quarta-feira, 23 de novembro de 2016

MINHA VIDA, SUA VIDA - CAPÍTULO IV






MINHA VIDA, SUA VIDA  CAPÍTULO IV


Karen não sabia que há muitos quilômetros dali, alguém tinha lido seu desabafo muito atentamente; alguém que também já lera todos os seus poemas, e que parecia conhecer sua alma mais até do que ela mesma. Alguém que preferia permanecer em silêncio ao invés de manifestar-se, pois não gostava de chamar atenção sobre si mesma, e também por pensar que poemas eram coisas retiradas do âmago de quem os escrevia, e que um comentário equivocado ou uma interpretação malfeita poderiam ser como balas de canhão no silêncio de uma alma. Karen tinha uma fã que a acompanhava desde sempre. Uma pessoa que era tão sozinha e tão ferida, que preferia não se relacionar mais com ninguém, pois desenvolvera um medo e um tédio enorme de todas as coisas e todas as pessoas – ou quase todas. 

Mafalda vivia em seu próprio mundo, que era a casa onde nascera e crescera. Jamais saía; pelo menos, nos últimos dez anos, desde o sequestro relâmpago que causara a morte de sua irmã gêmea e de seus pais. O mundo – ela pensava - era um lugar violento, movido apenas por dinheiro e interesses, onde as pessoas se perdiam umas das outras, enquanto fingiam relacionar-se e serem felizes. 

A vida dos seus pais tinha sido assim: uma representação, uma peça teatral que enganava a todos que estavam na plateia, mas que feria os atores coadjuvantes, pois estes os amavam. Ela e sua irmã Bella viviam divididas entre os pais imaturos e jovens demais, ricos demais e explosivos demais, que tinham um relacionamento que oscilava entre a paixão doentia, o ciúme, o amor e o ódio. Sua mãe tinha apenas quinze anos quando engravidou delas, e seu pai, dezesseis. Duas crianças que de repente se viram diante da responsabilidade de criarem duas outras crianças. Felizmente, o dinheiro lhes permitira ter muitos substitutos nesta tarefa, babás e cuidadoras que olhavam pelas bebês enquanto os dois viajavam, curtiam a vida e gastavam tudo o que podiam gastar da fortuna que era a mesada que ganhavam dos pais. Os avós – tanto por parte do pai quanto da mãe – assistiam a tudo quase indiferentes, pois tinham eles mesmos seus muitos compromissos, viagens, negócios e interesses pessoais para se importarem demais com os filhos e as pequenas netas. Davam-lhes dinheiro, que é o que tinham bastante, e que jorrava de uma fonte inesgotável, herança de uma família antiga de imigrantes italianos que tinham entre suas atividades, produzir vinhos, construir prédios e fabricar carros de luxo. 

As meninas cresceram entre babás polidas e quase indiferentes, que cuidavam bem delas mas que realmente não se importavam muito com o que elas sentiam. Por isso, Bella e Mafalda eram muito unidas. Sentiam a ausência dos pais, mas eram felizes em seu mundo onde nada mais lhes faltava, e nos poucos momentos em que os pais estavam com elas, elas se divertiam, pois eram como quatro crianças que brincavam juntas. Às vezes, eles as levavam com eles em algumas viagens curtas de final de semana, nas quais se divertiam muito. Mas logo eles partiam em outras longas viagens, e as meninas ficavam entregues às babas, arrumadeiras e motoristas da casa. 

No dia do sequestro relâmpago, Mafalda estava com febre alta devida a uma forte gripe, e não foi jantar fora com os pais e a irmã. Lamentou muito, pois eram tão raras os momentos em que a família estava toda junta, que estar com febre em uma ocasião daquelas era mesmo muito azar. Naquela época, as meninas estavam com 18 anos, e tinham acabado o ensino médio. Bela queria ir para uma faculdade, mas a mãe a desencorajava, dizendo que com todo o dinheiro que tinham, ela jamais precisaria trabalhar, e que deveria aproveitar a vida. Mas Bella, a mais ajuizada das duas, insistia no seu desejo de cursar Artes. 

Naquela noite, Mafalda sentia-se muito mal e ficou na cama, tentando assistir a um filme. Por volta das dez e trinta, a febre começou a estranhamente ceder de repente, e ela sentiu-se bem melhor, indo tomar um banho e livrar-se da camisola suada.  Ainda no chuveiro, ela teve um mal-estar repentino, e quando saiu do banho embrulhada em seu robe felpudo, encontrou uma das empregadas da casa parada no meio do cômodo, as mãos entrelaçadas na frente do corpo e os olhos baixos. Mafalda percebeu que ela andara chorando, e quando perguntou qual era o problema, a moça a olhou e disse:

-Não tenho boas notícias, senhora...

Dali em diante, a vida de Mafalda tornou-se um verdadeiro pesadelo. Mafalda acordava durante a noite com a sensação de que iria morrer, suando frio e quase sem conseguir respirar. Andava pela casa apoiando-se nas paredes, os pés descalços, os cabelos desgrenhados, a mão apertando a garganta em uma angústia interminável. Os quatro avós tinham demonstrado o desejo de que ela fosse morar com eles, mas Mafalda, que mal os conhecia, agradeceu e disse que já tinha idade suficiente para morar sozinha. Eles disseram que ficasse tranquila, pois continuariam pagando a pensão, e nomeariam um tutor de confiança para cuidar de sua parte na herança, o que fizeram prontamente.

