domingo, 10 de fevereiro de 2013

No Escuro da Floresta - Capítulo II




 
Capítulo II

Bem, foi nessa feirinha que conheci Matilde. Ela estava trabalhando na barraca dos tomates. Mal nos vimos, não conseguimos tirar os olhos uma da outra. Ela era morena, cabelos lisos e cortados retos na altura dos ombros, tinha penetrantes olhos verdes, e vestia uma calça jeans surrada e blusa de lã marrom. Aparentava ter a minha idade. Ela sorriu para mim, e eu sorri de volta. Naquele momento, soube que seríamos amigas. Cutuquei Maria e fiz sinal com a cabeça na direção da menina que nos sorria, e Maria, dois anos mais velha, acenou e dirigiu-se para a barraca dos tomates, seguida por papai e eu.
Ela estendeu-me sua mão:
-Olá! Sou Matilde, e vocês devem ser Noêmia e Maria, as novas donas da casa da curva.
Apertamos as mãos. Uma mulher alta e esguia, que também trabalhava na barraca ,apresentou-se. Ela era muito bonita e tinha cabelos escuros como Matilde, mas eram longos e estavam presos num rabo-de-cavalo.
-         Oi! Sou Carla, mãe de Matilde.
Percebi algo estranho nos olhos de meu pai; parecia um pouco confuso, ou surpreso. Mas, para uma menininha de nove anos, estas coisas quase passam despercebidas, e só são reconhecidas anos depois, quando voltam à memória.
-         Sou Pedro, pai das meninas. Como vai?
-         Bem! Chegaram hoje? Como foi a viagem?
-         Ótima, obrigado.
Notei que Carla nos olhava com simpatia e interesse. Papai estava um tanto sem-graça, pois não conseguia tirar os olhos dela. Era realmente muito bonita.
-         Tudo bem com a casa? Ouvi dizer que precisa de umas reformas...
-         Ah, sim, mas nada muito sério. Troca de algumas ripas, pintura, uma boa limpeza. Lina,minha mulher, já está tomando algumas providências de última hora.
Ela sorriu. Olhando para mim e para Maria, disse para papai:
-         Caso precise de ajuda com as meninas, enquanto ajeitam tudo, podem contar conosco.
-         Oh, muito  gentil de sua parte. Vou falar com Lina. A propósito, pode me dizer onde tem uma loja de tintas?
-         Claro! Logo depois da curva, à direita. Fale com o Tom. Se for preciso, ele também pode arranjar um pintor.
-         Agradeço, mas acho que eu mesmo quero fazer isso. Bem... até logo!
Foi quando Matilde disse:
-         Não vão comprar uns tomates?
-Matilde! - disse Carla, repreendendo-a. Papai riu, divertido.
-         Está tudo bem! Na verdade, vamos levar um quilo.
Matilde pesou e empacotou um quilo de tomates bem vermelhos, entregando-os a papai. Nos despedimos, e quando já íamos embora, ela disse:
-         Noêmia! Maria! Se quiserem, podem passar lá em casa amanhã de manhã. Moro na Rua das Dálias. Todo mundo sabe onde é, na floresta, perto do rio. Podemos passear e eu mostro o lugar para vocês.
Olhamos para papai, mal conseguindo conter nossa excitação. Ele balançou a cabeça, concordando. Gritei:
-         Estaremos lá!
Compramos mais algumas coisas, como pão, leite,café, frutas e outros produtos de mercearia; depois, colocamos tudo no carro e fomos para a loja de tinta do Tom, um simpático senhor  aparentando uns cinquenta anos, onde passamos algumas horas escolhendo as cores que queríamos para pintar a casa. Papai achou que deveríamos consultar mamãe, mas acabou concordando com nossas sugestões: para a fachada da casa, que era de madeira envernizada muito escura, escolhemos branco-neve; as laterais exteriores seriam ocre; Janelas e portas seriam apenas envernizadas novamente, assim como a parede de madeira da sala; Os tetos seriam brancos, e meu quarto e de Maria seria rosa-pálido.
 Para a cozinha, um laranja-claro, e papai escolheu verde-água para seu quarto e o de mamãe. O pequeno banheiro do corredor seria repintado de branco.
Depois, fomos à loja de departamentos indicada por Tom, onde compramos lençóis novos, camas para Maria e eu, um colchão novo para mamãe e papai, copos, talheres, pratos, uma toalha de mesa, cortinas prontas de voil, panos de copa e algumas panelas. Também escolhemos um lindo tapete vermelho para colocar em frente ao sofá de couro que a velha Cecília deixara na casa. O essencial para equiparmos a casa, tornando-a habitável para as férias.
