quinta-feira, 6 de setembro de 2018

O LAR DE OFÉLIA - PARTE XII





Bruno chegou ao portão da casa e olhou para dentro, através das grades pesadas de ferro. Há dias não via Ofélia. Ela simplesmente sumira de sua vida, e também recusava-se a atender às suas ligações. Ele esticou o pescoço, tentando ver os fundos da casa. Notou que havia marcas de pneus no caminho para carros arenoso. Bruno não teve dúvidas: as marcas dos pneus mostravam que um carro havia entrado lá, mas não tinha saído. Ficou preocupado com Ofélia. Tocou a campainha várias vezes, sem obter resposta.

De repente, ele ouviu um ruído distante de algo que se quebrava dentro da casa, talvez um objeto de vidro. Não teve dúvidas: escalou o portão e entrou. Ao tentar abrir a porta da frente, esta se encontrava trancada, então ele deu a volta na varanda que rodeava toda a casa, e olhou através das vidraças. Viu um pequeno vaso de flores no chão; por trás dele, do outro lado de onde ele se encontrava, havia uma janela aberta por onde o vento entrava, balançando as cortinas. Bruno descobriu o porquê do vaso estar quebrado. 

Correu ao outro lado, entrando na casa pela janela. 

Tudo estava silencioso. A casa, imaculadamente limpa, era um poço ameaçador de silêncio. A luz da tarde entrava pelas vidraças, mas nem mesmo a claridade amenizava aquela atmosfera de que alguma coisa pesada estava presente ali. Ele chamou por Ofélia; lá em cima, um farfalhar chamou sua atenção, e Bruno subiu até o quarto onde Ofélia costumava dormir. Ao chegar lá, mal pode acreditar no que viu:

Deitada na cama, Ofélia, de olhos fechados, estava muito pálida; tão pálida, que ele pensou que o pior pudesse ter acontecido a ela. Vestia uma camisola branca, e estava mais magra do que quando se conheceram. Assustado, Bruno sentou-se na cama, pegando a mão dela, que estava gelada, mas ele viu que ela estava respirando, e deu um suspiro de alívio. Bruno pensou nas histórias sobre a Bela Adormecida que sua mãe contava quando ele era ainda bem pequeno. Achou que se a beijasse, Ofélia despertaria daquele sono estranho. Assim ele o fez.

Aproximou o rosto do dela, beijando-a na boca levemente. Ofélia estremeceu, e abriu os olhos. Bruno sorriu para ela:

-Olá, Bela Adormecida! Se esqueceu mesmo de mim, hein? 

Ela esfregou os olhos:

-Bruno... o que você está fazendo aqui? 

Ofélia sentou-se na cama, mas sentiu-se tonta, e Bruno a segurou em seus braços. 

-Você está bem?

Ela concordou com a cabeça:

-Sim... acho que dormi demais... só isso.

-Ofélia... há quanto tempo você está aqui na casa, sozinha?

Ela respirou profundamente, desvencilhando-se dele e sentando-se na cama, as mãos segurando fortemente a beirada do colchão, e disse:

- Eu não lhe devo satisfações, Bruno. Só porque nós...

Ele a interrompeu:

-Você está muito magra e muito pálida. Há quanto tempo não come? Precisa comer alguma coisa.

Ela concordou com ele:

-E vou fazer isto agora mesmo. Vamos até a cozinha.

Ofélia calçou seus chinelos de pelo, macios e quentes, e agradeceu mentalmente por eles estarem ali. Ela sentia frio, muito frio; pegou sobre a cadeira o seu casaco, vestindo-o e aconchegando-se a ele. Bruno seguiu-a até a cozinha, enquanto Ofélia começou a preparar uma macarronada. Ela andava feito um zumbi, pegando os ingredientes nos armários e colocando os pratos, copos e talheres sobre a mesa.  Bruno notou que ela estava muito diferente - quase apática. Notou também os cabelos desgrenhados e a pele do rosto ressecada. Enquanto ela se movia lentamente pela cozinha, a luz do sol entrava pela janela e batia sobre a grande mesa de madeira. Bruno pensou que aquela seria uma cena bucólica, se não fosse a situação esquisita que ele estava presenciando. Tentou falar com ela novamente:

-Ofélia... eu senti sua falta.

Ela não o olhou, mas respondeu:

-Bruno, você precisa entender que o que tivemos foi passageiro. Bom, mas acabou. Não faz sentido. Não podemos ficar juntos. Você é anos luz mais jovem que eu, e além disso, eu não estou nem nunca estive apaixonada por você.

Ele se sentiu um idiota romântico. Entrara ali com ares de príncipe salvador, mas estava sendo repelido pela sua princesa adormecida. Zangado, ele disse:

-Ok, Ofélia, tudo bem. Se é assim que você quer... mas precisa me dizer o que está acontecendo. Você não está bem, e isso é gritante. Passou por muita coisa. Precisa conversar com alguém. 

-Mas não com você. 

Ela falava as coisas sem gritar ou expressar qualquer tipo de emoção. Não parecia a mesma pessoa que tinha feito amor com ele apaixonadamente. Não tinha mais aquele brilho de curiosidade e vida nos olhos. Bruno achou que a casa estava fazendo aquilo com ela. 

Segurando um feixe de massa de macarrão, ela o olhou pela primeira vez:

-Vai ficar para comer?

-Você está me convidando?

Ela encolheu os ombros:

-Acho que sim. Mas não pense nada além disso: é só um convite para almoçar. 

Ele riu, tristemente, e concordou com a cabeça:

-Eu aceito. 

Ela andou até o fogão, onde uma panela de água fervia, e colocou o macarrão dentro dela. Ficou olhando a água borbulhar e o macarrão afundar aos poucos. Bruno disse:

- Por que não se senta aqui um pouco, enquanto a massa cozinha? 

Ofélia sentou-se à mesa, diante dele, os olhos circundados por olheiras. Bruno pensou em estender as mãos e segurar as dela, que estavam sobre a mesa, mas desistiu da ideia. 

-Me diz o que está rolando, Ofélia. 

Ela o encarou, os olhos sem vida:

-Se eu te disser, vai achar que eu estou louca. 

-Não depois de tudo o que eu vi acontecendo nesta casa. Desembucha logo, vai!

Ofélia começou a contar a ele tudo o que estava vivenciando. Falou-lhe sobre seus encontros com Anselmo e Vivian, e do quanto aquilo a estava deixando confusa, pois ao mesmo tempo que parecia ser a coisa certa estar junto deles, ela não entendia o medo que sentia de, justamente, estar junto deles. Bruno escutou sem interrompê-la. 

Mais tarde, enquanto comiam em silêncio, ele disse com urgência:

-Você precisa sair desta casa. Precisa sair, Ofélia. 

Ela o olhou apaticamente durante algum tempo, antes de responder:

-Não. Preciso chegar ao final dessa história. Preciso entender o que Anselmo quer que eu faça. Eles são a minha família, Bruno, e eu quero muito poder estar com eles. Deus, você não sabe o quanto eu sentia a falta deles... e só descobri isso depois que eu os conheci. Depois que os vi de novo.

-O final desta história não pode ser bom. Pode ser o final da sua história! Venha comigo, vamos sair daqui! Se não quiser me ver mais, não tem problema; mas eu queria saber um dia que você ficou bem. 

Bruno percebeu que de nada adiantaria argumentar com ela; ele tinha perdido Ofélia para um fantasma. Desanimado, ele disse:

-Que pena, e que desperdício de vida. Você é uma bela mulher, tão cheia da grana... tem um futuro bacana pela frente... e fica aqui, presa a um fantasma! É lamentável. 

Pela primeira vez, ela demonstrou alguma emoção: fúria. Erguendo a voz, Ofélia gritou: 

-Não fale deles assim! 

Bruno largou os talheres e levantou-se:

-Se cuida, Ofélia. Se precisar de mim, sabe como me encontrar. Eu vou embora agora. Essa história me cansou. 


(continua...)







domingo, 2 de setembro de 2018

O LAR DE OFÉLIA - PARTE XI







Durante o dia, Ofélia andava pelos cômodos da casa, olhando em volta e tentando fazer com que alguma resposta caísse em seu colo. Às vezes, Anselmo ia vê-la, mas eram breves momentos.  Durante a noite, que sempre era muito intensa, ela passava suas horas em companhia de Anselmo e Vivian. Eram momentos muito intensos e felizes, e ela tentava não dar muita atenção, enquanto sentava-se com eles sobre o gramado do jardim e olhava para a silhueta da casa contra o céu estrelado, a alguma coisa por trás da razão que dizia que tudo aquilo estava errado, e que ela teria que acabar com tudo um dia.