Ela não tinha muitas amigas. As poucas amigas que tinha afastaram-se dela, pois eram jovens demais para conviverem com tanta dor. Ainda a visitaram durante algum tempo, mas logo as visitas e telefonemas foram escasseando e Mafalda viu-se sozinha naquela grande mansão. Ela andava pelos cômodos da casa, sentindo falta de Bella. Também sentia falta dos pais, mas as saudades que sentia da irmã, sua única amiga verdadeira,  a torturavam ainda mais. Tinha pesadelos horríveis todas as noites, nos quais ela tentava alcançar Bella em uma rua escura e cheia de curvas, mas a irmã se afastava dela, reaparecendo em outros lugares. Logo, começou a fazer terapia para tentar superar a morte de sua família. Mas os pesadelos não passavam, nem mesmo com os remédios, que eram muitos e muito fortes.

Certa vez, Nono, seu avô por parte de pai, foi visita-la. Ela o recebeu na grande sala de estar, parecendo bastante deslocada ao ficar a sós com ele. Nono olhou para a neta longamente antes de caminhar até ela, e pegando-a pelas mãos, ergueu-a do sofá e abraçou-a com carinho. Mafalda, surpreendida por aquele gesto, começou a chorar. Nono pediu-lhe mais uma vez que se mudasse para a casa dele mas Mafalda negou, dizendo que preferia ficar onde as memórias de sua família estavam. Ele ainda perguntou-lhe se não preferia mudar-se para um apartamento em uma área mais movimentada, já que a mansão era afastada do centro, mas ela insistiu em ficar morando na mansão. Ele se despediu, dizendo que viria visita-la outras vezes. E cumpriu sua promessa. 

Mas um dia, quando Mafalda preparava-se para ir à sua consulta com o terapeuta, ela de repente não conseguiu passar pela porta. Parecia que entre ela e o mundo lá fora havia uma barreira intransponível, e por mais que ela tentasse, a barreira era mais forte, impedindo-a de sair. Sua respiração tornou-se ofegante, e tudo começou a rodar em volta dela. Mafalda caiu, desmaiada, e foi levada para o seu quarto pelo motorista da casa. 
Nono foi notificado, e telefonou-lhe para saber como estava. Mafalda contou a ele com detalhes o que tinha acontecido, e o quanto se sentia sozinha sem a irmã; ele tomou uma decisão.

No dia seguinte, Nono apareceu para visita-la, mas não estava sozinho; junto com ele, havia uma senhora bonita e elegante, aparentando estar na casa dos sessenta anos. Ele apresentou-a como sendo uma amiga sua, que concordara em ficar fazendo-lhe companhia o tempo que fosse necessário. Seu nome era Edith. Mafalda disse que não queria conviver com uma estranha, mas Nono disse-lhe que aquela não era uma escolha, mas uma imposição dele, se ela quisesse continuar recebendo sua mesada. Além disso, ele acrescentou, Edith não era uma estranha: conheciam-se há muitos anos, e como ela também vivesse só, Nono achou que o arranjo seria perfeito. Edith mudou-se para a mansão no dia seguinte.

Não demorou muito para que Mafalda compreendesse a verdadeira relação entre Edith e seu avô Nono. Enquanto elas conversavam, Edith deixava escapar o grau de intimidade entre eles, e falava dele com tanto carinho, que não foi preciso dizer mais nada. Conheciam-se há mais de vinte anos, conforme Edith a esclarecera. Maldosamente, ela perguntou a Edith se ela conhecia também sua avó, mas Edith não perdeu a tranquilidade, respondendo que sim, que ela a conhecia muito bem, e que desde sempre soube do casamento por interesse que ela tinha feito, e que as duas não eram amigas e nem se admiravam mutuamente. 
Apesar de tudo, Mafalda começou a gostar de Edith de verdade. Sentia que ela era uma pessoa carinhosa, sincera e educada, que faria tudo o que pudesse para ajudá-la. Sua avó jamais apareceu para vista-la, e aquela casa passou a ser também a casa de Edith. Às vezes, Nono passava a noite lá, e Mafalda recolhia-se mais cedo naquelas ocasiões, para que os dois ficassem mais à vontade. 

E assim, passaram-se dez anos.

Dr. Rodrigo, o terapeuta, passara a fazer as consultas em casa devido á síndrome do pânico de Mafalda, e cobrava uma pequena fortuna por elas. Edith não gostava dele, mas tratava-o sempre com muita polidez para não desagradar Mafalda. Ela sentia que Dr. Rodrigo não estava ajudando a ‘sua menina’ – como ela passou a chamar Mafalda – pois ela já não saía de casa há dez anos, e os remédios também não ajudavam muito, fazendo com que Mafalda passasse sempre muitas horas dormindo. 

Quando não estava dormindo ou conversando com Edith, Mafalda gostava de surfar na net; e fora lá que, por acaso, ficara conhecendo o blog de Karen – Lana, para ela – apaixonando-se pelos seus poemas. 

Mafalda tinha vinte e oito anos quando leu o desabafo de Karen, e ficou pensando nas estranhas coincidências que as uniam: ambas tinham a mesma idade e não tinham amigos, e eram tímidas. Karen tinha um talento maravilhoso para a escrita, mas não tinha o dinheiro para financiá-lo, enquanto ela adorava ler e tinha tanto dinheiro quanto pudesse ser capaz de gastar. Além disso, elas não tinham família. É claro que Mafalda tinha os avós, mas a não ser por Nono, eles não ligavam para ela. Mafalda pensou que aquele seria o arranjo perfeito: Karen não tinha para onde ir e precisava de um emprego, e ela, mesmo tendo o mundo aos seus pés, não podia ir a lugar nenhum. 


