sexta-feira, 25 de junho de 2021

AS ESTRELAS QUE EU CONTEI - CAPÍTULO 4


Capítulo 4


E o que era destino? Na manhã seguinte, enquanto todos ainda dormiam (meus tios e primos já tinham ido embora e ainda era cedo demais para me aprontar para a escola), eu fui até a sala e, subindo em uma cadeira, alcancei o dicionário de meu pai. A professora já nos tinha ensinado sobre ordem alfabética, mas levei algum tempo para encontrar a palavra que eu queria: destino. Li a definição:

 “DESTINO: poder superior à vontade do homem que se supõe fixar de maneira irrevogável o curso dos acontecimentos; fatalidade

2. sucessão de factos que constituem a vida de alguém e que se crê serem independentes da sua vontade; fado

3. fim para que se reserva alguma coisa; uso; emprego; aplicação

4. lugar a que se dirige alguém ou alguma coisa; rumo; direção.”

Não entendi muito bem, nem mesmo após ler várias vezes, e então, decidi procurar ‘fatalidade’:

“Acontecimento que não se pode evitar, adiar ou alterar. Acontecimento com consequências graves ou trágicas; desgraça.”

Após ler aquela definição, meu coração deu um salto enorme dentro do peito: eu sabia muito bem o que significava ‘desgraça,’ pois eu a escutara antes, ao ouvir adultos comentando sobre um acidente fatal que ocorrera na cidade há alguns meses. Eu entendi: minha vó temia uma desgraça na vida de nossa mãe.

O peso daquela palavra me oprimia: desgraça. Coisas ruins, acontecimentos inesperados, insuportáveis, tristes, conforme minha professora me explicara, reforçando o que eu tinha compreendido. É claro que ela depois me perguntou o porquê de eu desejar saber o significado daquela palavra, e eu menti, dizendo tê-la escutado em um filme na TV. 

Passei algumas noites sem dormir direito. Eu temia dormir e sonhar novamente com vovó. Eu não queria mais saber dela. Nada contei aos meus pais ou a Sara, pois não desejava preocupá-los. Na escola, minha atenção tornou-se dispersa, e logo minha professora mandou bilhetes para minha mãe, chamando-a para uma conversa. E mamãe foi ter com ela, e depois me chamou para uma conversa séria enquanto minha irmã tomava banho. Ela acariciou meus cabelos, me pegando no colo e me abraçando. Estávamos sentadas no sofá da sala. Ela murmurou:

-Você cresceu tão rápido, filha...

Eu escutava a voz dela soando dentro de mim, a cabeça encostada em seu peito. Eu a ouvia respirar vagarosamente, e as batidas do coração uma após a outra. Me lembro de que quando ela me segurava daquele jeito, eu ficava morrendo de medo de que as batidas do coração dela parassem, pois a professora nos tinha ensinado que quando as pessoas e animais morriam, o coração deles deixava de bater. Estar tão próxima à minha mãe que eu podia ouvir as batidas do seu coração me deixava, ao mesmo tempo, tranquila e angustiada. Eu não sabia o que era morrer. Só sabia que quem morria não era mais visto. Estava perdido para sempre, como vovó, e que talvez pudessem ser vistos em sonhos estranhos, mas que na manhã seguinte, teriam ido embora.

Ela ergueu meu rosto, sentando-me no sofá ao lado dela, circundando com o dedo as minhas olheiras: 

- O que a está deixando angustiada, Chiara? Por que você anda tão calada, e por que não consegue dormir bem?

Eu baixei os olhos, sem saber o que dizer, enquanto as lágrimas caiam, independentes da minha vontade. Minha garganta apertada doía enquanto eu tentava segurar o choro, até que de repente, ele explodiu em soluços altos e sofridos. Mamãe parecia apavorada, a boca entreaberta, tentando me acalmar:

-Calma, filha! Me conte tudo. Calma... não chore... eu estou aqui, eu estarei sempre aqui com você.

Ela me abraçou de novo, me embalando, até que eu me acalmei. Então ela secou o que restava de lágrimas no meu rosto com aponta da sua bata indiana:

- Agora respire fundo... isso, mais uma vez... e mais outra... calma... me conte o que a está deixando assim.

- É que... eu não quero mais sonhar com a vovó. Então eu não quero dormir. Ela fica falando umas coisas estranhas, ruins... fala que eu preciso ser forte. Fala em desgraça. Eu não quero escutar mais.

Minha mãe arregalou os olhos:

-Mas... como assim, filha, que desgraça seria essa?

- Eu não sei! Eu só queria que ela parasse, mamãe.

Comecei a chorar novamente, e ela não sabia o que fazer ou como agir. Era desconcertante estar diante de um adulto que não sabia como lidar com uma criança. Ela tentava me abraçar, mas eu chorava mais ainda; então ela foi até a cozinha e me trouxe um copo com água e açúcar, me fazendo tomar até a metade, embora eu não estivesse com sede. Me acalmei. Naquele momento, Sara gritou do banheiro:

-Mããe! Terminei o banho! Quero uma toalha!

Mamãe gritou de volta:

-Já vou, Sara. Espere um pouquinho.

E olhando para mim:

- Escute bem, filha: não existe nada de desgraça, e quem está falando sou eu: sua mãe. A sua avó é só um sonho, alguém que não existe mais. Ela morreu. Ela se foi. Eu e seu pai e Sara estamos aqui. Não se preocupe com nada, eu vou levar você a um médico e ele vai receitar alguma coisa para ajudar você a dormir.

-Eu não quero dormir! Se eu durmo, ela aparece!

- Então vamos fazer uma coisa: eu vou falar com ela agora: - ela ergueu a voz: - Mamãe! Aqui é Vanessa, sua filha! Você está assustando a Chiara! Pare de dizer tantas bobagens para ela, me ouviu? Senão, eu vou colocar algumas pedras bem pesadas sobre o seu túmulo para você não sair nunca mais dele...

Ela disse aquilo e olhou para mim, e ambas começamos a rir. Sara chamou:

-Mamãe! Meus dedos estão ficando enrugados!

Nós rimos mais ainda, e mamãe foi andando até o banheiro, berrando:

-Eu já estou indo!

Sei que, depois daquilo, ela falou com papai a respeito. Eles conversavam à noite, depois que nós tínhamos ido dormir, e eu podia escutar as vozes deles murmurando entre as batidas do relógio de parede do corredor. Um dia, ela começou a pingar algumas gotas em um copo d’água e me fazer beber antes de dormir. Dizia que eram para que eu crescesse forte e saudável. Ela também dava as tais gotinhas à Sara. Às vezes, ela mesma as tomava. Depois das tais gotinhas, eu não tive mais problemas para dormir, e de manhã, não me lembrava de nenhum sonho. Minha vida voltou ao normal, e aos poucos, fui me esquecendo de vovó. As crianças geralmente esquecem-se com facilidade daquilo que elas fazem questão de não lembrar.

A vida corria normalmente, e as férias de final de ano chegaram. Uma tarde, eu, mamãe e Sara estávamos assistindo desenhos na TV quando ouvimos um motor de carro parando na entrada da casa e uma buzina. Mamãe olhou pela janela:

- Pedro! O que?... de quem?...

Nós nos juntamos a ela à janela: papai estava em um carro azul, de teto creme. Papai, todo sorridente, ficava ainda mais bonito dentro dele: ele convidou:

- Quem quer dar uma volta?

Nós três fomos até a calçada, e vimos os vizinhos curiosos nos olhando, enquanto papai dava gargalhadas alegres, enlaçando mamãe pela cintura e fazendo-a girar. Depois ele nos ergueu, uma por vez, dando urros de alegria. Entramos no carro reluzente, e ele foi explicando:

-Comprei esse carro ontem. Adivinhem só: ganhei um aumento de salário e uma promoção! Sou gerente regional e não vou mais precisar viajar vendendo coisas! Quero dizer, só de vez em quando, não sempre... vou ficar muito mais tempo em casa com vocês, minhas bonecas! 