Tentava dedicar-se a conhecer novamente sua filha e seu marido. Anselmo era um homem sisudo e sombrio, mas envolvente e apaixonante. Um homem misterioso, de sorriso enigmático, palavras econômicas e cheias de intensidade, olhar penetrante que variava entre amoroso e prescrutador. Ofélia sentia nele uma certa insegurança, às vezes. Um dia, ele confessou a ela que temia que ela não resistisse e descumprisse a promessa feita a ele há tantos anos. 

-Estamos ligados por um destino que é muito mais forte do que a morte, minha querida Ofélia. 

Quando ele dizia coisas como aquela, Ofélia sentia um aperto no peito. Tudo o que ela queria, era abraçar Vivian e não largá-la nunca mais, e estar com Anselmo. Gostaria de poder levá-los para o seu mundo e ficar lá com eles, mas Anselmo já lhe dissera que aquilo não era possível. Havia existências separando-os. A única maneira de estarem juntos, seria naquela espécie de limbo, onde o tempo jamais avançava. Ela perguntou:

-Você vai esperar até que a minha vida se cumpra, Anselmo? Para que assim possamos ficar juntos para sempre?

Ele apenas suspirava e a abraçava com ternura, mas nada respondia, até que um dia ele a olhou nos olhos:

-Você realmente não se lembra, não é?

Ofélia ficou confusa. Vivian que brincava ali por perto, parecia não estar prestando atenção À conversa deles. Ofélia sentiu as próprias sobrancelhas sendo franzidas, enquanto o rosto de Anselmo ia ficando mais tenso. 

-Não temos muito tempo, Ofélia. Este momento  é apenas temporário. logo, eu e Vivian teremos que partir, se você não cumprir a promessa que nos fez.

-Você me assusta, meu amor. Sempre me fala de uma promessa que eu devo cumprir, mas eu não me lembro dela! Não sei do que você está falando!

-É porque as existências, ao se sucederem, apagam as memórias. Mas elas estão aí, dentro de você, esperando para que você as acesse e se lembre delas totalmente. Você sabe do que eu estou falando, minha querida. E logo precisará tomar uma decisão muito importante. Você vai se lembrar de quem realmente é, e de quem nós somos. Você vai se lembrar de tudo. E terá que deixar de lado convenções e ideias pré-concebidas arraigadas à sua personalidade através das suas novas existências. Há muitos conceitos que terão que ser desaprendidos para que você possa estar conosco para sempre. 

- Mas... se eu passei por outras existências, por que o mesmo não aconteceu a você e à Vivian? Por que ficaram presos aqui?

-Porque esta é a única forma de ficarmos todos juntos novamente. Nós esperamos por você há tanto tempo, minha querida... 

Naquele momento, Vivian veio correndo em direção a ela, sentando-se em seu colo. Ofélia a abraçou, aninhando-a para que pudesse adormecer. Ela podia sentir o perfume de alfazema dos cabelos da filha. Aquilo era tão familiar! Começou a acariciar de leve a cabeça da menina, deixando que suas mãos escorregassem pelo bracinho da criança, que já começava a dormir. Foi então que ela viu a pequena marca no pulso da menina: uma tatuagem. Passou os dedos sobre o desenho, que estava em alto relevo. Era um símbolo desconhecido, dentro de um círculo. 

Anselmo ergueu a manga do casaco, mostrando a ela o mesmo símbolo tatuado em seu próprio pulso. Ele disse:

-Eu e Vivian cumprimos a nossa promessa. Esta tatuagem é o símbolo daquilo que fizemos, a nossa missão mágica, que nos trará enormes poderes. Mas a trindade deve ser cumprida. Você deve agir para que receba também esta mesma marca, minha querida, e então, nós três juntos, seremos invencíveis. Poderemos fazer coisas que você sequer imagina. 

Novamente, Ofélia sentiu um arrepio na nuca e um desconforto no plexo solar. Anselmo continuou:

-Vivian está ligada a nós por outras existências. Em outras vidas, nossos papéis foram invertidos - eu era a mãe, ela o pai, e você, a filha. Depois, você foi o pai, ela a mãe, e eu, a filha. Devemos cumprir este ciclo; devemos voltar novamente ao seu mundo, minha querida, novamente como somos: eu o pai, você a mãe e ela, a filha. 

Ofélia estava confusa, e não sabia o que dizer. Amava demais aquelas criaturas, e sentia que era amada por eles. Aquilo era tudo o que importava. Passara toda a sua existência presente sentindo-se deslocada, desconfortável na vida das pessoas que conviviam com ela e muito infeliz. Tinha sempre a sensação amarga de que não pertencia a elas, e não queria pertencer. 

Ela respirou profundamente; a menina adormecera. Olhou para o rosto dela, a pele tão clara e macia, os cabelos loiros, as pálpebras levemente rosadas. Sentiu a respiração da menina contra o seu próprio corpo, e amou-a ainda mais fortemente. Mas de repente, o rosto dela transformou-se no rosto de um homem adulto, e logo em seguida, no rosto de uma mulher. Ambos os rostos nada tinham daquela inocência e leveza; havia algo de muito ruim neles. Ela sentiu uma energia densa e pesada entrando dentro de seu corpo, e tal energia causou-lhe um mal-estar. 

Ofélia quase gritou, mas logo a inocência voltou ao rosto da filha, e ela pensou ter sido vítima de uma alucinação. Abraçou-a com força. Anselmo pôs a mão em seu ombro, e a mão dele pareceu pesada. 


(continua...)






terça-feira, 21 de agosto de 2018

O Lar De Ofélia - parte X






Depois que o corpo foi removido, Bruno se ofereceu para ficar um pouco com Ofélia, mas ela disse que precisava descansar; sentia um enorme cansaço físico e estava emocionalmente esgotada. Os vizinhos das casas abaixo da sua formavam pequenos grupos na calçada junto ao portão, apontando para casa e encolhendo os ombros. Ofélia os viu pela janela, quando Bruno saiu. Viu também quando ele parou e conversou com eles, provavelmente contando-lhes o que tinha acontecido na casa. Aos poucos, todos foram indo embora para suas casas.

À noite, Ofélia cerrou as cortinas e apagou as luzes da casa toda, exceto as do quarto que escolhera para dormir - e que agora ela podia, finalmente, após a morte do pai, chamar de seu quarto. Tomou um banho demorado de banheira, com direito a sais espumantes. 

Pensou nos acontecimentos daquele dia, e duvidou seriamente da sua própria sanidade. De repente, Anselmo e Vivian não passavam de um sonho, uma alucinação causada pela sua imaginação criativa. Passara muito tempo observando aquele quadro... mas... e quanto às coisas estranhas que aconteciam na casa? E quanto aos cômodos que eram magicamente reformados, assim que ela pingava sangue no chão? Quem poderia explicar aquilo? Ofélia achou que deveria buscar ajuda de um exorcista ou de um padre. 

Apesar de não gostar nada de Sarah, a namorada com quem seu pai se encontrava mesmo antes de sua mãe morrer, Ofélia não queria que nada daquilo tivesse acontecido a ela. Vê-la estatelada no piso da sua sala de estar foi uma cena chocante e desagradável, ainda mais quando ela fez questão de, antes de morrer, dizer a Bruno que ela - Ofélia- não era culpada de nada... mas será que não era mesmo? Afinal, fora ela quem trouxera Sarah até à casa! Fora ela quem seguira as ordens de Anselmo quanto a conversar com Sarah no alto das escadas; será que, inconscientemente, ela não tinha mesmo nenhuma ideia do que estava para acontecer? E se não tinha, porque sentira-se tão nervosa? 

Ofélia não era, e jamais seria uma assassina; pelo menos, era o que ela afirmava para si mesma. Mas ela também afirmara a Anselmo que faria tudo o que fosse preciso para que eles pudessem ficar juntos. E se isso incluísse matar pessoas inocentes? Até aonde ela seria capaz de ir para rever seu marido e filha? A saudade que sentia deles chegava a doer, de tão forte. A partir do momento que estivera na presença deles, reconhecera que sua vida não tinha sido nada antes daquele momento, e que toda a sua existência de antes era apenas um tempo no qual ela aguardara por aquele reencontro. 

