quinta-feira, 18 de julho de 2024

A RUA DOS AUSENTES - PARTE 8

 





PARTE 8 –

O DESPERTAR

 

Eduína, que era sempre fria e calma, levou um susto. Achou que aqueles olhos que a olhavam fixamente eram apenas sua imaginação, e piscou para afastar aquela imagem, mas quando olhou-a novamente, os terríveis e ao mesmo tempo maravilhosos olhos verdes emitiram um brilho de vida, e Hélida se mexeu. Eduína, fascinada, afastou-se um pouco do caixão de vidro, tentando não demonstrar medo, até que Hélida empurrou a tampa com a mão, sentando-se e espreguiçando-se. Olhou para Eduína como se ela fosse um inseto, enquanto bocejava, perguntando:

-O que você está fazendo aqui, e quem é você?

Instintivamente, Eduína sabia que aquela pergunta era desnecessária: Hélida já tinha a resposta. De repente, Félix desceu as escadas do porão, indo sentar-se no colo de Hélida, que o acariciou enquanto o gato ronronava, esfregando-se nela. Após alguns segundos, ela o afastou e saiu do caixão, espreguiçando-se mais uma vez, batendo a poeira do vestido com as mãos. A cena era simplesmente bizarra, e Eduína nem percebeu que seus olhos estavam arregalados, e ela, boquiaberta. Hélida olhou-a novamente, desta vez com mais atenção:

-Você é a filha dela. Hum... vamos lá para cima. E obrigada por cuidar do meu gato. Ele esperava pela minha volta há muito tempo.

As duas mulheres subiram as escadas seguidas por Félix. Ao chegarem na cozinha, Hélida olhou em volta, dizendo:

-Aquele velho não cuidou muito bem da minha casa nesses anos todos. Olhe só quanta poeira! Você não abre a boca, não fala nada?

Eduína balbuciou:

-Bem, é que... você há de convir que essa história toda é meio difícil de engolir... quem tem a chance de estar diante de uma bru... digo, de uma mulher que morreu há 300 anos e conversar com ela, vendo-a se mover enquanto prepara um chá?

Hélida pareceu ignorar a fala da outra, enquanto pediu:

-Me ajude a acender esse fogão. É moderno demais para mim. E por favor, pode me chamar de bruxa. É o que eu sou. E eu não morri, fui colocada para dormir.

Eduína acendeu o fogo, enquanto Hélida a observava atentamente. Depois, a moça foi até o interruptor elétrico e a cozinha encheu-se de luz. Hélida olhou para cima, surpresa, e deu um leve sorriso:

-Hum, modernizaram tudo por aqui. Isso é bom. Mas... o que você faz aqui em minha casa? Como entrou?

- Você sabe. Mas tudo bem, eu posso responder mesmo assim.

A outra riu abertamente:

- Mesmo sabendo, há coisas que devem ser ditas. As duas colocaram duas xícaras sobre a mesa. Eduína se perguntava sobre o que beberiam, já que a casa estivera tanto tempo vazia, mas Hélida abriu o armário sobre a pia e Eduína viu potes de ervas frescas e um pão de centeio também fresco. As duas se entreolharam, e Hélida disse:

-Não se esqueça que eu sou uma bruxa. De verdade.

Eduína decidiu que gostava de Hélida. Mal sabia ela que a bruxa esperava por aquele momento há anos e anos.

As duas mulheres tomaram chá de ervas e comeram o pão ainda quente servido pela bruxa. Eduína contou-lhe sua história brevemente, e partilhou a vontade que alguns tinham de finalmente não voltarem. A bruxa a escutou atentamente, fazendo algumas perguntas de vez em quando. Enquanto isso, as sombras do dia vagarosamente se transformavam em noite. Quando Eduína terminou de contar sua história, Hélida ficou em silêncio durante algum tempo, olhando para seus próprios trajes com insatisfação. E então, diante dos olhos da moça, as roupas de Hélida começaram a se transformar vagarosamente em um vestido moderno, de cor marinho, com uma saia rodada na altura dos joelhos, e um par de botas de cano médio se materializaram sobre os sapatos antigos. Quando Eduína ergueu os olhos, viu também que os cabelos emaranhados de Hélida estavam limpos e sedosos, deixando-a ainda mais bonita. Por um momento, Eduína invejou a bruxa, mas lembrou-se de que ela poderia adivinhar seus pensamentos e varreu aquele sentimento para longe.

Finalmente, Hélida respondeu:

- Eles querem saber se é possível não voltar? Eles me puseram em uma caixa de madeira por duzentos anos! Depois, me transferiram para aquele mausoléu de vidro no porão da minha própria casa, onde passei os últimos cem anos. E por que? Simplesmente porque eu era uma bruxa.

-Mas como isso aconteceu?

Hélida franziu as sobrancelhas, parecendo zangada. Depois, em um tom de voz calmo e quase cínico, começou sua narrativa:

- Porque bruxas deveriam ser destruídas. Queimadas vivas, torturadas, presas, privadas de todos os seus bens, humilhadas em praça pública, enfim, postas para dormir e trancadas em caixas de madeira, quando eram poderosas demais para serem mortas. No meu caso, eles fizeram um pacto. Se eu fosse posta para dormir indefinidamente, sacrificariam treze almas ao demônio, e construiriam doze casas parecidas com a minha, que seriam seus templos. E ainda diziam que eu era a coisa ruim!

Eduína ficou chocada:

- Quer dizer então que as treze casas são...

- Templos. E a cada treze anos, a sua maravilhosa família sacrifica treze jovens mulheres ao seu “deus” a fim de aplacarem sua fúria e manterem o pacto. E adivinhe só quem será uma delas dentro em breve?

Eduína engoliu em seco, levando a mão instintivamente ao próprio pescoço:

A bruxa riu alto. Eduína sentiu um arrepio percorrer sua espinha, reconhecendo o medo pela primeira vez em sua vida.

-Mas... como? Me disseram que eu sou uma deles, e que me tiraram daqui para que eu não fosse morta por minha avó...

-Querida, como você é ingênua. Acha mesmo que herdou aquela casa, aquela fortuna? Acha mesmo que Lázaro é seu papai e Viviane a sua mamãe? Você é uma das treze, só isso. As outras serão trazidas dentro em breve pela mesma história que trouxe você aqui. Estão sendo criadas por pais adotivos – seus verdadeiros pais foram mortos... “acidentalmente.” E vocês são especiais, todas vocês. Porque sofrem de algum grau de sociopatia. E não têm nenhum parente vivo, ou seja, ninguém sentirá falta de vocês.

-Sociopatia?

-Exato. E você sabe muito bem que jamais conseguiu amar ninguém, ou sequer gostar de alguém. Sempre foi solitária, nunca sentiu falta de ninguém, nunca realmente sentiu necessidade de amigos. Você é fria como uma pedra de gelo, e ambiciosa. E eles a criaram assim. Você inclusive foi medicada para tal.

-Mas eu assinei vários documentos assumindo a herança!

-Todos eles falsos, sua tola. E toda a fortuna que eles adquiriram pertenceu a mim, à minha família. Nada disso pertence a eles.

- Mas... e como eles podem... e quanto a você, como você despertou?

-Você me despertou, embora eu não estivesse realmente dormindo. Minha alma vagou livremente, e eu pude acompanhar tudo o que acontecia por aqui.  Não pude escapar de suas armadilhas, pois fui presa, amordaçada e drogada; mas durante esses acontecimentos, eu pude lançar-lhes uma maldição, que foi a de retornarem e continuarem retornando sem terem descanso.

Eduína começou a sentir-se bastante desconfortável.

-Mas... por que eu a despertei?

- Eles não sabem, mas você foi parte da maldição que eu lancei: uma mulher chamada Eduína me despertaria. E me ajudaria em minha vingança.


(continua)





terça-feira, 2 de julho de 2024

A RUA DOS AUSENTES - PARTE 7

 




Capítulo 7 – A ETERNIDADE

 

Surpreendida pelo desabafo da mulher geralmente calada, Eduína refletiu por um momento. Mas o que Beatriz disse não a convencia de que viver para sempre, sendo rica e sem jamais envelhecer, poderia ser uma ótima ideia. Perguntou, dirigindo-se à Beatriz:

- Beatriz, vocês dizem que nós voltamos. Mas somos sepultados, alguns cremados, nossos corpos não são destruídos? Então, como voltamos neles?

As duas velhas mulheres se entreolharam, respirando profucndamete, e foi Guiomar quem respondeu:

-Não sabemos. Não conseguimos nos lembrar de absolutamente nada entre o momento em que desaarecemos e o momento em que voltamos. Chegamos aqui andando e ficamos um pouco confusos no início, até que as lembranças começam a voltar. Não sabemos como voltmos aos nossos corpos.

Eduína ergueu-se da cadeira, caminhando e gesticulando enquanto dizia:

-E se... pudéssemos escolher os corpos para os quais voltaremos? Ou seja, corpos mais jovens e bonitos? Mais saudáveis? E se pudéssemos escolher novos corpos e novas vidas, novas identidades?

Beatriz negou com a cabeça, e Guiomar disse:

- Já foi tentado. Os cientistas tentaram. Usaram corpos de pessoas recém-falecidas, indigentes. Mas nada conseguiram nesses anos todos.

-Talvez porque eles pensam que tudo isso é apenas uma experiência física, algo apenas científico. Mas... e se tiver alguma coisa a ver com mágica? Algum ritual?