Mamãe dava urros de alegria enquanto nós, crianças, ajoelhadas no banco traseiro, víamos a paisagem que ficava para trás.  O carro era muito confortável, e parecíamos tropeçar em nuvens a cada vez que papai passava sobre uma protuberância na estrada. Depois, ele nos ensinou a dizer o nome do carro: Aerowillys. Fiquei repetindo aquele nome, deixando-o rolar sobre a minha língua enquanto a paisagem passava rapidamente pela minha janela. Eu acariciava o banco macio do carro, chegando perto do encosto para sentir o cheiro do couro. Nós nuca tínhamos possuído um carro antes – segundo meus pais, eles eram coisa de ente rica. Somente pessoas “abastadas”, como Tia Samira e Tio Helvécio, podiam ter carros.

E papai, que estava de férias do trabalho, ficou a semana toda em casa conosco, nos levando para passear em vários lugares. Até concordou quando mamãe pediu a ele que nos levasse para visitar Tia Samira. Quando ela nos ouviu parando em frente à sua casa, meu pai buzinando freneticamente, ela veio correndo. Nós acenamos para ela de dentro do carro, e papai saiu, dando a volta para abrir a porta para mamãe. De mãos dadas, os dois foram em direção de tia Samira, que não parecia muito feliz, as sobrancelhas mais arqueadas que de costume. Enquanto isso, Joana e Décio entraram no banco de trás e se sentaram conosco, olhando o carro por dentro. Eles diziam coisas como “Uau!” “Lindo!” e enquanto eles e minha irmã conversavam eu tentava prestar atenção ao que estava acontecendo lá fora.

Tia Samira dizia:

- Nem sequer faz uma reforma decente na casa, e compra um carro desses! Que falta de juízo!

Meu pai parecia querer bater nela, de tanta raiva, e olhava para mamãe, gritando: 

- Eu não avisei que seria um aborrecimento vir até aqui? Ela é uma invejosa, eu vivo dizendo isso e você não acredita, Vanessa! Vamos embora agora!

Mamãe também parecia um tanto zangada, e seguiu papai até o carro, olhando para tia Samira com uma expressão magoada. Tia Samira ficou à porta da casa, olhando-nos, enquanto papai entrava no carro e mandava nossos primos saírem. Ele deu partida no carro e fez uma curva fechada, derrubando de propósito um boneco de ferro que enfeitava o portão de Tia Samira. Ainda pude ouvir os gritos dela: “Cuidado, seu louco, olha só o que você fez!”

Depois daquele dia, ficamos bastante tempo sem ter notícias de Tia Samira, até que em um dia de domingo, tio Helvécio apareceu lá em casa. Mamãe estava tomando banho, e papai o deixou entrar, dizendo:

-Você e as crianças são sempre bem-vindos, Helvécio, mas já estou cheio de Samira se metendo nas nossas vidas. 

-Mas eu vim justamente por causa dela. Ela quer se desculpar, Pedro. Se arrependeu do que disse. Samira se preocupa demais com a irmã e os sobrinhos, você sabe, ela é muito dominadora, mas é uma ótima pessoa e faz tudo por eles... aliás, ela sempre faz tudo por todo mundo.

Meu pai respirou fundo antes de responder:

-Sinceramente, Helvécio, não sei como você a aguenta. Samira sempre trata você tão mal! Ela vive cortando a sua fala, interrompendo suas ideias e dando ordens em você. Você é um cara muito legal, um sujeito bacana, rico, dá a ela tudo do bom e do melhor. Ela deveria tratar você com mais respeito.

Tio Helvécio arregalou os olhos, e em seguida baixou-os, olhando para a ponta dos sapatos, e até nós, crianças, sentimos pena dele. Imediatamente, meu pai percebeu o quanto o deixara magoado, e se corrigiu:

-Desculpe, eu não... eu não queria...

Mas Tio Helvécio o interrompeu:

-Você está certo, amigo, mas é o jeito dela. Samira é assim. Mas eu tenho certeza de que ela é uma boa pessoa, uma mulher de caráter.

Papai concordou com ele, balançando a cabeça freneticamente:

-Claro, claro, claro, eu nunca disse o contrário... desculpe. Além disso, eu não tenho nada a ver com a vida de vocês. Bem... se ela realmente sente muito e se estiver tudo bem para a Vanessa, por mim... ela pode voltar aqui.

Naquele momento, mamãe entrou na sala, os cabelos ruivos ainda molhados:

-É claro que ela pode. É minha irmã, meu único parente vivo. Nós somos uma família, e uma família tem lá seus desajustes.

E a partir daquele dia, Tia Samira voltou a frequentar a nossa casa – até tornou-se mais boazinha com papai durante um tempo, mas logo voltou a ser a Tia Samira de sempre, e estava tudo bem.

Aquele foi o melhor verão de nossas vidas: íamos de carro visitar as cidades vizinhas, e meus tios e primos iam conosco, no carro deles. Chegamos a nos hospedar por cinco dias em um hotel, onde havia uma grande piscina, quadra de esportes e área de lazer para crianças. Mamãe e tia Samira, bronzeadas, viravam todas as cabeças masculinas por onde passavam. Principalmente mamãe, com seus olhos de gata e cabelos ruivos. Já meu pai – forte, musculoso, bronzeado e de riso fácil – recebia olhares diretos de outras mulheres, o que ele às vezes retribuía com um sorriso discreto, o que causou alguns breves desentendimentos com mamãe, que incentivada por tia Samira, ardia em ciúmes. Já tio Helvécio, sempre discreto e apagado, estava sempre conosco, mas mantinha-se neutro. 

Nunca mais me esquecerei daquele verão maravilhoso que vivemos, todos juntos, e da noite em que meu pai pegou um violão emprestado de alguém no hotel (eu nem sabia que ele tocava) e dedilhando-o, cantou uma canção romântica, dedicando-a à mamãe. As outras mulheres pararam para ouvi-lo, e percebi que papai poderia ter se tornado um cantor de sucesso, se quisesse. Durante a pequena apresentação à beira da piscina, enquanto o sol se punha, pude notar que Tia Samira mantinha os olhos presos em papai o tempo todo. Várias vezes, ela engoliu em seco e levou a mão discretamente ao canto dos olhos. Eu era apenas uma criança, mas sabia o que significavam aqueles olhares, aquelas lágrimas furtivas.

Tive muita pena de meu tio. Em um impulso, fui até ele, que estava sentado em uma cadeira de piscina, e enlacei seu pescoço por trás. Surpreso, ele me olhou e acariciou meus cabelos. Notei o quanto ele parecia triste. Meu tio não era um homem feio, mas estava longe de igualar-se ao meu pai, tanto em aparência quanto em magnetismo.

Quando estamos vivendo certos momentos da vida, nós nunca sabemos, ao certo, quanto tempo eles vão durar, ou quando se tornarão apenas lembranças dolorosas de dias que jamais voltarão. Eu era uma criança, e nem pensava nessas coisas. Sentia-me segura ao lado de minha família, apesar das pequenas brigas e crises de ciúmes, invejas escondidas e indiretas mais do que diretas. Nós éramos felizes, e nos amávamos. Nós protegeríamos uns aos outros para sempre, e até mesmo papai protegeria Tia Samira se fosse necessário. Eu me sentia totalmente segura, com todas as possibilidades que a vida tinha para me oferecer a felicidade. Nem passava pela minha cabeça que meu pai era um homem muito sonhador, e que talvez essa característica pudesse ser um aspecto negativo em nossas vidas, como tia Samira vivia repetindo para mamãe. Pois eu confiava no amor dele por nós.

Eu às vezes me pegava imaginando meus pais idosos, e que eu tomaria conta deles. Pensava no meu primeiro namorado, na minha formatura, na minha festa de quinze anos, no meu casamento. Eu também conversava muito com Sara sobre o que seríamos quando crescêssemos. Ela queria ser professora, e eu, escritora. Sonhar era tão fácil! Não havia nenhum impedimento para que nós sonhássemos tão alto quanto queríamos. Papai ia muito bem no trabalho, e nossa vida tinha melhorado muito. Ele estava começando a guardar dinheiro para o nosso futuro, como ele mesmo dizia: o futuro das suas meninas. Nossos estudos e sonhos.


