quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

MADRE - Capítulo 2






MADRE - Capítulo 2 

Fui despertada  bem cedo em uma manhã de sábado pelas vozes dos meus pais na sala do apartamento. Minha mãe dizia:
- Eu vi um homem estranho... rondava o prédio... estava tomando notas em um bloco de papel...
Meu pai respondia:
-Não, não pode ser... estamos a quilômetros de distância!
E o diálogo continuava, em vozes sussurradas:
- Precisamos ir embora agora! Ela nos encontrou!
-Mas... a festa... Aisha...
-Esqueça a festa. Vou fazer as malas. Não podemos correr nenhum risco.
-Mas Fernanda, estamos tão bem aqui!
- Não podemos ficar mais, Jairo Seremos encontrados. Não podemos esperar!
-Mas... meu emprego, tudo está indo tão bem, e... o que diremos a Aisha??? Não podemos esperar a festa? É Daqui a três dias.
-Não! Você não entende? Precisamos ir agora mesmo!

E o meu mundo que já estava quase perfeito, construído ao longo daqueles cinco anos, ruiu em menos de um minuto quando meu pai bateu à porta do meu quarto para me explicar que precisaríamos nos mudar novamente. Porém, àquela altura da vida, eu já tinha amadurecido o bastante para exigir uma explicação. Não obedeceria sem saber o que estava acontecendo, e o motivo pelo qual estávamos fugindo há tantos anos. Quem nos perseguia? Por que? Eu queria respostas, e estava disposta a lutar por elas. 

Aos trancos e barrancos, sendo praticamente arrastada para fora do apartamento por meus pais, entrei no carro sem poder sequer despedir-me de meus amigos. Nem cancelamos a festa, que já estava totalmente paga e pronta para acontecer. Todos os convites já tinham sido distribuídos, e pensei na cara dos meus amigos quando chegassem para uma festa de quinze anos na qual a debutante e seus pais estariam ausentes. Pensei na casa maravilhosa que meus pais tinham comprado, e que eu já visitara, e que estava sendo decorada naquele momento para que pudéssemos nos mudar. 

Eu odiava meus pais. Sentada no banco de trás do carro, eu tentava conter as lágrimas que caiam aos borbotões. Pensava em meus amigos, na escola, nos professores, e a cada pensamento e lembrança, eu afundava um pouco mais. Nunca mais estaria com eles. Nunca mais abraçaria minhas amigas ou iria às festinhas que elas organizavam. 

Minhas lágrimas embaçavam a paisagem lá fora, que já estava cinzenta e prenunciava uma tempestade para breve. Meus pais permaneciam calados. O silêncio que reinava no carro era quase insuportável, e a atmosfera estava tão pesada, que meus ombros doíam. 

Quando eu perguntava o porquê de estarmos fugindo novamente, minha mãe dizia que assim que encontrássemos um novo lugar (estávamos dirigindo para longe sem destino, apenas para o mais longe possível de onde estávamos, deixando para trás todas as nossas coisas), eles me contariam tudo. Lembrei-me de repente do meu vestido verde que ficara para trás, pendurado no cabide do quarto de Tina para que fosse passado. Doía ainda mais o meu coração saber que Tina nem tinha sido avisada que tínhamos partido, pois ela estava passando alguns dias no sítio de uma amiga, e lá não tinha wi-fi ou sinal de celular. Meu pai disse que entraria em contato com ela mais tarde. Ela não teria sequer onde morar quando voltasse! Eu não podia entender ou aceitar o que meus pais estavam fazendo. O que seria de Tina? O que seria dela, eu repetia incessantemente. Minha mãe prometia que mandaria passagens para que ela nos seguisse quando encontrássemos um lugar para ficar, e que eu não me preocupasse com ela, pois ela tinha uma conta reserva em um banco para situações como aquela. 

Mas que situação era aquela, afinal? Por que eles não me contavam logo? Minha mãe respondia: “Porque é uma história muito longa e deve ser bem contada. Deveríamos nos sentar e falar sobre tudo com calma, e não estressados como estávamos.”

No final da tarde, a chuva desabou. Estávamos em algum lugar entre Curitiba e Santa Catarina. Eu nem me interessei em saber direito onde estávamos. Chorara o dia inteiro. Sentia-me cansada, totalmente esgotada e fraca. Me recusara a comer qualquer coisa quando paramos em um restaurantezinho à beira da estrada. 

Apenas bebi uma garrafa de água mineral. Eu só queria morrer, sumir, e queria que meus pais fossem para o inferno por estarem fazendo aquilo comigo, mas eles só repetiam que em breve eu entenderia tudo. 
Finalmente paramos em um motel de quinta, na beira da estrada, para passar a noite, por total falta de opção. O lugar era sombrio e um tanto sujo, e fiquei com nojo de tocar no balcão da recepção, mas meus pais me asseguraram de que logo tudo mudaria, e quem sabe, poderíamos voltar à Curitiba. Aquela possibilidade me encheu de esperança, e comi o sanduíche que meu pai tinha comprado para mim no McDonald’s, há alguns quilômetros atrás. 

Lá fora, a chuva desabava e não parecia disposta a ceder. Adormeci sem perceber, o travesseiro molhado de lágrimas, sabendo que em apenas dois dias, meus amigos estarrecidos estariam em minha festa de debutante sem mim. Naquela noite, sonhei com um rosto. Uma mulher estranha, muito bonita, que me olhava de longe e parecia muito ansiosa. De repente, percebi que aquela mulher estranha estivera em vários de meus sonhos desde a infância, e que aquele rosto que tantas vezes eu tinha ignorado por achar desimportante, estivera presente em minha vida pouco antes de todas as vezes em que fugíamos. 

(continua...)







segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

MADRE - Capítulo 1





MADRE - CAPÍTULO 1



Eu me lembro de um tempo, quando eu era criança, em que meus pais andavam nervosos e suas palavras sussurradas deslizavam pelos cantos da casa, sendo abafadas para que não chegassem aos meus ouvidos: “Aisha não deve saber.”  

Eu tinha cinco anos. Vó Beatriz vinha ficar comigo, e tentava distrair-me do que quer que fosse que pudesse estar acontecendo, e que eu não entendia. Nós duas íamos lá para fora brincar entre as árvores e plantas do jardim e lá ficávamos durante muito tempo, até que ela se cansava, e  sentando-se sob o frondoso choupo e abrindo algum livro, pedia-me que continuasse a brincar sozinha um pouco. Mesmo assim, vó Beatriz ainda participava da brincadeira, erguendo os olhos das páginas quando eu a chamava, e dizendo “Ah, sim, querida, que lindo!” Sempre que eu lhe mostrava alguma coisa.

Era sempre assim: meu pai me levava à escola na parte da manhã e minha avó vinha tomar conta de mim na parte da tarde. E é claro, nós tínhamos Tina, a nossa ‘secretária do lar,’ como mamãe costumava chamá-la. Estava conosco há muito tempo, e eu não me lembro da minha infância sem ela. Tina era uma mulher de meia-idade eficiente e alegre, mas também discreta e silenciosa quando necessário. Tina não tinha familiares morando próximos a nós, e éramos, para ela, a sua família. E era ela quem cuidava de mamãe naqueles tempos sombrios. Lembro-me dela dizendo: “Coma pelo menos um pouco, Dona Fernanda. Vai precisar de forças.”

Minha avó e minha mãe não eram exatamente grandes amigas; tinham a tradicional relação de sogra e nora, suportando-se e respeitando-se o máximo que conseguiam – até mesmo uma criança como eu podia perceber que as duas não eram e jamais seriam grandes amigas. Mas havia um  segredo que ambas partilhavam, e que escondiam de mim, embora as duas discordassem sobre como mamãe deveria proceder a respeito daquilo. Minha mãe quase gritava: “Beatriz, quantas vezes eu preciso dizer que não se meta nas nossas vidas?” Minha avó respondia: “Ninguém é feliz carregando pela vida algo assim, Fernanda. Você e Jairo precisam encarar a verdade dos fatos!” E então a discussão começava, até que meu pai interferisse e as fizesse lembrar de que eu poderia estar escutando: “Vocês querem por favor baixar o tom de voz? Aisha está ouvindo, e ela entende muito mais do que ambas podem supor.”

Morávamos em uma grande casa antiga que tinha sido reformada pelos meus pais, que eram arquitetos, e eles mantiveram as características da construção original acrescentando um pouco de modernidade, como uma jacuzzi, sauna e uma cozinha ampla e moderna. Os amigos dos meus pais vinham sempre nos visitar nos finais de semana, ocasiões em que a casa ficava cheia e festiva. Costumavam trazer seus filhos, que eram meus coleguinhas de escola também, e brincávamos juntos no enorme sótão que meus pais transformaram em um quarto de brinquedos. Lembro-me daqueles tempos vivendo na casa como sendo muito prósperos e felizes, apesar das habituais discussões entre minha mãe e minha avó.

