quinta-feira, 26 de setembro de 2013

AREIAS DE UM TEMPO SEM FIM - Parte I






Ingrid olhou pela janela do ônibus para a colina azulada, encoberta pela névoa da manhã. O sol tentava surgir entre um céu de nuvens macilentas, mas era transformado em um círculo sem brilho. Ela logo avistou o velho casarão encimando a colina, e lembrou-se da fotografia no documento anexado ao testamento: era ali. Saltou do ônibus e ficou na calçada, as malas com suas poucas coisas no chão, olhando o veículo se afastar até sumir na curva. Sentia-se cansada, pois viajara a noite inteira e mal conseguira dormir. A ansiedade proporcionada pela nova vida que caíra diante dela num momento difícil, dava-lhe a possibilidade de abrir-lhe novas portas e mostrar-lhe um recomeço.

Ingrid acabara de perder o marido, Jonas, com quem fora casada por seis anos, em um acidente de carro. Acordava todos os dias sonhando com aquela manhã fatídica em que a campainha tocara, e um policial dirigira-se a ela com voz grave e firme, tirando o seu quepe:

"Senhora Ingrid Macedo?"

Ela apertara o robe contra o corpo, tentando preparar-se para o que aquele homem tinha a dizer-lhe. Pensou na missão difícil que lhe fora confiada: dar alguma má notícia, e ter que lidar com as reações emocionais de seus receptores.

Ela balançou a cabeça positivamente, e os lábios dele foram se abrindo em câmera lenta. A voz dele foi se tornando distorcida como em um toca-discos antigo cuja rotação estava defeituosa, mas ela pode compreender absolutamente tudo o que ele dissera. E  então, tudo ficou branco, e ela acordou no sofá da sala, a vizinha da casa em frente debruçada sobre ela segurando um copo d'água com açúcar e chamando-a pelo nome.  O policial esperava, sentado em uma poltrona.

Os dias que se seguiram foram também caracterizados pela mesma lentidão de um toca discos com a rotação defeituosa. Ela vagava sozinha pela casa, ignorando os telefonemas dos amigos e colegas de trabalho. Por fim, puxou a tomada do aparelho telefônico, e deixou a bateria do celular terminar completamente. Algumas pessoas bateram-lhe à porta, mas ela não queria ver ninguém. Sentava-se sobre o tapete, espalhando fotografias de ocasiões felizes, tentando captar a energia daqueles acontecimentos e trazê-los de volta até ela, mas aquilo só fazia com que se sentisse ainda pior.

Tinha medo de esquecer o rosto dele. Acordava assustada, esticando o braço para o travesseiro vazio, e por alguns segundos, não conseguia lembrar-se do rosto da pessoa que ela tanto amou e que dormira ao seu lado durante seis anos. Ela corria assustada para a sala, sentando-se entre as fotografias espalhadas, ofegante de susto, e procurava pelo rosto do marido.

Notava que suas roupas ficavam cada vez mais folgadas. As calças do pijama caiam, e ela as erguia a cada minuto, enquanto caminhava descalça pela casa, olhando a intensa luz do dia através das gretas das janelas fechadas. Lá fora a vida continuava sem Jonas. Era sempre assim: a vida continuava sempre, como tinha acontecido quando perdera seu pai, e anos depois, sua mãe. Mas naqueles tempos, ela tivera Jonas para apoiá-la e dizer que tudo ficaria bem novamente.  Agora, não tinha ninguém.

Estava só. Olhava em volta,  e a realidade densa de sua solidão a envolvia  completamente em um sabor amargo  de desesperança.

Logo, viu-se também desempregada. Marla, sua chefe, deixara uma carta sob a porta um Mês e meio depois da morte de Jonas. Pedia-lhe que se comunicasse com o escritório. Ingrid sabia que estava para perder o emprego, e tentou juntar forças para tomar um banho e ir até lá, pois precisava do emprego; mesmo assim, foi vencida pelo desânimo ao abrir o guarda-roupa e deparar com as camisas de seu falecido marido, separadas por cores, que pareciam esperá-lo para vesti-las.

Mais uma noite difícil... mais um dia de solidão.





Os amigos, aos poucos, foram desistindo de tentar ajudá-la - talvez porque, afinal de contas, não fossem tão amigos assim. Alguns inventaram a história de que Ingrid estaria em viagem. Talvez isto fizesse com que se sentissem melhor por não insistirem. Finalmente, após uma nova tentativa em contactá-la, Marla não teve outro remédio senão demiti-la. Ingrid ouviu o recado deixado em seu telefone celular, após recarregá-lo. Sentiu apenas indiferença. Havia vários outros recados em sua caixa de mensagem, mas ela apenas os deletou um a um, após certificar-se de que todos traziam a mesma mensagem.

Finalmente, os armários da cozinha se esvaziaram. Ingrid precisava sair, ou morreria de fome, e embora morrer não fosse uma possibilidade que a desagradasse de todo, havia o instinto de sobrevivência, que falava mais alto.

Abriu a porta, que rangeu tristemente, naquela manhã gelada de terça-feira a fim de ir até o mercado comprar comida. Sempre fora totalmente avessa à comida rápida e pizzas. Pedir comida por telefone era algo que jamais fazia. Foi quando ela pisou no envelope à porta; apanhou-o e leu um nome e o logotipo de uma firma de advocacia. Abriu-o, após verificar se estava realmente endereçado a ela, e leu a mensagem; esperavam-na para a abertura de um testamento.