 (CONTINUA...)


terça-feira, 22 de junho de 2021

AS ESTRELAS QUE EU CONTEI - Capítulo 3


 Capítulo 3

Lá pelos meus oito anos de idade, quase um ano após minhas estranhas visões com a vovó e as fadas pararem, eu comecei a ter sonhos igualmente estranhos. No primeiro deles, eu me vi andando em um caminho de terra entre árvores altas, e uma nesga de céu muito azul incidia sobre a estrada de terra. Eu não sabia como tinha ido parar ali, naquele lugar improvável, onde tudo era tão real e as cores eram tão diferentes do que eu estava acostumada a ver.  

De repente, vindo ao meu encontro, uma silhueta feminina se desenhou ao longe. Aos poucos, a mulher que se sentava sob a nossa árvore no quintal – minha avó se fez conhecer, sorrindo para mim. Quando ela chegou bem na minha frente, parou e me estendeu a mão, que eu segurei, dizendo:

-Eu sei quem você é. É a minha avó Dora.

-Isso mesmo, minha querida, sou sim. Já nos conhecemos. Está tudo bem com você?

- Tudo... mas você não falava antes.

Ela sorriu:

-Verdade. Mas aqui nós podemos conversar, lá não podíamos. 

Subitamente me lembrei de que aquela mulher que estava falando comigo e eu não pertencíamos ao mesmo mundo, e com a voz trêmula, indaguei: 

-Você... está morta?

Ela ficou séria de repente, e me olhando nos olhos, perguntou-me:

-Pareço morta para você?

Neguei com a cabeça.

-Então eu não estou. Quero que você sempre se lembre bem disso: ninguém está morto de verdade.

As últimas palavras dela se perderam em um eco dentro da minha cabeça enquanto eu abria os olhos para o meu quarto. Eu sabia o que eram os sonhos, e sempre que eu tinha algum sonho ruim e corria para a cama dos meus pais, mamãe afirmava, como qualquer mãe faria, que tudo era fruto da minha imaginação, e que nada daquilo que eu via enquanto eu dormia era real. Mas eu sabia, de alguma forma, que daquela vez não tinha sido apenas um sonho. Eram reais o cheiro das árvores, o céu, as cores, o chão de terra batido sob os meus pés nus, as rugas no rosto daquela que era minha avó e que eu nunca conhecera em vida.  Assim, naquela manhã de domingo, eu me sentei para o café da manhã na nossa mesa da cozinha totalmente absorta em meus pensamentos. Papai estava em casa naquele dia. Todos estavam comendo e conversando alegremente, mas eu não comia nem participava da conversa, até que mamãe me perguntou:

-Que bicho mordeu você, Chiara?

Eu olhei para ela, a boca entreaberta, tentando encontrar as palavras para dizer o que tinha acontecido, quando elas brotaram da minha garganta da seguinte forma:

-Mamãe, me conte sobre a vovó?

Ela e papai se entreolharam. Somente Sara não tinha percebido que o rumo da conversa estava mudando, e distraída, brincava com sua bonequinha, fazendo-a caminhar sobre a mesa.

Mamãe gaguejou:

-Por que você quer saber, filha? Que pergunta é essa, agora?

-Não sei... é que... de repente, me deu vontade de saber a história dela.

Papai brincou:

-Pretende escrever sobre ela em seu caderno de histórias?

Achei a justificativa bem plausível, e afirmei com a cabeça:

-Hum-hum! Mas para isso, tenho que saber sobre ela.

Papai olhou para mamãe, o semblante sério e preocupado, e eu não sabia por que uma pergunta tão simples e direta causara tanto constrangimento. Mamãe pigarreou, e tentou disfarçar, colocando mais um biscoito no prato de Sara, mas eu insisti:

-Vai me falar sobre ela ou não?

Papai interferiu:

- Bem, Vanessa, não acha que a menina tem o direito de saber quem foi a avó dela?

O tom dele era um pouco irônico, e mamãe o fuzilou com os olhos, mas me olhando, respondeu:

-Bem... acho que... não tem problema falar sobre minha mãe para você, afinal, ela era sua avó. Bem, o nome dela era Dora. Ela só teve duas filhas, ficou doente e morreu aos setenta e cinco anos. Isso é tudo.

Bati na mesa:

-E não aconteceu nada no meio? 

-Aconteceu sim, aconteceram... muitas coisas, mas eu não me lembro de tudo e não é bom ficar falando sobre quem já morreu. Atrai assombração.

Papai arregalou os olhos, e Sara finalmente começou a prestar atenção à conversa, enquanto papai ralhou com mamãe:

-Vanessa! Quer assustar as crianças? Ficou doida, é?

Mamãe levantou e começou a fazer o trajeto entre a mesa e a pia, retirando as xícaras sujas e desfazendo a mesa do café, os cabelos vermelhos dela soltos, dançando com o vento que entrava pela janela, os lindos olhos verdes arregalados:

-Não falo desse tipo de assombração, daquele tipo que eu já disse que não existe, mas um outro tipo, daquele que só fica dentro da cabeça da gente, criando minhocas. Entendeu? (Ela levou o indicador à testa, fazendo um movimento giratório para ‘maluco’). 

E a conversa acabou ali, com mamãe dizendo que nós íamos nadar no riacho antes do almoço (havia um riacho a poucos metros de nossa casa, uma pequena queda d’água onde alguns vizinhos se reuniam aos domingos). Aquilo foi o suficiente para me fazer esquecer de minha avó, e eu e Sara fomos procurar nossos biquinis. 

Porém, dias depois, o sonho com minha avó teve uma continuação:

Eu caminhava pela mesma estradinha de terra batida e já sabia exatamente o que aconteceria, que eu iria vê-la outra vez. De novo, ela parou bem diante de mim. Perguntei:

-Por que você está me trazendo aqui, vovó?

Ela se ajoelhou, para ficar da minha altura. Acariciou uma mecha do meu cabelo, afastando-a do meu rosto e colocando-a por trás da minha orelha (eu detestava quando os adultos faziam aquilo, mas fiquei quieta):

-Eu estou aqui porque eu queria conhecer você. E também porque... eu preciso te dar uma mensagem. A mensagem é a seguinte: você vai precisar ser uma garotinha muito, muito forte. E quando estiver triste, lembre-se sempre de ter me visto aqui, e que ninguém morre de verdade.

-Não entendo... 

-Não é agora que você precisa entender, Chiara. Mas no momento certo. Você e sua irmã são muito especiais.

Novamente, eu acordei em meu quarto, com os gatos ronronando sobre minhas cobertas.

Mais tarde, eu ouviria meu pai e minha mãe brigando novamente na cozinha. Aquilo acordou Sara, que pulou para minha cama, abraçando-se a mim. Tentei consolá-la:

-Não se preocupe, Sara, você sabe que eles brigam sempre, mas se adoram.

Ela choramingou:

-Não é isso...

-O que é então?

-É que eu tive um sonho estranho.

E então ela me contou um sonho muito parecido com o que eu acabara de ter.

Nós duas sabíamos que não adiantava contar nada a mamãe; ela tentaria mudar de assunto, ou acabaria nos dando uma bronca, caso insistíssemos. Juntas, chegamos à seguinte conclusão: iríamos perguntar sobre vovó à Tia Samira. 

E foi o que fizemos no final de semana seguinte, quando ela veio nos visitar com tio Helvécio e as crianças. Depois do almoço, tratamos de chamá-la para um canto do jardim longe da casa, enquanto mamãe ia tomar banho e papai e tio Helvécio assistiam a um jogo de futebol na TV. Eu e sara estivéramos ansiosas o dia todo por aquele momento. Os primos estavam em nosso quarto, brincando com um jogo de varetas que eu e Sara ganháramos de papai, portanto ninguém nos interromperia. Pegamos tia Samira pela mão e a levamos até o banquinho sob o pé de goiaba. Ela se sentou, disparando:

-Então, que mistério é esse?