A água tépida, o perfume suave dos sais de banho e a luz das velas fez com que ela adormecesse. 

Ao abrir os olhos minutos mais tarde, Anselmo estava sentado na beirada da banheira, olhando para ela. Seu semblante estava tenso e fechado, mas desanuviou-se aos poucos quando ela abriu os olhos. Ofélia estendeu a mão molhada e tocou a dele. Com os olhos, perguntou-lhe a razão de tudo aquilo que acontecer na casa naquele dia, e que faria com que ela tivesse que ir a uma delegacia na manhã seguinte, acompanhada de Bruno, para prestar depoimento. Sarah não tinha família, e ela pagaria pelas despesas com o funeral. Era o mínimo que podia fazer.

O cansaço de todo aquele dia morreu diante do leve sorriso de Anselmo. Ele virou a palma de sua mão para cima, segurando a mão dela, e ela sentiu-lhe o calor. De repente, tudo pareceu certo, e ela ficou tranquila, vendo suas preocupações se dissolvendo. 

Anselmo balbuciou:

-Foi preciso, Ofélia. Se quisermos ficar juntos, terá que ser assim.

O coração dela quase parou, falhando uma batida. Ofélia ergueu-se da banheira, pegando a toalha branca felpuda e enrolando-se nela. Anselmo ficou atrás dela, e afastou seus cabelos, cujas pontas úmidas escorriam água. Beijou-lhe o pescoço. E o coração dela quase parou novamente, mas por outro motivo. 

Nos dias que se passaram, Ofélia anunciou que tiraria férias do escritório, o que todos interpretaram como uma necessidade, depois de tudo o que ela estava passando - a morte recente do pai e de Sarah. Sérgio, o sócio de Rony, pensou em questioná-la sobre a casa, pois Rony e ele haviam concordado que ela precisava ser reformada e vendida o mais rapidamente possível, mas achou melhor deixar para uma outra hora; talvez pudessem conversar dali a trinta dias, quando ela disse que voltaria de suas férias. Ofélia pediu a Magda que comprasse passagens para o Chile e fizesse reservas para ela em um hotel agradável por lá, no qual ela e os pais costumavam ir quando tudo ainda estava bem. Ofélia achava melhor que todos pensassem que ela estava viajando. 

Mas ela ficaria na casa, disposta a desvendar todo aquele mistério.

(continua...)




sexta-feira, 17 de agosto de 2018

O LAR DE OFÉLIA - PARTE IX









O LAR DE OFÉLIA - PARTE IX


Dois dias depois, Sarah chegava à mansão. Ao escutar a campainha, Ofélia recapitulava a conversa que tinha tido com Anselmo, para que não se esquecesse de nenhum detalhe. Ele lhe dissera que mostrasse a casa para Sarah, e que ficasse algum tempo conversando com ela no topo das escadas que ligavam os dois andares. Ela perguntou a Anselmo o que precisava ser feito, mas com medo da resposta, porém ele assegurou-lhe que ela não precisava fazer nada, a não ser mostrar a casa. 

Ofélia foi receber Sarah. Sentia-se desconfortável. Um pequeno sentimento de medo apertava suas entranhas, mas ela precisava confiar em Anselmo. Ao entrarem na casa, Sarah começou a caminhar, parando diante de obras de arte que achava que podiam valer um bom dinheiro, e dizendo que ficaria com todas elas - ou não haveria acordo. Ofélia concordava com todas as suas condições, ou fingia que concordava. Admirou a casa, achando-a muito bonita, e pensou no quanto poderia lucrar com ela após a venda. 

-Mas vou deixando logo claro que vou procurar por outra firma de corretagem. Não quero ser roubada pela firma de vocês. 

Ofélia ignorou a ofensa. 


-Gostaria de ver o andar superior?

Sarah pegou a bolsa que tinha deixado sobre a poltrona, dizendo:

-Não. Na verdade, o que eu vi já foi o suficiente. Fico com ela. Mas não será tudo. Quero também o apartamento na praia e a casa que pertenceu ao seu pai. E o carro, é claro.

Ofélia sentiu o sangue esquentar, e o rosto ficar vermelho. Engoliu em seco, o que fez com que Sarah a olhasse com ainda mais mordacidade no olhar ao ver que conseguira seu intuito: irritar Ofélia. Mas Ofélia respirou fundo e engoliu a raiva; não podia estragar o plano.

-Insisto para que você veja o andar superior. Afinal, não quero que diga depois que eu a enganei. Quero que veja com seus próprios olhos que a casa está em ótimas condições. 

Após considerar o que a outra dissera, Sarah concordou:

-Ok, então vamos até lá. Você vai na frente. 

As duas subiram os degraus, e Sarah pode ver mais de perto o maravilhoso lustre de cristal que pendia do teto da sala de estar. Achou tudo maravilhoso, e até considerou ficar vivendo na casa por algum tempo, mas sabia que não poderia pagar pelos altos impostos que uma casa como aquela traria. Lamentou por aquilo, sentindo ainda mais ódio e inveja que pessoas ricas como Ofélia pudessem desfrutar daquilo tudo sem o menor esforço. 

Viram todos os cômodos em silêncio. Sarah estava adorando a casa, mas o sentimento de ódio e inadequação àquele estilo de vida que ela jamais teria, eram bem maiores que o amor pela casa.  Finalmente, ela disse:

-Já vi o suficiente. Amanhã vou até o escritório para pegar a escritura, e espero que a papelada esteja pronta e a contento, pois meu advogado estará comigo para examinar os documentos. 

Na verdade, ela não tinha nenhum advogado; pediria a um conhecido, a quem pagaria, para fazer o papel de advogado, mas ninguém saberia de nada, e então não fariam nada para enganá-la, sabendo que haveria um advogado presente. 

Chegaram ao topo da escadaria, e Ofélia parou. Olhou para baixo, e lembrou-se do tombo que matara seu pai. Sentiu-se tonta, e segurou-se no corrimão. Sarah percebeu, e por um minuto, teve pena dela:

-Então foi aqui que tudo aconteceu... você pode não crer em mim, mas eu sinto muito. Eu realmente amei seu pai.

Ofélia viu que ela poderia estar dizendo a verdade, mas nada respondeu. Fez sinal para que ela começasse a descer as escadas, e Sarah estendeu o pé adiante. Ofélia sentiu seu coração acelerar, pois finalmente compreendeu o que estava para acontecer. Lágrimas vieram aos seus olhos. Ela seria incapaz de assassinar alguém! Anselmo não podia pedir a ela que fizesse aquilo. 

O pé direito de Sarah tocou o primeiro degrau. Ofélia notou que ela usava sandálias prateadas de saltos muito altos. Sarah segurava-se com firmeza no corrimão. Ela chegou ao segundo degrau, descendo-o sem dificuldades. Ofélia começou a descer atrás dela, devagar, tentando manter a distância de pelo menos um degrau entre as duas. Foi no terceiro degrau que Ofélia viu o pé de Sarah vacilar, escutou o salto quebrar-se e o corpo dela projetar-se para o lado do corrimão. Ela ainda tentou segurar-se, mas o desequilíbrio fez com que, automaticamente, ela retirasse a mão do corrimão onde se segurava, agitando-a no ar a fim de recuperar o equilíbrio, o que só fez com que ela caísse para fora das escadas e se estatelasse no piso da sala de estar rapidamente. 

Ela nem teve tempo de gritar. 

Ofélia ficou parada na escadaria, tentando conter as batidas do coração que parecia que ia sair pela sua boca. Olhou para baixo: Sarah não se movia. Um filete de sangue escorria pelo piso onde sua cabeça estava apoiada. 

Ela gritou:

-O que você fez, Anselmo? E o que eu faço agora?


A campainha tocou, aumentando o seu pânico. Anselmo não respondia, e ela estava cada vez mais desesperada. De repente, a coisa mais certa a se fazer parecia ser abrir a porta e relatar para quem quer que estivesse ali o que tinha acontecido. E foi o que ela fez. Ao ver Bruno à porta, ela o abraçou com desespero, arrastando-o para dentro da casa até o local da cena, onde o corpo de Sarah jazia de bruços. Ao ver a moça deitada no chão, ele levou um choque, mas conteve-se e ajoelhou-se junto a ela, checando sua respiração:

-Ela ainda respira. Vamos chamar uma ambulância! 

