domingo, 10 de fevereiro de 2013

No Escuro da Floresta - Capítulo III





Capítulo III

Naturalmente, mamãe e papai acabaram fazendo amizade com Carla e outros casais da cidade, e eles passaram a se reunirem quase todas as noites nas casas uns dos outros para jogar cartas, contar estórias e tomar vinho. Assim, passou-se nossa primeira semana: durante o dia, nossas explorações pela floresta; Á noite, quando as reuniões não eram em nossa casa ou na casa de Carla, dormíamos uma na casa da outra, e Maria era encarregada de tomar conta de nós.Mas eu notava que ela sentia falta de meninas de sua idade, e na segunda semana, começou a frequentar a casa de Juliana, filha de Tom, da loja de tintas. Ela era uma menina simpática, de doze anos, e apresentou Maria a seus outros amigos. Então, eu e Matilde passávamos as tardes sozinhas.
E foi quando ela resolveu contar-me seu segredo.
Numa das noites que passamos em minha casa, ela me acordou e levou os dedos aos lábios, pedindo silêncio.  Olhei no despertador, e passava das onze da noite. Ela fez sinal para que eu a seguisse, e enrolando-me no cobertor, eu obedeci.
Ela me levou para a cozinha, e abrindo a porta dos fundos, me fez sentar ao seu lado no banco de madeira que havia na área de serviço. Então, apontou o dedo em direção à floresta.
Não sei bem o que vi. Pareciam vaga-lumes, mas eram enormes, maiores que meu punho fechado. Eram luzes azuladas, brancas ou esverdeadas, muito brilhantes nas extremidades e opacas no centro. Às vezes, elas piscavam, apagando e voltando a acender alguns segundos depois. Então, pareciam pairar no ar, junto aos galhos de árvore. Eu estava boquiaberta. Algumas chegavam quase perto da casa, mas nunca se afastavam muito da floresta. Quase balbuciando, perguntei:
- O que é... aquilo?
-Sshh... olhe!
As luzes estavam voando em fileiras. Pareciam brincar ou dançar. Escreviam “oitos” no ar, depois subiam bem alto e desciam vertiginosamente até perto do chão, para subirem novamente em espirais coloridas. Repeti a pergunta:
- Matilde, o que é...?
- Ora, são as fadas.
Desta vez, a dramaticidade estava exatamente na forma simples com que ela formulou a resposta, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. Ficamos ainda algum tempo por ali, até que as luzes foram sumindo uma a uma. Acho que ao todo, o espetáculo das luzes durou uns cinco ou seis minutos. Pedi a ela que explicasse melhor. Ela suspirou:
- Eu vou contar para você, porque você é minha melhor amiga, mas tem que jurar segredo.
- Juro.
- Meu pai é uma fada. Uma fada-homem, quero dizer.
Ela esperou um minuto, saboreando a minha expressão atônita, antes de continuar:
- Minha mãe namorou um “fado”, e então ela ficou grávida de mim, e eu nasci. Depois ele teve que voltar para o seu povo, pois as fadas não conseguem ficar muito tempo perto dos humanos sem adoecer, e ele às vezes nos visita.
- Como assim? Ele vai à sua casa?
- Não igual você pensa; ele nos visita em nossos sonhos. A gente sonha com ele.  Quando eu fizer dez anos, ele vem me buscar. Minha mãe ainda não sabe, mas ele me disse. Eu só contei para você.
Rapidamente, fiz os cálculos: ela tinha nove anos, e completaria dez anos em três meses e meio.
- Mas isso é daqui a pouco tempo! E para onde ele vai levar você?
- Para o povo dele. Porque você sabe, eu sou metade fada.
- E você nunca mais vai voltar?
- Não sei. Ele não me disse, e eu esqueci de perguntar.
Eu não sabia o que dizer, ou o que pensar. Mas, de repente, eu senti uma tristeza muito grande, e uma enorme vontade de chorar. As lágrimas foram descendo involuntariamente.
