segunda-feira, 26 de julho de 2021

AS ESTRELAS QUE CONTEI - CAPÍTULO 8


 Capítulo 8


Quando batemos à porta da casa de tia Samira, cerca de quinze dias depois do nosso encontro, era uma fria tarde de junho, e estávamos todos um tanto sem graça: mamãe, Sara e eu aguardamos à porta, torcendo as mãos, até que a porta se abriu e revelou a imagem tão querida do nosso tio Helvécio, os cabelos quase total e precocemente brancos. Ao nos ver, ele abriu os braços para nós, e nos aconchegamos entre eles em um abraço que durou algum tempo. Eu sentira tantas saudades dele!

Finalmente, ele nos levou para dentro da casa, onde Tia Samira aguardava, recostada em uma poltrona, as pernas cobertas com uma manta e o rosto ainda mais magro do que quando eu a vira pela última vez. Ela tentou se levantar, mas Tio Helvécio fez com que permanecesse sentada. Sara e eu nos sentamos no sofá após beijarmos e abraçarmos nossa tia, e mamãe permaneceu de pé no meio da sala, olhando para ela.

As duas ainda se olharam durante um longo tempo. Minha mãe tinha lágrimas nos olhos. Tia Samira também. Vagarosamente, mamãe caminhou até ela, segurando brevemente a mão que minha tia estendera em sua direção. As duas explodiram em lágrimas amargas, mas não se abraçaram. Tio Helvécio sentou-se entre mim e Sara, passando os braços sobre nossos ombros. Achamos melhor deixá-las sozinhas, e fomos para a cozinha, enquanto ele nos preparou pessoalmente xícaras de chocolate quente e marshmellows, e nos contou que Décio e Joana estavam morando em outra cidade com uma irmã sua enquanto terminavam o segundo grau e estudavam inglês, mas que voltariam nas férias de julho para ver a mãe. Ele os transferiu, mesmo contra a vontade deles, para que tia Samira não precisasse se preocupar com nada, e eles pudessem se concentrar nos estudos.

Tomamos nossos chocolates em silêncio. Estar naquela casa me trazia tantas lembranças de uma época que fora tão boa em minha vida... senti muitas saudades de meus primos, das nossas bagunças, de tia Samira ralhando conosco por causa do barulho, enquanto ela e mamãe preparavam o lanche da tarde. 

Mais ou menos uma hora depois, nos despedimos de nossos tios. No carro, permanecemos calados durante quase todo o trajeto, comentando apenas amenidades. 

Mas ao chegarmos em casa, mamãe nos chamou para o seu quarto, fechando a porta. Eu e Sara nos sentamos na cama, e ela, em uma poltrona em frente a nós. Aguardamos, enquanto ela parecia tomar coragem para nos dizer o que tinha para dizer. Finalmente, uma voz fina e contida, que não parecia pertencer à nossa mãe, começou a falar:

-Vocês sabem o quanto sua tia está doente, não sabem?

Nos entreolhamos, Sara e eu, concordando com a cabeça. Mamãe continuou:

-Ela não tem mais muito tempo. Mas me disse algumas coisas que eu quero que vocês saibam, para que a lembrança do pai de vocês (a voz dela embargou) não fique maculada. Ela e seu pai nunca tiveram nada. Ela me disse que tentou, mas que ele nunca cedeu, porque nos amava muito, e nunca amou a ela como ela queria. Isso é tudo o que vocês precisam saber.

Me adiantei:

-Você a perdoou?

Mamãe fechou os olhos, respirando profundamente. Ao abri-los, ela negou com a cabeça.

-Talvez um dia eu consiga. Mas agora eu não posso. Mas não desejo o mal dela. E disse a ela que a tinha perdoado.

Compreendi a generosidade daquele gesto. Sara perguntou:

-Você ainda ama a tia Samira?

Minha mãe encolheu os ombros:

-Ela sempre será minha irmã... quero que aprendam isso: a família é importante, e mesmo que as pessoas façam coisas imperdoáveis, devemos amá-las. Mesmo se não pudermos perdoá-las ainda.

(CONTINUA...) 




sexta-feira, 16 de julho de 2021

AS ESTRELAS QUE EU CONTEI - Capítulo7



 Capítulo 7


Quando mamãe e Afonso se casaram, dois anos após aquela festa de aniversário de Sara, eu tinha treze anos, e ela, doze. Afonso teria se casado bem antes, mas minha mãe queria ter certeza de que ele seria não apenas um bom marido para ela, mas principalmente, um bom pai para nós. Fiquei muito feliz por eles, e queria muito que minha mãe e Afonso e todos nós pudéssemos ser uma família feliz, mas no fundo, eu sentia culpa por causa de papai. Era como se estivéssemos expulsando-o das nossas vidas. Mamãe dizia que mesmo que ele estivesse vivo, provavelmente não estariam mais casados, devido a “você-sabe-o-que”, segundo ela. Mamãe nunca mais pronunciou o nome de nossos tios e primos, o que me deixava bastante triste também, pois eu os amava, apesar de tudo que tia Samira fizera. 

Nossa vida tornou-se mais tranquila e eu voltei a escrever alguns meses antes do casamento. Pude finalmente colocar no papel as histórias que mamãe me contava sobre a nossa família – e também algumas histórias que eu mesma vivera e das quais ainda me lembrava, sobre as fadas que via quando criança. Essas eram minhas melhores histórias, e eu costumava lê-las em capítulos durante dez minutos no final das aulas a pedido da professora e dos meus colegas de classe, que não mais riam delas, mas adoravam escutá-las.

Quanto a Sara, já mais madura, eu sabia que ela conhecia a verdade sobre papai e já aceitava as coisas como elas tinham acontecido. O tempo foi o melhor remédio, exatamente como a psicóloga dissera.

Após a nossa festa de casamento, mamãe vendeu a nossa casa. 

Foi muito triste para mim deixá-la! 

Enquanto Sara estava muito excitada com a mudança, e não parava de falar na nova casa onde moraríamos, que era muito grande e ainda mais bonita que a de tia Samira, eu estava arrasada por dentro, embora tentasse não demonstrar. No dia em que o caminhão de mudança carregou nossas roupas e alguns dos nossos objetos mais queridos, pedi a mamãe e Afonso que me deixassem um pouco sozinha na casa. Eu queria me despedir. Dona Meire me convidou para passar aquela noite em sua casa, e Afonso viria me buscar no dia seguinte. Acenei um adeus para eles no portão, e então entrei na nossa velha casa vazia, que não era mais nossa. Os novos proprietários começariam a reformá-la em uma semana. Tinham dito que pretendiam derrubar a árvore do quintal, a nossa querida goiabeira, a fim de construírem uma piscina, e aquela perspectiva me matava de dor. Como alguém poderia derrubar uma árvore tão linda e tão antiga?

Mas não havia absolutamente nada que eu pudesse fazer; a casa agora era de uma outra família, com outros sonhos. Da janela da sala, eu olhava para a nossa árvore, os olhos embaçados de lágrimas, que logo rolaram como cascatas quentes sobre o meu rosto. 

E foi então que eu as vi novamente. Pareciam criaturas transparentes, masculinas e femininas, sentadas sobre os ramos da árvore, e pareciam todas muito tristes. Algumas delas acariciavam as folhas, outras voavam em volta da árvore e outras... olhavam diretamente para mim! Meu coração deu um pulo enorme, me sacudindo, quando uma delas acenou para mim, me chamando.

Corri lá para fora, sentando-me sob a árvore, enquanto elas rodopiavam a minha volta. Eu estava me sentindo profundamente triste, e ao mesmo tempo feliz por revê-las depois de tantos anos. Minhas amiguinhas de infância. Elas não falavam, mas comunicavam-se comigo através dos meus sentimentos e de ideias que surgiam em minha cabeça. Era uma comunicação fluida e perfeita. Não havia a menor possibilidade de que nós nos desentendêssemos ou interpretássemos erradamente as mensagens. Elas me diziam que estavam muito tristes por eu estar indo embora, e que jamais tinham me abandonado. Estiveram sempre ali, durante todos aqueles anos, mas foi necessário que elas desaparecessem para que eu pudesse crescer e amadurecer plenamente. Me pediram que não ficasse triste pela árvore, pois ela não sentiria nenhuma dor, e se transformaria em um outro ser que habitaria um outro jardim bem longe da Terra. Perguntei se elas poderiam ir comigo para a nossa nova casa. Elas se entreolharam, e compreendi que não.

Elas iriam para o mesmo local para onde a árvore iria, pois pertenciam a ela e suas energias estavam muito conectadas e totalmente integradas. Não voltariam à Terra durante muitos e muitos séculos, mas estariam bem, e estariam felizes. 

Compreendi que elas falavam sobre a morte, uma morte que eu crescera acreditando ser algo imensamente triste, uma separação definitiva entre os que iam e os que ficavam. Elas estavam me dizendo indiretamente, que assim que a árvore caísse, elas morreriam junto com ela. Aquele pensamento me fez estremecer e chorar ainda mais, mas uma delas se aproximou dos meus ouvidos, soprando dentro deles. Entendi: “Você deveria saber que ninguém morre, nada morre. Seus avós estão vivos, seu pai está vivo, todos continuam, só que em outro lugar. Você sabe disso.”

Perguntei se sentiriam dor, e elas responderam apenas com um silêncio afirmativo. Sim, elas sentiriam dor enquanto a árvore estivesse sendo cortada, pois eram a alma dela. Todas as árvores cortadas eram poupadas das dores porque elas a sentiam por elas. Era para isso que tinham sido criadas: para cuidar das plantas, árvores, mares e rios, enquanto eles estivessem vivos, deixando de estar presentes quando eles morriam. Era um trabalho difícil, pois cada vez mais árvores e plantas estavam sendo mortas todos os dias no planeta, e rios e mares sendo poluídos. Assim, o trabalho delas tornava-se cada vez mais doloroso, e elas me deixaram saber que no futuro, tudo seria ainda mais difícil.

Vislumbrei florestas inteiras sendo derrubadas, e grandes quantidades de lixo e de plástico sendo jogados nos oceanos e mares, matando milhares de animais. Fechei os olhos: não queria saber de nada daquilo. Mas elas me disseram que eu tinha uma missão quando crescesse: escrever. Eu deveria criar histórias que ensinassem às crianças a importância de amar e respeitar a natureza. Elas estaria comigo, lá de longe, me inspirando, como musas. Tive medo; era uma responsabilidade muito grande! E se eu não conseguisse? Elas me disseram que eu seria uma grande escritora, pois aquela era a minha missão. Tudo o que eu precisava fazer era escrever, e as coisas aconteceriam naturalmente. As portas se abririam e as pessoas certas se aproximariam e se encarregariam de me ajudar a divulgar o meu trabalho. Eu não deveria ter medo de nada. Tudo ia dar certo. 