Sara me cortou a fala:

-A gente quer... falar com você. Queremos perguntar uma coisa. Mas tem que ser rapidinho, antes de mamãe sair do banho, ela não pode saber.

Minha tia riu, franzindo as sobrancelhas, e eu continuei:

- Nós estamos sonhando muito com a vovó. Ela vem conversar com a gente. Queríamos saber mais sobre ela.

Tia Samira empalideceu. Balbuciou:

-Já perguntaram à mãe de vocês?

-Já, mas ela não fala nada! Era nossa avó, temos o direito de saber.

Minha tia riu diante da minha fala, acariciando meu queixo angustiado.

- Bem... não sei se devo desobedecer a mãe de vocês. Eu tenho uma ideia: se vocês sonham sempre com ela, por que não perguntam a ela?

Nós duas nos olhamos, frustradas. Sara choramingou:

- Porque não dá tempo. É tudo tão rápido, tia! A gente até se esquece.

Minha tia acariciou a cabeça de Sarah, traçando com os dedos o curso dos seus cabelos até a cintura. Finalmente, ela concordou:

- Ok. Vou falar sobre a avó de vocês. O nome dela era Dora.

- Isso a gente já sabe, - disse Sara. – Queremos saber coisas mais interessantes. Do que ela gostava? Ela era boa? Ela ...

Minha tia a interrompeu:

-Calma, calma! Vamos fazer o seguinte: eu falo e vocês escutam, está bem?

Dizendo aquilo, ela nos puxou para nos sentarmos ao lado dela.

-Bem... minha mãe – avó de vocês - era uma mulher muito forte e determinada.

Interrompi:

-O que é determinada?

- É quando uma pessoa sabe exatamente o que quer fazer, e faz o que quer.

-Então ela era igual à mamãe.

Ela concordou com a cabeça, após pensar um pouco. Tia Samira continuou, os olhos dela se revezando entre as nuvens rosadas do final da tarde e os nossos rostos ansiosos.

- Mamãe também era bastante mandona... às vezes era complicado, até para o avô de vocês, conviver com ela. Mas era uma ótima pessoa, sempre pensando no bem de todo mundo, querendo resolver todos os problemas. 

- Do que ela morreu? – perguntou Sara.

- Ela ficou muito doente, por muito tempo. Foi logo depois que sua mãe e seu pai se casaram. Naqueles tempos, sua mãe estava grávida de você, Chiara. Sua avó morreu pouco antes de você nascer.

Eu tinha oito anos na época daquela conversa, e Sara, sete. Contei nos dedos: oito anos eram toda a minha vida, e parecia um longo, longo tempo. De repente, me ocorreu uma pergunta:

-A vovó estava zangada com a mamãe quando morreu?

Minha tia arregalou os olhos:

-Por que você pergunta isso?

-Porque ela nunca fala da vovó pra gente. Nem quando a gente pergunta. Um dia ela levou a gente lá no cemitério e falou que a vovó estava enterrada ali, mas ela nem chorou, só colocou umas flores e então nós fomos embora. Por que ela está zangada com a vovó?

Minha tia, sem saber o que dizer, olhou no reloginho de pulso:

-Está ficando tarde! Vamos entrar porque daqui a pouco seremos devoradas pelos mosquitos.

Sara insistiu:

-Mas tia, a senhora ainda não nos contou tudo sobre a vovó!

Minha tia engoliu em seco, e tentou sorrir, já se levantando do banco e nos puxando pela mão em direção à casa:

-Vamos entrar. Outro dia eu conto mais. Além disso, daqui a pouco Vanessa vai ficar desconfiada da nossa ausência. Não digam a ela que eu falei sobre a avó de vocês, ou ela vai ficar uma fera... vamos indo, está escurecendo.

E foi tudo o que ela nos contou. Mas com toda certeza, de alguma maneira minha mãe ficou sabendo da nossa conversa. Eu acho que foi papai quem contou, pois quando estávamos chegando na casa, nós o vimos caminhando na nossa frente. Acho que ele escutou parte da nossa conversa. Ele não disse nada, apenas ficou muito calado e pensativo, fuzilando minha tia com os olhos a noite toda. Na manhã seguinte, domingo, a bomba explodiu, e foi no café da manhã, quando estávamos todos reunidos na cozinha. Tia Samira e Tio Helvécio tomavam seu café calmamente, e nós, crianças, já brincávamos do lado de fora, quando ouvimos os gritos de mamãe, que entrou na cozinha feito um furacão:

- Você é minha irmã, mas eu não te dou o direito de interferir na educação das meninas. Sou muito grata a você, Samira, e a você, Helvécio, mas eu não quero saber de interferências. Tem certas coisas que eu não quero contar agora e pronto!

Nós, crianças, nos entreolhamos; já sabíamos o que deveríamos fazer: nos aproximamos da janela da cozinha e nos sentamos debaixo dela, de onde poderíamos escutar toda a conversa. Joana e Décio tiveram um pequeno desentendimento em uma disputa sobre o melhor lugar para se sentarem, e eu os silenciei com um ‘sshh...’ zangado. Tia Samira respondeu:

-Desculpe, Vanessa, não quis interferir... é que elas me pegaram de surpresa e eu não sabia o que dizer.

Naquele momento, escutamos uma risada sarcástica de papai:

-Você, sem saber o que dizer, Samira? Você sempre tem o que dizer, mesmo quando nada lhe diz respeito.

Tio Helvécio tentou apaziguar a situação:

-Calma, pessoal, as crianças vão ouvir! Não briguem, discutir nunca é a melhor solução. Samira fez apenas o que achou melhor, e já pediu desculpas.

Tia Samira ralhou com ele:

-Não precisa me defender, Helvécio, isso é assunto de família.

Ela sempre fazia aquilo:  toda vez que tio Helvécio tentava dar uma opinião em questões familiares, ela fazia questão de lembrá-lo do quanto ele era ‘de fora.’  Mas ela nunca dizia nada daquilo em relação a papai, mesmo não gostando dele. Apesar de ser bem criança naqueles tempos, eu ficava com muita pena de Tio Helvécio, pois percebia que ele se sentia muito magoado, apesar de nunca tentar se defender ou responder. Minha mãe disse, já mais calma, referindo-se à irmã e ao cunhado:

- Vocês sabem o quanto mamãe foi contra meu casamento com Pedro. Sabem que tive que cortar relações com ela, e que por causa disso, ela nunca sequer nos visitava. Vivia dizendo que eu seria infeliz no casamento. Nem mesmo depois que adoeceu ela deixou que Pedro chegasse perto dela. Ela sequer conheceu as crianças. Por que trazer à tona coisas tão desagradáveis para elas?

Samira respondeu:

- Talvez porque elas vêm sonhando com ela quase todas as noites? Porque elas estão fazendo perguntas? Ou então... porque elas têm o direito de saber a verdade.

- Você não entende? Chiara tem apenas oito anos, e Sara, sete! São muito pequenas ainda.

- Mas então por que elas andam sonhando com a mamãe? Você sabe, eu sempre achei que elas... principalmente Chiara... são médiuns.

Mamãe ergueu novamente a voz:

-Eu não quero saber dessas coisas aqui, já bastava a mamãe. Vivia falando em espíritos, fantasmas e coisas do gênero. Crescemos assombradas pelas crenças dela. Minhas filhas são crianças normais.

-Sim, tão normais, que Chiara enxergava fadas no jardim.

Papai riu novamente:

-Ora, crianças têm imaginação. Deve ser por causa dos livros que a professora lê para elas na escola.

-É? – disse Tia Samira - Então por que as minhas crianças nunca viram nada disso?

Fez-se um silêncio mortal, e nós só escutamos cadeiras sendo arrastadas – eles estavam se sentando novamente; o pior da tempestade já havia passado. Nós crianças nos entreolhamos e decidimos que não haveria mais nada de interessante a ser ouvido, e pé ante pé, nos afastamos da janela, curvados, para não sermos vistos.

