domingo, 10 de fevereiro de 2013

No Escuro da Floresta - Capítulo VI




Capítulo VI

Fomos acordadas de manhã cedinho pelas vozes excitadas de várias pessoas que conversavam na estrada perto de nossa casa, e corremos para a janela a fim de ver do que se tratava. Lá estavam papai , mamãe, Carla, Matilde e vários outros vizinhos, todos reunidos à volta de um homem que estava sentado em uma pedra e parecia muito confuso. Notei que ele era extremamente bonito e ainda jovem, aparentando uns trinta e poucos anos. Mas as roupas pareciam fora de moda: usava um macacão parecido com o que eu tinha visto num cartaz na loja de tintas , que dizia: “ Tintas Brilux: Há anos colorindo gerações.” 
Um senhor bastante idoso era o mais excitado de todos, e não parava de repetir o tempo todo: 
 “ mas ele não mudou! Não envelheceu! Continua com a aparência que tinha aos trinta e três anos!”
Eu e Maria nos enfiamos em nossas roupas e saímos, não sem antes agarrarmos um pedaço de bolo na mesa da cozinha. Ao nos aproximarmos, Matilde nos olhou com seus olhos arregalados, e veio logo dizendo: “ É o dono da cabana! Ele apareceu! Voltou!”
Minha irmã balançou negativamente a cabeça, dizendo: “ Não pode ser, Matilde. O homem da cabana, segundo você mesma nos disse, sumiu hà mais de trinta anos.Na época, ele tinha trinta e três, o que significa que hoje ele tem sessenta e seis.  Esse aí é jovem, e se fosse ele, teria de estar bem velho.” Matilde protestou:
- E por que você acha que ele está causando toda essa confusão? Não está ouvindo o que o “seu” João não para de repetir? “ Ele não envelheceu!”
A multidão ia ficando cada vez maior. Todos pareciam céticos, mas os mais velhos, que tinham sido jovens na época em que o rapaz tinha desaparecido, insistiam em dizer que aquele homem era realmente quem ele afirmava que era: Narciso, o caçador que desaparecera há trinta anos. Alguns traziam fotos para confirmar.
Com a maior paciência, Narciso respondia a todas as perguntas. Repetia seu nome e sobrenome inúmeras vezes, e não entendia que as pessoas insistissem que ele estivera desaparecido por tanto tempo. Não reconhecia as pessoas velhas que se inclinavam para ele dizendo seus nomes, dizendo serem seus amigos e que tinham procurado por ele durante mais de um mês. Para ele, tinham se passado apenas alguns meses. Achava que todos na cidade tinham enlouquecido. E as pessoas achavam que ele era o louco. 
Até que alguém resolveu provar que trinta anos haviam se passado, levando-o para dentro de nossa casa – a multidão do lado de fora, acompanhando tudo pelas janelas e portas escancaradas- e mostrar a ele coisas que não existiam na época em que ele desaparecera – microondas, aparelho de DVD, telefones sem-fio, vídeo games, etc... ele olhava tudo e ouvia as explicações de para quê aquelas coisas serviam, e ia ficando cada vez mais confuso e calado. Seu lindo rosto ia se tornando cansado, e seus olhos, muito tristes.
Perguntou sobre sua noiva, Amália, e alguém lhe disse que ela tinha se casado com outro um ano e meio após seu desaparecimento, tivera muitos filhos e morrera há alguns anos. O mesmo acontecera com a maioria de seus amigos, toda a sua família ( o pai, um meio-irmão e o avô), quase todas as pessoas que ele amara. Somente viviam “seu” João , Dona Brigitte, Dona Cecília, de quem compráramos a casa , e mais algumas poucas pessoas, todas já muito velhas.
Meu pai e minha mãe estavam totalmente atônitos, sem saber se acreditavam ou não naquela estória toda.
Nosso quintal fervilhava de gente naquela manhã. Todos queriam dar uma olhada em Narciso. Mamãe tratara de dar-lhe algo para comer e beber, o que ele aceitou, e parecia realmente faminto. Papai ofereceu-lhe uma muda de roupas limpas, e enquanto levou-o para o banheiro , a fim de que tomasse um banho e se trocasse, as pessoas começaram a murmurar pelos cantos, em grupinhos. Eu , Maria e Matilde percorríamos esses grupinhos, escutando o que diziam, e as opiniões se dividiam: uns acreditavam na estória, outros não.
