segunda-feira, 18 de junho de 2018

O Lar de Ofélia - Parte IV










A manhã silenciosa deixou-a nervosa. Havia uma névoa cobrindo tudo, as montanhas ao longe, os topos das árvores do jardim. Enquanto caminhava pela casa, tentando sentir as energias que, cada vez mais, se conectavam com ela, Ofélia pensava nos últimos acontecimentos. Achava que poeria estar ficando louca. Afinal, não era nada normal que o sangue de uma pessoa fizesse parte de um jardim seco e morto crescer diante dos olhos de repente. mas quando Ofélia olhava da janela, via que parte do jardim, a que estava |à direita da casa, onde ela se ferira no dia anterior, estava linda e viçosa, enquanto a parte esquerda continuava um amontoado de plantas ressequidas e feias. 

Ela olhou para a própria mão, e teve um impulso: levou o dedo indicador aos lábios, apertando um pedaço de pele entre os dentes até sangrar. Precisava tirar a prova daquilo tudo. A dor aguda e o gosto metálico fizeram com que Ofélia soltasse um gemido. E enquanto o sangue escorria da ponta de seu dedo (ela mordera a parte lateral junto à unha), Ofélia esticou a mão para fora da janela e deixou o sangue cair sobre o solo lá fora. Parecia uma cena de filme: assim que a primeira gota tocou o chão, uma onda verdejante começou a surgir a partir dela. Boquiaberta e sentindo algo entre maravilhada, fascinada e apavorada, Ofélia deixou escapar um pequeno grito de surpresa. Logo, ela viu camélias se abrindo em pequenas e moles nuvens brancas sobre o verde escuro das folhas; a grama cresceu e aveludou-se. As árvores tornaram-se frondosas, suas folhas farfalhando à brisa da manhã.

Acidentalmente, ela tocou o parapeito da janela com  a mão ferida, ainda sangrando. A tinta, rachada e desbotada, refez-se imediatamente, voltando à cor original - molduras azul-claras e caixas cor de creme. Extasiada, ela espremeu o dedo e foi de cômodo em cômodo, tocando janelas e portas, que imediatamente assumiram aparência de novas. Quando o dedo parou de sangrar, ela pegou dentro da bolsa um alicate de unhas e, antes de fazer o que tinha em mente, respirou fundo, cortando-se. Desta vez, Ofélia fez um talho maior, no dedo médio, para que este sangrasse mais profusamente.

Ao final daquele dia, Ofélia tinha as mãos sujas de sangue e cheias de cortes - encontrara uma faca na cozinha. A casa estava quase toda renovada, através do sangue dela. 

Não tinha jeito: seu pai teria que vender a casa para ela. Ofélia sentia que não poderia mais separar-se dela - elas eram uma, unidas por alguma história fantástica que ela pretendia desvendar. Pensou em passar a noite na casa, mas achou melhor ir embora, a fim de não chamar atenção. 

Ela abriu o tablet, apagando as fotografias da casa que havia obtido no dia anterior e produzindo novas, já com a casa renovada. Mandou-as ao pai, atendendo ao pedido dele. 

Antes de deixar a casa, Ofélia parou no portão e olhou para ela, que parecia estar se comunicando com ela; ela pensou que se a casa pudesse falar, teria dito "Até amanhã."

Quando chegou em seu prédio, a expressão assustada do porteiro ao vê-la coberta de sangue a fez lembrar que se esquecera de lavar as mãos, e quando passou pelo espelho da recepção do prédio, notou que sua blusa branca estava também toda manchada de sangue. Ela a tocara sem perceber. Ofélia entrou no elevador, e enquanto a porta se fechava, acenou alegremente para o porteiro, que a seguira, o rosto espantado. Ainda teve tempo de dizer, antes da porta se fechar: "Não é nada, foi um corte no dedo." 

Já em seu apartamento, assim que entrou em casa e religou o celular, ele começou a pipocar mensagens do pai, querendo notícias dela. Ela respirou fundo, e enquanto se despia para tomar banho, ligou para ele, colocando o aparelho em viva-voz:

-Oi, Pai. Eu estava na casa, recebeu as fotos?

-Sim, mas... eu não entendo! O Sérgio, que foi ver a casa antes de fecharmos a compra, tinha me dito que ela estava em péssimo estado. As fotos que você me mandou mostram algo totalmente diferente!

-Ora, pai... eu disse que ela não estava tão ruim assim. 

-Mas... esta casa... tem certeza que é a mesma que o Sérgio foi ver?

-Claro. A não ser que ela tenha se "auto-reformado." 

Dizendo aquilo, ela deu uma gargalhada.

-Vai deixar eu ficar com a casa, pai? 

Ele demorou um pouco antes de responder:

-Conversaremos amanhã no escritório. Você vai trabalhar amanhã, não é?

-Claro que sim. Aliás, eu trabalhei hoje também, fiquei o dia todo na casa. Eu... pai, eu nunca pedi nada a você. Por favor, pense com carinho no meu pedido.

-Veremos.


(continua...)




terça-feira, 5 de junho de 2018

O Lar de Ofélia - Parte III







O Lar de Ofélia Parte III


Quando Ofélia deixou a casa, já estava bem escuro. Ela parou diante do portão antes de trancá-lo, e teve a impressão de que a casa olhava para ela, tanto quanto ela olhava para a casa. As últimas fotografias que tirara, que mostravam as mudanças repentinas no jardim, estavam no tablet. 

 Ao chegar em seu apartamento, telefonou imediatamente ao seu pai:

-Pai, estive na casa.

Ele parecia entretido com alguma outra coisa - ela conseguiu escutar o jogo de futebol ao qual ele assistia. Ele resmungou:

-Oi, filha. Podemos conversar sobre os detalhes amanhã?

Ofélia insistiu:

-Não! Quero falar hoje. Pai, quando a mamãe morreu, você me perguntou se eu queria a minha parte na herança dela, e eu disse que não. Mudei de ideia. Eu quero a minha parte agora. Amanhã, ou o mais cedo possível!

Do outro lado da linha, Rony - o pai de Ofélia - pegou o controle remoto e diminuiu o volume da TV, sentando-se ereto no sofá. Estava a costumado ao modo submisso de ser da filha, sempre cordata, sempre desinteressada em bens materiais, e aquela declaração o assustou.

-Mas... por que isso agora, Ofélia? O que a fez mudar de ideia? Não vá me dizer que está com problemas de saúde!

-Não, pai, eu estou ótima. Acho que nunca estive melhor. Mas...

Antes de prosseguir, ela parou e pensou quais pedaços daquela história valeriam a pena serem contados ao seu pai, e para que ele não mandasse que ela fosse interditada e posta em um manicômio, Ofélia achou melhor omitir certas partes dos acontecimentos daquele dia:

-Na verdade, eu estou apaixonada pela casa.

Enquanto dizia aquilo, ela sentia que não era bem assim; Ofélia sentia que havia uma conexão entre a casa e ela, mas não saberia definir, ao certo, se a casa lhe causava medo, pavor mesmo, curiosidade ou qualquer outro sentimento. Só sabia que 'paixão' não era bem a palavra certa, embora fosse adequada a fim de convencer o pai a vendê-la para ela. O pai soltou o ar de repente, como se tivesse levado um soco no estômago. Nunca tinha ouvido aquela expressão - 'apaixonada' -  saindo da boca de sua filha! Lembrou-se dos poucos namorados que ela tivera, e que nenhum deles durara; lembrou-se do cuidado e esmero com o qual ela cuidava da mãe, da expressão piedosa, mas inabalável, que ela mantinha enquanto a mãe gemia de dor em seus últimos momentos, e dos olhos secos durante o velório. Paixão não era, definitivamente, uma palavra que combinava com ela.

-Ora, Ofélia... você, apaixonada por um casarão velho caindo aos pedaços? Mande-me as fotos por e-mail!

-Na verdade... ela não está tão ruim assim... eu... tirei algumas fotos, mas ... elas não ficaram muito boas. Acho que o tablet está com defeito. Voltarei lá amanhã para tirar outras. Mas pai, eu nunca pedi nada a você. Nunca! Esta é a primeira vez. Me deixe ficar com a casa!

-Mas eu não entendo! Eu estaria, aliás, nós estaríamos perdendo um grande negócio! Após reformada, ela valerá uma fortuna!

Ela sentiu-se desanimada, e não respondeu. Será que o pai teria coragem de negar-lhe aquele pedido? Ele já era um homem rico e poderoso, e nada custaria vender-lhe  a casa. Não ficaria arruinado nem nada, e ainda receberia de volta o dinheiro que tinha pago por ela. Rony sentiu a decepção dela, e disse:

-Olha, filha, eu vou pensar e te dou a resposta amanhã, ok? Agora estou assistindo ao campeonato nacional. Meu time está jogando.

Naquele momento, uma bela mulher foi juntar-se a ele no sofá da sala, e ele fez sinal para que ela não fizesse barulho. Não queria que Ofélia soubesse ainda sobre sua nova namorada. A mulher seminua passou as pontas dos dedos sobre o abdômen dele, fazendo cócegas, provocando-o. Ele segurou a mão dela, e repetiu à filha antes de desligar:

-Nos falamos amanhã, filha Durma bem. 