As duas mulheres se entreolharam novamente, mas nada disseram. Preferiram não dizer que algo fora tentado algumas vezes, e apesar de terem sacrificado algumas vidas a procura de corpos jovens para onde voltarem, tais vidas tinham sido desperdiçadas em vão. Nada tinha funcionado. Lembraram-se do velho livro de rituais eu estava na família há séculos, mas que ninguém conseguira decifrar totalmente. O livro encontrava-se na prateleira mais alta da biblioteca, onde dificilmente alguém poderia encontrá-lo. Fora colocado lá por Viviane.

Sob  a mesa, Felix estava em sua posição de iogue na sua cadeira favorita, os olhos fechados.

Mais tarde, quando as duas senhoras foram dormir, Eduína caminhava pela casa semi-escurecida olhando tudo. O silêncio era entrecortado pelo ruído do relógio antigo de parede. Ela ainda não conseguia entender o que estava acontecendo, mas sabia que mais cedo ou mais tarde, ela conseguiria. Sentia que tinha uma missão naquela família.

Após oito dias morando naquela casa, Eduína ainda não tinha reencontrado Feliciano, o belo jovem que conhecera no jardim e que era seu vizinho. Tinha a impressão que ele estava fugindo dela, mas Beatriz assegurou-lhe de que Feliciano estava ocupado cuidando dos negócios da família. Da mesma forma, Lázaro passava de vez em quando para levar algumas compras do supermercado, mas nunca falava com ela. Eduína precisava lembrar-se de aquela figura encarquilhada era seu pai, mas como ele jamais se dirigia a ela, ela agia da mesma forma. Não se sentia próxima a ele e nem queria estar.

Seu único amigo, aquele que a via sem a sua armadura, era o gato Felix. Ele subia em sua cama e ficava olhando para ela, enquanto ela olhava pela janela ou andava de um lado para o outro.

Ela não saía muito. Tinha ido até o final da rua e conhecera todas as casas pelo lado de fora, já que deu a si mesma a liberdade de invadir seus jardins, como Feliciano fizera. Reparou que todas as casas eram muito antigas e bem conservadas e tinham a mesma arquitetura, com apenas poucas diferenças. Também foi à cidade uma vez, e sentia os olhos das pessoas presos nela quando ela passava. Mas Eduína não ligava que falassem dela ou que a observasse, pois nunca tinha sido tímida. Ela retribuía – ou melhor, enfrentava – os olhares de algumas pessoas mais insistentes até que elas parassem de encará-la, e o fazia por pura diversão. Se havia alguma lenda sobre aquela família, ela a alimentaria.

Certa vez, ela seguiu Lázaro até sua casa depois que ele foi levar algumas compras. Ele ficou surpreso ao vêla andando atrás dele, e franzindo as sobrancelhas, tentou entrar em casa antes que Eduína o alcançasse, mas ela foi mais rápida, colocando-se entre ele e a porta. Lázaro respirou profundamente, mostrado toda a sua habitual irritação. Eduína buscou dentro de si sua melhor ironia antes de perguntar:

-Por que o papai anda sempre tão aborrecido?

No fundo, seu coração batia descompassadamente, uma sensação nova para ela, mas seu rosto era pálido e frio como sempre. Lázaro, sentindo-se desarmado de repente, respondeu com outra pergunta:

-Ah, então você já descobriu?

Ela não respondeu, permanecendo a encará-lo desafiadoramente e lançando uma outra pergunta:

- Como é viver por tantos anos?

Ele sorriu levemente, um sorriso maldoso. Abriu a porta de casa e fez sinal para que ela entrasse. Eduína entrou, reparando na simplicidade da casa quase nua, sem tapetes, sem decoração. Lembrou-se da casa onde vivera com seus pai adotivos, mas sem nenhuma saudade. Puxou uma cadeira junto à velha mesa de madeira arranhada e sem toalha enquanto Lázaro arrumava algumas compras no armário, de costas para ela. E repente, ele começou a falar:

-No começo, pensamos que viver por muitos anos é bom. Mas depois de certo tempo, percebemos que passamos a conhecer bem as pessoas, bem demais – suas atitudes não mudam muito, elas não parecem evoluir, se olharmos de perto – e isso nos torna amargos e com cada vez mais vontade de nos afastarmos delas, tão previsíveis são suas atitudes e palavras. Esta cidade, por exemplo; um bando de fofoqueiros e curiosos. Eles nascem, crescem, dão à luz a outros fofoqueiros como eles, morrem... e o ciclo se renova, ou melhor, se repete. Não há graça, e após um certo tempo, torna-se apenas tédio. A vida pode ser bem superficial.

Ele sentou-se em frente a ela, esticando-lhe um copo de água que ela ignorou.

-Como tudo isso começou? As pessoas começando a voltar, quero dizer.

-Não tenho certeza... talvez há uns trezentos e tantos anos. Falam sobre um feitiço feito por Hélida, uma antepassada que gerou uma maldição que comprometeu todos os descendentes da família e também a todos que se envolvessem com eles. Ela viveu há mais de trezentos anos.

Eduína parecia fascinada.

- Uma bruxa... se um feitiço foi lançado, deve haver uma maneira de desfazê-lo. E como elas voltam?

Ele fitou-a, deixando transparecer no seu olhar cansado um misto de dó e indiferença:

-Elas apenas parecem, caminhando na estrada, voltam para suas casas. E não sabem de onde vieram, não se lembram de como voltaram. Ninguém sabe. Nem mesmo eu, que já voltei duas vezes. E elas voltam sempre com a aparência que tinham quando morreram pela última vez, e por isso muitos preferem se suicidarem ainda jovens. Como sua mãe e Feliciano. Mas não se engane com a aparência dele, ele é tão velho quanto muitos. Quanto a desfazer o feitiço... é o que muitos têm tentado fazer sem sucesso. Porque apenas a bruxa que o lançou poderá desfazê-lo.

- E onde ela está? Não voltou?

-Não. Incrivelmente, Hélida não voltou. Mas o seu corpo está guardado no porão da casa 9. Ela nunca se decompôs.

Ela franziu o cenho, desarmada pela primeira vez diante dele. Trataria de revisitar a casa 9 após sair dali.

-Se vocês sabiam dessa... maldição, por que decidiram me trazer ao mundo? E como minha mãe, que tinha a aparência tão bonita, aceitou ficar com você, um velho encarquilhado e amargo?

Ele não demonstrou estar ofendido; pelo contrário, os olhos dele pareceram estar vendo algo que ela jamais entenderia.

-Nossa história começou há muito tempo, quando eu era um jovem atraente. Sua mãe... uma linda  mulher, sempre. Aguardar a volta dela é tudo o que tenho feito. É a única coisa que me motiva um pouco. E saber que ela ainda me ama, mesmo sendo como sou, mesmo eu não tendo a coragem de segui-la. Quanto a você...

Ele a olhou como se ela fosse um inseto.

-Você não passou de um acidente de percurso. Sua bisavó não queria que você nascesse, e fez de tudo para tentar impedir sua vinda ao mundo, pois não queria que sua linda bisneta tivesse um compromisso com alguém como eu, um simples empregado. Mas Viviane e eu fugimos, e só retornamos quando você nasceu. Mas ela não a trouxe de volta. Contratou pessoas para cuidar de você. Seus pais adotivos. Chegando aqui, nós combinamos de nos matarmos juntos, mas eu, mais uma vez, não tive a coragem. Eu traí a confiança dela. Como das outras vezes.

Eduína levantou-se, afirmando:

-Eu quero ver Hélida. Agora.

Ele olhou-a por alguns instantes, antes de se levantar e pegar um molho de chaves que estava pendurado junto à porta de entrada. Retirou uma chave do molho, entregando-a à Eduína, que aprontamente a segurou, perguntando:

-Você não vai comigo?

Ele riu, ironicamente:

- E por que eu iria?

Ela virou-se de costas para ele e saiu batendo a porta.

A porta de entrada da casa 9 rangeu amargamente quando Eduína a empurrou. Lá dentro estava escuro, e o cheiro de bolor era desagradável. Ela procurou o interruptor, e uma luz fraca acendeu no teto do salão. Eduína olhou em volta e percebeu que aquela deveria ser uma das casas mais antigas da rua. Com certeza, a casa mais antiga que ela já entrara. Mesmo assim, não estava mal cuidada. Talvez um pouco empoeirada.

Ela logo achou o caminho que a levaria para o porão, uma portinhola na cozinha. Eduína sentia como se o tempo todo alguém a estivesse vigiando, e não gostava daquela sensação, mas se queria descobrir alguma coisa, deveria suplantar sua insegurança.

Deparou com um animal morto num canto da cozinha, já ressecado: um rato. Mas apesar de detestar ratos, Eduína simplesmente o ignorou.

Abriu a portinhola e começou a descer vagarosamente as escadas de madeira estreitas que levavam ao porão – e contou todas elas: trinta e nove degraus. O porão era um lugar enorme, cheio de livros, mesas com frascos cheios de líquidos estranhos, esqueletos de animais, plantas ressecadas e muitas teias de aranha. Finalmente, ela encontrou, em um canto, o caixão de vidro onde estava o corpo de Hélida.

Aproximou-se dela vagarosamente, e ao chegar perto, limpou o vidro empoeirado com as mãos e um pano velho que achou por lá, e então deparou com uma das mulheres mais lindas que já vira. Hélida parecia dormir. Tinha cabelos negros e longos, cuidadosamente arrumados em volta do corpo, e sua pele parecia feita da mais rica porcelana. As duas mãos cruzadas no peito eram finas e delicadas, unhas longas pintadas de vermelho vivo. Os lábios pareciam terem sido esculpidos à mão por um competente artesão, e os cílios longos e negros eram encimados por um par de sobrancelhas naturalmente arqueadas. A mulher era uma verdadeira obra de arte!