(continua...)





segunda-feira, 21 de novembro de 2016

MINHA VIDA, SUA VIDA – CAPÍTULO III






Mas a velha história da mulher que viu sua vida transformar-se ao mudar sua aparência e assumir uma atitude mais positiva, não acontecia para Karen. Um mês após a sua transformação, percorrendo os endereços dos anúncios de jornal, ela não conseguira um emprego. Participara de alguns processos de seleção, mas era sempre excluída no final. Karen tentava manter-se positiva, pensando nas coisas que o chefe lhe dissera, mas a cada dia, via sua esperança morrendo diante de outra negativa. Ainda dispunha de bastante dinheiro, mas o futuro e o que ele poderia trazer-lhe, caso não conseguisse outra colocação, faziam com que ela varasse noites em claro. Estava ficando com olheiras, emagrecera, e frequentemente, dormia durante as viagens de trem em busca de emprego e acabava perdendo a parada. Karen estava à beira do desespero.

Para piorar ainda mais a situação, a proprietária estava pedindo o apartamento de volta, pois ia vende-lo. Após dez anos vivendo ali, e sem conhecer outro lugar que pudesse chamar de lar, Karen sentia-se deprimida e sem expectativas. Em breve, não teria mais onde morar. 

A proprietária dera-lhe um prazo de três meses, que Karen conseguiu esticar para quatro, para que ela deixasse o apartamento. Disse-lhe que lamentava, mas precisava do dinheiro para pagar dívidas. 

Numa manhã de inverno, Karen saiu cedo para comprar o jornal e escolher alguns anúncios. Sentou-se em um banco de parque, pois ficar em casa deixava-a ainda mais deprimida. Sabia que para conseguir um emprego precisava manter uma atitude confiante e positiva, mas não conseguia. As moças que participavam dos processos de seleção eram mais jovens do que ela, a maioria tinha feito faculdade e eram mais qualificadas, além de demonstrarem mais confiança. 

Karen conversara com algumas delas, e descobriu que a maioria morava com os pais ainda, e que apesar de precisarem muito do emprego, não estavam desesperadas. Nenhuma delas estava a ponto de ser despejada, e nenhuma delas tinha dito ser completamente só no mundo. Karen resolveu inventar um passado, e dizia a elas sobre si mesma quase a mesma que escutava: que vivia com os pais, que eram abastados, mas gostaria de ter sua independência financeira. Mentia também sobre sua educação formal, dizendo que tinha diploma de administradora de empresas, mas durante as entrevistas, assim que descobriam que ela não tinha cursado faculdade, ela era descartada. 

Finalmente, ela conseguiu uma colocação em uma lanchonete, para trabalhar na cozinha. Era um emprego totalmente diferente do que ela estava acostumada, e o primeiro dia foi extremamente difícil. Era uma cadeia de lanchonetes famosa, e seu trabalho consistia em ler as comandas e preparar as bandejas para servir. Muitas vezes, tinha que substituir alguém da cozinha, e ajudar a preparar os lanches em horários de pico. O salário era menos da metade do que ela estava acostumada a receber, mas pelo menos, pagava o aluguel. Mas Karen sabia que não conseguiria sobreviver sozinha com um salário daqueles, pois após pagar o aluguel, não sobrava quase nada para as demais despesas. 

Todos os dias, ela voltava para casa exausta, desanimada e cheirando a gordura, e embora trabalhasse quase o dia todo – incluindo finais de semana e feriados -  até tarde da noite, Karen tinha ainda algumas manhãs livres nas quais continuava a procurar outro emprego. Dois meses se passaram, e ela ainda não tinha conseguido nada, a não ser outros empregos como aquele. A proprietária do apartamento concordara, após muita insistência, em dar a ela mais um mês. Mas deixara claro que após o prazo estipulado, seria obrigada a força-la a deixar o apartamento, caso não saísse de bom grado. 

Quatro meses já haviam passado desde que Karen fora formalmente notificada, e ela nem tinha mais um contrato de locação: estava vivendo ali de favor, e pagando um aluguel mais alto do que antes.

O emprego na lanchonete era desestimulante e muito cansativo para alguém como ela, acostumada a trabalhar em um escritório bonito e receber um bom salário. Havia constantemente brigas entre os funcionários, que disputavam o espaço uns com os outros e tentavam desabonar os colegas diante do gerente como se pudessem, através daquilo, tornarem-se presidentes da empresa, o que não era verdade; aquele era um ‘dead-end job’, e Karen sabia disso. O clima era quase insuportável, mas ela, acostumada a ocupar espaços pequenos e ser discreta, conseguia levar sem envolver-se nas contendas do dia a dia e sem participar das fofocas. Era considerada orgulhosa e ‘metida’ pelas outras colegas, mas Karen não se importava, mesmo sabendo que falavam dela pelas costas. Mas todos os dias, após o expediente, ela sentia como se um enorme peso estivesse sobre seus ombros, e chegava em casa sentindo-se fraca, cansada e com dor de cabeça. 

Tinha apenas quinze dias para deixar o apartamento, e começou a procurar outro lugar para ficar, mas todos os aluguéis de apartamentos como o dela custavam o dobro, e ela descobriu que o seu não era tão caro porque o contrato era antigo. Karen não tinha condições de alugar outro conjugado como aquele, e então ela começou a visitar lugares bem piores em bairros bem mais pobres e distantes. Achou algumas vagas em pensão, mas os quartos eram divididos com outras pessoas, o que a desagradou. Desanimada e com muito medo, Karen passava as noites em claro, olhando para as paredes conhecidas de seu velho abrigo, sabendo que em breve não teria mais sua privacidade. 