No dia seguinte, após sua corrida matinal, Ofélia aprontou-se, e ao invés de ir ao escritório, dirigiu-se à casa. Deixou algumas mensagens para sua secretária sobre algumas tarefas e reuniões que queria adiar, dizendo que não iria ao trabalho naquele dia, e depois disso, desligou o celular. Não queria falar com mais ninguém naquele dia. Não queria interrupções enquanto ela fazia seu tour pela casa. 

Ao chegar na rua, viu Bruno, o menino que a ajudara a encontrar o caminho no dia anterior. Buzinou para ele., e continuou dirigindo, mas notou que ele a estava seguindo em sua bicicleta, então parou o carro, abrindo a janela para falar com ele:

-Olá, Bruno. Deseja alguma coisa?

Ele a cumprimentou sorrindo,  com um aceno de cabeça, sem descer da bike:


-Olá, Ofélia. Tudo bem lá na casa?

-Sim, tudo... obrigada por me ajudar a char o caminho ontem. Agora eu... preciso ir.

Ela viu que o garoto tinha os olhos presos no decote 'V' da blusa de malha que ela usava. Aquilo deixou-a constrangida, e fechando a janela, ela disse:

-Já vou indo. Até um dia.

Bruno ficou olhando o carro se afastar, e pensando no que faria se tivesse uma mulher daquela em sua cama. Pelo retrovisor, Ofélia viu-o fitando-a. Pensou  no quanto garotos têm a imaginação fértil e a libido nos píncaros, e acabou rindo sozinha. Imaginou quantos anos ele poderia ter: dezoito, quem sabe? Se estivesse certa, aquilo deixava-o nove anos mais jovem do que ela, que não tinha a manor inclinação para envolver-se com caras mais novos. Afastou aquele pensamento - e todos os outros - ao avistar a casa.

O portão de ferro abriu-se sozinho, e ela ficou boquiaberta, pensando no quanto a casa parecia adivinhar o que ela queria. Lembrou-se de ter trancado tudo antes de sair, na noite anterior. Após recuperar-se da surpresa, Ofélia dirigiu o carro novamente, entrando, enquanto o portão voltava a fechar-se atrás dela. 

(...continua...)




sexta-feira, 1 de junho de 2018

O Lar de Ofélia - Parte II






O |Lar de Ofélia - Parte II


Assim que entrou na casa e acendeu as luzes, Ofélia teve uma sensação de tontura. Apoiou-se nas costas de uma poltrona para não cair. Ao mesmo tempo, sua mente foi invadida por flashes de cenas e  pensamentos que pareciam lembranças, mas como poderiam ser, se ela não os tinha vivido?
Ofélia viu uma mulher na sacada da casa, brincando com uma criança. As duas olhavam para baixo, para o jardim, que era belo e cheio de flores, onde um homem em trajes antigos sorria e acenava para elas. Ofélia pôde ter o mesmo sentimento de alegria que as acometia, e viu com detalhes as plantas e passarinhos na jardineira da sacada como se estivessem diante de seus olhos. Mas de repente, a sua visão ficou turva, e tudo começou a girar como em um redemoinho, e a visão se desfez. 

Ofélia respirou fundo, recuperando-se da tontura e do efeito das visões. Olhou em volta: a casa realmente precisava de cuidados! As paredes eram velhas e descascadas, mas deixavam entrever delicadas pinturas de paisagens feita à mão, embora as cores estivessem desbotadas. A sala de estar ficava logo após o pequeno e estreito hall de entrada, onde se encontravam as pinturas. Havia poucos móveis, todos antigos e empoeirados. Ela pensou que precisaria examiná-los para ver se valeria a pena mandar reformá-los para usá-los na decoração da casa, mas faria aquilo mais tarde. O piso era de madeira, coberto por grossas camadas de sujeira. 

Mas apesar do abandono, havia alguma coisa na casa que a aterrorizava e fascinava ao mesmo tempo. Era como se a casa tentasse comunicar-se com ela. E ela  sentia como se estivesse voltando ao seu verdadeiro lar após muito, muito tempo. 

Examinou a cozinha, ampla e antiga. Parecia que tudo na casa era original, e que ela nunca tinha passado por uma reforma que a modificasse. Subiu as escadas e foi ver o andar superior. Ao entrar no quarto principal, que se encontrava vazio, ela caminhou devagar até a sacada e ficou estarrecida ao abrir as portas - que emperraram no começo, mas que logo cederam, como se a casa  desse a ela permissão: a sacada era exatamente igual àquela que vislumbrara durante a sua visão! 

Devagar, Ofélia chegou até ela, apoiando as mãos e olhando para baixo. A jardineira ainda existia, embora estivesse sem plantas. Ela viu o sol se aproximando do horizonte ao longe, e passarinhos que cantavam nas árvores próximas. Teve a exata sensação de já ter estado ali. Acariciou a amureta, e um leve choque percorreu seus dedos. Ofélia retirou a mão, e entrou na casa de repente, fechando a janela.  

Pegou seu tablet na bolsa e começou a tirar fotografias e fazer anotações. Queria começar logo a reforma. Ofélia foi de cômodo em cômodo, e sempre encontrava algum objeto que, antes que entrasse no cômodo, aparecia em sua mente. Chamou-lhe e atenção um velho abajur que estava sobre a cabeceira de uma cama de criança, coberta por uma colcha cor-de-rosa muito desbotada. Ela sentou-se sobre a cama. Deixou-se ficar ali, olhando o abajur, e visualizou uma mão infantil e uma pulseirinha de bolinhas miúdas de pérolas, que apagavam a lâmpada. Ouviu um nome ser sussurrado em seu ouvido: "Brenda."  

Ela assustou-se, e naquele momento, um sentimento de perda e tristeza apareceu com tanta força, que Ofélia teve vontade de chorar - e chorou. Foi quase como no dia em que perdeu sua mãe, só que bem mais forte. A morte da mãe fora, de certa forma,  um alívio para ela, pois além de terminar com os sofrimentos pelos quais a mãe passava, garantiu a sua liberdade. Mas aquela perda, aquela criança desconhecida...

Ofélia secou as lágrimas, achando tudo aquilo muito absurdo. Talvez estivesse ainda vivendo o luto pela morte da mãe; afinal, fora há apenas um ano e alguns meses. Caminhou até a porta do quarto, e olhou para dentro antes de fechá-la vagarosamente. 

Na sala de estar, examinou suas anotações antes de sair e trancar a casa. 

Começava a escurecer; o céu estava coalhado de fiapos de nuvens rosadas e alaranjadas. Ofélia desceu as escadas da varanda e deu a volta pela casa, circundando-a e examinando o jardim. Não tinha sobrado nada dele; teria que ser totalmente refeito. Tudo estava morto e seco. Não havia sequer uma folha de grama viva, ou uma única folha verde - a não ser pelas árvores antigas. Ela achou aquilo muito estranho, já que tinha chovido bastante nos últimos dias, mas encolheu os ombros, tirou mais algumas fotografias e guardou o tablet na bolsa. 

Foi quando notou uma pequena porta que levava ao porão, na lateral direita da casa. Forçou-a, e ela prontamente cedeu. Ofélia teve a impressão de que poderia abrir qualquer porta daquela casa, mesmo se não tivesse as chaves. A casa a acolhia. As paredes , portas e janelas se abriam à vontade dela. Experimentou sair e trancar a porta, procurando a chave no molho que o velho Alcides lhe dera; depois, sem destrancá-la, forçou a maçaneta, e a porta se abriu imediatamente. Boquiaberta, ela repetiu a operação várias vezes, obtendo o mesmo resultado. Da última vez, ao tentar certificar-se de que realmente tinha trancado bem a porta, Ofélia acabou ferindo o dedo na fechadura. Foi um corte pequeno, mas que começou a sangrar profusamente. 

Ofélia praguejou baixinho, enquanto olhava o sangue surgir do ferimento.

Ela abriu a bolsa com a outra mão para procurar um lenço de papel, e o sangue começou a pingar no chão. Ao encontrar a caixa de lenços e um band-aid, ela enrolou o dedo no papel, limpando o sangue, e colocou o curativo. Teria que lavar bem as mãos para evitar algum tipo de contaminação ou até mesmo tétano, mas ao ter aquele pensamento, escutou a mesma voz que dissera o nome da menina em sua cabeça, dizendo: "Não se preocupe com isso."  Ofélia guardou a caixa de lenços, olhando em volta: será que os meninos das bicicletas estavam tentando pregar-lhe uma peça?

Mas a voz que escutava não era masculina. Era uma voz diferente. Também não era uma voz feminina, não podia dizer com certeza. Escutou uma risada, como se alguém estivesse troçando dela. Olhou em volta, gritando:

-Quem está aí? Isso não tem graça nenhuma!

Apurou os ouvidos e escutou, mas não houve qualquer resposta. 

Ela abriu a porta do porão e olhou para dentro: queria dar uma olhada, mas estava muito escuro. Tateou em busca de um interruptor, mas ao encontrá-lo, nada aconteceu: a lâmpada deveria estar queimada. Virou-se para sair, mas de repente, a claridade às suas costas a fez virar-se: o porão estava iluminado. A luz havia acendido. 

