domingo, 29 de setembro de 2013

AREIAS DE UM TEMPO SEM FIM - PARTE II





Ingrid apagara todas as luzes da casa - exceto por uma fraca lâmpada que ficava em uma arandela afixada à parede do corredor - e dirigiu-se para o seu quarto, antes ocupado por Agnes. Escolhera-o porque assim não precisaria subir ao segundo andar da casa, onde havia passado dias maravilhosos com Jonas. Ainda não se sentia pronta para rever os cômodos que traziam as lembranças mais fortes dos dois : o magnífico solário, o quarto de hóspedes aonde passaram noites mágicas, o enorme e sofisticado banheiro que utilizaram durante sua estadia, que continha uma banheira branca com pés de latão dourado situada bem no centro do romântico cômodo, que oferecia, através de uma grande janela, uma das mais deslumbrantes vistas da casa.

Ao deitar-se, Ingrid pensou ouvir vozes no corredor; aquietou-se ainda mais a fim de ouvir melhor. Eram apenas sussurros, mas indiscutivelmente, havia mais alguém na casa! Assustada, ela sentou-se na cama, agarrando as cobertas e levando-as ao ombros num gesto instintivo de proteção. Engoliu seco; teria que levantar-se e fazer alguma coisa, nem que fosse apenas trancar a porta do quarto!

Mas enquanto ainda pensava no que fazer, a maçaneta girou, e aporta entreabriu-se vagarosamente. Ingrid deixou escapar um gritinho abafado, e pode ver que o corredor estava mais claro do que o normal. À contragosto, levantou-se da cama, e entreabrindo a porta e olhando para fora, constatou que todas as luzes da sala de estar estavam acesas! Ela ainda permaneceu de pé atrás da porta durante alguns minutos, escutando; mas não conseguiu ouvir mais nenhum ruído. Finalmente, saiu descalça pelo corredor, sentindo o corpo arrepiar de medo, e então viu que todas as outras lâmpadas da casa também se encontravam acesas. Certamente, alguém estivera ali!

Após verificar as trancas de portas e janelas - e perceber, espantada, que todas elas estavam intactas - Ingrid voltou a apagar as luzes e deitou-se novamente, trancando a porta do quarto.

Na manhã seguinte, bem cedo,  decidiu dar uma volta pela praia. O dia estava mais quente do que o de costume naquela época de primavera, e ela pode usar um leve vestido branco de algodão acompanhado por um belo chapéu também branco. Calçava sandálias plásticas transparentes, adequadas ao passeio pela praia, pois podiam ser molhadas pela água do mar sem problemas. 





Caminhou durante quase uma hora, e chegou ao Penhasco Azul.  Lembrou-se imediatamente dos momentos felizes que passara ali com seu marido, e lágrimas vieram-lhe aos olhos. Escolheu a mesma pedra lisa onde costumavam sentar-se juntos para olhar a imensidão do mar lá embaixo. Abraçada aos joelhos, Ingrid deixou-se ficar ali, sentindo a maresia e o calor do sol sobre os ombros. Não queria pensar em tudo o que acontecera; por um momento, fingiu que tudo estava bem, e que logo voltaria à casa para reencontrar Jonas e sua encantadora tia Agnes. Deixou fluir a imaginação, e pensou que ela os estaria esperando com a mesa pronta para o almoço, e haveria um belo jarro de flores do campo bem no meio da mesa.

Eles se sentariam para conversar animadamente como sempre faziam, e tudo ficaria bem. E então, ela poderia contar-lhes sobre o terrível pesadelo que tivera. Desejou intensamente que aquilo fosse verdade... foi quando um forte vento soprou, arrancando-lhe o chapéu, que ela viu rodopiar no ar em frente a ela para ir pousar lá embaixo, em um platô que ficava a mais ou menos quinze metros de onde ela estava. Ingrid suspirou fundo; adorava aquele chapéu, comprado especialmente para a praia, presente de seu marido. 

Observou o penhasco escarpado, e percebeu que seria possível descer até lá a fim de resgatar seu chapéu. Havia muitas reentrâncias na pedra que serviriam como degraus, e apesar de perigoso, já vira muitos pescadores descerem por ali a fim de conseguirem um bom local para a pesca sobre aquele mesmo penhasco onde seu chapéu caíra. Suspirou profundamente. Lá no céu, um bando de gaivotas gritava. Ingrid aproximou-se da beira do penhasco e olhou as ondas batendo lá embaixo. Colocou um dos pés sobre a pedra, e firmou o passo, segurando-se firmemente a uma outra pedra. Testou o pé; quando percebeu que seu passo estava seguro, desceu mais um pouco. Achou que seria mais fácil chegar ao platô do que ela pensava.

