosse a minha filha, com todos os problemas que você tem, eu teria feito o mesmo que a sua mãe fez. Bem, é isso.

É isso, pensei. 

É isso, concluí.

Liguei para minha mãe. Ela atendeu, e eu repeti:

-É isso, mãe. 


Paola ficou muito tempo sem falar comigo, não por estar zangada, mas por não conseguir me olhar nos olhos. Percebi que deixaram de me convidar, até mesmo para o aniversário de minha mãe e de meus sobrinhos. Minhas irmãs não mais me queriam na vida delas. Percebi que na verdade, eu nunca fora bem-vinda. 

Só voltamos a nos falar durante o funeral de nossa mãe, que ocorreu dois anos e meio após o evento em que eu encarei a minha verdade. Em ocasião da morte de mamãe, de um ataque cardíaco súbito, nós dissemos apenas o essencial – tratamos dos preparatórios para o funeral e de qual advogado contratar para cuidar da herança, por exemplo. Após o funeral, despedi-me delas e voltei ao meu apartamento cinzento e ainda cheio de caixas.

Eu estava cansada daquela vida. Aos trinta e três anos, tinha um emprego que odiava, morava em um lugar que odiava, não tinha nenhum relacionamento afetivo, fosse familiar, amoroso ou de amizade. Nas duas escolas onde eu trabalhava, os demais professores mal falavam comigo e os alunos me detestavam, e eu sei muito bem que era devido à minha própria atitude, sempre isolada e taciturna. E eu era assim porque talvez  a existência deles me fosse totalmente indiferente. Nas festas de aniversário e comemorações de formatura e final de ano, eu geralmente não participava, a não ser que fosse intimada pela direção das escolas. Nem sei por que me mantinham no emprego.

E após a morte de mamãe eu fiz de tudo para ser demitida – e consegui. Após receber a minha indenização das duas escolas, fiquei financeiramente bem, pois já trabalhava há muitos anos naqueles lugares. Também tinha muito dinheiro guardado, pois não gastava com quase nada, a não ser o essencial à sobrevivência, e a herança de meus pais me deixou muito bem de vida. 

Decidi vender o apartamento que eu detestava.

Com o dinheiro, segui o conselho que mamãe me dera no dia em que me revelou a verdade: viajar. Não queria levar comigo nada do que eu tinha, então doei todas as minhas coisas – as poucas roupas e sapatos fora de moda e surrados – e comprei uma passagem para a Argentina. Chegando lá, aluguei um chalé nas montanhas próximo a Bariloche. Ninguém me conhecia, eu não conhecia ninguém. Era apenas uma turista brasileira em férias. Até tentei ser simpática e fazer amigos, mas percebi que após alguns minutos de conversa, as pessoas me olhavam de uma maneira estranha e se afastavam de mim. Eu perdera totalmente o trejeito social. Não sabia me expressar direito, meu tom de voz era errado, meu jeito de olhar metia medo, meus cabelos desgrenhados e minhas roupas fora de moda espantavam, minhas opiniões eram vazias. E eu, tentando demonstrar o contrário, acabava passando a imagem de uma pessoa dissimulada. Eu sabia disso muito bem.

Retornei ao Brasil e aluguei uma casinha com quintal em uma pequena cidade do interior de Minas. Ela era antiga e ficava afastada do centro, onde eu chegava seguindo por uma estradinha de terra batida. Decidi que começaria uma vida nova, nem que fosse solitária. E realmente foi solitária. Morei naquela casinha por quase um ano, nas mesmas condições do apartamento que eu tivera antes: a casa tinha apenas uma cama em um dos dois quartos e um fogão, uma mesinha e uma cadeira na cozinha. Minhas poucas peças de roupa ficavam penduradas em uma arara de roupas enferrujada que eu tinha comprado em um bazar. Os cômodos eram vazios de qualquer tipo de mobília ou decoração. Eu queria, realmente, decorar a casa, mas não sabia o que comprar, como arrumá-la. Andava pelas lojinhas da cidade olhando móveis e roupas de cama e mesa, mas sempre voltava para casa de mãos vazias e chorava durante horas.

Sentia falta de minhas irmãs. Tinha saudades dos meus falecidos pais. Eu me indagava se durante todo aquele tempo, minhas irmãs também pensavam em mim de vez em quando, mas eu tinha certeza que não.

Um dia, comprei um espelho.

Sim, eu morei em uma casa sem um espelho por mais de um ano.

Era um espelho de corpo inteiro, e eu o escorei na parede do quarto, oposto à cama. Nem sei porque eu comprei aquele espelho. Mas eu me sentei nua em frente a ele e me olhei durante muitas horas. Só me levantei quando começou a escurecer. A pessoa que eu enxergava não tinha nada a ver com a menina linda que eu fora durante meus anos de adolescente. Eu tentava encontrar na minha imagem de então alguma coisa que me remetesse àquela menina. Passei as mãos pelos cabelos embaraçados e sem brilho, o corpo extremamente magro, olhei para as unhas compridas e quebradas. A menina não estava mais ali. Chorei por ela. 

Às vezes, quando anoitecia, eu ficava à janela da minha casinha olhando as estrelas. O silêncio era tão dominante, que eu às vezes pensava que tinha ficado surda. Daí eu notava que os grilos estiveram cantando o tempo todo, e que eu não mais os escutava devido ao hábito. Comecei a pensar: o que mais eu não estava conseguindo ver ou ouvir devido ao hábito de pensar sempre da mesma forma – que eu era uma pessoa sem valor que ninguém queria por perto, feia e desinteressante, cuja vida estava definitivamente destruída?

Eu não consegui lidar com aquilo. 

No dia seguinte, comprei um computador e descobri que havia sinal de internet naquela localidade. Acessei uma rede social e procurei por minhas irmãs. Elas estavam lindas e pareciam felizes nas fotografias. Todo mundo tinha uma vida, menos eu. As faces sorridentes, as postagens animadas, as paisagens e viagens... amigos. Família. 

Por que eu não aprendera a cultivar aquelas coisas?

