segunda-feira, 30 de julho de 2018

O Lar de Ofélia - parte VI









O Lar de Ofélia - Parte VI


Três dias depois, Ofélia começou a viver na casa. Rony estava hospitalizado, ainda inconsciente. Por mais que ela sentisse pelo que acontecera ao pai, ela estava aliviada, pois sabia que enquanto o pai não se recuperasse, ela poderia evitar a venda da casa; mentiu ao sócio, dizendo que Rony ainda queria decidir sobre algumas coisas antes de colocar a casa à venda, e que deixara que ela pensasse nos itens da reforma - Sérgio, o sócio, não sabia da mudança drástica pela qual a casa passara, e ela não tinha  a menor intenção de contar a ele. Voltara ao velho porão, onde encontrara a pintura do rapaz que parecia ter conhecido um dia. Ela passava muito tempo diante da pintura, e a cada vez, algum traço de lembrança chegava a ela; algum tipo de alucinação ou memória? Era o que ela pretendia descobrir. Começou a ler sobre vidas passadas e reencarnação, e achou que talvez fosse o caso, mas nada havia nos livros que explicasse a reação da casa ao sangue humano. Ela tentara usar sangue animal, que trouxera consigo do mercado de carnes, com o mesmo propósito, mas não obteve efeitos. 

Sempre que chegava do trabalho e percorria de carro a ruazinha que conduzia à casa, ela encontrava bruno, o rapaz da bicicleta. Às vezes parava e conversava com ele por alguns minutos, e sentia que os olhos dele percorriam seu rosto e cabelos, e sabia exatamente como ele se sentia a respeito dela. Ofélia envaideceu-se, pois não estava muito acostumada àquele tipo de atenção. Passara a maior parte de sua juventude tomando conta da mãe doente, e mais tarde, trabalhando para seu pai. Ela gostava daquilo, e se descobria olhando para Bruno da mesma forma que ele a olhava, embora  a
diferença de idade entre os dois a preocupasse. 

Em um final de tarde sexta-feira, ela o convidou para ir com ela até a casa, e ele entrou no carro ao lado dela. A presença dele, quente e acessível, despertou-lhe sensações agradáveis. 

Quando chegaram diante do portão e Bruno olhou para a acasa, deixou escapar um assobio de admiração:

-Uau! O que foi que você fez? A casa estava caindo aos pedaços! Eu... ela estava em ruínas, quero dizer, desde que me conheço por gente, ela... e em tão pouco tempo, e eu simplesmente não vi nenhum caminhão carregando material de construção até aqui! Como foi que...

Enquanto falava, ele saiu do carro e começou a rodear a casa, andando pelo jardim e olhando em volta, boquiaberto. Ofélia puxou-o para dentro da casa, e ao chegarem no salão, sentou-se com ele no sofá, e disse:

-Você sabe guardar segredos, Bruno?

Ele balançou a cabeça, rindo e concordando:

-Acho que sim. Bem, nunca me contaram um, mas acho que sou bom nisso. 

Ofélia deixou-o lá, mandando que esperasse, e dirigiu-se à cozinha, voltando com uma faca. Ao ver o que ela segurava, Bruno engoliu em seco:

-Você não pretende me contar o segredo e me matar depois, não é?

Ela riu:

-Não! Mas venha comigo.

Ele a seguiu até os fundos, num pequeno banheiro que antigamente era usado por empregados da casa, e que se encontrava, ao contrário do restante da casa, em péssimo estado: os azulejos que restavam nas paredes estavam rachados, e havia muitos outros quebrados no chão. Tudo estava muito sujo, e as paredes descascavam. 

Ofélia ergueu a manga da blusa, e Bruno viu as marcas de cortes no braço dela. Já tinha visto filmes sobre adolescentes que se cortavam, mas Ofélia já não era uma adolescente há algum tempo. Não teve tempo de dizer nada, e observou, apavorado, quando ela passou a faca no lado interior do antebraço como se estivesse muito acostumada a fazer aquilo, e o sangue escorreu até o chão em uma pequena cascata vermelha. 

Ele ia protestar, quando para sua surpresa, viu que uma transformação ocorria diante dos seus olhos: tudo começou a se restaurar em um passe de mágica! O rapaz estava perplexo e maravilhado. 