Firmou mais um passo, e sentiu que a sandália escorregou levemente. Talvez devesse voltar; afinal, aqueles não eram sapatos adequados para aventurar-se sobre pedras escorregadias e cheias de limo! Mas lembrou-se que muitas vezes vira pessoas descalças fazendo aquele mesmo percurso, e achou que se tomasse bastante cuidado, não haveria nenhum problema. 




Firmou um outro passo, apoiando a mão direita por sobre uma pedra; mas ela escorregou novamente, e na tentativa de segurar-se, Ingrid cortou a mão, e o sangue jorrou sobre a pedra. Um certo pânico começou a tomar conta dela; olhou para cima, e calculou que a distância entre o platô onde se encontrava seu chapéu e o topo do penhasco, de onde ela descera, era a mesma, e resolveu continuar. Firmou novamente o passo. Devagar, dobrou os joelhos para chegar à próxima reentrância na pedra. Uma das gaivotas voou bem próximo a ela, e quando Ingrid ergueu a cabeça para olhá-la, os raios de sol deixaram sua visão temporariamente turva; mas ela respirou fundo mais uma vez, e continuou a descida.

De repente, escorregou; sentiu-se ser lançada ao ar, e a última visão que teve, foi a de um fundo azul de céu, onde gotas vermelhas caíram de sua mão e macularam o branco da saia de seu vestido. O último som que ouviu, foi o grito das gaivotas e a batida das ondas do mar. Seu corpo aterrissou pesadamente sobre o platô, e Ingrid desmaiou.



quinta-feira, 26 de setembro de 2013

AREIAS DE UM TEMPO SEM FIM - Parte I






Ingrid olhou pela janela do ônibus para a colina azulada, encoberta pela névoa da manhã. O sol tentava surgir entre um céu de nuvens macilentas, mas era transformado em um círculo sem brilho. Ela logo avistou o velho casarão encimando a colina, e lembrou-se da fotografia no documento anexado ao testamento: era ali. Saltou do ônibus e ficou na calçada, as malas com suas poucas coisas no chão, olhando o veículo se afastar até sumir na curva. Sentia-se cansada, pois viajara a noite inteira e mal conseguira dormir. A ansiedade proporcionada pela nova vida que caíra diante dela num momento difícil, dava-lhe a possibilidade de abrir-lhe novas portas e mostrar-lhe um recomeço.

Ingrid acabara de perder o marido, Jonas, com quem fora casada por seis anos, em um acidente de carro. Acordava todos os dias sonhando com aquela manhã fatídica em que a campainha tocara, e um policial dirigira-se a ela com voz grave e firme, tirando o seu quepe:

"Senhora Ingrid Macedo?"

Ela apertara o robe contra o corpo, tentando preparar-se para o que aquele homem tinha a dizer-lhe. Pensou na missão difícil que lhe fora confiada: dar alguma má notícia, e ter que lidar com as reações emocionais de seus receptores.

Ela balançou a cabeça positivamente, e os lábios dele foram se abrindo em câmera lenta. A voz dele foi se tornando distorcida como em um toca-discos antigo cuja rotação estava defeituosa, mas ela pode compreender absolutamente tudo o que ele dissera. E  então, tudo ficou branco, e ela acordou no sofá da sala, a vizinha da casa em frente debruçada sobre ela segurando um copo d'água com açúcar e chamando-a pelo nome.  O policial esperava, sentado em uma poltrona.

Os dias que se seguiram foram também caracterizados pela mesma lentidão de um toca discos com a rotação defeituosa. Ela vagava sozinha pela casa, ignorando os telefonemas dos amigos e colegas de trabalho. Por fim, puxou a tomada do aparelho telefônico, e deixou a bateria do celular terminar completamente. Algumas pessoas bateram-lhe à porta, mas ela não queria ver ninguém. Sentava-se sobre o tapete, espalhando fotografias de ocasiões felizes, tentando captar a energia daqueles acontecimentos e trazê-los de volta até ela, mas aquilo só fazia com que se sentisse ainda pior.

Tinha medo de esquecer o rosto dele. Acordava assustada, esticando o braço para o travesseiro vazio, e por alguns segundos, não conseguia lembrar-se do rosto da pessoa que ela tanto amou e que dormira ao seu lado durante seis anos. Ela corria assustada para a sala, sentando-se entre as fotografias espalhadas, ofegante de susto, e procurava pelo rosto do marido.