Acessei o perfil do meu ex-marido e vi que ele tinha seguido em frente com sua vida: estava casado com uma linda mulher e tinha três filhos. Eu não senti nada por ele, não senti saudades ou arrependimentos, pois notei, pela primeira vez, que eu jamais sentira nada por ele, ele tinha sido apenas alguma coisa que aconteceu na minha vida e que eu fui deixando ficar só porque era mais fácil do que ter que fazer uma escolha, dizer não. Ele veio e foi quando quis. Lembrei-me do dia do nosso casamento: todos estavam felizes, ele sorria e dizia o quanto me amava. Eu chorei, e todos pensaram que era emoção, mas era um vazio enorme que eu sentia... só isso, a vida toda: um vazio enorme. Um vazio cujo em cujo fundo estava Betina, sempre me olhando e me perguntando: “Por que você me deixou sozinha, Mônica?”


(continua...)





segunda-feira, 14 de setembro de 2020

O DIA QUE MUDOU A MINHA VIDA - PARTE 9


 Parte 9 

Depois de me lembrar de tudo o que acontecera naquele dia quente e ensolarado, e de ter narrado aos outros o que acontecera, senti como se um enorme peso saísse dos meus ombros. Mas ao mesmo tempo, a morte de Betina tinha sido culpa minha. Olhei para os rostos em volta de mim, que me fitavam, atônitos. Minhas irmãs choravam. Breno estava calado, as sobrancelhas franzidas e a boca entreaberta. Minha mãe me estendeu um papel amassado: era a minha foto que Betina perfurara com o pin, meu rosto irreconhecível que ela, sem dó, tinha rasgado. Havia manchas que eu sabia serem de sangue – o sangue de Betina! Minha mãe respirou profundamente, dizendo:

-Eu sempre soube que você estava envolvida na morte dela. Primeiro, o vestido pendurado no varal com a barra manchada de sangue. O biquine ao lado do vestido, e você disse, naquele dia, que não tinha saído de casa. Depois, encontrei o anel dela escondido em sua gaveta, e ao revistar sua bolsa de praia, deparei com a foto amassada e cheia de sangue. Mas você era minha filha! Você era a minha menininha de apenas treze anos de idade! Como eu poderia ter contado aos outros? Meu dever como mãe era protege-la! 

Paola gritou:

-Mãe, mas ela matou a Betina!!!

Eu me defendi:

-Foi um acidente! Foi sem querer! Ela estava sobre a cama, eu só queria... eu queria a foto, e ela não me entregava, e ... ela perdeu o equilíbrio!

Breno arrematou:

-Você a empurrou! E se ela ainda estava viva, podia ter chamado por ajuda! Quem sabe... ela estaria viva!

Eu me ergui da cadeira, derrubando-a:

-Não! Ela morreu minutos depois...

Paola me confrontou:

-Como você sabe, se perdeu a noção do tempo?! Você sequer se lembrava de quanto tempo tinha passado! Você sempre teve esses... esses...

Minha mãe puxou Paola pelo braço:

-Cale-se, Paola!

Sandrinha levou a mão à cabeça em desespero, andando em círculos. Eu perguntei:

-Sempre tive esses o quê? 

Todos se calaram. Fez-se silêncio total. Repeti a pergunta:

-O que foi que eu sempre tive? Mãe? Paola?

Elas se entreolharam, e foi Sandrinha quem respondeu:

-Hã... Mônica... é que... bem... quando criança, você tinha alguns... ataques... era sonâmbula, e... quando acordava durante o sono, demorava a se lembrar de nós, ficando muito assustada. Nossos pais chegaram a internar você durante três meses em uma instituição...

O que ela dizia parecia não fazer sentido nenhum para mim. Então eu estivera internada em um manicômio na infância? Não me lembrava de nada daquilo. Abri aquela pergunta, fitando minha mãe nos olhos. 

Ela concordou com a cabeça:

-É verdade, Mônica. Você tinha seis anos... mas curou-se! Os pesadelos e os ataques de sonambulismo só voltaram em ocasião da morte de sua tia, e depois... quando Betina morreu. 

Eu estava boquiaberta, pois estavam dizendo coisas sobre mim das quais eu não me lembrava e que me eram totalmente desconhecidas. Paola acrescentou:

-É. De vez em quando você tinha esses... apagões. 

Levei a mão à boca, me lembrando de uma noite em que acordei em no corredor do meu próprio apartamento. Eu segurava uma faca, e não tinha a menor ideia do que ela estava fazendo na minha mão. Foi no dia seguinte ao que meu marido foi embora. Quando eu estava sob grande estresse, aquilo me acontecia. 

Breno murmurou:

-Bem, já fazem muitos anos desde a morte de Betina. A polícia concluiu que ela morreu do tombo, causado por uma overdose – tinha muita cocaína no sangue dela. Mas... agora a gente sabe a verdade. O que vocês pretendem fazer?

Paola e Sandrinha se entreolharam, e minha mãe declarou:

-Absolutamente nada. Os pais de Betina já são ambos mortos, e ela não tinha irmãos. Helena está bem idosa agora e com certeza não precisa dessa história para atormentá-la. Os demais parentes de Betina sequer se lembram que ela um dia existiu. Ela mal conheceu os primos. Nem sabemos onde eles moram, ou quem eles são. Essa história está morta e enterrada. 

Paola tentou argumentar:

-Mas mãe, ela matou a minha melhor amiga! Precisamos contar a verdade a alguém!

Eu chorava. Não sabia o que dizer ou como interferir ao meu favor, pois no fundo, achava que Paola e Breno tinham razão. Sandrinha nada dizia, permanecia andando de um lado para o outro, olhando para nós e sacudindo a cabeça. Eu ficava sentada, chorando, sem saber o que dizer ou o que pensar. Minha mãe tocou meu ombro:

-Eu quero que você vá viajar. Precisa ir para longe disso tudo, Mônica.

Neguei:

-Como você pode dizer isso, mãe? Não tenho cabeça para viajar. Acho que eu vou me entregar à polícia.