Meus pais tinham muitos amigos, e eu gostava de brincar com as crianças de seus amigos. Nos finais de semana, quando não viajávamos para algum lugar, havia sempre convidados para o almoço ou a happy hour de sábado. Aos domingos, costumávamos sair – apenas meus pais e eu.
Não conheci os pais de minha mãe, pois eles morreram antes de eu nascer, e tenho poucas memórias sobre meu avô paterno, que morreu quando eu ainda era bem pequena.

Mas um dia, as coisas começaram a se transformar sem que eu tivesse controle sobre o que estava acontecendo, o que me deixou bastante insegura. Lembro-me da nossa mudança apressada de Campos do Jordão para Belém do Pará, do outro lado do país: meus pais me tiraram do colégio de repente, sem qualquer explicação, ignorando minhas lágrimas de protesto, pois eu adorava as tias e meus coleguinhas de classe. Tive que deixar minha avó para trás, e depois daquilo, eu passei a vê-la bem pouco, o que aumentou ainda mais a tensão entre ela e minha mãe. Nós nunca a visitávamos. Era sempre ela quem vinha passar alguns dias conosco duas vezes ao ano, nos períodos de natal e nos meus aniversários.

 Felizmente para mim,Tina foi embora conosco. Tivemos que alugar um apartamento, e ela precisou abrir mão do conforto que desfrutava em nossa casa, passando a dividir o quarto comigo. Meu pai dizia que seria por pouco tempo, só até conseguirmos vender a casa, o que, acreditava ele, não demoraria muito. 

Porém, os tempos prósperos e felizes estavam terminando, e eu não desconfiava do que estava por vir.

Eu não gostava do nosso novo apartamento. Era pequeno e escuro e não tinha o quintal enorme ao qual eu estava acostumada, mas meu pai me disse que assim que conseguisse vender a nossa antiga casa, resolveria o problema. Eu sentia falta de meus coleguinhas. Sentia falta de minha avó e da nossa linda casa. Detestava o clima quente da cidade e não gostava da nova escola. Foi uma época triste para mim, mas a melhor coisa é que mamãe começou a recuperar-se aos poucos do seu  estado nervoso e retomou sua vida normal. Até que precisamos nos mudar de novo, após menos de um ano.

Desta vez fomos para uma cidade do interior de São Paulo que não tinha quase nada. Meus pais alugaram uma casa velha e feia, escondida e afastada do centro. Eu não entendia porque tínhamos que viver ali! Após dois anos, já estava quase me acostumando à nova escola, e de repente, uma outra mudança!

 Minha avó não nos visitou nenhuma vez enquanto moramos naquela casa. Quando eu reclamava, meus pais me prometiam que logo tudo estaria resolvido, e que toda aquela situação era temporária e eu conviveria com ela novamente. Certa vez, escutei uma conversa entre minha mãe e Tina, onde minha mãe dizia que era melhor que não chamássemos muita atenção e permanecêssemos incógnitos por enquanto. 

Após quase dois anos  vivendo na nova casa feia, nos mudamos para outra cidade – desta vez, uma cidade grande: Curitiba – passando a morar em outro apartamento. A cada mudança, deixávamos tudo para trás: nossos móveis, a escola, a maioria das nossas roupas. Ficamos lá por mais tempo: aproximadamente, cinco anos. Fiz novos amigos e estava começando a me acostumar com nossa nova vida. Adorava Curitiba, uma cidade agradável, bonita e próspera. Meu pai conseguiu um emprego como free lancer em uma firma de arquitetura e estávamos indo bem.

Finalmente, após quase seis anos morando no apartamento, um dia meu pai chegou em casa radiante: vendera a nossa antiga casa! Naquela noite, fomos todos jantar fora juntos – inclusive Tina – e eu pude escolher qualquer coisa que eu quisesse comer, até mesmo uma banana-split, apesar de ser inverno. Era o mês de junho e meu aniversário estava próximo; vovó chegou para ficar conosco, e como sempre, dividiu o quarto comigo, e então, naquelas ocasiões, Tina dormia no sofá da sala. 

Eu gostava da presença da minha avó. Conversávamos até mais tarde, assistíamos TV juntas nas noites de sexta-feira e ela me mimava de todas as formas possíveis, o que deixava minha mãe furiosa. Às vezes, elas acabavam discutindo, e vovó ia embora de repente, e então meus pais começavam a discutir por causa dela.

Éramos uma família boa, embora não tão equilibrada, mas éramos felizes à nossa maneira. Eu me sentia amada e protegida. Tinha orgulho dos meus pais, da minha avó e também de Tina. Crescera em um ambiente acolhedor, em um estilo de vida considerado muito bom, se comparado à maioria das pessoas. A única coisa que me incomodava, é que eu estava totalmente proibida de ter redes sociais com meu verdadeiro perfil, e meus pais diziam que era para minha própria segurança. Não podia, de jeito nenhum, postar fotos na internet ou usar meu nome verdadeiro. E esta era uma regra de ouro, que se eu tentasse burlar, ficava semanas sem poder usar o celular, pois meus pais tinham um aplicativo que vigiava todos os meus passos online.

Eu estava radiante, pois finalmente, teríamos uma casa com quintal e meu próprio quarto outra vez, e meus pais tinham me prometido que seria em Curitiba. Eu contava então quinze anos de idade, e tinha feito muitos amigos na escola onde estudava desde que nos mudáramos para Curitiba. Tinha até um crush com quem trocava olhares, e as minhas amigas diziam que com certeza ele se declararia no dia da minha festa de quinze anos, que meus pais vinham planejando há meses: eles tinham alugado um belo espaço, encomendado as comidas e bebidas, o DJ e a banda, enfim: tudo estava pronto para as comemorações do meu aniversário! 

Logo os convites começaram a serem distribuídos. Só faltava eu me decidir por um vestido – mas todos pareciam ou pomposos demais, ou simples demais. Até que finalmente eu achei o meu vestido ideal, todo verde folha, saia rodada feita por várias camadas de tule e corpete justo bordado em paetês. Quando me olhei no espelho com ele, senti que eu tinha realmente crescido e me tornado uma bela moça. Minha mãe e minha avó choraram discretamente, mas fingi não notar para não aumentar o drama.

Na escola, meus amigos não falavam em outra coisa a não ser da minha festa de quinze anos e o encerramento do ano letivo, que coincidiam ambos no final do mês de novembro.

Porém, quando faltavam apenas alguns dias para  a festa, tive uma notícia horrível.

(continua...)





quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

BOB TINHA UM SEGREDO






Bob tinha um segredo. Um dia, quando ele ainda era uma criança, este segredo apareceu para ele na forma de um amigo imaginário que lhe falava verdades sobre as pessoas que o cercavam. Às vezes, ele repetia aquelas verdades perto dos adultos, e era severamente repreendido. Mas a pior coisa do mundo, era quando seu amigo imaginário dizia verdades sobre ele mesmo. Verdades que Bob não queria ouvir.

Certo dia, durante a visita de uma velha tia da qual ele não gostava, o segredo de Bob gritou tão alto, que seus pais acharam melhor trancá-lo no quarto, de castigo, até que a visita terminasse. Fato é que a tal tia jamais voltou a pisar naquela casa, e quando eles se encontravam em ocasiões de reuniões de família, ao avistar Bob, a pobre mulher fugia assustada para o primeiro banheiro, ou para a cozinha – qualquer lugar onde não tivesse que encontrar Bob. E a mesma coisa começou a acontecer em relação a outros parentes e conhecidos, até que finalmente Bob amadureceu o suficiente para compreender que era melhor não mostrar o seu segredo a ninguém. As pessoas não gostavam de encará-lo.

E assim, bob cresceu com seu segredo, que passou a perturbá-lo cada vez mais. Ele tentava desesperadamente encontrar um jeito de conviver com aquele terrível destino sem perder a sanidade. Achou uma maneira não muito eficaz, mas que poderia servir pelo menos em alguns momentos: passou a ignorar seu segredo. Pensou: “Se eu fingir que ele não existe, as outras pessoas não o perceberão.”

Mas o segredo de Bob não aceitava ser deixado assim, de lado. Começou a gritar cada vez mais alto dentro da cabeça de Bob, que passou a tomar antidepressivos e fazer análise com um psiquiatra. Dr. Fernandez, o psiquiatra, vivia dizendo que Bob precisava abrir-se, pois ele não poderia penetrar em sua mente e resolver seus problemas por ele. Mas Bob fechava-se em si mesmo, apertando os olhos para não se ver por dentro. Veio a síndrome do pânico. Bob tentava cada vez mais desesperadamente esquecer que ele tinha um segredo.

Mas o medo de sair de casa fez com que a solidão o obrigasse a encarar de frente seu segredo. Os dois passaram alguns dias e algumas noites se olhando e conversando. E a cada palavra e gesto, mais Bob se convencia de que não conseguiria viver se mostrasse seu segredo ao mundo. Sim, ele tinha um segredo que era grande demais, difícil demais de ser enfrentado. 

Assim, após uma longa conversa com seu segredo, Bob arquitetou um plano que ele achou que resolveria tudo para ele: esperou que seu segredo caísse no sono, e quando isso finalmente aconteceu, ele foi até a cozinha e pegou uma faca grande e afiada. Dirigindo-se à sala de estar, onde seu segredo adormecido se encontrava, Bob ergueu a faca acima da própria cabeça e golpeou seu segredo impiedosamente, várias vezes.