Com o coração aos pulos, Ofélia começou a ficar realmente assustada. Mesmo assim, entrou no porão. O que ela encontrou fez com que soltasse uma exclamação de surpresa: encostada à parede, bem em frente à porta de entrada, havia uma pintura. Retratada nela, a mulher de sua visão, e a cena à sacada que ela vira. 

Ofélia aproximou-se, observando o quadro. Notou que ele tinha mais ou menos um metro de altura. Ela tocou a tela, sentindo a aspereza da tinta à óleo ressecada. Teve, imediatamente, novas visões: ela entrava ali, em uma outra época (uma outra vida?) e via um homem de costas, pintando exatamente aquele quadro. Ela estendia a mão para tocar as costas dele, e ele se virava para ela, o rosto sorridente, segurando o pincel. A visão daquele rosto fez com que Ofélia sentisse uma dor profunda, imensa. 

Ainda secando as lágrimas, ela saiu do porão. Ao tentar trancar a porta, a mesma trancou-se sozinha. 

Quando ergueu os olhos e olhou para o jardim à sua frente, Ofélia não teve palavras ou pensamentos para explicar o que via: a partir da pequena poça de sangue no chão, uma trilha verde começara a formar-se, expandindo-se para todos os cantos do jardim. Arbustos floridos e grama verde e saudável brotavam em todos os cantos; roseiras de todas as cores e tamanhos surgiam e floresciam, espalhando um maravilhoso perfume, e canteiros de margaridas, lírios e agapantos roxos cresciam em toda parte. 

Ofélia ficou parada no meio daquela beleza, tentando entender o que estava acontecendo. Estaria sonhando, ou tendo alucinações?


(continua...)



terça-feira, 29 de maio de 2018

O Lar de Ofélia





O Lar de Ofélia

Capítulo I

Desde o primeiro minuto em que avistou aquela casa velha de dois andares no final de uma rua sem saída, Ofélia sentiu uma forte conexão com ela. A firma de sua família, que comprava, reformava e vendia imóveis, tornara-os muito prósperos. Ofélia trabalhava com o pai na decoração das casas após reformadas. Tinha ido até lá a pedido do pai,  um rico corretor de imóveis que acabara de comprá-la, a fim de pegar as chaves com o antigo proprietário. 

O pai dissera tratar-se de uma casa cuja construção terminara em 1799, e as famílias que a herdaram mantiveram sua arquitetura original durante mais de duzentos anos - embora apenas algumas pessoas tivessem vivido na casa durante pouco tempo, o que a deixava intrigada. 

Ofélia tinha vinte e sete anos de idade, e passara os últimos seis anos de sua juventude cuidando da mãe doente. Não fizera amigos por isso. A mãe de Ofélia tinha sido uma mulher absorvente e dominadora, emocionalmente carente, que gostava de despertar culpa e piedade nos outros. Fora bem fácil para ela manipular a filha, recusando-se a aceitar cuidadores que pudessem acompanhá-la e cuidar dela em sua paralisia. Fez questão absoluta que a única filha cuidasse dela. Seu pai, um homem de negócios um tanto frio e emocionalmente distante, deixou que a esposa absorvesse a vida de Ofélia, pois para ele, aquilo era mais cômodo. 

Ofélia encontrou o endereço com um pouco de dificuldade, apesar do GPS, pois a rua não estava incluída no mapa. Era uma rua antiga, mas que mudara de nome recentemente. Ofélia foi parando o carro e pedindo informações aqui e ali. As últimas pessoas que a informaram eram um grupo de cinco garotos em suas bicicletas. Ela parou junto a eles, que conversavam perto da calçada, e baixou o vidro do carro:

-Olá, rapazes, tudo bem? Podem me dizer onde fica  Eternity Ville?

Eles se entreolharam antes que um deles, um menino que usava um boné laranja com a aba virada, respondesse:

- Tudo bem, mas... por que uma gata como você ia querer chegar a um lugar desses?

Ofélia riu, tentando ser paciente - tinha muitos assuntos a resolver naquele dia, e estava com pressa. Tentou usar um tom de voz casual:

-Trabalho na imobiliária que acaba de comprá-la para reformá-la e revendê-la.

Os garotos riram discretamente, baixando os olhos. O menino de boné laranja disse:

-Tudo bem... mas acho que fizeram um péssimo negócio! Ninguém vai querer comprar aquela velharia. Me siga, eu levo você lá.

Dizendo aquilo, o menino montou na bicicleta, e Ofélia o seguiu até o final daquela rua, que se tratava de uma rua residencial de classe média. Ela mal pôde ver a entrada reta à esquerda - a tal rua sem saída da qual o pai lhe falara - devido ao mato crescido em ambos os lados. Chegou a levar um pequeno susto quando o garoto virou a curva, parecendo ter entrado no matagal, mas ao virar a curva atrás dele, Ofélia viu que a rua continuava, uma passagem estreita, longa - mais ou menos um quilômetro de extensão -  e arborizada, de paralelos úmidos cobertos de musgo. 

Ao chegarem à casa, o menino parou sua bike com uma freada brusca, causando uma derrapagem que o deixou de frente para o carro. "Um exibidinho," ela pensou. Ofélia desceu do carro, e tapando o rosto com a mão por causa da luz de final de tarde, olhou para a casa antiga e envelhecida, que ficava bem no final da rua. Ela tinha sido construída no meio de um terreno que deveria ter sido ajardinado algum dia, mas que hoje era de terra e coberto de capim ressecado. Havia algumas árvores - salgueiros chorões e pinheiros . Ela ficou durante algum tempo olhando para a casa, fascinada, até que o menino chamou sua atenção.

-Bem, é isso aí.

Ofélia desviou os olhos da casa, como se despertasse de um transe, e estendeu a mão ao menino, agradecendo. Ele segurou a mão dela brevemente:

-Meu nome é Bruno. Precisando de alguma coisa, moro na terceira casa, a amarela e branca.

-Sou Ofélia. Agradeço pela atenção, Bruno, mas eu não vou morar aqui...

Ofélia olhou novamente para  acasa, e acrescentou:

-...acho...

Bruno saiu pedalando, deixando-a em frente ao portão. 

Ofélia sentiu que estava sendo observada. E estava: um senhor bastante idoso fez com que ela despertasse de seu transe, com sua voz rascante:

-Vai ficar parada aí durante muito tempo? Você deve ser a corretora, certo?

Ela se aproximou da casa, abrindo o portão de ferro fundido enferrujado, que rangeu ao ser empurrado, e caminhou até o homem que estava de pé à porta da casa. Ofélia viu que ele parecia ser realmente velho, e rascante como fel. 

-Ah, me desculpe, o senhor deve ser o proprietário...  senhor Alcides, certo?

-Certo.

-Que bela casa! 

-Se eu soubesse que iam gostar tanto, teria aumentado o preço.

Ela pensou tratar-se de uma piada, e quase sorriu, mas ao deparar com o rosto fechado dele e seus olhos azuis cortantes como aço, Ofélia engoliu em seco. O homem não estava ali para brincadeiras. Ela pigarreou, estendendo a mão a ele, mas quando viu que ele não a pegaria, ela descansou-a sobre a bolsa à tiracolo que carregava. Resolveu ser o mais fria possível e acabar logo com aquilo:

-Vim pegar as chaves. 

Ele enfiou a mão no bolso da calça, e puxou um molho de chaves grandes e antigas, entregando-as a ela. Ofélia segurou-as, sentindo um estranho calor nas palma da mão. Era como se as chaves estivessem vivas. Havia uma energia passando delas para ela, e não havia nenhuma dúvida quanto àquilo. 

-O senhor mora aqui? Quero dizer... morava?

-Ninguém mora aqui há mais de vinte anos. Mas é nosso dever manter a casa conservada, e entre a família. Mas sou o último descendente, e não tive filhos. Devo passar esta tarefa a você agora.

Ela achou estranho que ele dissesse estar passando a tarefa a ela, mesmo sabendo que ela não estava ali para morar na casa, e sim para reformá-la e vendê-la.

Ela olhou novamente para a casa, e achou que se aquele era seu dever - mantê-la conservada - ele não o tinha cumprido. 

-Bem, e por que ninguém mora aqui há tanto tempo?

O velho deu uma risada sardônica antes de responder:

-Vocês logo vão descobrir. Agora eu preciso ir. Espero que tenham depositado o dinheiro na minha conta. Saio em viagem amanhã de manhã e não quero ter nenhum problema. 

-Pode ficar tranquilo. 

Ele desceu os sete degraus  da varanda vagarosamente, e ao chegar lá em baixo, olhou para cima, dando um longo suspiro. Ofélia notou que ele parecia aliviado. Ao mesmo tempo, notou um sorriso que ela julgou como sarcástico se formando no canto dos lábios dele. 

Ofélia decidiu que não gostava dele.  Mesmo assim, tratava-se de um idoso, e ela achou que devia a ele algum respeito. Preocupou-se com o fato dele ter que caminhar um quilômetro até a rua principal e pensou se não deveria oferecer-lhe uma carona, mas sua curiosidade pela casa era tão grande, que ela virou-se para  a porta, ajustando a chave na fechadura. Porém, a imagem mental que ela construíra sobre o homem velho descendo a rua vagarosamente, podendo cair e quebrar um osso, fez com que ela descesse as escadas atrás dele. 

