terça-feira, 15 de junho de 2021

AS ESTRELAS QUE EU CONTEI - CAPÍTULO 1

ANTES DE COMEÇAR A LER, SAIBA QUE ESSA HISTÓRIA SERÁ LONGA.


Trata-se de um conto em capítulos, uma novelinha, uma história. Não vai ser curto. Se não tiver paciência, não leia, mas por favor, não deixe comentários a respeito da extensão do texto, pois não estou preocupada com isso. 





 AS ESTRELAS QUE EU CONTEI


Capítulo 1


Quando criança, eu amava passar muito tempo à janela da casa, olhando o quintal. Não que tivéssemos um jardim maravilhoso – ele era pequeno e simples, com um quadradinho de grama, um pé de tangerina e algumas flores em canteiros na frente da casa, e algumas árvores frutíferas e chão de terra batida nos fundos – mas para mim, ele era um reino encantado, perfeito, onde minha mente e minha imaginação se uniam para criar histórias e seres que encantavam a minha vida de menina. Frequentemente, mamãe me chamava: “Chiara, vá fazer seu dever de casa!” “Filha, feche a janela, vai chover!”

Para mim, cada cantinho de jardim era um mundo, uma cidade. Eu me tornava tão pequenina quanto uma joaninha, escalava pedras, subia em árvores e me sentava em balanços presos nos espinhos das roseiras. Quando chovia (esses eram meus dias favoritos) a enxurrada que escorria da corrente presa ao telhado e que passava pela valeta na lateral da casa, entre a calçadinha de cimento e o gramado, era um rio caudaloso.

Eu também gostava de desenhar e recortar bonecas de papel, dando-lhes nomes que eu escrevia em suas costas. Com elas, criava histórias, construía famílias, travava amizades e romances duradouros. Envolvia minhas bonecas e bonecos de papel em tramas que eu copiava das novelas da TV e do cotidiano que me cercava.

Nunca tive dificuldades em escrever redações na escola; enquanto as outras crianças reclamavam, eu enchia páginas e mais páginas com minhas histórias e relatos. Eram tantas, que a professora passou a limitar a extensão dos meus escritos: “Chiara, sua história tem que começar e terminar na mesma página, ok?” Me sentindo tolhida, pedi à minha mãe um caderno onde eu escrevia à vontade as minhas histórias, e depois, eu o escondia sob as roupas do armário.

Nunca fui uma criança com muitos amigos. Preferia brincar com minha irmã Sara, um ano mais nova do que eu, ou então aguardava as visitas dos meus primos (minha mãe tinha uma irmã, Tia Samira, casada com meu tio Helvécio. Eles tinham três crianças cujas idades se aproximavam das nossas – Joana, Gabriela e Décio. Eles moravam em uma cidade vizinha e às vezes vinham passar o final de semana conosco).

Meu pai era representante comercial e assim trabalhava muito e viajava muito a trabalho; por isso, eu, minha mãe e Sara ficávamos muito tempo sozinhas em casa. Papai às vezes chegava a passar um mês fora de casa, cuidando dos negócios. Quase todos os dias ele telefonava à noite, e nós três nos juntávamos em volta do telefone vermelho brilhante da sala de estar para contarmos a ele o que tínhamos feito durante o dia. Mas quase sempre chegava aquele momento em que mamãe nos dispensava para ter uma conversa privada com papai. Às vezes, ela alterava a voz, mas logo começava a sussurrar. Quando aquelas conversas aconteciam, eu percebia seus olhos inchados e vermelhos. Uma vez ouvi tia Samira dizendo: “Você precisa dar a Pedro um ultimato, Vanessa.” Pensei que ‘ultimato’ era algum presente de Natal, já que estávamos em dezembro, e entrei na cozinha, onde as duas conversavam, perguntando: “Onde se compra esse tal de ultimato?” As duas se entreolharam e riram, mas minha mãe logo me enxotou da cozinha, dizendo: “Em nenhum lugar onde criança enxerida não deveria estar.” 

As ocasiões em que papai vinha para casa eram muito festivas para mim e Sara. Minha mãe ficava feliz também, mas frequentemente, ela se isolava, pensativa e parecia estar mais triste do que feliz. Papai gostava de colocar música para nós no toca-discos e nós dançávamos o ‘twist’ com ele até ficarmos cansadas. Mamãe nos olhava do sofá, o semblante triste, mas rindo de vez em quando. Finalmente, papai a chamava para dançar também; ela negava com a cabeça, pedindo a ele que a deixasse em paz, mas acabava cedendo. Alojada nos braços do meu pai, minha mãe fechava os olhos e se deixava conduzir por ele, enquanto nós, crianças, olhávamos. Tia Samira e meu pai não pareciam ser grandes amigos, e sempre que ela vinha nos visitar e meu pai estava em casa, os dois ficavam trocando farpas o tempo inteiro. Tio Helvécio tentava colocar panos quentes para evitar uma discussão acalorada, o que nem sempre ele conseguia. Minha mãe afastava minha tia, pegando-a pela mão, e as duas iam brigar no quarto, pois minha mãe achava-se na obrigação de defender o marido, em sua própria casa, dos ataques da irmã.