Bob foi encontrado alguns dias mais tarde por parentes, que após tentarem entrar em contato com ele várias vezes sem sucesso, decidiram invadir sua casa. 

Ele não dizia coisa com coisa. Seu olhar parecia perdido em algum lugar distante deste mundo, onde ninguém jamais conseguiu ir. Bob terminou seus dias em um manicômio, velado por seu segredo.





quarta-feira, 9 de outubro de 2019

29 ANOS DEPOIS







Ela trabalhava durante o dia e estudava à noite em uma escola estadual. Vivia uma vida bastante comum e sem grandes ambições imediatas, a não ser trabalhar e estudar sem ainda saber muito bem porque. É claro, ela tinha sonhos: queria uma vida melhor. Sonhava com uma casa que ficaria em um terreno onde haveria um lindo jardinzinho, e uma árvore que ela pudesse ver da janela do seu quarto de dormir. Pensava em cachorros correndo pelo quintal. Ainda não pensava em casar-se - este era o último de seus objetivos, se é que um dia ela se casaria.

Numa noite, após deixar a escola noturna com uma amiga, ela o viu. Ele estava de pé à porta de um colégio particular, olhando lá para dentro. Quando ela passou por ele e olhou para trás, percebeu que ele também a seguia com o olhar. Aquilo ainda aconteceria algumas vezes. Ela se lembrou-se de um dia, há muitos e muitos anos (talvez ela ainda tivesse dezesseis anos  naqueles tempos) no qual estava sentada nas escadas de casa, quando viu uma motocicleta passar com um menino muito parecido com ele. Anos depois, ela confirmaria aquela impressão através das palavras dele mesmo. "Sim, era eu. Eu pilotava a moto de um colega."

Certa noite, ela estava de pé no ponto de ônibus quando ele passou do outro lado da rua e fez sinal para ela, perguntando se ela gostaria de acompanhá-lo caminhando para casa (os dois moravam no mesmo bairro - ela descobrira aquilo naquela mesma noite). Assim, eles ficaram se conhecendo.

Ela tinha apenas 18 anos, e ele, 19. Marcaram um encontro à porta do colégio dela na noite seguinte após as aulas, mas eles se esqueceram de definir qual era a porta - se a dos fundos ou a da frente, e assim, se desencontraram. Não existiam telefones celulares naquele tempo, e por isso não puderam se falar e confirmar onde estavam.

Mais de uma semana se passou, e ela pensava muito nele. Não mais o vira na hora da saída da escola. Sua irmã a convenceu a pegar um catálogo telefônico e procurar por ele, já que ela sabia onde ele morava. Talvez ele tivesse tentado achá-la daquela forma, mas ela não tinha telefone em casa, e como só tinham se falado uma única vez, talvez ele achasse que não ficava bem bater à porta da casa dela.

Assim, após muito hesitar, ela resolveu procurar por ele. Os dois esclareceram o mal entendido e começaram a namorar. Ele pensou que ela tinha se arrependido e faltado ao encontro, e ela pensou o mesmo sobre ele. 

Às vezes ela tinha a impressão de que as coisas estavam muito contra eles, pois apenas uma semana mais tarde, ela teve uma doença e ficou quinze dias sem poder sair, mas ele foi visitá-la em casa, e ainda enfrentou um jantar com o pai dela, que tinha fama de ser um pai rígido no bairro. Mas os dois não apenas se deram bem desde o início, como tornaram-se grandes amigos e parceiros de jogos de carta.

Ela ainda ficaria doente várias vezes - problemas de garganta recorrentes, febres, infecções e problemas de estômago e intestino. Tais problemas a deixavam afastada do trabalho por muitos dias, e ela pensou que o namoro não resistiria a tantas doenças, mas a história deles estava escrita nas estrelas, e ele permaneceu firme ao lado dela, mesmo com todas as dificuldades.

O namoro deles foi assim, aos trancos e barrancos, cheio de impedimentos e dificuldades. Ela sentia, devido às tantas dificuldades,  que talvez ele não fosse a pessoa certa para ela, mas estavam apaixonados. Muitas vezes ela teve vontade de desistir diante dos problemas que tiveram que enfrentar. Havia muito ciúme, intrigas e inveja em volta deles. 

Mesmo assim eles se casaram, oito anos após se conhecerem e um noivado que durou seis anos. Nem todos estavam felizes durante o casamento deles. Os primeiros anos foram muito difíceis, e quando ela olha para trás, não sabe como conseguiram ficar juntos por tanto tempo. Talvez, a única explicação seja esta:

Quando duas pessoas se amam de verdade, elas resistem a tudo. Elas crescem juntas e amadurecem, aprendendo a cederem e a serem mais flexíveis. Duas pessoas que se amam aprendem também que a coisa mais importante em um relacionamento não é se os outros aprovam ou não, mas o quanto eles desejam realmente ficarem juntos. Acima de tudo, eles amadurecem o suficiente a fim de lidarem com os obstáculos, identificando-os e vencendo-os um a um. 

Hoje, 35 anos após se conhecerem e 29 anos de casados, eles vivem em uma casa que tem um pequeno e lindo jardim, e existe um cedro à janela do quarto. De manhã, os passarinhos vêm cantar para eles. Ainda existem dificuldades às vezes, mas eles as superam e aprendem com elas para que possam permanecer juntos. Esta história ainda não terminou, e só terminará quando um deles morrer, porque tem que ser assim. É a vontade deles que importa.




terça-feira, 17 de setembro de 2019

CAMINHO INVERSO



Às vezes, o final da vida é o verdadeiro recomeço, onde novos laços são formados e velhos laços são desfeitos.


Quando a família soube que Martha compraria um terreno em uma cidade do interior e começaria a construir uma casa, ficaram estarrecidos. Afinal, ela estava com sessenta e três anos de idade, morava em um bom apartamento bem localizado e próximo a hospitais, caso ela necessitasse, e ao alcance dos três filhos e cinco netos. Por que, eles pensavam, a mãe está com essas ideias malucas na cabeça? Onde já se viu, construir uma casa em um lugar tão distante e nessa idade?

Martha acabara de ficar viúva. Não via mais motivos para permanecer onde estava. As amigas que tinha eram fruto das amizades do falecido marido, esposas dos amigos, e ela as mantinha, apesar de não ter quase nada em comum com a maioria delas, para agradar ao marido. Casara-se em uma época na qual o dever da mulher era este: ser boa esposa, boa mãe e seguir o marido. E ela cumprira seu papel; agora estava livre.

Olhou-se no espelho: a pele sob o queixo começava a ficar flácida, as mãos tinham algumas veias mais grossas. Os cabelos brancos ela assumira de vez, e estavam adequadamente cortados e penteados, os cachos muito bem domados em um corte curto. Ainda era bonita; os amigos dos filhos e dos netos viviam dizendo isso dela: "Como sua mãe / avó é bonita!"  Mas era exatamente disto que ela estava cansada: de ser reconhecida apenas como mãe ou avó de alguém.

Ela queria de volta a sua identidade. Queria ser novamente chamada de Martha, não de 'vó', 'mãe' ou simplesmente 'querida' ou 'amiga.' Às vezes ela se perguntava se as pessoas sabiam realmente o seu nome, já que raramente o usavam quando falavam com ela. Ela olhou-se no espelho ainda por algum tempo, repetindo em alto e bom, a voz se perdendo entre as paredes do enorme apartamento vazio: "Martha. Martha. Martha." E dentro dela, uma mulher há muito tempo adormecida despertou.

Ela foi conhecer a cidade onde ficava o terreno que lhe interessara, em uma cidadezinha vizinha dali. Não queriam que ela dirigisse sozinha, mas mesmo assim, Martha agarrou sua bolsa e foi, deixando-os falarem sozinhos. Lá chegando, o corretor levou-a ao terreno: era um pedaço de terra plana de mil e duzentos metros que ficava entre árvores frondosas, a quinze minutos do centro da cidade, que não passava de um pequeno burburinho de prédios (mercados, um cinema, algumas lojinhas ) com dois quilômetros de extensão. Era exatamente o que ela queria.

Martha caminhou entre as árvores; a tarde avançava, e os passarinhos se preparavam para dormir. Raios de sol infiltravam-se entre as copas das árvores. E então a imagem de uma casa começou a ser construída dentro da cabeça dela: as cores das paredes, a varanda ampla que rodeava a casa, onde ela penduraria uma rede e colocaria muitas plantas, o jardim de inverno, a piscina de água natural. Ela conseguiu escutar as vozes dos netos brincando por ali, jogando-se de qualquer maneira na piscina, que jogaria água para fora e ela ralharia com eles. Martha viu a si mesma abrindo os olhos de manhã ao canto de centenas de passarinhos, e descalça, caminhando por uma trilha de pedras em seu jardim. 

Ela pensou em colocar balanços nas árvores, balanços que iriam bem alto quando as crianças os estivessem usando, e elas poderiam tocar as copas das árvores com as pontas dos pés. Ela viu a si mesma em um deles, rindo e sentindo um frio na barriga quando chegava às alturas e descia de repente, o vento zumbindo em seus ouvidos. 