Certa noite, ela abriu o laptop e acessou seu blog. Escreveu uma longa carta, contando toda a sua história, a verdadeira história. Falou de sua orfandade, de sua vida solitária, do escritório de onde tinha sido demitida, da sua situação atual e do medo constante que sentia. Karen tinha um pseudônimo: Lana. Era através dele que ela publicava seus poemas sem precisar identificar-se. 

Após escrever sua história, Karen ficou olhando para a tela do computador durante um longo tempo, antes de pressionar o botão de ‘enviar.’ Não sabia o que aquele desabafo poderia lhe trazer, a não ser, quem sabe, a solidariedade de estranhos, mas precisava desabafar de alguma forma. Mesmo que depois daquilo ela se atirasse da janela do apartamento – possibilidade que desenhava-se cada vez mais real em sua cabeça, e que a perseguia durante a noite toda. Às vezes, Karen tinha tanta certeza de que se jogaria da janela na véspera do dia que teria que mudar-se do apartamento, que até olhava para baixo e imaginava onde cairia. Seria de madrugada, pois durante o dia, havia muitas pessoas passando sob a sua janela, e ela não desejava ferir ninguém. Seu corpo seria encontrado por algum bêbado de passagem, e ele vasculharia seus bolsos antes de chamar alguém para removê-la. Depois, ela seria sepultada como indigente, e ninguém ficaria sabendo, ou se soubessem, ninguém se importaria. Talvez suas ex-colegas de escritório lamentassem durante alguns segundos, mas logo voltariam ao trabalho. Na lanchonete, as pessoas dariam risadas daquilo. Talvez a chamassem de covarde e dissessem que sempre souberam que ela era esquisita. 

E o que aconteceria com seu blog? Poderia ficar no ar durante mais alguns anos. As pessoas o acessariam, leriam seus poemas e no final, a sua história. Poderia escrever uma carta de despedida ao mundo antes de jogar-se, e seus poucos leitores saberiam quem ela realmente fora e o que acontecera com ela. Mas um dia, o provedor apagaria todos os seus escritos, e também, qualquer memória que restasse de sua vida. 

Estava decidido: Karen começaria a escrever sua carta de despedida na manhã seguinte. 

Ela apertou o botão e publicou sua história – ainda usando o pseudônimo de Lana -  e para sua surpresa, viu que o número de acessos crescia a cada hora durante aquela noite. A maioria das pessoas deixavam mensagens de estímulo para Karen, ou seja, para Lana, dizendo a ela que não desistisse, pois “Deus estava guardando para ela algo maravilhoso.” Ela ia lendo as mensagens, e sentindo o vazio daquelas palavras, que não a consolavam nem a ajudavam a resolver seus problemas. Algumas pessoas a xingavam, outras riam dela e de sua situação, chamando-a de ridícula. Um homem não identificado ofereceu-lhe dinheiro para passar a noite com ele. Ao final da madrugada, sua postagem tinha mais de quinhentos acessos – metade do número de acessos que todas as suas postagens juntas jamais tiveram. 

E Karen continuou sentindo-se tão vazia quanto antes. 

Na manhã seguinte, não foi procurar emprego; começou a escrever sua carta de suicídio, que publicaria dali a treze dias. 


(continua...)

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sábado, 19 de novembro de 2016

MINHA VIDA, SUA VIDA - CAPÍTULO II







MINHA VIDA, SUA VIDA

CAPÍTULO II

Naquela noite, não conseguiu dormir. Jamais tivera problemas de insônia antes, mas a preocupação com o futuro a fazia fitar o teto, onde desenhava, com a imaginação, cenas horríveis: não conseguiria trabalho, e logo seu dinheiro acabaria; talvez a encontrassem morta em um beco da cidade, indigente, após ser despejada do apartamento. 

Levantou-se da cama, e começou a andar no escuro. Chegou à janela, e viu lá embaixo um grupo de jovens que passava, rindo e dançando pela rua, ora abraçados uns aos outros, ora separados. Sentiu-se extremamente só, pois não tinha ninguém na vida a quem pudesse abraçar, ou com quem pudesse contar. As freiras na escola sempre diziam a ela que formar laços era necessário, mas Karen não sabia como fazê-lo, simplesmente não sabia. Não era uma habilidade natural, e no orfanato, quando tentava conversar com as outras crianças, elas a achavam estranha, afastando-se dela. 

E a vida toda tinha sido assim: quando alguém se aproximava dela, Karen ficava tão tensa, que se fechava em uma concha, produzindo o efeito contrário ao que desejava! Temia que descobrissem que ela não tinha família, e que sentissem pena dela por causa daquilo. Não queria que a vissem como alguém fraco e solitário – pois era exatamente assim que ela se sentia. Assim, a moça  inteligente e bonita, que gostava de poesia e literatura, culta e de uma sensibilidade à flor da pele, ficava escondida sob uma capa protetora de frieza e medo. Ela queria ser diferente, mas simplesmente não podia. Não sabia como. 