Notava que suas roupas ficavam cada vez mais folgadas. As calças do pijama caiam, e ela as erguia a cada minuto, enquanto caminhava descalça pela casa, olhando a intensa luz do dia através das gretas das janelas fechadas. Lá fora a vida continuava sem Jonas. Era sempre assim: a vida continuava sempre, como tinha acontecido quando perdera seu pai, e anos depois, sua mãe. Mas naqueles tempos, ela tivera Jonas para apoiá-la e dizer que tudo ficaria bem novamente.  Agora, não tinha ninguém.

Estava só. Olhava em volta,  e a realidade densa de sua solidão a envolvia  completamente em um sabor amargo  de desesperança.

Logo, viu-se também desempregada. Marla, sua chefe, deixara uma carta sob a porta um Mês e meio depois da morte de Jonas. Pedia-lhe que se comunicasse com o escritório. Ingrid sabia que estava para perder o emprego, e tentou juntar forças para tomar um banho e ir até lá, pois precisava do emprego; mesmo assim, foi vencida pelo desânimo ao abrir o guarda-roupa e deparar com as camisas de seu falecido marido, separadas por cores, que pareciam esperá-lo para vesti-las.

Mais uma noite difícil... mais um dia de solidão.





Os amigos, aos poucos, foram desistindo de tentar ajudá-la - talvez porque, afinal de contas, não fossem tão amigos assim. Alguns inventaram a história de que Ingrid estaria em viagem. Talvez isto fizesse com que se sentissem melhor por não insistirem. Finalmente, após uma nova tentativa em contactá-la, Marla não teve outro remédio senão demiti-la. Ingrid ouviu o recado deixado em seu telefone celular, após recarregá-lo. Sentiu apenas indiferença. Havia vários outros recados em sua caixa de mensagem, mas ela apenas os deletou um a um, após certificar-se de que todos traziam a mesma mensagem.

Finalmente, os armários da cozinha se esvaziaram. Ingrid precisava sair, ou morreria de fome, e embora morrer não fosse uma possibilidade que a desagradasse de todo, havia o instinto de sobrevivência, que falava mais alto.

Abriu a porta, que rangeu tristemente, naquela manhã gelada de terça-feira a fim de ir até o mercado comprar comida. Sempre fora totalmente avessa à comida rápida e pizzas. Pedir comida por telefone era algo que jamais fazia. Foi quando ela pisou no envelope à porta; apanhou-o e leu um nome e o logotipo de uma firma de advocacia. Abriu-o, após verificar se estava realmente endereçado a ela, e leu a mensagem; esperavam-na para a abertura de um testamento.

Mais tarde, descobriu, estupefata, que uma tia distante de seu marido deixara-lhe uma velha casa em uma cidade vizinha - Areal. Lembrou-se de ter passado férias naquela casa uma vez, em companhia de seu então namorado Jonas. Tia Agnes era uma senhora simpática, em seus setenta e tantos anos, que os recebera muito bem e dera-lhes de presente de casamento a lua de mel em Paris. Ingrid gostara imediatamente dela, e os quinze dias que passaram em sua casa em Areal foram muito agradáveis. Recordou-se de ter ouvido Jonas dizer que ela era seu único parente vivo, e que um dia, herdaria a casa - uma mansão antiga, no alto de uma colina e um bairro decadente com deslumbrante vista para o mar. As outras casas próximas ou estavam em ruínas ou eram casas de veraneio - vazias a maior parte do ano. Portanto, Ela e Jonas tiveram a praia praticamente só para eles.

Ingrid respirou fundo mais uma vez. Sentiu o ar da maresia, e deixou que ele renovasse seus pulmões. Começou a subir à pé a colina. Gaivotas emitiam seus gritos, indo mergulhar nas ondas lá embaixo. Muitas lembranças tomaram conta de seus pensamentos.  Enxugando as lágrimas para conseguir ver melhor o caminho, Ingrid prosseguiu.

Colocou a chave na porta, e abriu-a vagarosamente. A casa estava escura e silenciosa. O velho carrilhão jazia quieto na parede da sala de estar, pois não tivera quem lhe desse corda. Ingrid adentrou a casa, deixando aberta a porta atrás de si. Tudo estava empoeirado e triste. Os móveis tinham sido cobertos com lençóis brancos, mas o chão de linóleo, sempre tão brilhante,  estava embaçado de pó. Ela colocou as malas no chão, e olhando em volta mais uma vez, recolheu as lembranças felizes que restavam de sua estadia naquela casa.