Dizendo aquilo, eu me levantei e comecei a sair da casa de Paola. Ela gritava:

-Mãe, como pode proteger ela numa hora dessas?

-Ela era só uma criança! O que queria que eu fizesse? Sou a mãe dela!

As vozes delas iam ficando cada vez mais distantes enquanto eu me afastava. 



(continua...)






terça-feira, 8 de setembro de 2020

O DIA QUE MUDOU MINHA VIDA - PARTE 8




O DIA QUE MUDOU MINHA VIDA - Parte 8 


Breno completou seu álibi:

- Mônica, certa vez, enquanto os pais de Betina estavam planejando subir o muro dos fundos, eu e ela brincávamos no jardim. Eu me lembro muito bem de ter ouvido o construtor e o pai dela combinarem a altura do muro: seis metros! É impossível que alguém pule um muro daquela altura! Ainda mais um adolescente nada atlético como eu, e de estatura mediana.

Eu estava muda. Lágrimas de desespero turvavam meus olhos. Balbuciei:

-Mas... eu vi... eu estava lá... eu vi!

Minha mãe disse:

-Você precisa se lembrar do que viu, Mônica. Com certeza, essa história que você construiu em sua cabeça não é verdadeira. Talvez seja uma válvula de escape. Você precisa se lembrar! Não pode viver o resto da sua vida com esse segredo dentro de você... como eu fiz.

E eu me vi subindo e subindo, deixando para trás a casa de Paola, as pessoas no jardim, a mesa... a cena ia se afastando cada vez mais, enquanto eu voava sobre o telhado da casa, cruzava a cidade e ia aterrissar justamente na casa de Betina, naquele mesmo dia, aos meus treze anos de idade.

Olhei para o meu corpo magro e esguio, pude sentir meus cabelos lisos e longos. Senti o calor do sol na minha pele e o desejo de mergulhar o mais rápido possível na piscina. Escutei a música de Boy George – Mistake Number Three – e senti minha garganta fechar-se de tanta sede. Entrei na casa, fui à cozinha e me servi do suco de laranja, tomando-o com um canudinho de plástico. Bebi-o encostada aos azulejos frios da cozinha, sentindo o frescor na minha pele e o suco descendo pela minha garganta, matando a sede. 

Chamei por Betina, e ela respondeu do quarto:

-Aqui em cima!

Pus o copo na pia, e enrolando o canudo usado no dedo indicador, subi as escadas. 

Encontrei-a sentada na cama, as pernas cruzadas em posição de ioga, lendo uma revista de adolescentes. Vestia apenas uma camiseta lilás rendada, de alcinhas, e uma calcinha preta. A janela de vidro da sacada perto da cama estava com uma banda aberta e a outra fechada, a banda aberta segura pelo cachorro de ferro. Fiquei de pé à porta do quarto, observando-a durante algum tempo. Quando ela me viu, ela disse:

-E Paola e Sandrinha? Não vieram?

- Oi pra você também, Betina! Minhas irmãs foram ao shopping.

Ela largou a revista, continuando sentada na cama, de pernas cruzadas.

-Não me lembro de ter convidado você...

Senti meu rosto ficar vermelho. Ofendida, respondi:

-Se quiser, eu vou embora.

Ela ergueu os braços, e naquele momento, a pedra do anel brilhou enquanto ela fazia um coque e o prendia com o próprio cabelo. 

-Não, tá limpo. Pode ficar. Sei que você não vive sem a minha piscina... hahaha!

Comecei a sair do quarto a fim de ir embora, me virando de costas, os lábios cerrados de indignação. Ela pulou da cama e me pegou pelo braço já no corredor:

-Não, não vá embora, entra! Só estou te zoando, Mônica. Você não tem senso de humor, hein? Vem comigo.

E eu me deixei puxar para dentro do quarto novamente. Apertei o canudinho entre os dedos. Notei o quanto Betina estava estranha, rindo à toa, parecia bêbada. Ela voltou a sentar-se de pernas cruzadas sobre a cama. Eu entrei e olhei as fotos dela e dos seus amigos. Perguntei:

-Você nunca vai colocar a minha foto aqui, não é?

Ela riu, respondendo:

-Não, querida, esse painel é para os meus amigos. Mas talvez eu pendure a sua foto aqui... (apontou para a porta do banheiro) à noite entram muitos mosquitos, e se eles virem sua foto, vão fugir apavorados. Hahaha!

Por que ela gostava tanto de me humilhar, morder e assoprar, ofender e pedir desculpas, alegando que eu não tinha senso de humor? Eu estava me sentindo péssima. Ela curvou o corpo, abrindo a gaveta da mesinha de cabeceira e tirando de lá a minha foto. Olhou para ela, e olhou para mim, dizendo:

-A foto não te faz juz. Você é bem mais bonita, Mônica... eu disse que não ia pendurar sua foto, mas...mentira! Vou pendurar ela sim.

Minha raiva arrefeceu um pouco enquanto ela se erguia na cama e pegava um pin sobre a borda do painel a fim de pendurar minha foto. Fiquei de pé por trás dela enquanto ela escolhia um lugar perto das fotos de minhas irmãs. Ela ergueu os braços, e por instantes minha visão do que ela estava fazendo ficou bloqueada pela cabeça dela, já que Betina era mais alta do que eu.

-Pronto! Lá está você.

Quando olhei para a foto, ela tinha colocado o pin bem no meio do meu rosto! Levei a minha mão à boca, de tanta indignação. Meus olhos se encheram de lágrimas. Meus joelhos estavam bambos e eu senti que ia chorar de verdade, mas engoli o choro, tentando subir na cama e erguendo a mão para pegar a foto, mas Betina foi mais rápida, pegando a foto da minha mão e começando a pular com ela sobre a cama.

Pulei no chão, contornando a cama:

-Me devolve a minha foto! Nunca mais quero vir aqui!