Fiquei ainda algum tempo com elas, sob a árvore. Mas aos poucos, o céu escureceu e trovões começaram a ribombar. Grossas gotas de chuva começaram a tamborilar no chão de terra batida, espalhando partículas de areia. Elas me deram permissão para entrar. Atravessei o jardim e entrei em casa correndo. Quando cheguei à janela, não as vi mais. 

Porém, ouvi um ruído de passos atrás de mim, e realmente me assustei, chegando a gritar antes de me virar correndo e deparar com tia Samira de pé atrás de mim. Eu me surpreendi tanto com a presença dela ali, que não consegui dizer nada, e fiquei olhando para ela. Parecia bem mais velha que minha mãe, e mais magra. Ainda era muito bonita, mas os cabelos tinham ficado precocemente grisalhos nas têmporas e ela não se importou em tingi-los, como mamãe, sempre muito vaidosa, fazia questão. O coque baixo, na altura da nuca, fazia com que ela parecesse ainda mais velha. Eu estava muito emocionada de vê-la. Ela sorriu levemente, e rugas profundas se formaram nas laterais da sua boca. Tia Samira estendeu os braços timidamente, e eu me abriguei entre eles de olhos fechados, matando as saudades daquele perfume tão familiar e daquelas mãos que tanto me consolaram, banharam e alimentaram quando eu era pequena. Senti que os ossos dos seus quadris estavam bem mais duros e salientes sob a roupa. Passei os dedos de leve sobre suas costas, e senti suas costelas, uma a uma. Finalmente, ela me afastou de si, e me olhou nos olhos:

- Eu soube que sua mãe se casou de novo. Ela está bem? E Sara, e você? Estão todos bem?

-Sim, estamos, tia Samira.

Ela me olhou da cabeça aos pés, segurando minhas mãos:

-Olhe só para você! Está uma moça, e tão linda! E eu perdi vocês crescendo...

Baixei os olhos por não saber o que dizer. Afinal, ela fizera por merecer, por mais que eu a amasse. Mudei de assunto:

-E como estão o tio Helvécio, o Décio e Joana? Sinto tanta saudade deles! 

- Joana está linda, e Décio também. Ambos estão muito bem, mas sempre falam de vocês e sem tem saudades daqueles tempos. Eu... nós decidimos não contar nada do que aconteceu a eles. Helvécio achou que não os faria mais felizes, então inventamos uma história sobre sua mãe e eu termos discutido por outro motivo... Helvécio está bem. Ele... mudou muito, porém. 

Vi que lágrimas começaram a brotar nos olhos dela. 

-Tia, não quero soar cruel, mas o que vocês fizeram... como puderam fazer isso com a gente, com a mamãe?

Ela secou uma lágrima com as costas da mão, e notei que não pintava mais as unhas.

-Eu vim aqui hoje porque Dona Meire me disse que você estaria aqui sozinha. 

Arregalei os olhos:

- Vocês mantiveram contato?

-Sim, esses anos todos eu ligava para ela. No começo, se recusava a dar notícias, mas com o tempo ela me contava alguma coisa. Até que percebeu que eu estava arrependida de verdade. E depois, acho que teve pena de mim, simplesmente. Mas eu fiz ela me prometer que não comentaria com minha irmã nada sobre nossas conversas. Ela teria ficado furiosa. 

Ignorando o último comentário, perguntei:

-Pena? – perguntei. – Por que ela teria pena de você, tia?

Ela molhou os lábios secos com a língua.

- É que eu estou muito doente, Chiara. Não me resta muito tempo. Eu quis muito procurar sua mãe e contar a verdade, mas confesso que não tive coragem... pedia a Dona Meire que a sondasse, se ela aceitaria me ver de novo, e as respostas eram sempre tão negativas... numa das vezes, ela disse a Dona Meire que se me visse de novo, me daria outra surra. Sua mãe simplesmente não quer me ver, e eu não a culpo. 

Concordei com a cabeça. Nós nos sentamos em um velho tapete que mamãe abandonara. Ela encostou na parede e esticou as pernas, e fiquei chocada ao ver a magreza de suas canelas. 

Ela continuou:

-Mas eu quero que ela saiba da verdade.

-Sobre a sua doença?

-Não... isso é fato consumado. 

- Tia, eu não estou entendendo...

- -É que... seu pai, ele... nunca teve nada comigo, eu mandava aquelas fotos para ele... eu estava totalmente cega de paixão. Eu faria qualquer coisa, embora amasse vocês. Mas eu não conseguia esquecê-lo, e Helvécio sabia que eu estava apaixonada por Pedro. Poderia ter me deixado, mas me amava, e queria evitar um escândalo que pudesse prejudicar as crianças e também a união das famílias. E ele achava que nós ... eu e Pedro... nunca aconteceria, por parte de Pedro. E eu juro, Chiara, nunca aconteceu nada entre seu pai e eu.

Ela interrompeu sua fala com um soluço de dor. Tia Samira torcia os dedos, sem me olhar nos olhos. 

-Eu me sinto tão envergonhada por tudo o que tentei fazer! Mas eu estava tão apaixonada, era como se... um fogo queimasse dentro de mim e a fumaça me deixasse totalmente cega! Foram anos e anos de paixão represada que eu juro, fiz de tudo para matar! Mas naquela viagem que fomos todos juntos... lembra? A nossa última viagem? Eu não conseguia suportar estar perto dele e não ser notada! Eu... pedi a uma camareira do hotel que tirasse aquelas fotos, dizendo que queria surpreender meu marido. Mas depois passei a enviá-las ao seu pai, que nunca as mencionou, o que me deixava ainda mais furiosa, até que finalmente, ao falar com ele... ele me ameaçou. Disse que as mostraria ao Helvécio. Mas houve o acidente... e eu não sabia o que ele tinha feito com as fotos, até que a polícia as entregou justamente à sua mãe.

O olhar dela se perdia nas cenas que ela me descrevia. Eu só tinha treze anos, mas podia entender o que ela falava, pois eu mesma estivera apaixonada por um menino da escola que não ligava a mínima para mim, e sabia o que é o desprezo e a paixão recolhida. 

-Mas o que exatamente, você pretendia com tudo aquilo, tia Samira? Achava que papai ia deixar a mamãe para ficar com você? Acha que ele ia nos deixar, destruir a nossa família?

-Eu só queria... eu só queria uma noite com ele, só isso. E depois... eu não sei o que seria, o que poderia ter sido, mas eu ansiava por ele..., mas nunca aconteceu, e então, depois que ele morreu, e depois que sua mãe me expulsou, eu sofri muito e compreendi que de qualquer jeito, jamais teria acontecido por um único motivo: ele era louco por Vanessa. Ele era totalmente apaixonado por ela. Eu cheguei ao cúmulo, uma vez, de procurar uma mãe de santo, acredita? Eu desci ao último degrau para tentar conquistar seu pai. Para ter uma única noite com ele que fosse. Mas depois que ele morreu, não havia mais lugar onde eu pudesse colocar minha paixão por ele. E ela foi aos poucos morrendo, e dando lugar a um sentimento de culpa enorme, muita vergonha... e muita falta de vocês, saudade... eu finalmente caí em mim e percebi o ridículo de tudo aquilo, de toda aquela fantasia que eu criei na minha cabeça. Eu destruí a nossa família por causa de um delírio... e ao mesmo tempo, eu sei que não conseguiria fazer com que tivesse sido diferente.

Então ela me olhou, a cabeça rolando na parede atrás dela e os olhos dela procurando pelos meus:

-Você acha que sua mãe poderia me perdoar?

Fiquei sem saber o que dizer. Eu já a perdoara, mas mamãe tinha um gênio muito forte, e não deixava de ter razão. Mas ela precisava saber que jamais tinha sido traída, e quando soubesse, não sei se ela passaria a odiar a irmã ainda mais, por deixá-la acreditar que sim, durante queles anos todos após a morte de papai. Encolhi os ombros:

-Não sei, tia. De verdade, não sei.

Ela sorriu tristemente, e se ergueu com dificuldades, e eu também me levantei do chão. Ela me olhou mais uma vez, e eu soube que aquela seria a última vez que nos veríamos. Ela também. Eu sabia que ela sentia a mesma coisa. Senti um misto de nostalgia, tristeza, perda antecipada, amor jogado fora. Ela piscou um olho para mim, dizendo:

- Décio e Joana estão lá fora no carro. 

Meu coração deu um salto enquanto eu corria para fora. A chuva tinha passado, mas gotas ainda caíam das árvores. Corri pelo gramado, e quando eles me viram, saíram do carro, correndo na minha direção, e nos abraçamos, e choramos, e nos abraçamos de novo... choramos de novo... juramos que nunca mais nos distanciaríamos. Eles prometeram que nos visitariam na nossa nova casa. Ainda conversamos durante uma hora, enquanto tia Samira foi fazer uma visita ao marido de Dona Meire, que piorara bastante do Alzheimer. Falamos da escola, de velhas lembranças... brincadeiras que fizéramos ali, naquele quintal. Filmes que assistíramos todos juntos em noites de sábado. De vaga-lumes que capturávamos e colocávamos dentro de vidros, e depois soltávamos. Falamos das fadas que eu via (não mencionei que as vira novamente naquela tarde) e das brigas dos nossos pais, que na época, chegavam a ser até engraçadas, às vezes. 

Joana me disse que estava namorando escondido e queria ser médica. Décio era capitão do time de futebol da escola, e ia cursar engenharia quando crescesse. Tio Helvécio trabalhava muito, mas estava bem. Eles tinham se mudado de casa, e agora moravam em um grande apartamento na cidade, pois ficava mais perto das melhores escolas. Sentiam saudades de nós. Sentiam saudades de tudo. Jamais deixaram de pensar em nós, e nunca entenderam, realmente, o motivo da briga entre nossas mães após a morte de meu pai. E eu não contei nada a eles, deixando que continuassem a acreditar no que os pais deles tinham dito, seja lá o que fosse. 

A tarde deu lugar às primeiras estrelas, e finalmente, Tia Samira chegou de sua visita e levou meus primos embora. Mas prometemos que telefonaríamos, e que nas férias, eles iriam nos visitar.

Mas eu temia, enquanto olhava o carro se afastando, que minha mãe não entendesse e não quisesse saber deles. Voltei e tranquei a casa. Ainda fiquei no jardim, olhando as plantinhas e escutando os grilos, respirando o cheiro ativo de grama e terra molhada do jardim que eu nunca mais pisaria e que eu nunca mais sentiria. Atravessei o portão e olhei para trás pela última vez. A claridade do luar de setembro parecia uma aura em volta do nosso telhado.

Quando cheguei à casa de Dona Meire, ela tinha lágrimas nos olhos; seu marido acabara de falecer, assim que Tia Samira deixara a casa. 

Após o funeral, ela iria morar com um sobrinho em outra cidade. Nunca mais a vimos ou ouvimos falar dela. É engraçada a maneira como as pessoas vêm e vão, entram e saem de nossas vidas quando aquilo que tínhamos a aprender juntos termina. Serei sempre grata à Dona Meire, que nos ajudou no momento mais difícil de nossas vidas. Ela seria mais uma estrela no céu da minha vida.