Eduína percorreu com os olhos o vestido roxo antigo bordado de negro, até os pés descalços e muito brancos. Depois, seus olhos foram subindo devagar, concentrando-se nas pulseiras de pedrarias e nos anéis de rubi ou esmeraldas, até chegar novamente ao rosto perfeito, onde dois olhos verdes a fitavam.

 

 (CONTINUA)





 


terça-feira, 7 de maio de 2024

A RUA DOS AUSENTES - PARTE 6




 PARTE 6 – FAMÍLIA


No dia seguinte, após uma noite praticamente em claro, Eduína decidiu colocar toda aquela história sobre a mesa. Carregou os álbuns de retratos um a um até a sala de estar, colocando-os sobre o sofá. Guiomar esperava por ela de pé, ao lado da mesa da sala de jantar onde o café da manhã tinha sido servido, e Eduína podia ouvir Beatriz limpando o andar superior da casa. As duas mulheres se cumprimentaram com um aceno de cabeça e um bom dia sussurrado, e Eduína sentou-se à mesa. Guiomar serviu-lhe o café em silêncio. 

Após comer, Eduína dirigiu-se à porta, e só então se deu conta de que Félix não estava por perto. Indagou:

-A senhora sabe onde o Félix está?

Guiomar lançou-lhe seu sorriso escorrido, dizendo:

-Oh, acredito que ele esteja por aí, pelo jardim. A senhorita já visitou a floresta? É muito bonita.

Eduína percebeu que a sugestão de Guiomar continha alguma segunda intenção, e sem responder, saiu para o jardim dirigindo-se à floresta que ficava nos fundos da casa. Encontrou Félix distraindo-se com algumas borboletas que voejavam por ali, e assim que ele a viu, correu para perto dela. Eduína ajoelhou-se para festejá-lo, e quando casualmente olhou para o lado, ela viu um pequeno cemitério antigo.

Ela o percorreu vagarosamente, sentindo a atmosfera sombria que a enregelava. Apertou o casaco contra o corpo, tentando conter o frio repentino. Nas lápides, havia fotografias amareladas das mesmas pessoas que ela tinha visto nos álbuns. Eduína, que era boa fisionomista, conseguiu até mesmo lembrar-se dos nomes. De repente, ela deparou com a lápide de sua mãe. Passou a mão sobre a fotografia tentando remover o lodo que crescia sobre ela. De repente, Eduína sentiu a presença de alguém de pé atrás dela, e virou-se rapidamente. 

Era um homem jovem e alto e esguio, aparentando talvez trinta anos de idade, cabelos castanho-avermelhados ondulados e olhos verdes. Vestia um suéter preto de gola alta e calças igualmente pretas. Ele a olhava como se a conhecesse, um sorriso disfarçado entre os lábios, e ela pensou que as pessoas dali (como ela) não eram muito de sorrir. O que ela mais reparou nele, foi o ar de arrogância que ele destilava. Eduína sentiu um arrepio quando os olhos dela se prenderam aos olhos dele, e para manter o controle da situação, pigarreou:

-Quem é você? O que quer aqui?

Naquele momento, Félix correu na direção do rapaz, esfregando-se em suas pernas e sendo acariciado por ele. O rapaz olhou para as pontas dos sapatos caros, esfregou as calças para retirar os pelos do gato e erguendo os olhos novamente, respondeu, apontando em direção à rua:

-Sou Feliciano. Moro na casa 11.

Ela concordou com a cabeça, respondendo: 

-Eu sou...

Ele a interrompeu:

-Eduína. Como vai você?

Eduína não respondeu, nem devolveu o cumprimento. Ao invés disso, mudou de assunto:

- As pessoas são sempre assim por aqui? Invadem as casas alheias?

Feliciano fitou-a longamente antes de responder.

- Não estou invadindo. Costumo vir aqui desde criança para brincar no jardim, bem antes de você aparecer... Sempre morei nesta rua. Aliás... lamento por sua bisavó.

-Eu nem a conhecia, não lamente. E ela me deixou uma fortuna, afinal. Eu nem sequer conheci a minha mãe (ela apontou para o túmulo de Viviane). Ela me abandonou quando nasci. 

Ele concordou com a cabeça.

- Você é sempre tão direta e prática? Talvez o verbo não seja ‘abandonar.’ Quem sabe, ela só estava tentando livrar você de um destino pesado?

-Como assim? O que você sabe de mim? O que sabe sobre essas pessoas?

Ele respirou fundo, e encolhendo os ombros, olhou-a com ar desafiador:

- Absolutamente tudo. Ou quase tudo, talvez. Como já disse, sempre morei aqui e venho brincar nesta casa desde criança. Conheci muito sua mãe – linda mulher. Conheci também a sua avó e sua bisavó quando jovens. E também seu avô, bisavô, tataravós, tios... primos... pai.

Ela riu, confusa pela narrativa dele e pelo ar divertido com o qual ele a encarava; sentiu-se invadida, e retrucou:

-Bisavós e tataravós? Você só pode estar louco! Como pode ter conhecido essa gente toda se a maioria deles morreu antes de você nascer?

Ele franziu as sobrancelhas, demonstrando surpresa:

-Então você ainda não sabe...

Os dois se encararam em silêncio, e ela gostou de sentir que ele estava constragido enquanto via a autoconfiança dele escorregar até o chão. Não, ela ainda não sabia. Mas alguém teria que contar alguma coisa a ela, a qualquer momento.

Ele pareceu lembrar-se de algo de repente, e já se afastando em direção à rua, disse:

- Bem, eu preciso ir agora. A gente se vê por aí. Querendo aparecer, já sabe, estou na casa 11. Sempre estou em casa a partir das 6 da tarde, e moro sozinho.

Ela nem teve tempo de perguntar mais nada, pois ele simplesmente deixou-a de boca aberta, a frase não dita sobre a língua. Ela engoliu suas palavras, olhando para os túmulos silenciosos e cobertos de lodo. Pensou: “Eu tenho tempo.”

Ao voltar para dentro de casa, Felix não a seguiu; desapareceu entre os arbustos que ladeavam o caminho que dava para a floresta, logo atrás das fileiras de túmulos. Ao abrir a porta, Eduína deparou com Guiomar e Beatriz murmurando no sopé das escadas, mas assim que a viram, Beatriz encaminhou-se para a cozinha, e Guiomar, erguendo o rosto e segurando as mãos na frente do corpo, encarou-a:

-Algum pedido em especial para o almoço, senhorita?

Ela dirigiu à Guiomar um olhar frio:

-Pare de me bajular, senhora. Pode me chamar pelo meu nome. Não, não quero nada de especial, façam o que quiserem fazer. 

Guiomar concordou com um aceno de cabeça, e já se preparava para deixar a sala quando Eduína a parou:

- Afinal, quando é que vocês vão me contar o que eu preciso saber? Vão ficar fazendo mistério até quando?

Guiomar pensou que a moça era bastante mau humorada, igual à mãe. Fazendo um gesto para que Eduína a acompanhasse até a mesa da sala de jantar, onde os álbuns de fotografias ainda a aguardavam, Guiomar esperou que a moça se sentasse e pedindo licença, sentou-se na frente dela, pegando um dos grossos álbuns e abrindo-o, virando-o na direção de Eduína:

- Estes são...

Eduína não deixou que ela completasse a frase:

-Meu bisavô, minha bisavó, Viviane,a mulher que me pariu, e este ao lado dela é Lázaro. Mas este outro aqui nessa outra foto, que parece ter vivido há uns cem anos, também se parece com Lázaro. 

Os olhares de ambas se encontraram. Guiomar percebeu o sorrisinho zombeteiro e ao mesmo tempo, curioso de Eduína. A moça tentava demonstrar o domínio da situação, mas estava demasiadamente confusa, e o ataque, para os membros daquela família, era sempre a melhor defesa. Diante do silêncio de Guiomar, Eduína fechou o álbum com força, levantando uma nuvem de poeira:

- Então... eu sou uma pessoa bastante prática, e não gosto de perder tempo. Vai falar ou não?

Guiomar deu um de seus sorrisos, curvando os lábios para baixo:

- A senhorita tem tempo... Eduína. Todo o tempo desta vida, e de outras.

Eduína apertou os olhos; não gostava de metáforas.

-Desembucha, senhora. Ou vou ter que contratar outra pessoa.

Guiomar deu uma sonora gargalhada, jogando a velha cabeça para trás. Eduína sentiu um arrepio percorrer sua espinha, mas piscando para que as lágrimas não caíssem, revelando seu medo repentino, manteve ambas as mãos cruzadas sobre a mesa. Esperou que Guiomar parasse de gargalhar, e seu riso cessou tão de repente quanto começou. 

-Quer saber a verdade, não é, senhorita? A verdade, é que vocês voltam.

Eduína começou a tamborilar os dedos sobre a madeira escura, a ponto de perder a paciência. O tic-tac do relógio cortava o silêncio da sala, mascarando o canto dos pássaros nas árvores lá fora, parecendo aumentar de intensidade e ocupar toda a sala. Ela instintivamente levou as mãos aos ouvidos, cobrindo-os momentaneamente. A velha senhora aproveitou-se de  seu momento de fraqueza e completou:

-Sua família não parece gostar muito do... “outro lado.” Vocês morrem, mas sempre voltam. E morrem de novo, e voltam outra vez. Assim como Beatriz, assim como eu. Assim como Félix. Isso acontece há mais de quatrocentos anos. Ninguém sabe como começou. Alguns pensam que é simplesmente o sangue da família. Mas então as pessoas que vieram trabalhar nesta casa começaram a voltar também. Então concluiu-se que talvez seja o solo, o ar da rua, as árvores, alguma coisa na água... na verdade, ninguém sabe. Talvez uma maldição? Só sei que não nos foi dado o direito de morrer. E nem a você. Em algum momento a partir dos trinta anos de idade,  deixará de envelhecer. Isso pode acontecer aos trinta, aos quarenta e cinco... ou aos noventa, como aconteceu comigo há cento e quinze anos, quando já trabalhava na casa há mais de setenta. Se não ficar doente antes, poderá viver por mais de cem anos sem que sua aparência mude. E a cada cem anos, talvez envelhaça dez. quem sabe, viva até os trezentos? O único porém, é que isso não nos torna imortais. Nós morremos. Adoecemos, como qualquer um, sofremos acidentes ou cometemos suicídio. Mas sempre voltamos. E temos consciência disso.