Certa vez, pensou em reinventar seu passado; criaria uma família que talvez morasse em uma cidade ou país afastado. Mas Karen tinha um defeito grave: não sabia mentir. Não podia. Talvez fosse fruto da educação religiosa que recebera, mesmo que tivesse deixado a religião de lado depois que saiu do orfanato. 
Ela abriu seu armário, e olhou suas roupas: tinha bem poucas. A maioria, nas cores preto e bege. Eram roupas clássicas – algumas até bem caras, pois Karen gostava de coisas de boa qualidade; assim, não precisava comprar sempre, e economizava dinheiro. Os sapatos – cinco pares -  eram todos pretos ou marrons, de saltos médios e confortáveis. Possuía apenas um par de sandálias de tiras grossas e saltos baixos, quase sem uso. Ela pensou nas roupas das ex-colegas de trabalho, esvoaçantes, coloridas, decotadas. Sempre na última moda. Teria sido por causa de suas roupas que o chefe a escolhera para ser demitida? Porque ela sabia-se mais competente que todas as outras meninas do escritório. E também bem mais responsável. Em dez anos, jamais se atrasara ou faltara. Sempre concordava em ficar após o expediente, e tirava apenas trinta minutos para o almoço. Era rápida, eficiente e eficaz, conseguindo sempre prever os problemas antes que acontecessem, evitando-os. Nas reuniões, era o contrário do que era na vida pessoal: de fala fluida, sempre tinha boas ideias. Por que logo ela?
Só podiam ser as roupas, e seu jeito arredio. Ela precisava mudar, se quisesse conseguir outro emprego. 

Mas precisava economizar. Não sabia quanto tempo aquela fase demoraria, e poderia demorar bastante. Não podia dar-se ao luxo de comprar roupas novas, ou cortar o cabelo – tão longo, que já chegava à cintura em uma cascata vermelha e maleável que ela mantinha sempre presa. Tinha suas economias, pois nunca fora de gastar muito, mas sabia que elas poderiam acabar logo se ela saísse por aí gastando.

Olhou para as unhas brancas e sem cor; as moças do escritório sempre pintavam as unhas e usavam maquiagem. Ela usava apenas um batom suave, apenas para evitar o ressecamento dos lábios. Ao olhar-se detalhadamente no espelho, comparando-se com as outras moças que conhecia, Karen chegou a uma triste conclusão: jamais conseguiria outro trabalho. Sentou-se na cama, sentindo-se frustrada, e chorou. 

E o que as meninas do escritório diziam sobre Karen, que ela não sabia? Achavam-na competente, fria, calculista e distante. Tinham medo dela. Também a admiravam e a achavam muito bonita, e se quisesse, poderia ser bastante sedutora. Karen era motivo de muita especulação durante as conversas após o expediente, quando as garotas saíam juntas. Será que ela era de uma família rica – baseavam-se nas roupas discretas e caras de Karen – ou então estrangeira? Mas às vezes, elas pensavam que Karen pudesse ter vindo de um reformatório ou tivesse um passado obscuro; daí a sua relutância em falar sobre si mesma. Algumas garotas achavam-na simplesmente “metida” e não gostavam dela: Será que pensava que tinha um rei na barriga, e que era melhor do que todos?  

A única pessoa que realmente sabia de suas origens era seu chefe, que dera-lhe o emprego, mas ele era discreto e respeitava o desejo de Karen de manter segredo sobre si. Mesmo assim, não conseguia gostar de Karen, embora seu trabalho fosse de boa qualidade. Achava a moça esquisita. Não havia um motivo real que a desabonasse, e por causa disso, e também por pena, ele não a mandava embora. Mas quando chegou a hora de escolher alguém para demitir, o nome dela foi o primeiro que lhe veio à cabeça. Achava que a ausência de Karen poderia deixar o ambiente mais leve. Detestou-se por isso, mas era a verdade.

Karen olhou em volta, para o pequeno apartamento conjugado que ela alugava desde que deixara o orfanato, há dez anos: havia apenas um armário, uma mesa com uma cadeira, uma poltrona, uma mesinha com uma TV antiga, uma cama coberta por um cobertor marrom, geladeira e fogão. Eram suas únicas peças de mobília. O chão era acarpetado de cinza, e as paredes, pintadas na cor gelo. Nas duas janelas, cortinas cinzentas, desbotadas pelo sol. Não havia vida ali. Nenhum vaso de flor, nenhuma toalha ou colcha colorida. Karen também não tinha telefone fixo ou móvel, pela absoluta desnecessidade destes. 

Faltavam-lhe sonhos e objetivos. Karen percebeu que ela vinha levando uma vida sem o menor sentido, como se ela estivesse fadada a não ficar muito tempo – e por isso, não valesse a pena dedicar-se a viver. Mas não tinha aprendido a viver de outra forma; no orfanato, eram tantas crianças, que as freiras nem se lembravam de todos os nomes sempre. Algumas referiam-se a ela como “A Ruivinha.” Quando ela abria os olhos durante a noite, na penumbra ela vislumbrava as fileiras de caminhas iguais, e sequer especulava se a vida poderia ser de outra forma. Algumas meninas queriam ser adotadas, mas para ela, era indiferente permanecer ali ou não. Iria para onde a mandassem, faria o que quisessem que ela fizesse. 

E agora, tinham-na tirado da única vida e da rotina que ela conhecia. Karen tinha diante de si uma estrada longa, sem paisagens, sem destino definido. Não sabia o que fazer com ela. 

