quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

A ROSA DO SERTÃO









A Rosa do Sertão




A paisagem seria bonita, não fosse tão seca. O céu era de um azul profundo, límpido, total. O azul mais azul do mundo. Contrastava com o vermelho do chão coalhado de rachaduras, e o mato seco e morto que deixava tudo ainda mais desolado. 


Mariinha, seis anos, morava com a família – mãe, pai, cinco irmãozinhos – em um casebre de dois cômodos. Menina magrinha, de cabelos loiros tão ressecados quanto palha fina prestes a pegar fogo ao sol escaldante. Rosto sempre sujinho, pés descalços como seus cinco irmãozinhos. Tinha dois vestidos: um inteiro, de ir à missa na vila, e outro com a manga rasgada – ficara presa em um espinho de mandacaru – que usava para ir à escola. Em casa, Mariinha andava quase nua, vestindo apenas uma calcinha feita pela mãe, de saco de estopa. 


O pai trabalhava na horta... isto é, quando Deus mandava chuva. Naqueles últimos dois anos, Deus andava um tanto econômico com a água, e a plantação de feijão e mandioca, há muito, morrera. Só havia um poço de água cada vez mais barrenta, há alguns quilômetros da casa onde Mariinha vivia com sua família. Eles iam até lá três vezes por semana, cada um carregando uma vasilha para encher d’água. As vasilhas sempre chegavam com água pela metade, que as crianças deixavam entornar ou que o sol fazia evaporar. 


Mariinha e seus irmãos iam à escola. Não iam todos os dias, pois às vezes, o sol estava tão escaldante, que ficavam com preguiça de andar pela estrada barrenta. Mesmo de manhãzinha, o calor já envolvia a todos com seus dedos quentes e pegajosos. Na escola, eles às vezes merendavam: um copo de café com leite fraquinho, um pedaço de pão, ou um prato de sopa. 







Tia Marinalva – a professora – fazia o que podia. Tinha vindo da cidade grande para ensinar as crianças. Mariinha simplesmente a adorava! Queria ser professora, como ela. 


Sonhava com o dia em que ela estaria de pé na frente da sala de aula, escrevendo no quadro com o giz. E todas as crianças prestariam atenção ao que ela dizia, e seus pais diriam, com orgulho, que tinham uma filha que era professora. 


Na sala de aula, Tia Marinalva tinha uma roseirinha plantada em um vaso. Todos os dias, ela punha um cadinho d’água, um tiquinho de nada, o suficiente para que a mirrada roseira crescesse um pouquinho só. Ela mostrava às crianças, dizendo: 


-Vejam, meus pequenos: a gente deve ter sempre fé na vida, e mesmo que a fé da gente seja um tiquinho, como esse golinho de água que eu uso para molhar a roseira todos os dias, um dia Deus ajuda, e a roseira da vida floresce. Não se esqueçam disso! 


As crianças ouviam com atenção, os olhos esbugalhados de curiosidade e fome. 


Mas um dia, Tia Marinalva foi transferida para uma outra escola, bem longe dali. Todos ficaram muito tristes, mas nada podiam fazer. Antes de ir embora, ela ergueu com a mão o rosto de Mariinha (sua preferida) e entregou-lhe o vasinho com a roseira, dizendo: 


-Cuide dela para mim, pois quem sabe, um dia eu volto?... 


Lágrimas sujas escorriam pelo rosto da menina. 


E Mariinha levou a roseira para casa, carregando-a com dificuldades pelo caminho, sob o sol escaldante do meio-dia. As lágrimas deixavam a paisagem ainda mais baça. 


A mãe e o pai conversavam no alpendre. Diziam que a seca não acabava nunca. Reclamavam, cismando sobre como alimentariam as crianças no dia seguinte, já que a comida – um pouco de farinha e melaço – só daria para mais aquele dia. O pai resolveu ir à cidade, ver se conseguia alguma coisa. Voltou ao cair da tarde, trazendo algumas batatas, que comeriam no dia seguinte. 


Conseguir água estava ainda mais difícil, já que o poço mais próximo finalmente secara. Tinham que andar pelo menos quatro horas de ida e volta até o próximo vilarejo. 


Um dia, a mãe viu quando Mariinha bebeu da metade de sua caneca d’água, jogando a outra metade no vaso da roseira. Imediatamente, a mãe ralhou com ela: 


-Ô menina abestada, jogando água fora? Num sabe o trabaio que dá pra carregá? De hoje em diante, nada de jogar água na terra! 


-Mas mãe, é a roseira que a tia Marinalva pediu pra cuidar! Ela disse que a roseira é para ter esperança... 









-Que roseira que nada! A gente num pode cuidá nem da gente mesmo, ainda inventa de cuidá de roseira... eu proíbo de jogar uma gota que for nesse vaso! Esperança... que esperança que se tem nesse fim de mundo, minina? 


Dizendo isso, a mãe pegou o vaso, jogando-o pela janela. A terra ressecada caiu no chão. Mariinha chorou durante muito tempo, mas à noite, quando todos dormiam, ela foi lá para fora e recolheu tudo no vasinho de novo. Só a lua viu. 


Escondeu a roseira atrás do tanque seco, onde ninguém nunca ia. E todos os dias, ela ia lá, escondidinha, levar um pouquinho de água para a roseira. 


Mas Deus decidiu que a roseira não precisava de cuidados, pois levou embora Mariinha. Os pais a enterraram em uma cova rasa, atrás do casebre. Não teve padre, nem missa; apenas o choro dos pais e dos irmãos, que amedrontados, olhavam fixamente, enquanto o rosto de Mariinha sumia sob as pás de terra. 


Mas o tempo passou, e veio a chuva. E veio forte. Aos poucos, o solo rachado foi sendo consertado pelas correntezas de água. A paisagem voltou a ser verde, e o Mandacaru floriu. Certo dia, a mãe foi até o velho tanque lavar a pouca roupa, enquanto o pai replantava algumas sementes de feijão. Foi então que ela viu, com os olhos cheios d’água, uma mancha vermelha. 

Era a roseira da esperança. 


segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Almas Atormentadas - Terror










ALMAS ATORMENTADAS



Era um velho manicômio, já desativado. O prédio de paredes que outrora foram brancas, encimava a colina com suas janelas banguelas de vidraças, e havia apenas um vigia noturno, que de vez em quando, fazia a ronda em volta do prédio (apenas para justificar seu salário de vigia), quando não tinha mais o que fazer. Mas mesmo ele, jamais tivera coragem de adentrar o prédio, pois havia muitas histórias horríveis sobre aquele local. 
Histórias que falavam de suicídios, choques elétricos, aprisionamentos em solitárias, serial killers em camisas de força que eram jogados para todo o sempre em celas não-acolchoadas, para que batessem suas cabeças contra a parede até que morressem com as mesmas arrebentadas.

Até que a modernidade veio, questionando os métodos de ‘cura mental’ usados naquele manicômio, que acabou sendo desativado. 

Todos se foram: loucos, médicos, enfermeiros. Mas havia uma única cela, na qual ninguém jamais entrava; a comida e a água eram empurradas para dentro através de uma abertura na base da porta de ferro. Se alguém olhasse para dentro, através da nesga de vidro, veria lá um homem solitário, de cabelos desgrenhados, unhas compridas e pontudas, olhos vermelhos e injetados. Cumpria sua pena como o louco que assassinara mais de vinte mulheres. Era um serial killer perigoso. 

Seu nome? O mais comum e confiável possível: Justino. Mais conhecido como Justino, o Matador. 


O último enfermeiro que tentara dar-lhe um banho, acabou perdendo o nariz, que ficou entre os dentes de Justino. Uma das enfermeiras, ao tentar dar-lhe uma injeção calmante, fora estrangulada. Ele conseguia soltar-se das camisas de força que o prendiam, tal a sua enorme agilidade e força física. Mesmo quando ele era alvejado, de longe, por tranquilizantes, como se fosse um animal selvagem, o efeito dos mesmos era muito mais curto do que em pessoas normais. 