Minha mãe escutou a história que contei sobre tia Samira, e exatamente como eu pensava, ficou furiosa ao saber que ela escondera a verdade aqueles anos todos, deixando que ela pensasse mal do nosso pai. 

Minha mãe chorou muito ao desenterrar aquelas velhas histórias. Afonso foi compreensivo e deixou que ela chorasse tudo o que tinha a chorar, secando cada lágrima que ela derramou nos dias que se seguiram e levando-lhe pessoalmente inúmeras xícaras de chá acompanhadas de pequenos doces para substituir as refeições que ela se recusava a fazer, até que ela finalmente saiu do quarto da nossa nova casa e declarou:

-Quero ver minha irmã.

Estávamos sentados no sofá da sala assistindo a um programa na TV, e todos nos levantamos ao mesmo tempo. Mamãe estava muito decidida.


(continua...)





segunda-feira, 12 de julho de 2021

AS ESTRELAS QUE EU CONTEI - CAPÍTULO 6




Capítulo 6 

 Eu sentiria tanta falta de papai, que jamais poderia descrever. Nas histórias que eu escrevi posteriormente, tentei extravasar em meus personagens aquela saudade, mas nada do que eu escrevesse chegava perto do que eu sentia. Minhas histórias morreram durante muito tempo. Eu não conseguia sequer escrever as redações da escola. Sara passou a fingir que ele tinha voltado a trabalhar viajando, e que ele estava fora, mas logo voltaria. A fantasia que ela criou era tão forte, que mamãe e eu temíamos desmenti-la. Se ela estava mais feliz daquele jeito, que ficasse assim. Mamãe andava pela casa feito um zumbi. Parava, encostava na parede de braços cruzados, suspirando profundamente. Mal conseguia fazer o serviço de casa. A vizinha da casa em frente, Dona Meire, de vez em quando nos trazia algo: um bolo, um frango assado, uma panela de macarronada. Também conversava com mamãe por algum tempo, consolando-a. Ela era uma senhora idosa, viúva, que morava com o marido que tinha Alzheimer. As duas se tornaram boas amigas. Antes, mal se falavam, pois a presença forte e dominadora de Tia Samira na vida de mamãe afastava a todos. 

Dona Meire também nos ‘emprestava’ sua faxineira de vez em quando: mamãe sorria tristemente e agradecia, dando à mulher algum dinheiro. Certa vez, escutei Dona Meire dizendo: - Vanessa, você precisa se reequilibrar! Tem duas crianças para olhar, não pode ficar assim. Lá se vão quatro meses. Você precisa seguir em frente. Precisa encontrar trabalho. Eu olho as crianças para você. - A senhora já tem muito o que fazer, e tem seus próprios problemas também. Não se preocupe, eu tenho um plano. Mas preciso me recuperar antes. Só preciso de um pouco mais de tempo. Lembrei-me dos tempos em que mamãe jamais admitiria que alguém sequer sugerisse o que ela deveria fazer – a não ser Tia Samira, é claro. Ela estava fraca. Tinha perdido peso também. Suas batas indianas dançavam em volta dela e do seu pulso cada vez mais magro. Eu não a via mais chorar. Ela estava destruída – tão destruída que se esquecia de sentir dor. 

Um dia, eu descobri o motivo de toda aquela destruição. Não era apenas luto. Mamãe tinha saído para ir ao supermercado, e Sara estava assistindo televisão na sala. Sem querer, passei pelo quarto de mamãe e olhando para dentro vi um envelope grande e pardo sobre a cama. Tinha um carimbo que identifiquei como sendo da polícia. Me aproximei. Pensei se deveria mexer nas coisas de mamãe, e achei que não, mas mesmo assim, abri o envelope, jogando seu conteúdo sobre a colcha indiana. Ali estavam alguns objetos: o relógio de pulso de meu pai, a aliança de casamento, algum dinheiro, um anel de prata que ele usava sempre, a camisa que ele estava usando no dia do meu aniversário (rasgada e suja de sangue), a carteira dele. Lágrimas vieram aos meus olhos enquanto eu colocava a camisa junto ao meu nariz para tentar sentir um pouco do cheiro do meu pai. Aspirei profundamente, mas o cheiro do papel do envelope tinha dissipado tudo. Foi então que eu percebi que ainda havia alguma coisa dentro do envelope. Sacudi-o, e um outro envelope menor caiu sobre a cama. Peguei-o com as mãos trêmulas, pressentindo o que poderia estar dentro dele. O que eu vi me deixou confusa a princípio, mas logo depois, a ficha caiu e eu amadureci dez anos em apenas um minuto. 

Havia fotos de Tia Samira. Em algumas, ela sorria sedutora, deitada nua em uma cama, as partes íntimas cobertas por lenços, calcinhas rendadas ou pelo lençol. Minha primeira reação foi de confusão, pois pensei o que fotos como aquelas poderiam estar junto as coisas de meu pai. Porque eu jamais poderia imaginar minha tia e meu pai daquele jeito! Eles pareciam odiar um ao outro. Então era tudo fingimento! Na verdade, eles namoravam escondido, pensei. Minha tia e meu pai namoravam escondido! Eu coloquei as fotos de volta no envelope, rapidamente, como se elas pudessem queimar meus dedos. Depois, coloquei o envelope com as fotos e as outras coisas dentro do envelope maior. Naquele momento, minha mãe entrou no quarto. Eu estivera tão envolvida com as fotos que não notara que ela tinha chegado em casa. Mamãe entrou no quarto e fechou a porta, murmurando:

 -Você viu? 

Me assustei com a voz dela, e estremeci. Concordei com a cabeça. Ela acariciou meu rosto: 

-Desculpe, querida, não deixei-as sobre a cama de propósito... eu me esqueci de guarda-las. Minha cabeça não anda boa. Mas eu queria pedir a você um favor: não conte à Sara! Ela não precisa saber de nada. 

Eu concordei com a cabeça:

 -Então o papai e a tia Samira namoravam escondido? 

Ela baixou os olhos: 

-Sim. Bem na minha cara, e eu nunca percebi. Vai ver que era por isso que ela fazia tanta questão de me afastar das outras pessoas, de estar sempre por perto, vigiando. Tinha medo de que descobríssemos ou que alguém nos contasse. Até mesmo Dona Meire desconfiava. Mas... você não deve nunca se zangar com seu pai, querida. Ele foi um bom pai para vocês. Ele as amava demais! 

 -Mas eu sempre pensei que ele amasse a senhora também. Se ele fingiu amar a senhora, com certeza também fingia que amava a gente! 

-Não, não confunda as coisas, Chiara! Pais e filhos são diferentes de marido e mulher. Os pais sempre amam seus filhos.

 -Mamãe... a senhora nunca vai perdoar a Tia Samira? 

Ela me olhou bem dentro dos olhos: 

- Escute bem uma coisa: o que ela fez não pode ser perdoado. Se um dia você crescer e quiser vê-la, poderá fazer isso. Não vou tentar impedi-la. Mas eu não quero mais ver sua tia. Ela matou o que havia de melhor em mim: a lembrança do seu pai. Ela roubou de mim o amor do seu pai. Ela nos traiu, traiu a nossa família. 

- O Tio Helvécio sabe?

 - Sabe. Mas ele a perdoou, pelas crianças. Mas ouvi dizer que ele agora mudou muito, sabe? Não deixa mais ela mandar nele, como antes. Agora, é ela quem obedece, se não quiser ir parar na rua. Dei a ele algumas dessas fotos, e ele pode usá-las a qualquer momento para acusá-la de adultério, e ela perde todos os direitos de esposa e também perde as crianças, se ele fizer isso. 

-Adultério? O que é isso? 

-É um crime. É quando uma pessoa casada namora outra, como sua tia fez. 

- Mamãe... eu queria dizer uma coisa... é que eu sei que o papai sempre amou muito você. Eu sei. 

Ela sorriu, mas era um sorriso amargo e descrente. Mas eu sabia, pois jamais me esqueceria da maneira como ele olhava para ela. Registrei todas aquelas informações novas rapidamente na minha cabeça, mas depois, passaria dias a fio pensando nelas. 

Sara continuou com seu faz-de-contas mental durante muito tempo, e nenhuma de nós tinha coragem de trazê-la de volta à realidade. Um dia, quando chegamos da escola, encontramos várias malas no corredor da casa. Sara bisbilhotou e viu as coisas de papai dentro delas. Furiosa, começou a desmanchar tudo, puxando as roupas para fora freneticamente. Eu dizia para ela parar, mas ela não me escutava. Eu não sabia como agir! Mamãe ainda não tinha chegado do trabalho (arranjara um emprego de meio expediente em um consultório médico enquanto estávamos na escola). Tudo o que pude fazer foi observá-la, até que todas as roupas de papai estavam no chão em volta dela, e ela, descabelada e ofegante, as bochechas vermelhas e os olhos injetados. Levei-a para a cozinha e dei-lhe um copo d’água, enquanto ela choramingava: 

-Por que a mamãe está tirando as coisas do papai do armário, Chiara? 

- Porque ele não vai voltar mais, Sara. Por isso. Eu sinto muito. Eu queria que ele estivesse aqui e que tudo pudesse voltar a ser como antes. Mas o papai não vai voltar. 

-Nem a Tia Samira?

 -Nem a Tia Samira. 

-Tio Helvécio? Décio e Joana? 

-Nem eles. 

Ela concordou com a cabeça, tomando um gole d’água. Depois, colocou o copo sobre a mesa e saiu da cozinha, indo para o quarto, onde a encontrei deitada na cama, de olhos fechados. Parecia dormir, então decidi não perturbá-la. Quando mamãe chegou, ajudei-a a refazer as malas, enquanto explicava a ela o que tinha acontecido. Desde aquele dia, Sara nunca mais tocou no nome dos nossos tios e primos, e também nunca mais mencionou papai. Eu estava passando por um período de luto múltiplo. Perdera meu pai, meus tios e primos, minha confiança na vida, nossa segurança financeira, minha inocência. Eu sabia que as coisas jamais seriam como eram novamente. Eu perdera quase tudo o que eu amava. Perdera minha fé na vida. 

 Quando eu fiz dez anos, e Sara 9, mamãe parecia ter se recuperado totalmente de tudo o que acontecera. Já a víamos cantando pela casa, enquanto fazia a faxina. Tinha conseguido um emprego melhor de secretária em uma empresa que fabricava vassouras, e também vendia algumas bijuterias que ela mesma fabricava no final de semana. A nossa mesa da sala vivia cheia de contas coloridas, fios, cordas, pedras, adornos. Suas bijuterias eram tão bonitas, que passou a vende-las sob encomenda para algumas lojas da cidade. Às vezes, eu e Sara nos sentávamos com ela, seguindo suas instruções para confeccionar colares e pulseiras. Pudemos viver uma vida normal naqueles tempos; fizéramos amizade com a vizinhança, passando a fazer parte da comunidade. Eu não voltara a escrever uma única linha sequer, e também nunca mais vira nenhuma fada ou coisa parecida, mas não me preocupava mais com aquelas coisas. 