Todos os que ela amara estavam mortos! A certeza de que o resto de sua vida seria solitária - embora a herança deixada por tia Agnes garantisse a ela uma vida confortável e sem preocupações financeiras - deixou-a muito infeliz.

Abriu uma janela, e a luz da manhã iluminou a grande sala de estar. Ingrid deixou-se ficar ali, desfrutando daquela maravilhosa vista, enquanto o sol finalmente vencia a neblina e dava o ar de sua graça à paisagem. As ondas marulhavam tristemente. Tudo naquela casa, que fora tão alegre, estava profundamente triste.  De repente, Ingrid começou a ouvir algo mais além do barulho do vento e das ondas: o velho carrilhão soava dez horas da manhã! Ela correu para olhá-lo - afinal, estava parado quando entrara na casa, e marcava três horas. Estupefata, Ingrid viu que de alguma forma, o relógio estava trabalhando, e comparando-o com seu relógio de pulso, viu que marcava a hora certa. Intrigada, pensou que talvez tivesse enxergado mal, ou que estivesse imaginando coisas.

Aos poucos, Ingrid foi tomando conta de sua nova residência. Os dias passavam vagarosamente, e como não houvesse muito o que fazer, ela lia. Colocava em dia todas as leituras que começara e jamais terminara, e caminhava muito. Fazia longas caminhadas pela praia fria e deserta. O vento passava uivando pelos seus ouvidos, e Ingrid achava que ele conversava com ela.

Aqueles dias de total solidão e introspecção precisavam terminar, e Ingrid sabia que tinha que continuar com sua vida. Tinha consciência de que alguém  na flor da idade como ela ainda precisava encontrar motivos para continuar vivendo. Uma semana após sua chegada, algo inusitado aconteceu...



terça-feira, 17 de setembro de 2013

A CICATRIZ





Nina era uma linda moça. Tinha a pele imaculadamente branca, e um rosto tão bonito, que todos os olhares a seguiam quando ela passava. 

Mas um dia, por causa de uma peça do destino, um acidente fez com que uma grande cicatriz fosse indelevelmente marcada em sua face direita, iniciando-se no centro da testa, cruzando a maçã do rosto e indo terminar junto à base do maxilar. A cicatriz era profunda, e Nina passou a esconder-se em casa, evitando sair. Mudou o corte do cabelo, passando a reparti-lo de modo que pudesse esconder a parte afetada do rosto com suas madeixas. Da moça alegre e despreocupada, nasceu uma criatura triste e amargurada.

Um dia, enquanto estava à janela, viu passar um lindo moço. Sentiu que seu coração abria-se novamente para a vida, principalmente, quando, no dia seguinte, ele olhou para cima e sorriu para ela. Passaram a conversar todos os dias, ao entardecer, quando o moço voltava do trabalho. Ele nem notara a cicatriz no rosto de Nina, pois ela sempre ficava meio-de lado para ele, de forma que ele só pudesse divisar seu lado 'perfeito.'

Um dia, ele a convidou para sair. Nina entrou em pânico: o que faria agora? Com certeza, ao ver a cicatriz em seu rosto, ele nunca mais olharia para ela! Afinal, era um moço tão bonito! Ela entrou em desespero. Trancou as janelas, e não mais esperou por ele.

Mas o moço estava apaixonado, e não desistiria tão facilmente! Passou a bater à porta da casa de Nina todas as tardes, embora ela jamais a abrisse para ele. Um dia, ela adormeceu no sofá da sala, e nem viu quando sua mãe saiu para ir até a mercearia, deixando, acidentalmente, a porta entreaberta. 

O jovem, ao bater, sem querer empurrou a porta. Quando viu Nina deitada no sofá, adormecida, ele entrou. passou a olhá-la bem de perto, e notou a cicatriz em sua face. Ao invés de sentir repulsa, passou a amá-la ainda mais! Mas Nina acordou, e automaticamente, levou a mão ao rosto, tentando esconder sua cicatriz, assim que o viu!

Ele não se apavorou: agindo com naturalidade, perguntou a ela como ela tinha ficado com aquela marca. Então, Nina contou-lhe sobre o terrível acidente que quase a matara, as dores que passara, os meses nos hospital, a difícil recuperação.

O moço ouviu-a com atenção, e depois, segurando-lhe as mãos, disse:

"Jamais se envergonhe desta cicatriz. Ela representa uma batalha muito importante que você venceu. Faz parte da sua história de vida, da sua força e da sua perseverança: você venceu a morte!"

