quarta-feira, 16 de junho de 2021

AS ESTRELAS QUE EU CONTEI - Capítulo 2

 





AS ESTRELAS QUE EU CONTEI


Capítulo2

 

Revistinhas. Dezenas dela, sob a cama e o tapete do quarto. Mamãe nos dera uma caixa de madeira que ela mesma tinha pintado com desenhos de flores roxas que passeavam entre etéreas nuvens lilases. Ela dissera: “Guardem suas revistinhas aqui.” A caixa ficava aos pés da cama de Sarah. Naquela manhã de sábado, acordamos com os gritos nervosos de mamãe, que jogava as revistas com raiva dentro da caixa:

- Eu já cansei de pedir a vocês para guardarem as revistas! Da próxima vez, elas vão para o lixo!

Acostumadas às explosões emocionais de mamãe, eu e Sara nos entreolhamos, esfregando os olhos. Mamãe terminou de guardar as revistinhas, fechando a caixa com um estrondo e sentando-se na minha cama, colocou a cabeça entre as mãos, ajeitando o cabelo para trás e  dando um longo suspiro:

-Desculpem, meninas...

Dizendo aquilo, ela acariciou meus pés sobre a coberta e saiu do quarto. Eu e Sara sabíamos que seu destempero tinha a ver com papai, que tinha combinado de vir para o final de semana e mais uma vez desmarcara na última hora.

Mamãe e papai eram um casal peculiar: ambos eram ainda jovens e apaixonados um pelo outro (sendo que mamãe era muito mais responsável em suas atitudes do que papai, sempre impulsivo, sonhador e demasiadamente otimista); porém, mamãe andava muito cansada das viagens de papai. Quando ele estava fora, nós às vezes a pagávamos olhando pela vidraça da janela, o rosto perdido em algum lugar distante dentro de si mesma. Quando ele chegava em casa, ela não cabia em si de alegria, mas tentava contê-la o máximo possível, talvez para mostrar a ele seu descontentamento por ele ter ficado ausente. Os dias em que papai estava em casa se intercalavam entre manhãs em que eles se sentavam à mesa no café da manhã, alimentando um ao outro com morangos frescos e olhares apaixonados, e brigas terríveis, com portas batendo, mamãe se debulhando em lágrimas e papai saindo de casa e voltando bêbado no meio da noite.

Eu e Sara ficávamos no meio daqueles cumes emocionais, tentando não sermos demasiadamente afetadas por eles. Durante as brigas, papai costumava dizer:

-É essa sua irmã invejosa que te enche a cabeça de bobagens, Vanessa! Nunca percebeu que ela e Helvécio já não são mais apaixonados? Ela tem inveja de tudo, de nós, da nossa casa, da nossa vida.

Mamãe retrucava:

-Não use Samira para se safar das suas faltas, Pedro! Não é ela que passa a maior parte do tempo longe da própria família e nem Helvécio, que sempre foi um bom marido e um pai dedicado! E que motivos ela teria para me invejar? Ela é rica, jovem, bonita e tem um marido que está sempre por perto.

-Está me dizendo que eu não sou um bom marido para você e um bom pai para as meninas, Vanessa? Eu me mato de trabalhar para não deixar que nada falte a vocês três! Desisti do meu sonho de fazer faculdade de Agronomia porque você engravidou de propósito!

-De propósito? Por um acaso eu fiz as meninas sozinha, com o dedo? Que eu me lembre, você também colaborou! E esse seu tal ‘sonho de faculdade’ nunca passou nem sequer pelas eliminatórias de um vestibular. Você só ficava dependendo do seu pai, que aliás mandou dinheiro para você até morrer, e tocando aquele violão idiota e pensando em se tornar um cantor famoso!

-Você fala isso agora, mas naquela época, arrastava um caminhão por mim. Morria de ciúmes quando aquela sua amiga da escola... como era o nome dela? A tal Rosália... chegava perto de mim. Morria de ciúmes de qualquer garota que olhasse na minha direção. O que aconteceu com a gente, Vanessa?