 Certa vez, ouvi mamãe conversando com Dona Meire sobre tudo o que acontecera no passado, e ela dizia: 

-Resolvi seguir em frente, viver minha vida. O que eles fizeram foi problema deles, e não devo ser infeliz para sempre por coisas que eu mesma não fiz. Quero cuidar das meninas e seguir em frente. Quem sabe, um dia eu me case de novo.

 -Deveria, Vanessa, pois você ainda é jovem e muito bonita. Não faltarão candidatos. 

A ideia de ter um outro homem que não papai em casa com a gente me assustava. Passei a ter pesadelos durante a noite outra vez: eu via um estranho, uma sombra, entrando sorrateiramente pela janela do meu quarto. Mas eu já estava crescida o bastante para não assustar mais Sara com meus pesadelos, e acordava empapada de suor, a respiração ofegante, mas sem chamar por mamãe. Durante algum tempo após aqueles sonhos eu não conseguia me mexer ou falar, os músculos tensos, e eu escutava alguém andando em volta da minha cama e até puxando minhas cobertas. Era apavorante! Finalmente, após alguns minutos eu conseguia me mexer e falar novamente. Ia até a cozinha e bebia água, acendendo todas as luzes da casa no caminho. Mamãe um dia acordou no meio da noite e dei com ela no corredor, após minhas peregrinações noturnas pós-pesadelo. Ela me conhecia muito bem e sabia que havia algo errado, embora eu tentasse mentir. Me fez contar a ela toda a verdade. Após me ouvir, ela sussurrou, mais para si mesma do que para mim:

 -É esta casa... ela faz isso, ela fez isso conosco.

 Um arrepio percorreu minha espinha. Eu jamais poderia pensar que a nossa casa, a casa onde eu, minha irmã e até a minha mãe crescêramos, poderia nos fazer algum mal. Lembrei-me das fadas que eu via no jardim, e do fantasma de minha avó. Recordei as muitas brigas de meus pais, minhas noites de insônia e pesadelos. Seria verdade? Eu não podia acreditar. Porque eu amava aquela casa e as lembranças que ela guardava. 

Meses depois desse episódio, minha mãe passou a pedir a nossa vizinha, Dona Meire, para tomar conta de nós à noitinha, dizendo que tinha muito trabalho e teria que fazer hora extra no escritório. Alegava estar juntando dinheiro para que eu e Sara pudéssemos estudar em uma escola melhor. Mas nós adorávamos a nossa escola, onde estudávamos desde sempre, e por mais que disséssemos isso a ela, ela insistia: “O melhor legado que uma mãe pode deixar aos seus filhos é uma boa educação.” Ela falava como alguém muito mais velho que ela! 

Certa noite, enquanto Dona Meire adormecera assistindo à novela no sofá, eu escutei o ruído de um motor de carro parando junto à casa e fui até a janela. Vi quando minha mãe saiu de dentro do carro, um sedan preto, e acenou para o motorista após entrar no nosso portão. Ele buzinou de volta e se foi. Assim que ela passou a chave na porta, Dona Meire despertou e foi ter com ela na cozinha. Eu as segui sem que me vissem, e passei a escutar atrás da porta o que elas conversavam. Aliás, aquele era meu passatempo preferido. Dona Meire perguntou: 

-E então, Vanessa? Como foi o jantar? 

-Ah, ele é... parece ser uma ótima pessoa, Dona Meire. Fomos a um restaurante tão fino!... imagine, ele pediu champanhe para nós! E depois fomos assistir a um filme. E então... ele me beijou. Meu coração deu voltas descompassadas ao ouvir a conversa e imaginar a cena de minha mãe sendo beijada por outro homem que não o meu pai. Ela continuou: 

-Em breve, vou trazer o Afonso aqui em casa, para apresentar às meninas. 

-Hum... não acha que deveria esperar mais um pouco? Afinal, fazem apenas três meses que vocês se conheceram.

 -Não. Eu não quero esperar mais nada nessa vida. Passei a vida toda acreditando em um marido que me enganava com a minha própria irmã. Perdi um tempo enorme, Dona Meire. Agora eu quero viver, e quero dar o melhor à minhas filhas. Afonso é um homem rico. Ele é meu chefe, eu sei muito bem quanto dinheiro ele tem. Além de ser muito bonito... honesto...

 - Mas você o ama? Está apaixonada por ele? 

- Ele me ama, já disse isso várias vezes, está apaixonado por mim. Eu não faço questão de amar a mais ninguém. Não acredito mais no amor. Se ele é um homem bom, que pode me dar aquilo que eu preciso e ser um bom pai para minhas filhas, já basta. Cansei de gastar meus dedos no tanque de roupas, e as solas dos meus sapatos indo trabalhar todos os dias, e depois chegar em casa e ter tantas coisas a fazer... estou envelhecendo antes do tempo! Logo, não serei mais bonita ou jovem. Preciso aproveitar o que a vida está me oferecendo. 

-Você ainda tem a beleza da juventude, Vanessa. Ainda a terá por muitos anos. 

-Não... a minha verdadeira beleza foi enterrada junto com o Pedro. A minha fé na raça humana, a minha capacidade a amar, de confiar... tudo isso eu perdi. Agora eu preciso apenas ser fria. 

Eu não gostava de ouvir minha mãe sendo tão amarga em relação à vida. Ela sempre fora uma criatura amorosa e que acreditava no amor. Pensei no quanto aquilo que as outras pessoas nos fazem podem nos tornar pessoas amargas, e lamentei. De repente, achei que ela tinha o direito de tentar de novo, tentar ser feliz. E se a sua esperança de ter uma vida melhor e nos dar uma vida melhor estivesse naquele homem, eu não seria um obstáculo. Eu sentia falta de papai. Estranhamente, também sentia muita falta de meus tios e primos, pois crescera tendo-os em minha vida. Tivéramos muitos bons momentos juntos, e eu não poderia apagar aquilo ou pensar que um erro, por mais grave que fosse, que meu pai e minha tia tinham cometido, os fizesse pessoas ruins. Eram apenas pessoas imperfeitas. Eu sabia eu minha tia nos amava, e que meu pai nos amava muito. Nunca mais ouvira falar dela ou do resto da minha família. Era solitário estar afastada deles. Minha mãe sempre dizia que, quando eu crescesse, poderia procurar por eles se eu quisesse, mas sempre repetia que não contasse com ela para isso. Sara continuava vivendo em seu mundo de fantasia – ou de negação – fingindo que papai e Tia Samira, Tio Helvécio, Décio e Joana nunca tinham existido. Ela jamais falava neles. Se eu tentasse conversar com ela sobre qualquer um deles, ela simplesmente se erguia e saia de perto. Depois, fingia que não se lembrava de nada. Bem, era a maneira que ela encontrara para não sofrer, mas eu temia o dia em que ela seria forçada a encarar a verdade e toda a dor que ela traria. 

Mas Sara era apenas uma criança, e eu era apenas uma criança e não sabia como lidar com aquilo. Depois que mamãe me dissera que nossos problemas se deviam a alguma coisa que havia naquela casa, passei a vê-la com estranheza. Já não me sentia tão feliz entre aquelas paredes. Passava a maior parte do tempo brincando no quintal ou nas casas dos vizinhos. Eu me tornara ressentida; será mesmo que uma casa pode influenciar a vida de seus moradores? Mamãe sempre dizia que seus pais (nossos avós) não tinham sido felizes ali. Meu avô morrera jovem, um pouco mais velho que papai. Meus bisavós, que também moraram ali, também tinham morrido cedo. Minha avó vivera naquela casa sozinha, desde os seus dezenove anos. Aquelas histórias de família, que mamãe ia nos contando aos poucos, enchiam a minha imaginação, e eu sentia vontade de escrevê-las, mas quando me colocava diante do meu velho caderno de histórias, não conseguia escrever nada. 

No aniversário de dez anos de Sara, mamãe decidiu dar uma festinha para ela. Lembrei-me da última festa que tivéramos naquela casa, e do quanto nossas vidas mudaram após ela. Lembrei-me de minha tia Samira ajudando na decoração, e do quanto estávamos todos tão felizes e tão bonitos naquele dia. A saudade bateu forte, mas tratei de me recuperar, pois não queria estar triste na festa de aniversário de minha irmã. Felizmente, mamãe encomendou o bolo de uma vizinha, e ninguém precisou ir buscá-lo. As crianças da escola, colegas de Sara, compareceram em massa, e os vizinhos também. A casa estava cheia e animada. Cantamos parabéns sem nenhum problema, Sara ganhou muitos presentes e estava muito feliz. Mas eu – só eu – via uma sombra passar sobre o rosto de minha mãe várias vezes. Ela também se lembrava. Ela também sofria. Eu tinha certeza que esquecer uma pessoa não se tratava de querer, apenas. Minha mãe amara meu pai violentamente, loucamente, e não poderia esquecê-lo. A dor estava sempre nos olhos dela. A dor estava no meio do seu sorriso e de sua voz, quando ela cantarolava. A dor estava na superfície e sua pele. Só eu via. Só eu poderia sentir. 

 Já no finalzinho da festa, quando quase todo mundo tinha ido embora e Sara brincava no quintal, alguém bateu à porta. Mamãe estava na cozinha lavando a louça, e então eu fui abrir. Um moço alto e elegante, muito bem-vestido, me olhou, sorrindo levemente. Os olhos dele eram azuis e um pouco tristes, mas eu gostei dele imediatamente, e sorri de volta. Senti como se o conhecesse há muito tempo, mas não sabia de onde. 

-Você deve ser a Chiara - ele disse, e eu concordei com a cabeça. Naquele momento, mamãe veio da cozinha, enxugando a mão no pano de prato. Ele olhou para ela por cima da minha cabeça, dizendo: 

-Me desculpe pelo atraso, Vanessa. Tive um problema com o carro. 

 Mamãe me puxou para junto dela, dando passagem para que ele entrasse e convidando-o para se sentar no sofá. Compreendi, pelo olhar dos dois, que ele era o namorado de mamãe. Ela parecia um tanto sem-graça: 

-Oh, eu pensei que você não viesse mais. Ela olhou para si mesma, o pano de prato pendurado nas mãos, o vestido simples e o avental respingado de água. Ele sorriu, e eu vi nos olhos dele que ele estava muito apaixonado por minha mãe. Sara entrou correndo em casa, as bochechas vermelhas: 

-Mamãe já foi todo mundo embora e está esfriando lá fora! 

Ela estancou ao ver o homem no sofá, e se aproximou dele devagar: 

-Olá! Você veio para a minha festa? Porque se veio, ela já acabou! 

Mamãe ralhou com ela: 

-Sara! Isso são modos? (e virando-se para ele) Desculpe... 