E ela seguiu pela rua chamando pelo nome dele, perguntando se ele não gostaria de uma carona até algum lugar, mas o velho parecia ter desaparecido no ar. Ofélia ficou intrigada; afinal, nem mesmo alguém jovem - ou um dos meninos de bicicleta - poderia ter desaparecido tão rapidamente! Ela ainda ficou ali, parada no meio da rua, as mãos na cintura, tentando olhar em volta para ver se havia alguma passagem aonde o homem poderia ter entrado, mas não viu nada, e decidiu que seria melhor voltar à casa. E assim ela fez.



(Continua...)






quinta-feira, 26 de abril de 2018

A PAREDE DE VIDRO







Este é o meu conto publicado no livro "Gandavos - Quem Conta, Assombra" - deste ano. O livro contém vários contos fantásticos de vário autores brasileiros.




A Parede de Vidro

Lembro-me da visita à casa, antes de mudar-me. Era uma manhã fria, e surpreendeu-me a quantidade de folhas secas pelo chão quando a corretora abriu a porta. Ela mostrou-me os cômodos vazios, e vi que era o que eu estava procurando: uma casa não muito grande, porém espaçosa, afastada do barulho e do movimento, porém, a poucos quilometros da cidade, e além de tudo, bonita e em ótimo estado de conservação.

Eu estava me mudando para aquela cidade devido a uma oferta de emprego. Recém-divorciada, precisava muito mudar de vida, e a oferta chegou na hora certa. Meus pais ainda tentaram me convencer a ficar na casa deles por algum tempo, mas eu não conseguia enfrentar a possibiliade de dar de cara com  meu ex marido e sua atual namorada ao andar pela cidade. 

Ao percorrer a casa, fiquei pensando no porquê de ela  estar fechada há mais de seis  anos. A corretora não soube me dar uma explicação. Mesmo assim, adorei tudo, e fechei o negócio, alugando-a. O que mais me encantou, foi uma das paredes da sala de estar, que era totalmente de vidro, e dava vista a uma linda mata, separada do pequeno terreno da casa por uma cerca de madeira baixa. Havia um portãozinho de madeira que ligava o terreno a uma trilha que ia para dentro da mata. Logo fiquei sabendo que o proprietário do terreno morrera hà muitos anos, e que jamais construíra nada por ali, e por algum motivo desconhecido, nenhum dos herdeiros estava interessado no pedaço de terra, que permanececia abandonado e tomado pela mata. Eu pensava em algum dia fazer uma visita ao local, mas sempre acabava sendo impedida por algum acontecimento inesperado, como a chegada de algum vizinho dando as boas vindas, um trabalho extra que exigia dedicação total ou alguma outra coisa qualquer.

Eu gostava de me sentar no meu novo sofá confortável e admirar a mata. Às vezes, ficava  em um estado de semi transe, fascinada pela paisagem, e quando dava por mim, muito tempo havia se passado. Um tempo que eu não percebia ou controlava. Era como se eu saisse de mim e acordasse horas depois. Eu simplesmente não conseguia me lembrar de nada. Tinha  a impressão de que sofria um apagão mental. Eu ficava um pouco preocupada, mas depois me acalmava, relegando tudo ao estresse da mudança.

Certo dia, quando eu chegava do trabalho, o vizinho do outro lado da rua aproximou-se para me cumprimentar. Sr. Manoel era um homem idoso, e morava sozinho, ou melhor, na companhia de seus muitos gatos, que ficavam sentados feito iogues sobre o muro da casa, ou estatelados sob o sol da manhã no gramado, ou ocupando toda a a extensão do sofá da varanda. Ele me perguntou se eu estava gostando da casa, e respondi que sim, estava adorando viver ali. Vi nos olhos dele uma certa hesitação, como se quisesse me dizer alguma coisa, mas estava com receio de fazê-lo. Por fim, ele se despediu, dizendo: “Precisando de alguma coisa, a qualquer hora do dia ou da noite, pode bater à minha porta.” Agradeci, e já ia entrando, quando o ouvi dizer: “Você não achou nada na casa que possa assutá-la, não é? Está tudo bem mesmo?”

Pensei no efeito que teria para uma pessoa tão idosa, ver uma mulher jovem  como eu vivendo sozinha em uma casa como aquela. Com certeza, ficaria preocupado, ou curioso. Agradeci novamente, e não mencionei meus apagões ocasionais.

Dias depois, numa tarde de sábado, eu estava sentada no meu sofá com vista indevassável para a mata, aproveitando a tarde fria de outono para ler um novo livro que havia comprado pela manhã. O sol já deitava seus últimos raios no jardim, e acabei adormecendo. Quando acordei, a casa estava totalmente escura. Ainda sonolenta, fiquei algum tempo deitada, olhando o luar que brilhava sobre a mata, quando notei movimentos no lugar. Havia pessoas andando por ali.

Eu ainda não tinha comprado uma cortina que cobrisse a parede de vidro, pois não encontrara uma grande o suficiente, o que deixava a casa completamente à mostra para qualquer pessoa que estivesse na mata e quisesse vê-la. Antes, nem sequer tinha me preocupado com aquilo, já que seria impossível que alguém da rua visualizasse a parede lateral de vidro, e ninguém passava pela mata – pelo menos, não até aquela noite. Decidi que mandaria fazer uma sob medida na segunda feira. O vidro era inquebrável, e por isso não correria o risco de que a casa fosse invadida através dele. As luzes apagadas também não deixariam que aquelas pessoas tivessem uma visão completa da minha sala, a não ser que elas usassem lanternas, e se eu visse uma delas fazendo aquilo, chamaria a polícia. 

Pensando naquilo, ainda fiquei algum tempo observando as sombras escuras que se moviam pela mata. Dava medo. Eu me arrepiava só de pensar que pudessem ser ladrões ou adolescentes delinquentes. Verifiquei todas as janelas e portas antes de ir dormir, certificando-me de que estivessem bem trancadas.

Mas de manhã cedo, acordei sentindo muito frio, e me levantei da cama para perceber, estupefata, que eu estava descoberta e que todas as portas e janelas da casa tinham sido abertas. Havia marcas de pegadas elameadas por todo o piso da casa, e algumas delas estavam em volta da minha cama, como se alguém estivesse me observando enquanto eu dormia.

Chamei a policia, que me fez algumas perguntas, e depois vasculhou o local, e não encontrando nada, foram embora, me aconselhando que trocasse todas as fechaduras da casa. Eu me sentia estranhamente cansada, e achei que estava pegando uma gripe devido a exposição ao frio da noite. Havia círculos escuros de cansaço sob meus olhos, e quando fui tomar banho, notei algumas manchas arroxeadas parecidas com marcas de mãos sobre a parte interna dos braços, como se alguém os tivesse apertado com força – talvez me arrastado. Ao despir-me e olhar as costas da  camisola (estivera vestindo um robe sobre ela quando a polícia chegou), vi que estava completamente suja na parte de trás, e havia pedaços de folhas e galhos grudados ao tecido. Eu havia sido arrastada!

Tomei banho, ainda sob forte estado emocional de insegurança e medo, e quando terminei, ouvi batidas na porta. Era meu vizinho, o Sr. Manoel:

-Vi o carro de polícia. O que aconteceu?

Eu não pretendia dar muitas explicações, mas estava tão devastada, que acabei convidando-o para entrar. Precisava de companhia. Conduzi-o até o sofá, e ele se sentou devagar, olhando a paisagem lá fora com desconfiança. Contei-lhe o que tinha acontecido, e mostrei as marcas em meus braços. Ele me ouviu atentamente, sem interrupções, dizendo em seguida:

-Há uma história sobre esta casa. Algo macabro. Se eu fosse você, iria embora daqui. Pode passar  a noite lá em casa se quiser.

Eu ri, nervosa:

-Preciso muito desse emprego. A firma está pagando o aluguel, e eu não saberia como explicar a eles uma mudança após tão pouco tempo vivendo aqui. E eu... não acredito em histórias macabras, sr. Manoel. Agradeço sua oferta de passar a noite, mas não será necessário. 

-Mas você me disse que a casa foi invadida!

-Com certeza, por alguém que tinha antiga chave. Um policial me deu o telefone de um chaveiro, e ele já está a caminho. 

-Bem, então convide alguém para passar a noite com você!

-Obrigada pela preocupação, mas não conheço ninguém na cidade que possa fazer isso.

Ele sorriu:

-Bem, se você permitir, posso fazer-lhe companhia. 

Eu ri diante da possibilidade: um idoso fazendo-me companhia durante a noite para me proteger de invasores? Não, obrigada... apesar de eu não ter dito nada do que estava pensando, ele pareceu adivinhar, e comentou:

-Posso não ser fisicamente forte, mas tenho muita força. Um tipo de força que é o que você realmente precisa no momento. Sou médium, e demonologista. 

Aquela conversa  estava ficando cada vez mais estranha, e eu já estava pensando no que fazer para interrompê-la quando a chegada do chaveiro poupou-me o trabalho. Despedi-me de meu vizinho educadamente, dizendo que precisava acompanhar o trabalho do chaveiro. 