Ela ria e pulava sobre o colchão macio. Naquele momento, ela tirou a camiseta que estava usando, girando-a sobre a cabeça e jogando-a longe. Parei de tentar segurar a foto, de tão chocada que eu fiquei com a beleza dela. O que eu senti ao olhar Betina era um misto de raiva e adoração. Ela percebeu minha reação desconcertada, e ajoelhando-se na cama, olhou para mim, ficando quieta. Betina estava ainda ofegante devido aos pulos. Uma brisa entrou pela janela aberta atrás de Betina, balançando um pouco as pontas dos seus cabelos e trazendo até mim o perfume da sua colônia importada. Ela aproximou o rosto do meu, e eu me senti incapaz de me mover, paralisada diante dela. Ela tocou meus lábios de leve com os seus. 

A sensação era muito estranha. Percebi que eu poderia facilmente me apaixonar por ela, embora gostasse de garotos, e eu seria mais uma entre seu séquito de adoradores. Aquela menina era infernal! 

Ela colocou mais pressão sobre os meus lábios, entreabrindo-os com a língua. Não resisti e fechei os olhos, tentando entender, diante da minha total inexperiência de vida, o que estava acontecendo. Ela pegou minhas duas mãos e colocou-as sobre cada um dos seus seios. Eu estava me sentindo estranha, ao mesmo tempo, indignada, cheia de repulsa e excitada. Ainda de olhos fechados, movi meus dedos vagarosamente sobre os seios dela, quando ela soltou uma risadinha. Abri os olhos e Betina me olhava, divertida:

-Eu sabia que você era estranha! Além do mais, você é loucaloucalouca!!!

Aquelas palavras ácidas bateram em meu rosto como um chicote. Eu estava de pé em frente à cama, e ela, ajoelhada, de costas para a janela da sacada. Eu a empurrei com toda a força que eu tinha – e com a raiva e a humilhação que eu estava sentindo, acho que ela se duplicou. 

Vi o rosto dela tomado pela surpresa do meu gesto, o olhar desesperado procurando algo onde se segurar, o corpo se inclinando para trás de repente e indo cair do outro lado da cama. Ouvi o pulso dela estalar quando a mão bateu na beirada da cama, e o ruído da cabeça dela batendo contra o cachorro de ferro, que tombou, quebrando o vidro da janela. 

Dei a volta na cama, pensando no que eu tinha acabado de fazer. O sangue já começava a se espalhar sobre o tapete, mas ela ainda estava viva. Betina tossia, seu rosto estava vermelho. Eu estava de pé por trás da cabeça de Betina, ela e ergueu a mão na minha direção:

-Me ajuda a levantar... ai... minha cabeça está doendo muito!

Dei um passo para trás, apavorada com todo aquele sangue, mas nem me passou pela cabeça que ela estava morrendo. Ela começou a respirar com mais dificuldade, e eu voltei, me ajoelhando perto dela. Ela murmurou:

-Não me deixe sozinha agora... não me deixe sozinha... acho que eu vou morrer...

Achei que, mais uma vez, ela estava zoando comigo. Não acreditei nela. 

Agora, a cena se modificava, e eu me ergui até o teto do quarto, observando a cena abaixo de mim como se ela fizesse parte de um filme. 

A menina de cabelos pretos se inclinou sobre a menina loira que estava deitada, tirando o anel de pedra azul do seu dedo e colocando-o no dela. Depois, tirou a fotografia amassada das mãos da menina loira que ainda agonizava. Colocou-a na bolsa de tecido que estava carregando. 

A menina de cabelos pretos nem percebeu que a bainha do vestido tinha sido manchada de vermelho, e que mais tarde, a cor se transformaria em um marrom sujo. 

Ao sair do quarto, apenas trinta minutos tinham se passado desde a sua chegada. Tomou outro copo de suco na cozinha. Engraçado como tudo o que ela fazia parecia ser feito em estado de transe. Ela foi até a vitrola, colocando novamente “Mistake Number Three.”  Depois, mergulhou na piscina, onde permaneceu pelas duas horas seguintes.

Parecia dormir ou sonhar de olhos abertos. Seu rosto era tranquilo. Ela fechou os olhos de repente, e quando acordou, sentia frio, e o sol já quase se escondera por trás do telhado. Metade da piscina estava à sombra. Agora, ela estava de pé, se enxugando com a toalha. Depois, colocou o vestido branco, guardando a toalha na bolsa. A menina de cabelos pretos girou a cabeça; parece que ela ouviu alguma coisa. Eu a vejo caminhando rente à parede da casa em direção aos fundos, meio-agachada. Ela olha para alguma coisa que acontece por trás do muro que divide o terreno dos fundos e o da frente. Ela parece estar muito amedrontada. Olho para onde o olhar apavorado e curioso dela está concentrado, mas não há nada ali.

Ela corre para dentro da casa e sobe as escadas. Encontra a menina loira nua, deitada em uma poça de sangue. Seus seios são lindos, redondos e pequenos. Seu coração apavorado não se lembra do que aconteceu ali há apenas algumas horas. Ela toca os olhos da menina morta, e toca sua pele. Sente ânsias de vômito e corre até o banheiro. Lá, ela encontra o motivo de tudo que ela não consegue se lembrar em uma fileira de pó branca sobre a pia. A menina loira se drogava, afinal. Talvez por isso ficasse tão estranha às vezes. 

A menina de cabelos pretos deixa a casa, esgueirando-se pelo portão, ganhando a rua vazia e a tarde infernalmente quente. Ela chega em casa e retira o vestido, pendurando-o no varal dos fundos sem lavá-lo – mas na sua cabeça, ela o lava e esfrega. Toma um banho ainda usando o biquini, e mais tarde, pendura-o lá também. Ela ainda não percebeu o anel em seu dedo. Ela não se lembra de nada. Só sabe que um menino entrou na casa e talvez tenha assassinado sua amiga. Um menino, não ela. Nunca ela. Ela jamais faria aquilo.

No meio da noite, ela acorda e retira o anel, jogando-o no chão. Depois se arrepende e o resgata de uma abertura onde ele caiu, entre o rodapé e a madeira do soalho. Enrola-o em um lenço e o guarda em sua gaveta, esquecendo-se dele durante muito tempo. 