Bem, o final desta história, vocês já sabem qual foi...



domingo, 8 de setembro de 2013

O VOYEUR





Seguia-na com os olhos. Mais do que apenas com os olhos: com a parte mais negra de sua alma. E enquanto o fazia, morrendo a cada sorriso dado por ela, sentindo seu sangue envenenar-se a cada sucesso anunciado, e seus membros, enregelarem-se a todo inclinar de cabeça, postura e passo, negava a si mesmo a chance de aproveitar as próprias horas em alguma atividade que pudesse edificar-lhe o espírito ou promover-lhe o progresso financeiro e social.

Dormia e acordava pensando nela. De dentro de sua escuridão, acreditava que tudo o que ela fazia, era um gesto deliberado para atingi-lo. Enquanto isso, ela passava, alheia a tudo o que acontecia na alma dele, embora sentisse, de vez em quando, ao estar sozinha e pensativa, uma certa atmosfera sombria ao seu redor - que ela logo espantava com alguma coisa útil, como um passeio ou a leitura de um bom livro.

Ele não sabia, mas ao segui-la daquela maneira, o ódio e o desprezo que, dizia si mesmo, sentia por ela, transformava-se em um vício quase sexual,  um prazer mórbido e inexplicável.

Ele pecava, pois ao olhá-la, não entendia como ela poderia estar recebendo tanta atenção, sendo tão simples como era, e toda a sua obra, tão pequena e obtusa, insignificante e de mau gosto, enquanto a dele, sempre tão centrada e firmemente alicerçada nos pilares do estudo, da dedicação e do eruditismo: as palavras sempre cuidadosamente selecionadas a fim de darem ao interlocutor uma boa impressão, e a certeza de sua educação superior, que também ajudava-no a intimidar opiniões contrárias à sua e reafirmar suas crenças e convicções como sendo as mais corretas. Sabia que o caminho das palavras, quando ornado de rebuscadas intenções e obscuras afirmações, dava aos incautos a impressão de grandeza de espírito e inteligência superior à da maioria. Assim, achava-se incontestável, dominador, eloquente. Não mais que de repente, aquela mulher simples, de vocabulário raso e chinfrim, tomava-lhe a atenção! Como ela ousava?

Ela pecou pela sua demasiada transparência e simplicidade; não sabia que os abutres sentem-se sempre atraídos pela carne fresca descuidadamente exposta, e que ao contrário do que se pensa, eles a preferem à carniça fétida  e em decomposição, que é o que geralmente lhes é oferecido pela natureza. Ela jogava palavras livres e descuidadas sobre o papel, não se preocupando em dar a elas a proteção que as palavras merecem para que se tornem eternas; a eternidade, para ela, era uma fraude, um engôdo, e se suas palavras alcançassem a eternidade da manhã seguinte, mas falassem dentro de algum coração mais sensível, sua missão tinha sido cumprida. Não percebia o quanto as desperdiçava!

Ele se contorcia e se debatia do alto de seu pedestal, esforçando-se para lá permanecer, rebatendo todos os que lhe eram contrários ou contrários às suas idéias com a força e a ira que o medo lhe conferia. Usava de argumentos torpes, mas enfeitados pelo reboco do falso eruditismo, tornando seu discurso sedutor e cheio de falsas verdades. 

Ela caminhava bem rente ao solo, os pés descalços sujando-se na lama criadora da vida, os olhos bem próximos às flores miúdas que cresciam entre o mato ao longo do caminho, os cabelos revoltos ornados pelas folhas secas da vida que caíam indiferentes das árvores do tempo, e banhava-se nua nas águas claras do rio das palavras sem saber que era obcecadamente observada pela a fúria e o nojo de um voyeur apaixonado e mortal. Mas enquanto se banhava, ela sentia um bafejar fétido em sua nuca, e olhava em volta, assustada, mas nada vislumbrava. 

Enquanto isso, a fúria e a ira dele cresciam cada vez mais, e tornou-se necessário que mais seguidores passassem a odiar seu desafeto, além dele mesmo; assim, começou a tecer ameaças mais óbvias, fazendo alusão àquela que andava na lama do solo da vida, incitando os outros seres, atiçando-lhes a curiosidade a fim de tê-los às mãos no momento em que ele decidisse que era chegada a hora de revelar o nome de seu desafeto! Mas precisava, para isto, que tivesse argumentos sólidos. Continuou vasculhando os passos dela, a procura de alguma coisa que pudesse servir-lhe de justificativa para suas intenções, e assim passou a ver-se em cada palavra por ela proferida, cada frase, cada suspiro. Tudo o que ela dizia passou a ser para ele um espelho, no qual ele era obrigado, por ele mesmo, a enxergar aquilo que mais o incomodava a respeito de si próprio. Diante daquilo, recorreu ao seu último recurso: a calúnia!