Mas de repente, vi , caminhando pela estrada, uma figura frágil e ao mesmo tempo esguia. Avançava vagarosamente, apoiada em uma bengala. Parecia muito velha, mas estava longe ainda, e as pessoas paravam de falar quando a viam chegando, de modo que logo um silêncio muito grande se fez. Alguém murmurou: “ É a velha Anna.” Ela parou a alguns metros de nós, e ficou nos olhando por algum tempo, percorrendo, uma a uma, nossas faces estupefatas com seus olhos cansados. Quando falou, ninguém ousou interrompê-la ou argumentar com ela. Ela falou, e quando terminou de falar,do mesmo modo que chegou, virou-se de costas e caminhou vagarosamente para o lugar de onde viera – seja ele qual fosse.
- Todos vocês, jovens ou velhos, conhecem a verdade desta estória.
Ela olhou para mim, depois para meus pais e Maria.
- A não ser quem não é nascido aqui.
Engoli em seco. Ela falou novamente, dirigindo-se a todos.
- Quem ousar duvidar da verdade desta estória estará correndo o risco de vivenciá-la por si mesmo. Narciso não acreditava, e saiu para caçar na primeira noite de lua-cheia. Quando “eles” saem pela floresta para seduzir.
Neste momento, ela olhou para Carla durante um bom tempo, e todos os olhos se voltaram para ela, que baixou a cabeça, corando.
A “velha Anna” prosseguiu:
- Alguns têm sorte e são mandados de volta logo, para continuarem a viver no meio dos seus. Outros, enlouquecem.Alguns, geram seus filhos. ( ao dizer isso, ela olhou novamente para Carla). Mas alguns passam a fazer parte do mundo deles. Não voltam jamais, ou voltam muitos anos depois, como o moço Narciso, que está novamente entre nós. Jovens ainda, pois o tempo deles é contado de forma diferente do nosso.
Ela parou de falar e olhou para a porta de nossa casa, e todos os olhares seguiram o seu. Lá estava Narciso, de pé sob o alpendre, cabelos molhados, vestindo as roupas de meu pai. Parecia ainda mais bonito, agora que estava limpo, e algumas moças suspiraram.
Narciso dirigiu-se a ela:
- Senhora, eu me lembro muito pouco do que me aconteceu. Minha cabeça está confusa, mas algumas coisas ficam indo e vindo. Lembro-me de música, dança, luzes... lembro-me de estar como que embriagado durante um longo tempo e também de ter... desfrutado de prazeres dos quais não posso referir-me em público.
Naquele momento, ele baixou a cabeça, corando. A Velha Anna continuou parada, apoiada em sua bengala, olhando para ele.
- Também não me lembro de como vim parar novamente aqui. Entre todos os acontecimentos que vivenciei, de repente lembrei-me de minha noiva e quis voltar. E acordei próximo a esta casa...  desfilam em minha mente rostos de pessoas muito, muito belas, extremamente belas... de uma beleza que não se encontra por aqui. E falam uma língua silenciosa. Como se enviassem para dentro de minha cabeça aquilo que querem dizer, e eu compreendia imediatamente. Também pareciam saber exatamente o que eu pensava.
Narciso estava agora no meio do nosso gramado, contando sua estória a todas as pessoas. A Velha Anna olhou mais uma vez para cada um de nós, e finalmente, para Narciso, balançando a cabeça afirmativamente como se o compreendesse,antes de virar-se e ir embora, caminhando vagarosamente.
Matilde parecia hipnotizada com tudo. Não dizia palavra, e agarrava minha mão. Uma angústia muito grande percorreu-me, pois lembrei-me de que ela havia dito que eles viriam para buscá-la.
Pouco a pouco, a multidão foi se dissipando. Narciso parecia muito cansado, e disse que desejava voltar para sua casa . Alguém explicou-lhe que ela continuava no mesmo lugar, e que tinha sido mantida pela prefeitura da cidade, tornando-se uma espécie de ponto turístico. Mas que agora que ele voltara, seria novamente dele, é claro.

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