Na noite de quinta feira eu fui acordada pelos os ecos de um grito angustiado, e já desperta, fiquei deitada na cama, escutando no escuro, para ver se ouvia mais alguma coisa. Estava apavorada! Mas como não escutasse mais nenhum som, acabei adormecendo de novo. Mas sem saber o que me reservava a manhã de sexta feira!

Ao sair para o trabalho, vi um movimento de ambulância e carro de polícia na casa do Sr. Manoel, e a empregada, que conversava com um policial, chorava copiosamente, secando os olhos com um lenço. Me aproximei devagar, tentando descobrir o que tinha acontecido. Pensei que o senhor idoso pudesse ter passado mal durante a noite. Assim que cheguei perto, o policial logo perguntou-me quem eu era, e eu expliquei, no que a empregada dirigiu-se a mim, dizendo:

-Você não imagina o rosto dele! Tinha uma expressão congelada de pavor, a boca escancarada...

Tentei acalmá-la, pedindo que me informasse sobre o horário do velório, e fui trabalhar, prometendo ao policial que caso me lembrasse de ter ouvido alguma coisa estranha, entraria em contato. Não sei porque não mencionei ter escutado gritos durante a noite.

Quando cheguei em casa naquela noite, havia um bilhete sob a porta com informações sobre o velório, que seria no dia seguinte. A perícia concluiu que o pobre homem tinha morrido de um enfarto fulminante. No sábado pela manhã fui caminhando à pé até a pequena capela indicada pela empregada, onde meu ex-vizinho estava sendo velado. Ainda era cedo, e quando entrei na igreja, vi que eu estava sozinha. Andei até o caixão, e encontrei-o lacrado. Fechei os olhos e comecei a fazer uma oração. Foi quando senti o peso de uma mão em meu ombro. Abri os olhos e olhei em volta, mas não vi ninguém. Um arrepio de pavor percorreu meu corpo e eu quase gritei. Principalmente após ouvir claramente a voz do meu vizinho dizendo: “Saia daquela casa o quanto antes! Eles me pegaram porque tentei ajudar você!”

Saí correndo dali, e tranquei-me em casa, achando que eu estava ficando louca. Telefonei aos meus pais apenas para ouvir a voz deles, mas nada contei sobre os últimos fatos ocorrido, pois não pretendia assustá-los. Falar com eles deixou-me mais calma, e após dar uma caminhada por um parque próximo, voltei para casa me sentindo melhor.

Almocei e tomei um banho. Sentei-me no sofá a fim de terminar meu livro, e decidi que ficaria atenta para não dormir ou ter outro daqueles meus apagões. Me concentrei na leitura. De vez em quando, parava de ler e olhava lá para fora apenas para constatar que tudo estava normal. Tentava me convecer de que tudo não passara de coincidência, e que uma pessoa idosa vivendo sozinha poderia ter imaginação fértil, assim como eu, após tudo o que passara os últimos meses.

Não sei como, mas acabei adormecendo. Quando acordei, olhei para meu corpo e vi que estava suja de lama e sangue, e as minhas unhas estavam lascadas e imundas. Olhei-me no espelho: meu rosto estava pálido e muito sujo de terra e sangue. As roupas rasgadas e laceradas pendiam sobre meu corpo, que doía como se eu tivesse me exercitado exageradamente. Cada músculo era um feixe de dor. Achei que poderia tomar um banho e procurar um médico na segunda feira, supondo que fosse ainda domingo, mas quando o telefone tocou e eu atendi, fiquei absolutamente pasma: era minha chefe, Denise:

-Carla! Estamos preocupados com você. Não veio trabalhar ontem, e já são dez da manhã de terça. Você está doente?

Meu coração batia tão forte que eu mal conseguia falar: tinha dormido dois dias! E pior de tudo, acordei naquele estado lastimável. Desculpei-me com minha chefe, alegando que estivera tão doente, que não consegui levantar-me da cama para avisar, mas que estava melhorando e iria trabalhar no dia seguinte. Entrei no chuveiro, e sentada no chão, chorei de pavor.

Esta é a minha história, e só posso dizer que ela é verdadeira. Mas vocês me trouxeram para esta delegacia e me acusam de ter chacinado uma família inteira! Olhem para mim: tenho 1,50m e peso 49 quilos; como poderia ter matado um homem que pesava 90 quilos, sua mulher e três filhos?

O policial respirou fundo mais uma vez:

_Você foi vista deixando o local do crime suja de sangue e carregando um machado, que foi encontrado em sua casa, debaixo da sua cama. Há sangue das vítimas sob suas unhas, e suas impressões digitais estão nas maçanetas e corrimões da casa. Vasculhamos a sua casa, e encontramos um desenho sob o tapete da sala que faz parte de um ritual satanista.

-Eu já disse que não fui eu quem o fez! Não sei de desenho nenhum! Também não matei ninguém, podem ter feito uma armação para mim!

O policial fez sinal para o carcereiro:

-Leve-a de volta para a cela. Amanhã o psiquiatra virá para avaliá-la.



FIM




terça-feira, 20 de março de 2018

AMOR E REVOLTA – CAPÍTULO FINAL







Dias mais tarde, Gabi estava caminhando na rua quando Max parou o carro junto a ela. Gabi estava zangada com a maneira que Max a vinha ignorando, desde a última vez que saíram juntos. Ela tentou fingir que não o viu, mas ele buzinou:

-E aí, Gabi? O que é que você manda?

Ela olhou para ele de lado, sem parar de caminhar:

-Oi, Max. Estou com pressa.

Ele saiu do carro e deu a volta, chegando até ela, segurando-a para que ela o olhasse:

-Hey, tá zangada comigo?

-Você sumiu, Max. Acha mesmo que eu estou disponível para você quando você estiver a fim de transar?

Ele ergueu as mãos:

-Ok, você está certa: fui um cachorro. 

-E continua sendo. Me deixa em paz!

-Calma, gata. Eu... preciso te dizer uma coisa. É sobre a minha irmã.

Ela riu alto, em tom de sarcasmo:

-Ah, já que é sobre ela, eu estou “interessadíssima” em escutar!

-Peraí, Gabi! Calma... vamos tomar um refri. Entra aí no carro. Eu juro que é coisa séria. Soube que o Marvin está internado de novo, e achei importante que vocês saibam o que aconteceu com a Jane antes que ele descubra sozinho, só isso.

Ela parou, olhando para o rosto dele, tentando determinar o que faria. Respirou fundo, e sem nada dizer, entrou no carro. Ele entrou depois dela, batendo a porta. Ia dar partida, quando ela o segurou:

-Me diga logo, o que tem a Jane?

-Ela... casou. Com o Tavinho.

-O que??? A Jane se casou com o Deputado Tavinho? Ela dizia pra gente que detestava ele!

-É. Só que não. 

-E... eles... onde estão?

-Isso eu estou proibido de dizer, porque eles estão com meus pais, mas estão beeem longe do Brasil. Casaram hoje. Bem, o Tavinho é uma pessoa pública, e logo a imprensa do Brasil vai começar a divulgar a notícia. 

-Mas... esse cara é velho! A Jane é uma menina!

-É, nem tão velho, mas ela foi “emancipada,” digamos... o Tavinho conseguiu uma certidão de nascimento nova para ela, que diz que ela tem 21. Mesmo depois que meu pai autorizou o casamento, ele achou melhor, para evitar escândalos. Estão em lua de mel na Itál... quero dizer, na Europa, e depois vão morar em Brasília. 

Gabi ficou pensativa durante algum tempo, tentando descobrir uma maneira de contar à família de Marvin. Pensou que, apesar de tudo, Max tinha sido um cara legal em avisar. Odiou Jane com todas as suas forças. Olhou para o lado, e deparou com o rosto ansioso de Max, fitando-a. Ela se virou de lado, tentando abrir a porta do carro para sair, mas ele a segurou:
-Gabi, espera! Por favor. Eu juro que tentei não pensar em você. Juro que saí por aí e comi uma porção de meninas, mas olha, o fato é que eu... não gostei de nenhuma. Desde que a gente ficou junto naquele dia. Eu não consigo esquecer. Eu acho que me apaixonei por você. Acho não; tenho certeza. Por isso eu não quis ir embora quando meus pais mandaram me buscar.
Gabi sentiu o coração dar um salto. Aquele rapaz lindo, habitante de algum conto de fadas onde ele era o sedutor príncipe do mal, estava de quatro por ela. E confessou tudo na sua carruagem de ouro importada. Era tentador demais. 

Mas Gabi não era estúpida. Olhando-o nos olhos, ela disse:

-Escuta, Max, foi bom enquanto durou – se bem que eu não entendi até agora esse lance entre a gente. Somos tão diferentes um do outro, sabe... nem sei se você está falando a verdade dessa vez.

-Perái, Gabi! Eu não menti pra você. Nunca menti. Nunca te disse que estava apaixonadão, querendo casar, e nem estou dizendo isso agora. Quero dizer... eu estou apaixonadão agora, mas não quero casar ainda, mas estou disposto a investir, levar a sério pela primeira vez na minha vida. Quero ver até aonde esse lance vai nos levar. Me dê uma chance!