Mamãe geralmente começava a chorar depois dessa pergunta, e papai, aproveitando-se de seu momento de fragilidade, se aproximava dela, falando baixinho:

-Eu amo você, Vanessa. Nunca deixei de te amar. Por favor, diga que ainda me ama.

Ela chorava mais alto, e papai acariciava seus cabelos, abraçando-a junto ao peito. Depois disso, ambos iam para o quarto, fechando a porta, e reapareciam mais tarde, felizes, trocando beijinhos e olhares significativos. Eu às vezes pensava que papai tinha razão, e que tia Samira invejava um pouco o casamento deles. Já tinha reparado o quanto ela fechava a cara quando via os dois se abraçarem. Mas eu amava tia Samira, e pensar qualquer coisa ruim a respeito dela era inconcebível. E nós todos (exceto papai) sentíamos o quanto ela nos amava: sempre mandando presentes para nós, crianças, dirigindo mais de uma hora para passar lá em casa para ver se as coisas iam bem sempre que possível e nos levando para passear durante as sumidas de papai, muitas vezes, deixando tio Helvécio sozinho por alguns dias, já que ele não podia viajar durante a semana porque precisava trabalhar.

Mas eu também notava que tio Helvécio amava minha tia muito mais do que a recíproca era verdadeira. Nunca os via se abraçando ou beijando em público, ou trocando olhares carinhosos, como meus pais. Quando havia qualquer demonstração de carinho por parte dele, tia Samira o espantava, dizendo algo como “Olhe as crianças!” Uma vez perguntei à mamãe o porquê daquilo:

-Mãe, por que tia Samira e tio Helvécio não se abraçam, como você e o papai?

-Ah, isso é coisa de adultos, Chiara. Minha irmã... sua tia é diferente de mim. Mais fria, acho. Mas eles se adoram.

Eu percebia que ela dizia aquilo sem muita convicção, e não conseguia me convencer.

Eu e Sara nunca brigávamos. Éramos muito unidas e defendíamos uma à outra, o que é raro entre irmãs. Não havia qualquer rivalidade entre nós. Éramos   grandes amigas, e qualquer criança que desejasse se aproximar de uma de nós, teria que, automaticamente, aceitar a outra. Ela era um ano mais nova que eu, o que não impedia que tivéssemos amigos em comum. Eu notava que a maioria dos nossos colegas de escola, quando se tratava dos irmãos, eram competitivos e desprezavam os irmãos mais novos. Eu nunca entendia aquilo. A amizade entre nós duas poderia ter durado a vida inteira, pois éramos cúmplices em tudo – até nas travessuras. Muitas vezes, eu “consertei” coisas que Sara tinha quebrado para evitar que ela levasse broncas, e quando eu não conseguia consertar, tratava de sumir com elas para que mamãe não as encontrasse quebradas. Nós nos respeitávamos e nunca houve rivalidade entre nós, mesmo quando recebíamos os presentes de Natal; não ficávamos comparando nossos presentes e encontrando motivos para pirraças e invejas, como faziam as outras crianças.

Minha mãe costumava dizer que nós duas éramos almas gêmeas. Tia Samira vivia pedindo a mamãe o segredo de ter duas irmãs que se amavam tanto, já que nossos primos, Décio, Joana e Gabriela, viviam se desentendendo e disputando a atenção dos pais.

Tia Samira e tio Helvécio tinham uma vida melhor do que a nossa, quando se tratava de dinheiro. Ele possuía duas lojas de tecido que rendiam um bom dinheiro, e minha tia se vestia muito melhor que minha mãe e nunca precisou trabalhar. Eu e Sara constantemente ‘herdávamos’ as roupas de nossas primas Joana e Gabriela, praticamente novas, e sempre caras. Assim, nos vestíamos muito bem também. Tia Samira dava de presente à mamãe seus vestidos e sapatos, praticamente novos, que ela usara apenas algumas vezes. Eram sempre tão felizes aquelas tardes em que Tia Samira chegava, carregada de bolsas cheias de roupas, e nós ficávamos a tarde toda experimentando e desfilando em frente ao espelho. Eu, Sarah e minhas primas também gostávamos de trocar roupas ou bijuterias; elas escolhiam alguma coisa nossa e levavam para casa, devolvendo na semana seguinte. Não havia qualquer sentimento de vergonha da nossa parte em receber, e nenhuma espécie de orgulho ou vontade de humilhar da parte de minha tia e primas ao doar. Éramos uma família.