Por que não o deixavam morrer, como faziam com vários outros? Porque Justino era filho adotivo de um magnata do petróleo, que pagava caro para que ele fosse mantido vivo. Este magnata era tutor do rapaz, e enquanto ele permanecesse vivo, receberia uma imensa fortuna, que seria imediatamente doada à caridade em ocasião de seu passamento. 

Assim, a lenda de Justino, O Matador, corria pelos corredores do hospital. Ninguém se atrevia a chegar perto dele, e decidiram que fariam apenas o mínimo para que ele permanecesse vivo. 
Mas um belo dia, o magnata, pai adotivo de Justino e seu tutor, faleceu de um ataque cardíaco. Assim, a fortuna de Justino foi doada para a caridade, como deveria ser. Isto ocorreu pouco antes da desativação do manicômio, e Justino, sem o seu ‘desinteressado protetor,’ ficou cada vez mais esquecido. 

Às vezes, esqueciam-se até mesmo de alimentá-lo, e seus gritos de fome ecoavam pelo hospital. Quando, finalmente, as portas fecharam, acabaram esquecendo-se dele. Ou teria sido um esquecimento proposital? Teria sido uma vingança, perpetrada em nome de suas muitas vítimas inocentes? 


Justino pereceu lentamente em sua cela, de fome, frio e sede. De nada adiantou-lhe gritar, pois não havia ninguém para ouvi-lo. O corpo , ou seja, o que restou dele, foi encontrado muitos anos depois, por um grupo de garotos que brincavam nas ruínas do hospital. Ninguém mais se lembrava dele, e seus ossos foram sepultados em uma cova coletiva. 

Mas o que ninguém sabia, é que sua alma doente e aprisionada ainda vagava por ali, presa para sempre entre as paredes em ruínas do manicômio. Como companhia, apenas as mesmas almas atormentadas que com ele conviveram. 



sábado, 23 de fevereiro de 2013

Praça da Liberdade







Praça da Liberdade


Já tinha pago as contas do mês. Caminhava pela Avenida XV de Novembro, já voltando para casa no final da tarde, quando a menina pediu: "Mãe, me leva na praça?" Ela pensou nos legumes que tinha deixado na geladeira, já descascados e cortados para para o preparo do jantar. Pensou na roupa que ficara de molho no tanque. Pensou no chão que ainda não varrera. Suspirou: "Está bem, mas só um pouquinho!" A menina pulou de alegria, abraçando a mãe pela cintura.





Ainda não tinham lanchado, mas a menina não sentia fome; só conseguia pensar nos balanços, nas gangorras e no vai-vem. 


A mãe resolveu ir pela Avenida Koeller, pois adorava passar por aquelas mansões maravilhosas. As magnólias que se enfileiravam pela rua estavam crivadas de pássaros, que faziam a maior algazarra nas copas das árvores. O céu era de um azul absurdamente límpido e uniforme. Uma linda tarde. 


Ela segurava a mãozinha da filha, que ia pulando ao lado dela, e lembrava de um tempo - bem distante - em que passeara por ali segurando a mão de seu primeiro amor. Nada mudara. A paisagem era a mesma. Seus sonhos, embora perdidos pelo caminho, ainda insistiam em vir à tona de vez em quando, mesmo sendo impossíveis. 






Atravessaram a rua em direção à Praça da Liberdade. A menina, ansiosa, quase arrastava a mãe pelo caminho, querendo chegar logo aos balanços. Teve que esperar sua vez, mas enquanto isso, comeu a metade do saquinho de pipocas sem casca que sua mãe comprara para ela. A outra metade, a mãe colocara na bolsa.



Finalmente, a mãe ajudou-a a sentar-se num balanço de assento vermelho, e logo começou a empurrá-la. Outras crianças também aguardavam sua vez, e algumas mães conversavam. 

Ela gritava: "Mais alto, mãe!" Enquanto as copas das árvores iam ficando cada vez mais próximas. A sensação era indescritível! Cansada de empurrar, a mãe disse: " Agora você dá impulso, como eu ensinei!" E ela assumia o controle do balanço, sentindo-se cada vez mais livre. 






A mãe sentou-se em um dos banquinhos de madeira para descansar. Sentia um pouco de fome, mas talvez a menina quisesse comer o resto da pipoca mais tarde, e as moedinhas em sua carteira só dariam para a passagem de ônibus de volta para casa e para seu vidro de xampu. Ela ficou ali, observando o movimento, admirando os vestidos das outras mães. Nem se lembrava mais da última vez que comprara um vestido novo. Será que ainda era bonita? Não tinha muito tempo para cuidar da aparência, pois sua vida resumia-se a acordar às cinco da manhã, preparar a marmita do marido e dos três filhos mais velhos para que fossem trabalhar e preparar as duas meninas mais novas para a escola. Depois, a lida com a acasa tomava-lhe todo o tempo restante. Sua diversão consistia em ouvir as novelas no rádio e conversar com a vizinha da casa ao lado. 


De repente, percebeu que estava sendo observada. 





Do outro lado da praça, um homem olhava insistentemente para ela. Olhos de lobo. apenas um paquerador barato em busca de aventura, mas ela sentiu-se viva novamente, sabendo que ainda era capaz de chamar a atenção de alguém. Passou as mãos pelo cabelo instintivamente. Alisou a saia do vestido. Percebeu as unhas lascadas. Ele ainda olhava para ela. Sentiu vontade de sorrir, mas achou que não ficava bem. Achou melhor ir embora.


Chamou a menina, que insistiu em ficar mais um pouco, mas a mãe segurou o balanço e obrigou-a a descer. A menina berrava, esperneava, soluçava. As outras mães começaram a olhar e fazer comentários em voz baixa. Ela sentiu seu rosto queimar. 




Quando saiu do balanço, a menina estava aos prantos, e a mãe tentava consolá-la. "Não chore, eu te compro uma caixa de estalinhos..." Enquanto isso, a menina caminhava ao lado da mãe, desconsolada. De vez em quando, olhava para trás, para os balanços - o seu, ocupado por outra criança. Gritou: "Eu não quero estalinho, quero uma cornetinha!" A mãe aproximou-se da barraca do vendedor e perguntou quanto era a cornetinha de plástico que a menina queria. Custava metade do seu vidro de xampu. Mas ela comprou-a assim mesmo. Finalmente consolada, a menina assoprava a cornetinha, tentando reproduzir alguns sons interessantes, cobrindo e descobrindo os três furinhos. 




Começava a escurecer, e a menina sentia frio e fome. Também estava muito cansada. Pediu a mãe que a carregasse no colo. A mãe protestou: "O ponto de ônibus é logo ali. Ande mais um pouquinho, e eu te carrego no colo depois." A menina, mau humorada, jogou no chão a cornetinha, lascando-lhe a beirada. A mãe pegou-a do chão, limpando a poeira na saia e devolvendo-a à menina: "Olhe, ainda serve, só quebrou um pedacinho..." Mas a menina berrou: "eu quero uma nova!" 


Naquele momento, a mãe teve vontade de chorar também. Estava cansada, com frio e com fome. mais uma vez, tinha feito o melhor que podia, e não tinha sido o bastante. De repente, vieram à tona todas as queixas do marido, sobre o quanto ela era insuficiente, sobre a comida sem-sal ou salgada demais, a camisa mal-passada. Ela quis chorar. Ela quis morrer.




Mas simplesmente pegou o restante do dinheiro na carteira e comprou outra cornetinha para a filha. 