Gabi respirou fundo. Gostava de Max, mas de repente compreendeu que jamais poderiam ficar juntos – não por causa das diferenças de classe social, mas pelas diferenças de caráter. Ela jamais conseguiria viver dentro da família dele, ou ter os mesmos amigos que ele. Não concordava com o que seus pais faziam, nem com a maneira de viver de Max – aos dezenove anos, não trabalhava e vivia do dinheiro dos pais. Dinheiro sujo, vindo de propinas e negociatas, e sabe-se-lá-do-que-mais. Ela queria ter uma vida diferente da dele, queria estudar, trabalhar, subir na vida pelos seus méritos. Não tinha nascido para ser dondoca ou patricinha. 

-Olha Max... não vai dar. Agora me deixa sair, tá?

Dizendo aquilo, ela abriu a porta do carro e saiu correndo, entrando em uma loja de departamentos ao virar a esquina. Através da vitrine, ela viu quando ele passou correndo na calçada, procurando por ela, e ficou feliz por ter entrado na loja.

Dias mais tarde, Marvin obteve permissão para sair da clínica. Continuou o tratamento com Dr.  Figueiredo, que chegou à conclusão de que ele estava sofrendo de depressão, mas que era seguro deixa-lo em casa. As férias estavam apenas no começo – ainda era o mês de janeiro – e Rafaela e Cadu sugeriram que ele fosse viajar com Melissa e os amigos, para uma casa de praia. Gabi jamais contou a ele a verdade sobre o casamento de Jane. Ela tinha certeza de que, agora que saíra da clínica, ele acabaria descobrindo, e então ela contou tudo a Melissa, deixando que ela cuidasse do assunto. 
E foi na casa de praia, enquanto Max estava sentado em uma espreguiçadeira olhando o mar, enquanto Luis e Gabi tinham saído para uma caminhada, que Melissa sentou-se ao lado dele na areia 
e começou a contar-lhe.

O dia estava cinzento e ventava muito. Era um verão atípico, pois chovera na maioria dos dias, e a temperatura não ultrapassara os vinte e dois graus. Gabi sentiu um vento mais frio, e puxou a saída de praia em volta do corpo, envolvendo-se com ela. Tomou um gole de refrigerante para criar coragem, e disse:

-Como você está, irmão?

Marvin deu um sorriso triste:

-Me recuperando. Acho que no fundo eu sabia que aquilo ia acontecer. Eu sabia que Jane não era minha. Mas gostaria de saber como ela está, o que anda fazendo. Será que foi para Paris com o Juninho?

Melissa balançou a cabeça, discordando:

-Não, ela não foi para Paris, Marvin.  

-Você está sabendo de alguma coisa?

Melissa concordou com a cabeça:

-Gabi encontrou com Max por acaso, e ele contou a ela. Não vai ser nada fácil escutar isso, irmão... mas a Jane ... ela se casou.

Marvin sentiu o coração perder algumas batidas, e de repente, o chão debaixo da cadeira parecia feito de areia movediça. Ele não podia acreditar! Como ela poderia ter se casado em menos de um mês? Em apenas algumas semanas? Melissa notou a má reação dele, e aproximou-se, perguntando se ele estava bem. Marvin ignorou sua pergunta:

-Como assim? Com quem?

E de repente, ele compreendeu tudo.

-Foi com o deputado Tavinho, não foi?

Ela concordou com a cabeça.

-E... e.. para onde eles foram?

-A Gabi falou que o Max não queria dizer, mas acabou deixando escapar, sem querer, de que eles estão em algum lugar na Itália, um lugar remoto. Marvin, tem coisas nessa história que você ainda não sabe. Vou te contar tudo.

E ela contou a ele sobre o dossiê encomendado por Gertrude, e sobre a maneira como ela, Gabi e Luis o produziram, e também do desaparecimento dos documentos. Contou também que tinha sido por causa dos documentos (que alguém encontrara e tornara público) que a família de Jane deixara o país. Marvin imediatamente entendeu tudo: Com certeza, os documentos tinham sido encontrados por Tavinho, que chantageou Sunny e Paco a fim de casar-se com Jane. Provavelmente, Jane casara-se com Tavinho para salvar os pais!

Marvin permaneceu calado durante alguns minutos, e finalmente, caiu em uma gargalhada, que logo foi se transformando em um choro compulsivo. Gabi e Luis voltavam da caminhada naquele momento, e olhando para Melissa, obtiveram a confirmação de que ela tinha contado tudo a Marvin. 

Os três juntaram-se em volta de Marvin, em um abraço coletivo.

Na segunda-feira, após voltarem da viagem à praia, Marvin procurou Max. Ele não disse a ninguém sobre suas intenções, apenas anunciou que ia dar uma volta de bicicleta.  Parou em frente a mansão, observando-a por um longo tempo. Lembrou-se das festas que frequentara ali naqueles poucos meses em que ficara com Jane, em como tinha sido bem recebido pelos pais dela. Lamentou o fato de que os dois fossem criminosos, mas aquilo não afetara a maneira como se sentia a respeito de Jane. Ele precisava salvá-la. O que estava acontecendo a ela era inconcebível, e ele precisava fazer alguma coisa. Marvin respirou fundo, e tocou a campainha. Como era conhecido pelos empregados da casa, foi rapidamente conduzido à sala de estar, onde esperou por Max.

Enquanto esperava, ele olhou em volta; havia uma foto de Jane sobre uma mesa de canto. Havia outras fotos, da família reunida, sorrindo. Ele sentiu saudades, muitas saudades, e teve que ser duro para não começar a chorar. E foi assim que Max o encontrou: olhando para a foto de Jane. Max sentiu um pouco de pena de Marvin. não estava muito acostumado a ter sentimentos de empatia, mas ultimamente, ele se pegava envolvido por eles mais vezes do que desejaria. Respirou fundo, e terminou de descer as escadas, caminhando na direção de Marvin com a mão estendida:

-E aí, cara?

-Fala, Max. 

-Senta aí. Quer tomar alguma coisa?

-Não. Eu vim aqui para saber de Jane. Aonde ela está?

Max desviou os olhos:

-Infelizmente não vou poder dizer, ou estarei colocando a família toda em risco, cara...

Marvin estava acostumado a lidar com o cinismo de Max, e continuou:

-Como se você se importasse com a família, não é, Max? Na verdade, o que importa pra você é que a grana continue entrando. Jane não significa nada, não é?

Max olhou-o sério:

-Ela é minha irmã, e mesmo que você não acredite nisso, eu gosto dela. E gosto dos meus pais também. 

-Então você precisa me dizer onde ela está.

-Já disse que não dá, cara... eles estão sendo procurados! Já basta essa porra de dossiê que sua avó e seus amigos fizeram, e que acabaram com a nossa vida! Acha mesmo que eu vou te entregar a minha família? Esquece. No way!

Max se levantou, caminhando até a janela. Depois de olhar para fora durante algum tempo, ele serviu-se de um pouco de uísque, oferecendo a Marvin, que recusou com a cabeça. 

Marvin insistiu:

-Então me dê o novo número dela. Ficarei contente em conversar com ela por telefone. Olha, Max, se você se importa com ela, vai ficar quieto, sabendo que ela se casou com esse deputado pedófilo para salvar seus pais? 
Max ponderou antes de responder, e finalmente, disse:

-Em uma coisa você está certo: meus pais sofreram chantagem de Tavinho para emancipar Jane e concordar com o casamento; mas Jane não casou à força. Ela nem sabe dessa chantagem. Ela casou porque quis, e ela mesma me disse isso antes de ir embora. Olha, eu sempre soube o que rolava entre ela e o Tavinho, e isso é coisa antiga. Mas Jane nunca quis denunciá-lo, nem mesmo quando eu ofereci ajuda. Ela me proibiu de contar aos meus pais...  embora eu ache que eles desconfiassem. Mas esquece a minha irmã, ela não está a fim de você. Ela ama o Tavinho... - ou sei lá que nome se dá para essa coisa entre eles. 

-Eu quero ouvir isso dela.

-Mas...

-Eu preciso ouvir isso dela para continuar com a minha vida, Max.

Max pensou por uns instantes, e coçando a cabeça, ergueu os braços e soltou-os, numa atitude de rendição:

-Tá bom, tá bom. 

E passou o número do telefone de Jane a Marvin, que começou a discar o número na mesma hora, e 

Max acenou para ele em despedida, saindo porta afora:

-Quando terminar, fique à vontade por aí... eu tô indo. 

O telefone tocou várias vezes, até a ligação cair. Marvin insistiu ainda duas vezes. Na terceira vez, Jane atendeu. Ela não disse nada, apenas ficou escutando na linha, até que Marvin falou:
-Jane... Jane, meu amor... por que você fez isso, por que?

Ela não respondeu.

-Jane, eu preciso te ver! Eu quero te ajudar! Eu vou salvar você desse cara, a gente pode... a gente pode ficar juntos de novo, eu juro que não me importa nada do que aconteceu!
O silêncio do outro lado da linha já estava deixando Marvin angustiado, até que uma voz fria e cortante o interrompeu:

-Como você conseguiu meu número?