Criou histórias mal-cheirosas e absurdas a respeito dela, e passou a espalhá-las abertamente, de forma a atraí-la para o seu covil e expô-la; pois sabia muito bem que ninguém é capaz de perceber-se caluniado e permanecer calado!

E mais uma vez, ela pecou, caindo na armadilha que ele havia montado. Mas ela, tendo finalmente a certeza sobre de onde vinham as emanações de enxofre que a vinham perturbando, tomou uma atitude rápida e eficaz: apontou aquele que a feria! Ao invés de usar dos mesmos recursos dele, ou seja, a grosseria, a infâmia e a ameaça, repeliu-o com clareza. Respingou-o com a lama da vida que havia em seus pés, a qual queimou o rosto falsamente imaculado daquele falso cavalheiro. 

Ele, fingindo-se ferido de morte, retomou seu discurso rebuscado e passou a choramingar entre seus amigos, mostrando-lhes a pele maculada, mas escondendo as setas pontiagudas com as quais mirara seu alvo.

E ela voltou a caminhar descalça sobre a lama da vida, respirando o perfume das flores e tendo as folhas secas das árvores ornando seus cabelos. Seguiu pelos caminhos preferidos, onde morava a sua poesia, a sua crônica do viver, a sua história ainda não terminada.

E ele? Obteve a falsa piedade de falsos amigos. Aqueles que lhe davam suporte logo o esqueceriam, pois constavam no mural de suas falsas lágrimas apenas para que eles mesmos desfrutassem de um minuto que fosse de celebridade. A memória, uma das coisas mais fugazes da vida, logo os transformaria a ambos em esquecimento, único caminho que aguarda a todos no futuro. 