No ônibus, a menina adormeceu em seu colo, agarrada à sua nova cornetinha. A mãe olhava a paisagem, as primeiras luzes se acendendo nos postes, os faróis dos carros, o céu avermelhado. Um vento frio entrava pela janela do passageiro do banco da frente, e ela apertou mais a menina adormecida, tentando aquecê-la. 


Novamente, pensava no jantar, que naquela noite, estaria atrasado. 


Imagens: Praça da Liberdade, Petrópolis -RJ - Google


Resposta Humilde - Miniconto








Resposta Humilde


Embevecida, a moça apaixonada pergunta ao trovador:

-De onde você tira tanta coisa bonita?

Ele baixa os olhos, tímido, e responde sinceramente:

-Eu não tiro; recebo.

*

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Noite de Halloween





Noite de Halloween





Pela enésima vez, Joana, a mãe de Alan, repetiu: 


“Não, Alanzinho, você não pode pegar doces hoje a noite porque está com febre! Quantas vezes terei que repetir? Se você tivesse me obedecido e não entrasse escondido na piscina quando a tarde esfriou, não estaria assim!” 


Entre fungadas e suspiros, Alan seguia a mãe – que distribuía a roupa lavada e passada pelos cômodos da casa, arrumando-a dentro dos armários – insistindo, até que ela finalmente perdeu a paciência: 


“Senhor Alan, já para o seu quarto, e fique lá até amanhã de manhã, estamos entendidos?” 


“Mas mãe, meus amiguinhos vão chegar daqui a pouco para a gente ir pegar doces!...” 


“Não se preocupe, eu digo a eles que você está doente!” 


“Mas... mas mããããe!!!” 


Aborrecida, Joana pega Alanzinho pela mão e o coloca na cama. Mede a febre, e constata que a temperatura ainda está um pouco alta, e ele tem a voz fanhosa, típica de quem está pegando um resfriado. 


“Agora fique aqui, bem quietinho, até a febre baixar. Tome este remedinho... isso! Depois eu passo para ver se você está bem. Agora durma. 


“Mas ainda é muito cedo, mãe... eu não estou com sono!” 


“Então eu vou ligar a TV um pouquinho. Pronto! Fique aqui assistindo aos desenhos. Lembre-se que você precisa ficar bem para a sua festa de aniversário de oito anos! É semana que vem. Já pensou, não poder ir à própria festa?” 

Alanzinho percebeu que de nada adiantaria insistir. Começou a prestar atenção ao desenho na TV, as lágrimas ainda rolando livres pelo rosto. Uma tragédia, uma verdadeira tragédia... perderia o segundo Halloween da sua vida! No ano passado chovera... e este ano, ele estava gripado... arrependeu-se muito de ter desobedecido às ordens de sua mãe. Quando será que ele poderia pegar doces, como vira naquele filme da TV? A vida não era boa, não, não era nada boa... agora, só no próximo ano, e ele então já seria quase um homem.


A campainha toca, e Joana abre a porta para Clara, irmã mais velha de Judith, que ficaria responsável pelas crianças naquele ano. As crianças berram: “Gostosuras ou travessuras!” 


Joana olhou para as máscaras e fantasias, tentando reconhecer as crianças. Começou: 


“Deixe-me ver... você de cabelos pretos e fantasia de bruxa é a Marcinha! E você, de mãos dadas com a Clara, só pode ser a Judith! Linda máscara de monstro, meu bem! E você... fantasia bonita, de quem é?” 


“É do Motoqueiro Fantasma, Dona Joana!” 


“Isso mesmo, Helinho! Ficou muito boa! Quase não reconheci você... e finalmente... só pode ser o Sandro, vestido de pirata vampiro! Que original!” 


As crianças entram, enquanto Joana enche suas sacolinhas com algumas balas e doces. Clara pergunta: 


“E onde está o Alanzinho, Dona Joana? Estou curiosa para ver sua fantasia!” 


“Infelizmente, meus queridos, Alanzinho está com febre, e não poderá ir com vocês.” 


Protestos gerais, “ahhs e ohhs” decepcionados. Do quarto, Alanzinho escuta tudo, e cobre a cabeça com o cobertor, para que seus amigos não o escutem chorar. 


Mais tarde, quando todos já tinham ido embora há algum tempo, Alanzinho finalmente adormece. Joana passa pelo quarto antes de ir ela mesma dormir. Beija o filho e ajeita-lhe os cobertores, checando a temperatura da testa com a mão. A febre baixara, mas ele respirava ruidosamente. Melhor mesmo ficar em casa, de cama... ela lamentava, mas achava que tinha feito a coisa certa. 





Enquanto se preparava para dormir – cedo, como sempre – Joana pensava em sua vida; lembrou-se de outros Halloweens nos quais não pode sair para pegar doces com as outras crianças do bairro. Seu pai, sempre severo, não permitia nunca que ela saísse à noite; isto, até os dezoito anos!


Lembrou-se também dos anos difíceis que se acumulavam depois que, ao saber de sua gravidez, o pai a expulsara de casa. No começo, a mãe dera-lhe todo apoio, mesmo que às escondidas, mas após uma longa e difícil doença que tirara-lhe a vida, Joana viu-se totalmente só para criar seu filho, com apenas dezenove anos de idade. O pai de Alanzinho mudara-se, indo estudar longe, e os pais dele jamais deram qualquer informação à Joana sobre seu paradeiro; concordaram em pagar-lhe uma pequena pensão para ajudá-la com a criança, e ela teve que aceitar; mas assim que conseguiu formar-se e arranjar trabalho, recusou a ajuda deles, que jamais fizeram questão de conhecer Alan. 


Hoje, tinha um bom emprego e uma boa casa, e contava com a ajuda de sua fiel Marta, que tomava conta da casa e de Alanzinho enquanto ela trabalhava, desde que o menino completara dois anos. 


Seu pai? Ela um dia recebeu a notícia de que ele estava muito doente. Pedia para vê-la. Relutante, Joana acabou concordando. Ao chegar no hospital, viu deitado no leito uma pessoa fraca e de aparência muito frágil, bem diferente do enérgico homem que andava pela casa dando ordens e que jamais voltava atrás em suas decisões. Ao vê-la, ele tentou falar, fazendo sinal para que ela se aproximasse. Mas não conseguiu emitir uma só palavra. Olhou-a nos olhos, tentando passar a ela o que ele queria dizer, mas ao estar diante do pai moribundo, lembrando-se de que ele nem sequer permitira que ela visitasse a mãe em casa quando ela estava doente, Joana, tomada de emoções conflitantes, saiu correndo daquele quarto de hospital e nunca mais voltou. 


Ao receber a notícia da morte do pai, ela desligou o telefone, suspirando fundo. Naquela tarde, foi a uma igreja e rezou pela alma dele, mas não compareceu ao funeral. 


Após todas aquelas lembranças tristes, Joana chegou à janela e olhou a lua enorme que passeava no céu; uma noite realmente mágica! Na rua, as crianças percorriam as casas, e gritos de “Gostosuras ou travessuras” e também risadas, cortavam o ar cálido da noite. 






No quarto, Alanzinho foi despertado por batidas na vidraça. Sentou-se na cama, e após ouvi-las novamente, foi até a janela, abrindo as cortinas, e deparou com uma turminha muito estranha olhando para ele: uma bruxa, um monstro, um motoqueiro fantasma e um pirata vampiro. Abriu a janela, dizendo-lhes: 


“Olá! Nossa, as fantasias ficaram ‘massa!’ Pena que eu não posso ir... mamãe disse que eu tenho que ficar na cama. Estou com febre!” 


Naquele momento, um senhor forte e alto, de cabelos grisalhos e voz forte, aproximou-se e disse: “Você não está mais com febre agora, Alan!” 


Alanzinho tocou a própria cabeça e viu que era verdade; a temperatura voltara ao normal! Sua garganta já não doía mais, e a rouquidão passara. Não teve certeza sobre quem seria aquele senhor, mas achava que já o tinha visto antes. Talvez fosse o avô de um de seus amigos. 