Ela viu no passeio da casa os carros dos filhos estacionando, os faróis ainda acesos enquanto as crianças abriam as portas e saltavam correndo em direção a ela.

Ao conversar com uma futura vizinha sobre o local a fim de receber algumas informações, ela se viu dizendo a ela que estava fazendo o caminho inverso: "Todo mundo na minha idade muda-se para um apartamento no centro da cidade, perto dos filhos. Bem, eu morei na cidade a minha vida toda, fui muito feliz, mas sempre sonhei em morar em uma casa. Assim, acho que estou fazendo o caminho inverso!"  A vizinha olhou-a com admiração, convidando-a para entrar. As duas se despediram após um café, e Martha voltou para casa, chegando à noite. 

Ao abrir a porta da sala, deu com os filhos e netos preocupados, e eles logo começaram a ralhar com ela: "Mãe, onde esteve até essa hora? Quase colocamos a polícia trás de você!"

Martha riu, e encolhendo os ombros, respondeu: "Eu disse! Fui ver o terreno que eu vou comprar, e fecho o negócio amanhã mesmo." Ela escutou pacientemente os protestos, enquanto colocava a mesa do jantar. Não disse uma palavra. Os netos a cercavam, perguntando com entusiasmo como seria casa, e ela a descrevia para eles, que excitados, pensavam nas férias maravilhosas que teriam. Era sempre assim: as crianças sempre enxergavam a parte boa da vida.

Helena, a filha mais velha, perguntou: "E onde você vai arrumar o dinheiro para construir a casa, mãe?"

Martha já tinha pensado em tudo, e respondeu sem hesitar: "Com a venda do apartamento e os investimentos que herdei do seu pai." Os filhos protestaram ao mesmo tempo: "Venda do apartamento? Você não pode vender o apartamento! Ele faz parte da nossa história de vida!" Martha encarou-os e esclareceu: "Tarde demais, queridos. Ele já foi vendido. Seu pai deixou-a apenas para mim na partilha, lembram? Na verdade, este é o nosso jantar de despedida, pois entregarei as chaves daqui a uma semana."

Diante do inevitável, eles aos poucos começaram a se consolar com a ideia, se bem que Junior, o filho mais novo, pensou em mandar interditar  a mãe e tentar reverter a venda do apartamento. Felizmente, os outros irmãos discordaram. 

Uma semana mais tarde, Martha mudava-se para sua nova cidade, onde ficaria em uma pensão até a casa ficar pronta. Dia a dia ela acompanhava a obra, escolhendo à dedo cada tijolo, e mais tarde, cada peça de decoração. Doara aos filhos tudo o que havia no seu antigo apartamento, pois queria começar uma vida inteiramente nova, e os móveis e objetos de seu antigo apartamento não tinham lugar em sua nova casa, que além de bem menor, era em estilo rústico. 

Oito meses depois, ela mudava-se para sua nova casa mobiliada. Houve uma festa de inauguração, onde seus filhos, netos e amigos mais chegados andaram pelo local aprovando e desaprovando suas escolhas. Martha caminhava indiferente entre os elogios e críticas, cada vez mais convencida de que aquela tinha sido a escolha mais certa de toda a sua vida. por que? Porque, na verdade, aquela era a primeira e única escolha de sua vida que era só dela. 

Martha contratou um jovem caseiro. Ele a ajudava com as compras, dirigia o carro para ela quando ela não queria dirigir e cuidava do jardim. No começo, os netos vinham a cada quinze dias. Eram dias muito festivos para Martha! Eles tomavam o ônibus na sexta-feira após a escola e chegavam excitados, ainda vestindo seus uniformes, e os pais vinham buscá-los no domingo de manhã, passando o dia com ela e indo embora à noite. Tudo estava sendo exatamente como ela planejara. 

Os períodos de férias eram longos e felizes, e eles também traziam alguns amigos. Martha ficava na cozinha, preparando sucos e sanduíches, revivendo a época em que seus filhos eram crianças e ela fazia tudo aquilo por eles. Ela acabou contratando a noiva do seu caseiro para ajudá-la com a casa, e ambos casaram-se, passando a viver na sua garden house. Os filhos de Martha ficaram mais tranquilos, sabendo que a mãe não estava tão sozinha. 

Porém, com o tempo, as crianças começaram a se cansar daqueles finais de semana e férias prolongadas na casa da avó. Elas queriam novas aventuras. Ao mesmo tempo, os filhos ficavam cada vez mais ocupados em seus empregos, cada vez mais cansados, e não queriam mais dirigir por quase três horas a fim de chegarem lá. As visitas foram, aos poucos, rareando, até que praticamente cessaram. 

Martha caminhava pelo jardim vazio de crianças e se perguntava o que tinha acontecido. Por que eles não vinham mais? Até mesmo o aniversário da neta mais velha, que ela planejara comemorar em sua casa com um churrasco, tinha sido cancelado quase na última hora, pois ela optara por um final de semana na praia. A menina insistiu pela presença da avó, mas Martha recusou-se: praias, sol forte e barulho de carros de som não combinavam com ela. 

"Não, obrigada. Mas divirta-se."

Porém, o casal de caseiros engravidou, dando à luz uma menininha linda que Martha praticamente adotou como sua neta. A menininha preenchia seu tempo livre, e ela a cobria de mimos e de presentes. Ao saberem da novidade, os netos voltaram, enciumados com a presença da pequena intrusa. Os filhos também a criticavam, pois ela estava gastando dinheiro com uma menina que nem sequer era sua parente, ao invés de presentear seus próprios netos!

Mas Martha não ligou para os comentários de sua família, e continuou mimando a garotinha, cujo nome era Linda. Ao mesmo tempo, o caseiro e sua esposa tornaram-se para ela, cada vez mais, membros da sua família.  Algum tempo depois, os netos, que já sentiam as ânsias da adolescência que se aproximava, deixaram novamente de visitá-la. Enquanto isso, Linda completou três anos de idade, e as duas ficavam cada vez mais próximas. 

Martha sentia falta da presença dos filhos e netos, mas continuava a viver na pequena cidade e em sua casa dos sonhos. Ali, ela se sentia feliz. Mas seu coração deu sinal de vida - ou de morte. Ela sentiu-se mal um dia, e descobriu, após alguns exames, que não tinha mais muito tempo para viver. Assim, ela resolveu tomar uma atitude apressada, mas nem por isso intempestiva: foi ao cartório e deixou sua casa para a única herdeira que Martha sabia que a valorizaria: a pequena Linda. 

Martha escondeu de todos a sua doença. Ainda viveu seis meses após a descoberta de seu problema cardíaco, caminhando pelo jardim, absorvendo cada raio de sol e cada gota de chuva, deixando-se envolver pelo vento, que penteava as ondas de seus cabelos brancos agora crescidos e que ela mantinha soltos, os pés descalços sobre a relva, o barro e as pedras. Ela viveu intensamente. Ela foi intensamente feliz.

Acharam-na caída no passeio que ia dar na porta de entrada da casa, após uma noite de tempestade. O caseiro alegou que jamais imaginaria que Dona Martha fosse sair para caminhar em uma noite como aquela!

Hoje, naquele jardim, brinca uma menina de cabelos pretos e lisos, entre as árvores e plantas do passeio. Ela se deixa ir bem alto em um dos balanços, e as pontas de seus pés tocam as copas das árvores. Ninguém sabe, e Linda acha melhor não dizer a ninguém, mas alguém a empurra bem alto; ela  vê  Martha de soslaio toda vez que olha para trás em um de seus voos.  



FIM







INOCÊNCIA - Parte III, Capítulo IV - FINAL







Mirtes descansava em sua cama, o antebraço cobrindo os olhos. Aquele tinha sido um dia pesado e triste, que custara muito a passar. Ainda estava usando o traje preto, e as meias finas pretas que deixavam transparecer o vermelho das unhas dos pés. Pensava na noite anterior e constatava que no momento exato em que Nelson morria, ela fazia amor com Duílio. Sentiu-se um lixo por aquilo. Jurou que nunca mais o veria, embora seu coração e seu corpo ardessem por ele. 

À porta, Yara a olhava. Percorria com os olhos cada parte dela, imaginando que as mãos de Duílio passaram sobre aquele corpo, e que os lábios de Duílio, após beijá-la, tinham beijado os seus.  Pensou no que escutara: ele dissera que nunca a tinha amado, mas que a usara para provocar ciúmes na mãe. Que só fazia amor com a filha porque assim sentia-se mais perto da mãe. A cada pensamento, seu ódio por Mirtes aumentava. Seu ódio por todos eles aumentava. 

Yara finalmente pigarreou, denunciando sua presença. Yara olhou-a, erguendo o corpo e apoiando-se em um cotovelo; estendeu o braço livre para ela, dizendo:

-Venha aqui, minha querida filha.