-Será que eu estou sonhando??? Como você faz isso, Ofélia?

-Não sou eu. É ela. A casa. E eu quero descobrir. Bruno, preciso que você me diga tudo o que sabe sobre o antigo dono, aquele senhor que morava aqui. Tentei localizá-lo, mas foi como se ele tivesse desaparecido no ar. Não está em lugar nenhum, e o telefone que eu tinha também dá número inexistente. 

-Eu... eu não sei nada sobre ele. Não vinha muito aqui, e quado vinha, não falava com ninguém. Às vezes eu e meus amigos ficávamos espionando, mas ele nunca saía de dentro de casa, e tínhamos medo de entrar para ver melhor. Essa casa é um tanto... sinistra, se é que você me entende. 

Ela concordou com a cabeça, e replicou:

-Eu sei. Concordo. Mas ela e eu estamos conectadas de alguma forma. 

Ele a olhou muito sério, antes de dizer:

-Se eu fosse você, daria o fora daqui e não olharia para trás. 

-Eu já pensei em fazer isso, mas...

Naquele momento, ambos escutaram uma porta bater com força no andar de cima, e as paredes da casa tremeram e gemeram, como se ela estivesse para desabar. Os dois se entreolharam, e Ofélia concluiu, sussurrando:

-É melhor não dizermos mais nada parecido com isso... parece que ela não gostou do que ouviu. 

Bruno estava corado, e o suor escorria de sua testa. Ele o secou com as costas do braço. 

-Cara, eu... ficar aqui está me deixando um tanto nervoso. - e em voz baixa, quase sussurrada:)  Acho que eu vou embora. E acho que você deveria vir comigo.

-Não. Eu vou ficar e descobrir o que está acontecendo. Pensei que você pudesse me ajudar...

Quando Bruno olhou para o rosto de Ofélia, sentiu por ela uma paixão incontrolável, mais forte do que tudo que já sentira antes na sua curta vida. Ele se aproximou, e parou diante dela, até que os dois aproximaram seus rostos um do outro ao mesmo tempo, e se beijaram. Naquele instante, ele entendeu que estava preso a ela, assim como ela estava presa à casa. 

As horas que se seguiram foram vividas com toda luxúria na suíte principal; o tempo todo, eles sentiam que alguém os observava, e que talvez tal pessoa - ou entidade - gostasse do que via, e tirasse proveito daquilo, como um voyeur que toca o próprio corpo ao observar outras pessoas fazendo sexo, mas aquilo, ao invés de diminuir o desejo, fazia com que ele aumentasse. 

(continua...)

quarta-feira, 18 de julho de 2018

O LAR DE OFÉLIA - PARTE V







No dia seguinte, quando voltou à casa, Ofélia estava a companhada do pai, que ela praticamente obrigara a ir com ela. Quando pararam seus carros em frente ao portão, o pai de Ofélia olhou para a casa e deixou escapar um 'Oh!' de admiração:

-Mas... eu pensei que a casa fosse... achei que ela estivesse... nossa! Mas conseguiremos um bom dinheiro nesta casa, e sem gastar quase nada!

Ofélia não gostou de ouvir aquilo, e disse:

-Pai, eu não pedi a você que viesse aqui para falar em dinheiro... já disse, quero comprar a casa com minha parte na herança de mamãe.

-Ora, mas você não precisa desta casa. Além do mais, se usar o dinheiro para comprá-la, ficará praticamente sem nada. Não posso deixá-la abaixo do preço de mercado, e esta casa vale uma fortuna, filha. 

Irritada, Ofélia ergueu a voz:

-Mas... pai... eu nunca lhe pedi coisa alguma nessa vida! Tomei conta de mamãe por anos durante a sua doença! Perdi parte da minha juventude para que você pudesse cuidar dos negócios da família e também... das suas... aventuras!

-Alto lá, mocinha! Com que direito me julga? Sua mãe e eu não tínhamos nada um com o outro há anos, desde que ela adoecera! Eu tenho minhas necessidades de homem!

-Não o julgo, pai, mas... você precisa ver o meu lado!