Quando voltamos ao chalé, mal saíramos do carro e pudemos sentir o cheiro de cera e desinfetante que mamãe usara para limpar tudo. As janelas e portas estavam abertas, e a tênue luz do entardecer iluminava devagarinho a grama verde-esmeralda. Nos fundos do terreno, a mais ou menos vinte metros do chalé, havia uma trilha que levava à floresta. Eu mal podia esperar para explorar tudo!
A casa estava refrescada e limpa, e passamos o resto da tarde arrumando tudo. Depois, apreciamos o resultado final – que era bastante agradável e aconchegante – e após um lanche reforçado, fomos dormir. Nos fundos da casa, tínhamos amontoado algumas coisas que não usaríamos, como um velho colchão fedorento, cadeiras quebradas, sacos de lixo. Papai mandaria um caminhão levar tudo no dia seguinte.
Eu estava cansada, mas mal consegui dormir. Maria ressonava na cama ao lado da minha, mas eu só pensava na aventura que teríamos na manhã seguinte.
Acordei com o cheiro de café fresco invadindo minhas narinas, e com a doce voz de minha mãe cantarolando na cozinha. Praticamente pulei da cama e sacudi Maria, que resmungou.Insisti:
-         Vamos, hora de acordar! Vamos tomar café e ir até a casa de Matilde!
-         Mas ainda são sete da manhã... deixa eu dormir mais um pouco.
De camisola, fui até a cozinha e beijei mamãe. Na sala, papai já examinava as paredes, fazendo um inventário do que precisaria ser consertado. Felizmente, apenas alguns lambris precisariam ser repregados e outros, trocados.
Enquanto mamãe arrumava a mesa para o café, eu olhava a floresta que se mostrava através da janela da cozinha, que ficava sobre a pia. Havia uma trilha estreita que seguia até uma curva, por onde desaparecia. Como toda criança, eu estava curiosa para descobrir o que havia por ali.
Após tomarmos juntos o café da manhã, papai foi de carro com mamãe  até a cidade e aproveitou para nos deixar na Rua das Flores. Matilde esperava por nós sentada numa pedra junto ao portão de sua casa. Reparei que a casa de Matilde, pequena e aconchegante, era toda feita de toras de madeira envernizadas, cercada por uma cerca de madeira branca, e as janelas, pintadas de vermelho, davam uma graça especial à fachada. Um caminho de cascalho ladeado por margaridas brancas conduzia até a porta, e havia jardineiras nas janelas. “Realmente encantador”, segundo as palavras de mamãe.
Saímos do carro e Maria tratou de apresentar mamãe à Matilde, que foi logo dizendo: “ Muito prazer! Eu apresentaria minha mãe, mas ela já foi trabalhar. Hoje é segunda-feira!”
- E onde sua mãe trabalha, Matilde?
- Ela tem uma loja de ... como é mesmo?... delicatessen.
Papai comentou:
- Ora, pensei que vocês vendiam tomates na feirinha.
- Nós estávamos fazendo um favor para o “Seu” João, que estava doente ontem. Pegou uma gripe danada! Mas ele já ficou bom.
Papai e mamãe riram. Virando-se para nós, mamãe disse:
- Meninas, juízo! E tratem de estar em casa ao meio-dia. Matilde, se quiser, pode ir almoçar com a gente.
-Obrigada, dona Lina! Eu irei sim.
Mal eles entraram no carro, Matilde fez sinal para que nós a seguíssemos. Minha irmã, que era mais velha e por isso, mais desconfiada, deu uma paradinha ao ver que estávamos indo na direção da floresta.
-Onde vamos?
- Vou mostrar a floresta pra vocês. Não tem bichos perigosos, mas tem outras coisas interessantes... plantas, passarinhos. E um rio bem limpinho, onde a gente costuma nadar no verão. Mas agora está muito frio para nadar. E tem também a cabana abandonada .
- Cabana abandonada?-perguntei, pensando se não se trataria da cabana de toras que vimos na primeira vez que estivéramos em Vila Pequena.- A quem ela pertence?
- Dizem que foi de um homem que morou aqui já faz muito tempo. Mas ele foi caçar e acabou se perdendo na floresta.
- Mas quando foi isso?
- “Seu” João disse que já faz uns trinta anos. E como a família desse tal homem também já morreu, a cabana ficou abandonada. Mas as pessoas da cidade se juntaram, consertaram tudo e fizeram uma cabana de festas. Todos podem usar, é só marcar a data com antecedência.
-Maria! Seu aniversário é no mês que vem. Podemos fazer a festa lá!
-Não seja boba, Noêmia. No mês que vem estaremos na escola, em casa. E como é que eu traria todos os meus amigos aqui?