Eduína murmurou:

-Então a senhora quer me dizer que tem mais de cento e oitenta e cinco anos?

A velha senhora concordou com a cabeça, parecendo divertida com o olhar confuso da moça.

Eduína estava fascinada, e não conseguia tirar os olhos da velha senhora. Sabia que cada palavra que ela proferia não era exagero ou fantasia, mas a mais pura verdade. Ela continuou:

- Esta é a sua primeira vida. Você foi um acidente de percurso, sua mãe não tinha  a menor intenção de tê-la. O mesmo posso dizer a respeito de Feliciano, o velho jovem com quem você conversava lá fora. A mãe dele sofreu um estupro há quase cento e cinquenta anos, e engravidou dele. Naqueles tempos, abortos eram complicados. E a senhorita... bem, sua avó fez de tudo para que sua mãe a matasse antes de nascer, mas ela a teve longe daqui, e deu-a à adoção ao casal que cuidou da senhorita, contanto que cuidassem de você até que pudesse cuidar-se sozinha. Na verdade, eles não morreram naquele acidente. Foi tudo uma grande montagem. Eles estão vivos, quem sabe, em algum lugar do Caribe?

- Meus pais adotivos... estão vivos?

-Sim. 

Eduína ergueu-se da cadeira, e começou a andar de um lado ao outro da sala, enquanto Guiomar permaneceu sentada à mesa. Eduína tentava lidar com aquela enorme quantidade de informação totalmente inusitadas, pensando na cremação dos pais adotivos e no velório, onde algumas pessoas estranhas apareceram, mas não falaram com ela. É claro que os corpos podiam ter sido substituídos por outros antes da cremaçãoela lembrou-se de terem pedido a ela que deixasse a sala de velório a fim de finalizar alguns documentos.

-Bem... você disse que nós voltamos. Então minha mãe vai voltar?

-Sim. Ela vai voltar.

-Quando?

Guiomar encolheu os ombros:

-Difícil prever. Pode ser amanhã, ou daqui a dez anos. Ou quem sabe, hoje mesmo? É imprevisível. A senhorita gostaria de rever seus pais adotivos, ou falar com eles?

Eduína considerou o assunto antes de finalmente responder:

-Na verdade, não. Não sou uma pessoa sentimental, e tenho certeza de que eles também não são. Nunca sentimos amor verdadeiro uns pelos outros, era como se o tempo todo eu soubesse... nós nos respeitávamos, é claro, gostávamos uns dos outros, mas eu jamais soube o que é amar. Não sei o que esse sentimento significa.

A velha senhora colocou ambas as mãos sobre a mesa, traçando com as pontas dos dedos os veios da madeira:

- Todos nesta família têm um certo grau de sociopatia. Alguns mais, outros menos.

Eduína estava fascinada; sentou-se novamente ao lado de Guiomar, chegando o rosto bem próximo dela, que recuou instintivamente:

- E os outros? Onde estão? Como eles voltam?

Guiomar fez um gesto com a mão:

-Por aí. Pelas casas, ou pelo mundo. Mas quando eles ficam muito tempo fora, começam novamente a envelhecer após um ou dois anos. 

-A senhora quer dizer que se eu sair daqui, se eu for embora por muito tempo, volto a ser uma pessoa “normal?” (Ela fez o gesto de aspas com os dedos). 

A mulher concordou com a cabeça, acrescentando:

- Mas mesmo assim, ao morrer, vai voltar. Com a mesma aparência que tinha antes. Você não gostaria de passar a eternidade com a mesma aparência que eu tenho, gostaria?

Eduína percorreu com os olhos o rosto completamente enrugado da mulher, e negou com um gesto de cabeça. Então era por aquele motivo que havia tanta gente idosa em volta dela!

-Geralmente, a fim de não envelhecerem demais, os mais corajosos acabam cometendo suicídio. Como sua mãe. 

-Então ela não adoeceu?

-Sim, ela adoeceu. Na verdade, uma doença mental. 

-Por que Beatriz mentiu para mim sobre minha mãe?

Guiomar deu uma gargalhada:

-Beatriz é muito sentimental, não queria chocá-la, então inventou que Viviane morrera dando à luz a senhorita. Mas na verdade, ela se suicidou. Envelhecer a apavorava.

Eduína pensou que nada que pudessem lhe dizer a chocaria, e não entendeu o gesto de Beatriz. Mas seu pensamento rápido e prático logo levou-a a outras reflexões mais importantes.

Se aquilo era mesmo verdade – e ela sentia eu era – ela poderia viver eternamente, e manter a aparência jovem suicidando-se antes de envelhecer, ou então escolher envelhecer e voltar à vida com a aparência de alguém maduro. Pelas histórias que lhe contaram, sua mãe deveria ter cometido o suicídio algumas vezes. Quem sabe, também Feliciano, o belo jovem que se apresentou a ela naquela manhã? 

Ela precisava pensar, entender tudo aquilo. Virou-se para Guiomar, que a esperava pacientemente sentada à mesa, as mãos abertas sobre a madeira antiga:

- Como podem ter certeza de que eu tenha herdado a condição da família, se fui criada longe daqui e essa condição talvez esteja ligada à permanência das pessoas neste lugar?

Guiomar olhou-a com frieza:

-Ninguém nunca afirmou que a senhorita tem a condição. Mas precisamos da senhorita para que as pesquisas científicas possam ser concluídas e para que possamos nos livrar dessa maldição que nos assola.

Naquele momento, Eduína conseguiu vislumbrar um ar de desespero no semblante de Guiomar.

-O restante dos membros da família não têm mais filhos por decisão própria, e Feliciano e a senhorita são os únicos membros jovens da família.

-Mas Feliciano foi criado aqui!

-Sim. Ele tem cento e vinte anos. Foi criado aqui até os seis anos de idade e depois enviado para uma das propriedades da família fora da Rua dos Ausentes, onde cresceu. Mas quando ele voltou para cá, há alguns anos, de repente começou a envelhecer. Não sabemos se devido ao tempo em que ficou fora, mas ele parece ter conseguido.

-A senhora fala sobre isso como se envelhecer fosse um mérito!

Guiomar ergueu-se da mesa de repente, ficando de costas para Eduína:

- Nunca pense que não morrer jamais seja uma bênção! A vida é cansativa. Após alguns anos, tudo se torna apenas tédio, amargura, e... um enorme cansaço. Deseja-se morrer. Morrer é necessário! E quem sabe, a senhorita ou Feliciano possam ter em sua genética a resposta ao mal da vida?

-Mas e se eu decidir não envelhecer mais, aceitando a “maldição” da família? Não acho que seria ruim demais ser bilionária e jovem para sempre, mesmo que eu precise sair de cena de vez em quando durante alguns anos!

Naquele momento, Beatriz surgiu na sala, assustando a moça ao gritar:

-A senhorita não sabe o que diz! Acredite, a vida precisa ter um limite! Nós nos deixamos envelhecer na esperança de que a morte pudesse nos alcançar, e agora estamos condenados a viver para sempre em corpos envelhecidos, e a voltar a viver neles para todo sempre após dias ou anos! Poucos conseguiram permanecer mortos por muito tempo. Mas existem pessoas que não voltaram antes de cem anos, mas eventualmente, eles voltaram, velhos e acabados! Eu sou um deles, e afirmo que a eternidade não é um presente!


(continua)







segunda-feira, 15 de abril de 2024

A RUA DOS AUSENTES - PARTE 5

 





PARTE 5 – AS SERVIÇAIS

 

Um lençol de luz branca agitando-se na frente do rosto dela: esta foi a impressão que Eduína teve ao despertar na manhã seguinte e encontrar as janelas da casa escancaradas para uma manhã de sol. Mas já não estava mais na sala de estar: alguém a carregara para o seu quarto. Escutou ruídos no andar de baixo da casa. Espreguiçou-se, sentando-se na cama para encontrar o gato preto, que parecia ter acabado de acordar, deitado na poltrona em frene à sua cama.

Eduína vestiu seus jeans velhos, as botas surradas e uma suéter cinza de gola alta que já tivera dias melhores. Olhou-se no espelho: estava magnífica! A pele brilhava, e os cabelos escovados moviam-se em volta dela quando ela se virava. A roupa não fazia a menor diferença. “O que uma boa noite de sono não faz!”, ela pensou.

Ao descer as escadas para o primeiro andar, seguida pelo gato, notou que a mesa da sala de jantar estava posta para o café da manhã, e um bule fumegante ladeado por croissants perfumados, frutas, bolos e sucos coloridos a esperavam. Estancou ao deparar com as duas mulheres de pé no meio da sala, as mãos cruzadas em frente aos corpos. A primeira, que parecia ser mais nova, aparentando ter setenta anos, aproximou-se:

-Bom dia, Sra. Eduína. Sou Beatriz, a arrumadeira, e ela (apontando ligeiramente para a outra, que aparentava ter algo entre noventa e cem anos), chama-se Guiomar, a cozinheira.