quinta-feira, 5 de setembro de 2013

CALIFÓRNIA




CONTO VENCEDOR DO CONCURSO DE CONTOS DO BLOG GÂNDAVOS, DE CARLOS LOPES

CALIFÓRNIA


Pisava no chão seco e farinhento da vila de Córrego Seco desde que nascera. Nome mais apropriado para um lugar, não existia. Tudo era tão seco, que até mesmo o carcará tornara-se pássaro raro. Somente os que, como Joana, não tinham outra alternativa, continuavam vivendo ali. Ela não conhecia outra vida, tendo gasto em seu caminhar, muitas solas de chinelo. De sol a sol, de solo a solo, de cacto a cacto. Sua magreza alongava-se ainda mais na sombra projetada no chão pelo sol escaldante. No alto da cabeça, carregava uma lata d’água barrenta que tinha ido buscar a dois quilômetros da sua casa. Passava pelas ruínas da velha igreja sem notar, como quem passa por uma fé que deixara de existir.
Tinha apenas vinte anos de idade, mas aparentava quarenta. Em fila, seguiam-lhe seus três meninos, aonde quer que ela fosse. O pai? Partira para a cidade grande em busca de uma vida melhor, deixando apenas uma promessa: “Um dia, eu mando buscar ocês.” Nunca mais voltou. Nunca mais deu notícias. Também, que notícia poderia chegar àquela lugar esquecido por Deus? 
Joana nem sentia saudades do marido. Tinha antes muitas outras coisas a sentir: fome, sede, cansaço, desesperança, e um medo que crispava-lhe o estômago: o de ver morrerem seus filhos. Todos os dias, chegavam-lhe histórias de crianças que morriam. Às vezes, passava um cortejo na porta de casa, um pequeno bando de gente maltrapilha carregando um pequeno caixão.
Certa manhã, antes mesmo de clarear, Joana acordou com um sobressalto: tivera um sonho ruim. Vira um de seus meninos dentro de um caixão. No sonho, estava em uma sala vazia e escura, onde, bem no meio, havia um caixão cercado de velas. Ela foi se aproximando devagar, com medo do que fosse ver, enquanto ouvia uma risada sardônica atrás de si. Sentiu um arrepio na nuca, e quando chegou bem perto, levou à mão ao peito e olhou: lá estava seu mais velho! 
Joana levantou-se correndo, e foi olhar seus meninos, e ao ver que dormiam pesadamente na esteira de palha, deu um suspiro de alívio; ainda não era naquele dia! 
Na noite seguinte, teve o mesmo sonho. A única diferença, é que o menino no caixão era o seu do meio. E na terceira noite, o sonho repetiu-se, mas era o seu mais novinho que estava morto. Joana achou que aquilo era um sinal; tinha que sair dali! Precisava ir embora, pois beber água barrenta e comer farinha com lagarto cozido não era vida para menino. Mas ir embora para onde, meu Deus? Não tinha nada, não sabia ler, mal sabia falar direito... e enquanto cismava, andando de um lado para o outro debaixo do sol, à porta de seu casebre, enquanto os meninos comiam feijão com farinha, veio de repente uma ventania; e com a ventania, uma folha de papel, uma página de revista que grudou no seu rosto.
Surpresa, Joana pegou o pedaço de papel e olhou: era uma fotografia, uma imagem de um lugar onde havia um jardim verde e exuberante, cheio de flores coloridas, junto a um rio azul enorme de lindo. Havia também muitas pessoas felizes, e em uma fotografia menor, mesas com toalhas brancas cheias de pratos de comidas que ela nunca tinha provado, e um sorridente homem de branco que era tão bonito, que só podia ser um anjo de Deus! Ela nunca tinha visto tanto verde na vida, nem mesmo na época da chuva! Notou as letras sob a foto, e achou que elas deveriam dizer o nome do lugar na fotografia; decidiu que fosse aonde fosse, era para lá que ela iria! Como? Isto não importava; sentiu sua fé renascer, e da mesma forma que Deus lhe mandara a resposta, também havia de levá-la até o lugar.
Foi até a casa do ‘seu Tinoco’, o único por ali que sabia ler, e entregou-lhe a fotografia. O velho olhou-a, e após seguir as letras com o dedo, devolveu-lhe o papel, dizendo: “Esquece, filha. É longe. Ocês nunca vão chegar lá!” Mas Joana insistiu: “Me diz o nome do lugar, me diz onde é, ‘seu’ Tinoco. O resto, é com nós!” O velho balançou a cabeça, e disse com enfado: “Califórnia. É esse o nome.” Joana nem perguntou mais nada: voltou para casa, e juntando as poucas coisas que tinham, mostrou a fotografia e anunciou aos meninos, que se entreolharam, animados com a sua primeira aventura: “Se apronta, porque nós vai pra Califórnia.” E partiram naquela mesma manhã. Joana nem se deu ao trabalho de fechar a casa. No chão, o vento derrubou a única fotografia amarelada que o marido lhe deixara. ‘Seu’ Tinoco, da porta de seu casebre, viu-a partir em direção ao deserto, seguida pelas três crianças, carregando uma grande trouxa de roupa na cabeça. Ele apertou os olhos, enquanto a imagem dos quatro desaparecia, serpenteando com o calor que brotava do solo.
Meses depois, um homem caminha pelo chão árido de Córrego Seco, dirigindo-se à casa. Traz uma pequena mala de viagem, e muitas saudades e lembranças. Está feliz, pois conseguira arranjar trabalho de jardineiro na casa de um senhor muito poderoso e tão bondoso quanto rico, lá na cidade, no sul do país. Logo que conseguiu o emprego – depois de morar nas ruas, trabalhar em muitos canteiros de obra, sem carteira assinada e receber um salário abaixo do mínimo, passar muita necessidade e até mesmo fome, João - o marido de Joana- finalmente conseguira fugir do lugar onde era mantido como trabalhador escravo. Em sua fuga, acabou indo bater à porta de seu benfeitor, que vendo seu estado emocional lastimável e seu perigoso nível de desnutrição, decidiu acolhê-lo, cuidar de sua saúde e oferecer-lhe trabalho em sua casa.
Assim que ficou sabendo de sua história, deu-lhe dinheiro e mandou que fosse buscar sua família, em Córrego Seco. As crianças iriam frequentar uma escola, e sua Joana poderia ajudar nos serviços de casa.
Mas quando João chegou, não viu sinal de seus filhos e de sua Joana. ‘Seu’ Tinoco deu-lhe as notícias: “Eles foram embora. Pra Califórnia.” Agoniado, João indagou: “Mas... quando?” Seu Tinoco, montando um cigarro de palha, respondeu: “Faz uns mês... foram naquela direção!” 
Ao ver que ‘seu’ Tinoco apontava a direção do deserto, João sentiu seu coração encher-se de agonia. 
Voltou para o casebre. Deitou-se na esteira de palha semicoberta pela areia, e chorou, desejando do fundo de seu coração, que sua mulher e seus filhos tivessem conseguido alcançar a Califórnia.

domingo, 1 de setembro de 2013

O Marido Perfeito






O MARIDO PERFEITO

Amélia limpa as mãos no avental, pega a forma com massa de bolo que acaba de preparar e inclina-se, abrindo a porta do forno. O vapor quente faz aumentar as gotículas de suor em sua testa. Enquanto espera o bolo para a sobremesa ficar pronto, descasca alguns legumes para o jantar. Lá fora, as crianças brincam, e Amélia se lembra de que ainda precisa arrumar os uniformes para a manhã seguinte. Precisa apressar-se, pois dentro em breve, Jece chegará em casa, e ela nem sequer pôs a mesa para o jantar. 