Naquele instante, Sarah gemeu:  "A culpa... não foi dela."

(continua...)








terça-feira, 14 de agosto de 2018

O LAR DE OFÉLIA - PARTE VIII






Aquele reencontro, que estivera preso no tempo há mais de um século, foi celebrado com muito amor. Ofélia não fez perguntas, porque ela sentia que não tinha muito tempo. Preferiu viver aqueles momentos da melhor forma possível, com muita intensidade. Ela abraçou Vivian e brincou com ela, sempre sendo assistidas por Anselmo, que as olhava com muito amor. Depois que Vivian adormeceu, Ofélia finalmente teve algum tempo sozinha com Anselmo. Notou que ambos estavam ficando também sonolentos. 
Anselmo acariciava seu rosto, enquanto Ofélia tinha deitado a cabeça em seu colo. Era final de tarde, e o sol entrava pela janela. Vivian dormia ao lado deles, no tapete da sala, cansada e feliz. 

-Você não sabe por quanto tempo eu esperei por este momento, minha querida...

-Anselmo... estou tão confusa! Sei quem você é, sei com certeza que Vivian é minha filha, nossa filha... mas ao mesmo tempo, eu tenho uma outra vida! Uma vida que é tão solitária e cinzenta comparada a esta, que eu não sinto vontade de voltar para ela. Como posso fazer para ficar aqui para sempre?

Anselmo deu um sorriso triste:

-Não pode, minha amada... tudo o que temos, são estes momentos, estes reencontros. Há muito tempo fizemos esta promessa, e trabalhamos para que isso que estamos vivendo acontecesse um dia. 

-Mas... como? Eu não consigo me lembrar de nada!

-Porque você reencarnou duas vezes. Há o esquecimento. Eu e Vivian ficamos aqui, esperando pelo dia em que você voltaria para nós. Isso fazia parte da magia.

-Magia?... Então... vocês estão... mortos?

-Sim. Com o tempo, você vai entender.

-Não! Sinto que estou ficando cada vez mais cansada e sonolenta, e preciso saber agora, antes que...

Anselmo tapou-lhe a boca suavemente, com uma das mãos. 

-Shshsh... não diga nada. Você vai entender com o tempo. Talvez seja necessário que você pratique coisas que considera estranhas à sua nova vida, mas à medida que praticá-las, verá que elas vão tornar-se cada vez mais fáceis, mais naturais. Mas você vai ter que ser forte, minha amada. Somente através de tais práticas você conseguirá voltar para nós. 

Sophia enlaçou-o pelo pescoço, dizendo:

-Eu farei qualquer coisa para estar aqui com vocês, meu amor. esta é a minha verdadeira vida. E se eu... se eu cometesse suicídio? 

-Não, não faça isso! Se o fizer, nunca mais nos veremos, e tudo terá sido em vão. Preste atenção, Ofélia: jamais faça uma coisa destas! prometa-me!

-Eu prometo, Anselmo... farei apenas aquilo que me trará de volta.

Ele concordou com a cabeça. Rapidamente, Ofélia sentiu que o rosto dele ia ficando cada vez mais envolvido pela escuridão, e que ela se afastava cada vez mais. Até que despertou novamente, desta vez, sozinha e com muito frio. Sentia-se um pouco tonta e enjoada, e teve que sentar-se devagar para então conseguir levantar-se sem cair. Foi até a cozinha e tomou um gole d'água. minutos depois, sentia-se melhor.

Ao voltar para a sala, deparou com o quadro na parede, e sorriu. Ao mesmo tempo, sentiu uma enorme tristeza, e muito medo: e se ela não conseguisse mais voltar? Nunca mais veria sua família! 

Pensou também em Bruno; o que sentia por ele era reduzido a quase nada quando comparado ao amor que sentia por Anselmo e Vivian. Ela não poderia nunca mais deitar-se com ele; não suportaria mais beijá-lo ou tocá-lo! 

Sofia lembrou-se também do pai, hospitalizado. De repente, ela procurou o amor que sentia pelo pai dentro dela, e não conseguia encontrá-lo; apenas um sentimento de estranheza total, como se ela tivesse sido criada por um estranho que nada significava para ela. 

Na manhã seguinte, Ofélia acordou com o toque do telefone. Era do hospital. Seu pai tinha falecido. 

Ao escutar a notícia pelo telefone, ela nada conseguia sentir. Ouviu a funcionária do hospital dizer que ela deveria comparecer ao hospital levando documentos do pai e uma muda de roupas o mais rapidamente possível. Ela fez uma anotação mental daquilo tudo, e vestindo-se foi até a casa do pai a fim de cumprir o que fora pedido. Também lembrou-se de avisar às pessoas no escritório. 

No hospital, ela pediu para ver o pai, e obteve permissão.

Quando Ofélia entrou no quarto e descobriu o rosto do homem que durante anos chamou de pai, deparou com uma face muito branca e um tanto inchada. Sentiu um pouco de pena, e também repulsa. Não conseguiu encontrar dentro de si o amor que sentia por ele. Deu um longo suspiro, e foi tratar do velório. 

Na sala de velório, Magda aproximou-se dela, chorosa. Os colegas de escritório estavam presentes, e também Sérgio, o sócio. Magda abraçou-a, e ela deixou-se ser abraçada. Notou que Magda era a única que estava chorando. Seu pai tinha sido um homem rico e poderoso, mas na verdade, não tinha muitos amigos verdadeiros. 

Já quase na hora do sepultamento, uma mulher usando um vestido preto lustroso e apertado aproximou-se dela; Ofélia logo reconheceu Sarah, a namorada do pai. Um sentimento de asco tomou conta dela ao apertar a mão que a mulher estendeu-lhe. Ela aproximou-se do caixão, e olhando para Rony, simulou um choro convulsivo. O constrangimento foi geral, pois todos sabiam que tipo de mulher ela era. Se estava ali, com certeza era a procura de alguma vantagem financeira; afinal, Rony mantinha um caso com ela há mais de dois anos, o que ela considerava como sendo uma união estável. 

As suspeitas de todos se confirmaram quando, na manhã seguinte ao velório, ela apareceu no escritório da firma usando enormes óculos escuros e algumas  das muitas joias que Rony lhe presenteara, pedindo para ver Ofélia, que estava em reunião. Sarah disse que esperaria por ela, o que fez durante mais de uma hora, acomodada na confortável poltrona do escritório de Ofélia, onde Magda acomodou-a - afinal, seria melhor que ela não ficasse na recepção, pensou; não era nada bom para a imagem da empresa. 

Magda observou, com olhares prescrutadores, os móveis, pesos de papel e o computador de última geração sobre a escrivaninha de mogno lustroso. Reparou no papel de parede caro, de padrões discretos, e até mesmo no vasinho de violetas que Ofélia mantinha em um dos cantos da mesa. Seus olhos se encheram de inveja. Com certeza, alguma coisa teria que ser destinada a ela, que passara dois anos de sua vida dedicando-se de corpo e ealma (mais o primeiro do que o segundo) a Rony. 

Quando a reunião terminou, Magda aproximou-se discretamente de Ofélia:

-Minha querida, sinto muito, mas há alguém bem desagradável aguardando você em sua sala. Coloquei-a lá temendo algum escândalo, e além do mais, ela não é nada boa para a imagem da empresa. 

Imediatamente, Ofélia compreendeu de quem se tratava. E também o que ela estava fazendo ali. Respirou fundo, e entrou. 

Ao vê-la, Sarah olhou-a dos pés à cabeça, e não fez menção de levantar-se. Sem cumprimentá-la, Ofélia sentou-se em sua cadeira, e cruzando as mãos sobre o abdômen enquanto fazia a cadeira girar para um lado e para o outro, encarando Sarah, aguardou. Sarah sorriu levemente, sem esconder um traço de ironia:

-Sinto muito por atrapalhar logo no dia seguinte ao velório de seu pai, meu bem, mas eu precisava vir até aqui. A vida continua, e há algumas questões práticas que infelizmente devem ser resolvidas. 