Eduína espantou-se com a aparência envelhecida de Guiomar, mas apenas cumprimentou-as com a cabeça. 

Guiomar era impressionante: alta, magra, muito esguia, tinha olhos verde escuros e nariz adunco, usava os cabelos brancos presos em um coque atrás da cabeça, vestido preto simples sob um avental branco e sapatos de saltos baixos e grossos. Quando sorria, os lábios curvavam-se ligeiramente para baixo. O que era impressionante, é que quando ela falava, sua aparência envelhecida e cansada desaparecia, dando lugar a uma mulher cheia de vida, talvez com sessenta anos. Eduína pensou que ela era bonita, apesar da idade. Já Beatriz, a mais nova, era baixa, gorda e atarracada, tinha cabelos grisalhos encaracolados presos por uma faixa de malha branca, usava um vestido igualmente preto e simples mas sem o avental. Igualmente, logo que se acostumou com ela, Eduína notou que ela talvez não fosse tão velha quanto pensara antes, pois movia-se pela casa vigorosamente, abrindo e fechando janelas, espanando móveis, arrumando as almofadas do sofá, limpando o chão. E todos os seus movimentos pareciam rápidos e eficientes, e ela jamais ofegava, nem mesmo após encher a bandeja com as louças sujas do café e dirigir-se à cozinha.

O café da manhã estava maravilhoso, e ela comeu até se fartar. Surpreendeu-se consigo mesma, já que nunca fora de comer muito, mas aquela comida era a coisa mais deliciosa que já provara, mais ainda do que  a sopa da noite anterior. Mas apesar de ter comido muito, sentia-se leve.

Eduína riu por dentro, imaginando que as duas mulheres fossem, na verdade, duas bruxas, e que tinham mais de trezentos anos de idade. Ela encontrou o olhar do gato naquele momento e podia jurar que ele fizera um sinal afirmativo com a cabeça.

Eduína passou o resto da manhã andando pelo jardim, e também pela rua. As casas pareciam segui-la com os seus olhos de janelas quando ela passava, mas ela não viu ninguém. Ao chegar à entrada da rua, avistou a casinha branca onde Lázaro morava, e viu a fumaça saindo da chaminé.

Também viu o portão de ferro da guarita fechado a cadeado.

Ela tinha pensado em dar uma volta na cidade, mas desistiu; não queria incomodar o homem àquela hora da manhã apenas para abrir o portão para ela. Sendo assim, Eduína caminhou de volta até a casa, sempre seguida pelo gato.

 

-Como ele se chama? – ela perguntou à Beatriz, apontando para o gato. – A quem ele pertence?

Beatriz lançou um olhar carinhoso para o gato, chamando-o para lhe entregar um pequeno petisco:

-Este é o Félix. Está na famíia há muito tempo. Depois que Madame Évora se foi, ele ficou meio perdido... mas parece que gosta da senhora. Encontrou uma nova dona.

Eduína concordou com a cabeça.

-Como era a minha bisavó?

-Madame Évora, sua bisavó, era uma pessoa muito reservada. Não tinha amigos, e não saía de casa jamais. E sua avó Hermínia, filha de Madame Évora, era uma moça muito bonita e cobiçada pelos homens! Quando ela engravidou de sua mãe, ainda solteira, Madame Évora não ficou nada feliz. Mas aceitou o fato. Porém, anos depois, sua mãe faleceu dando à luz você.

-E como minha mãe era?

Beatriz deixou seus olhos se perderem na paisagem à janela da cozinha ao responder:

-Dona Viviane era uma criatura maravilhosa. Belíssima. E seu pai...

Ela estancou a fala de repente, dizendo:

-Preciso ajudar Guiomar a cuidar do almoço agora. Com licença, senhorita.

Eduína ficou parada no meio da cozinha, enquanto as duas mulheres descascavam legumes em silêncio. Félix ronronou, esfregando seu corpo macio contra as pernas dos seus jeans velhos. Ele saiu da cozinha, parando à porta, para ver se ela o seguia. Agora que ela sabia seu nome, era como se os dois tivessem se tornado ainda mais íntimos. Ela foi atrás dele, e ele subiu as escadas da casa, sempre parando no caminho e olhando para trás.

Eduína estava intrigada: agora que descobrira que tinha uma família, ela a perdera. E as pessoas da casa não pareciam gostar de falar sobre eles.

Félix entrou em um dos quartos, cuja porta estava entreaberta. Eduína seguiu-o, e ele parou diante de uma cômoda, olhando para ela e para as gavetas. Eduína abriu a primeira gaveta, encontrando alguns álbuns de fotografias. Sentou-se na cama com alguns deles.

Ela viu as pessoas nas fotos, quase sempre sérias. Algumas fotos eram muito antigas, parecendo ser de outros séculos. As imagens eram fascinantes!

De repente, uma das fotos intrigou-a: a pessoa ali retratada, aparentando ser bastante jovem, parecia-se com alguém que ela conhecia. Mas quem? E como seria possível, se aquela fotografia estava datada em 1890? Eduína olhou para Félix, que a observava em sua pose de iogue. Como ela era muito boa fisionomista, logo identificou a pessoa: aquele homem parecia-se demais com Lázaro! Mas como poderia? Quem sabe, fosse um antepassado?

Naquele instante, o gato pulou da cadeira onde estava, ajeitando-se ao lado dela na cama, a pata direita batendo de leve no álbum, e virando a folha, Eduína encontrou os nomes das pessoas que estavam naquela fotografia. Ela leu devagar, o dedo apontando para as letras desenhadas à tinta preta: Lázaro Schumann. Ao lado dele, havia uma bela mulher que se parecia muito com ela. Ela segurava um lírio, e estava de braços dados com Lázaro. Eduína virou novamente a folha para ler o nome por trás dela: Viviane Siqueira Camargo. Sua mãe.

Mas como poderia ser? Se aquilo fosse verdade, Lázaro Schumann tinha mais de cem anos... com certeza, deveria ser outra pessoa, quem sabe, um antepassado? Mas o que a fotografia de um serviçal, de um simples empregado, estaria fazendo entre as fotos de família?

Eduína apanhou o album pesado e carregou-o para fora do quarto, indo pousá-lo na mesa da sala de jantar. Seu fiel amigo, Felix, seguiu-a, subindo em uma cadeira próxima a dela, sob a toalha da mesa de jantar, e ali permaneceu. Enquanto isso, a moça foi até a copa e praticamente arrastou Guiomar pela mão, já que Beatriz não estava por lá. Guiomar era ligeiramente mais alta do que ela, e deixou-se guiar sem tentar impedi-la, mas mantendo sempre seu ar altivo e distante. Eduína abriu o álbum, apontando a foto de Lázaro e Viviane com o dedo:

- A senhora poderia me explicar quem são essas pessoas, por favor?

A velha senhora deixou um ligeiro sorriso escorrer pelo canto dos lábios, olhando a moça bem dentro dos olhos:

-Se a senhorita já sabe, por que pergunta?

Eduína sentiu algo estranho; apesar do absurdo da situação, era como se aquilo tudo de repente fosse normal e fizesse sentido para ela. E repentinamente, ela compreendeu que aquela era sua estranha família, e que Lázaro era seu pai. Também intuiu, corretamente, que ela mesma teria uma vida tão longa quanto todos eles. E ao invés de sentir espanto por tudo aquilo, foi como se todos os pingos caíssem em seus respectivos “is”. Enquanto isso, Guiomar, virando-se de costas, caminhou de volta à copa.


(continua)



 

quinta-feira, 29 de fevereiro de 2024

A RUA DOS AUSENTES - Parte 4

 





PARTE 4 – A DÉCIMA TERCEIRA CASA

 

Eduína estava sentada em um banco do parque. Era uma cinzenta manhã de quinta-feira, e o vento frio fustigava seus cabelos, fazendo com que eles cobrissem seu rosto de vez em quando. Ela tinha as mãos nos bolsos do sobretudo de lã marrom, que estava um tanto surrado, e vestia calças jeans desbotadas, as pernas justas para dentro das botas longas de camurça. Em volta dela, um grupo de pombos e passarinhos marrons se alimentavam do alpiste que ela jogava no chão de vez em quando.

Já estava sem emprego há quase duas semanas, e a casa ainda não tinha sido vendida. Porém, ela estava otimista, pois naquela tarde, o corretor anunciou que receberiam um cliente em potencial. E ela pensava que estava vendendo sua casa sem sequer ter para onde ir. Pela primeira vez na vida, sentiu um arrepio de medo na base da espinha, e exatamente naquele momento, uma voz que não era dela falou alto dentro de sua cabeça:

-Não se preocupe! Tudo vai dar certo, e você vai ser feliz.

Ela olhou em volta, procurando alguém que pudesse estar por perto, mas não viu ninguém. Estava frio demais, e o parque se encontrava quase vazio. Ela começou a caminhar de volta para sua casa, que não ficava muito longe dali.

Eduína ainda não sabia, mas naquela manhã, seu destino estava sendo desenhado com cores fortes e precisas. Porque na cidade de Pico Negro, um advogado taciturno e idoso preparava uma carta que seria enviada para ela naquele mesmo dia, convidando-a para a leitura do testamento de sua bisavó Évora Siqueira Camargo – de cuja existência Eduína sequer suspeitava.

Tudo então começou a acontecer rápido demais: o visitante adorou sua casa, e na manhã seguinte, foram ao cartório efetuar a transferência do imóvel, pagando à vista. Deram-lhe 30 dias para entregar o imóvel. Mas ela sabia que não precisaria de tanto tempo. Ao mesmo tempo, vendeu também o terreno. E quando ela voltou para casa naquela tarde, encontrou o sóbrio envelope de cor creme na sua caixa de correio. Dentro dele, além do convite para a leitura do testamento, havia uma passagem de avião.

