domingo, 17 de fevereiro de 2013

Dora & os Monstros






Dora era uma linda garotinha de nove anos de idade, que vivia com seus pais em um apartamento na cidade.  Ela costumava brincar na pracinha em frente ao prédio onde morava, mas um dia, algo terrível aconteceu - uma bala perdida atingiu um de seus amiguinhos. Ele teve que ir para o hospital, mas felizmente, ficou bom depressa.

Mas aquele fato fez com que os pais de Dora e seus amigos tomassem uma triste decisão: as crianças não poderiam mais ir brincar na pracinha. Assim, a pracinha, que era um local de reunião entre Dora e seus coleguinhas, tornou-se triste e vazia. As crianças iam brincar nas casas umas das outras, mas os apartamentos não tinham espaço suficiente para todas elas, e portanto, Dora só tinha autorização para convidar três amiguinhos de cada vez. Brincadeiras como pique-esconde, pique-bandeira, bola e pega-pega, tornaram-se impossíveis.


Por causa daquilo, Dora começou a tornar-se uma menina muito triste e branquinha, pois quase não tomava sol. Ficava o tempo quase todo assistindo na televisão desenhos animados onde figuravam monstrinhos, fantasmas, guerrilheiros e outras criaturas estranhas (Dora não tinha TV à cabo). Às vezes, ela tinha permissão para usar o computador e conversar com seus amigos online, mas não era tão divertido.

Vendo aquilo, os pais de Dora tomaram uma importante decisão: iriam vender o apartamento, juntar suas economias e comprar uma casa em um bairro tranquilo. E assim fizeram! 

Por um lado, foi bom; Dora teria mais espaço. Estaria junto à natureza, e teria até um animalzinho de estimação - um cachorrinho, ela tinha decidido; por outro lado, ela teria que ficar longe de seus antigos companheiros de brincadeiras. Alguns deles eram também amigos de escola, mas não seria mais a mesma coisa...  teria que tentar fazer novos amigos na vizinhança, e Dora era um pouco tímida para fazer amigos.


Durante a reforma da casa, vendo que Dora ainda estava um tanto triste, sua mãe teve uma ideia: deixaria que ela pintasse a parede de seu quarto como ela bem quisesse. Dora ficou muito alegre, e as duas saíram logo de manhã cedo a fim de comprar as tintas. 

Quando chegou em casa, Dora parou diante da parede ainda branca de seu quarto, e ficou pensando: o que desenharia? Não era muito boa com desenhos! No começo, pintou algumas flores, que ficaram tão feiosas, as cores tão borradas, que ela pintou a parede de branco novamente. Depois, tentou desenhar alguns animaizinhos. até que foi um pouco mais fácil, mas quando terminou, reparou que os desenhos ainda estavam muito feios, pois as cabeças estavam grandes ou pequenas demais para os corpos, e os animais tinham as patas de tamanhos diferentes. Apagou tudo de novo!

No dia seguinte, Dora pensou: "Eu vou desenhar monstrinhos! Eles podem ter o formato e a cor que eu quiser!" Assim, Dora passou a manhã de domingo de portas fechadas, desenhando vários monstrinhos na parede de seu quarto. Seus pais não ficaram muito satisfeitos, mas fingiram gostar dos desenhos para que Dora não ficasse triste. 


E tudo estaria resolvido, se não fosse por um detalhe: os monstrinhos, à noite, saíam das paredes e iam incomodar a menina em seus sonhos. Dora passou a ter pesadelos todas as noites! Sonhava com aquelas criaturas feias, que a perseguiam. Com o tempo, ficou com medo de dormir com a luz apagada, e mais tarde, passou a sentir tanto medo - mesmo com a luz acesa - que passava grande parte da noite encolhida, a cabeça debaixo das cobertas, ouvindo sons esquisitos e risadas estranhas. Se dormia, tinha pesadelos muito feios. Passou a sofrer de insônia, e o aproveitamento na escola, caiu muito.