Ele riu alto, enfiou a mão no bolso e estendeu o braço na direção de Sara, segurando uma pequena caixinha. Ela pegou a caixinha e perguntou se era para ela, e ele concordou com a cabeça. Sara sentou-se no sofá ao lado dele e abriu a caixa, que tinha uma pulseirinha de ouro muito delicada, com um gatinho junto ao fecho cujos olhos eram de uma pedra azul. Ela imediatamente adorou, estendendo o braço para que ele a prendesse para ela. Impulsivamente, Sara deu um abraço no homem. Todos rimos. Mamãe finalmente lembrou-se de apresentá-lo a nós: 

-Meninas, esse é Afonso, meu... meu chefe na fábrica. Aquele dia marcou uma nova fase de mudanças em nossas vidas.  


(continua...)





terça-feira, 6 de julho de 2021

AS ESTRELAS QUE EU CONTEI - CAPÍTULO 5




Capítulo 5


Mamãe e Tia Samira corriam pela sala da nossa casa, pendurando balões e flores de papel celofane. Elas tinham planejado aquela festa durante semanas, chegando a desenhar o meu bolo de aniversário de oito anos, que Tia Samira encomendou na melhor confeitaria da cidade. Meus amiguinhos da escola tinham sido todos convidados e também alguns amigos de Sara. Tio Helvécio lia o jornal em um cantinho da sala, jogado em uma poltrona, e de vez em quando, erguia os olhos para escutar tia Samira xingar: 

-Você fica só aí, sentado, não ajuda em nada! Vê se vai lá fora ver se as cadeiras e mesas já chegaram.

Então, ele se erguia da poltrona, e indo até a janela, verificava se o caminhão com as mesas e cadeiras estava por perto. 

Eu, Sara e os primos estávamos vestindo roupas novas, e tínhamos sido advertidos para não nos sujarmos; eu usava um vestido rosa com a saia coberta por uma camada de filó estampado com rosinhas quase transparentes. Havia um laço de veludo preto em volta da cintura, uma cor que minha mãe não queria me deixar usar de jeito nenhum, porém, eu bati pé, e ela finalmente concordou, dizendo que o laço acabou combinando com os sapatos envernizados pretos e o reloginho de pulso que ganhei de papai. O arco de cabeça que eu estava usando também era de veludo preto, incrustrado de pedrinhas brilhantes imitando pequenos diamantes. Ao me ver, papai me disse que eram estrelinhas do céu pousadas na minha cabeça. 

Mamãe estava absurdamente linda, usando um vestido azul royal simples e sem mangas que marcava sua cintura. Os cabelos presos por grampos escondidos sob as mechas deixavam ver suas orelhas bem desenhadas que ostentavam brincos da mesma cor do vestido. Tia Samira usava um vestido verde esmeralda, que contrastava com seus cabelos escuros. Ambas estavam deslumbrantes! Sara também estava muito linda. Estávamos todos lindos naquele dia. O dia estava lindo e tudo era perfeito.

Mais ou menos às três da tarde, mamãe pediu a papai que fosse buscar o meu bolo de aniversário na confeitaria, que ficava a alguns quilômetros da nossa casa. Eu estava ansiosa e feliz. Faltava apenas uma hora para que os convidados da festa começassem a chegar. Papai chamou Tio Helvécio para ir com ele, e ambos partiram, com a voz de Tia Samira ecoando pela sala atrás deles:

-Andem logo! Já deveriam ter ido antes! Os convidados estão quase chegando e o bolo ainda não está na mesa!

Eu andei pela sala, apreciando os enfeites e ansiosa pela chegada dos meus amiguinhos. Com certeza, pensei, esse dia vai ficar marcado, já que papai até conseguiu uma máquina de retratos emprestada com um vizinho. Eu pensava nas poses que faria, e que pediria a papai que tirasse uma foto minha com todos os amigos da escola. Os primos, sentados no sofá com Sara, brincavam de adivinhar nomes de frutas que começavam com certas letras do alfabeto. Mamãe e Tia Samira acabavam de dar os últimos retoques.

Alguns minutos após a saída de papai e tio Helvécio, a campainha tocou. Mamãe foi abrir, dizendo:

-Esses dois... os convidados estão chegando e nada de bolo!

O que vimos ao abrir a porta nos deixou desconcertadas:

Dois policiais, quepes na mão, nos olhavam com expressões estranhas no rosto. Por trás deles, nossos convidados estavam espalhados pelo gramado, e suas vozes chegavam até nós como zumbidos de abelhas. Ao ver os policiais parado à porta, meu primo Décio correu em direção a ele, examinando sua farda bem de perto (ele queria ser policial quando crescesse). Daí então tudo aconteceu em câmera lenta.

Eu vi meus colegas de classe e os demais convidados nos olharem, todos ao mesmo tempo, enquanto um silêncio mortal se fez entre eles. Nós éramos o alvo de todas as atenções. Eu ri, pensando que aquilo tudo fazia parte de uma grande surpresa de aniversário arquitetada pelo meu pai. Tomei a dianteira sorrindo, ficando bem na frente de mamãe, segurando a ponta do vestido, perguntei aos policiais:

-Vocês vieram para a minha festa de aniversário? Podem entrar!

E eles passaram por nós, sem me sorrirem de volta. Mamãe olhou para fora mais uma vez antes de fechar a porta. Pensei em como aquilo pareceria descortês com os demais convidados e já ia abrir a boca para protestar, mas um dos policiais – o mais velho – pigarreou e disse:

- Senhora Vanessa Alcântara?

Mamãe, de olhos arregalados, a mão segurando o pescoço como se temesse que sua cabeça saísse rolando pelo chão, balançou a cabeça, concordando. Tia Samira se aproximou, segurando mamãe pelo braço. Nos olhos dela, um imenso pavor.

O policial olhou para nós crianças, e disse:

-Talvez seja melhor conversarmos em outro lugar, senhoras.

E mamãe fez sinal para que eles a seguissem indo para a cozinha e fechando a porta atrás deles. Tia Samira ficou conosco na sala. Ela estava realmente muito apavorada – eu nunca a tinha visto daquele jeito. Andava de um lado ao outro da sala, sem tentar esconder de nós o seu nervosismo.

De repente, nós ouvimos o grito mais agoniado que um ser humano poderia ter. Tia Samira cerrou os olhos com força, dirigindo-se à cozinha, enquanto eu, Sara e os primos nos entreolhamos. Sem entender que aquilo não era parte de um jogo, eu corri para olhar pela janela, mas todo mundo tinha ido embora. O gramado estava vazio, e um céu de chumbo completava a morbidez daquele cenário. Foi só então que eu percebi que alguma coisa muito séria estava acontecendo, pois vi minha avó de pé junto ao portão da casa.

Eu sei que gritei, e depois, não me lembro de mais nada.

Acordei mais tarde em meu quarto. Alguém tinha despido meu vestido, trocando-o por um pijama. Sara dormia profundamente na outra cama. A casa estava silenciosa e obscura. Levantei-me da cama, abrindo a porta e indo até o corredor, onde o único som era o do relógio de parede. Descalça, caminhei até a sala e vi Tio Helvécio dormindo no sofá. Ele tinha alguns arranhões no rosto e um braço imobilizado. Em volta dele, as decorações de aniversário ainda estavam penduradas em todos os lugares. Os doces estavam sobre a mesa, e havia um espaço vazio no meio deles, onde deveria estar o bolo. 

Corri até o quarto dos meus pais, mas não os encontrei. Ao invés disso, vi Tia Samira sentada na cama deles, e ela chorava feito um rio. Ela me olhou, estendendo os braços para mim, e eu fui até ela. Ela me abraçou com tanta força, que eu quase sufoquei. O rosto dela, molhado de lágrimas, colava-se à minha testa. Assustada, eu a empurrei:

-O que você está fazendo aqui, Tia? Cadê a minha mãe? E o papai?

Ela acariciou meu queixo:

- Seu papai teve um acidente de carro, minha querida. A mamãe está com ele no hospital. 

Ela fungou, enxugando as lágrimas na manga da blusa. Tia Samira havia trocado de roupa, e usava uma calça jeans e um suéter preto. Tentou sorrir, mas seu sorriso transformou-se em uma careta. Perguntei:

-Ele se machucou muito?

Tia Samira balançou a cabeça, concordando, e recomeçou a chorar. Foi aí que ela perdeu totalmente a cabeça, e jogando-se sobre o travesseiro de meu pai, ela repetia, entre as lágrimas:

- Pedro, Pedro, por que isso foi acontecer? Eu te amo tanto, tanto... eu te amo... eu sempre amei você... eu te quis, eu te quero ainda... eu nunca vou te esquecer!

Notei uma sombra escura parada à porta do quarto. Eram Tio Helvécio e mamãe.

O que aconteceu em seguida foi surreal: vi minha mãe voar sobre tia Samira, arrancando-a da cama pelos cabelos e arrastando-a até o corredor:

-Sua vagabunda! Pedro sempre teve razão, você não passa de uma invejosa, sempre tentou nos colocar um contra o outro! Traidora! 

Tio Helvécio, constrangido e com os olhos muito vermelhos, pegou os filhos, que a tudo observavam, e saiu da casa. 

Mamãe deu um tapa no rosto de Tia Samira, que ajoelhada no chão, caiu deitada. Tia Samira não reagiu. Mamãe sussurrou:

- Saia daqui. Pegue suas coisas e nunca mais se atreva a voltar a esta casa. Eu vou para o meu quarto, e quando eu voltar, não quero mais te ver aqui. E nem pense em ir ao velório dele. Se eu vir você lá, te dou outra surra na frente de todo mundo, para que todos saibam a vagabunda que você é.

Dizendo aquilo, mamãe entrou no quarto, fechando a porta. Sara ainda dormia. Eu estava sozinha com Tia Samira. Estava tão chocada, que não sabia o que dizer ou como agir. Devagar, Tia Samira ergueu-se do chão, e vi que um fio de sangue escorria de sua boca. Tentei ajudá-la a se levantar, dizendo:

-Tia, você está sangrando!

Ela concordou com a cabeça:

-Sim, querida, eu estou sangrando... eu estou sangrando de verdade...

E me olhando, ela se ajoelhou na minha frente, acariciando meus cabelos. Tentou sorrir. Os cabelos dela eram como nuvens escuras emoldurando uma tempestade. Ela caminhou até a porta. Abriu-a e saiu. Segundos depois, eu ouvi a porta do carro batendo, e o carro se afastando devagar da casa. 

Durante muitos anos, eu nunca mais veria meus tios e primos. Mamãe não nos dava muitas explicações, mas eu não era tola, e sabia que nunca mais as coisas seriam as mesmas entre nós e nossos tios e primos. Já Sara parecia viver em seu mundinho à parte, como se nada tivesse acontecido. Ouvi mamãe conversando com a psicóloga, que dizia ser normal para uma criança reagir daquele jeito a um grande trauma, mas que com o tempo, tudo mudaria e ela poderia finalmente expressar a sua dor.