O velho senhor repetiu: “Você está bem , e pode vir conosco. Se quiser.” 


Alanzinho estava exultante, mas ainda em dúvida; já desobedecera a mãe naquele dia, e a consequência tinha sido bem ruim... hesitou, antes de responder: 


“Eu gostaria muito, senhor... mas não devo desobedecer a minha mãe!” 


As crianças todas, em uníssono, começaram: “Venha conosco, alanzinho, você vai gostar!” O velho senhor estendeu-lhe a mão, e puxando-o para fora, disse-lhe que não se preocupasse com Joana, pois ela ficaria feliz se ele fosse com eles. Alanzinho protestou: 


“Mas eu estou de pijamas!” 


Quando olhou para si mesmo, viu que agora vestia sua fantasia nova de dragão. Talvez sua mãe a tivesse colocado nele depois que ele dormira... não se lembrava. 


Foram todos para um velho ônibus vermelho, cheio de outras crianças fantasiadas que também usavam máscaras; eram fadas, duendes, gnomos, monstrinhos de caras engraçadas e gentis, bailarinas e cowboys. A atmosfera era de muita alegria, e Alanzinho aprendeu várias músicas, que eles cantaram durante algumas horas, enquanto saboreavam os doces mais gostosos que ele já comera. 










Alanzinho estranhou a proximidade da lua, e quando olhou pela janela, percebeu que eles estavam voando. Uau!!! Ele podia ver as casas lá embaixo, as ruas e as pessoas e carros que ainda passeavam. A lua enorme, era branca, tão branca, e parecia que tinha um par de olhos e uma boca gentil que sorria! O velho senhor tirava doces deliciosos de uma sacola, e ia entregando às crianças. Tudo era festa, a mais linda festa que Alanzinho já vira!




Após passearem por toda a cidade, e comerem muitos doces, e cantarem muitas canções, a maioria das crianças adormeceu. Dentro do ônibus, reinava o silêncio. Foi quando o velho senhor sentou-se perto de Alanzinho. Eles se entreolharam, e mesmo à fraca luz que brilhava no teto do ônibus, Alanzinho pode ver que já o conhecia... mas tinha certeza agora, que ele não era o avô de seus amigos. 


“Senhor... eu acho que já o vi antes... qual o seu nome?” 


“Meu nome? Não importa... apenas chame-me de vovô.” 


“O senhor é meu avô? Pai de minha mãe? Ela me disse que o senhor foi embora há muito tempo, mas nunca me disse para onde! E nem porque. As crianças nunca ficam sabendo de toda a história!” 


“Sim, eu sou seu avô, Alanzinho. E eu venho olhando você há muito tempo. Mas sua mãe está muito zangada comigo.” 


“É mesmo? E por que?” 


O velho senhor olhou para a lua, antes de responder, como a buscar forças e as palavras certas que teria que dizer. 


“Porque há muito tempo, eu fiz uma coisa muito errada e muito estúpida, e ela jamais me perdoou... ela tem suas razões, Alanzinho... eu errei muito!” 


Alanzinho percebeu que o senhor estava chorando. Segurou-lhe a mão: 


“Não se preocupe, eu também fiz uma coisa muito errada, e por isso, fiquei doente! Mamãe diz que quando a gente faz coisas erradas, outras coisas ruins acontecem. Mas agora, veja, eu já estou bom! Um dia, mamãe vai perdoar o senhor, se o senhor pedir desculpas a ela direitinho. Ela sempre me perdoa! E olha que eu faço muitas artes!” 


O velho senhor sorriu, entre as lágrimas: 


“Joana fez um ótimo trabalho com você, menino. Bem melhor do que o que eu fiz com ela.” 


Alanzinho não entendeu, e então, permaneceu calado, olhando para o avô. 


“É por isso que você está aqui, meu neto. Eu queria conhecê-lo. E também queria que você me ajudasse com sua mãe. Você sabe, poderia talvez tentar convencê-la a me perdoar. Porque eu moro muito longe, e não posso ir falar com ela pessoalmente.” 


Alanzinho olhou para o velho senhor, muito sério. Havia coisas que, como criança, ele sabia que não poderia compreender. Os adultos eram muito complicados! Então, ao invés de fazer as mil perguntas que estavam em sua cabecinha, apenas disse: 


“Pode contar comigo, vovô!” 


Os dois se abraçaram, e ele adormeceu. 

Acordou com o avô chamando seu nome suavemente.

“Alanzinho! Já chegamos, está na hora de você ir para casa!” 


Ele acordou e olhou para os lados. O ônibus estacionara bem ao lado de sua janela, e tudo o que ele tinha a fazer, era entrar por onde saíra. No horizonte, uma leve claridade já se anunciava, para mostrar que a noite estava quase terminando. Nos bancos do ônibus, as outras crianças ainda dormiam. Ele abraçou o avô, perguntando: 


“Nós nos veremos de novo, não é? Adorei conhecer você, vovô! Tenho certeza de que a mamãe vai perdoar você, pois ela é muito boa!” 


O velho suspirou: 


“Sim, meu querido neto, nós nos veremos de novo, mas ainda vai demorar um pouco... talvez, muitos anos... mas estarei sempre olhando por você, e se quiser falar comigo, é só pensar em mim que eu estarei te ouvindo. Tomara que você esteja certo, e sua mãe possa me perdoar!” 


Abraçaram-se de novo, por um longo momento. Depois, Alanzinho foi acordar seus amigos. As crianças, ainda zonzas, acordavam lentamente, uma a uma, enquanto ele dizia: “Marcinha! Helinho! Judith! Sandro! Acordem!” 


Ainda sonolentas,elas responderam: 


“Eu não sou Helinho!” 


“Eu não sou nenhuma Marcinha!” 


“Meu nome não é Sandro!” 


“Não conheço ninguém chamado Judith!” 


Alanzinho imediatamente tentou puxar-lhes as máscaras, e elas gritaram: “Ai! Você puxou meu nariz!” “Ai, minha orelha!” “Hei, largue meu cabelo!” “Por favor, não puxe meu chapéu!” 


Foi só então que Alanzinho compreendeu o que acontecera: aquelas não eram crianças! Eram bruxas, fadas, duendes e monstrinhos de verdade! Ainda zonzo com sua descoberta, e encantado com aquilo tudo, acenou-lhes um adeus, enquanto seu avô o carregava no colo e o colocava na cama. 












Na manhã seguinte, Joana o acordou com um lauto café da manhã. Encontrou-o muito falante e bem-disposto:

“Mãe! Eu conheci o vovô! Eu conheci o vovô!” 


Aquilo deixou-a chocada: 

“Não pode ser, meu filho... olhe, não fale mais nisso. Você nunca viu seu avô. Não é possível... você teve um sonho, só isso.” 

Alanzinho insistiu: 


“Mas mãe, é verdade! Ele é alto assim, e tem olhos azuis, cabelos quase brancos, e uma pinta grande bem deste lado do rosto! Tem umas sobrancelhas grossas e cara de malvado, mas ele é muito legal!” 


Joana ficou desconcertada: legal?! Mas ao mesmo tempo, ficou surpresa, porque a descrição que Alanzinho fizera de seu falecido pai era perfeita. Não sabia o que tinha acontecido com seu filho, mas provavelmente, o menino tivera um sonho... ela sorriu para ele, dizendo: 


“Sim, meu amor, agora coma seu pão com manteiga. Hoje é sábado, e você não precisa ir à escola, então pode ir brincar na casa de seus amiguinhos.” 


“Mãe, tem uma coisa importante que ele me pediu para dizer a você!” 


Joana ficou séria, enquanto Alanzinho dizia: 


“Ele disse que fez uma coisa muito errada quando morava com você, e que está arrependido. Disse que não pode vir aqui pedir desculpas, e pediu que eu dissesse a você que ele sente muito, e que sempre olha pela gente.” 