Porém, a menina de cabelos loiros nunca a deixaria em paz.

(CONTINUA...)






terça-feira, 1 de setembro de 2020

O DIA QUE MUDOU MINHA VIDA - PARTE 7





 PARTE 7 


Naquele mesma hora, liguei para a escola e pedi que me substituíssem. Entrei no carro e fui para a casa de minha mãe a fim de conversarmos; afinal, ela não podia continuar pensando aquilo sobre mim! 

O trânsito estava terrível, e a ansiedade que eu sentia era crescente. Quase me envolvi em uma discussão no trânsito, e juro que se não estivesse com tanta pressa para falar com minha mãe, eu teria descido do carro e literalmente surrado a outra motorista. Eu estava realmente à beira de um ataque de nervos, pensei, mas então percebi que estivera naquele mesmo estado desde o dia da morte de Betina. Era como se eu tivesse ficado congelada no tempo. Era como amanhecer todos os dias e perceber, exatamente como acontece em alguns filmes, que o meu dia anterior estava se repetindo.

Finalmente, cheguei e fui direto ter com minha mãe. Encontrei-a ainda de camisola, tomando seu café no jardim de Paola, que já tinha saído para o trabalho. Ela me olhou enquanto eu me aproximava, a xícara parada a caminho da boca. Pousou-a no pires sem tomar o café. 

Eu levava comigo a caixa com o anel e o vestido. Sentei-me diante dela, e jogando o conteúdo da caixa sobre a mesa, quase gritei:

-Então esses anos todos você pensa que eu... que eu... mãe, eu só tinha treze anos! Estava amedrontada, eu não sabia oi que fazer com... com tudo aquilo que estava acontecendo, e as coisas acabaram saindo de controle, e de repente, não fazia mais sentido dizer a verdade, contar o que eu vi.

Ela franziu a testa, e segurando minhas mãos trêmulas, acariciou-as durante algum tempo, tentando me acalmar. Quando viu que eu parara de chorar, ela disse:

-Minha filha, foi muito difícil para mim também passar todos esses anos sem confrontar a verdade. Você precisa fazê-lo agora. Não quero que carregue esse peso pelo resto de sua vida.

-Puxei minhas mãos de sob as dela e berrei:

-Então você ainda acha que eu... que eu matei a Betina??? Se pensava isso, por que não me confrontou naquela época? Talvez eu não tivesse a vida de merda que eu tenho hoje se você tivesse feito isso! A culpa é sua, mãe, por não saber como lidar com sua própria filha de treze anos de idade!

Ela gritou:

-Se acalme, por favor!

Aquilo me chocou, pois a minha vida inteira, minha mãe gritara comigo pouquíssimas vezes. Respirei fundo e fiquei em silêncio, balançando os joelhos de tão nervosa. Ela continuou:

-Acho que você precisa contar essa história, Mônica. 

Eu me levante e comecei a andar de um lado para o outro, juntando cacos de memória. Comecei:

-Naquela tarde, depois que vocês saíram, eu fui até a casa de Betina ficar na piscina, porque estava muito calor. Ela tinha convidado, lembra? Mas cheguei lá e não encontrei ninguém. Eu fui à cozinha e tomei suco de laranja que achei na geladeira – fiz isso duas vezes, os copos que Helena encontrou tinham sido usados por mim. 

Fui logo para  a piscina, pois chamei por Betina e ela não respondeu. Achei ter ouvido risadas no quarto, e assim pensei que ela não estava a fim de ser perturbada porque deveria estar com alguém. Eu fui para a piscina e fiquei lá o resto da tarde. Lembro-me de que quando saí da água, meus dedos estavam até murchos. Eu cheguei a ouvir ruídos de algo se quebrando em algum lugar, mas por preguiça, não fui ver o que era. 

Mais tarde, ouvi a porta da cozinha sendo aberta... fui ver quem poderia estar saindo pelos fundos, só para saber, por curiosidade, quem poderia estar com Betina em seu quarto. E então me escondi atrás do muro que separa o quintal dos fundos do jardim. Foi quando eu o vi... Breno. Estava muito nervoso. Parecia desesperado. Andava de um lado para o outro e segurava a cabeça com as mãos, até que ele olhou para o muro dos fundos... deu impuldo e correndo, conseguiu alcançar a borda. Ele tentou duas vezes antes de conseguir. E então pulou para o outro lado, desaparecendo. 

Fiquei curiosa e ao mesmo tempo, amedrontada. Achei melhor ir embora. 

Mas eu sabia que ele tinha feito algo errado, alguma coisa não estava certa. Então eu achei melhor verificar.

Antes de ir embora, subi ao quarto de Betina e a encontrei... caída sobre o tapete branco junto à cama, e o tapete estava manchado de sangue... o cachorro de ferro que ela usava para prender a porta da sacada estava caído sobre vidro quebrado, como se alguém o tivesse empurrado, achei que ela tinha caído sobre ele de cabeça e o empurrado em direção ao vidro com a queda. Eu verifiquei se ela estava viva... mas ela tinha os olhos vidrados, a mão parecia quebrada...  acho que foi ali que sujei a barra do vestido no sangue dela e nem percebi. Senti náuseas... corri ao banheiro... havia uma fileira de pó branco sobre a pia, e um canudo de plástico. Betina estivera usando drogas. 

Eu fiquei com muito medo! Imagine, eu só tinha treze anos! Não sabia como lidar com aquilo...

Minha mãe me ouvia pacientemente, mas havia algo nos olhos dela que dizia que ela não acreditava no que eu estava falando. Naquele momento, surgiram Sandrinha, Paola... e Breno! Ele estava diferente do Breno que eu guardava na memória, mas era ele, pude reconhece-lo logo.

De repente, eu me senti cercada e confrontada. O pânico começou a tomar conta de mim. Eles me olhavam, eles me acusavam com os olhos. Eu me sentia com treze anos de idade novamente!