Eduína, que sempre fora uma moça calma e quase fria, de repente se viu em um turbilhão. Não sabia que tivera uma bisavó. E esta bisavó era a avó de sua mãe verdadeira, que ela nunca conhecera. Pensou, pela primeira vez na vida, que em algum lugar, ela tinha ou tivera uma família de verdade, que era sangue do seu sangue, e que eles a tinham mandado embora quando criança.

Ela não estava familiarizada com aqueles sentimentos. Na verdade, ela nunca estivera muito familiarizada com qualquer sentimento intenso, e ela não gostava daquilo. Uma coisa, era ter a impressão de que seu destino estava escrito, e outra, era recebê-lo dentro de um envelope e ter que pegar um avião indo para uma cidade distante e estranha para encontrar alguma coisa que ela ignorava totalmente.

Era a primeira vez que Eduína viajaria de avião. Não tinha medo, estava se sentindo confortável na primeira classe, paparicada pelos comissários de bordo bonitões que flertavam com ela. Quando o avião decolou, ela sentiu um leve arrepio na base da coluna, mas logo se acalmou, e duas horas mais tarde, estava de pé no aeroporto, onde um senhor de idade com a cara fechada segurava um cartaz com o nome dela.

Lázaro carregou a única bagagem da moça para o Buick preto, cumprimentando-a entre os dentes, e Eduína não tentou ser simpática. Seguiram mudos todo o trajeto até a Rua dos ausentes, e ela reparou que por onde passavam, as pessoas seguiam o carro com olhares curiosos. Lázaro estacionou em frente ao portão de ferro da guarita e saiu do carro para abri-lo. O portão rangeu. Enquanto ele dirigia vagarosamente pela Rua dos Ausentes, Eduína contemplava as mansões antigas e sombrias, as árvores centenárias e os paralelepípedos entremeados de musgo verde-escuro aveludado. Era como se estivessem em uma realidade paralela, totalmente diferente do clima alegre e festivo da pequena cidade por onde tinham acabado de passar.

A rua era quieta, e ela não via viva alma. Os casarões silenciosos pareciam guardar segredos. Eram como pessoas idosas de olhos fechados, mas prontas para despertar a qualquer momento. Ela falou pela primeira vez, dirigindo-se a Lázaro:

-Não mora ninguém aqui? As casas estão todas vazias?

Lázaro grunhiu uma resposta:

- Algumas estão vazias, outras não.

Ela quase perguntou uma outra coisa, mas foi interrompida por ele:

-Chegamos. É esta a sua casa. Foi devidamente pintada e limpa, e a despensa e o freezer estão abastecidos. O advogado a espera na sala de estar. Pode entrar, a porta está aberta. Se precisar de alguma coisa, moro na casa branca junto à entrada.

Eduína olhou para a casa imponente e quase ameaçadora, e não conseguiu acreditar no que via.

-O senhor disse ‘minha casa?’

Lázaro saiu do carro e colocou a bagagem de Eduína na entrada, junto ao portão. Depois, entrou no carro e saiu sem despedir-se dela.

A moça respirou profundamente. Reparou na beleza do lugar, que embora sombrio, parecia seguro. Havia muitos pássaros nas copas das árvores, e eles pareciam observá-la. Também avistou alguns esquilos, e junto ao portão, encontrou um gatinho preto que a seguiu para dentro da casa. Ela empurrou a pesada porta de madeira, que rangeu, saudando-a.

Adentrou o living de piso de mármore preto e branco, onde deixou sua bagagem, e caminhou vagarosamente pela sala de estar, onde uma grande  lareira que ocupava toda uma parede tinha sido acesa. Em volta dela, sofás de veludo verde escuro, e uma escura mesa de centro de madeira pesada, cujos pés imitavam patas de leão. As paredes pintadas de creme suavizavam a austeridade da mobília. Ela olhou para sua esquerda, onde viu um senhor de costas para a porta, sentado à mesa da sala de jantar examinando documentos. Ele parecia ser muito idoso. Eduína pigarreou a fim de chamar sua atenção, e ele se levantou vagarosamente, apoiando-se na mesa.

-Boa tarde, senhorita Eduína! Sou o Dr. Ferdinando Alves. Prazer em conhecê-la.

Ela ensaiou um sorriso que não surgiu nos lábios:

-Olá, como vai?

Ele fez sinal para que ela entrasse na sala de jantar, e se sentasse em frente a ele. Eduína percebeu que suas mãos estavam geladas, e torceu os dedos sob a tampa da mesa. Dr. Alves deu início à leitura do testamento. Equanto ele lia, ela olhava em volta e via retratos pintados de uma mulher, que concluiu que deveria ser sua avó quando jovem, e de algumas outras pessoas que presumivelmente, eram membros de sua família desconhecida. Todas as pinturas retratavam pessoas sérias e elegantes.

Ao final da leitura, ele limpou os óculos:

-Você tem alguma pergunta?

Eduína escutou um relógio bater quatro horas da tarde. A sala começava a escurecer.

-Então... esta casa é minha, e tudo que tem nela me pertence? E também todo esse... dinheiro, propriedades, e até mesmo um avião? Eu sou uma mulher rica?

Ele acenou com a cabeça, concordando, enquanto recolocava os óculos.

-Mas... e os demais membros da minha família? Onde estão?

-Uma coisa de cada vez, mocinha. Por enquanto, instale-se e descanse. Alguém virá amanhã de manhã para assumir os cuidados com a casa, uma arrumadeira e uma cozinheira. Elas já trabalham aqui há muito tempo, desde que sua mãe nasceu. Com o recente passamento de sua bisavó, elas se retiraram por alguns dias. Mas logo estarão de volta.

Eduína finalmente acreditou que tudo aquilo era verdade: aquela casa, onde sua mãe tinha nascido e que pertencia à sua família há mais de duzentos anos, agora era sua. Mas por que ela tinha sido deixada em um orfanato, para que alguém a adotasse, já que eram todos tão ricos?

Após a saída de Dr. Alves, ela decidiu conhecer a casa.

Aquele que seria seu quarto tinha sido arrumado e limpo, e lençóis frescos e perfumados cobriam o colchão de molas macio. Encimando a arrumação da cama, um belíssimo edredom de penas de ganso totalmente branco e travesseiros que de tão macios, pareciam nuvens. A lareira do quarto tinha sido acesa. Uma muda de camisola e robe de cetim tinha sido deixada sobre a cama, junto com um par de pantufas emplumadas cor de creme.

Ela foi até o banheiro, e ao avistar a enorme banheira de louça bem no meio do cômodo, imediatamente começou a enchê-la; sentia-se em um cenário de filme. Entornou na água os sais de banho perfumados e também o líquido sedoso e perolado que produziu uma espuma branca  e densa. Eduína deixou-se ficar ali, e acabou adormecendo. Acordou uma hora e quinze minutos depois, e deu com o gato preto que entrara na casa sentado em frente a banheira, fitando-a calmamente.

Ele a seguiu de volta para o quarto, esperando no tapete enquanto ela se vestia. Seu estômago deu sinal, e Eduína lembrou-se que ainda não comera o dia todo, e já tinha anoitecido. Ela foi para a cozinha, seguida pelo seu novo amigo silencioso. Ao abrir o armário para encontrar ingredientes para um sanduíche, deparou com latas de comida para gatos arrumadas em uma prateleira. Eram dezenas delas. O gato miou, a cauda erguida, andando em volta dela. Eduína serviu-o, pensando que ele morava ali afinal, e deveria ter pertencido à sua bisavó.

Ela encontrou uma terrina de sopa ao abrir a geladeira, e torrando o pão do armário, aqueceu a sopa e começou a comer. Nunca tinha comido algo tão maravilhoso, e era apenas uma simples sopa! “A fome é o melhor tempero”, ela pensou.

Ao terminar de comer e passar pelo corredor, casualmente olhou-se no espelho e percebeu que estava diferente: ainda era a mesma Eduína de sempre, mas incrivelmente, sua beleza aumentara. Ela não sabia explicar o que havia acontecido, apenas que sua pele estava imaculada, sem nem mesmo as sardas discretas que ela sempre tivera sobre o nariz. Os olhos tinham um brilho mais vivo, e os cabelos, que já eram bonitos, estavam mais cheios e sedosos que antes. O contorno do seu corpo também mudara, tornando-se mais elegante. Eduína pensou: “Já faz tanto tempo que eu realmente não me olhava no espelho, que nem tinha reparado no quanto sou bonita. É isso.”  Mas ela sabia instintivamente que não era só aquilo. Havia alguma coisa estranha com aquela casa e aquela rua. E até mesmo, com aquele gato, que a seguia religiosamente aonde quer que ela fosse.

Eduína sentou-se um pouco no sofá de veludo verde da sala de estar, olhando as brasas da lareira ainda estavam acesas. O gato sentou-se na poltrona em frente a ela, as patas dianteiras sob o corpo como um perfeito iogue de olhos entreabertos. Ela o chamou, fazendo sinal para que ele se aproximasse, e ele imediatamente pulou da poltrona e subiu no sofá, acomodando-se ao lado dela, a cabeça em seu colo. Eduína acariciou-o até que ele adormecesse.

Ela acabou adormecendo logo em seguida.

Despertou de repente, mas em torpor, sem conseguir abrir totalmente os olhos ou mover o corpo. Vislumbrava pessoas cochichando em volta dela, e rostos opacos que se aproximavam do rosto dela, observando-a, mas ela não conseguia falar ou se mover. Mas não sentia medo. Estava tranquila, pois estava em família. Nada tinha a temer. Sabia que tomariam conta dela. E o gato velaria por seu sono.