-O seu lado, é que você mora em um apartamento excelente que eu coloquei no seu nome, tem dinheiro para viver confortavelmente a vida toda e herdará um império quando eu me for.

Dizendo aquilo, ele caminhou em direção ao portão; chegando lá, lembrou-se de que não tinha a chave, e estendeu a mão a ela, pedindo-a. Ofélia bufou, e remexendo na bolsa, entregou-a a ele. Rony girou a chave na velha fechadura, e abriu o portão, que rangeu, como se reclamasse. Quando pôs os pés no jardim, ele sentiu uma leve pontada, um incômodo quase imperceptível no lado esquerdo do peito. Achou que talvez estivesse com os músculos doloridos, já que tinha ido à academia na noite anterior. 

Rony entrou na casa, e Ofélia o seguiu. Arrependera-se de ter feito o que fizera; deveria ter deixado que o pai visse a casa da forma como ela tinha sido comprada. Exasperada, ela pensava no quanto tudo para ele era uma questão de dinheiro, de lucros. Ele caminhava pela casa sem sentir qualquer emoção, os pensamentos fixados no quanto poderia conseguir com ela. Olhou os móveis rapidamente, avaliando-os; eram antiguidades originais, ele conhecia muito bem aquele estilo. Se conseguisse vendê-las junto com a casa, lucraria ainda mais; caso contrário, qualquer antiquário de respeito ficaria contente em pagar um alto preço por aquela mobília. 

Ofélia o seguia, sentindo seu coração murchar. Tinha certeza de que perdera a sua batalha. De repente, ele se virou para ela, e disse:

-Você não poderia viver nesse casarão sozinha. Seria perigoso demais, e além disso, você é muito jovem, filha. Precisa fazer amigos, voltar a estudar, quem sabe... arranjar um bom casamento.

-Mas pai...

-Está decidido: amanhã mesmo falarei com Sérgio, e a casa será colocada à venda!

-E não há nada que eu possa fazer para convencê-lo do contrário, não é?

Ela tinha os olhos rasos d'água. O pai respirou fundo, mas não cedeu:

-Não. Mais tarde, se desejar mudar-se do apartamento, poderemos encontrar um outro ainda melhor para você. Mas não esta casa, filha. Negócios são negócios.

Eles estavam de pé no alto das escadarias da casa, voltando do andar superior.

Ofélia pensava em como faria para convencer o pai a mudar de ideia; havia uma conexão muito forte entre a casa e ela, e não havia como negar o fato. Ela queria descobrir mais sobre a casa. Nem pensava que gostaria de viver ali, pois ao mesmo tempo que  a fascinava, a casa dava-lhe medo, mas Ofélia sabia que precisava descobrir o mistério daquela casa, pois ele tinha  a ver com sua própria história.

Ela estava descendo as escadas logo atrás do seu pai, envolvida por aqueles pensamentos, quando de repente, ela o viu perder o equilíbrio e projetar o corpo para frente. Não teve tempo de fazer nada a fim de impedir a queda, que se deu de repente: apática, Ofélia ficou estatelada, vendo o pai rolar degraus abaixo, e o ruído de ossos se partindo. Era uma escadaria de mármore, antiga e gelada, e não havia sequer um tapete para amortecer o impacto do corpo contra os degraus.

Quando o corpo de Rony aterrissou no sopé das escadas, Ofélia viu um fio de sangue escorrer da testa do pai. Assim que ele tocou o chão, o piso assumiu uma aparência ainda mais nova, e um tapete riquíssimo começou a surgir, e também alguma mobília antiga, mas luxuosa e em perfeito estado.

Quando Ofélia finalmente caiu em si e conseguiu recuperar-se do choque, ela correu escadaria abaixo, e ajoelhando-se ao lado do pai, passou a sacudí-lo e chamar por ele:

-Pai! Pai! Fale comigo, por favor!

Mas não houve resposta. Ela conseguiu recuperar a calma o suficiente para pegar o celular e chamar uma ambulância.


(continua...)


AS ESTRELAS QUE EU CONTEI Capítulo 13

 CAPÍTULO 13 Achei estranho que o sol parecia nunca se por naquele lugar, e perguntei sobre isso. Imediatamente, começou a escurecer, e lind...