Paola me segurou pelo braço, me obrigando a sentar-me à mesa novamente e sentando-se ao meu lado. Na minha frente, mamãe e Sandrinha me encaravam. Breno sentou-se ao lado de Paola. Olhei para ele:

-O que você está fazendo aqui? Veio espalhar mentiras sobre mim?

Paola respondeu:

-Não, Mônica, ele veio porque mamãe pediu. Nós estamos aqui porque ela nos pediu. 

Apavorada, retruquei:

-Vocês também pensam que eu a matei, não é?

Sandrinha, que estivera calada, se pronunciou:

-Não é nada disso! Até ontem, nós não sabíamos de nada disso, nem desconfiávamos que Betina poderia ter sido assassinada. Mas a mamãe nos contou sobre o vestido, sobre o anel... e ontem mesmo Paola conseguiu localizar Breno pela rede social e pediu a ele que ele viesse aqui, já que ele está de volta à cidade. 

Eu não estava entendendo nada! Como Breno poderia ser tão cínico, a ponto de me confrontar? Apontei para ele, acusando-o daquilo que eu sabia há tantos anos.

-Você a matou! Eu estava lá, mas como sempre, vocês me ignoraram. Você a matou e depois pulou o muro dos fundos para o terreno baldio. Eu vi tudo! Mas eu só tinha treze anos, e fiquei com medo... não sabia como agir, não sabia como explicar à polícia que eu estava ali. Eu tinha medo!

Minhas irmãs olharam para Breno, e depois de volta para mim. Minha mãe perguntou, a voz contida e fria:

- Filha, o que o anel de Betina estava fazendo entre as suas coisas?

-Ela o emprestara a mim dias antes de morrer!

Paola me interrompeu:

-Mônica, você e eu sabemos que ela jamais tirava esse anel! Tinha sido presente da avó dela, que ela adorava, e era a única coisa que ela não emprestava a ninguém! 

Fiquei confusa; minha cabeça era um turbilhão, e nem eu acreditava mais em mim. Até que voz de Breno me fez tremer, voltando à realidade:

- Mônica... pense bem! Como você poderia ter me visto lá na casa naquele dia, se eu estava fazendo prova de vestibular em São Paulo?

Paola o apoiou:

- É verdade, irmã. Falei com ele pelo telefone naquela mesma noite. Ele só voltou à cidade no dia seguinte de manhã, antes de Helena descobrir o corpo de Betina. E Breno tem testemunhas! Os pais dele o levaram à rodoviária onde ele pegou o ônibus para São Paulo, e ele fez a prova e passou, tanto que logo depois foi estudar na USP. 

Eu não sabia o que dizer. Minha boca se entreabriu, mas a minha voz não saiu. 

(CONTINUA...)





segunda-feira, 24 de agosto de 2020

O DIA QUE MUDOU MINHA VIDA - PARTE 6



 PARTE 6


Meu pai faleceu durante a noite, quando eu tinha 30 anos. Foi meu terceiro velório. Minha mãe não se conformava, dizendo que naquela noite eles tinham ido jogar uma partida de biriba no clube, e que ele estava tão feliz, tão sorridente, tão bem. Mas a morte não liga para essas coisas. Ela até parece gostar de pegar as pessoas saudáveis e felizes de surpresa, sadicamente se esquecendo das tristes, deixando-as para o final, aguardando ansiosamente o encontro fatal. E então, quando ela, a Morte, chega para os infelizes, ela se diverte um pouco antes de leva-los, escutando sobre o quanto eles gostariam de ter uma nova chance, o quanto eles poderia ter

Sido

Felizes. 

A morte de meu pai também me abalou profundamente, pois eu tinha certeza de que ele me preferia às minhas irmãs, e éramos muito próximos. Porém, minha vida estava em um estado de torpor tão grande, que eu logo me conformei com a morte dele. Nada conseguia me despertar emoções duradouras naqueles dias. 

Para não ficar morando sozinha, minha mãe, agora com sessenta e oito anos, vendeu nossa antiga casa e mudou-se para um apartamento pequeno que ficava sobre a garagem de Paola. O lugar era muito jeitoso, bem dividido e arrumado, e todas achamos que ela poderia passar ali os seus dias de velhice sendo relativamente feliz sem papai, só que ela nunca se conformou com a morte dele. Minha mãe tornou-se uma sombra da linda mulher que costumava ser. Passei a visita-la de vez em quando, com mais frequência do que antes, pois achava que finalmente, estávamos parecidas uma com a outra. Nós nos sentávamos juntas e assistíamos TV em silêncio. Depois, eu fazia um café para nós duas, e Paola e Sandrinha às vezes apareciam para ver como estavam as coisas, trazendo um bolo ou alguns biscoitos. Mamãe tentava sorrir e responder às nossas expectativas do quanto a vida deveria continuar e sobre como ela deveria tentar continuar a ver os amigos e a ser feliz, mas eu sabia que ela só fazia aquilo – concordar conosco – para que nós a deixássemos em paz. Aqueles dias após a morte de meu pai nos uniu novamente, pois eu era calada, não fazia perguntas e nem tentava dizer a ela como deveria viver sua vida sem ele. Meu silêncio melancólico a trouxe para perto de mim outra vez.

Mas quando assistíamos TV naquelas tardes em que eu a visitava, eu olhava para ela de soslaio e notava que ela não estava entretida com a TV. Eu sabia, porque eu também não estava. Éramos duas estátuas vazias. Por isso ela passou a gostar de mim novamente.

Um dia, ela olhou para mim e comentou:

-Parece que não temos muito a conversar, não é filha?

Respirei profundamente, pensando no que responder, e disse:

-É verdade, mãe. Sabe, eu sei que a senhora nunca teve muita coisa para me dizer... sei que prefere minhas irmãs, mas eu não ligo, fique em paz.

Ela arregalou os olhos, e colocou a mão sob o meu queixo, me obrigando a olhá-la. 

-Não! Eu... amo você, sempre amei!