Joana chorava. Ficou calada escutando a história da noite mágica (do sonho) que seu filho tivera. Ouviu-o contar sobre as músicas – ele se lembrava de alguns trechos, e cantou-os para ela. Ela imediatamente reconheceu as canções que sua avó lhe ensinara quando ela era criança. Quando Alanzinho finalmente terminou o seu relato, ela sorriu-lhe brandamente, abraçando-o forte. 


“É uma linda história, meu querido... agora vá mudar de roupa porque está uma linda manhã!” 


Ele se levantou e antes de entrar no banheiro, parou à porta e perguntou-lhe: 


“Mãe! Você vai perdoar o vovô?” 


Ela sorriu-lhe e disse: 


“Vou sim, meu querido.” 


Joana olhou para fora, para o sol que entrava pelo quarto, e sentiu que um grande peso fora retirado de suas costas. A vida de repente passou a ter um novo brilho, que nascera junto com aquela manhã. 


Pensou na linda história contada por seu filho. As crianças tinham mesmo muita imaginação! Mas ao começar a arrumar o quarto de Alanzinho, ao erguer seu travesseiro, Joana encontrou uma bala diferente, embrulhada em um papel que nunca vira antes. Ao desembrulhá-la e colocá-la na boca, sentiu um sabor maravilhoso, que as balas que ela já comera não tinham. Era muito boa! Onde será que seu filho arranjara aquela bala? 


Olhou para o papel, tentando encontrar a origem, e então viu que a embalagem na qual a bala vinha embrulhada tinha a imagem do rosto de seu pai. 









quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

A Mulher que Bordava




A MULHER QUE BORDAVA
 
Geralmente, Magda ficava sentada em um canto, bordando seus muitos paninhos. Passava horas entretida com suas linhas coloridas, confeccionando seus trabalhos, que presenteava aos amigos e conhecidos nas datas festivas. Tinha centenas deles: assim que ficava sabendo de um aniversário, casamento ou formatura, embrulhava um de seus lencinhos rendados e bordados em uma caixinha, e os presenteava às pessoas escolhidas.

Também gostava de rezar pelas pessoas; se soubesse que alguém encontrava-se enfermo, ou precisando passar em algum concurso, lá ia ela oferecer suas rezas: “Estarei rezando por você!” As pessoas agradeciam, comovidas.

Um amor de pessoa. Usava sempre um coque, os fios cuidadosamente presos na nuca. Ex-bailarina, ainda tinha o corpo esguio, mas tivera que abandonar a dança ainda cedo, aos trinta anos, devido a um acidente de carro que prejudicou-lhe os joelhos. Nunca mais pode dançar, o que deixou-a amarga e frustrada durante muitos anos. Tão amarga e frustrada, que nem sequer o casamento e o nascimento da filha puderam curá-la de seu desespero.

O marido se fora com outra, deixando-a ainda mais amarga. Devido a este afastamento, ela passou a depositar todas as suas esperanças na filha, que embora detestasse a dança, foi praticamente obrigada a estudar balé até os quinze anos de idade, quando finalmente, deu-lhe um ‘basta.’ Ameaçou fugir de casa e nunca mais voltar.

 Magda tinha cinquenta e poucos anos de idade, e a única parente viva, era a filha já adulta, casada, que mudara-se para longe. Alguns vizinhos mais antigos diziam que as duas tinham tido um desentendimento, mas ninguém conseguia compreender como alguém poderia desentender-se com uma criatura tão doce e tão solícita! Fato, era que desde que a filha se casara – há cerca de dois anos – nunca mais dera notícias. Isto só contribuiu para deixá-la ainda mais amarga; mas quanto mais a vida pregava-lhe suas peças, mais ela tentava disfarçar sua amargura e frustração, trazendo no rosto sempre um sorriso, e confeccionando seus lencinhos e paninhos.

Mas enquanto ela o fazia, parecia que entrava em algum tipo de transe; as lembranças vinham. Lembrava-se de si mesma nos palcos, recebendo os aplausos e atenções. As flores, ao final dos espetáculos. Os olhares de inveja das outras bailarinas, pois nenhuma delas tinha o seu talento. Lembrava-se do acidente que tirara dela seu grande sonho.

Depois, lembrava-se do dia em que conhecera seu marido, seu querido Tércio. Nem mesmo ele foi capaz de tirá-la da depressão em que se encontrava, mas ela dissimulava muito bem seus sentimentos... até que um dia, não conseguiu mais fingir. Toda a sua amargura veio à tona, tornando a vida a dois  um verdadeiro inferno. Passou a ser ciumenta e invejosa. Queria possuir tudo o que suas amigas – esposas dos amigos de Tércio – possuíam.

Barbara, a filha, era uma criança quieta e infeliz. Parecia ter medo da mãe. Desde muito pequena, era obrigada a ser perfeita, a realizar, sem questionamentos, tudo o que a mãe mandava.

Finalmente, um dia, Tércio saiu de casa e foi morar com sua secretária. Magda teve outra crise depressiva. Passou a ir quase todos os dias ao trabalho do ex-marido, implorar-lhe que a perdoasse e voltasse para ela. A situação estava se tornando insustentável. Ninguém mais aguentava seus escândalos. Foi então que, de repente, ela se acalmou.

Alguns meses depois, ela mandou de presente à sua rival uma caixa com um bilhete. Dizia sentir muito pelo que fizera, e que finalmente compreendera que a vida devia seguir sempre em frente, e que como prova de que desejava ao casal apenas tudo de melhor, tinha bordado ela mesma aquela linda toalha de mesa.

Todos louvaram sua atitude de nobreza e desprendimento, e ela, humildemente, agradeceu, com lágrimas nos olhos.

Logo depois, Tércio e sua nova esposa separaram-se. Nem perceberam que as intrigas e desentendimentos passaram a fazer parte de suas vidas depois da chegada da tal toalha.

Assim, ela passou a bordar e costurar compulsivamente. Colocava em seus presentes toda a energia maléfica que acumulara ao longo dos anos, despejando sua inveja e frustração em seus trabalhos manuais. Algumas pessoas mais frágeis, ao receber tais presentes, ficavam doentes, perdiam o emprego, separavam-se de seus maridos, enfim, as coisas começavam a dar errado em suas vidas de repente.

E era naqueles momentos – naqueles exatos momentos de fragilidade – que Magda dizia, sorrindo de compaixão:

-Vou rezar por você!

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

A Esposa Fada










A Esposa Fada




Um conto baseado em lendas Celtas. 




Rodolfo acordou no meio da noite, e ainda parcialmente habitando os sonhos, olhou para o lado. Viu-lhe a silhueta desenhada sob as cobertas, que se erguia levemente, conforme ela respirava em seu sono tranquilo. 


Uma onda de amor e paixão inundou-o. 


Lembrou-se de como a conhecera, há um ano e seis meses: 


Caminhava pela floresta após o almoço, a mesma velha floresta pela qual costumava caminhar desde os seis ou sete anos de idade (naquele tempo, escondido de seus pais, que temiam que se perdesse). Conhecia o que estaria depois de cada curva, e cada canto de pássaro. A floresta era como se fosse sua segunda mãe, pois vira-no crescer, transformar-se em um homem. Ela o protegera e o escutara em seus momentos de dificuldades, sempre respondendo às suas questões e acalmando suas ânsias como o faria uma dedicada mãe, através do sussurro do riacho, do canto dos pássaros e do beijo sibilante do vento. 