Encolhi os ombros. Conforme caminhávamos, eu ia absorvendo cada detalhe da paisagem.; ficava especialmente encantada com o musgo aveludado que crescia nos troncos de quase todas as árvores. O dia estava nublado, mas uma forte claridade refletia-se para a terra, e dava uma cor vívida às copas das árvores. Também adorei as muitas espécies de joaninhas e besourinhos coloridos que encontrei pelo caminho. Ouvia cantos de pássaros que eu vislumbrava voando de uma árvore para outra, alguns muito coloridos. Matilde apontava para eles e dizia seus nomes. Ela também conhecia muitas espécies de plantas, algumas medicinais, e sabia exatamente a quê cada uma se aplicava. Disse que sua mãe lhe ensinava, e que ela tinha aprendido através da avó, que fora ensinada pela bisavó, etc.
Após caminharmos por algum tempo, chegamos a uma clareira imensa, no meio da qual havia um lago. Do outro lado do lago, a cabana abandonada. Eu e Maria nos entreolhamos, em sinal de reconhecimento.Corremos até ela, circulando o lago. Estava trancada, mas nós nos sentamos nos degraus da varanda e ficamos olhando a paisagem. Eu e Maria, acostumadas ao barulho da cidade onde morávamos, ficamos extasiadas com aquele imenso silêncio entrecortado por sons sublimes de pássaros cantando, vento, folhas farfalhando e água correndo entre pedras. Ao longe, um cão latia de vez em quando.
Matilde disse:
- Eu venho sempre aqui, quando quero ficar sozinha.
- E por que uma menina como você ia querer ficar sozinha? - Maria perguntou.
- Ah... porque eu gosto de vir aqui escrever no meu diário.
- Você tem um diário? E o que escreve nele?
- Coisas que acontecem. Vocês não têm um diário?
Ambas balançamos a cabeça negativamente. Mas eu já estava cogitando a hipótese de escrever um. Matilde continuou:
- Um diário deve ser secreto. Ninguém mais pode ler. E tem que ficar bem escondido.
Às vezes,quando Matilde falava, ela arregalava os olhos e colocava uma dramaticidade misteriosa em seu tom de voz, que já era naturalmente um pouco rouco. E antes de responder perguntas, sempre demorava um pouquinho, para dar um certo ar de mistério.
Ficamos mais um tempo conversando nos degraus da varanda, depois voltamos pela trilha para a casa de Matilde.
Ela nos levou até seu quarto – um pouco bagunçado, mas cheio de coisas maravilhosas, como televisão, aparelho de som, uma prateleira cheia de bonecas e uma linda coleção de cinco pequenas bonecas-fada, que pendiam do teto em fios de náilon. Cada qual mais linda e etérea que as outras, com suas asas transparentes. Maria e eu ficamos fascinadas. O teto do quarto era de madeira escura, com vigas aparentes, e as paredes eram de fundo branco, mas cheias de pinturas a óleo e aquarelas, que retratavam seres encantados como fadas, gnomos e outros seres mitológicos. Maria perguntou quem os havia pintado, e Matilde explicou-nos que tinha sido Carla. Ela também era pintora nas horas vagas, e até vendia alguns quadros. Ficamos impressionadas com o talento da mãe de nossa amiga. Assumindo um ar grave e arregalando os olhos como de costume, Matilde disse:
- Um dia vou contar-lhes um segredo. Uma coisa maravilhosa.
Curiosa, perguntei:
- E o que é?
- Primeiro temos que ficar amigas de verdade. Não é um segredo qualquer.
- E quando seremos amigas de verdade?
- Daqui a uma semana. Talvez.
Eu gostava mais de minha nova amiga a cada minuto. Mas Maria não parecia partilhar meus sentimentos, pois a toda hora olhava seu reloginho de pulso, e não estava tão envolvida na conversa quanto nós. Achei que seria porque ela era mais velha.
Ao meio-dia, fomos para nossa casa, eu e Matilde saltitando na frente, de mãos dadas, seguidas por uma Maria um pouco entediada. Almoçamos com meus pais , e depois de ajudarmos mamãe a arrumar a cozinha, fomos mostrar nosso quarto para Matilde.
As lembranças felizes daquele dia voltam agora para mim como se fossem nuvens de algodão doce. Quase posso sentir o cheiro delicioso dos eucaliptos e pinheiros entrando pela janela de nosso quarto, enquanto ouço o riso espontâneo de Matilde e a voz de mamãe cantarolando na cozinha. Também ficaram bem marcados os sons que papai fazia ao serrar e pregar tábuas. E o cheiro de tinta .

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