Ficou trancada no apartamento durante uma semana; assistia TV, sem prestar muita atenção à tela; andava pelo apartamento, de uma parede à outra; olhava pela janela, via o dia começar e terminar, deitava-se na cama e olhava o teto durante longas horas. Às vezes, ia até o armário e pegava alguma coisa para comer, que engolia com a água da torneira. Até que o armário ficou totalmente vazio, e ela teve que sair para fazer compras. Vestiu uma calça de sarja antiga e as sandálias de salto baixo, enfiou a blusa do pijama para dentro da calça, colocou um casaco preto por cima e foi ao mercado. Mas, no meio do caminho, ela acabou seguindo o único itinerário que conhecia bem, e que seguira durante os dez últimos anos: tomou o trem e foi até o escritório. 

Passava das dez da manhã, e todos estavam sentados às suas mesas trabalhando, e quando ela entrou, as cabeças se ergueram, os óculos foram baixados e os pescoços viraram-se na direção dela. Ela passou por todos, balbuciando um ‘bom dia’ entre os dentes, e parou diante da porta do chefe, hesitando por um momento antes de bater e entrar. Ele estava sentado à sua mesa, e demonstrou surpresa ao vê-la. Ela ficou parada, olhando para ele até que ele fizesse sinal para que ela se sentasse. 

-Posso ajuda-la em alguma coisa, Karen?

-Sim. Quero meu emprego de volta.

Ele ficou em silêncio, tentando encontrar as palavras certas para dizer, e antes que as encontrasse, ela explodiu em lágrimas:

-Não sei fazer mais nada, a não ser trabalhar aqui. Não tenho família ou amigos, e não sei a quem recorrer. O fato é que eu preciso deste emprego, ou vou morrer de fome, porque não sei como arranjar outra coisa. Por favor, me deixe voltar.

O chefe pigarreou, e levantou-se da mesa para servir a ambos um copo d’água. Karen tonou alguns goles, e ele esperou que ela se acalmasse antes de dizer:

-Sinto muito, Karen, mas você sabe que isso não depende só de mim. É como eu lhe disse antes, estamos passando por uma crise séria aqui na empresa. Depois de você, tive que demitir mais duas pessoas. Não posso aceita-la de volta. Mas... você deve ler os jornais para achar outro emprego. Tenho certeza de que com a sua experiência, e minha carta de recomendação, você encontrará algo. Você é competente, é jovem... e é uma moça muito bonita.

Ela ergueu a cabeça, olhando-o nos olhos: nem mesmo os homens com quem ela fora para cama tinham dito que ela era bonita. No máximo, chamaram-na de coisas como ‘gatinha,’ ‘boneca’ ou ‘gostosa.’ Ela riu, tristemente, balançando a cabeça em negativa:

-Não sou não...

-É sim, Karen. Só precisa de... se me permite... você precisa de um banho de loja, cabeleireiro, salão de beleza... parece que você não sabe se arrumar muito bem. E também precisa abrir-se mais para as pessoas, tentar fazer alguns amigos, participar das atividades e... me desculpe dizer estas coisas, mas é a verdade, Karen. As pessoas daqui não a conhecem realmente. Nem mesmo eu cheguei a conhece-la nestes dez anos. E tenho a impressão de que você tenta esconder seu passado como se tivesse alguma coisa do que se envergonhar. Você não precisa ter vergonha de nada. 

De repente, pareceu a ele que a olhava de verdade pela primeira vez, e sentiu muita pena dela, misturada a uma estranha ternura. Como se Karen fosse uma de suas filhas. Enquanto isso, a paixonite que ela sentia por ele aumentou, chegando ao seu ápice. Ela se levantou da cadeira, caminhando até ele, que estava sentado na beirada da mesa, falando com ela. Quando ele percebeu as intenções de Karen, já era tarde demais: ela o abraçou e beijou na boca, com paixão e sofreguidão. Ele a afastou com carinho, ficando muito vermelho:

-Não confunda as coisas, Karen! Sou casado e muito feliz. 

-Mas você me disse que eu era bonita, e inteligente... pensei que...

-E é, Karen. Você é; mas precisa conscientizar-se disso. Quando chegar em casa, olhe-se no espelho. Veja-se como realmente é, veja-se como eu a enxergo, como as pessoas a enxergam, e não se deixe enganar pela opinião errônea que tem de si mesma. Depois, pegue uma pequena parte do dinheiro que recebeu e vá às compras. Aproveite e passe em um salão de beleza conceituado – há um muito bom dentro do shopping que fica há alguns metros daqui, é onde as meninas do escritório frequentam. Aprenda a amar a si mesma. E então as pessoas vão amar você como você merece. 


Dizendo aquilo, ele afastou uma mecha de cabelos ruivos da testa dela, em atitude paternal. 

-Se precisar de ajuda em seu novo emprego – que eu tenho certeza que vai conseguir dentro em breve – é só me ligar, e verei em que posso ajuda-la. Agora vá. Tenho que trabalhar agora. 

Ela virou as costas e saiu, ajeitando a bolsa nos ombros. Passou pelos colegas, que conversavam baixinho e se calaram ao vê-la abrir a porta, e não se despediu de nenhum deles. Escutou as vozes aumentando assim que ela chegou ao corredor do prédio, e soube que seria o assunto da semana. Tomou o trem de volta ao seu bairro, olhando aquela paisagem tão conhecida pela última vez. Durante a viagem, pensou em tudo o que tinha escutado, analisando cada palavra. 

Entrou no mercado e foi jogando coisas aleatoriamente no carrinho, pensando no  que o chefe tinha dito a ela. Em casa, desempacotou tudo e preparou um almoço decente para si mesma, o primeiro em uma semana. Após comer, tomou uma chuveirada longa e bem quente, relaxando o corpo, e pensando ainda mais em tudo o que ouvira; em seguida,  vestindo seu melhor terninho bege, tomou o trem novamente  e foi ao shopping que seu ex-chefe lhe indicara . 