Marvin engoliu em seco:

-Seu irmão me deu. Eu queria...

-Mas que droga! Marvin, escute bem uma coisa: acabou! Eu não quero ter mais nada com você, entendeu? Vê se desgruda, larga do meu pé! 

-Mas Jane, eu sei que você foi forçada a se casar! Sei que só está tentando proteger seus pais!

_ Marvin... do que você está falando? Enlouqueceu? Meus pais já são bem grandinhos, não precisam que eu os proteja. Estão muito bem, longe daqui, e longe dessa vidinha burguesa que vocês levam aí. Eu nunca te prometi nada, nunca disse que seria uma namoradinha fiel. Eu nem disse que te amava! E eu não amo! Apenas aconteceu, foi um lance, foi legal, mas acabou! 

Marvin sentiu as lágrimas ferventes descendo pelo rosto. Ela continuou:

-Agora vê se me esquece, e apaga meu número! O Tavinho não vai gostar nada se souber que você está me atazanando. 

Naquele momento, Marvin escutou a voz de Tavinho:

-Aí, Romeu, como vai? Como você já sabe, Jane agora é minha esposa. A gente se casou. Escuta, moleque, já tive paciência demais com você, e com sua intromissão nos meus interesses. Não quero ter que tomar medidas drásticas contra aquela sua avó intrometida! Portanto, deixa a gente em paz!
E depois, um ‘click’ foi ouvido, e então, o silêncio. Marvin ficou confuso pelo tom de voz brusco e quase cruel com o qual ela lhe falara. Não descobriu ali a feminilidade e delicadeza que o atraíra. 

Tavinho olhou para Jane, e abraçou-a, dizendo:

-Acho que agora ele vai entender, amor.

A Jane para quem ele olhava estava muito diferente da Jane que Marvin conhecera: os cabelos longos e ondulados tinham sido repicados bem curtos e tingidos de castanho, dando a ela um ar andrógino; as roupas femininas e vestidos esvoaçantes tinham sido substituídos por calças jeans e camisetas simples de malha, em estilo masculino. Ela calçava tênis, e tinha um piercing no nariz. Sua ex-magreza agora exibia o primeiro sinal de uma barriguinha que quase se projetava por cima do cós da calça. Jane estava passando por uma nova transformação. Talvez ela estivesse finalmente encontrando a si mesma. E Tavinho descobrira que sempre amara aquele lado dela, sem desconfiar que aquela mudança acabaria levando-a por outros caminhos no futuro, caminhos que passavam longe dos que ele desejava caminhar com ela. 

Marvin sentou-se no sofá, sem forças para andar. Ficou ali durante horas, até que começou a escurecer. Quando Max voltou para casa, assustou-se ao vê-lo sentado no escuro, olhando para o nada, e ligou para Melissa, pedindo que alguém fosse busca-lo. 

Rafaela ajudou-o a ir para a cama, cobrindo-o, como se ele fosse o seu garotinho de novo. Ela chorou amargamente ao ver o filho naquele estado. Depois que ele finalmente conseguiu dormir, ela desceu as escadas devagar, e foi conversar com Cadu, que a esperava no sofá com uma xícara de café quente:

-E então? Ele dormiu?

Ela pegou a xícara, tomando um gole antes de responder:

-Sim, dei um comprimido a ele. Ah, Cadu... será que Marvin vai ser sempre assim, tão vulnerável? 

-Ele é um menino sensível, sempre foi. Precisamos tomar muito cuidado com ele agora. 

Mas na manhã seguinte, a pessoa que se levantou da cama era alguém totalmente diferente da que tinha se deitado na noite anterior. Marvin chegou para o café da manhã distribuindo ‘bons dias’ entusiasmados, beijando os avós que estavam à mesa e falando pelos cotovelos. As pessoas se entreolhavam, estranhando aquele entusiasmo repentino, sem saber se deveriam alegrar-se ou não. Mas acabaram se convencendo – talvez porque precisassem daquilo – que Marvin tinha superado tudo e que estava pronto para recomeçar sua vida. 

Mas às vezes, levamos apenas a vida que somos capazes de levar. 

Marvin saiu de casa dizendo que ia encontrar Luis. Montou na sua bike e os pais o viram afastar-se de casa, feliz de novo, e deram um suspiro de alívio.


Porém, não sabiam sobre as intenções do rapaz. Marvin pedalou até a casa de Jane, onde os empregados o deixaram entrar. A casa estava vazia. Ele andou pelos corredores tão familiares, e logo encontrou o antigo quarto de Jane. Deparar com a cama dela vazia, arrumada como se nunca mais alguém fosse ocupa-la, fez com que algo dentro dele morresse. Ele entrou, trancando a porta e jogando-se de bruços na cama. Jamais imaginara que alguém pudesse gostar tanto de outra pessoa, ainda mais uma pessoa que demonstrou não sentir o mesmo por ele. 

Marvin sabia onde Jane guardava comprimidos para dormir. Desde sempre, segundo ela, ela os usava, pois sofria de insônia. Sua esperança é que ela os tivesse deixado ali. abriu a mesinha de cabeceira, e seu coração bateu mais forte ao deparar com a caixinha prateada onde ela os guardava. Tudo naquele quarto era tão feminino e suave! Em nada correspondiam à voz brusca e rude que falara com ele ao telefone.

Marvin deixou que uma lágrima rolasse antes de pegar um copo d’água no banheiro e sentar-se com ele na cama, segurando-o, como a decidir se deveria ou não fazer aquilo. Ouvia as vozes dos pais e dos avós: “Marvin, vocês passaram apenas alguns meses juntos, não é possível que seja tão forte!”  “Você só está vivendo sua primeira decepção amorosa, vai passar!”  “Logo você encontra outra menina e nem vai mais lembrar-se dela!”  “Ela não era para você.”  “Vocês são como água e óleo, não podem se misturar.”  Ele realmente gostaria que aquelas palavras fizessem sentido para ele, que elas abrissem uma porta que o levasse para fora daquela depressão. Só que não. A lógica não valia nada quando se tratava de paixão. 

Um a um, Marvin começou a engolir os comprimidos. Quando chegou ao terceiro, começou a engoli-los aos punhados. Logo, ele caiu em um sono profundo e sem sonhos. Um lugar escuro e silencioso, do qual Marvin nunca mais voltou. 

Seu corpo só foi encontrado dois dias depois, pois os empregados esqueceram-se dele. Supondo que ele tivesse ido embora sem se despedir, nem se preocuparam com o assunto, até que seus pais foram procurar por ele ali. Max não estava em casa. Os empregados receberam o casal na sala de estar, e os dois se sentaram no sofá da sala, aguardando, enquanto eles procuravam Marvin pela casa. 
Quando Rafaela ouviu o grito da empregada, seu coração gelou, e ela entendeu. Fechou os olhos, querendo escapar daquele momento, daquele pesadelo. Mas levaria muito tempo até que eles conseguissem sorrir novamente. 

Quando Jane ficou sabendo do que acontecera a Marvin, ela sentiu uma dor muito forte, e arrependeu-se pela maneira como o tinha tratado. Ela passou o dia todo trancada em seu quarto, chorando. Ali, ela promoveu sua terceira transformação: oxigenou os cabelos em um loiro quase branco, retirou os piercings e o esmalte preto das unhas. Jogou fora as roupas masculinizadas, vestindo uma camisola branca esvoaçante. Quando ela saiu do quarto e Tavinho a viu,  ele ficou surpreso e chocado. A menina era um verdadeiro camaleão! 

Jane não tocou no assunto com ele. O nome de Marvin nunca mais foi pronunciado por ela, mas alguma coisa nela morreu. Tornou-se uma menina totalmente fria, e o sexo para ela era algo que causava nojo. Tavinho não conseguia mais aproximar-se dela. A menina ninfomaníaca que conhecera e pela qual era completamente louco, tinha morrido. Ele logo se cansou dela, e os dois se divorciaram, o que para Jane, foi um grande alívio.

O tempo passou, e como o tempo apaga todas as corrupções da história do Brasil, a família retornou ao país, passando a viver na mesma casa, mas logo a venderam, pois Jane não conseguia conviver com as memórias que ali estavam, entre aquelas paredes. 

Sunny e Paco não conseguiam mais conviver; a presença um do outro era quase insuportável. Divorciaram-se logo após a chegada ao Brasil, dividindo os bens que lhes restavam. Sunny passou a levar uma vida de asceta, vivendo anonimamente em uma casa isolada nas montanhas. 

Max decidiu tomar juízo e cursar uma faculdade, o que modificou completamente sua vida, já que Gabi deu a ele uma nova chance. Os dois casaram-se anos depois, e viveram felizes, já que Sunny e paco não faziam parte da vida deles. 

Paco continuou dedicando-se ao tráfico de drogas e a outros negócios escusos. Era o que ele sabia fazer. Terminou seus dias após ser alvejado por tiros em um beco escuro, próximo ao lugar onde morava. 

Jane passou muitos anos vivendo uma vida andrógina e frígida. Sua infância complicada e sem limites levou-a a uma crise de identidade que ela jamais conseguiu resolver. Aos quase trinta anos de idade, ela acabou com a própria vida ao ingerir uma overdose de cocaína. Estava totalmente diferente da linda menina que Marvin conhecera. Perdera alguns dentes, tinha os cabelos ralos e ressecados e a pele envelhecida, além de estar excessivamente magra. 