Ofélia aguardou, em silêncio. Sarah continuou:

-Então... você sabe que seu pai e eu praticamente morávamos juntos, e que ele pôs alguns bens em meu nome, como um carro e um apartamento na praia. Algumas joias não muito valiosas... mas a minha dedicação e o meu tempo merecem uma compensação melhor. Tínhamos uma união estável. 

Ofélia riu. Sarah torceu os lábios. Ofélia disse:

-Pois é, minha querida... finalmente, poderei mandar você para o lugar de onde nunca deveria ter saído: os quintos do inferno! Você não vai levar nem mais um centavo! E fique feliz porque eu sei que o carro em questão não está em seu nome, mas não pretendo tirá-lo; porém, o apartamento na praia, que está em nome da firma, será vendido hoje mesmo. Tire sua lixarada de lá o quanto antes, ou jogaremos tudo fora. 

Sarah ergue-se da cadeira, erguendo também a voz:

-Se você pensa que vai me jogar para fora do jogo assim, do nada, está muito enganada! Conheço jornalistas que transformarão a imagem desta firma em lixo puro ao simples toque de um telefone! Não brinque comigo, sua fedelha, ou saberá quem é Sarah Bastos de Amoedo! Não tenho ninguém nesse mundo, não tenho família, mas respondo por mim mesma e sei defender meus interesses e meus direitos! Além disso, tenho um bom advogado que me garantirá que eu obtenha tudo o que é meu! 

Ofélia levantou-se, e fechou a porta do escritório. Naquele momento, escutou uma voz muito nítida e amada dentro de sua cabeça; era a voz de Anselmo: "Traga-a até a casa!"  Ao ouvir a voz dele, Ofélia sentiu uma imensa calma, e sabia que o problema seria resolvido, e de forma definitiva. Apenas ouvir a voz dele dava-lhe aquela sensação de paz. Recompôs-e, dizendo:

-Vamos negociar.

Sarah voltou a sentar-se, assumindo um ar de poder.

-Agora sim, eu acho que você me entendeu. 

Sarah olhou-a com cuidado, e após alguns segundos, disse:

-Temos esta casa... na verdade, uma mansão. Está avaliada em alguns milhões. Gostaria de vê-la? Poderá ficar com ela, se gostar. 

-Agora estamos falando a mesma língua, mocinha. Quando podemos ir até lá?



(Continua...)





sexta-feira, 3 de agosto de 2018

O Lar de Ofélia - Parte VII










O LAR DE OFÉLIA - Parte VII



Depois de fazerem amor, Ofélia e Bruno conversavam na cama. Ela contou-lhe sobre a queda de Rony da escada e que seu pai estava hospitalizado, e Bruno a escutou com atenção. Após pensar durante alguns minutos, enquanto acariciava os cabelos dela, que estava abraçada a ele na cama, Bruno disse:

-Ofélia... você disse que seu pai caiu da escada enquanto dizia a você que venderia a casa...

-Sim. Por que?

-Pense: quando chamei você para ir embora comigo, a casa estalou e as portas bateram como se ela estivesse protestando. Será que a queda de seu pai não foi causada pelo que ele disse?

Ofélia sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Tinha anoitecido, e exceto pelo abajur ao lado da cama, a casa estava completamente às escuras. Bruno poderia estar certo. Ela apoiou a cabeça no antebraço a fim de olhar para ele:

-Você pode estar certo, Bruno... mas... se isto aconteceu, é porque ela quer que eu fique aqui com ela... existe alguma coisa que eu preciso descobrir.

Ele sentou-se na cama, e ela olhou para suas costas musculosas. Apesar do rosto de menino, Bruno era um homem e tanto, pensou. Ele se levantou, vestindo as calças e procurando por sua camiseta de malha, que deslizou pelo pescoço rapidamente. Ao sentar-se para calçar os tênis, ele disse:

-Eu não gosto disso, Ofélia. Se eu fosse você...

E então ele se calou, olhando-a nos olhos e inclinando-se para beijar-lhe  a ponta do nariz. Ela quis puxá-lo para a cama novamente, mas ele protestou:

-Tenho que ir, ou meus pais estarão aqui atrás de mim daqui a pouco. 

Aquilo quebrou o encanto que havia entre eles, e ela sentou-se na cama, enrolando os cabelos e prendendo as pontas em um coque. Alcançou seu vestido, que estava aos pés da cama, e vestiu-se também, enquanto ele caminhava até o corredor. Ao chegar ao alto das escadas, Bruno olhou para baixo e segurou firme no corrimão antes de começar a descê-las bem devagar, sentindo, o tempo todo, um calafrio de medo. Ofélia desceu logo atrás dele, e enquanto passavam pelos cômodos até a porta de entrada, ela ia acendendo as luzes da casa. 

Antes de sair, ele a olhou e fez uma carícia em seus cabelos. Ofélia sentiu que estava se apaixonando por aquele menino, o que talvez não fosse uma boa ideia. Quando ele se foi, ela voltou ao porão e continuou seu exercício de olhar para a pintura tentando fazer com que alguma resposta chegasse até ela. 

Na manhã seguinte, foi ao hospital ver o pai, mas teve a notícia de que ele ainda continuava em coma induzido. Havia um inchaço no cérebro, e seu estado era grave. Ofélia pensou na possibilidade de ter sido a casa a causadora de tudo aquilo, e sentiu uma onda de culpa invadi-la.

 Mais tarde, ela foi trabalhar, resolveu alguns assuntos pendentes e depois saiu cedo - logo após o almoço - alegando que não estava se sentindo bem. Magda, a secretária de Rony, uma mulher de meia idade magrinha e pequena, que trabalhava na firma há mais de vinte anos, perguntou se havia alguma coisa que pudesse fazer para ajudá-la:

-Se quiser, posso passar a noite com você. 

-Agradeço, Magda, mas vou ficar na casa de uma amiga esta noite. 

-Qualquer coisa, é só me ligar. Sabe que estarei aqui para você. Eu estou muito preocupada com você, Ofélia. 

Ofélia viu a sinceridade no olhar de Magda. Depois da morte da mãe, ela enxugara suas lágrimas algumas vezes. Confiava nela, e a admirava. Abraçou-a, lamentando estar mentindo para ela, dizendo:

-Eu vou ficar bem, não se preocupe. Minha amiga está me esperando, eu já tinha dito a ela que chegaria mais cedo em casa. Vou indo... obrigada mais uma vez.

Ofélia dirigiu-se para a casa. ao passar pela casa de Bruno, sentiu-se aliviada por não vê-lo por lá. Queria ficar sozinha na casa. 

Naquela noite, ela foi até o porão e levou o quadro para dentro da casa, pendurando-o na sala de estar, na parede oposta à lareira. Assim, podia sentar-se em frente a ele e contemplá-lo com mais atenção e conforto. E foi o que ela fez. Enquanto o olhava, cenas de sua própria vida iam passando pela sua cabeça; cenas que a deixavam um tanto deprimida. lembranças dos tempos de criança, de algumas amigas da escola que nunca voltara  a ver, da casa onde crescera - agora ocupada por seu pai e suas namoradas que ela detestava. Ofélia pensou no quanto era solitária, e no quanto sua vida era vazia e triste. Apesar de todo o dinheiro de sua família, ela não tinha uma vida, não tinha amigos e jamais saía para se divertir. Normalmente, ela  tentava evitar aqueles pensamentos sombrios, devorando livros e filmes uns atrás dos outros, mas desde que chegara na casa, não o fizera, e as memórias correram a acumularem-se à tona de seus pensamentos, transbordando em uma cascata que ela não conseguia mais fazer parar. 

De repente, ela notou que alguma coisa estava acontecendo: apesar de estar sentada na mesma poltrona, na mesma sala, diante do mesmo quadro, alguma coisa parecia diferente. Ela percebeu que as roupas que usava eram outras. Ofélia escutou passos no corredor, passos leves de criança, que logo se transformaram em uma corrida. Ela sentiu um calafrio de medo percorrer sua espinha, e quis gritar ou mover-se, mas não conseguiu. Viu quando uma menina loira de olhos claros - a mesma com a qual sonhava quase todas as noites, desde que chegara lá -  correu em direção a ela, sentando-se no seu colo como se a conhecesse há muito tempo. Os braços da menina envolveram seu pescoço em um abraço carinhoso, e ela deitou a cabeça em seu peito, murmurando uma canção. 