Ela passou por várias lojas, olhando as vitrines, sem saber o que comprar. Viu um anúncio de emprego para vendedora em uma delas, e entrou, o coração aos pulos, dizendo estar interessada na vaga; mas como não tinha experiência em vendas, foi negada. Foi até a praça de alimentação lotada e sentou-se em uma das mesinhas, com um grande copo de chá gelado diante de si. Via as pessoas que conversavam nas outras mesas, as moças elegantes que passavam por ela, os casais felizes e apaixonados, as mães com suas crianças. Ela não fazia parte de nada daquilo, mas como gostaria de fazer!

Foi quando uma estranha onda de entusiasmo tomou conta dela, e Karen decidiu-se: “A partir de hoje, minha vida vai mudar. Eu vou fazer parte da vida, vou começar a tomar minhas decisões, descobrindo o que eu realmente quero. Vou seguir os conselhos do meu ex-chefe.”

Levantou-se, e entrou em uma das lojas, as mãos frias e suadas, e dirigiu-se à vendedora:

-Preciso de roupas novas, mas não tenho a menor ideia do que comprar. 

A vendedora – uma jovem bonita e muito bem vestida, olhou-a da cabeça aos pés, e sorriu:

-Sou Bia. Você é?...

-Karen.

-OK, Karen. Vou ajudá-la a encontrar peças maravilhosas e adequadas a você, e não vai ser nada difícil: você tem um corpo ótimo!

E Bia fez com que ela experimentasse vários vestidos, blusas, calças e sapatos. Ajudou-a a escolher os melhores. Karen pagou por tudo com dinheiro, o que deixou a vendedora muito feliz. 

Em seguida, entrou em um salão de beleza, que era um ambiente completamente novo para ela. Ficou lá olhando as mulheres com coisas estranhas nos cabelos, e achou tudo muito engraçado. Olhou os homens de gestos afetados, escutando suas gargalhadas, e sentiu-se muito deslocada entre as pessoas daquele mundo estilizado. Quando ia virar as costas e sair, um deles aproximou-se, barrando-lhe o caminho: 

-Posso ajudar, querida?

Karen estancou o passo um segundo antes de pisar nos pés dele:

-Hã... é que eu... me disseram para vir aqui...

Ele a olhava, as sobrancelhas desenhadas arqueando-se a cada palavra dita por 
Karen, concordando com a cabeça como se a compreendesse. 

-E quem foi que indicou, posso saber?

-Hã... uma amiga do escritório. (Dizendo aquilo, ela citou o nome de uma delas).

Ele pensou por um instante, e gargalhou:

-Claro, claro! A Nana! É minha cliente há muito tempo. Seja bem-vinda...

-Karen.

_Seja bem-vinda, Karen. Meu nome é Michel. O que posso fazer por você?

-Me transformar em outra pessoa!

Ele piscou um olho, dizendo:

-Isso eu não posso fazer; mas posso transformá-la em você mesma!

E Karen entregou-se nas mãos de Michel, que fez nela uma transformação completa, além de dar-lhe dicas de maquiagem para o dia a dia. Quando ele finalmente terminou, e Karen olhou-se no espelho, ela não reconheceu a pessoa que a olhava de volta: parecia uma modelo famosa, das revistas que ela de vez em quando folheara em consultórios médicos. Seus cabelos ruivos tinham sido aparados, e Michel cortara a parte da frente um palmo abaixo dos ombros, deixando a parte de trás mais longa, e os fios criaram ondas naturais, ganhando mais volume e leveza; as sobrancelhas delineadas e arqueadas deram mais personalidade ao seu rosto, e o batom vermelho combinou perfeitamente com a cor dos cabelos dela, agora brilhantes e um pouco mais escuros, o tom ruivo realçado em mechas mais claras. As unhas tinham sido feitas e pintadas de vinho, recebendo cor pela primeira vez na vida. A maquiagem dos olhos consistia apenas de uma sombra bege com brilho perolado, rímel (que fez com se seus cílios já longos ganhassem volume) e um delineador leve. 

Karen ficou mirando-se no espelho, e lágrimas brotaram dos seus olhos. Michel sorriu, segurando-lhe a mão, e lágrimas brotaram dos olhos dele também. As outras clientes do salão observavam os dois, e de repente, uma delas começou a aplaudir, e todos – clientes e funcionários – a  acompanharam. 
Karen abraçou Michel, que desfilou com ela pelo salão, orgulhando-se de sua obra prima. 

Quando Karen deixou o salão, já anoitecia. Ela caminhava pela calçada, sentindo os olhares admirados que as pessoas dirigiam a ela. Pela primeira vez na vida, Karen sentiu-se importante, e começou a gostar daquela sensação. Uma simples mudança de aparência, um cuidado especial e mais dedicado a si mesma, e tinha a impressão de que as portas começavam a abrir-se para ela. 

Antes de entrar no prédio onde vivia, comprou um exemplar de classificados e depois foi para seu apartamento, passando pelo porteiro que a olhou, estarrecido. 