Yara demorou um pouco antes de caminhar até a cama, mas não se sentou e nem aceitou aquele abraço oferecido pela mãe. De pé, ela permaneceu ao lado da cama, olhando-a com desprezo. Disse:

-Você é patética. Todos vocês. Não passam de um bando de gente falsa, traidora, suja, nojenta, asquerosa. Você, “Tio” Duílio, “Tia” Aurora... um trio de pervertidos sujos! Tão mentirosos, que chega a dar nojo. Só vim aqui para despedir-me de você e dizer que nunca .mais.quero.olhar.na.sua.cara.suja. E você jamais vai me ver de novo, ou ao João. Esqueça de mim. Esqueça que um dia fui sua filha. Case-se com seu amante sujo. Seja muito feliz com ele. Se não fosse pelo meu pai e pela memória e a honra dele, eu a desmascararia e mostraria a todos a megera prostituta que você é, que você sempre foi. Traindo meu pai sob o teto da casa dele com seu melhor amigo e sócio durante anos! Usando sua filha para encobrir seu caso com ele. Mirtes... eu tenho pena de você, pois vai pagar caro por tudo isso um dia. E quando toda a sua vida estiver uma droga, lembre-se deste dia, destes anos, de tudo o que fez, do quanto me feriu e feriu papai, pois ele sabia de tudo!

Mirtes escutava a tudo com os olhos vidrados e a boca entreaberta. Permanecia na mesma posição, apoiada no cotovelo, o outro braço estendido, até que ela o baixou, compreendendo que jamais voltaria a aninhar sua filha entre seus braços. Jamais voltaria a escutar sua voz, ouvi-la chamando-a de ‘mãe,’ e jamais a veria novamente. Também jamais voltaria a sorrir ou ser feliz de novo.
Yara virou-se de costas e saiu sem olhar para trás. Mirtes não podia entender como a filha descobrira tudo. Só podia ter sido Cristina! Ah, aquela menina infernal, que sempre causava confusão dentro daquela família desde que era criança!  Mirtes fizera tudo para que Yara nunca soubesse de nada, pois jamais pretendera magoar sua filha. Desistira do grande amor de sua vida por ela. Também não teve tempo de dizer a ela que era verdade que Nelson sabia de tudo, e que dera a ela a sua bênção; afinal, as muitas quimioterapias  e demais medicamentos deixaram-no impotente para o sexo. Ele a amara profundamente, e para ele, bastava que ela ficasse ao seu lado. E ela ficou, cuidando dele durante todos aqueles anos, cumprindo sua promessa e seu dever com sua família, não por obrigação, mas por amor a todos eles, inclusive a Nelson! Ela o amava como a um grande amigo, um irmão, um pai. Mas ela o amava! E estava sofrendo por ele. 

Depois que Yara e Cristina se foram, levando seu neto, Mirtes passou a viver sozinha na casa; quase não saía mais. Era frequentemente visitada e cuidada por sua filha Berta e seu genro Sebastian, e também pelos netos que esta lhe dera. Aurora acabou indo embora dali, e na verdade, ninguém ficou surpreso quando ela disse que venderia o restaurante e a fábrica e iria morar em Paris com sua filha Joanna e seu novo genro e o neto recém-nascido.

Assim que sua mãe foi embora, Marcelo viu-se livre para assumir o controle de sua vida: divorciou-se de Cândida e voltou para a faculdade, tornando-se o profissional que sempre desejara ser. Nunca mais voltou a ver Cristina, mas permaneceu apaixonado por ela pelo resto da vida. Colecionava recortes de revistas onde ela aparecia, colando as fotografias em um álbum que ele mantinha escondido debaixo do colchão. Marcelo não voltou a casar-se, pois a lembrança de Cristina ocupava todo o espaço de seu coração.

Mas Cristina seguiu em frente, e foi feliz com Gustavo, embora não fosse apaixonada por ele. Os dois tiveram três crianças – um menino e duas meninas. Jamais sentira com ele o mesmo que sentira quando estava nos braços de Marcelo, seu amor de adolescência. Mas lembrava-se sempre das palavras de sua avó Helena, que um dia dissera-lhe que jamais deixasse que o seu coração comandasse sua mente. Assim, Cristina e Gustavo foram felizes, embora nem sempre fiéis um ao outro. Mulher livre e belíssima que era, Cristina teve muitos relacionamentos fora do casamento – mas nunca, jamais apaixonou-se por nenhum deles. Gustavo suspeitava das escapadas da esposa, mas era feliz com a vida que tinham e não se pronunciava; afinal, ele mesmo não era fiel a ela. Era como se ambos tivessem um acordo silencioso.

Yara aceitou a proposta da amiga, concordando em gerenciar não um, mas dois de seus salões de beleza no sul do país, para onde ela mudou-se com João. Quando ficou sabendo da doença da mãe, anos depois, ela nada sentiu. Pelo menos, não externamente. Mas seu coração encolhia-se e expandia-se, e ela se perguntava se não seria melhor voltar e perdoá-la. Daí ela se lembrava que Mirtes jamais pedira-lhe perdão. 

E aqui estamos nós, no exato momento em que Yara termina sua visita à sua casa de infância, despedindo-se de todos que ali viveram e de suas lembranças. Ao fechar a porta atrás de si (ela nunca mais voltaria, pois resolveu não aceitar o presente da mãe, passando sua herança a uma instituição de caridade) Yara teve a impressão de ter ouvido ecos de uma voz miúda e distante, que dizia:

-Yara! Vá tirar o uniforme da escola e venha almoçar agora mesmo!

Depois, o som abafado de uma velha música dos anos sessenta que tocava no rádio, entrecortado pelos ruídos de uma panela de pressão e de passarinhos cantando nas árvores.

Naquele momento, ela teve saudades.


FIM





segunda-feira, 16 de setembro de 2019

INOCÊNCIA- Parte III, Capítulo III






E foi na noite de sábado para domingo que tudo aconteceu. Foi exatamente naquela noite que Nelson veio a falecer, e que Duílio voltou a entrar na vida daquela família, o que fez com que Yara se afastasse por onze longos anos. 

Todos já tinham ido dormir. João dormia pacificamente ao lado da mãe, mas Yara estava aflita pois sentia que alguma coisa muito desagradável estava para acontecer. Ela gostaria muito que Cristina estivesse ali, que ela pudesse sentar-se ao lado dela e conversar. Pensou em ligar para Berta, mas o que diria: que estava com um pressentimento, à uma e trinta da manhã? Não seria um bom motivo para alarmar a irmã e Sebastian. 

Ela saiu do quarto nas pontas dos pés e desceu as escadas devagar, atravessando a sala silenciosa em direção à cozinha. No meio do caminho, o  telefone tocou, e ela estancou; àquela hora, não poderia ser boa notícia. Ainda esperou pelo terceiro toque antes de atender. Sem nada dizer, Yara pegou o telefone e escutou. Alguém do outro lado repetiu “Alô?” Duas vezes antes que ela respondesse. Yara sentia calafrios percorrendo sua espinha dorsal. “Alô,” ela murmurou. Não estava pronta para receber aquela notícia, e seu coração pulava tanto, que a deixava quase surda. Mas a voz do outro lado, que parecia pertencer a uma mulher de meia-idade cansada, apenas disse:

-Boa noite! Aqui é do Hospital São Marcos. Estou falando com um membro da família de Nelson Fernandes?

Yara soprou um ‘sim’ abafado de encontro ao bocal do telefone. A mulher perguntou:

-Com quem falo, por favor?

-Yara. Sou a filha dele.

-Gostaria de pedir que comparecessem ao hospital o mais rapidamente possível, trazendo documentos e uma muda de roupas do sr. Nelson. Por favor, venha até às sete da manhã. Você compreendeu? 

Yara não respondeu, enquanto seus olhos se enchiam de lágrimas pesadas e salgadas, que desceram quentes sobre seu rosto. A mulher repetiu o que havia acabado de dizer, e Yara finalmente concordou:

-Sim, eu compreendi. Obrigada. 

Assim que desligou o telefone, ela olhou em volta, para a casa adormecida, e deixou-se escorregar até o chão da sala. Tantas coisas tinha vivido ali! Tantos momentos de inocência e felicidade, e em todos eles, ela pudera contar com a presença confortadora de seus pais – principalmente, de seu pai. Agora ele estava morto, e ela nunca mais o veria ou falaria com ele. Lembrou-se da morte de seu tio Antônio: a dor que sentira então não era nada se comparada com a dor que a rachava no meio naquele exato momento. 

Após se acalmar um pouco, ela decidiu ir lá fora pegar um pouco de ar. Abriu a porta: havia uma luz acesa no apartamento sobre a garagem, agora vazio (Flora e Eugênio mudaram-se para uma nova casa após receberem a herança de D. Helena, embora continuassem a trabalhar na casa por opção). Yara achou aquilo estranho. Desceu as escadinhas da varanda. Estava descalça, e por isso não fez nenhum barulho. 