Mais tarde, descobriu, estupefata, que uma tia distante de seu marido deixara-lhe uma velha casa em uma cidade vizinha - Areal. Lembrou-se de ter passado férias naquela casa uma vez, em companhia de seu então namorado Jonas. Tia Agnes era uma senhora simpática, em seus setenta e tantos anos, que os recebera muito bem e dera-lhes de presente de casamento a lua de mel em Paris. Ingrid gostara imediatamente dela, e os quinze dias que passaram em sua casa em Areal foram muito agradáveis. Recordou-se de ter ouvido Jonas dizer que ela era seu único parente vivo, e que um dia, herdaria a casa - uma mansão antiga, no alto de uma colina e um bairro decadente com deslumbrante vista para o mar. As outras casas próximas ou estavam em ruínas ou eram casas de veraneio - vazias a maior parte do ano. Portanto, Ela e Jonas tiveram a praia praticamente só para eles.

Ingrid respirou fundo mais uma vez. Sentiu o ar da maresia, e deixou que ele renovasse seus pulmões. Começou a subir à pé a colina. Gaivotas emitiam seus gritos, indo mergulhar nas ondas lá embaixo. Muitas lembranças tomaram conta de seus pensamentos.  Enxugando as lágrimas para conseguir ver melhor o caminho, Ingrid prosseguiu.

Colocou a chave na porta, e abriu-a vagarosamente. A casa estava escura e silenciosa. O velho carrilhão jazia quieto na parede da sala de estar, pois não tivera quem lhe desse corda. Ingrid adentrou a casa, deixando aberta a porta atrás de si. Tudo estava empoeirado e triste. Os móveis tinham sido cobertos com lençóis brancos, mas o chão de linóleo, sempre tão brilhante,  estava embaçado de pó. Ela colocou as malas no chão, e olhando em volta mais uma vez, recolheu as lembranças felizes que restavam de sua estadia naquela casa.




Todos os que ela amara estavam mortos! A certeza de que o resto de sua vida seria solitária - embora a herança deixada por tia Agnes garantisse a ela uma vida confortável e sem preocupações financeiras - deixou-a muito infeliz.

Abriu uma janela, e a luz da manhã iluminou a grande sala de estar. Ingrid deixou-se ficar ali, desfrutando daquela maravilhosa vista, enquanto o sol finalmente vencia a neblina e dava o ar de sua graça à paisagem. As ondas marulhavam tristemente. Tudo naquela casa, que fora tão alegre, estava profundamente triste.  De repente, Ingrid começou a ouvir algo mais além do barulho do vento e das ondas: o velho carrilhão soava dez horas da manhã! Ela correu para olhá-lo - afinal, estava parado quando entrara na casa, e marcava três horas. Estupefata, Ingrid viu que de alguma forma, o relógio estava trabalhando, e comparando-o com seu relógio de pulso, viu que marcava a hora certa. Intrigada, pensou que talvez tivesse enxergado mal, ou que estivesse imaginando coisas.

Aos poucos, Ingrid foi tomando conta de sua nova residência. Os dias passavam vagarosamente, e como não houvesse muito o que fazer, ela lia. Colocava em dia todas as leituras que começara e jamais terminara, e caminhava muito. Fazia longas caminhadas pela praia fria e deserta. O vento passava uivando pelos seus ouvidos, e Ingrid achava que ele conversava com ela.

Aqueles dias de total solidão e introspecção precisavam terminar, e Ingrid sabia que tinha que continuar com sua vida. Tinha consciência de que alguém  na flor da idade como ela ainda precisava encontrar motivos para continuar vivendo. Uma semana após sua chegada, algo inusitado aconteceu...



5 comentários:

  1. Olá Ana!

    Espero que estejas bem.
    A história de Ingrid está a ficar bem interessante. Voltarei para ler o seguimento.

    Beijos,

    Cris Henriques

    http://oqueomeucoracaodiz.blogspot.pt/2013/09/blog-suas-historias-nossas-historias.html

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  2. Boa noite querida, lindo seu blog, vem me visitar, se gostar do meu blog e quiser me seguir, te seguirei de volta, deixa o seu link, tenha um lindo final de semana abençoado por Deus, beijinhos!
    http://pontocruzdasamsara.blogspot.com.br/

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  3. OI ANA!
    ACHO QUE NUNCA HAVIA VINDO AQUI, ESTOU LENDO TEU CONTO, GOSTANDO MUITO E VOU CONTINUAR.
    ABRÇS
    http://zilanicelia.blogspot.com.br/

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  4. POETISA, BEM QUE NÃO FOSSE LER TUDO E FUI LENDO COM IMENSA SATISFAÇÃO. AS EMOÇÕES PASSADAS NOS COTEJAM COM PERDAS NOSSAS. FICA UM FOLEGO NO AR, TORCENDO PELA SUPERAÇÃO DA PERSONAGEM, QUE TALVEZ SEJA TAMBÉM A NOSSA SUPERAÇÃO. PARABÉNS. ABRAÇOS. FICA COM DEUS. QUE POSTE NO FACE PARA VIRMOS LER A CONTINUAÇÃO. FICA COM DEUS.

    MAURICIO DE AZEVEDO

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  5. EXPECTATIVAS....... MUITO BOM . O QUE SERÁ VAI ACONTECER ? MISTURADA A NATUREZA E SAUDADES , MAIS UMA HISTORIA MUITO INTERESSANTE. BOA TARDE ANA, BEIJÃO. olguinha costa

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