Como eu já disse, Rodolfo conhecia cada curva da floresta; por isso mesmo, ficou estarrecido ao ir ter à beira de uma fonte que parecia ter aparecido do nada, no meio das árvores, onde uma linda moça banhava seus pés. Parou, encantado diante da beleza da cena:



A jovem, vestida com uma túnica branca diáfana, estava sentada na beirada do riacho, e a água que caía de uma pequena fonte fazia bolhas em volta de seus pés. Os cabelos, muito claros e longos, caíam-lhe em cascatas até a cintura, e uma grinalda de flores do campo ornava-lhe a cabeça. A pele era tão branca e delicada, que Rodolfo comparou-a aos cogumelos que cresciam em seu jardim, no meio da grama, e que ressecavam aos primeiros raios de sol. 





Ela ergueu os olhos e olhou para ele como se o conhecesse. Não houve qualquer sobressalto. E ele também teve uma estranha sensação de já tê-la encontrado antes, mas em um tempo tão remoto, que apenas uma leve bruma de memória conseguia chegar até ele, e uma bruma tão leve quanto breve.


Desde então, eles passaram a encontrar-se ali todas as manhãs. E mesmo que estivesse chovendo torrencialmente, ali naquele ponto na clareira da floresta, uma nesga de sol brilhava. 




Ela aceitou casar-se com ele, para seu alívio, pois Rodolfo não concebia a ideia de viver longe dela; preferiria morrer!

Mas ela impôs algumas condições: 

-Ele jamais deveria fazer perguntas sobre ela; de onde viria, quem era sua família, ou que forma de vida ela era. 

-Jamais deveria abrir um pequeno baú que ela guardava sempre junto a si, e nem indagar-lhe o que ele continha. 

-Ela precisaria ficar algumas horas por dia totalmente só, e ele jamais poderia questioná-la ou espioná-la. 

-Na primeira noite de lua-cheia, ela iria para a floresta. Nem foi preciso dizer que o faria sozinha, e que ele não deveria seguí-la jamais! 


-Eles teriam que viver para sempre junto àquela floresta. 




Recordando-se daqueles tempos, Rodolfo percebeu quando a esposa acordou, pois o rítimo de sua respiração tranquila mudou. Ele fingiu que ainda dormia, enquanto ela se levantava e, abrindo a porta do chalé, saía pela noite enluarada, a barra da camisola esvoaçando atrás de si, e ela, mergulhando na floresta escura até desaparecer.


Todas as noites de lua cheia, quando ele a via sair, sentia curiosidade em saber o que ela fazia. Encontrar-se-ia com alguém? O ciúme o dominava, mas lembrava-se da promessa feita a ela, e forçando a sua própria natureza, não a seguia. Naquela noite em especial, estava tão ansioso que decidiu ir até a pequena cozinha preparar para si um pouco de chá.

Foi quando deparou com o pequeno baú na prateleira da despensa. Uma estranha luz dourada saía pelas frestas da madeira. Imediatamente, Rodolfo começou a tremer de curiosidade, e mesmo fazendo todo o esforço que conseguia para conter sua curiosidade, acabou pegando o pequeno objeto e, ainda hesitante, abriu uma pequena fresta da tampa...



Foi o suficiente para que a luz escapasse, em uma explosão de raios que dominaram toda a pequena casa! Quem estivesse passando na floresta àquela hora, teria visto uma luz dourada que explodia para fora do chalé, através de portas, janelas, chaminé e frestas, iluminando tudo em um raio de quilômetros!






Quando ele despertou, estava caído no chão da cozinha, e o baú, tinha desaparecido. Assim como desapareceram todo e qualquer traço da presença de sua esposa pela casa. Ele procurou pela cesta de palha que ela tecera durante a manhã; também olhou dentro das panelas, e a comida tinha desaparecido. Todas as coisas feitas por ela - cortinas lindamente confeccionadas, cestos, pequenos candelabros delicados, flores que ela colhia e nunca murchavam, enfim, tudo desaparecera. A cabana era apenas um lugar nu, gelado e sem-vida.


Ele correu para a floresta, e tentou em vão encontrar a clareira onde tinham se conhecido.


Chamou por seu nome. Chorou copiosamente, gritando ao luar o seu arrependimento. Mas ninguém respondeu-lhe. 



Quando o dia amanhecia, voltou para a casinha. Olhou-se no espelho: era um homem velho.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Dora & os Monstros






Dora era uma linda garotinha de nove anos de idade, que vivia com seus pais em um apartamento na cidade.  Ela costumava brincar na pracinha em frente ao prédio onde morava, mas um dia, algo terrível aconteceu - uma bala perdida atingiu um de seus amiguinhos. Ele teve que ir para o hospital, mas felizmente, ficou bom depressa.

Mas aquele fato fez com que os pais de Dora e seus amigos tomassem uma triste decisão: as crianças não poderiam mais ir brincar na pracinha. Assim, a pracinha, que era um local de reunião entre Dora e seus coleguinhas, tornou-se triste e vazia. As crianças iam brincar nas casas umas das outras, mas os apartamentos não tinham espaço suficiente para todas elas, e portanto, Dora só tinha autorização para convidar três amiguinhos de cada vez. Brincadeiras como pique-esconde, pique-bandeira, bola e pega-pega, tornaram-se impossíveis.


Por causa daquilo, Dora começou a tornar-se uma menina muito triste e branquinha, pois quase não tomava sol. Ficava o tempo quase todo assistindo na televisão desenhos animados onde figuravam monstrinhos, fantasmas, guerrilheiros e outras criaturas estranhas (Dora não tinha TV à cabo). Às vezes, ela tinha permissão para usar o computador e conversar com seus amigos online, mas não era tão divertido.

Vendo aquilo, os pais de Dora tomaram uma importante decisão: iriam vender o apartamento, juntar suas economias e comprar uma casa em um bairro tranquilo. E assim fizeram! 

Por um lado, foi bom; Dora teria mais espaço. Estaria junto à natureza, e teria até um animalzinho de estimação - um cachorrinho, ela tinha decidido; por outro lado, ela teria que ficar longe de seus antigos companheiros de brincadeiras. Alguns deles eram também amigos de escola, mas não seria mais a mesma coisa...  teria que tentar fazer novos amigos na vizinhança, e Dora era um pouco tímida para fazer amigos.


Durante a reforma da casa, vendo que Dora ainda estava um tanto triste, sua mãe teve uma ideia: deixaria que ela pintasse a parede de seu quarto como ela bem quisesse. Dora ficou muito alegre, e as duas saíram logo de manhã cedo a fim de comprar as tintas. 

Quando chegou em casa, Dora parou diante da parede ainda branca de seu quarto, e ficou pensando: o que desenharia? Não era muito boa com desenhos! No começo, pintou algumas flores, que ficaram tão feiosas, as cores tão borradas, que ela pintou a parede de branco novamente. Depois, tentou desenhar alguns animaizinhos. até que foi um pouco mais fácil, mas quando terminou, reparou que os desenhos ainda estavam muito feios, pois as cabeças estavam grandes ou pequenas demais para os corpos, e os animais tinham as patas de tamanhos diferentes. Apagou tudo de novo!

No dia seguinte, Dora pensou: "Eu vou desenhar monstrinhos! Eles podem ter o formato e a cor que eu quiser!" Assim, Dora passou a manhã de domingo de portas fechadas, desenhando vários monstrinhos na parede de seu quarto. Seus pais não ficaram muito satisfeitos, mas fingiram gostar dos desenhos para que Dora não ficasse triste. 


E tudo estaria resolvido, se não fosse por um detalhe: os monstrinhos, à noite, saíam das paredes e iam incomodar a menina em seus sonhos. Dora passou a ter pesadelos todas as noites! Sonhava com aquelas criaturas feias, que a perseguiam. Com o tempo, ficou com medo de dormir com a luz apagada, e mais tarde, passou a sentir tanto medo - mesmo com a luz acesa - que passava grande parte da noite encolhida, a cabeça debaixo das cobertas, ouvindo sons esquisitos e risadas estranhas. Se dormia, tinha pesadelos muito feios. Passou a sofrer de insônia, e o aproveitamento na escola, caiu muito.