Então, naquele dia, ao ouvir a conversa, ficamos sabendo de parte da história: vovó não queria que nossos pais se casassem, e por isso, afastou-se de mamãe e de nós todos. Ela achava que meus pais não seriam felizes. E eu pensei, por um momento, após me lembrar de ter escutado tantas brigas dos dois, que talvez ela tivesse razão. Mas quando minha mãe e meu pai se olhavam, dava para sentir o quanto eles se amavam. A relação deles era apaixonada e tumultuada, feita de altos e baixos – mais baixos do que altos, ok, mas eles se amavam, e quanto a isso, não havia dúvidas.

A fim de não causar mais brigas de família, achei melhor seguir a sugestão de tia Samira e perguntar à vovó as coisas que eu desejava saber. Assim eu fiz, na próxima vez que eu a vi em um sonho, e ela me disse:

- Eu só queria tentar fazer com que sua mãe não fosse infeliz. Queria poder ter evitado o que está para acontecer. Só isso. Eu errei: não se pode ir contra o destino.


 (continua...)





quarta-feira, 16 de junho de 2021

AS ESTRELAS QUE EU CONTEI - Capítulo 2

 





AS ESTRELAS QUE EU CONTEI


Capítulo2

 

Revistinhas. Dezenas dela, sob a cama e o tapete do quarto. Mamãe nos dera uma caixa de madeira que ela mesma tinha pintado com desenhos de flores roxas que passeavam entre etéreas nuvens lilases. Ela dissera: “Guardem suas revistinhas aqui.” A caixa ficava aos pés da cama de Sarah. Naquela manhã de sábado, acordamos com os gritos nervosos de mamãe, que jogava as revistas com raiva dentro da caixa:

- Eu já cansei de pedir a vocês para guardarem as revistas! Da próxima vez, elas vão para o lixo!

Acostumadas às explosões emocionais de mamãe, eu e Sara nos entreolhamos, esfregando os olhos. Mamãe terminou de guardar as revistinhas, fechando a caixa com um estrondo e sentando-se na minha cama, colocou a cabeça entre as mãos, ajeitando o cabelo para trás e  dando um longo suspiro:

-Desculpem, meninas...

Dizendo aquilo, ela acariciou meus pés sobre a coberta e saiu do quarto. Eu e Sara sabíamos que seu destempero tinha a ver com papai, que tinha combinado de vir para o final de semana e mais uma vez desmarcara na última hora.

Mamãe e papai eram um casal peculiar: ambos eram ainda jovens e apaixonados um pelo outro (sendo que mamãe era muito mais responsável em suas atitudes do que papai, sempre impulsivo, sonhador e demasiadamente otimista); porém, mamãe andava muito cansada das viagens de papai. Quando ele estava fora, nós às vezes a pagávamos olhando pela vidraça da janela, o rosto perdido em algum lugar distante dentro de si mesma. Quando ele chegava em casa, ela não cabia em si de alegria, mas tentava contê-la o máximo possível, talvez para mostrar a ele seu descontentamento por ele ter ficado ausente. Os dias em que papai estava em casa se intercalavam entre manhãs em que eles se sentavam à mesa no café da manhã, alimentando um ao outro com morangos frescos e olhares apaixonados, e brigas terríveis, com portas batendo, mamãe se debulhando em lágrimas e papai saindo de casa e voltando bêbado no meio da noite.

Eu e Sara ficávamos no meio daqueles cumes emocionais, tentando não sermos demasiadamente afetadas por eles. Durante as brigas, papai costumava dizer:

-É essa sua irmã invejosa que te enche a cabeça de bobagens, Vanessa! Nunca percebeu que ela e Helvécio já não são mais apaixonados? Ela tem inveja de tudo, de nós, da nossa casa, da nossa vida.

Mamãe retrucava:

-Não use Samira para se safar das suas faltas, Pedro! Não é ela que passa a maior parte do tempo longe da própria família e nem Helvécio, que sempre foi um bom marido e um pai dedicado! E que motivos ela teria para me invejar? Ela é rica, jovem, bonita e tem um marido que está sempre por perto.

-Está me dizendo que eu não sou um bom marido para você e um bom pai para as meninas, Vanessa? Eu me mato de trabalhar para não deixar que nada falte a vocês três! Desisti do meu sonho de fazer faculdade de Agronomia porque você engravidou de propósito!

-De propósito? Por um acaso eu fiz as meninas sozinha, com o dedo? Que eu me lembre, você também colaborou! E esse seu tal ‘sonho de faculdade’ nunca passou nem sequer pelas eliminatórias de um vestibular. Você só ficava dependendo do seu pai, que aliás mandou dinheiro para você até morrer, e tocando aquele violão idiota e pensando em se tornar um cantor famoso!

-Você fala isso agora, mas naquela época, arrastava um caminhão por mim. Morria de ciúmes quando aquela sua amiga da escola... como era o nome dela? A tal Rosália... chegava perto de mim. Morria de ciúmes de qualquer garota que olhasse na minha direção. O que aconteceu com a gente, Vanessa?

Mamãe geralmente começava a chorar depois dessa pergunta, e papai, aproveitando-se de seu momento de fragilidade, se aproximava dela, falando baixinho:

-Eu amo você, Vanessa. Nunca deixei de te amar. Por favor, diga que ainda me ama.

Ela chorava mais alto, e papai acariciava seus cabelos, abraçando-a junto ao peito. Depois disso, ambos iam para o quarto, fechando a porta, e reapareciam mais tarde, felizes, trocando beijinhos e olhares significativos. Eu às vezes pensava que papai tinha razão, e que tia Samira invejava um pouco o casamento deles. Já tinha reparado o quanto ela fechava a cara quando via os dois se abraçarem. Mas eu amava tia Samira, e pensar qualquer coisa ruim a respeito dela era inconcebível. E nós todos (exceto papai) sentíamos o quanto ela nos amava: sempre mandando presentes para nós, crianças, dirigindo mais de uma hora para passar lá em casa para ver se as coisas iam bem sempre que possível e nos levando para passear durante as sumidas de papai, muitas vezes, deixando tio Helvécio sozinho por alguns dias, já que ele não podia viajar durante a semana porque precisava trabalhar.

Mas eu também notava que tio Helvécio amava minha tia muito mais do que a recíproca era verdadeira. Nunca os via se abraçando ou beijando em público, ou trocando olhares carinhosos, como meus pais. Quando havia qualquer demonstração de carinho por parte dele, tia Samira o espantava, dizendo algo como “Olhe as crianças!” Uma vez perguntei à mamãe o porquê daquilo:

-Mãe, por que tia Samira e tio Helvécio não se abraçam, como você e o papai?

-Ah, isso é coisa de adultos, Chiara. Minha irmã... sua tia é diferente de mim. Mais fria, acho. Mas eles se adoram.

Eu percebia que ela dizia aquilo sem muita convicção, e não conseguia me convencer.

Eu e Sara nunca brigávamos. Éramos muito unidas e defendíamos uma à outra, o que é raro entre irmãs. Não havia qualquer rivalidade entre nós. Éramos   grandes amigas, e qualquer criança que desejasse se aproximar de uma de nós, teria que, automaticamente, aceitar a outra. Ela era um ano mais nova que eu, o que não impedia que tivéssemos amigos em comum. Eu notava que a maioria dos nossos colegas de escola, quando se tratava dos irmãos, eram competitivos e desprezavam os irmãos mais novos. Eu nunca entendia aquilo. A amizade entre nós duas poderia ter durado a vida inteira, pois éramos cúmplices em tudo – até nas travessuras. Muitas vezes, eu “consertei” coisas que Sara tinha quebrado para evitar que ela levasse broncas, e quando eu não conseguia consertar, tratava de sumir com elas para que mamãe não as encontrasse quebradas. Nós nos respeitávamos e nunca houve rivalidade entre nós, mesmo quando recebíamos os presentes de Natal; não ficávamos comparando nossos presentes e encontrando motivos para pirraças e invejas, como faziam as outras crianças.