Aquela declaração tardia e sem contexto me surpreendeu. Fiquei boquiaberta, sem saber o que dizer, olhando-a, sentindo o toque de sua mão sob o meu queixo e me lembrando de que há muito tempo ela não me tocava daquela forma. Então ela falou bem devagar:

-Filha... às vezes, o nosso silêncio é a forma mais eloquente que encontramos para amar alguém. 

Pela primeira vez em todos aqueles anos, percebi que minha mãe não apenas sabia que eu tinha estado na casa de Betina no dia de sua morte, mas que ela pensava que EU a matara!

Aquilo era demais para mim!

Fiquei sem visita-la durante dois dias. Na manhã do terceiro dia, chegou-me pelo correio uma caixa de sapatos embrulhada em papel pardo. A letra caprichosa de mamãe escrevera o meu endereço. 

Instintivamente, eu sabia o que a caixa continha, mas abri-a assim mesmo, e sem nenhuma surpresa, o anel de pedra azul de Betina, embrulhado ainda no mesmo lenço branco, caiu sobre a mesa. Mas havia algo mais, um outro pano  dobrado pra ficar bem pequeno. Abri-o, e reconheci o meu vestido leve de algodão branco. O mesmo que eu estava usando no dia em que vi Betina pela última vez. Eu tinha me esquecido completamente dele! Depois que o lavara e pendurara no varal, eu nunca sequer pensara nele outra vez. 

Tirei-o da caixa, e fui engolfada por uma torrente de lembranças. Minha memória parecia ter sido acionada, e comecei a me lembrar de coisas que aconteceram naquele dia que seriam impossíveis para qualquer pessoa lembrar em condições normais: o que tínhamos comido no almoço, o que as pessoas na minha casa estavam usando, o clima terrivelmente quente.

Coloquei o vestido de costas sobre a mesa, e o que vi, me encheu de terror: a barra da saia estava manchada! Era uma mancha seca, envelhecida e amarronzada, mas só podia ser sangue – o sangue de Betina! Minha mãe escondera aquele vestido durante todos aqueles anos, só para me proteger! Imaginei o quanto deveria ter sido difícil para ela pensar que sua filha caçula era uma assassina, e o quanto deveria ter sido horrível guardar aquele segredo do resto da família, inclusive de papai!

Eu precisava contar a verdade a ela. Precisava contar a ela o que eu vira naquele dia. Precisava falar sobre Breno fugindo da casa a pulando o muro, mas... havia algo estranho naquela história para o qual eu nunca tinha atentado antes. 


(continua...)




domingo, 16 de agosto de 2020

O DIA QUE MUDOU MINHA VIDA - PARTE 5





 PARTE 5 

Os anos se passaram. Minhas irmãs fizeram faculdade, se casaram e se mudaram para suas próprias casas. Paola abriu um escritório de advocacia, e Sandrinha, que estudara moda, sua própria loja de roupas. Ambas eram felizes e realizadas em suas profissões, e eu as evitava, inventando desculpas para não ter que aceitar seus convites para ir às compras ou almoçar. 

Paola me contara que Breno tinha se mudado para outro estado depois que se formara. Dei graças a Deus por nunca mais ter que encontra-lo. 

Eu me formara como professora, só porque era mais fácil e eu não teria que me esforçar muito para fazer uma escolha. Aos vinte e seis anos de idade, eu aparentava bem mais. As olheiras das noites mal dormidas se fixaram sob os meus olhos, e minha magreza extrema deixava minhas faces encovadas. Meus cabelos, agora sem vida, foram cortados curtos e mantidos sempre em um rabo de cavalo sem graça. Eu passei a fumar e a beber de vez em quando em meu apartamento pequeno e sem graça onde eu vivia sozinha, que eu comprara com a ajuda dos meus pais. Meu casamento durara apenas dois anos, e um dia, vi meu marido sair pela porta carregando uma mala e dizendo que “Simplesmente não aguentava mais viver com alguém tão emocionalmente fechada.” 

Não fiz nada, a não ser assinar os papéis do divórcio e comprar o tal apartamento sem graça que eu nunca mobiliei de verdade, as coisas todas dentro de caixas. 

Às vezes, meus pais me visitavam, e aqueles momentos eram torturantes, com minha mãe tentando arrumar as coisas em prateleiras que não eram suficientes para tudo, e procurando cadeiras onde pudesse colocar as roupas que ela dobrara e que tinha encontrado em uma pilha no canto do meu quarto. 

Eu dava aulas de História. Era uma péssima professora, e sentia, quando eu entrava na sala de aula, os alunos se entreolhando e fazendo caretas atrás de mim. Eu os mandava abrir os livros e eles se intercalavam nas leituras do capítulo. Era só. A aula estava dada. Aplicava as provas, dava as notas e fim. Ganhava meu salário no final do mês, comprava alguma comida, cigarros e bebida. As roupas que eu usava eram todas em tons de preto e bege. Não havia outras cores penduradas nas araras ‘temporárias’ que meu pai montara em meu quarto “Só-até-você-comprar-um-guarda-roupa” e que já estavam lá há anos.

Eu não tinha uma vida.

A não ser quando dormia e reencontrava Betina. E ela parecia nunca envelhecer, sempre tão bonita e sorridente, sempre tão jovem, sempre tão morta e sempre me perguntando por que eu a tinha deixado sozinha. 


(continua...)




segunda-feira, 10 de agosto de 2020

O DIA QUE MUDOU MINHA VIDA - PARTE 4


 PARTE 4


Era uma tarde de domingo, e minhas irmãs tinham saído. Meus pais descansavam no quarto após o almoço, e eu deixava a minha mente vagar entre a realidade de um filme antigo na TV e a modorra silenciosa da tarde de domingo, jogada no sofá, sem ter a menor ideia de sobre o que era o filme. E de repente, do nada, me veio a lembrança do anel de Betina. Aquilo me despertou feito um choque elétrico; comecei a escutar o barulho vindo da rua – crianças brincando, alguns carros, um rádio tocando rock. De repente, eu estava viva novamente, e alerta. Corri até o quarto, trancando a porta atrás de mim, e abri a gaveta, jogando minhas calcinhas, anáguas e sutiãs no chão, procurando pelo embrulhinho de lenço branco. 

