quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

A Casa do Tempo







A CASA DO TEMPO


Despedi-me da pessoa que mais amei na vida - minha avó - na cama de hospital onde ela encontrou-se com seu destino. Meu coração, transido de dor, não conseguia mais administrar tantos problemas que eu vinha tendo ao longo dos últimos meses. 

Antes de dizer adeus, ela pediu-me que abrisse a gaveta da mesa de cabeceira - uma mesa de ferro, que outrora fora branca, mas agora mostrava traços de ferrugem, como  a pele de minha avó. Dentro da gaveta, uma caixinha que, com a voz fraca, ela me pediu que abrisse. Continha um anel.

-Inácio... este anel é especial. Vê o brilho da pedra?

Olhei para a diminuta pedrinha branco-azulada, que jazia entre rococós de ouro antigo. Era - ou fora, um dia- uma bonita joia. Realmente, percebi que emitia um brilho estranho.

-Quero que fique com ela. Mas cuidado...

Ela tossiu, e amparei-a, pedindo que não falasse mais. Com um gesto da mão, ela tapou minha boca.

-É uma joia de família... pertence a nossa ... família há mais de dois séculos, mas não sabemos... de... onde vem. alguém a encontrou... na rua. Mas... tem poderes... mágicos. 

Acariciei sua testa, tentando conter as lágrimas.

-Ponha-o em seu dedo... assim... ele te concederá um pedido, apenas um. Mas pense bem antes de pedir... pois o anel interpreta tudo ao pé da letra.

Sorri levemente, obedecendo-a e colocando o anel no dedo. Quando ergui os olhos, ela não estava mais ali.

Meses passaram-se.

Os problemas acumulavam-se em minha vida, e um amigo disse tratar-se de meu inferno astral, que explicou-me ele, era o período que antecede o aniversário de alguém, pontuado de acontecimentos ruins e reveses de vários tipos. Mas se assim fosse, meu inferno astral estava sendo realmente longo.

Minha esposa tinha uma gravidez de risco. Eu estava desempregado, e com sérios problemas financeiros. Ainda enfrentava o luto pela perda de minha avó, que eu tanto amava. Sofria, ao ver meu único irmão padecer de uma doença incurável, e a casa onde vivia com minha esposa estava para ser vendida. Além de tudo, a depressão tomara conta de meu ser.

Um dia, acordei pela manhã com minha esposa gritando de dor. Levei-a para o hospital, e o médico, após examiná-la, disse-me que eu deveria fazer uma escolha terrível: a vida da criança ou a dela. Pedi-lhe alguns minutos para pensar, e ele aconselhou-me a pensar bem rápido. Desolado, sentei-me no saguão do hospital, apertando, sem perceber, a pedra do anel de minha avó. Pensei: "Gostaria muito de estar em uma cabana bem longe daqui, onde não houvesse sofrimento, e só voltasse quando tudo estivesse resolvido!"

Foi quando me vi em uma clareira, em frente a uma casinha. Um senhor de barbas brancas me observava, e disse:

-Eis o seu desejo! Quando tudo estiver bem - repito - quando tudo estiver bem, virei buscá-lo.

Descobri, logo após os primeiros dias, que ficar ali, escondendo-me dos meus problemas, não fazia com que minha angústia diminuísse. Pelo contrário, estava ainda mais aflito por não saber o que estava acontecendo! E todos os dias, o homem de barbas brancas reaparecia, repetindo  a mesma frase: "Virei buscá-lo quando tudo estiver bem!"

Um dia, acordei com uma forte dor no peito, e vi que as coisas em volta de mim tornavam-se cada vez mais embaçadas. Uma ventania levou-me para dentro de um tunel, e girei por algum tempo dentro dele, até que fui jogado em um belo jardim. Pássaros cantavam. Levantei-me e encontrei o senhor de barbas brancas ao meu lado. Perguntei-lhe:

-Está tudo bem agora?

-Sim... e não! Morreste um homem velho.

-Como?! Estou morto?

-Estás...



Quase sucumbi ao absurdo de tudo aquilo... o que fizera eu de minha vida?

-Mas... o senhor disse que me buscaria quando tudo estivesse bem! Por que não o fez?
-Porque na vida humana, nunca haverá um só dia quando tudo, exatamente tudo, esteja bem. Os problemas devem ser enfrentados, pois cada um contém uma lição para vocês.

-Mas o que aconteceu com minha esposa, meu filho, meu irmão?...

-Sua esposa faleceu, mas seu irmão curou-se, recebeu uma farta herança de um parente distante que deixou-o muito rico, e ele criou o seu filho, que tornou-se um famoso médico, especializado em partos complicados. Salvou a vida de muitas mulheres e crianças. 

O arrependimento tomou-me... eu perdera tudo aquilo?!

-Por causa de teu medo e de teu egoísmo, perdeste momentos importantes da vida: não te despediste de tua esposa, nem viste teu filho crescer, e nem participaste da cura de teu irmão. Muito ele lamentou por teu desaparecimento e por não poder ter partilhado contigo a herança que recebera.

Naquele momento, vi quando minha vó, rejuvenescida, caminhava em minha direção. Abracei-a emocionado, e ela disse:

-Meu querido, não te preocupes, pois terás uma outra chance de reparar teus erros. Terás uma nova vida, e deves prometer que, desta vez, não fugirás aos teus problemas!

_______________________________________

E assim termina esta história. Pena que na vida real, não há outras chances. Cuidado com o que você pede ao anel.



3 comentários:

  1. De magia, mistérios, parábolas e mensagens caminha nossa Ana Bailune, cada vez melhor em suas prosas!

    O título do conto nos dá várias possibilidades de leitura e interpretação.
    Cada um com suas descobertas e experiências de vida.
    Ótimo texto, Ana!

    abraços da LU C.

    ResponderExcluir
  2. Nem sempre o que desejamos é o que nos vai fazer feliz. Gostei muito, Ana! Bjs.

    ResponderExcluir

Obrigada por visitar-me. Adoraria saber sua opinião. Por favor, deixe seu comentário.

AS ESTRELAS QUE CONTEI - CAPÍTULO 14 - FINAL

  Havia na fazenda uma casa menor para hóspedes, que geralmente ficava fechada, e nós nos mudamos para lá. Uma semana depois do incêndio, Af...