Os pais não sabiam a causa das insônias e das notas baixas de Dora. Na verdade, nem ela mesma sabia explicar. Por isso, resolveram levá-la ao Doutor Cássio - um famoso psicólogo e terapeuta infantil. Após algumas sessões, Doutor. Cássio, conversando com a menina, conseguiu matar a charada do problema:



-Dora, como são os monstrinhos que você vê em seu sonho?

Nunca ninguém tinha perguntado aquilo, e Dora pensou e concluiu que eram os mesmos que ela tinha desenhado na parede de seu quarto! Quando contou ao Doutor Cássio, ele sorriu e disse-lhe:

-Querida, não acha que seria uma boa ideia se você tentasse desenhar outras coisas na parede do seu quarto? Por exemplo, flores, anjos, paisagens bonitas...

A menina choramingou:

-É que eu não sei desenhar... os monstros podem ser tortinhos, ter cores esquisitas, podem ser como eu quiser. É bem mais fácil desenhar monstros!

-Vamos fazer assim: a partir de hoje, nós dois vamos treinar e desenhar lindos anjos. Tudo bem?
-Mas eu não vou conseguir! Eu tentei, mas as asas são muito complicadas... anjos são perfeitos, e eu não sei desenhar nada com perfeição!

Doutor Cássio pensou um pouco, e respondeu:

-Dora, os anjos não precisam ser perfeitos, desde que sejam anjos! O que importa, é que eles ajudarão a proteger os seus sonhos, serão bondosos com você e não deixarão que os monstros penetrem no seu espaço. Mandarão os monstros embora!

-O senhor promete?

-Sim, eu prometo.

Nas próximas consultas, Doutor Cássio ficou ajudando Dora a aprender a desenhar figuras de anjos, que ele tinha procurado em livros e revistas. Logo, a menininha já era capaz de desenhar anjos muito bons e bonitos. Após alguns dias, Doutor Cássio disse:



-Parabéns, Dora! Acho que você já pode desenhar anjos em sua parede! Viu só? é Tudo uma questão de treino. Dá trabalho, exige tempo e paciência, e também muita coragem para lutar contra os monstrinhos, mas dá resultado. É sempre bem mais fácil desenhar monstrinhos, mas depois, temos que conviver com os monstrinhos que desenhamos. Desenhar anjos pode não ser tão fácil assim, mas quando a gente aprende, a gente se acostuma a ter coisas sempre bonitas, nos protegendo, nas paredes de nossos quartos e em nossas vidas.



No dia seguinte, Dora passou a tarde desenhando lindos anjos nas paredes do seu quarto. Nunca mais ela teve pesadelos, e sentiu-se sempre protegida por eles. mesmo depois que cresceu e tornou-se uma bela moça.


sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

A Transformação












A Transformação

Os gatos foram chegando um a um, logo após a morte do marido. Ela ainda era nova - sessenta anos- já que casara-se com um homem bem mais velho do que ela. Mas voltando aos gatos... 

Bem, um dia, ela achou um filhotinho na rua, e levou-o para casa. Algum tempo depois, descobriu que o filhotinho era uma 'menina,' que engravidou e deu à luz seis gatinhos, antes que ela pudesse castrá-la. Os seis gatinhos - castrados - trouxeram alguns amigos, que iam chegando devagar, caminhando pelo muro nos primeiros dias, fitando-a com seus olhos de bolinhas de gude, até que ela, comovida, oferecia-lhes algo para comer, e deixando a porta da cozinha aberta, eles entravam, acomodando-se nas cadeiras, almofadas e tapetes. 



Na mesma época, um corvo entrou pela janela enquanto ela tomava seu café da manhã. Não parecia amedrontado, e ambos sentiram-se imediatamente à vontade na presença um do outro. No início, ela ficou preocupada com a reação dos gatos quanto a ave, mas todos integraram-se perfeitamente. Não houve nenhuma tentativa, por parte dos felinos, de atacar a ave, que convivia muito bem com eles, ao ponto de comerem todos juntos. 

No início, ela achou ruim; afinal, tinha que usar o aspirador de pó pelo menos duas vezes ao dia, para que a casa ficasse relativamente limpa. Depois, os pelos e penas passaram a não incomodá-la tanto, e ela deixou o aspirador de pó para ser usado uma, talvez duas vezes por semana. As visitas, irritadas com a presença dos gatos e da ave, que não era muito gentil com as visitas, foram escasseando, até pararem por completo; tagarelavam entre si, dizendo que ela tinha ficado maluca; onde já se viu, preferir a companhia dos gatos e daquela ave agourenta! 








Mas a transformação começou mesmo, a partir de seu sexagésimo segundo aniversário. Um dia, ela acordou, e deparou com uma verruga na ponta do nariz. O médico disse que não era nada, e perguntou-lhe se gostaria de removê-la. Ela hesitou antes de responder. Apesar da estranheza da situação, ela não se sentia incomodada; pelo contrário! Agora que descobrira que não era nada grave, começou a gostar do novo detalhe em seu rosto. Foi até o espelho, olhou-se e decidiu: "Se essa coisa nasceu aí, é porque deve ficar aí." 

Na manhã seguinte, ao pegar a vassoura a fim de varrer algumas migalhas de pão no chão da cozinha, percebeu que ela estava extremamente leve. Espantada, largou-a de repente, e a vassoura, ao invés de cair, flutuou. Boquiaberta, ela andou em volta da vassoura, que parecia ter alguma forma de inteligência e dialogar com ela. Em cima da pia, um gato preto e lustroso - Mefistófeles, seu preferido - olhava-a com seus olhos verdes e penetrantes. 


Ela dobrou a dose do tranquilizante e foi dormir mais cedo, pensando que estava enlouquecendo. 

Acordou de madrugada, com alguma coisa cutucando-lhe as costelas. Abriu os olhos, pensando ser um dos gatos, mas sentou-se na cama, assustada, quando viu que era a vassoura, que estava de pé ao lado da cama. 



Fascinada, a velha senhora levantou-se, e foi naquele momento que a vassoura deu um giro no ar, enfiando-se no meio das suas pernas. Aos berros, ela saiu voando pela janela do segundo andar, em direção a lua, tão agarrada ao cabo da vassoura, que os nós dos dedos doíam.. mas quando o susto passou, ela percebeu que gostava daquilo. Era divertido! Há tempos não se sentia tão bem e tão viva! 

Passou voando pelos telhados das casas, espantando os gatos dos becos, fazendo os cães uivarem, penetrando nas nuvens... e finalmente, antes do amanhecer, a vassoura deixou-a em seu quarto, voltando para o armário da área de serviço. Ela foi dormir, e quando despertou novamente, viu que alguém tinha limpado a casa, e havia comida fresca no fogão. A mesa do café da manhã tinha sido posta com a sua melhor louça, e o cheirinho do café envolvia toda a casa. 

Desejou uma xícara, e estupefata, viu quando o bule flutuou sobre a mesa, servindo-a, sem derramar uma só gota. Ao mesmo tempo, ouviu o ruído do cortador de grama no jardim, e quando olhou pela janela da cozinha, viu que ele estava funcionando sozinho. Os gatos, alimentados, dormiam pela casa, e não havia um só pelo em seus sofás, tapetes e almofadas! 

O corvo, pousado à janela, parecia divertido com a situação. 

Ela estava gostando daquilo... nem se importou quando, ao passar pelo espelho do corredor, percebeu que a verruga na ponta do nariz (que tornara-se adunco) tinha crescido, e que suas costas estavam um pouco encurvadas. Adorou as unhas pontudas e os cabelos lisos e negros - outrora grisalhos e encaracolados. 



Ao sair para dar uma volta, percebeu que as crianças a apontavam na rua. As menores escondiam-se atrás das saias das mães, que constrangidas pelo comportamento das crianças, ralhavam com elas. 