Minha mãe costumava dizer que nós duas éramos almas gêmeas. Tia Samira vivia pedindo a mamãe o segredo de ter duas irmãs que se amavam tanto, já que nossos primos, Décio, Joana e Gabriela, viviam se desentendendo e disputando a atenção dos pais.

Tia Samira e tio Helvécio tinham uma vida melhor do que a nossa, quando se tratava de dinheiro. Ele possuía duas lojas de tecido que rendiam um bom dinheiro, e minha tia se vestia muito melhor que minha mãe e nunca precisou trabalhar. Eu e Sara constantemente ‘herdávamos’ as roupas de nossas primas Joana e Gabriela, praticamente novas, e sempre caras. Assim, nos vestíamos muito bem também. Tia Samira dava de presente à mamãe seus vestidos e sapatos, praticamente novos, que ela usara apenas algumas vezes. Eram sempre tão felizes aquelas tardes em que Tia Samira chegava, carregada de bolsas cheias de roupas, e nós ficávamos a tarde toda experimentando e desfilando em frente ao espelho. Eu, Sarah e minhas primas também gostávamos de trocar roupas ou bijuterias; elas escolhiam alguma coisa nossa e levavam para casa, devolvendo na semana seguinte. Não havia qualquer sentimento de vergonha da nossa parte em receber, e nenhuma espécie de orgulho ou vontade de humilhar da parte de minha tia e primas ao doar. Éramos uma família.

Eu também pegava Tia Samira colocando uma nota de dinheiro enroladinha na mão de minha mãe, discretamente. Minha mãe murmurava: “Não precisa, irmã!” E tia Samira respondia, enfiando o dinheiro no bolso ou na bolsa de minha mãe: “Compre alguma coisa para você ou as crianças.” Aqueles momentos eram muito normais entre as duas, e Sara e eu crescêramos testemunhando-os. Mas mamãe sempre pedia que não disséssemos nada a papai.

Era mais difícil visitarmos Tia Samira, pois nós não tínhamos carro, e ela vivia longe. Mas a principal razão era que papai não gostava dela. Quando Tia Samira nos convidava, era sempre quando papai estava viajando. Ela nos buscava de carro e nos levava de volta no dia seguinte ou no final do dia, dependendo se tínhamos escola no outro dia ou não. Foi uma época maravilhosa da nossa vida, pois a casa de Tia Samira e tio Helvécio era linda... tinha um jardim enorme e até uma casa na árvore onde adorávamos brincar. Quando íamos para lá, Tia Samira nos hospedava no apartamento de hóspedes, um anexo que ficava junto à casa com quarto, sala, cozinha e banheiro só para nós. A casa de tia Samira era bem grande, e nossos primos tinham todos os brinquedos que uma criança poderia sonhar – e nenhum problema em emprestarem todos eles para mim e Sarah.

Mas eu às vezes percebia que mamãe e tia Samira tinham longas conversas, sentadas entre as samambaias da varanda. Naqueles momentos, elas nos enxotavam para o jardim. Quando tais conversas terminavam, mamãe quase sempre parecia mais triste.

As duas eram muito unidas e se adoravam. Tia Samira era superprotetora em relação a nós três. Era nosso porto seguro, já que papai passava tanto tempo fora. Tio Helvécio também era sempre gentil, solícito e procurava não interromper muito as nossas interações. Ele chegava do trabalho, abraçava a mim e a Sara, conversava um pouco com os filhos, cumprimentava minha irmã, jantava conosco e logo se recolhia no escritório, onde ficava até a hora de dormir. Tio Helvécio  parecia ser um homem um pouco triste, como minha mãe. Mas eu me perguntava como alguém poderia ser triste ao lado de uma mulher como minha tia – tão linda, engraçada, inteligente e forte.

Quando retornávamos para casa após aquelas estadias, eu me sentia tão feliz! Apesar de adorar a casa de minha tia, me sentia muito mais à vontade na nossa casa velha, usando um vestido velho entre os gatos, patos, galinhas e meus cadernos de histórias. Durante horas, eu me sentava na cama e escrevia histórias de aventuras sobre algumas crianças que moravam com fadas em uma casa na árvore. As histórias eram, claro, sobre nós. Certa vez, um novo personagem se intrometeu em uma das histórias: Evelina, a Bruxa. Mas Evelina era uma bruxa boa, que ajudava a todas as crianças. Na verdade, eu ainda não sabia, mas Evelina era uma representação de tia Samira.

 


(CONTINUA...)





 

terça-feira, 15 de junho de 2021

AS ESTRELAS QUE EU CONTEI - CAPÍTULO 1

ANTES DE COMEÇAR A LER, SAIBA QUE ESSA HISTÓRIA SERÁ LONGA.


Trata-se de um conto em capítulos, uma novelinha, uma história. Não vai ser curto. Se não tiver paciência, não leia, mas por favor, não deixe comentários a respeito da extensão do texto, pois não estou preocupada com isso. 





 AS ESTRELAS QUE EU CONTEI


Capítulo 1


Quando criança, eu amava passar muito tempo à janela da casa, olhando o quintal. Não que tivéssemos um jardim maravilhoso – ele era pequeno e simples, com um quadradinho de grama, um pé de tangerina e algumas flores em canteiros na frente da casa, e algumas árvores frutíferas e chão de terra batida nos fundos – mas para mim, ele era um reino encantado, perfeito, onde minha mente e minha imaginação se uniam para criar histórias e seres que encantavam a minha vida de menina. Frequentemente, mamãe me chamava: “Chiara, vá fazer seu dever de casa!” “Filha, feche a janela, vai chover!”

Para mim, cada cantinho de jardim era um mundo, uma cidade. Eu me tornava tão pequenina quanto uma joaninha, escalava pedras, subia em árvores e me sentava em balanços presos nos espinhos das roseiras. Quando chovia (esses eram meus dias favoritos) a enxurrada que escorria da corrente presa ao telhado e que passava pela valeta na lateral da casa, entre a calçadinha de cimento e o gramado, era um rio caudaloso.

Eu também gostava de desenhar e recortar bonecas de papel, dando-lhes nomes que eu escrevia em suas costas. Com elas, criava histórias, construía famílias, travava amizades e romances duradouros. Envolvia minhas bonecas e bonecos de papel em tramas que eu copiava das novelas da TV e do cotidiano que me cercava.

Nunca tive dificuldades em escrever redações na escola; enquanto as outras crianças reclamavam, eu enchia páginas e mais páginas com minhas histórias e relatos. Eram tantas, que a professora passou a limitar a extensão dos meus escritos: “Chiara, sua história tem que começar e terminar na mesma página, ok?” Me sentindo tolhida, pedi à minha mãe um caderno onde eu escrevia à vontade as minhas histórias, e depois, eu o escondia sob as roupas do armário.

Nunca fui uma criança com muitos amigos. Preferia brincar com minha irmã Sara, um ano mais nova do que eu, ou então aguardava as visitas dos meus primos (minha mãe tinha uma irmã, Tia Samira, casada com meu tio Helvécio. Eles tinham três crianças cujas idades se aproximavam das nossas – Joana, Gabriela e Décio. Eles moravam em uma cidade vizinha e às vezes vinham passar o final de semana conosco).

Meu pai era representante comercial e assim trabalhava muito e viajava muito a trabalho; por isso, eu, minha mãe e Sara ficávamos muito tempo sozinhas em casa. Papai às vezes chegava a passar um mês fora de casa, cuidando dos negócios. Quase todos os dias ele telefonava à noite, e nós três nos juntávamos em volta do telefone vermelho brilhante da sala de estar para contarmos a ele o que tínhamos feito durante o dia. Mas quase sempre chegava aquele momento em que mamãe nos dispensava para ter uma conversa privada com papai. Às vezes, ela alterava a voz, mas logo começava a sussurrar. Quando aquelas conversas aconteciam, eu percebia seus olhos inchados e vermelhos. Uma vez ouvi tia Samira dizendo: “Você precisa dar a Pedro um ultimato, Vanessa.” Pensei que ‘ultimato’ era algum presente de Natal, já que estávamos em dezembro, e entrei na cozinha, onde as duas conversavam, perguntando: “Onde se compra esse tal de ultimato?” As duas se entreolharam e riram, mas minha mãe logo me enxotou da cozinha, dizendo: “Em nenhum lugar onde criança enxerida não deveria estar.” 