Ela cruzou o pedaço de jardim que afastava a casa da garagem e do apartamento. Debaixo de uma árvore, ela olhou para cima e esperou. Viu quando sua mãe,  Mirtes, passou pela vidraça, atravessando o quarto. Percebeu que ela falava e gesticulava, parecendo muito aflita. De repente, Yara ouviu uma voz masculina abafada: seria Sebastian? Ou quem sabe, Eugênio voltara para pegar alguma coisa? Mirtes saiu da frente da janela, e Yara esticou o pescoço, tentando ver o que estava acontecendo, mas como não conseguisse, ela subiu as escadas laterais que davam para a porta de entrada do apartamento, e sentando-se no último degrau, escutou. O que ela ouviu deixou-a sem voz e sem nada por dentro, a não ser ódio. Mirtes dizia:

-Não sei porque você foi se casar com aquela mulher! Disse que me esperaria! Disse que me amava e que esperaria até que Nelson ... até que ele nos deixasse! 

Yara levou a mão à boca, tentando conter um grito. Seus olhos derramavam lágrimas pesadas sobre a face vermelha e quente. Duílio respondeu:

-Minha querida... eu não podia esperar mais!

-Não sei por que você voltou então! Quase destruí meu relacionamento com minha própria filha, me fazendo passar pela tortura de vê-los juntos enquanto eu... eu... s[ó sofria e chorava por ter perdido você para ela!

-Tentei fazer com que você provasse me amar e lutasse por mim! 

-Eu não podia competir com minha própria filha! Será que não entende? E você decidiu ficar com ela, iam casar-se! Não queria deixar Yara infeliz! Não podia simplesmente abandonar Nelson com uma doença grave, dar as costas `a minha família toda!

-Você acha mesmo que algum dia Yara teve alguma importância para mim? Ou Aurora? Ou qualquer outra? Eu sempre quis só você! Só me envolvia com outras mulheres para causar-lhe ciúmes, para fazer com que você finalmente decidisse ir embora comigo! E você sabia o quanto o sexo é importante para mim, o quanto eu necessito dele! Se eu não podia ter com a mulher que eu amava, eu fazia com outras! Toda vez que eu amava Yara, era por você que eu procurava!

-Você usou a minha filha para me ferir!

-Não! Por que não admite que você a usou para me cozinhar em banho-maria, enquanto Nelson agonizava e você o esperava morrer para ficar comigo?

-Não!!! O que você está dizendo é absurdo! 

Naquele momento, Yara não conseguiu ouvir mais nada: desceu as escadas tropeçando. Foi correndo até a beira do rio, onde sentou-se sob um luar prateado e opressor. A lua, embaçada devido às suas lágrimas, parecia rir dela. Yara gritou bem alto, pois sabia que não seria ouvida. Ninguém ia àquele lugar isolado. Pensou em toda a sua vida, pensou no quanto sua inocência tinha sido pisoteada, no quanto ela tinha sido usada por todos.  Mas ela contaria a todo mundo, ela destruiria qualquer coisa que pudesse significar a reputação de Mirtes... mas... não! Se o fizesse, estaria manchando também a memória de seu próprio pai.

Ela voltou ao quarto com cuidado para que não a notassem. Ainda parou sob a garagem e olhou para o apartamento, que agora tinha as luzes apagadas, e pôde escutar os gemidos de amor que vinham lá de dentro. Apoiou-se no tronco de árvore e vomitou. Ela queria abrir aquela porta e acabar com tudo, mas como? 

Ao invés disso, ela foi ao quarto e pegou no colo o menino adormecido, enrolando-o em uma manta. Colocou-o no banco de trás do carro e partiu. Foi até o mesmo hotel onde Cristina estava hospedada, passando pela recepcionista que dormia debruçada no balcão e bateu à porta do quarto. Ao ver Yara parada na porta, os olhos vermelhos, descalça e despenteada, usando uma camisola de flanela com o filho adormecido nos braços, Cristina assustou-se. Fez com que a amiga entrasse, colocando o menino na cama, e foi com a amiga para a antessala, onde serviu-lhe uma dose de conhaque. 

_Agora.. tome tudo... assim... me diga o que está acontecendo, Yara, ou vai me matar de aflição!

E ela contou tudo à Cristina, que tudo ouviu com lágrimas de raiva nos olhos, lágrimas que mais tarde choraria junto com sua amiga, com sua menininha. Mas não naquela hora. Que o velório de Nelson passasse, e então ela levaria embora Yara e João junto com ela. Tinha dinheiro, muito dinheiro, e poderia acomodar os dois em uma de suas casas. Poderia dar à Yara um emprego rentável como gerente em um de seus salões de beleza em qualquer parte do país, se ela quisesse. Poderia pagar babás que cuidassem de João enquanto Yara trabalhava. Ela poderia tudo o que o dinheiro permite. E ela o fez. Porque definitivamente, aquela família não merecia Yara. 

E após o velório, Yara anunciou à irmã sua decisão de ir embora para sempre. Porém, não contou a ela o motivo, pois não queria arriscar sujar a memória de seu pai. Sabia que Berta faria um escândalo, que tentaria tirar satisfações com a mãe, que acusaria Duílio. Ela se despediu, e Berta, chorando, pediu-lhe que ficasse. Mas ela não ficou. Precisava ir embora. Precisava esquecer tudo aquilo, ou pelo menos, aprender a viver com aquelas lembranças terríveis.  Disse que telefonaria quando sua vida estivesse decidida, mas não o fez durante anos. 

Mas antes de ir, ela foi despedir-se da mãe. 

O velório terminara, e estavam todos em casa, na sala de estar. Duílio tivera o desplante de comparecer ao velório e também à reunião de família, onde encontravam-se Aurora, sua ex-amante, Yara, sua ex-noiva e Mirtes, sua ex e atual amante. Pelo menos, tivera o bom senso de não levar com ele sua atual esposa. 

Yara olhava para Aurora, Duílio e Mirtes, e seu estômago se embrulhava. As duas eram irmãs. Sua tia, sua mãe. Duílio, seu ex-noivo, o homem que por muito tempo ela amara. Todos a tinham enganado. Todos. Mas ela conseguiu resistir até que Duílio retirou-se, passando por ela e dizendo:

-Se precisar de alguma coisa, pode contar comigo, Yara. 

Ela não respondeu; desfocou o olhar ao encará-lo, a fim de não vomitar. Aurora passou por ela – a falsa moralista que não admitira que seu filhinho branco se casasse com a pessoa mais sensacional do mundo só porque ela era filha de uma mulher negra, empregada da casa. Aurora acariciou seu rosto de leve, dando um leve tapinha em seu queixo, que segurou na mão por um curto espaço de tempo:

-Olho na sua mãe, querida.  Ela não está nada bem. Joana manda dizer que sente muito por tudo. 

Dizendo aquilo, ela beijou Yara na testa, e a moça estremeceu, passando as costas da mão no local do beijo com toda força. Aurora franziu as sobrancelhas, mas nada disse. Depois, Berta a abraçou:

-Pense bem, irmã. Se você for embora, tudo ficará ainda mais triste para mamãe e para mim.

Ela quis responder que esperava que ‘mamãe’ morresse, ou sumisse, mas nada disse. Abraçou a irmã pela última vez em muitos anos. 

Quando a casa estava vazia, Cristina retirou-se com os pais, deixando mãe e filha sozinhas. 

(continua)





segunda-feira, 9 de setembro de 2019

INOCÊNCIA - PARTE III, CAPÍTULO II




Parte III, capítulo II

Narração em terceira pessoa

O encontro de Yara e Cristina foi emocionante para ambas. Tudo voltou: a amizade e a intimidade que sempre as unira pareceu não ter sido afetada pelos anos e a distância que ficaram entre elas. 

Yara reparou o quanto sua velha amiga de infância e protetora estava diferente, refinada. Cristina percebeu que Yara, apesar de ter ganho alguns quilos extra, ainda tinha no rosto aquele mesmo ar infantil e doce de sempre. Ela ainda era a sua amiguinha, a menininha que ela gostava de proteger. 

Cristina afastou-se, e passando a mão sob os olhos de Yara, secou-lhe as lágrimas. Ambas subiram para o quarto de mãos dadas, se olhando avidamente no elevador sem nada dizerem. No quarto, elas sentaram-se de mãos dadas sobre a cama larga e macia, olhando-se. Elas bebiam a presença uma da outra. Yara finalmente perguntou:

-Por que você foi embora sem se despedir de mim?

-Porque se eu fosse me despedir de você, não teria tido coragem de ir embora.  

-E por onde você andou, o que tem feito?

-Bem... eu me casei! Com um advogado lindo e rico. Morei um tempo com minha avó, ela morreu e me deixou uma fortuna. E você?

-Eu me casei também. Com aquele meu primeiro namorado, lembra? O Fernando. Tivemos um filho que está com três anos, mas nos divorciamos há um ano.

-Não conheci Fernando... mas... e seu filho? Como ele é, onde está? Gostaria de conhece-lo!

-Ah, é verdade... você já tinha ido embora quando eu comecei a namorar Fernando. Meu filho, João,  mora com o pai. Quando nos divorciamos, achei melhor assim, já que eu viajo muito por causa do trabalho. Sou aeromoça. Sabe, na primeira vez que eu e Fernando namoramos, eu terminei com ele por causa de Duílio. Eu e Duílio ficamos noivos, mas...