- Noêmia, por que você está chorando?
Eu não conseguia responder. Meio sem-jeito, ela colocou seus bracinhos à minha volta, e eu chorei no ombro dela. Ficamos assim, abraçadas, e ela dizendo para eu não chorar, que estava tudo bem. Depois, ela me levou de volta para o quarto, me cobriu e se deitou no colchonete. Eu fiquei olhando para ela até adormecer.
Na manhã seguinte, os acontecimentos da noite tinham um sabor de sonho. Eles estavam bem nítidos na minha mente, mas à luz do dia, a estória que eu ouvira parecia tão absurda que resolvi esquecê-la. Até mesmo uma menina de nove anos sabe muito bem que fadas não são reais. Com certeza, eu dizia a mim mesma, tudo não passara de um sonho. Matilde acordou bem-disposta, e não tocou mais  no assunto, e eu achei melhor fazer o mesmo.
Por volta de uma hora da tarde, bateram à nossa porta. Mamãe correu para atender. Era Virgínia, uma mulher que morava no centro da cidade. Eu não me lembrava dela incluída nos grupos de pessoas que iam à nossa casa. 
Mamãe mandou que ela entrasse. Papai estava na cidade, e Maria tinha ido dar uma volta de bicicleta com os amigos; eu e Matilde jogávamos vareta no chão da sala. É claro, ela estava ganhando. Quando Matilde olhou para Virgínia, vi que uma espécie de sombra passou pelo seu rosto. Os olhares das duas se cruzaram, e uma faísca – de ódio? De espanto? Eu não soube captar-  pareceu passar de uma para a outra.
Sem qualquer explicação, Matilde levantou-se do chão e se despediu de mim, dizendo que voltava depois. Passou por mamãe e Virgínia de cabeça baixa e saiu pela porta da frente, deixando-a aberta atrás de si. Ela estava visivelmente perturbada.
Virgínia era uma mulher elegante,chegava a ser bonita, de ar grave, que usava um coque negro preso no alto da cabeça. Suas roupas eram austeras, mas apesar de suas boas maneiras ao tomar o chá oferecido por minha mãe, e ao se dirigir a mim com um sorriso forçado, eu sentia que tinha algo errado. Ela parecia querer dizer alguma coisa, mas não sabia como começar. Elas conversaram sobre o tempo, sobre as reformas no chalé, sobre a viagem... enfim,  o assunto se esgotou, e ela permaneceu olhando para mamãe com a xícara vazia na mão, e depois olhou para mim e tornou a olhar para minha mãe, que imediatamente pediu que eu fosse brincar em meu quarto.
Recolhi as varetas do chão, enquanto as duas permaneciam em silêncio e mamãe voltava a encher a xícara de Virgínia.
Mas, como toda criança, eu era curiosa. E embora meus pais tivessem enfatizado a gravidade do ato de escutar atrás das portas, eu não pude deixar de fazê-lo, o que não era difícil, pois a porta do meu quarto dava diretamente na sala de estar. E tinha uma grande greta entre a porta e o chão. Com cuidado, arrastei o pufe para perto da porta , mas de modo que a sombra não fosse vista por quem estava do outro lado, ajoelhei sobre o pufe, encostei o ouvido na porta fechada e escutei.
- Hã... Lina, eu nem sei como começar...
- Pois não?...
- Nós não somos amigas íntimas, não somos nem amigas , ainda, quero dizer... mas eu preciso alertá-la sobre... sobre Carla.
Ouvi o barulho de mamãe levantando-se do sofá.
- Virgínia, escute, eu não gosto de mexericos, e...
- Espere! Por favor, apenas ouça o que eu tenho para lhe dizer. É para o seu bem. Se eu vim aqui, de cara limpa, é porque eu estou realmente preocupada com você. Com vocês, aliás. Se eu tivesse más intenções, se eu fosse uma pessoa... vil, eu poderia ter aberto mão de algum recurso mais excuso, como uma carta anônima, por exemplo, ou um telefonema anônimo, mas eu não sou dessas.