Os pais não sabiam a causa das insônias e das notas baixas de Dora. Na verdade, nem ela mesma sabia explicar. Por isso, resolveram levá-la ao Doutor Cássio - um famoso psicólogo e terapeuta infantil. Após algumas sessões, Doutor. Cássio, conversando com a menina, conseguiu matar a charada do problema:



-Dora, como são os monstrinhos que você vê em seu sonho?

Nunca ninguém tinha perguntado aquilo, e Dora pensou e concluiu que eram os mesmos que ela tinha desenhado na parede de seu quarto! Quando contou ao Doutor Cássio, ele sorriu e disse-lhe:

-Querida, não acha que seria uma boa ideia se você tentasse desenhar outras coisas na parede do seu quarto? Por exemplo, flores, anjos, paisagens bonitas...

A menina choramingou:

-É que eu não sei desenhar... os monstros podem ser tortinhos, ter cores esquisitas, podem ser como eu quiser. É bem mais fácil desenhar monstros!

-Vamos fazer assim: a partir de hoje, nós dois vamos treinar e desenhar lindos anjos. Tudo bem?
-Mas eu não vou conseguir! Eu tentei, mas as asas são muito complicadas... anjos são perfeitos, e eu não sei desenhar nada com perfeição!

Doutor Cássio pensou um pouco, e respondeu:

-Dora, os anjos não precisam ser perfeitos, desde que sejam anjos! O que importa, é que eles ajudarão a proteger os seus sonhos, serão bondosos com você e não deixarão que os monstros penetrem no seu espaço. Mandarão os monstros embora!

-O senhor promete?

-Sim, eu prometo.

Nas próximas consultas, Doutor Cássio ficou ajudando Dora a aprender a desenhar figuras de anjos, que ele tinha procurado em livros e revistas. Logo, a menininha já era capaz de desenhar anjos muito bons e bonitos. Após alguns dias, Doutor Cássio disse:



-Parabéns, Dora! Acho que você já pode desenhar anjos em sua parede! Viu só? é Tudo uma questão de treino. Dá trabalho, exige tempo e paciência, e também muita coragem para lutar contra os monstrinhos, mas dá resultado. É sempre bem mais fácil desenhar monstrinhos, mas depois, temos que conviver com os monstrinhos que desenhamos. Desenhar anjos pode não ser tão fácil assim, mas quando a gente aprende, a gente se acostuma a ter coisas sempre bonitas, nos protegendo, nas paredes de nossos quartos e em nossas vidas.



No dia seguinte, Dora passou a tarde desenhando lindos anjos nas paredes do seu quarto. Nunca mais ela teve pesadelos, e sentiu-se sempre protegida por eles. mesmo depois que cresceu e tornou-se uma bela moça.


4 comentários:

  1. Gostei da página e da história...
    Bom seria se pudéssemos voltar às pracinhas...

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  2. Ana, este conto tem um conteúdo lúdico impressionante, e traz também uma peculiaridade em seus textos: AS MENSAGENS contidas nas entrelinhas ou escancaras mesmo. Eu gosto disso, mas são poucos que conseguer escrever conteúdo e mensagem.

    Aqui vc mostrou que não existe perfeição entre os seres humanos, mas a bondade e o amor solidificam castelos, mesmo que eles sejam tortos.

    Vc é ótima!
    mile baci cara mia!!

    Será que vc além de ser professora num é psicóloga também? HEHEHE

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  3. Seus contos são ótimos, Ana. Pode-se entrar neles com a alma de criança. Bjs.

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  4. ADOREI SIMPLESMENTE, E MTO BOM SABER PASSRMOS MENSAGENS BOAS, ATÉ EM UM SIMPLES DESENHO.

    NOVAMENTE REPITO QUE AMO TE LER.

    BJS DA PATTY.

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