Um novo sentimento, antes inexistente, começava a tomar conta de sua alma; um certo egoísmo, um pouquinho de maldade, talvez... ela, que sempre fora tão boa, tão condescendente, tão correta e solidária, agora, pensava que a existência valia mais a pena quando vista sob o prisma de um viver para si, e que um pouco de egoísmo deixava tudo mais excitante. Assim, ao invés de fazer a costumeira doação às obras da igreja, ela comprou roupas novas: vestidos negros e esvoaçantes, cujas saias e rendas ficariam lindas balançando ao vento, em seus voos nas noites de luar. 

Tornou-se uma lenda. 

As crianças apostavam, em seus ritos de passagem, quem conseguiria chegar até a casa da bruxa (como ela passou a ser conhecida) e tocar a campainha, ou entrar no jardim e colher um galho de sabugueiro sem ser visto. 

Algumas pessoas até podiam zombar dela pelas costas, mas ninguém se atrevia a desafiá-la. Respeitavam-na, dando-lhe passagem, e para seu alívio, deixaram de tratá-la como se fosse uma criança, usando aquele irritante tom de voz e dizendo coisas estúpidas como "Tá bonitinha hoje! vai passear?" Ela detestava ser tratada daquele modo! 

Ela descobriu que ser uma bruxa era divertido, além de muito útil, afinal de contas... 




quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Trago a Pessoa Amada em Sete Dias!




Clarita andava pela rua como num transe pré-apocalíptico: cabelos desgrenhados, barra da camisa desleixadamente caindo para fora do cós da calça, rímel borrado, formando um círculo negro sob os olhos, dedos amarelados de nicotina - e ela nem fumava, antes daquele triste evento. É que Pablo, seu noivo de muito tempo (treze anos) a tinha deixado. Bem, dizem mesmo que o número treze dá azar... e ela seguia pelas ruas, meditando no poder daquele número fatídico, quando, ao virar a esquina, depara com um cartaz discreto colado em um poste:

"Trago a pessoa amada em sete dias. Desfaço mandingas de qualquer tipo, consigo emprego, vejo o passado e o futuro. Marcar hora com Madame Zora - tel: 2171-1313."

Clarita hesitou por um breve momento, olhando o anúncio colado ao poste. Espantou-se com a coincidência do número do telefone: 1313. O mesmo número de anos do noivado desfeito. Depois, pareceu cair em si, olhando para os lados disfarçadamente, preocupada com o ridículo de ser vista olhando tal anúncio. 

Tratou de ir andando. Mas não se esqueceu do telefone de Madame Zora - e a lembrança daquele nome místico, em volta de vários números treze, fizeram com que ela tivesse mais  uma escura noite em claro. Imaginava o rosto da vidente - alguém de longos e oleosos cabelos negros, unhas compridas pintadas de vermelho berrante, uma pinta no canto da boca, sobrancelhas grossas e arqueadas, muitas joias espalhadas pelos dedos, braços e pescoço, enfim, o retrato de uma cigana.

Tentou esquecer o assunto, mas alguns dias depois, sua amiga Vivi veio contar-lhe a novidade:

-Soube não? Pablo está para casar-se.

Sentiu o impacto da notícia em seu peito, como uma forte martelada.

-O que?! Como assim? Quando? E... e... com quem?!

-Com a secretária. Dizem que eram amantes há muito tempo. Só estou te contando porque quero o seu bem - Vivi disse, maliciosamente.

Clarita fingiu não se importar, mas quando Vivi desceu a ladeira e virou a esquina, sua fúria veio à tona: logo Janete, a secretária, aquela loura lambida (bem, não era tão lambida assim) que lhe oferecia café e revistas quando ela ia ao escritório de Pablo? Aquela fingida, que desmanchava-se em gentilezas enquanto a apunhalava pelas costas? Aquela periguete invejosa, que lhe tomava o homem sem dó nem piedade, enquanto dirigia-lhe um sorriso amarelo?

Clarita esqueceu-se de toda a culpa do ex-noivo, fazendo dele uma vítima inocente arrebatada pelas garras da loura macumbeira. Mas ela o teria de volta em até sete dias! Pegou o celular e discou o número de Madame Zora, marcando horário para aquela mesma tarde.

Arrumou-se muito bem - afinal, não queria parecer uma mulher frustrada e desesperada, e sim uma amante carinhosa e compreensiva que queria apenas salvar o noivo e resgatar seu verdadeiro amor. 

Ao chegar no local marcado - uma quitinete em Copacabana - surpreendeu-se ao ver que a porta abriu-se com um rangido assim que ela ergueu a mão para bater. Nem viu a câmera escondida na quina do batente. Ficou realmente impressionada ao entrar, e ver de pé no meio da sala decorada de roxo e preto, uma senhorinha baixinha e encurvada, com mais rugas do que sua falecida bisavó. Não era nada do que ela pensava!

Foi convidada a sentar-se. A velhinha - Madame Zora - sentou-se diante dela, pegando um maço de Tarô ensebado, acendendo um incenso nauseabundo e respirando profundamente algumas vezes, parecendo recitar uma prece estranha em alguma língua esquisita. Finalmente, depois daquele ritual, olhou para ela, perguntando:

-O que posso fazer por você, filha?

Clarita pareceu confusa, escolhendo bem as palavras a fim de causar uma boa impressão. Se a mulher fosse uma falsa vidente, não ia tirar partido de seu desespero.

-Bem, eu...
Madame Zora  interrompeu-a, semi-cerrando os olhinhos já pequenos:

-Já sei... é homem, não é?
-Como?
-Homem. Você está aqui por causa de um homem... eu o vejo... hum...

Clarita despejou-se imediatamente, esquecendo toda a sua dignidade:

-É isso mesmo! A senhora é boa, hein? 

E contou-lhe sua história triste. Falou de todas as vezes em que Pablo a havia traído , mas que nunca era nada sério, e que ele sempre voltava aos seus braços; contou-lhe também sobre uma ou duas vezes em que ele havia lhe batido- por culpa dela-, mas que pedira desculpas; contou-lhe do casamento várias vezes marcado e desmarcado, pois dias antes da data marcada, ele sempre caía doente (devia ser macumba daquelazinha). 

 Uma hora depois, Madame Zora estendia-lhe um lenço de papel, onde Clarita assoou o nariz. Feliz da vida, Clarita entregou-lhe duas notas de cem reais, deixando o recinto com o coração cheio de esperança.

Três dias se passaram. Nada. 

No quarto dia, enquanto olhava a vitrine de um grande magazine, Clarita viu sua rival escolhendo lençóis e toalhas para seu enxoval. Ficou furiosa ! Mais ainda, ao ver Pablo pagar tudo com o seu cartão de crédito - e lembrou-se que ainda não tinham separado as contas. No décimo dia, a fatura do cartão chegou, e ela, como titular, teve que pagar a conta exorbitante do enxoval do seu ex-noivo com a periguete. 

Alguns dias depois, Clarita voltou à casa de Madame Zora, dizendo que queria o seu dinheiro de volta.

-Sua velha trambiqueira! Você  promete trazer a pessoa amada de volta em sete dias! Quinze dias já se passaram, e nada!  O bandido ficou noivo de outra, e ainda fez o enxoval Às minhas custas! Quero o meu dinheiro de volta!

Madame Zora, olhando-a através de seus olhinhos semicerrados, deu um sorriso irônico, e respondeu:

-É verdade. Eu prometo trazer a pessoa amada em sete dias. Mas pelo que posso perceber, ele não é mais a sua pessoa amada.



A MÃO E O LAÇO – CAPÍTULO VII

Fiquei esperando, os olhos presos em Drica, especialmente nos lábios dela, que pareciam pronunciar palavras absurdas enquanto e...