As ocasiões em que papai vinha para casa eram muito festivas para mim e Sara. Minha mãe ficava feliz também, mas frequentemente, ela se isolava, pensativa e parecia estar mais triste do que feliz. Papai gostava de colocar música para nós no toca-discos e nós dançávamos o ‘twist’ com ele até ficarmos cansadas. Mamãe nos olhava do sofá, o semblante triste, mas rindo de vez em quando. Finalmente, papai a chamava para dançar também; ela negava com a cabeça, pedindo a ele que a deixasse em paz, mas acabava cedendo. Alojada nos braços do meu pai, minha mãe fechava os olhos e se deixava conduzir por ele, enquanto nós, crianças, olhávamos. Tia Samira e meu pai não pareciam ser grandes amigos, e sempre que ela vinha nos visitar e meu pai estava em casa, os dois ficavam trocando farpas o tempo inteiro. Tio Helvécio tentava colocar panos quentes para evitar uma discussão acalorada, o que nem sempre ele conseguia. Minha mãe afastava minha tia, pegando-a pela mão, e as duas iam brigar no quarto, pois minha mãe achava-se na obrigação de defender o marido, em sua própria casa, dos ataques da irmã.

Minha mãe era uma mulher linda: alta e magra, longos cabelos ondulados em tons de ruivo escuro, olhos verde-garrafa e algumas sardas pequeninas espalhadas sobre as bochechas e o nariz. Minha tia Samira era também muito bonita: alta, porém mais forte e curvilínea que mamãe, pele muito alva e perfeita, longos cabelos castanho-escuros, olhos negros com cílios muito longos e espessos e sobrancelhas arqueadas que a deixavam com cara de zangada, mesmo que ela estivesse sempre de bom humor (a não ser quando papai estava perto).

Já papai, segundo eu escutara uma vizinha comentando com outra na calçada, enquanto eu voltava para casa da escola (elas não me viram caminhando logo atrás delas), era um “pedaço de mal caminho.” Meu pai era moreno, alto, tinha olhos azul-escuros de um tom que eu nunca vi em ninguém mais. Usava uma barba negra e bem aparada, tinha o sorriso largo e dentes muito brancos, queixo levemente quadrado e lindas pernas, segundo mamãe. 

Eu e Sara tentávamos ser felizes no meio daquilo tudo – ocasionais desentendimentos, ausências de papai e birras de nossa tia Samira, pois amávamos mamãe, papai e nossos tios e primos, então dizíamos a nós mesmas – e uma à outra – que aquilo tudo não passava de ‘coisa de adultos’ e que nada nos dizia respeito. 

Às vezes, tio Helvécio e meu pai bebiam um pouco além da conta naqueles finais de semana em família, e os dois costumavam sair juntos e só voltavam de madrugada. Passavam a noite jogando sinuca no bar da cidade, o que deixava mamãe e tia Samira muito bravas. Mas ao mesmo tempo, a gente gostava muito quando eles saíam e nos deixavam sozinhas, pois fazíamos bolos e pipocas e nos sentávamos em frente à TV para assistir maratonas de filmes sem que os homens interrompessem a todo momento dizendo que estavam com fome. Minha mãe e minha tia também aproveitavam para fazer a manicure uma da outra, e também cortavam nossos cabelos, o que detestávamos.

Assim, crescemos naquela cidadezinha pequena e pacata, sem muitos sobressaltos, sendo felizes com podíamos e aceitando a vida como ela era. Se minha mãe tinha alguma tristeza, ela era apenas em relação ao nosso pai, já que ele passava tanto tempo fora. Se não fosse por isso, até que nós éramos uma família bastante divertida e apreciada por todas as pessoas do nosso bairro de classe média. 

Eu continuava escrevendo as minhas histórias baseadas não apenas em criaturas que eu achava interessantes e que faziam parte da minha vida, mas também na minha imaginação fértil – e às vezes, eu não sabia onde começava a imaginação e terminava a realidade. Eu costumava ver coisas no jardim. Nunca comentava sobre elas com ninguém porque eu achava que elas eram normais e que todo mundo as via. 

Por exemplo: quando eu era bem pequena, havia uma senhora bonita, meio-gordinha, que costumava sentar-se no banco de madeira que ficava sob o pé de goiaba e me observar brincar. Nunca tive medo dela. Ela estivera sempre ali, desde que eu me lembrava de mim mesma. Nunca estranhei o fato de ela desaparecer sempre que chegava alguém. Quando eu estava com Sara, ela nos observava e fazia sinal para mim pedindo que eu ficasse em silêncio sobre ela, e eu obedecia porque achava aquilo normal. Ela não representava nenhuma ameaça para mim, minha irmã ou qualquer membro da minha família, e só de olhar para ela, eu sabia que ela era uma boa pessoa.

Também não me lembro de ter, alguma vez, conversado com ela. Mas perguntei à minha mãe o porquê de algumas pessoas não falarem nunca, e ela me explicou que algumas pessoas eram mudas ou surdas e mudas. Assim, fiquei pensando que a senhorinha de branco talvez fosse uma delas. 

Eu também costumava enxergar criaturinhas pequenas e quase transparentes sentadas nos galhos das árvores ou nas corolas de flores. Elas me ignoravam completamente, e quando comecei a aprender sobre os insetos na escola, achei que talvez o que eu via fossem insetos, embora se parecessem com pessoas pequenininhas. Nunca perguntei a nenhum adulto sobre elas, porque não é natural que as pessoas fiquem indagando sempre às demais pessoas sobre cada coisa que enxergam. Eu às vezes tentava capturá-las, mas minha mão passava através delas sem que elas sequer percebessem, e então eu acabei desistindo. Deixava-as em paz, e elas também faziam o mesmo. Nem sei se me viam. Eram pessoas semitransparentes, esverdeadas ou acinzentadas, que usavam roupinhas esvoaçantes e andavam sempre descalças. Tinham cabelos longos, geralmente brancos ou alaranjados. 

Um dia, quando eu tinha seis anos, a professora da escola nos levou um grande livro todo colorido; um conto de fadas. Antes, ela sempre nos lia histórias de animais falantes, príncipes, princesas e castelos encantados. Aquele era o nosso primeiro conto de fadas. Ao ver as figuras, imediatamente pensei nas criaturinhas que eu sempre via no jardim, e apontei-as, gritando:

- Eu já vi as fadas, professora! Elas moram lá em casa. 

A professora e as outras crianças começaram a rir de mim, e ela respondeu:

-Chiara, não é possível que possamos ver fadas, porque elas não são reais. Estão apenas nas histórias e na imaginação. 

As outras crianças riram mais ainda, e eu insisti:

- Não, eu tenho certeza de que são elas. Um pouco diferentes, mas são elas sim!

Aquilo causou muitas gargalhadas, e percebi que eu nunca mais deveria tocar no assunto das fadas. Com o tempo, entretanto, deixei de vê-las, após meu sétimo aniversário. A senhorinha que eu enxergava também nunca mais foi vista, mas acabei por identificá-la quando mamãe nos levou ao cemitério e nos mostrou:

-Aqui é onde a avó de vocês está descansando. Seu nome era Dora.

Ela colocou algumas flores sobre o túmulo, e quando olhei a fotografia de minha avó Dora sobre a lápide, imediatamente identifiquei a senhora que me visitava. Mais uma vez, eu me calei, pois não queria ser alvo de mais risadas ou de broncas de minha mãe. Mas aquele dia foi como um marco em minha vida, pois mesmo sendo uma criança pequena, entendi que eu era diferente das outras crianças, mesmo que não compreendesse a dimensão daquela diferença. Só sabia que era melhor para todos que eu não mais comentasse com as outras pessoas sobre ela.