Ouvi mamãe sentando-se novamente.
- Continue.
- É que... você já perguntou para Carla quem é o pai de Matilde?
- Não, porque eu acho que não é da minha conta.
- Pois eu acho que você deve saber a verdade.
Senti meu sangue gelar. Então ela conhecia o segredo de Matilde! Com o coração aos pulos e as faces latejando, tentei manter a calma para ouvir o resto da conversa.
- Há alguns anos atrás, Carla começou a namorar Gregório, um médico que tinha chegado recentemente e se estabelecido na cidade. Bem, os dois se conheceram, se apaixonaram... mas alguns meses depois, minha filha Camille, que estivera estudando fora da cidade durante alguns anos, finalmente retornou. Ela era muito, muito bonita. O que aconteceu depois foi muito rápido; Gregório e Camille se apaixonaram um pelo outro e ele acabou terminando tudo com Carla. Casaram-se apenas seis meses após se conhecerem.
Teriam sido muito felizes, se Carla não tivesse investido fortemente contra eles - dizem até que fez magia negra, imagine... o fato é que eles- Gregório e Carla - acabaram tendo um caso amoroso. Mas a cidade é pequena, as notícias correm... e alguns meses depois, Camille ficou sabendo de tudo. Ela ficou louca; foi até a casa de Carla, onde pegou os dois em flagrante e as duas brigaram. Camille saiu da casa de Carla dirigindo, no meio da noite, totalmente transtornada, e após bater em uma árvore, ela morreu.
Neste momento, ouvi um longo suspiro, vindo de Virgínia.
- Que coisa horrível! Eu sinto muito...
- Isso não é tudo; Gregório ficou muito arrependido por tudo, e acabou saindo da cidade para sempre. Logo depois, Carla apareceu grávida de Gregório, e teve Matilde.
- E no que esta estória pode atingir a mim, ou à minha família?
- É que... tenho percebido que ela anda sendo um tanto... gentil com seu marido. Outro dia mesmo, eu estava na cidade quando passei pelos dois. Eles conversavam, apenas, mas eu percebi que ...
- Não continue, por favor. Eu confio no meu marido, e Carla tornou-se uma boa amiga para nós, apresentando-nos aos outros moradores de Vila Pequena, ajudando-nos com as crianças... eu entendo que você se sinta magoada com Carla pelo que aconteceu com sua filha Camille, mas não vejo nenhum motivo para pensar que Carla seja algum tipo de ... bandoleira.
Fez-se silêncio na sala. Na época, eu não acreditara absolutamente naquela mulher. Ela estava dizendo que o pai de Matilde era um homem chamado Gregório, quando eu sabia que ela era metade fada.
- Você veio aqui para me dizer que Carla está tendo um caso com Pedro, é isso?
- Bem, na verdade, eu vim alertá-la antes que isso venha a acontecer.
 A voz de mamãe alterou-se, tornando-se metálica.
_Bem, muito obrigada pelo seu interesse, mas acho que esta conversa deve terminar aqui.
Meu coração batia de encontro à minha garganta. Senti que minha amizade com Matilde poderia ser atingida. Não entendia muito bem o que tudo aquilo queria dizer, mas era uma menina esperta e curiosa, e compreendi que aquela mulher – Virgínia- estava na sala de estar conversando com minha mãe, e dizendo-lhe que meu pai estava, talvez, namorando outra mulher, e eu sabia que aquilo não era certo. Já tinha visto nos filmes da TV, e ouvido nas conversas veladas junto à lareira, quando minha mãe  e suas amigas se reuniam no nosso apartamento da cidade. Enquanto tentava ouvir mais alguma coisa, minha mãe levantou-se. Ouvi quando Virgínia levantou-se também, encaminhando-se para a porta, sem que nenhuma das duas dissesse nada, e depois ouvi o barulho da porta se fechando.

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