segunda-feira, 7 de junho de 2021

A PERGUNTA RETÓRICA



Uma história baseada em fatos reais.


Foi logo após o funeral do pai, quando todos estavam reunidos na sala de estar de uma das irmãs, que a mãe, pensativa, deixou escapar uma frase que mudaria a vida de todas:

- Uma de vocês não é filha de verdade do pai.

As cabeças, antes cabisbaixas, voltaram-se para ela. Uma das irmãs perguntou:

- Do que você está falando, mãe? Como assim?

E a mais nova disse:

- Quem de nós não é filha de verdade do pai?

A mãe apenas tomou um gole de café, balançando a cabeça. Já estava arrependida de ter deixado escapar aquela verdade que a sufocava há tantos anos. Deveria ter levado aquele segredo para o túmulo junto com ela. 

A irmã do meio insistiu:

- E o pai sabia disso?

A mãe encolheu os ombros:

-Desconfiava... mas não tinha certeza. Nunca teve. Bem, se existe vida após a morte, agora ele tem.

A irmã mais nova logo concluiu que era ela a filha que não era filha, pois nunca tivera um relacionamento profundo com o pai, e frequentemente, sentia-se descofortável na presença dele. A irmã mais velha pensou que era ela, pois a mãe contava histórias de antes de ela nascer que falavam de um tio que morara com eles por uns tempos. A irmã do meio pensava ser ela, devido aos ciúmes que o pai sentia dela. A quarta irmã, a que não era a mais nova, nem a mais velha e nem a do meio, podia jurar ser ela, pois o pai brigava muito mais com ela do que com as outras irmãs.

Porém, por mais que insistissem, a mãe encerrou o assunto, repetindo:

-Não vou contar nunca. Não insistam. Não adianta. Nem deveria ter dito uma coisa dessas.

Em respeito à ocasião - afinal, tinham acabado de enterrar o pai - as irmãs se calaram, mas dentro delas, as coisas mudariam para sempre. Como não saber a verdade sobre uma coisa daquelas?

Anos mais tarde, a irmã mais jovem acordou se lembrando de uma coisa que acontecera quando ela era ainda pequena - tinha talvez cinco ou seis anos de idade: era sábado, e a família estava toda reunida em casa, quando um vizinho chamou o pai, dizendo:

-Seu irmão João está lá no bar, totalmente bêbado, pagando bebida para todo mundo.

João era um tio que morava muito longe, e ele e o pai já não se viam há muitos anos. Contrariado, o pai foi ao bar resgatar o irmão, sob as admoestações da mãe:

- Trate ele bem. Afinal, ainda é seu irmão.

A menina seguiu o pai de longe, curiosa para ver a cena. E o que ela viu, foi o tio totalmente bêbado, segurando pela mão uma menina da mesma idade dela que se parecia muito com ela. Os dois irmãso se abraçaram, chorando, e o pai levou os dois para almoçar em casa. Ela e a menina logo ficaram amigas. 


Ela também se lembrou do quanto o tio olhara para ela longamente, acariciando seus cabelos, os olhos marejados.

Quando o tio foi embora, deixou a menina na casa com eles, para passar alguns dias. Semanas depois, ele veio buscá-la e nunca mais voltou. A menina mais nova não mais teve notícias da prima. Só ficou sabendo, muitos anos depois, da morte do tio.

Ao acordar se lembrando daquela história, ela decidiu que ia arrancar a verdade da mãe, que já estava na casa dos oitenta anos. Se era ela a filha de outro homem, ia ficar sabendo naquele dia! Ligou para mãe e perguntou a ela:

-Mãe, afinal, quem não é filha do pai? Sou eu?

Silêncio do outro lado da linha, e finalmente, a mãe respondeu:

-Que história é essa, de onde você tirou isso, minha filha?

-Foi você que falou, lembra? No dia do enterro do pai.

-Eu??? Nunca disse uma coisa dessas. Você deve ter sonhado. Todas vocês são filhas do mesmo pai.

E não houve jeito de fazer ela falar no assunto. 

Depois que a mãe morreu, morreu junto com ela aquela história, e mortos também estavam qualquer um que pudesse contá-la. 

Mas ocasionalmente, até hoje, quando as irmãs se reunem, o assunto vêm à tona, cheio de perguntas retóricas.




Um comentário:

  1. Muito bem. É uma estória no qual antigamente acontecia muito. Os filhos nasciam, mesmo sendo filhos de outro homem, e ninguém sabia. Porém, havia sempre uma ou outra pessoa que sabia, e dava à língua. Sei de casos verídicos, igual à estória.
    Triste é uma pessoa partir sem partilhar um segredo desses-

    Hoje as coisas já não são bem assim. Gostei de ler! 🌹
    -
    Não desejo ser a deusa do teu mar...
    -
    Uma excelente semana
    Beijos

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