Ofélia notou que o vestido dela parecia antigo, e que ela usava um laço de fita rosa no alto da cabeça. Ofélia sentiu o cheiro leve de lavanda emanado pelo vestido da menina, e a maciez de seus cabelos de encontro ao seu rosto. Abraçá-la foi a coisa mais natural a fazer, e quando o fez, começando a embalar a menina como se estivesse em um sonho, tudo se encaixou: Vivian. O nome da menina era Vivian, e ela era sua filha amada!

Ela sentiu que lágrimas brotavam dos seus olhos, e que uma saudade antiga, há muito tempo guardada, estava sendo finalmente realizada. Ofélia sorriu, fechando os olhos e apertando a menina contra o corpo, enquanto balançava-a no colo como se a ninasse. A vida agora fazia todo o sentido: tudo o que passara a preparara para viver aquele momento exato, naquela casa. Pegou a mãozinha da menina, levando-a aos lábios. Vivian olhou para ela, dizendo:

-Eu senti tanto a sua falta, mamãe! Prometa que não vai mais embora!

Antes que Ofélia pudesse responder, ainda tomada pela emoção daquele momento, ela viu um homem parado à porta da sala, olhando para elas. Parecia muito surpreso, um tanto confuso. Era o homem da fotografia. Anselmo. O pai de sua filha. Seu marido tão amado. 

(continua...)

segunda-feira, 30 de julho de 2018

O Lar de Ofélia - parte VI









O Lar de Ofélia - Parte VI


Três dias depois, Ofélia começou a viver na casa. Rony estava hospitalizado, ainda inconsciente. Por mais que ela sentisse pelo que acontecera ao pai, ela estava aliviada, pois sabia que enquanto o pai não se recuperasse, ela poderia evitar a venda da casa; mentiu ao sócio, dizendo que Rony ainda queria decidir sobre algumas coisas antes de colocar a casa à venda, e que deixara que ela pensasse nos itens da reforma - Sérgio, o sócio, não sabia da mudança drástica pela qual a casa passara, e ela não tinha  a menor intenção de contar a ele. Voltara ao velho porão, onde encontrara a pintura do rapaz que parecia ter conhecido um dia. Ela passava muito tempo diante da pintura, e a cada vez, algum traço de lembrança chegava a ela; algum tipo de alucinação ou memória? Era o que ela pretendia descobrir. Começou a ler sobre vidas passadas e reencarnação, e achou que talvez fosse o caso, mas nada havia nos livros que explicasse a reação da casa ao sangue humano. Ela tentara usar sangue animal, que trouxera consigo do mercado de carnes, com o mesmo propósito, mas não obteve efeitos. 

Sempre que chegava do trabalho e percorria de carro a ruazinha que conduzia à casa, ela encontrava bruno, o rapaz da bicicleta. Às vezes parava e conversava com ele por alguns minutos, e sentia que os olhos dele percorriam seu rosto e cabelos, e sabia exatamente como ele se sentia a respeito dela. Ofélia envaideceu-se, pois não estava muito acostumada àquele tipo de atenção. Passara a maior parte de sua juventude tomando conta da mãe doente, e mais tarde, trabalhando para seu pai. Ela gostava daquilo, e se descobria olhando para Bruno da mesma forma que ele a olhava, embora  a
diferença de idade entre os dois a preocupasse. 

Em um final de tarde sexta-feira, ela o convidou para ir com ela até a casa, e ele entrou no carro ao lado dela. A presença dele, quente e acessível, despertou-lhe sensações agradáveis. 

Quando chegaram diante do portão e Bruno olhou para a acasa, deixou escapar um assobio de admiração:

-Uau! O que foi que você fez? A casa estava caindo aos pedaços! Eu... ela estava em ruínas, quero dizer, desde que me conheço por gente, ela... e em tão pouco tempo, e eu simplesmente não vi nenhum caminhão carregando material de construção até aqui! Como foi que...

Enquanto falava, ele saiu do carro e começou a rodear a casa, andando pelo jardim e olhando em volta, boquiaberto. Ofélia puxou-o para dentro da casa, e ao chegarem no salão, sentou-se com ele no sofá, e disse:

-Você sabe guardar segredos, Bruno?

Ele balançou a cabeça, rindo e concordando:

-Acho que sim. Bem, nunca me contaram um, mas acho que sou bom nisso. 

Ofélia deixou-o lá, mandando que esperasse, e dirigiu-se à cozinha, voltando com uma faca. Ao ver o que ela segurava, Bruno engoliu em seco:

-Você não pretende me contar o segredo e me matar depois, não é?

Ela riu:

-Não! Mas venha comigo.

Ele a seguiu até os fundos, num pequeno banheiro que antigamente era usado por empregados da casa, e que se encontrava, ao contrário do restante da casa, em péssimo estado: os azulejos que restavam nas paredes estavam rachados, e havia muitos outros quebrados no chão. Tudo estava muito sujo, e as paredes descascavam. 

Ofélia ergueu a manga da blusa, e Bruno viu as marcas de cortes no braço dela. Já tinha visto filmes sobre adolescentes que se cortavam, mas Ofélia já não era uma adolescente há algum tempo. Não teve tempo de dizer nada, e observou, apavorado, quando ela passou a faca no lado interior do antebraço como se estivesse muito acostumada a fazer aquilo, e o sangue escorreu até o chão em uma pequena cascata vermelha. 

Ele ia protestar, quando para sua surpresa, viu que uma transformação ocorria diante dos seus olhos: tudo começou a se restaurar em um passe de mágica! O rapaz estava perplexo e maravilhado. 

-Será que eu estou sonhando??? Como você faz isso, Ofélia?

-Não sou eu. É ela. A casa. E eu quero descobrir. Bruno, preciso que você me diga tudo o que sabe sobre o antigo dono, aquele senhor que morava aqui. Tentei localizá-lo, mas foi como se ele tivesse desaparecido no ar. Não está em lugar nenhum, e o telefone que eu tinha também dá número inexistente. 

-Eu... eu não sei nada sobre ele. Não vinha muito aqui, e quado vinha, não falava com ninguém. Às vezes eu e meus amigos ficávamos espionando, mas ele nunca saía de dentro de casa, e tínhamos medo de entrar para ver melhor. Essa casa é um tanto... sinistra, se é que você me entende. 

Ela concordou com a cabeça, e replicou:

-Eu sei. Concordo. Mas ela e eu estamos conectadas de alguma forma. 

Ele a olhou muito sério, antes de dizer:

-Se eu fosse você, daria o fora daqui e não olharia para trás. 

-Eu já pensei em fazer isso, mas...

Naquele momento, ambos escutaram uma porta bater com força no andar de cima, e as paredes da casa tremeram e gemeram, como se ela estivesse para desabar. Os dois se entreolharam, e Ofélia concluiu, sussurrando:

-É melhor não dizermos mais nada parecido com isso... parece que ela não gostou do que ouviu. 

Bruno estava corado, e o suor escorria de sua testa. Ele o secou com as costas do braço. 

-Cara, eu... ficar aqui está me deixando um tanto nervoso. - e em voz baixa, quase sussurrada:)  Acho que eu vou embora. E acho que você deveria vir comigo.

-Não. Eu vou ficar e descobrir o que está acontecendo. Pensei que você pudesse me ajudar...

Quando Bruno olhou para o rosto de Ofélia, sentiu por ela uma paixão incontrolável, mais forte do que tudo que já sentira antes na sua curta vida. Ele se aproximou, e parou diante dela, até que os dois aproximaram seus rostos um do outro ao mesmo tempo, e se beijaram. Naquele instante, ele entendeu que estava preso a ela, assim como ela estava presa à casa. 

As horas que se seguiram foram vividas com toda luxúria na suíte principal; o tempo todo, eles sentiam que alguém os observava, e que talvez tal pessoa - ou entidade - gostasse do que via, e tirasse proveito daquilo, como um voyeur que toca o próprio corpo ao observar outras pessoas fazendo sexo, mas aquilo, ao invés de diminuir o desejo, fazia com que ele aumentasse. 

(continua...)

quarta-feira, 18 de julho de 2018

O LAR DE OFÉLIA - PARTE V







No dia seguinte, quando voltou à casa, Ofélia estava a companhada do pai, que ela praticamente obrigara a ir com ela. Quando pararam seus carros em frente ao portão, o pai de Ofélia olhou para a casa e deixou escapar um 'Oh!' de admiração:

-Mas... eu pensei que a casa fosse... achei que ela estivesse... nossa! Mas conseguiremos um bom dinheiro nesta casa, e sem gastar quase nada!