(continua...)


 

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024

A RUA DOS AUSENTES - PARTE 3

 




PARTE 3 - EDUÍNA

 

Há muitos quilômetros dali, mais precisamente, a quase mil quilômetros, Eduína preparava-se para dormir, após um dia de trabalho no shopping center, onde era gerente de uma loja de roupas. Devemos saber que ela era uma moça de cabelos pretos, lisos e escorridos, alta e magra, que chamava a atenção pela beleza de seus olhos verde escuros e seu ar de mistério. Não tinha muitos amigos. Na verdade, não tinha amigo nenhum, apenas os colegas de trabalho com quem se relacionava somente no horário de expediente. Jamais conhecera seus pais, tendo sido adotada e criada por um casal de meia idade que falecera em um acidente de carro quando ela completou dezoito anos. Deles, ela herdou uma pequena casa em um bairro de classe média, algumas dívidas e uma solidão imensa.

Apesar de ser muito bonita, aos quase vinte e dois anos de idade Eduína nunca tivera um namorado, pois os rapazes a evitavam por motivos que nem mesmo eles conheciam. Ela era tratada com respeito e distância desde os tempos da escola. Ninguém a convidava para as festinhas de aniversário ou bailes de debutantes, e ela não se sentia ofendida. No fundo, Eduína sabia que seu destino não estava ali, entre aquelas pessoas comuns e superficiais, e eles intuíam a mesma coisa sobre ela. Alguns comentavam que não se sentiam à vontade perto dela. Uma de suas colegas de classe, durante uma conversa dissera: “Não sei o que é. Não é que ela seja estranha, ou antipática. Só não me sinto à vontade. Tenho a impressão de que ela lê a gente por dentro...”

Após a morte dos pais adotivos, alguns a visitaram levando tortas, bolos e pratos salgados, mas permaneceram por poucos minutos, tal o desconforto que sentiam sob seu olhar penetrante. E eles tinham razão de se sentirem desconfortáveis, pois a moça era capaz de captar os verdadeiros sentimentos das pessoas: medo, curiosidade, pena, indiferença. Quase não havia traços de empatia sincera por ela ou pela sua recente orfandade. A maioria deles estavam ali por obrigação social ou curiosidade.

Eduína continuou sua vida após os três dias de luto concedidos a ela por lei. Na verdade, não sentia um grande amor pelos pais adotivos, apenas gratidão por a terem criado, afeto e uma certa distância. Tratava-os com respeito, partilhando com eles coisas corriqueiras sobre a escola e o que havia aprendido. Comemoravam seu aniversários sempre a três, com um bolo que era confeitado por sua mãe, um refrigerante que o pai levava para casa e um pequeno presente, que era geralmente um livro, alguma peça de roupa ou material escolar. Entre os três parecia haver um acordo silencioso de não se amarem, mas de se tratarem com muito respeito e afeto calculado. Eduína nada sabia sobre seu passado, e nunca se importara em perguntar onde tinha sido adotada, por quê, ou quem eram seus verdadeiros pais. Ela vivia a vida sem se preocupar.

Gostava de caminhar pelo parque da pequena cidade onde viviam e observar os pássaros, esquilos e insetos. Não tinha nenhuma curiosidade sobre seu passado ou sobre seu futuro. Porque ela sabia, instintivamente, que seu destino, embora ela nada conhecesse sobre ele,  já tinha sido traçado, e que bastava esperar por direcionamento.

Após a morte dos pais ela continuou fazendo o que sempre fazia: ia ao trabalho, cumpria suas funções com esmero e dedicação e ao final de cada dia, após passar no mercado, jantava, assistia a algum filme ou lia um dos seus livros e ia dormir. Nos finais de semana, limpava a casa.

Eduína não frequentara a faculdade, pois os pais adotivos não tinham recursos financeiros, e ela, nenhum interesse em aprender mais do que já sabia. E o que ela sabia era alguma coisa que crescia dentro dela a cada dia, aumentando gradativamente a cada aniversário, algo que ela aprendia através do seu instinto. Era sofisticada, discreta, altiva. Interessava-se em ler sobre assuntos que os jovens da sua idade nem cogitavam: espiritualidade, a cura através das plantas, os chakras, aromaterapia, cromoterapia, cristais e seus usos. Também sentia uma grande conexão com os animais. Eles pareciam entendê-la e se aproximarem dela. Alimentava todos os animais de rua que encontrava, mas não os levava para casa, pois entendia que eles tinham amor pela sua liberdade e não gostariam de serem resgatados para viverem trancafiados em abrigos ou quintais mínimos, sujeitos às neuroses de seus tutores ou protetores. Cães e gatos de rua gostavam de serem alimentados, tratados e deixados em paz para viverem suas vidas em liberdade, como sempre haviam sido acostumados. Mas ela tinha grande pena dos animais que haviam sido criados em casas e abandonados por seus donos após algum tempo, pois sentia na pele a solidão e o medo deles. E ela tinha conseguido resgatar alguns e encaminhá-los a novos tutores, apesar da desaprovação dos pais adotivos.

Assim vivia Eduína. É claro que uma moça tão bonita, um dia tivera um namorado.

Cláudio a conheceu no shopping center. Entrara na loja onde ela trabalhava para comprar um presente para sua namorada pelo seu aniversário. Mas ao colocar os olhos em Eduína, ele não conseguiu se concentrar mais no que estava fazendo ali, e convidou-a para tomar um café com ele. Surpresa, Eduína aceitou o convite, mais por curiosidade do que por sentir-se atraída pelo rapaz alto e de pele moreno-escura. Ela nem reparou muito nos músculos acentuados sob a camiseta ou os cabelos crespos cortados rentes ao couro cabeludo, formando uma linha precisa em volta do rosto de queixo quadrado. E ela nunca perguntou sobre sua namorada, nunca quis saber se ele a tinha deixado por ela, apesar de ele tê-la informado sobre aquilo. Os dois começaram a sair juntos na noite seguinte, indo ao cinema e depois, jantar. Eles falaram sobre coisas corriqueiras – o trabalho, as mudanças climáticas, música.

Durante a maior parte do tempo em que estiveram sentados à mesa do restaurante, Eduína sentiu-se fascinada pelas mãos dele, as unhas claras e lisas com meias-luas brancas sobre a pele escura, os dedos longos. Ela sempre se sentia atraída pelas mãos das pessoas, e podia intuir coisas sobre elas observando-as. E ela intuiu que Cláudio era um rapaz sonhador, vaidoso, e ao mesmo tempo que passava a imagem de alguém arrojado, era na verdade bastante tímido e inseguro.

Após o jantar ele a levou em casa, e quando o carro parou diante do portão, ela perguntou se ele gostaria de entrar, o que ele aceitou imediatamente.

Dentro da casa, ela preparou um café forte e serviu-o na sala de estar. Ela mesma não gostava muito de café, e tomou apenas um copo de água. Cláudio olhou em volta e reparou na simplicidade da casa quase nua de adornos, e também na limpeza e organização. Perguntou:

-Você mora aqui sozinha?

Ela pareceu sair de um transe, demorando um pouco para responder, um tom de casualidade na voz:

-Ah, sim. Meus pais morreram há dois anos. Acidente de carro. Desde então vivo sozinha.

Ele achou estranha a frieza dela:

-Nossa, eu... sinto muito!

Ela sorriu:

-Obrigada. O café está bom? Não estou muito acostumada a fazer café, sabe. Não gosto de café. Prefiro um suco de frutas, ou água, ou chá.

Cláudio achou estranha  maneira como ela mudara de assunto, mas não fez comentários e achou melhor não insistir. Tentou soar casual como ela:

-Está muito bom, Eduína, obrigada.

Um silêncio tenso desceu sobre eles, que olharam em volta, para as paredes brancas, as cortinas brancas, a mesa de centro de madeira vazia de adornos, a não ser por um pequeno vaso de flores artificiais que pertencera à mãe. Finalmente, os olhares de ambos foram parar sobre o piso de tábuas corridas imaculadamente encerado e desprovido de tapetes. Cláudio pousou a xícara sobre a mesa:

-Bem, está ficando tarde. E nós trabalhamos amanhã, certo?

Ela se levantou rapidamente, quase em um salto:

-Não vá ainda!

Ele ficou parado no meio da sala, e Eduína caminhou até ele devagar, os olhos verdes sem deixar os olhos dele, quase hipnotizando-o, sentindo o forte desejo que emanava dele e que ele nem tentava disfarçar. Ele apenas sussurrou:

-Você sabe que eu tenho uma garota.

Ela não respondeu, e desajeitadamente, beijou-o na boca. Logo, o beijo desajeitado tornou-se uma fogueira onde os dois se consumiram pelo resto da noite. E ela queria sempre mais, deixando-o totalmente esgotado na manhã seguinte, e ele percebeu que ela era virgem, o que o deixou ainda mais excitado.

Quando o dia clareou, Cláudio sentia-se ao mesmo tempo feliz e estranho. Não sabia explicar a si mesmo as suas sensações, a não ser que terminaria com sua namorada naquele mesmo dia, pois achava ter encontrado o amor da sua vida. Era como se Eduína tivesse feito com que cada dia de sua existência finalmente fizesse sentido.