A família de Marvin recuperou-se aos poucos. Rafaela engravidou novamente, e Melissa e Luis se casaram, providenciando netos e bisnetos que fizeram a alegria da família. Porém, sobre o aparador da lareira, a fotografia de Marvin sempre permaneceria, um sorriso emoldurado no papel e um olhar que passava através dos seus observadores. 


FIM
































quinta-feira, 15 de março de 2018

AMOR E REVOLTA – CAPÍTULO XXI








Naquela manhã, Marvin acordou com uma sensação estranha. A boca estava amarga, e ele se sentia cansado. Ao olhar-se no espelho, percebeu a palidez da pele e os olhos inchados. A garganta doía. Ele escovou os dentes e pegou uma pastilha para garganta, colocando-a na boca enquanto tomava banho e se vestia. 

A mesa do café da manhã estava festiva – seus avós tinham passado para uma visita, e Luis e Gabi também estavam por lá. Ele se sentou e começou a encher a xícara. Já estava no segundo gole quando notou que Jane não estava entre eles. 

-Ela foi correr. Vi quando ela saiu logo cedo. – disse Melissa.

 Ele ficou mais tranquilo, mas por volta das onze da manhã, ela ainda não tinha voltado. Todos começaram a ficar preocupados. Os avós foram embora, pedindo que dessem notícias assim que tivessem alguma. Teófilo bateu de leve no ombro do neto, ao ver sua preocupação:

-Será que ela não foi até sua casa pegar alguma coisa? Ou talvez tenha encontrado uma amiga. Mande notícias assim que encontrá-la! 

Melissa e Gabi se entreolharam; as duas caminharam para o jardim, como se tivessem um acordo entre elas. Lá comentaram sobre o estranho sumiço de Jane:

-O que você acha, Gabi?

-Não sei... talvez seu avô esteja certo.

-Eu acho que ela se mandou. Vazou mesmo. 

-Mas... ela parecia estar tão bem com o Marvin, e feliz aqui! Confesso que eu estava começando a gostar dela.

-É, mas... ela nunca me enganou, sabe. Sempre senti que ela não está apaixonada pelo Marvin, embora tenha tentado de verdade se apaixonar. Acho que viu na gente uma saída momentânea para sua vida desestruturada. 

-Nossa! Agora parece até uma psicóloga falando. Lacrou. Mas só fazem cinco horas que ela saiu. Talvez volte para o almoço.

Enquanto isso, Marvin andava de um lado ao outro em seu quarto, deixando mensagens no telefone de Jane que não eram respondidas. Tentou ligar para ela. Escutou o telefone dela tocando, e saiu correndo pelo corredor, indo até o quarto de hóspedes; viu que o telefone estava sobre  a mesinha de cabeceira. O estômago dele deu um nó, e a febre que ensaiava sair, finalmente começou. Ele passou pela mãe no corredor feito um furacão, suado, o rosto vermelho. Rafaela segurou-o pelo braço:

-Alguma notícia? Ligou para ela?

-Não. Ela deixou o telefone aqui. Mãe, acho que aconteceu alguma coisa!

-Calma! Se ela deixou o telefone, é porque não pretendia demorar.

-Então! Já saiu há horas! Ninguém leva cinco horas correndo de manhã. Já é quase hora do almoço. 

-Bem... vamos até a casa dela. Mas antes...

Ela tocou a testa do filho, que ardia em febre. Ele tentou recuar, mas Rafaela percebeu:

-Marvin, você está febril!

-É, acho que estou pegando um resfriado. Nada sério. Vamos, mãe.

-Não sem antes tomar um antigripal.

Ele obedeceu calado, pois sabia que era inútil argumentar com a mãe em momentos como aqueles. Ansioso, ele finalmente entrou no carro, e os dois foram até a casa de Jane. 
Aguardaram na sala, enquanto um dos empregados foi chamar Max. Marvin estava tão ansioso, que sentia as mãos tremendo. Quando Max entrou na sala quinze minutos mais tarde, despenteado e com cara de quem tinha acabado de acordar, Marvin foi logo perguntando:

-Oi, Max. A Jane está aqui?

Max olhou para ele e depois para Rafaela, antes de responder:

-Não... hum... ela esteve aqui, pegou umas roupas... aliás, pegou bastante coisas... 

Rafaela sentiu o peito gelar de apreensão. Apoiou o filho, enquanto ele perguntou:

-Mas para onde ela foi? Não voltou lá para casa.

Max pegou um envelope no bolso do casaco, entregando a Marvin:

-Ela deixou isso aqui pra você.

-O que é isso? Como assim?

Rafaela interviu:

-Obrigada, Max. Já vamos indo.

-Max, o que é isso aqui?

Max encolheu os ombros. Apesar de já saber o que estava escrito na carta, ele preferiu fingir ignorância. Lembrou-se de ter chegado de uma festa, ainda meio-alto, e encontrar a irmã descendo as escadas com uma mala. Ela passou por ele, e antes que ele pudesse perguntar qualquer coisa, Tavinho veio do quarto de Jane carregando mais duas malas. Confuso, Max coçou a cabeça:

-Ah... pode me explicar o que tá rolando aqui, Tavinho?

Tavinho colocou as malas no chão:

-Estamos indo embora, Max. Jane e eu. Nós vamos nos casar.

-O que? Tá maluco, cara? Meu pai sabe disso? Ela ainda é uma adolescente!

Tavinho riu:

-Já falei com seu pai, e ele concordou. Vai mandar a autorização. Nos casamos no Brasil em segredo, e depois vamos para uma ilha no sul da Itália, onde eles estão. Disseram que era para você se juntar a nós. Vá fazer suas malas, Max.

-Que??? Malas? No way. Detesto o sul da Itália. Vou ficar por aqui um tempo, e depois mando notícias. Tem o telefone dos meus pais? Estou precisando de grana.

Tavinho passou o número para o celular de Max, balançando a cabeça em uma negativa:

-Tá aqui... mas cuidado, ninguém pode saber onde eles estão. Só ligue se for necessário. E não se preocupe, eles já fizeram um depósito na sua conta. Você ficará bem. Parece que eles já sabiam que você não ia querer ir. 

Dizendo aquilo, Tavinho pegou as malas e saiu, deixando Max parado nas escadas. Tavinho jamais mencionou que Paco tinha dado a autorização sob ameaça de ter mais fatos comprometedores revelados. Fatos que poderiam fazer com que ele e Sunny passassem muito tempo na cadeia, caso fossem pegos. Coisas como tráfico de entorpecentes, aliciamento e escravidão de menores, mais provas sobre lavagem de dinheiro, do qual já eram acusados, formação de quadrilha, enfim, a lista era bem grande, e colocaria a Interpol atrás deles. 

 Naquele momento, Jane voltou. Parou na frente dele, abraçando-o desajeitadamente. Eles nunca se abraçavam. Quando se separaram, ela pegou um envelope na bolsa e deu a Max:

-Entregue ao Marvin, mano. Por favor.

Dizendo aquilo, ela se foi. Imediatamente, Max abriu a carta e leu seu conteúdo – o mesmo que Marvin leria em seu quarto, alguns minutos mais tarde:

"Oi, Marvin!

Esta é uma carta de despedida. Eu juro que tentei, mas não poderia levar essa vida que você leva. Eu já nasci estragada... não tem lugar para mim no seu mundo, e vice-versa. 
Obrigada por tudo. "

Jane não mencionou, na carta, que se casaria com Tavinho. 

Marvin leu e releu a carta diversas vezes. Tantas, que acabou memorizando o conteúdo. Na casa, Rafaela e Cadu acharam que era melhor que Marvin ficasse sozinho para assimilar o que tinha acontecido, então as pessoas andavam pelos cantos, falando baixinho, e de vez em quando alguém batia de leve à porta do quarto dele levando uma bandeja – que mais tarde era recolhida, intocada. Esta situação durou quase três dias. 

Max estava fisicamente esgotado por causa da gripe forte que o abateu, e emocionalmente em pedaços. Não falara com ninguém sobre o que tinha acontecido. Ficava em sua cama, fitando a parede como se estivesse catatônico. Cadu achou melhor leva-lo a um hospital. Rafaela tentou impedi-lo, mas os argumentos de Cadu eram fortes:

-Amor, ele não come há dias! Está lá, naquela cama, pensando sabe-se-lá-o-que. Ele precisa de ajuda. Eu... eu tenho medo do que possa acontecer a ele. 

Ela concordou com a cabeça, tristemente:

-Ok, então vamos leva-lo. 

Marvin não ofereceu resistência enquanto a mãe o colocou sob o chuveiro e depois o vestiu. Aceitou beber um pouco do suco que Melissa trouxera. Aceitou os abraços que todos lhe deram antes de sair com os pais. Não se importou. Ele não se importava com mais nada. 


(continua...)




O Lar de Ofélia - Parte IV

A manhã silenciosa deixou-a nervosa. Havia uma névoa cobrindo tudo, as montanhas ao longe, os topos das árvores do jard...