Crescer nos anos setenta, entre flores, símbolos hippies e sinais de paz e amor, pantalonas e batas indianas, incensos e muito cheiro de maconha saindo da casa vizinha, foi uma experiência agradável. Nossa casa, herdada de meus avós paternos, era simples e antiga, precisando de reformas, e as janelas envidraçadas pintadas com tinta óleo branca já estavam começando a descascar. De vez em quando meu pai dava mais uma camada de cal do lado de fora da casa, “para branquear.” Eu e Sara compartilhávamos o mesmo quarto, nossas caminhas cobertas por colchas de retalho feitas por minha mãe e um tapete redondo e colorido entre elas, feito de retalhos de malha tricotados. Nosso armário tinha pertencido a vovó, e era de madeira com um espelho de cristal na porta, e ela sempre rangia quando a abríamos. Sobre ele, ficavam guardados os nossos brinquedos. Entre as nossas camas ficava a janela do quarto, que tinha uma cortina de voil branca, a barra com joaninhas e borboletas bordadas por mamãe. Sob a janela, havia uma mesinha de cabeceira, entre as camas.

No canto junto à porta de entrada mamãe colocara um aparador e duas cadeiras de madeira, onde nos sentávamos para fazer nossos deveres da escola.

O chão da casa era de madeira, e fazíamos barulho quando pisávamos com sapatos de saltos de couro, pois a casa tinha um porão onde meus pais guardavam móveis velhos e coisas das quais não mais precisavam. O teto era de tábuas de madeira também pintadas de tinta óleo branca, como as janelas. A casa tinha pé direito alto, e os fios de luz ficavam visíveis nas paredes. 

A cozinha, que era o maior cômodo da casa, era simples: piso de cimento queimado e uma grande mesa de madeira com quatro cadeiras em volta e banquinhos para visitas enfileirados no canto da parede do lado direito da porta. Do lado esquerdo, sob a janela lateral, ficava o fogão antigo, de ferro. Mamãe fazia questão de manter sempre um vaso de flores do campo frescas sobre a mesa. A pia era enorme, daria para tomar banho dentro dela. As janelas imensas (havia duas) davam uma para os fundos, e outra para a lateral da casa. O quarto dos meus pais era um espetáculo à parte: cangas de Bali coloridas faziam a vez de cortinas, e a colcha da cama era indiana, de cetim azul Tiffany com flores vermelhas e muitas almofadas. O tapete vermelho com desenhos de flores era antigo, e pertencera a mãe de minha mãe. Também havia um grande armário de madeira antigo igual ao do nosso quarto, uma penteadeira cheia de vidros de perfume e cremes de barbear. Havia no ar muito exotismo e sensualidade. Minha mãe fabricara um dossel de voil e o colocara em volta da cama, dando um ar oriental ao ambiente. Minha mãe era muito habilidosa, e costumava vender alguns de seus trabalhos manuais: colchas, tapetes, cortinas.

A sala era o maior cômodo da casa, e havia um sofá de quatro lugares de veludo verde musgo, muitas almofadas enormes jogadas pelos cantos, nas quais adorávamos nos esticar para assistir TV, uma estante onde ficavam a TV e um toca-discos e as caixas de som. Do alto da estante, uma enorme samambaia chorona cujas folhas chegavam ao tapete. Eu amava a nossa casa velha! Era a casa onde eu me sentia segura, com galinhas e patos nos fundos do quintal e dois gatos que dormiam nas cadeiras da varanda – e ocasionalmente, nas nossas camas.


(CONTINUA)







segunda-feira, 7 de junho de 2021

A PERGUNTA RETÓRICA



Uma história baseada em fatos reais.


Foi logo após o funeral do pai, quando todos estavam reunidos na sala de estar de uma das irmãs, que a mãe, pensativa, deixou escapar uma frase que mudaria a vida de todas:

- Uma de vocês não é filha de verdade do pai.

As cabeças, antes cabisbaixas, voltaram-se para ela. Uma das irmãs perguntou:

- Do que você está falando, mãe? Como assim?

E a mais nova disse:

- Quem de nós não é filha de verdade do pai?

A mãe apenas tomou um gole de café, balançando a cabeça. Já estava arrependida de ter deixado escapar aquela verdade que a sufocava há tantos anos. Deveria ter levado aquele segredo para o túmulo junto com ela. 

A irmã do meio insistiu:

- E o pai sabia disso?

A mãe encolheu os ombros:

-Desconfiava... mas não tinha certeza. Nunca teve. Bem, se existe vida após a morte, agora ele tem.

A irmã mais nova logo concluiu que era ela a filha que não era filha, pois nunca tivera um relacionamento profundo com o pai, e frequentemente, sentia-se descofortável na presença dele. A irmã mais velha pensou que era ela, pois a mãe contava histórias de antes de ela nascer que falavam de um tio que morara com eles por uns tempos. A irmã do meio pensava ser ela, devido aos ciúmes que o pai sentia dela. A quarta irmã, a que não era a mais nova, nem a mais velha e nem a do meio, podia jurar ser ela, pois o pai brigava muito mais com ela do que com as outras irmãs.

Porém, por mais que insistissem, a mãe encerrou o assunto, repetindo:

-Não vou contar nunca. Não insistam. Não adianta. Nem deveria ter dito uma coisa dessas.

Em respeito à ocasião - afinal, tinham acabado de enterrar o pai - as irmãs se calaram, mas dentro delas, as coisas mudariam para sempre. Como não saber a verdade sobre uma coisa daquelas?

Anos mais tarde, a irmã mais jovem acordou se lembrando de uma coisa que acontecera quando ela era ainda pequena - tinha talvez cinco ou seis anos de idade: era sábado, e a família estava toda reunida em casa, quando um vizinho chamou o pai, dizendo:

-Seu irmão João está lá no bar, totalmente bêbado, pagando bebida para todo mundo.

João era um tio que morava muito longe, e ele e o pai já não se viam há muitos anos. Contrariado, o pai foi ao bar resgatar o irmão, sob as admoestações da mãe:

- Trate ele bem. Afinal, ainda é seu irmão.

A menina seguiu o pai de longe, curiosa para ver a cena. E o que ela viu, foi o tio totalmente bêbado, segurando pela mão uma menina da mesma idade dela que se parecia muito com ela. Os dois irmãso se abraçaram, chorando, e o pai levou os dois para almoçar em casa. Ela e a menina logo ficaram amigas. 


Ela também se lembrou do quanto o tio olhara para ela longamente, acariciando seus cabelos, os olhos marejados.

Quando o tio foi embora, deixou a menina na casa com eles, para passar alguns dias. Semanas depois, ele veio buscá-la e nunca mais voltou. A menina mais nova não mais teve notícias da prima. Só ficou sabendo, muitos anos depois, da morte do tio.

Ao acordar se lembrando daquela história, ela decidiu que ia arrancar a verdade da mãe, que já estava na casa dos oitenta anos. Se era ela a filha de outro homem, ia ficar sabendo naquele dia! Ligou para mãe e perguntou a ela:

-Mãe, afinal, quem não é filha do pai? Sou eu?

Silêncio do outro lado da linha, e finalmente, a mãe respondeu:

-Que história é essa, de onde você tirou isso, minha filha?

-Foi você que falou, lembra? No dia do enterro do pai.

-Eu??? Nunca disse uma coisa dessas. Você deve ter sonhado. Todas vocês são filhas do mesmo pai.

E não houve jeito de fazer ela falar no assunto. 

Depois que a mãe morreu, morreu junto com ela aquela história, e mortos também estavam qualquer um que pudesse contá-la. 

Mas ocasionalmente, até hoje, quando as irmãs se reunem, o assunto vêm à tona, cheio de perguntas retóricas.




AS ESTRELAS QUE EU CONTEI - CAPÍTULO 12

 Capítulo 12 -Ela nos matou porque estava apaixonada por Afonso, e nós éramos contra o relacionamento deles. Sentíamos que Rosália tinha alg...