Ofélia não gostou de ouvir aquilo, e disse:

-Pai, eu não pedi a você que viesse aqui para falar em dinheiro... já disse, quero comprar a casa com minha parte na herança de mamãe.

-Ora, mas você não precisa desta casa. Além do mais, se usar o dinheiro para comprá-la, ficará praticamente sem nada. Não posso deixá-la abaixo do preço de mercado, e esta casa vale uma fortuna, filha. 

Irritada, Ofélia ergueu a voz:

-Mas... pai... eu nunca lhe pedi coisa alguma nessa vida! Tomei conta de mamãe por anos durante a sua doença! Perdi parte da minha juventude para que você pudesse cuidar dos negócios da família e também... das suas... aventuras!

-Alto lá, mocinha! Com que direito me julga? Sua mãe e eu não tínhamos nada um com o outro há anos, desde que ela adoecera! Eu tenho minhas necessidades de homem!

-Não o julgo, pai, mas... você precisa ver o meu lado!

-O seu lado, é que você mora em um apartamento excelente que eu coloquei no seu nome, tem dinheiro para viver confortavelmente a vida toda e herdará um império quando eu me for.

Dizendo aquilo, ele caminhou em direção ao portão; chegando lá, lembrou-se de que não tinha a chave, e estendeu a mão a ela, pedindo-a. Ofélia bufou, e remexendo na bolsa, entregou-a a ele. Rony girou a chave na velha fechadura, e abriu o portão, que rangeu, como se reclamasse. Quando pôs os pés no jardim, ele sentiu uma leve pontada, um incômodo quase imperceptível no lado esquerdo do peito. Achou que talvez estivesse com os músculos doloridos, já que tinha ido à academia na noite anterior. 

Rony entrou na casa, e Ofélia o seguiu. Arrependera-se de ter feito o que fizera; deveria ter deixado que o pai visse a casa da forma como ela tinha sido comprada. Exasperada, ela pensava no quanto tudo para ele era uma questão de dinheiro, de lucros. Ele caminhava pela casa sem sentir qualquer emoção, os pensamentos fixados no quanto poderia conseguir com ela. Olhou os móveis rapidamente, avaliando-os; eram antiguidades originais, ele conhecia muito bem aquele estilo. Se conseguisse vendê-las junto com a casa, lucraria ainda mais; caso contrário, qualquer antiquário de respeito ficaria contente em pagar um alto preço por aquela mobília. 

Ofélia o seguia, sentindo seu coração murchar. Tinha certeza de que perdera a sua batalha. De repente, ele se virou para ela, e disse:

-Você não poderia viver nesse casarão sozinha. Seria perigoso demais, e além disso, você é muito jovem, filha. Precisa fazer amigos, voltar a estudar, quem sabe... arranjar um bom casamento.

-Mas pai...

-Está decidido: amanhã mesmo falarei com Sérgio, e a casa será colocada à venda!

-E não há nada que eu possa fazer para convencê-lo do contrário, não é?

Ela tinha os olhos rasos d'água. O pai respirou fundo, mas não cedeu:

-Não. Mais tarde, se desejar mudar-se do apartamento, poderemos encontrar um outro ainda melhor para você. Mas não esta casa, filha. Negócios são negócios.

Eles estavam de pé no alto das escadarias da casa, voltando do andar superior.

Ofélia pensava em como faria para convencer o pai a mudar de ideia; havia uma conexão muito forte entre a casa e ela, e não havia como negar o fato. Ela queria descobrir mais sobre a casa. Nem pensava que gostaria de viver ali, pois ao mesmo tempo que  a fascinava, a casa dava-lhe medo, mas Ofélia sabia que precisava descobrir o mistério daquela casa, pois ele tinha  a ver com sua própria história.

Ela estava descendo as escadas logo atrás do seu pai, envolvida por aqueles pensamentos, quando de repente, ela o viu perder o equilíbrio e projetar o corpo para frente. Não teve tempo de fazer nada a fim de impedir a queda, que se deu de repente: apática, Ofélia ficou estatelada, vendo o pai rolar degraus abaixo, e o ruído de ossos se partindo. Era uma escadaria de mármore, antiga e gelada, e não havia sequer um tapete para amortecer o impacto do corpo contra os degraus.

Quando o corpo de Rony aterrissou no sopé das escadas, Ofélia viu um fio de sangue escorrer da testa do pai. Assim que ele tocou o chão, o piso assumiu uma aparência ainda mais nova, e um tapete riquíssimo começou a surgir, e também alguma mobília antiga, mas luxuosa e em perfeito estado.

Quando Ofélia finalmente caiu em si e conseguiu recuperar-se do choque, ela correu escadaria abaixo, e ajoelhando-se ao lado do pai, passou a sacudí-lo e chamar por ele:

-Pai! Pai! Fale comigo, por favor!

Mas não houve resposta. Ela conseguiu recuperar a calma o suficiente para pegar o celular e chamar uma ambulância.


(continua...)


segunda-feira, 18 de junho de 2018

O Lar de Ofélia - Parte IV










A manhã silenciosa deixou-a nervosa. Havia uma névoa cobrindo tudo, as montanhas ao longe, os topos das árvores do jardim. Enquanto caminhava pela casa, tentando sentir as energias que, cada vez mais, se conectavam com ela, Ofélia pensava nos últimos acontecimentos. Achava que poeria estar ficando louca. Afinal, não era nada normal que o sangue de uma pessoa fizesse parte de um jardim seco e morto crescer diante dos olhos de repente. mas quando Ofélia olhava da janela, via que parte do jardim, a que estava |à direita da casa, onde ela se ferira no dia anterior, estava linda e viçosa, enquanto a parte esquerda continuava um amontoado de plantas ressequidas e feias. 

Ela olhou para a própria mão, e teve um impulso: levou o dedo indicador aos lábios, apertando um pedaço de pele entre os dentes até sangrar. Precisava tirar a prova daquilo tudo. A dor aguda e o gosto metálico fizeram com que Ofélia soltasse um gemido. E enquanto o sangue escorria da ponta de seu dedo (ela mordera a parte lateral junto à unha), Ofélia esticou a mão para fora da janela e deixou o sangue cair sobre o solo lá fora. Parecia uma cena de filme: assim que a primeira gota tocou o chão, uma onda verdejante começou a surgir a partir dela. Boquiaberta e sentindo algo entre maravilhada, fascinada e apavorada, Ofélia deixou escapar um pequeno grito de surpresa. Logo, ela viu camélias se abrindo em pequenas e moles nuvens brancas sobre o verde escuro das folhas; a grama cresceu e aveludou-se. As árvores tornaram-se frondosas, suas folhas farfalhando à brisa da manhã.

Acidentalmente, ela tocou o parapeito da janela com  a mão ferida, ainda sangrando. A tinta, rachada e desbotada, refez-se imediatamente, voltando à cor original - molduras azul-claras e caixas cor de creme. Extasiada, ela espremeu o dedo e foi de cômodo em cômodo, tocando janelas e portas, que imediatamente assumiram aparência de novas. Quando o dedo parou de sangrar, ela pegou dentro da bolsa um alicate de unhas e, antes de fazer o que tinha em mente, respirou fundo, cortando-se. Desta vez, Ofélia fez um talho maior, no dedo médio, para que este sangrasse mais profusamente.

Ao final daquele dia, Ofélia tinha as mãos sujas de sangue e cheias de cortes - encontrara uma faca na cozinha. A casa estava quase toda renovada, através do sangue dela. 

Não tinha jeito: seu pai teria que vender a casa para ela. Ofélia sentia que não poderia mais separar-se dela - elas eram uma, unidas por alguma história fantástica que ela pretendia desvendar. Pensou em passar a noite na casa, mas achou melhor ir embora, a fim de não chamar atenção. 

Ela abriu o tablet, apagando as fotografias da casa que havia obtido no dia anterior e produzindo novas, já com a casa renovada. Mandou-as ao pai, atendendo ao pedido dele. 

Antes de deixar a casa, Ofélia parou no portão e olhou para ela, que parecia estar se comunicando com ela; ela pensou que se a casa pudesse falar, teria dito "Até amanhã."