Yara baixou os olhos, suspirando. Cristina ergueu o queixo da amiga suavemente, obrigando-a a olhar para ela:

-Eu jamais permitiria que você se casasse com aquele crápula! Yara... há coisas que você não sabe sobre ele. Mas que eu, como filha da empregada da casa, e me esgueirando sempre pelos jardins durante a noite, acabei sabendo. Duílio... não é uma boa pessoa. Nunca foi. 

Yara arregalou os olhos:

-Então... o que você sabe sobre ele? Tem a ver com a minha mãe?

-Não apenas com Dona Mirtes, mas também com Dona Aurora... e comigo. Uma noite, eu estava no jardim e ele tentou... tentou me agarrar. Ameacei gritar, se ele não me soltasse. Eu tinha apenas quatorze anos! 

Yara cobriu a boca para repelir um grito:

-Nossa, eu... ele... ele fez alguma coisa com você?

-Não... na verdade, ele estava me agarrando e passando a mão sob meu vestido quando eu ameacei gritar. Então ele me soltou. Eu corri para casa. 

-E por que você nunca contou nada disso a ninguém?

-Na verdade, eu contei. Na manhã seguinte, contei à Dona Mirtes, mas ela não quis me ouvir. Mandou que eu evitasse  ficar andando pela casa durante  a noite, e que mantivesse minha boca fechada, pois Duílio era sócio de seu marido, e ela não queria se indispor com ele. Me fez tentar entender que os homens são assim mesmo... mas... 

-Eu sei porque ela fez aquilo! Estava apaixonada por ele também. 

-Não só ela, mas todas as mulheres da família. Ele tinha um caso com sua tia Aurora. Não sei de nada concreto entre ele e sua mãe, só os vi se beijando uma vez, mas na noite do casamento de Berta, eu vi quando ele e Aurora transavam atrás do salão de festas, depois que todos tinham ido embora. 

Yara lembrou-se daquela noite, do quanto ela tinha se apaixonado por Duílio enquanto ele dançava com ela, e também de que tinha sido naquela noite que ela decidira que ele seria dela. Jamais suspeitara que ele e sua tia estavam tendo um caso. Pensava que era sua própria mãe que tinha um caso com ele. 

Yara exclamou:

-Meu Deus!!! Como isso pode ser possível? Como posso ter sido tão cega? Quase destruí minha família por causa dele.

-Que bom que vocês não se casaram! De qualquer forma, eu não teria deixado isso acontecer. Soube que vocês estavam juntos, mas achava que não daria em nada, como não deu. Mas por que terminaram?

-Porque... de repente, eu comecei a notar que havia algo errado com ele. Duílio era fascinante, mas a cegueira inicial da paixão já não conseguia mais disfarçar a minha intuição de que ele seria um desastre na minha vida. Você soube que ele se casou de novo, não soube? Com uma ricaça de São Paulo. De vez em quando ele ainda vem aqui por causa dos negócios de papai.

-E como está seu pai?

-Nada bem... minha mãe está com ele no hospital outra vez. 

-Sinto muito, querida... e... os outros? Como estão Berta e Sebastian? E Joanna?

-Berta e Sebastian continuam casados. Os gêmeos cresceram... você precisa vê-los, já são adolescentes. Joanna está morando na Espanha há alguns anos. Parece que conheceu um cara por lá, e não vai mais voltar. Tia Aurora virou uma mulher de negócios, e comanda tudo. Ela nunca mais se casou, depois que ficou viúva, mas dizem por aí que ela tem lá seus ‘affairs...’ nada sério, porém. Marcelo casou-se... 

-Eu sei. Conheci a esposa dele. Que criatura, hein?

Yara riu:

-Verdade! Ela morre de ciúmes dele. Os dois não tiveram filhos, ela não pode. Na verdade, eu não gosto muito dela, sabe... eu sempre a comparo com você.

-Ora, por que? Marcelo para mim é passado. Gustavo – meu marido – é maravilhoso. Dê uma chance à fadinha!

Ambas riram. 

-Estou louca para conhecer Gustavo! Ele deve ser maravilhoso, afinal, você gosta dele. Cristina.. . você está feliz?

-Sim, eu estou. Até fiz as pazes com meus pais. Não somos lá muito próximos, mas podemos ficar juntos sem brigar, se é que você me entende. Estou pensando em vir passar o natal com eles. Você acha que eu criaria uma situação desagradável na casa?

-Bem... acho que não... na verdade, não sei. Tem a Cândida. Mas eu adoraria passar o Natal com você, Cristina!  Que se dane ela. E tenho certeza que meu pai vai ficar muito feliz em vê-la. Aliás... por que não faz uma visita a ele?

Assim, ambas decidiram visitar Nelson naquela tarde. 

Ao chegarem ao hospital, Mirtes dormia pesadamente na cadeira ao lado da cama. Yara notou que seu pai estava ainda mais pálido do que no dia anterior. Ela sabia que não o teria mais dentro em breve, e aquele pensamento apertou seu coração como uma prensa. Sentou-se perto dele, acariciando-lhe a cabeça, e disse:

-Como você está hoje, pai?

-Hum... acho que morrer não dói tanto assim, afinal...

Yara engoliu em seco, mas não tentou fantasiar a situação como todos faziam, dizendo que ele ainda viveria muito. Ela o respeitava demais. 

-Tem uma pessoa aqui fora que gostaria muito de ver você. É a Cristina. Você quer vê-la?

-Oh, mas é claro! Sempre gostei muito dela. Como ela está?

-Veja por você mesmo!

Naquele momento, Cristina entrou no quarto, sorrindo. Ao ver Nelson tão doente, ela teve que fazer força para não chorar. 

Ela se aproximou da cama, e sentou-se ao lado dele, que num esforço, acariciou seu rosto.

-Você está ainda mais bonita, querida. Que bom ver você de novo! Soube que está feliz. Eu estou muito feliz por você. 

Naquele instante, Mirtes despertou, e ao ver Cristina, seu rosto se abriu em um sorriso:

-Oh, mas que alegria ver você, Cristina! Seus pais sabem que está aqui?

As duas trocaram cumprimentos.

Cristina notou que Mirtes envelhecera bastante, mas ainda continuava muito bonita. 

-Olá, Dona Mirtes, não, ainda não falei com eles.

-Então venha jantar conosco. Será nossa convidada de honra!

Cristina pensou na ironia daquela situação, pois há alguns anos, era tratada como a filha da empregada. Sorriu, e respondeu:

-Agradeço muito, mas meu marido vai telefonar para mim à noite, e preciso estar no hotel. 

Era uma mentirinha a fim de evitar uma situação pela qual ela não desejava passar.

-Que pensa... Berta e Sebastian estarão lá com os gêmeos. E Yara vai trazer o João. 

-Bem, fica para uma outra vez. Virei com meu marido!

-Sim, claro! Adoraríamos conhece-lo. Soube que ele também é advogado. 

-Sim, é verdade. Com certeza, ele e Sr. Nelson terão muito a conversar.

Ela olhou para a cama, mas Nelson tinha adormecido. Mirtes aproximou-se, sussurrando:

-Ultimamente tem sido assim... ele passa horas dormindo. Acho que... acho que nós vamos perde-lo dentro em breve.

Ela derramou algumas lágrimas, e Yara a abraçou. Cristina, comovida com a situação, também sentiu seus olhos encherem-se de lágrimas. 

Naquela noite, Cristina voltou para o hotel, aceitando o convite de Yara para o almoço do dia seguinte, que seria um sábado. Também aproveitou para telefonar aos pais, e após conversarem, eles foram vê-la no hotel antes do jantar. 

Yara foi para casa com Mirtes, já que Berta e sua família estariam presentes. Após o jantar, Yara disse que passaria a noite no hospital com o pai, já que Mirtes precisava descansar. O jantar foi alegre e muito jovial. João, ao ver a mãe, abraçou-a e choramingou, perguntando quando ela voltaria para casa. Yara prometeu que as férias de natal se aproximavam e que em breve eles passariam mais tempo juntos.

Mirtes ainda conseguiu ficar um tempo acordada a fim de desfrutar da companhia dos netos, mas às oito e trinta, despediu-se e foi deitar-se. João passaria a noite na casa de Berta, que despediu-se às nove. 
Yara não suspeitava que em breve, acontecimentos inesperados mudariam o rumo daquela família para sempre. 

(CONTINUA...)




quarta-feira, 28 de agosto de 2019

INOCÊNCIA - PARTE III, CAPÍTULO I





PARTE III, CAPÍTULO I – RESGATES

Eu ainda fingia olhar o cardápio quando Marcelo se levantou e veio até a minha mesa, de mãos dadas com a sua fada loira. Coloquei o cardápio sobre a mesa e olhei para o casal, forçando um sorriso, e esperei que ele se manifestasse. Marcelo pigarreou:

-Há quanto tempo, Cristina! Jamais pensei que a veria de novo por aqui!

Acenei levemente com a cabeça, olhando de um para o outro e estendendo minha mão para ele, que a pegou e apertou levemente, dizendo:

-Deixe-me apresentar-lhe minha esposa Cândida.  Cândida, esta é Cristina. Lembra, eu lhe falei sobre ela.