Eu também pegava Tia Samira colocando uma nota de dinheiro enroladinha na mão de minha mãe, discretamente. Minha mãe murmurava: “Não precisa, irmã!” E tia Samira respondia, enfiando o dinheiro no bolso ou na bolsa de minha mãe: “Compre alguma coisa para você ou as crianças.” Aqueles momentos eram muito normais entre as duas, e Sara e eu crescêramos testemunhando-os. Mas mamãe sempre pedia que não disséssemos nada a papai.

Era mais difícil visitarmos Tia Samira, pois nós não tínhamos carro, e ela vivia longe. Mas a principal razão era que papai não gostava dela. Quando Tia Samira nos convidava, era sempre quando papai estava viajando. Ela nos buscava de carro e nos levava de volta no dia seguinte ou no final do dia, dependendo se tínhamos escola no outro dia ou não. Foi uma época maravilhosa da nossa vida, pois a casa de Tia Samira e tio Helvécio era linda... tinha um jardim enorme e até uma casa na árvore onde adorávamos brincar. Quando íamos para lá, Tia Samira nos hospedava no apartamento de hóspedes, um anexo que ficava junto à casa com quarto, sala, cozinha e banheiro só para nós. A casa de tia Samira era bem grande, e nossos primos tinham todos os brinquedos que uma criança poderia sonhar – e nenhum problema em emprestarem todos eles para mim e Sarah.

Mas eu às vezes percebia que mamãe e tia Samira tinham longas conversas, sentadas entre as samambaias da varanda. Naqueles momentos, elas nos enxotavam para o jardim. Quando tais conversas terminavam, mamãe quase sempre parecia mais triste.

As duas eram muito unidas e se adoravam. Tia Samira era superprotetora em relação a nós três. Era nosso porto seguro, já que papai passava tanto tempo fora. Tio Helvécio também era sempre gentil, solícito e procurava não interromper muito as nossas interações. Ele chegava do trabalho, abraçava a mim e a Sara, conversava um pouco com os filhos, cumprimentava minha irmã, jantava conosco e logo se recolhia no escritório, onde ficava até a hora de dormir. Tio Helvécio  parecia ser um homem um pouco triste, como minha mãe. Mas eu me perguntava como alguém poderia ser triste ao lado de uma mulher como minha tia – tão linda, engraçada, inteligente e forte.

Quando retornávamos para casa após aquelas estadias, eu me sentia tão feliz! Apesar de adorar a casa de minha tia, me sentia muito mais à vontade na nossa casa velha, usando um vestido velho entre os gatos, patos, galinhas e meus cadernos de histórias. Durante horas, eu me sentava na cama e escrevia histórias de aventuras sobre algumas crianças que moravam com fadas em uma casa na árvore. As histórias eram, claro, sobre nós. Certa vez, um novo personagem se intrometeu em uma das histórias: Evelina, a Bruxa. Mas Evelina era uma bruxa boa, que ajudava a todas as crianças. Na verdade, eu ainda não sabia, mas Evelina era uma representação de tia Samira.

 


(CONTINUA...)





 

2 comentários:

  1. Muito bem.
    Existiam antigamente muitas conversas tristes sobre passados no qual se escondiam às crianças.... e porque seria? "as nossas casas" são sempre outro aconchego, sejam lá como forem!
    *
    Pensamento que enaltece ...
    -
    Beijos e um excelente dia! :)

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  2. A história é interessante.
    E é contada numa narrativa muito boa e apelativa.
    Beijo, querida amiga Ana.

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