Mas nada encontrei. Nem lenço, nem anel, nem nada. Alguém o tinha encontrado. Alguém o pegara!

Logo desconfiei que tinha sido minha mãe, e por isso, ela andava tão estranha comigo. Pensei no que fazer; não sabia há quanto tempo o anel tinha sumido, pois simplesmente me esquecera da existência dele. Não sabia nem com certeza se tinha sido a minha mãe que o pegara, e nem se ele realmente estivera comigo ou se tudo tinha sido fruto da minha imaginação.

Às vezes, Breno nos visitava, e quando isso acontecia, eu me trancava no quarto ou arranjava uma desculpa para sair. Será que ele, sabendo do anel de alguma forma, tinha entrado em meu quarto quando eu estava fora e pego o anel? 

O que fazer? Tentei deliberar um plano de ação, caso alguém me perguntasse sobre o anel. Responderia que ele estava comigo há muito tempo, desde antes da morte de Betina, pois ela o emprestara a mim... mas... se Breno a matara, com certeza sabia que o anel estava no dedo dela, e encontrando-o comigo,  saberia que eu estivera na casa no dia do crime. Novamente, me vi tomada de desespero. 

Já não rezava desde a minha primeira comunhão. Caí de joelhos no chão do quarto, juntando as mãos na frente do rosto, e pedi a Deus que me desse uma solução. Foi quando uma grande paz me invadiu, e eu então soube o que fazer: nada. Absolutamente nada. Não diria nada sobre o anel, e se me perguntassem, dependendo de quem fosse, eu daria uma resposta diferente. Ou simplesmente diria que não tinha a menor ideia de como ele tinha ido parar na minha gaveta. 

Mas com o tempo, tive certeza absoluta de que minha mãe o pegara. Porque ela um dia se aproximou de mim, logo depois que voltei da escola. Eu estava sentada almoçando. Minhas irmãs tinham ido almoçar na casa de alguém, e meu pai estava trabalhando. Minha mãe sentou-se ao meu lado e ficou me olhando enquanto eu comia, a cabeça descansando em uma das mãos, me examinando como se eu fosse um ET ou algo assim. Senti um leve rubor cobrir o meu rosto, mas continuei comendo como se nada estivesse acontecendo. Ainda pude olhar para ela e dar um sorrisinho.

Ela queria me dizer alguma coisa, mas não sabia como. Por baixo da minha máscara de paz de espírito, meu coração queria ser digerido junto com a comida. Finalmente, ela disse:

-Mônica, existe alguma coisa que você queira me dizer sobre o dia da morte de Betina?

Me choquei com a maneira direta dela falar. Bebi o suco quase engasgando, e arregalei os olhos, respondendo rápido demais:

-Não! Por que?

Fiquei esperando ela colocar o anel diante de mim. Mas não. Ela ficou me olhando nos olhos, me encarando muito séria. Me aprontei para responder uma saraivada de perguntas que, com certeza, iam me desmentir ali naquele momento e colocar tudo a perder. Eu era uma péssima mentirosa quando confrontada, e minha mãe sabia disso. Mas depois eu descobriria que ela pensava que a verdade era tão terrível, que seria melhor não conhecê-la. 

Apertei os lábios, limpando-os com o guardanapo de papel. Meu calvário estava começando, pensei. Só que não; ela ainda abriu a boca para dizer algo, mas então colocou a mão rapidamente sobre a minha, fazendo uma leve carícia, e levantando-se da mesa, carregou meu prato e meus talheres para a cozinha. 

Então era só isso, pensei.

Mas a distância que começou a nos afastar era um abismo que só nós duas conseguíamos enxergar; para os outros, conseguíamos fingir que tudo ia bem, que tudo estava normal. Quando ficávamos sozinhas, evitávamos nos olhar e só falávamos quando estritamente necessário, mas quando estávamos junto com as outras pessoas, conseguíamos fingir que tudo estava bem.

Meus pesadelos recorrentes nunca me abandonaram, nem mesmo depois que meu pai me levou a um psiquiatra que me receitou alguns medicamentos leves para dormir. Eu sonhava com Betina todas as noites. Eu a via morta, os olhos vidrados; eu via o sangue escurecendo o tapete; eu sonhava com ela quando viva, rindo e brincando, sentada no nosso tapete da sala com minhas irmãs; eu tocava suas pupilas com a ponta do indicador; eu sonhava com as tardes de verão juntas na sua maravilhosa piscina. Mas em todos os sonhos, eu sabia que o momento chegaria no qual, na frente de todo mundo, ela me perguntaria: “Por que você me deixou sozinha?” Todos me olhariam ao mesmo tempo.  E naquele momento, o chão se abriria sob os meus pés e eu afundaria rapidamente em um buraco escuro, e muitas vezes, acordava gritando, as cobertas no chão, coberta de suor frio. 

Ir dormir era uma tortura para mim, e então o médico achou melhor aumentar as doses. Elas me faziam ter um sono pesado e acordar me sentindo péssima, mas não impediam os pesadelos. Uma vez, durante uma consulta, ele me disse:

-Eu sei que você guarda algum trauma profundo dentro de você, Mônica, e você não quer falar sobre ele. Mas enquanto não falar sobre os seus fantasmas, eles jamais a deixarão em paz e a visitarão todas as noites.

A palavra “fantasmas” era por demais adequada. Entre todos nós, eu era a única que ainda não tinha sepultado Betina. Até mesmo os pais dela tinham saído em uma viagem ao redor do mundo. Certa vez encontramos Helena na feira, e ela nem tocou no assunto; estava sorrindo, e conversamos sobre tomates e o preço da carne. Era como se Betina nem tivesse existido. Mas eu me lembrava, só eu me lembrava o tempo todo dela.


(continua...) 


EU (NÃO) CONFESSO - CONTO CURTO

  Quando entrei pela primeira vez na sala de espera do psicólogo, a primeira coisa que me chamou a atenção foi um pequeno jardim-zen em fren...