segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

A Esposa Fada










A Esposa Fada




Um conto baseado em lendas Celtas. 




Rodolfo acordou no meio da noite, e ainda parcialmente habitando os sonhos, olhou para o lado. Viu-lhe a silhueta desenhada sob as cobertas, que se erguia levemente, conforme ela respirava em seu sono tranquilo. 


Uma onda de amor e paixão inundou-o. 


Lembrou-se de como a conhecera, há um ano e seis meses: 


Caminhava pela floresta após o almoço, a mesma velha floresta pela qual costumava caminhar desde os seis ou sete anos de idade (naquele tempo, escondido de seus pais, que temiam que se perdesse). Conhecia o que estaria depois de cada curva, e cada canto de pássaro. A floresta era como se fosse sua segunda mãe, pois vira-no crescer, transformar-se em um homem. Ela o protegera e o escutara em seus momentos de dificuldades, sempre respondendo às suas questões e acalmando suas ânsias como o faria uma dedicada mãe, através do sussurro do riacho, do canto dos pássaros e do beijo sibilante do vento. 




Como eu já disse, Rodolfo conhecia cada curva da floresta; por isso mesmo, ficou estarrecido ao ir ter à beira de uma fonte que parecia ter aparecido do nada, no meio das árvores, onde uma linda moça banhava seus pés. Parou, encantado diante da beleza da cena:



A jovem, vestida com uma túnica branca diáfana, estava sentada na beirada do riacho, e a água que caía de uma pequena fonte fazia bolhas em volta de seus pés. Os cabelos, muito claros e longos, caíam-lhe em cascatas até a cintura, e uma grinalda de flores do campo ornava-lhe a cabeça. A pele era tão branca e delicada, que Rodolfo comparou-a aos cogumelos que cresciam em seu jardim, no meio da grama, e que ressecavam aos primeiros raios de sol. 





Ela ergueu os olhos e olhou para ele como se o conhecesse. Não houve qualquer sobressalto. E ele também teve uma estranha sensação de já tê-la encontrado antes, mas em um tempo tão remoto, que apenas uma leve bruma de memória conseguia chegar até ele, e uma bruma tão leve quanto breve.


Desde então, eles passaram a encontrar-se ali todas as manhãs. E mesmo que estivesse chovendo torrencialmente, ali naquele ponto na clareira da floresta, uma nesga de sol brilhava. 




Ela aceitou casar-se com ele, para seu alívio, pois Rodolfo não concebia a ideia de viver longe dela; preferiria morrer!

Mas ela impôs algumas condições: 

-Ele jamais deveria fazer perguntas sobre ela; de onde viria, quem era sua família, ou que forma de vida ela era. 

-Jamais deveria abrir um pequeno baú que ela guardava sempre junto a si, e nem indagar-lhe o que ele continha. 

-Ela precisaria ficar algumas horas por dia totalmente só, e ele jamais poderia questioná-la ou espioná-la. 

-Na primeira noite de lua-cheia, ela iria para a floresta. Nem foi preciso dizer que o faria sozinha, e que ele não deveria seguí-la jamais! 


-Eles teriam que viver para sempre junto àquela floresta. 




Recordando-se daqueles tempos, Rodolfo percebeu quando a esposa acordou, pois o rítimo de sua respiração tranquila mudou. Ele fingiu que ainda dormia, enquanto ela se levantava e, abrindo a porta do chalé, saía pela noite enluarada, a barra da camisola esvoaçando atrás de si, e ela, mergulhando na floresta escura até desaparecer.


Todas as noites de lua cheia, quando ele a via sair, sentia curiosidade em saber o que ela fazia. Encontrar-se-ia com alguém? O ciúme o dominava, mas lembrava-se da promessa feita a ela, e forçando a sua própria natureza, não a seguia. Naquela noite em especial, estava tão ansioso que decidiu ir até a pequena cozinha preparar para si um pouco de chá.

Foi quando deparou com o pequeno baú na prateleira da despensa. Uma estranha luz dourada saía pelas frestas da madeira. Imediatamente, Rodolfo começou a tremer de curiosidade, e mesmo fazendo todo o esforço que conseguia para conter sua curiosidade, acabou pegando o pequeno objeto e, ainda hesitante, abriu uma pequena fresta da tampa...



Foi o suficiente para que a luz escapasse, em uma explosão de raios que dominaram toda a pequena casa! Quem estivesse passando na floresta àquela hora, teria visto uma luz dourada que explodia para fora do chalé, através de portas, janelas, chaminé e frestas, iluminando tudo em um raio de quilômetros!






Quando ele despertou, estava caído no chão da cozinha, e o baú, tinha desaparecido. Assim como desapareceram todo e qualquer traço da presença de sua esposa pela casa. Ele procurou pela cesta de palha que ela tecera durante a manhã; também olhou dentro das panelas, e a comida tinha desaparecido. Todas as coisas feitas por ela - cortinas lindamente confeccionadas, cestos, pequenos candelabros delicados, flores que ela colhia e nunca murchavam, enfim, tudo desaparecera. A cabana era apenas um lugar nu, gelado e sem-vida.


Ele correu para a floresta, e tentou em vão encontrar a clareira onde tinham se conhecido.


Chamou por seu nome. Chorou copiosamente, gritando ao luar o seu arrependimento. Mas ninguém respondeu-lhe. 



Quando o dia amanhecia, voltou para a casinha. Olhou-se no espelho: era um homem velho.

3 comentários:

  1. Gosto de ler teus mistérios, tuas criações.
    Parabéns!

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  2. Estou perplexa diante da beleza e da criatividade deste conto.
    Que ele é fantástico eu já sei, mas não sabia o quanto VOCÊ é fantástica minha amiga!? Caraca!!!!!

    Gostoso de ler. Rápido entendimento, sem muitos teretetes rsssss
    Passou o recado, a magia perpétua dentro de um amor um tanto impossível, porque ela não era humana. Talvez fosse uma sacerdotisa druída ou uma ninfa que virou bruma ao abrir do baú proibido! Vai saber... Tudo é possível no submundo das fadas.

    Amo lendas celtas e tb tenho um conto assim.
    Parabéns Ana!
    mile baci

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  3. Seus contos têm a magia necessária para nos encantar. Amei! Bjs.

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