(CONTINUA...)





sexta-feira, 25 de junho de 2021

AS ESTRELAS QUE EU CONTEI - CAPÍTULO 4


Capítulo 4


E o que era destino? Na manhã seguinte, enquanto todos ainda dormiam (meus tios e primos já tinham ido embora e ainda era cedo demais para me aprontar para a escola), eu fui até a sala e, subindo em uma cadeira, alcancei o dicionário de meu pai. A professora já nos tinha ensinado sobre ordem alfabética, mas levei algum tempo para encontrar a palavra que eu queria: destino. Li a definição:

 “DESTINO: poder superior à vontade do homem que se supõe fixar de maneira irrevogável o curso dos acontecimentos; fatalidade

2. sucessão de factos que constituem a vida de alguém e que se crê serem independentes da sua vontade; fado

3. fim para que se reserva alguma coisa; uso; emprego; aplicação

4. lugar a que se dirige alguém ou alguma coisa; rumo; direção.”

Não entendi muito bem, nem mesmo após ler várias vezes, e então, decidi procurar ‘fatalidade’:

“Acontecimento que não se pode evitar, adiar ou alterar. Acontecimento com consequências graves ou trágicas; desgraça.”

Após ler aquela definição, meu coração deu um salto enorme dentro do peito: eu sabia muito bem o que significava ‘desgraça,’ pois eu a escutara antes, ao ouvir adultos comentando sobre um acidente fatal que ocorrera na cidade há alguns meses. Eu entendi: minha vó temia uma desgraça na vida de nossa mãe.

O peso daquela palavra me oprimia: desgraça. Coisas ruins, acontecimentos inesperados, insuportáveis, tristes, conforme minha professora me explicara, reforçando o que eu tinha compreendido. É claro que ela depois me perguntou o porquê de eu desejar saber o significado daquela palavra, e eu menti, dizendo tê-la escutado em um filme na TV. 

Passei algumas noites sem dormir direito. Eu temia dormir e sonhar novamente com vovó. Eu não queria mais saber dela. Nada contei aos meus pais ou a Sara, pois não desejava preocupá-los. Na escola, minha atenção tornou-se dispersa, e logo minha professora mandou bilhetes para minha mãe, chamando-a para uma conversa. E mamãe foi ter com ela, e depois me chamou para uma conversa séria enquanto minha irmã tomava banho. Ela acariciou meus cabelos, me pegando no colo e me abraçando. Estávamos sentadas no sofá da sala. Ela murmurou:

-Você cresceu tão rápido, filha...

Eu escutava a voz dela soando dentro de mim, a cabeça encostada em seu peito. Eu a ouvia respirar vagarosamente, e as batidas do coração uma após a outra. Me lembro de que quando ela me segurava daquele jeito, eu ficava morrendo de medo de que as batidas do coração dela parassem, pois a professora nos tinha ensinado que quando as pessoas e animais morriam, o coração deles deixava de bater. Estar tão próxima à minha mãe que eu podia ouvir as batidas do seu coração me deixava, ao mesmo tempo, tranquila e angustiada. Eu não sabia o que era morrer. Só sabia que quem morria não era mais visto. Estava perdido para sempre, como vovó, e que talvez pudessem ser vistos em sonhos estranhos, mas que na manhã seguinte, teriam ido embora.

Ela ergueu meu rosto, sentando-me no sofá ao lado dela, circundando com o dedo as minhas olheiras: 

- O que a está deixando angustiada, Chiara? Por que você anda tão calada, e por que não consegue dormir bem?

Eu baixei os olhos, sem saber o que dizer, enquanto as lágrimas caiam, independentes da minha vontade. Minha garganta apertada doía enquanto eu tentava segurar o choro, até que de repente, ele explodiu em soluços altos e sofridos. Mamãe parecia apavorada, a boca entreaberta, tentando me acalmar:

-Calma, filha! Me conte tudo. Calma... não chore... eu estou aqui, eu estarei sempre aqui com você.

Ela me abraçou de novo, me embalando, até que eu me acalmei. Então ela secou o que restava de lágrimas no meu rosto com aponta da sua bata indiana:

- Agora respire fundo... isso, mais uma vez... e mais outra... calma... me conte o que a está deixando assim.

- É que... eu não quero mais sonhar com a vovó. Então eu não quero dormir. Ela fica falando umas coisas estranhas, ruins... fala que eu preciso ser forte. Fala em desgraça. Eu não quero escutar mais.

Minha mãe arregalou os olhos:

-Mas... como assim, filha, que desgraça seria essa?

- Eu não sei! Eu só queria que ela parasse, mamãe.

Comecei a chorar novamente, e ela não sabia o que fazer ou como agir. Era desconcertante estar diante de um adulto que não sabia como lidar com uma criança. Ela tentava me abraçar, mas eu chorava mais ainda; então ela foi até a cozinha e me trouxe um copo com água e açúcar, me fazendo tomar até a metade, embora eu não estivesse com sede. Me acalmei. Naquele momento, Sara gritou do banheiro:

-Mããe! Terminei o banho! Quero uma toalha!

Mamãe gritou de volta:

-Já vou, Sara. Espere um pouquinho.

E olhando para mim:

- Escute bem, filha: não existe nada de desgraça, e quem está falando sou eu: sua mãe. A sua avó é só um sonho, alguém que não existe mais. Ela morreu. Ela se foi. Eu e seu pai e Sara estamos aqui. Não se preocupe com nada, eu vou levar você a um médico e ele vai receitar alguma coisa para ajudar você a dormir.

-Eu não quero dormir! Se eu durmo, ela aparece!

- Então vamos fazer uma coisa: eu vou falar com ela agora: - ela ergueu a voz: - Mamãe! Aqui é Vanessa, sua filha! Você está assustando a Chiara! Pare de dizer tantas bobagens para ela, me ouviu? Senão, eu vou colocar algumas pedras bem pesadas sobre o seu túmulo para você não sair nunca mais dele...

Ela disse aquilo e olhou para mim, e ambas começamos a rir. Sara chamou:

-Mamãe! Meus dedos estão ficando enrugados!

Nós rimos mais ainda, e mamãe foi andando até o banheiro, berrando:

-Eu já estou indo!

Sei que, depois daquilo, ela falou com papai a respeito. Eles conversavam à noite, depois que nós tínhamos ido dormir, e eu podia escutar as vozes deles murmurando entre as batidas do relógio de parede do corredor. Um dia, ela começou a pingar algumas gotas em um copo d’água e me fazer beber antes de dormir. Dizia que eram para que eu crescesse forte e saudável. Ela também dava as tais gotinhas à Sara. Às vezes, ela mesma as tomava. Depois das tais gotinhas, eu não tive mais problemas para dormir, e de manhã, não me lembrava de nenhum sonho. Minha vida voltou ao normal, e aos poucos, fui me esquecendo de vovó. As crianças geralmente esquecem-se com facilidade daquilo que elas fazem questão de não lembrar.

A vida corria normalmente, e as férias de final de ano chegaram. Uma tarde, eu, mamãe e Sara estávamos assistindo desenhos na TV quando ouvimos um motor de carro parando na entrada da casa e uma buzina. Mamãe olhou pela janela:

- Pedro! O que?... de quem?...

Nós nos juntamos a ela à janela: papai estava em um carro azul, de teto creme. Papai, todo sorridente, ficava ainda mais bonito dentro dele: ele convidou:

- Quem quer dar uma volta?

Nós três fomos até a calçada, e vimos os vizinhos curiosos nos olhando, enquanto papai dava gargalhadas alegres, enlaçando mamãe pela cintura e fazendo-a girar. Depois ele nos ergueu, uma por vez, dando urros de alegria. Entramos no carro reluzente, e ele foi explicando:

-Comprei esse carro ontem. Adivinhem só: ganhei um aumento de salário e uma promoção! Sou gerente regional e não vou mais precisar viajar vendendo coisas! Quero dizer, só de vez em quando, não sempre... vou ficar muito mais tempo em casa com vocês, minhas bonecas! 

Mamãe dava urros de alegria enquanto nós, crianças, ajoelhadas no banco traseiro, víamos a paisagem que ficava para trás.  O carro era muito confortável, e parecíamos tropeçar em nuvens a cada vez que papai passava sobre uma protuberância na estrada. Depois, ele nos ensinou a dizer o nome do carro: Aerowillys. Fiquei repetindo aquele nome, deixando-o rolar sobre a minha língua enquanto a paisagem passava rapidamente pela minha janela. Eu acariciava o banco macio do carro, chegando perto do encosto para sentir o cheiro do couro. Nós nuca tínhamos possuído um carro antes – segundo meus pais, eles eram coisa de ente rica. Somente pessoas “abastadas”, como Tia Samira e Tio Helvécio, podiam ter carros.

E papai, que estava de férias do trabalho, ficou a semana toda em casa conosco, nos levando para passear em vários lugares. Até concordou quando mamãe pediu a ele que nos levasse para visitar Tia Samira. Quando ela nos ouviu parando em frente à sua casa, meu pai buzinando freneticamente, ela veio correndo. Nós acenamos para ela de dentro do carro, e papai saiu, dando a volta para abrir a porta para mamãe. De mãos dadas, os dois foram em direção de tia Samira, que não parecia muito feliz, as sobrancelhas mais arqueadas que de costume. Enquanto isso, Joana e Décio entraram no banco de trás e se sentaram conosco, olhando o carro por dentro. Eles diziam coisas como “Uau!” “Lindo!” e enquanto eles e minha irmã conversavam eu tentava prestar atenção ao que estava acontecendo lá fora.

Tia Samira dizia:

- Nem sequer faz uma reforma decente na casa, e compra um carro desses! Que falta de juízo!

Meu pai parecia querer bater nela, de tanta raiva, e olhava para mamãe, gritando: 

- Eu não avisei que seria um aborrecimento vir até aqui? Ela é uma invejosa, eu vivo dizendo isso e você não acredita, Vanessa! Vamos embora agora!

Mamãe também parecia um tanto zangada, e seguiu papai até o carro, olhando para tia Samira com uma expressão magoada. Tia Samira ficou à porta da casa, olhando-nos, enquanto papai entrava no carro e mandava nossos primos saírem. Ele deu partida no carro e fez uma curva fechada, derrubando de propósito um boneco de ferro que enfeitava o portão de Tia Samira. Ainda pude ouvir os gritos dela: “Cuidado, seu louco, olha só o que você fez!”

Depois daquele dia, ficamos bastante tempo sem ter notícias de Tia Samira, até que em um dia de domingo, tio Helvécio apareceu lá em casa. Mamãe estava tomando banho, e papai o deixou entrar, dizendo:

-Você e as crianças são sempre bem-vindos, Helvécio, mas já estou cheio de Samira se metendo nas nossas vidas. 

-Mas eu vim justamente por causa dela. Ela quer se desculpar, Pedro. Se arrependeu do que disse. Samira se preocupa demais com a irmã e os sobrinhos, você sabe, ela é muito dominadora, mas é uma ótima pessoa e faz tudo por eles... aliás, ela sempre faz tudo por todo mundo.