Enquanto vai realizando suas tarefas, ela se lembra da conversa que tivera com as amigas pela manhã, enquanto faziam compras no mercado, antes de ir para o trabalho. Uma de suas amigas reclamava do marido beberrão, a outra, que não fazia sexo há quase um mês. Amélia suspira fundo e dá graças a Deus, pois tem o marido perfeito: não bebe, não fuma e não tem qualquer tipo de vício. Não deixa faltar nada para as crianças, bota comida em casa, não é violento, e cumpre com suas obrigações conjugais uma vez por semana. Bem, de forma meio-automática, ou seja, "eu-forneço-o- brinquedo- e-você-se-diverte, se puder," mas pelo menos, nem isso lhe falta. 

Logo ouve o barulho do carro, e o familiar ranger do portão se abrindo. Tira o avental e corre para a porta, a fim de recepcionar o marido. Mas Jece mostra-se mau-humorado e reage apenas automaticamente ao seu beijo de boas-vindas. Senta-se no sofá e liga a TV. Amélia põe as crianças para tomar banho antes do jantar, e desliga o forno, colocando o bolo para esfriar sobre a pia.

Enquanto prepara a cobertura de chocolate, o movimento elíptico da colher na calda marrom-escura a faz entrar em transe. Logo, seus pensamentos a conduzem por lugares que não gostaria de ir. Lembra-se das muitas vezes em que, durante certas crises, o marido prometera que iriam contratar alguém para ajudá-la no serviço de casa, nunca cumprindo a promessa. Ou que fariam a tão sonhada viagem, a mesma que ele vinha lhe prometendo há anos, mas sempre surgiam outras prioridades, como trocar o carro, comprar uma TV de quarenta e duas polegadas para assistir a Copa do Mundo ou reformar a casa. 

Lembra-se das vezes em que ele liga do escritório na última hora, dizendo que vai chegar tarde em casa, e que no dia seguinte, ela sente cheiros estranhos nas suas camisas, quando as coloca na máquina de lavar.

Na sala de estar, Jece parece assistir TV, mas pensa sobre a nova secretária que anda se insinuando para ele. Tenta decidir se terá ou não um caso com ela, ou se continuará saindo com a garota do departamento pessoal. Ter casos não era um problema para ele, pois sabia administrá-los muito bem, de maneira que Amélia nunca tinha descoberto nenhum deles. Sabia conduzir a coisa com tanta maestria, que a esposa não só conhecia, como dava-se muito bem com todas as suas amantes. Elas até lhe serviam xícaras de café quando ela ia visitá-lo no escritório. No fundo, Jece achava-se com esse direito, já que era o marido perfeito: comia fora, mas também comia em casa, a fim de agradar a patroa, mesmo quando não estava com fome.

Na cozinha, o ressentimento de Amélia começa a engrossar e ferver, junto com a calda de chocolate, e finalmente, transborda. Ela apaga o fogo, jogando a lava fumegante sobre o bolo. Respira fundo, gritando: "Já vou servir o jantar!"

Quando põe o último prato sobre a mesa, as crianças já estão sentadas. Jece surge, já de pijamas, arrastando seus chinelos sobre o piso encerado. Começam a comer, e Amélia, já de volta de seu transe, ajuda a todos a fazer seus pratos, sendo a última a servir-se. Conversam animadamente sobre as coisas do dia. 

Lá fora, na casa logo em frente, que estivera vazia durante vários meses, há movimento: um novo vizinho acaba de mudar-se. É alto, forte, bonito, sedutor e solteiro. Procura pela mulher de sua vida.

O vento sopra forte, e o destino entra sorrateiro pela janela da sala de jantar.



O JARDIM DAS DESILUSÕES – CAPÍTULO VI – FINAL

O funeral aconteceu em um dia especialmente frio no qual uma chuva fina e cortante era derramada em rajadas pelo vento. Os pais...