Cândida sorriu forçadamente para mim, respondendo com frieza:

-Sim, eu sei tudo sobre você, Cristina. Como vai?

Respondi com frieza:

-Bem obrigada.

Ficamos os três nos olhando, e notei o quanto Marcelo estava embaraçado enquanto Cândida nos lançava chispas de ódio com o olhar. Achei que nada mais havia a dizer. Não tentei ser sociável. Marcelo indagou o que eu estava fazendo na cidade, e respondi que estava ali para ver Yara, e que tínhamos um encontro marcado. Não entrei em detalhes sobre a minha vida pessoal. O desconforto visível de Cândida e o olhar úmido de Marcelo, cujos olhos plantados em uma face visivelmente ruborizada quase me comiam, me fizeram perceber que Cândida estava pronta para fazer uma cena de ciúmes, mas que estava tentando controlar-se. Ela olhava de mim para Marcelo, os olhos marejados, a boca entreaberta de indignação. Ele não conseguia disfarçar o quanto eu ainda o deixava louco, mesmo após tantos anos. Ambos tinham peles muito claras e não conseguiam disfarçar o rubor. 

O garçom trouxe minha bebida, anunciando que meu prato estaria pronto em dez minutos. Peguei minha taça de vinho branco, e fazendo menção de brindar, ergui-a diante do meu rosto e olhei para eles. Bebi um pequeno gole, colocando a taça na mesa. Cândida quase puxou Marcelo pelo braço, e ele pareceu acordar de um transe:

-Bem, Cristina... foi... muito bom ver você de novo. Espero que goste da refeição. Se precisar de alguma coisa, eu...

Naquele momento, Cândida desferiu-lhe uma cotovelada. Eu olhava tudo divertida. Ele me acenou um adeusinho, e ambos deixaram o restaurante, ela, pisando duro. Seja lá o que tinham para fazer ali, desistiram. 

Almocei, e mais tarde, passei na cidade para fazer compras. Ao parar em frente a uma vitrine, dei-me conta de minha aparência excelente, e do porquê as pessoas me encaravam e se viravam para me olhar quando eu passava. As coisas em Rio da prata não tinham mudado: as pessoas continuavam curiosas a respeito de todos e de tudo que lhes pareciam diferentes. Comprei um vestido, apenas para passar o tempo enquanto a hora do encontro não chegava. Depois voltei para o hotel, onde encontraria Yara. Ela já estava me aguardando na recepção – eram cerca de quatro horas da tarde. 

Ao me ver, Yara ergueu-se do sofá, e vindo em minha direção, me abraçou sem nada dizer, e nós choramos.

(Continua)





terça-feira, 20 de agosto de 2019

INOCÊNCIA - PARTE II, CAPÍTULO XXX









PARTE II, CAPÍTULO XXX – ANOS DEPOIS...

E assim, começou realmente a minha vida, a vida que eu merecia: eu e Marcelo nos casamos em uma cerimônia discreta alguns meses depois da morte de minha avó, que ocorreu duas semanas após sua hospitalização. A herança foi devidamente partilhada segundo os desejos dela. É claro que nem tudo foram flores, pois houve a oposição de uma sociedade inteira ao nosso casamento, a começar pela família de sua ex-noiva, que escreveu-me uma carta horrível, destilando ódio e despeito, me fazendo lembrar de minhas origens humildes e do quanto eu havia arruinado a vida da moça e estava arruinando a vida de Gustavo. Li a carta sentada na poltrona preferida de minha avó, e depois joguei-a no fogo da lareira. 


Quanto a Jandira, depois que vendemos a fazenda e repartimos os bens, nunca mais soubemos dela. Apenas nos disse que partiria em uma viagem pelo país, a fim de recuperar o tempo que passara enfurnada naquela fazenda. E a parte que recebera certamente seria mais do que suficiente para que esta viagem durasse muitos e muitos anos.

Meu marido e eu procuramos por meus pais a fim de comunica-los sobre a morte de minha avó. Eu não queria participar do encontro, pois ainda estava muito magoada com eles, mas Gustavo, como advogado de minha avó Helena, era responsável pelo testamento. Ele conseguiu me convencer a rever meus pais, dizendo:

-Meu amor, o passado mal resolvido é uma carga muito pesada para se carregar durante uma vida. Mesmo que sua relação com seus pais jamais seja muito boa, é preciso que se reconcilie com eles, e mantenha pelo menos um relacionamento cordial, mesmo que distante. 

Aquelas palavras me fizeram pensar, e eu concordei com ele. 

Nós nos encontramos em um restaurante, pois eu não desejava voltar à casa onde eu crescera e rever aquela família que tanto me magoara. Eu não queria rever Marcelo – soubera que ele estava noivo. Ao me ver, minha mãe derramou lágrimas verdadeiras, e nos abraçamos. Ao saber-me casada com um advogado rico e bem relacionado, meu pai pareceu orgulhar-se um pouco de mim. Rever meus pais foi muito emocionante, mas eu não conseguia me esquecer da maneira como eles tinham me tratado em relação ao meu romance com Marcelo. Não podia entender como eles me trataram como se eu não fosse boa a o suficiente para namorar Marcelo apenas por causa de nossas diferenças sociais.

Eu e Gustavo nos mudamos para Porto Alegre, onde compramos uma linda casa e comecei a fazer um curso de cabeleireira. Afinal, aquele ainda era o meu grande sonho: ter um salão de beleza. Mesmo que eu não precisasse mais trabalhar. 

Anos se acumularam. Abri meu salão em 1981 no centro de Porto alegre. Comecei a ter o meu trabalho reconhecido e cheguei a dar entrevistas para algumas revistas sobre beleza feminina. Eram meados dos anos oitenta. Mamãe me escrevia longas cartas. Contou-me as novidades sobre a família – o noivado de Yara com Duílio, a volta da doença de Sr. Nelson e da grande confusão em que mãe e filha tinham se metido na noite de noivado. Eu gostava muito de Yara, e lamentava que ela estivesse ficando noiva de Duílio, que não passava de um homem bonitão, mulherengo e fanfarrão que enganava a todos.

Eu, como filha da empregada da casa, vira coisas que ninguém mais vira. Uma noite, quando todos estavam reunidos para o final de semana, vi quando ele insinuou-se para D. Aurora, apenas algumas semana após a sua viuvez, e como ela o repeliu. Mas D. Mirtes, fragilizada pela doença de Sr. Nelson, caíra na lábia dele. Não sei se chegaram a se tornar amantes, mas eu vira os dois se beijando uma madrugada no jardim da casa, quando todos dormiam. Até mesmo para mim Duílio se insinuara uma vez! E eu era apenas uma menina naquela época. Achei que Yara precisava saber da verdade antes de casar-se com ele. Mas não foi necessário, visto que ela desmanchou o noivado.

Após anos, telefonei para ela. Yara tinha então vinte e seis anos, e eu, trinta e um. Ela ficou realmente feliz em ouvir a minha voz, e marcamos para nos encontrar dali a alguns dias, já que eu estava de passagem para visitar meus pais. Gustavo ficara em Porto alegre, e eu estava hospedada em um hotel da cidade.

Andar por aquelas ruas novamente me encheu de lembranças. Nada mudara muito. Lá estava o restaurante da família, que eu tinha frequentado por caridade na minha infância algumas vezes. Parecia decaído, mas ainda lhe restava um pouquinho do antigo glamour. Eu estava parada na calçada remoendo minhas lembranças, quando vi Marcelo do outro lado da calçada com uma moça tão branca, mas tão branca, que mais parecia um fantasma. Ela era um tanto exótica: demasiadamente magra, os cabelos lisos e quase brancos, a pele mortalmente branca, e se movia como se fosse uma fada ao lado dele, aproximando-se para falar alguma coisa junto ao seu ouvido. Marcelo continuava sendo um belo homem, mas parecia muito infeliz; não: infeliz não era a palavra certa, e sim, indiferente.

Os dois entraram no restaurante, e mesmo estando do outro lado da rua, senti um rastro de perfume de rosas no ar, que emanava dela. Movida por impulso, atravessei a rua; ainda faltava uma hora para o meu encontro com Yara. Nem sei porque eu entrei no restaurante, mas quando dei por mim, estava sentada em uma das mesas olhando o cardápio.

Olhei em volta, e vi o casal sentado em uma mesa junto ao bar. Eles não conversavam. Apenas olhavam em volta, e ele, consultava o relógio de vez em quando, enquanto ela mantinha as mãos cruzadas sobre a mesa e brincava com o guardanapo de vez em quando. De repente, ele olhou na minha direção. Vi que o rosto dele corou, e sua boca se entreabriu devagar.

Eu tinha plena consciência do impacto que minha presença lhe causava. Estava linda, bem vestida, elegante e muito confiante da minha beleza. Notei que a mulher olhou na direção do olhar de Marcelo, e deu comigo. Eu desviei os olhos, fingindo concentrar-me no cardápio.  Naquele o momento o garçom se aproximou e fiz o meu pedido.

Fim da parte II

(CONTINUA...)




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