Minha mãe era uma mulher linda: alta e magra, longos cabelos ondulados em tons de ruivo escuro, olhos verde-garrafa e algumas sardas pequeninas espalhadas sobre as bochechas e o nariz. Minha tia Samira era também muito bonita: alta, porém mais forte e curvilínea que mamãe, pele muito alva e perfeita, longos cabelos castanho-escuros, olhos negros com cílios muito longos e espessos e sobrancelhas arqueadas que a deixavam com cara de zangada, mesmo que ela estivesse sempre de bom humor (a não ser quando papai estava perto).

Já papai, segundo eu escutara uma vizinha comentando com outra na calçada, enquanto eu voltava para casa da escola (elas não me viram caminhando logo atrás delas), era um “pedaço de mal caminho.” Meu pai era moreno, alto, tinha olhos azul-escuros de um tom que eu nunca vi em ninguém mais. Usava uma barba negra e bem aparada, tinha o sorriso largo e dentes muito brancos, queixo levemente quadrado e lindas pernas, segundo mamãe. 

Eu e Sara tentávamos ser felizes no meio daquilo tudo – ocasionais desentendimentos, ausências de papai e birras de nossa tia Samira, pois amávamos mamãe, papai e nossos tios e primos, então dizíamos a nós mesmas – e uma à outra – que aquilo tudo não passava de ‘coisa de adultos’ e que nada nos dizia respeito. 

Às vezes, tio Helvécio e meu pai bebiam um pouco além da conta naqueles finais de semana em família, e os dois costumavam sair juntos e só voltavam de madrugada. Passavam a noite jogando sinuca no bar da cidade, o que deixava mamãe e tia Samira muito bravas. Mas ao mesmo tempo, a gente gostava muito quando eles saíam e nos deixavam sozinhas, pois fazíamos bolos e pipocas e nos sentávamos em frente à TV para assistir maratonas de filmes sem que os homens interrompessem a todo momento dizendo que estavam com fome. Minha mãe e minha tia também aproveitavam para fazer a manicure uma da outra, e também cortavam nossos cabelos, o que detestávamos.

Assim, crescemos naquela cidadezinha pequena e pacata, sem muitos sobressaltos, sendo felizes com podíamos e aceitando a vida como ela era. Se minha mãe tinha alguma tristeza, ela era apenas em relação ao nosso pai, já que ele passava tanto tempo fora. Se não fosse por isso, até que nós éramos uma família bastante divertida e apreciada por todas as pessoas do nosso bairro de classe média. 

Eu continuava escrevendo as minhas histórias baseadas não apenas em criaturas que eu achava interessantes e que faziam parte da minha vida, mas também na minha imaginação fértil – e às vezes, eu não sabia onde começava a imaginação e terminava a realidade. Eu costumava ver coisas no jardim. Nunca comentava sobre elas com ninguém porque eu achava que elas eram normais e que todo mundo as via. 

Por exemplo: quando eu era bem pequena, havia uma senhora bonita, meio-gordinha, que costumava sentar-se no banco de madeira que ficava sob o pé de goiaba e me observar brincar. Nunca tive medo dela. Ela estivera sempre ali, desde que eu me lembrava de mim mesma. Nunca estranhei o fato de ela desaparecer sempre que chegava alguém. Quando eu estava com Sara, ela nos observava e fazia sinal para mim pedindo que eu ficasse em silêncio sobre ela, e eu obedecia porque achava aquilo normal. Ela não representava nenhuma ameaça para mim, minha irmã ou qualquer membro da minha família, e só de olhar para ela, eu sabia que ela era uma boa pessoa.

Também não me lembro de ter, alguma vez, conversado com ela. Mas perguntei à minha mãe o porquê de algumas pessoas não falarem nunca, e ela me explicou que algumas pessoas eram mudas ou surdas e mudas. Assim, fiquei pensando que a senhorinha de branco talvez fosse uma delas. 

Eu também costumava enxergar criaturinhas pequenas e quase transparentes sentadas nos galhos das árvores ou nas corolas de flores. Elas me ignoravam completamente, e quando comecei a aprender sobre os insetos na escola, achei que talvez o que eu via fossem insetos, embora se parecessem com pessoas pequenininhas. Nunca perguntei a nenhum adulto sobre elas, porque não é natural que as pessoas fiquem indagando sempre às demais pessoas sobre cada coisa que enxergam. Eu às vezes tentava capturá-las, mas minha mão passava através delas sem que elas sequer percebessem, e então eu acabei desistindo. Deixava-as em paz, e elas também faziam o mesmo. Nem sei se me viam. Eram pessoas semitransparentes, esverdeadas ou acinzentadas, que usavam roupinhas esvoaçantes e andavam sempre descalças. Tinham cabelos longos, geralmente brancos ou alaranjados. 