Meu pai respirou fundo antes de responder:

-Sinceramente, Helvécio, não sei como você a aguenta. Samira sempre trata você tão mal! Ela vive cortando a sua fala, interrompendo suas ideias e dando ordens em você. Você é um cara muito legal, um sujeito bacana, rico, dá a ela tudo do bom e do melhor. Ela deveria tratar você com mais respeito.

Tio Helvécio arregalou os olhos, e em seguida baixou-os, olhando para a ponta dos sapatos, e até nós, crianças, sentimos pena dele. Imediatamente, meu pai percebeu o quanto o deixara magoado, e se corrigiu:

-Desculpe, eu não... eu não queria...

Mas Tio Helvécio o interrompeu:

-Você está certo, amigo, mas é o jeito dela. Samira é assim. Mas eu tenho certeza de que ela é uma boa pessoa, uma mulher de caráter.

Papai concordou com ele, balançando a cabeça freneticamente:

-Claro, claro, claro, eu nunca disse o contrário... desculpe. Além disso, eu não tenho nada a ver com a vida de vocês. Bem... se ela realmente sente muito e se estiver tudo bem para a Vanessa, por mim... ela pode voltar aqui.

Naquele momento, mamãe entrou na sala, os cabelos ruivos ainda molhados:

-É claro que ela pode. É minha irmã, meu único parente vivo. Nós somos uma família, e uma família tem lá seus desajustes.

E a partir daquele dia, Tia Samira voltou a frequentar a nossa casa – até tornou-se mais boazinha com papai durante um tempo, mas logo voltou a ser a Tia Samira de sempre, e estava tudo bem.

Aquele foi o melhor verão de nossas vidas: íamos de carro visitar as cidades vizinhas, e meus tios e primos iam conosco, no carro deles. Chegamos a nos hospedar por cinco dias em um hotel, onde havia uma grande piscina, quadra de esportes e área de lazer para crianças. Mamãe e tia Samira, bronzeadas, viravam todas as cabeças masculinas por onde passavam. Principalmente mamãe, com seus olhos de gata e cabelos ruivos. Já meu pai – forte, musculoso, bronzeado e de riso fácil – recebia olhares diretos de outras mulheres, o que ele às vezes retribuía com um sorriso discreto, o que causou alguns breves desentendimentos com mamãe, que incentivada por tia Samira, ardia em ciúmes. Já tio Helvécio, sempre discreto e apagado, estava sempre conosco, mas mantinha-se neutro. 

Nunca mais me esquecerei daquele verão maravilhoso que vivemos, todos juntos, e da noite em que meu pai pegou um violão emprestado de alguém no hotel (eu nem sabia que ele tocava) e dedilhando-o, cantou uma canção romântica, dedicando-a à mamãe. As outras mulheres pararam para ouvi-lo, e percebi que papai poderia ter se tornado um cantor de sucesso, se quisesse. Durante a pequena apresentação à beira da piscina, enquanto o sol se punha, pude notar que Tia Samira mantinha os olhos presos em papai o tempo todo. Várias vezes, ela engoliu em seco e levou a mão discretamente ao canto dos olhos. Eu era apenas uma criança, mas sabia o que significavam aqueles olhares, aquelas lágrimas furtivas.

Tive muita pena de meu tio. Em um impulso, fui até ele, que estava sentado em uma cadeira de piscina, e enlacei seu pescoço por trás. Surpreso, ele me olhou e acariciou meus cabelos. Notei o quanto ele parecia triste. Meu tio não era um homem feio, mas estava longe de igualar-se ao meu pai, tanto em aparência quanto em magnetismo.

Quando estamos vivendo certos momentos da vida, nós nunca sabemos, ao certo, quanto tempo eles vão durar, ou quando se tornarão apenas lembranças dolorosas de dias que jamais voltarão. Eu era uma criança, e nem pensava nessas coisas. Sentia-me segura ao lado de minha família, apesar das pequenas brigas e crises de ciúmes, invejas escondidas e indiretas mais do que diretas. Nós éramos felizes, e nos amávamos. Nós protegeríamos uns aos outros para sempre, e até mesmo papai protegeria Tia Samira se fosse necessário. Eu me sentia totalmente segura, com todas as possibilidades que a vida tinha para me oferecer a felicidade. Nem passava pela minha cabeça que meu pai era um homem muito sonhador, e que talvez essa característica pudesse ser um aspecto negativo em nossas vidas, como tia Samira vivia repetindo para mamãe. Pois eu confiava no amor dele por nós.

Eu às vezes me pegava imaginando meus pais idosos, e que eu tomaria conta deles. Pensava no meu primeiro namorado, na minha formatura, na minha festa de quinze anos, no meu casamento. Eu também conversava muito com Sara sobre o que seríamos quando crescêssemos. Ela queria ser professora, e eu, escritora. Sonhar era tão fácil! Não havia nenhum impedimento para que nós sonhássemos tão alto quanto queríamos. Papai ia muito bem no trabalho, e nossa vida tinha melhorado muito. Ele estava começando a guardar dinheiro para o nosso futuro, como ele mesmo dizia: o futuro das suas meninas. Nossos estudos e sonhos.


 (CONTINUA...)


terça-feira, 22 de junho de 2021

AS ESTRELAS QUE EU CONTEI - Capítulo 3


 Capítulo 3

Lá pelos meus oito anos de idade, quase um ano após minhas estranhas visões com a vovó e as fadas pararem, eu comecei a ter sonhos igualmente estranhos. No primeiro deles, eu me vi andando em um caminho de terra entre árvores altas, e uma nesga de céu muito azul incidia sobre a estrada de terra. Eu não sabia como tinha ido parar ali, naquele lugar improvável, onde tudo era tão real e as cores eram tão diferentes do que eu estava acostumada a ver.  

De repente, vindo ao meu encontro, uma silhueta feminina se desenhou ao longe. Aos poucos, a mulher que se sentava sob a nossa árvore no quintal – minha avó se fez conhecer, sorrindo para mim. Quando ela chegou bem na minha frente, parou e me estendeu a mão, que eu segurei, dizendo:

-Eu sei quem você é. É a minha avó Dora.

-Isso mesmo, minha querida, sou sim. Já nos conhecemos. Está tudo bem com você?

- Tudo... mas você não falava antes.

Ela sorriu:

-Verdade. Mas aqui nós podemos conversar, lá não podíamos. 

Subitamente me lembrei de que aquela mulher que estava falando comigo e eu não pertencíamos ao mesmo mundo, e com a voz trêmula, indaguei: 

-Você... está morta?

Ela ficou séria de repente, e me olhando nos olhos, perguntou-me:

-Pareço morta para você?

Neguei com a cabeça.

-Então eu não estou. Quero que você sempre se lembre bem disso: ninguém está morto de verdade.

As últimas palavras dela se perderam em um eco dentro da minha cabeça enquanto eu abria os olhos para o meu quarto. Eu sabia o que eram os sonhos, e sempre que eu tinha algum sonho ruim e corria para a cama dos meus pais, mamãe afirmava, como qualquer mãe faria, que tudo era fruto da minha imaginação, e que nada daquilo que eu via enquanto eu dormia era real. Mas eu sabia, de alguma forma, que daquela vez não tinha sido apenas um sonho. Eram reais o cheiro das árvores, o céu, as cores, o chão de terra batido sob os meus pés nus, as rugas no rosto daquela que era minha avó e que eu nunca conhecera em vida.  Assim, naquela manhã de domingo, eu me sentei para o café da manhã na nossa mesa da cozinha totalmente absorta em meus pensamentos. Papai estava em casa naquele dia. Todos estavam comendo e conversando alegremente, mas eu não comia nem participava da conversa, até que mamãe me perguntou:

-Que bicho mordeu você, Chiara?

Eu olhei para ela, a boca entreaberta, tentando encontrar as palavras para dizer o que tinha acontecido, quando elas brotaram da minha garganta da seguinte forma:

-Mamãe, me conte sobre a vovó?

Ela e papai se entreolharam. Somente Sara não tinha percebido que o rumo da conversa estava mudando, e distraída, brincava com sua bonequinha, fazendo-a caminhar sobre a mesa.

Mamãe gaguejou:

-Por que você quer saber, filha? Que pergunta é essa, agora?

-Não sei... é que... de repente, me deu vontade de saber a história dela.

Papai brincou:

-Pretende escrever sobre ela em seu caderno de histórias?

Achei a justificativa bem plausível, e afirmei com a cabeça:

-Hum-hum! Mas para isso, tenho que saber sobre ela.

Papai olhou para mamãe, o semblante sério e preocupado, e eu não sabia por que uma pergunta tão simples e direta causara tanto constrangimento. Mamãe pigarreou, e tentou disfarçar, colocando mais um biscoito no prato de Sara, mas eu insisti:

-Vai me falar sobre ela ou não?

Papai interferiu:

- Bem, Vanessa, não acha que a menina tem o direito de saber quem foi a avó dela?

O tom dele era um pouco irônico, e mamãe o fuzilou com os olhos, mas me olhando, respondeu:

-Bem... acho que... não tem problema falar sobre minha mãe para você, afinal, ela era sua avó. Bem, o nome dela era Dora. Ela só teve duas filhas, ficou doente e morreu aos setenta e cinco anos. Isso é tudo.

Bati na mesa:

-E não aconteceu nada no meio? 

-Aconteceu sim, aconteceram... muitas coisas, mas eu não me lembro de tudo e não é bom ficar falando sobre quem já morreu. Atrai assombração.

Papai arregalou os olhos, e Sara finalmente começou a prestar atenção à conversa, enquanto papai ralhou com mamãe:

-Vanessa! Quer assustar as crianças? Ficou doida, é?

Mamãe levantou e começou a fazer o trajeto entre a mesa e a pia, retirando as xícaras sujas e desfazendo a mesa do café, os cabelos vermelhos dela soltos, dançando com o vento que entrava pela janela, os lindos olhos verdes arregalados:

-Não falo desse tipo de assombração, daquele tipo que eu já disse que não existe, mas um outro tipo, daquele que só fica dentro da cabeça da gente, criando minhocas. Entendeu? (Ela levou o indicador à testa, fazendo um movimento giratório para ‘maluco’). 

E a conversa acabou ali, com mamãe dizendo que nós íamos nadar no riacho antes do almoço (havia um riacho a poucos metros de nossa casa, uma pequena queda d’água onde alguns vizinhos se reuniam aos domingos). Aquilo foi o suficiente para me fazer esquecer de minha avó, e eu e Sara fomos procurar nossos biquinis. 

Porém, dias depois, o sonho com minha avó teve uma continuação:

Eu caminhava pela mesma estradinha de terra batida e já sabia exatamente o que aconteceria, que eu iria vê-la outra vez. De novo, ela parou bem diante de mim. Perguntei:

-Por que você está me trazendo aqui, vovó?

Ela se ajoelhou, para ficar da minha altura. Acariciou uma mecha do meu cabelo, afastando-a do meu rosto e colocando-a por trás da minha orelha (eu detestava quando os adultos faziam aquilo, mas fiquei quieta):

-Eu estou aqui porque eu queria conhecer você. E também porque... eu preciso te dar uma mensagem. A mensagem é a seguinte: você vai precisar ser uma garotinha muito, muito forte. E quando estiver triste, lembre-se sempre de ter me visto aqui, e que ninguém morre de verdade.