E eles namoraram durante seis meses, encontrando-se diariamente. Não falavam muito quando estavam juntos, a não ser o essencial, e ele logo se acostumou com a maneira de ser da moça. Eduína era quieta, e diferentemente de sua ex-namorada, não demonstrava ciúmes e não gostava de sair com seu  grupo de amigos, que aos poucos, foram se afastando, embora ela jamais tivesse exigido aquilo dele. Eles diziam que não se sentiam à vontade perto dela. Cláudio foi aconselhado por eles a não se envolver tão rapidamente, mas ele estava completamente apaixonado. Nem percebia que seu sentimento não era compartilhado por Eduína, achando que suas maneiras frias e seu jeito calado eram apenas a personalidade dela.

O sexo era sensacional; algo que ele jamais pensara em experimentar antes. Eduína era sexy, naturalmente sexy. E quando estavam juntos, ela se entregava totalmente a ele, que pensava estar dominando a situação, mas na verdade, sem que ele percebesse, ficava totalmente à mercê dos desejos dela.

Iam ao cinema, pois lá, podiam ficar algumas horas sem falar (pensamento de Eduína). Gostavam também de passear pelo parque, e Cláudio sempre se espantava com a facilidade com que os animais se aproximavam dela, comendo da sua mão. Durante a semana, eles trabalhavam. Cláudio era engenheiro civil, e trabalhava em uma construtora local. Assim, a vida deles ia acontecendo sem sobressaltos, e Cláudio cada vez mais se sentia envolvido por ela, como se Eduína estivesse destinada a ele desde sempre. E ele fazia muitos planos; alguns compartilhava com ela, que o escutava calada, sorrindo às vezes, mas delicadamente mudando de assunto.

Até que em uma noite de sábado, após uma sessão de cinema, enquanto comiam pipoca e caminhavam juntos na calçada em direção ao carro, ela disse:

-Cláudio, acho melhor nos separarmos.

Ele estancou o passo, e ela continuou caminhando um pouco, até que parou e olhou para trás:

-Você me leva em casa?

Atônito, Cláudio balbuciou:

-O que você... Eduína, você quer terminar comigo? É isso, ou é brincadeira? É brincadeira, não é?

Ela arregalou os olhos:

-Não. Eu não brincaria com uma coisa dessas, Cláudio. É que já estamos juntos há seis meses, e eu não quero me casar agora.

Ele riu:

-Mas... eu também não quero!

-Então, para quê continuar? Eu não quero me casar, e nem você. Por que continuar?

-Ora, Eduína... é claro que eu contei a você sobre meus planos de nos casarmos, mas não é para agora...

- Disse bem: seus planos. Alguma vez você se perguntou se os meus planos eram os mesmos que os seus? Por que continuar, Cláudio?

Ele tentava esconder seu desespero, torcendo os dedos dentro dos bolsos do casaco.

-Porque eu... eu amo você, estou apaixonado! E você também. Não é? O que isso tem a ver com casamento?

-Olha, eu sou sempre muito objetiva, sabe.  Gosto muito de você, Cláudio, mas não me vejo casada com você, tendo filhos, acordando juntos todos os dias... eu preciso ser sincera. O sexo é excelente, mas sexo não é tudo. Existem mais coisas que são importantes para ficar com alguém. A gente se diverte juntos, é verdade, e gosto da sua companhia, mas não sinto que fomos feitos um para o outro, sabe.

Aquelas palavras atingiram-no como um soco. Ele percebeu que nunca a vira tão eloquente. E ela estava sendo eloquente justamente no momento em que estava causando a ele uma grande dor. Era impressão ou ela sentia um pequeno prazer ao destruir seus sonhos? Não; não poderia ser verdade, ela o estava testando. Cláudio sorriu, mais uma vez tentando esconder o nervosismo:

-Ah, já percebi! Na verdade, você acha que eu não estou levando a gente a sério. Mas eu estou, e quero provar para você. Vamos noivar!

Ela riu alto:

-O que é isso, você ficou louco? Eu estou terminando com você, Cláudio, será que não fui clara?

Ele pareceu confuso. Lágrimas chegaram à tona dos seus olhos, e ele engoliu em seco, pois chorar na frente dela seria humilhação demais. Mas logo após aquele pensamento, ele se viu de joelhos diante de Eduína, que olhava para os lados, vendo as pessoas que passavam pela calçada e os observavam.

-Case-se comigo, Eduína! Por favor!

Ela ergueu as mãos para cima, num gesto de impaciência:

-Cláudio, pare de fazer papel ridículo! As pessoas estão olhando!

Ele olhou em volta e se pôs de pé. Olhou para ela, impotente, sentindo-se cada vez mais triste. Eduína sacudiu a cabeça, respirando fundo, e segurando as mãos dele, tentou chamá-lo à razão:

-Cláudio, por que tornar a vida tão complicada? Nós tivemos momentos bons, nos divertimos, construímos uma grande amizade. Mas eu tenho que dizer a verdade, e ela é: eu não quero me casar com você! Então não vejo motivos para continuarmos juntos.

-Você tem outra pessoa, não é? É isso, você conheceu alguém!

Ele puxou as mãos, cruzando os braços e tentando conter o choro. Ela respondeu, a voz quase implorando por compreensão:

-Não, eu não tenho ninguém, e nem quero ter. Eu... estou pensando em... mudar a minha vida, sei lá... minha rotina está chata, sem sentido. Eu quero descobrir coisas. É como se algo me puxasse para um determinado destino que eu ainda não sei qual é, mas a única coisa que eu sei, é que você não vai caber nele. Não tem como encaixar você ou qualquer outra pessoa.

E naquela noite, Eduína deixou de encontrar-se com Cláudio. O rapaz ficou arrasado, mas decidiu que seria melhor aceitar e seguir com sua vida, pois quando um não quer, dois não brigam. Foi uma separação inconformada e dolorida da parte dele, e libertadora da parte dela.

Na cama, enquanto os primeiros clarões da manhã de domingo penetravam pelas frestas das persianas, Eduína sentiu-se mal. Foi algo repentino, um forte enjôo, e ela quase não teve tempo de chegar ao banheiro para vomitar. E ela vomitou durante vários minutos, colocando para fora litros de um líquido amarelo escuro que ela não sabia de onde vinha. As sensações foram horríveis, de dor no peito e esgotamento, mas ao mesmo tempo, ela sabia que estava sendo limpa. E não era apenas o seu corpo que estava sendo limpo, mas toda a sua energia, sua alma. De manhã, ligou para a loja e disse que não trabalharia, pois estava doente. As pessoas estranharam, pois em quatro anos de trabalho, aquela era a primeira vez que Eduína faltava. Ela agradeceu pela preocupação, disse que já se sentia melhor, embora esgotada, mas que não se sentia bem o suficiente para trabalhar, e que compensaria trocando sua folga de segunda-feira com outra pessoa.

Naquele dia, ela tomou muito chá. Fez uma dieta liquida que limpou-a por dentro, e ficou na cama, dormindo por horas.

Na segunda-feira de manhã acordou sentindo-se melhor, mas a caminho do trabalho, teve que sair do ônibus às pressas para vomitar na calçada. Foi ajudada por uma mulher de meia-idade, que conduziu-a a um posto de saúde e ficou com ela até que fosse atendida.

Pediram-lhe vários exames. Deram-lhe alguns antieméticos na veia e mandaram-na para casa com um atestado médico para três dias.

Mas ela não melhorou. Vomitava absolutamente toda a água, suco ou sopa que colocasse no estômago. Acabou tendo que voltar ao posto médico, onde foi internada. Uma enfermeira que cuidava dela, perguntou:

-Quer que eu chame alguém da família?

E ela se deu conta de que não tinha ninguém. Mas aquilo não causou nenhuma dor, apenas uma compreensão conformada de que sua vida seguiria por um caminho solitário.

Os exames não mostraram nada de errado com a saúde de Eduína. Como ela estivesse se sentindo melhor e os vômitos tivessem passado, deram-lhe altas e ela foi para casa. Na manhã seguinte, ao chegar ao trabalho, disseram-lhe que estava sendo demitida.

Eduína assinou os papéis da demissão sem questionar ou tentar se defender, sabendo que estava assinando permissão para uma nova fase de sua vida que começaria em breve. Despediu-se brevemente dos colegas e saiu da loja sem olhar para trás. Ao invés de se sentir insegura a respeito do futuro, antes de ir para casa ela caminhou até uma imobiliária e pediu que fizessem uma avaliação de seu imóvel, colocando-o à venda. Os pais o tinham doado para ela em vida dias antes do acidente, portanto, não haveria nenhum problema em vendê-lo.

Ela ainda se lembrava da noite, após o jantar, em que eles tinham comunicado o fato a ela. Sua mãe e pai adotivos a chamaram para uma conversa, e sentaram-se à mesa da cozinha. Os dois se entreolharam, e o pai disse:

-Eduína, queremos que saiba que fizemos uma doação em vida a você da casa e de tudo o que há nela. Temos também um pequeno terreno fora da cidade que não vale muito, mas é seu. Ainda não acabamos de pagar o carro, mas ele está no seguro, e caso alguma coisa aconteça, você terá direito a uma indenização. Fora isso, tenho algumas dívidas no banco... mas eles não podem tomar a casa de você.

Eduína indagou:

-Mas por que fizeram isso?

A mãe, torcendo as mãos nervosamente, respondeu:

-Filha, a gente nunca sabe o dia de amanhã.

Mas o olhar trocado entre a mãe e o pai deu a ela a certeza de que sim, eles sabiam exatamente o que o dia de amanhã lhes traria. Ela ficou preocupada com eles, mas uma voz interior lhe disse que não se preocupasse, pois tudo seria como deveria ser.


(CONTINUA...)






 

A RUA DOS AUSENTES - PARTE 8

  PARTE 8 – O DESPERTAR   Eduína, que era sempre fria e calma, levou um susto. Achou que aqueles olhos que a olhavam fixamente eram ap...