Um dia, quando eu tinha seis anos, a professora da escola nos levou um grande livro todo colorido; um conto de fadas. Antes, ela sempre nos lia histórias de animais falantes, príncipes, princesas e castelos encantados. Aquele era o nosso primeiro conto de fadas. Ao ver as figuras, imediatamente pensei nas criaturinhas que eu sempre via no jardim, e apontei-as, gritando:

- Eu já vi as fadas, professora! Elas moram lá em casa. 

A professora e as outras crianças começaram a rir de mim, e ela respondeu:

-Chiara, não é possível que possamos ver fadas, porque elas não são reais. Estão apenas nas histórias e na imaginação. 

As outras crianças riram mais ainda, e eu insisti:

- Não, eu tenho certeza de que são elas. Um pouco diferentes, mas são elas sim!

Aquilo causou muitas gargalhadas, e percebi que eu nunca mais deveria tocar no assunto das fadas. Com o tempo, entretanto, deixei de vê-las, após meu sétimo aniversário. A senhorinha que eu enxergava também nunca mais foi vista, mas acabei por identificá-la quando mamãe nos levou ao cemitério e nos mostrou:

-Aqui é onde a avó de vocês está descansando. Seu nome era Dora.

Ela colocou algumas flores sobre o túmulo, e quando olhei a fotografia de minha avó Dora sobre a lápide, imediatamente identifiquei a senhora que me visitava. Mais uma vez, eu me calei, pois não queria ser alvo de mais risadas ou de broncas de minha mãe. Mas aquele dia foi como um marco em minha vida, pois mesmo sendo uma criança pequena, entendi que eu era diferente das outras crianças, mesmo que não compreendesse a dimensão daquela diferença. Só sabia que era melhor para todos que eu não mais comentasse com as outras pessoas sobre ela.

Crescer nos anos setenta, entre flores, símbolos hippies e sinais de paz e amor, pantalonas e batas indianas, incensos e muito cheiro de maconha saindo da casa vizinha, foi uma experiência agradável. Nossa casa, herdada de meus avós paternos, era simples e antiga, precisando de reformas, e as janelas envidraçadas pintadas com tinta óleo branca já estavam começando a descascar. De vez em quando meu pai dava mais uma camada de cal do lado de fora da casa, “para branquear.” Eu e Sara compartilhávamos o mesmo quarto, nossas caminhas cobertas por colchas de retalho feitas por minha mãe e um tapete redondo e colorido entre elas, feito de retalhos de malha tricotados. Nosso armário tinha pertencido a vovó, e era de madeira com um espelho de cristal na porta, e ela sempre rangia quando a abríamos. Sobre ele, ficavam guardados os nossos brinquedos. Entre as nossas camas ficava a janela do quarto, que tinha uma cortina de voil branca, a barra com joaninhas e borboletas bordadas por mamãe. Sob a janela, havia uma mesinha de cabeceira, entre as camas.

No canto junto à porta de entrada mamãe colocara um aparador e duas cadeiras de madeira, onde nos sentávamos para fazer nossos deveres da escola.

O chão da casa era de madeira, e fazíamos barulho quando pisávamos com sapatos de saltos de couro, pois a casa tinha um porão onde meus pais guardavam móveis velhos e coisas das quais não mais precisavam. O teto era de tábuas de madeira também pintadas de tinta óleo branca, como as janelas. A casa tinha pé direito alto, e os fios de luz ficavam visíveis nas paredes. 

A cozinha, que era o maior cômodo da casa, era simples: piso de cimento queimado e uma grande mesa de madeira com quatro cadeiras em volta e banquinhos para visitas enfileirados no canto da parede do lado direito da porta. Do lado esquerdo, sob a janela lateral, ficava o fogão antigo, de ferro. Mamãe fazia questão de manter sempre um vaso de flores do campo frescas sobre a mesa. A pia era enorme, daria para tomar banho dentro dela. As janelas imensas (havia duas) davam uma para os fundos, e outra para a lateral da casa. O quarto dos meus pais era um espetáculo à parte: cangas de Bali coloridas faziam a vez de cortinas, e a colcha da cama era indiana, de cetim azul Tiffany com flores vermelhas e muitas almofadas. O tapete vermelho com desenhos de flores era antigo, e pertencera a mãe de minha mãe. Também havia um grande armário de madeira antigo igual ao do nosso quarto, uma penteadeira cheia de vidros de perfume e cremes de barbear. Havia no ar muito exotismo e sensualidade. Minha mãe fabricara um dossel de voil e o colocara em volta da cama, dando um ar oriental ao ambiente. Minha mãe era muito habilidosa, e costumava vender alguns de seus trabalhos manuais: colchas, tapetes, cortinas.

A sala era o maior cômodo da casa, e havia um sofá de quatro lugares de veludo verde musgo, muitas almofadas enormes jogadas pelos cantos, nas quais adorávamos nos esticar para assistir TV, uma estante onde ficavam a TV e um toca-discos e as caixas de som. Do alto da estante, uma enorme samambaia chorona cujas folhas chegavam ao tapete. Eu amava a nossa casa velha! Era a casa onde eu me sentia segura, com galinhas e patos nos fundos do quintal e dois gatos que dormiam nas cadeiras da varanda – e ocasionalmente, nas nossas camas.


(CONTINUA)







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