Quando chegou em seu prédio, a expressão assustada do porteiro ao vê-la coberta de sangue a fez lembrar que se esquecera de lavar as mãos, e quando passou pelo espelho da recepção do prédio, notou que sua blusa branca estava também toda manchada de sangue. Ela a tocara sem perceber. Ofélia entrou no elevador, e enquanto a porta se fechava, acenou alegremente para o porteiro, que a seguira, o rosto espantado. Ainda teve tempo de dizer, antes da porta se fechar: "Não é nada, foi um corte no dedo." 

Já em seu apartamento, assim que entrou em casa e religou o celular, ele começou a pipocar mensagens do pai, querendo notícias dela. Ela respirou fundo, e enquanto se despia para tomar banho, ligou para ele, colocando o aparelho em viva-voz:

-Oi, Pai. Eu estava na casa, recebeu as fotos?

-Sim, mas... eu não entendo! O Sérgio, que foi ver a casa antes de fecharmos a compra, tinha me dito que ela estava em péssimo estado. As fotos que você me mandou mostram algo totalmente diferente!

-Ora, pai... eu disse que ela não estava tão ruim assim. 

-Mas... esta casa... tem certeza que é a mesma que o Sérgio foi ver?

-Claro. A não ser que ela tenha se "auto-reformado." 

Dizendo aquilo, ela deu uma gargalhada.

-Vai deixar eu ficar com a casa, pai? 

Ele demorou um pouco antes de responder:

-Conversaremos amanhã no escritório. Você vai trabalhar amanhã, não é?

-Claro que sim. Aliás, eu trabalhei hoje também, fiquei o dia todo na casa. Eu... pai, eu nunca pedi nada a você. Por favor, pense com carinho no meu pedido.

-Veremos.


(continua...)




terça-feira, 5 de junho de 2018

O Lar de Ofélia - Parte III







O Lar de Ofélia Parte III


Quando Ofélia deixou a casa, já estava bem escuro. Ela parou diante do portão antes de trancá-lo, e teve a impressão de que a casa olhava para ela, tanto quanto ela olhava para a casa. As últimas fotografias que tirara, que mostravam as mudanças repentinas no jardim, estavam no tablet. 

 Ao chegar em seu apartamento, telefonou imediatamente ao seu pai:

-Pai, estive na casa.

Ele parecia entretido com alguma outra coisa - ela conseguiu escutar o jogo de futebol ao qual ele assistia. Ele resmungou:

-Oi, filha. Podemos conversar sobre os detalhes amanhã?

Ofélia insistiu:

-Não! Quero falar hoje. Pai, quando a mamãe morreu, você me perguntou se eu queria a minha parte na herança dela, e eu disse que não. Mudei de ideia. Eu quero a minha parte agora. Amanhã, ou o mais cedo possível!

Do outro lado da linha, Rony - o pai de Ofélia - pegou o controle remoto e diminuiu o volume da TV, sentando-se ereto no sofá. Estava a costumado ao modo submisso de ser da filha, sempre cordata, sempre desinteressada em bens materiais, e aquela declaração o assustou.

-Mas... por que isso agora, Ofélia? O que a fez mudar de ideia? Não vá me dizer que está com problemas de saúde!

-Não, pai, eu estou ótima. Acho que nunca estive melhor. Mas...

Antes de prosseguir, ela parou e pensou quais pedaços daquela história valeriam a pena serem contados ao seu pai, e para que ele não mandasse que ela fosse interditada e posta em um manicômio, Ofélia achou melhor omitir certas partes dos acontecimentos daquele dia:

-Na verdade, eu estou apaixonada pela casa.

Enquanto dizia aquilo, ela sentia que não era bem assim; Ofélia sentia que havia uma conexão entre a casa e ela, mas não saberia definir, ao certo, se a casa lhe causava medo, pavor mesmo, curiosidade ou qualquer outro sentimento. Só sabia que 'paixão' não era bem a palavra certa, embora fosse adequada a fim de convencer o pai a vendê-la para ela. O pai soltou o ar de repente, como se tivesse levado um soco no estômago. Nunca tinha ouvido aquela expressão - 'apaixonada' -  saindo da boca de sua filha! Lembrou-se dos poucos namorados que ela tivera, e que nenhum deles durara; lembrou-se do cuidado e esmero com o qual ela cuidava da mãe, da expressão piedosa, mas inabalável, que ela mantinha enquanto a mãe gemia de dor em seus últimos momentos, e dos olhos secos durante o velório. Paixão não era, definitivamente, uma palavra que combinava com ela.

-Ora, Ofélia... você, apaixonada por um casarão velho caindo aos pedaços? Mande-me as fotos por e-mail!

-Na verdade... ela não está tão ruim assim... eu... tirei algumas fotos, mas ... elas não ficaram muito boas. Acho que o tablet está com defeito. Voltarei lá amanhã para tirar outras. Mas pai, eu nunca pedi nada a você. Nunca! Esta é a primeira vez. Me deixe ficar com a casa!

-Mas eu não entendo! Eu estaria, aliás, nós estaríamos perdendo um grande negócio! Após reformada, ela valerá uma fortuna!

Ela sentiu-se desanimada, e não respondeu. Será que o pai teria coragem de negar-lhe aquele pedido? Ele já era um homem rico e poderoso, e nada custaria vender-lhe  a casa. Não ficaria arruinado nem nada, e ainda receberia de volta o dinheiro que tinha pago por ela. Rony sentiu a decepção dela, e disse:

-Olha, filha, eu vou pensar e te dou a resposta amanhã, ok? Agora estou assistindo ao campeonato nacional. Meu time está jogando.

Naquele momento, uma bela mulher foi juntar-se a ele no sofá da sala, e ele fez sinal para que ela não fizesse barulho. Não queria que Ofélia soubesse ainda sobre sua nova namorada. A mulher seminua passou as pontas dos dedos sobre o abdômen dele, fazendo cócegas, provocando-o. Ele segurou a mão dela, e repetiu à filha antes de desligar:

-Nos falamos amanhã, filha Durma bem. 


No dia seguinte, após sua corrida matinal, Ofélia aprontou-se, e ao invés de ir ao escritório, dirigiu-se à casa. Deixou algumas mensagens para sua secretária sobre algumas tarefas e reuniões que queria adiar, dizendo que não iria ao trabalho naquele dia, e depois disso, desligou o celular. Não queria falar com mais ninguém naquele dia. Não queria interrupções enquanto ela fazia seu tour pela casa. 

Ao chegar na rua, viu Bruno, o menino que a ajudara a encontrar o caminho no dia anterior. Buzinou para ele., e continuou dirigindo, mas notou que ele a estava seguindo em sua bicicleta, então parou o carro, abrindo a janela para falar com ele:

-Olá, Bruno. Deseja alguma coisa?

Ele a cumprimentou sorrindo,  com um aceno de cabeça, sem descer da bike:


-Olá, Ofélia. Tudo bem lá na casa?

-Sim, tudo... obrigada por me ajudar a char o caminho ontem. Agora eu... preciso ir.

Ela viu que o garoto tinha os olhos presos no decote 'V' da blusa de malha que ela usava. Aquilo deixou-a constrangida, e fechando a janela, ela disse:

-Já vou indo. Até um dia.

Bruno ficou olhando o carro se afastar, e pensando no que faria se tivesse uma mulher daquela em sua cama. Pelo retrovisor, Ofélia viu-o fitando-a. Pensou  no quanto garotos têm a imaginação fértil e a libido nos píncaros, e acabou rindo sozinha. Imaginou quantos anos ele poderia ter: dezoito, quem sabe? Se estivesse certa, aquilo deixava-o nove anos mais jovem do que ela, que não tinha a manor inclinação para envolver-se com caras mais novos. Afastou aquele pensamento - e todos os outros - ao avistar a casa.

O portão de ferro abriu-se sozinho, e ela ficou boquiaberta, pensando no quanto a casa parecia adivinhar o que ela queria. Lembrou-se de ter trancado tudo antes de sair, na noite anterior. Após recuperar-se da surpresa, Ofélia dirigiu o carro novamente, entrando, enquanto o portão voltava a fechar-se atrás dela. 

(...continua...)




O LAR DE OFÉLIA - PARTE XII

Bruno chegou ao portão da casa e olhou para dentro, através das grades pesadas de ferro. Há dias não via Ofélia. Ela simplesmente...