-Não entendo... 

-Não é agora que você precisa entender, Chiara. Mas no momento certo. Você e sua irmã são muito especiais.

Novamente, eu acordei em meu quarto, com os gatos ronronando sobre minhas cobertas.

Mais tarde, eu ouviria meu pai e minha mãe brigando novamente na cozinha. Aquilo acordou Sara, que pulou para minha cama, abraçando-se a mim. Tentei consolá-la:

-Não se preocupe, Sara, você sabe que eles brigam sempre, mas se adoram.

Ela choramingou:

-Não é isso...

-O que é então?

-É que eu tive um sonho estranho.

E então ela me contou um sonho muito parecido com o que eu acabara de ter.

Nós duas sabíamos que não adiantava contar nada a mamãe; ela tentaria mudar de assunto, ou acabaria nos dando uma bronca, caso insistíssemos. Juntas, chegamos à seguinte conclusão: iríamos perguntar sobre vovó à Tia Samira. 

E foi o que fizemos no final de semana seguinte, quando ela veio nos visitar com tio Helvécio e as crianças. Depois do almoço, tratamos de chamá-la para um canto do jardim longe da casa, enquanto mamãe ia tomar banho e papai e tio Helvécio assistiam a um jogo de futebol na TV. Eu e sara estivéramos ansiosas o dia todo por aquele momento. Os primos estavam em nosso quarto, brincando com um jogo de varetas que eu e Sara ganháramos de papai, portanto ninguém nos interromperia. Pegamos tia Samira pela mão e a levamos até o banquinho sob o pé de goiaba. Ela se sentou, disparando:

-Então, que mistério é esse?

Sara me cortou a fala:

-A gente quer... falar com você. Queremos perguntar uma coisa. Mas tem que ser rapidinho, antes de mamãe sair do banho, ela não pode saber.

Minha tia riu, franzindo as sobrancelhas, e eu continuei:

- Nós estamos sonhando muito com a vovó. Ela vem conversar com a gente. Queríamos saber mais sobre ela.

Tia Samira empalideceu. Balbuciou:

-Já perguntaram à mãe de vocês?

-Já, mas ela não fala nada! Era nossa avó, temos o direito de saber.

Minha tia riu diante da minha fala, acariciando meu queixo angustiado.

- Bem... não sei se devo desobedecer a mãe de vocês. Eu tenho uma ideia: se vocês sonham sempre com ela, por que não perguntam a ela?

Nós duas nos olhamos, frustradas. Sara choramingou:

- Porque não dá tempo. É tudo tão rápido, tia! A gente até se esquece.

Minha tia acariciou a cabeça de Sarah, traçando com os dedos o curso dos seus cabelos até a cintura. Finalmente, ela concordou:

- Ok. Vou falar sobre a avó de vocês. O nome dela era Dora.

- Isso a gente já sabe, - disse Sara. – Queremos saber coisas mais interessantes. Do que ela gostava? Ela era boa? Ela ...

Minha tia a interrompeu:

-Calma, calma! Vamos fazer o seguinte: eu falo e vocês escutam, está bem?

Dizendo aquilo, ela nos puxou para nos sentarmos ao lado dela.

-Bem... minha mãe – avó de vocês - era uma mulher muito forte e determinada.

Interrompi:

-O que é determinada?

- É quando uma pessoa sabe exatamente o que quer fazer, e faz o que quer.

-Então ela era igual à mamãe.

Ela concordou com a cabeça, após pensar um pouco. Tia Samira continuou, os olhos dela se revezando entre as nuvens rosadas do final da tarde e os nossos rostos ansiosos.

- Mamãe também era bastante mandona... às vezes era complicado, até para o avô de vocês, conviver com ela. Mas era uma ótima pessoa, sempre pensando no bem de todo mundo, querendo resolver todos os problemas. 

- Do que ela morreu? – perguntou Sara.

- Ela ficou muito doente, por muito tempo. Foi logo depois que sua mãe e seu pai se casaram. Naqueles tempos, sua mãe estava grávida de você, Chiara. Sua avó morreu pouco antes de você nascer.

Eu tinha oito anos na época daquela conversa, e Sara, sete. Contei nos dedos: oito anos eram toda a minha vida, e parecia um longo, longo tempo. De repente, me ocorreu uma pergunta:

-A vovó estava zangada com a mamãe quando morreu?

Minha tia arregalou os olhos:

-Por que você pergunta isso?

-Porque ela nunca fala da vovó pra gente. Nem quando a gente pergunta. Um dia ela levou a gente lá no cemitério e falou que a vovó estava enterrada ali, mas ela nem chorou, só colocou umas flores e então nós fomos embora. Por que ela está zangada com a vovó?

Minha tia, sem saber o que dizer, olhou no reloginho de pulso:

-Está ficando tarde! Vamos entrar porque daqui a pouco seremos devoradas pelos mosquitos.

Sara insistiu:

-Mas tia, a senhora ainda não nos contou tudo sobre a vovó!

Minha tia engoliu em seco, e tentou sorrir, já se levantando do banco e nos puxando pela mão em direção à casa:

-Vamos entrar. Outro dia eu conto mais. Além disso, daqui a pouco Vanessa vai ficar desconfiada da nossa ausência. Não digam a ela que eu falei sobre a avó de vocês, ou ela vai ficar uma fera... vamos indo, está escurecendo.

E foi tudo o que ela nos contou. Mas com toda certeza, de alguma maneira minha mãe ficou sabendo da nossa conversa. Eu acho que foi papai quem contou, pois quando estávamos chegando na casa, nós o vimos caminhando na nossa frente. Acho que ele escutou parte da nossa conversa. Ele não disse nada, apenas ficou muito calado e pensativo, fuzilando minha tia com os olhos a noite toda. Na manhã seguinte, domingo, a bomba explodiu, e foi no café da manhã, quando estávamos todos reunidos na cozinha. Tia Samira e Tio Helvécio tomavam seu café calmamente, e nós, crianças, já brincávamos do lado de fora, quando ouvimos os gritos de mamãe, que entrou na cozinha feito um furacão:

- Você é minha irmã, mas eu não te dou o direito de interferir na educação das meninas. Sou muito grata a você, Samira, e a você, Helvécio, mas eu não quero saber de interferências. Tem certas coisas que eu não quero contar agora e pronto!

Nós, crianças, nos entreolhamos; já sabíamos o que deveríamos fazer: nos aproximamos da janela da cozinha e nos sentamos debaixo dela, de onde poderíamos escutar toda a conversa. Joana e Décio tiveram um pequeno desentendimento em uma disputa sobre o melhor lugar para se sentarem, e eu os silenciei com um ‘sshh...’ zangado. Tia Samira respondeu:

-Desculpe, Vanessa, não quis interferir... é que elas me pegaram de surpresa e eu não sabia o que dizer.

Naquele momento, escutamos uma risada sarcástica de papai:

-Você, sem saber o que dizer, Samira? Você sempre tem o que dizer, mesmo quando nada lhe diz respeito.

Tio Helvécio tentou apaziguar a situação:

-Calma, pessoal, as crianças vão ouvir! Não briguem, discutir nunca é a melhor solução. Samira fez apenas o que achou melhor, e já pediu desculpas.

Tia Samira ralhou com ele:

-Não precisa me defender, Helvécio, isso é assunto de família.

Ela sempre fazia aquilo:  toda vez que tio Helvécio tentava dar uma opinião em questões familiares, ela fazia questão de lembrá-lo do quanto ele era ‘de fora.’  Mas ela nunca dizia nada daquilo em relação a papai, mesmo não gostando dele. Apesar de ser bem criança naqueles tempos, eu ficava com muita pena de Tio Helvécio, pois percebia que ele se sentia muito magoado, apesar de nunca tentar se defender ou responder. Minha mãe disse, já mais calma, referindo-se à irmã e ao cunhado:

- Vocês sabem o quanto mamãe foi contra meu casamento com Pedro. Sabem que tive que cortar relações com ela, e que por causa disso, ela nunca sequer nos visitava. Vivia dizendo que eu seria infeliz no casamento. Nem mesmo depois que adoeceu ela deixou que Pedro chegasse perto dela. Ela sequer conheceu as crianças. Por que trazer à tona coisas tão desagradáveis para elas?

Samira respondeu:

- Talvez porque elas vêm sonhando com ela quase todas as noites? Porque elas estão fazendo perguntas? Ou então... porque elas têm o direito de saber a verdade.

- Você não entende? Chiara tem apenas oito anos, e Sara, sete! São muito pequenas ainda.

- Mas então por que elas andam sonhando com a mamãe? Você sabe, eu sempre achei que elas... principalmente Chiara... são médiuns.

Mamãe ergueu novamente a voz:

-Eu não quero saber dessas coisas aqui, já bastava a mamãe. Vivia falando em espíritos, fantasmas e coisas do gênero. Crescemos assombradas pelas crenças dela. Minhas filhas são crianças normais.

-Sim, tão normais, que Chiara enxergava fadas no jardim.

Papai riu novamente:

-Ora, crianças têm imaginação. Deve ser por causa dos livros que a professora lê para elas na escola.

-É? – disse Tia Samira - Então por que as minhas crianças nunca viram nada disso?

Fez-se um silêncio mortal, e nós só escutamos cadeiras sendo arrastadas – eles estavam se sentando novamente; o pior da tempestade já havia passado. Nós crianças nos entreolhamos e decidimos que não haveria mais nada de interessante a ser ouvido, e pé ante pé, nos afastamos da janela, curvados, para não sermos vistos.

Então, naquele dia, ao ouvir a conversa, ficamos sabendo de parte da história: vovó não queria que nossos pais se casassem, e por isso, afastou-se de mamãe e de nós todos. Ela achava que meus pais não seriam felizes. E eu pensei, por um momento, após me lembrar de ter escutado tantas brigas dos dois, que talvez ela tivesse razão. Mas quando minha mãe e meu pai se olhavam, dava para sentir o quanto eles se amavam. A relação deles era apaixonada e tumultuada, feita de altos e baixos – mais baixos do que altos, ok, mas eles se amavam, e quanto a isso, não havia dúvidas.

A fim de não causar mais brigas de família, achei melhor seguir a sugestão de tia Samira e perguntar à vovó as coisas que eu desejava saber. Assim eu fiz, na próxima vez que eu a vi em um sonho, e ela me disse:

- Eu só queria tentar fazer com que sua mãe não fosse infeliz. Queria poder ter evitado o que está para acontecer. Só isso. Eu errei: não se pode ir contra o destino.


 (continua...)





AS ESTRELAS QUE CONTEI - CAPÍTULO 8

 Capítulo 8 Quando batemos à porta da casa de tia Samira, cerca de quinze dias depois do nosso encontro, era uma fria tarde de junho, e está...