(continua...)




quarta-feira, 16 de novembro de 2016

MINHA VIDA, SUA VIDA - PARTE I






Pelas janelas do trem, Karen via passar a manhã fria e chuvosa em manchas borradas. As vidraças gotejadas pela chuva pareciam chorar. Dentro do trem, pessoas liam jornais, ouviam música ou mantinham os rostos presos nas telas dos celulares – tudo para poderem evitar o constrangimento de encarar uns aos outros. Alguns daqueles rostos eram velhos conhecidos – embora jamais se cumprimentassem. Karen os encontrava todas as manhãs, estivessem elas ensolaradas ou chuvosas como aquela, mas mesmo assim, os rostos não ofereciam qualquer conforto de familiaridade ou qualquer sorriso acolhedor de boas-vindas. 

Estava acostumada a pegar aquele mesmo trem todas as manhãs. Exceto aos sábados e domingos. E sempre ficava com o rosto fixo na paisagem de sempre, e sempre descobrindo coisas novas: a roseira daquela casinha à beira da linha do trem florira. Havia um pobre cão morto na beirada da calçada. Algumas crianças ficavam acenando para o trem, e ela era sempre a única a responder, acenando de volta para elas. Uma árvore tinha sido derrubada, e estavam construindo um novo prédio em seu lugar.  Hoje estava chovendo, mas ontem estava sol, e as cores e nuances eram diferentes. 

Karen era observadora. Gostava de ler e escrever poemas, que publicava em um blog pouco acessado. Ela não tinha amigos – virtuais ou reais. Conversava apenas com seus colegas de trabalho na empresa, e somente assuntos de trabalho, e eles não a incluíam nas saídas às sextas-feiras, não a convidavam para suas casas e seus aniversários, pois Karen era considerada estranha, esquisita. 

Achavam difícil relacionar-se com ela, pois ela era sempre arredia e monossilábica, evitando dar informações sobre sua vida pessoal. Ninguém sabia se ela tinha um namorado, se tinha família, ou quem eram seus amigos. Ela desviava habilmente de tais perguntas, até que as pessoas desistiam de perguntar ou de se aproximar dela. Na verdade, ela não queria que ninguém soubesse o quanto sua vida era sem-graça, previsível.

Escutava as colegas conversando sobre o final de semana e as viagens, os namorados e as reuniões de família. Ela não tinha família. Tinha sido criada em um orfanato, e nunca soubera quem eram seus pais. Quando saiu de lá, arranjaram para ela um emprego servindo café na empresa onde trabalhava até hoje, e ela nunca pensou em procurar por outro, apesar de não gostar do que fazia. Karen ia vivendo a vida dia a dia, sem grandes expectativas, mas dentro dela havia um sonho, um ímpeto de que um dia, alguma coisa diferente apareceria em sua vida para revelar o quanto ela era especial. Mas aos 28 anos, estava ficando cada vez mais difícil acreditar naquele sonho.

Ela não era uma pessoa triste. Conseguia sorrir com simpatia para todo mundo, só não gostava de manter conversas por muito tempo, pois logo começavam as perguntas. Ela tinha vergonha de ter sido rejeitada pelos pais, e por não saber quem eles eram. Não gostaria que as pessoas pensassem que ela não era ninguém. Karen era bonita. Não era nenhuma moça de almanaque, mas tinha uma beleza que ela fazia questão de esconder por trás dos óculos  de leitura de aros grossos e pretos dos quais ela nem necessitava tanto assim, e do rabo de cavalo sem graça que sempre domava as ondas sedosas de seu lindo cabelo ruivo. A pele era clara e delicada, e as mãos tinham dedos longos, brancos e finos, terminando em unhas rosadas e ovaladas que ela jamais pintava. Ela era alta, magra e tinha pálidos olhos azuis. A boca pequena e desenhada, em forma de cereja, atraía os olhares dos rapazes – que ela repelia sempre.

Seu nome – Karen, com ‘k’ – estava bordado na gola do casaquinho branco de lã que ela usava quando as freiras a encontraram, e por isso, decidiram batizá-la com ele. Karen cresceu no orfanato, e por isso, nunca sentiu falta de ter um pai e uma mãe. Seus pais, sua família, eram as freiras e as outras crianças. Já crescida, não queria ser adotada, e quando a escolhiam, levando-a para o final de semana, ela aprontava tanto na casa dos possíveis pais adotivos, que eles a devolviam na segunda-feira. Quando bebê, tinha sofrido de bronquite, e por isso, não quiseram adotá-la. Era muito branquinha. Diziam as freiras que parecia que ela não iria vingar. Somente aos cinco anos um longo tratamento médico fez o efeito desejado, e ela conseguiu curar-se. 

Aos dezoito anos, a Madre Superiora a chamou, dizendo que ela teria que deixar o orfanato, ou poderia escolher ficar morando e trabalhando ali, ajudando a tomar conta das crianças. Karen achou que já era hora de ir embora e tentar uma vida diferente. Eles arranjaram para ela um emprego e um quarto de pensão para morar, e com o tempo, ela fez um curso de secretária executiva e também aprendeu inglês, e teve uma promoção, podendo alugar um pequeno apartamento. 

Karen tivera alguns namorados, mas nada sério. Perdera a virgindade apenas por conveniência, sem amor e sem prazer. Nunca mais viu o seu primeiro homem após aquela única noite em que se conheceram no supermercado, entre as prateleiras. Ele disse que se chamava Márcio, e que a achava uma moça muito bonita. Ela sorriu, dizendo chamar-se Karen. Ele perguntou onde ela morava, e ela respondeu que morava logo ali pertinho, e sem pensar nas consequências ou no perigo, convidou-o para um café. 

Quando ele percebeu que ela ainda era virgem, ainda parou e perguntou se deveria ir adiante, e ela assentiu com a cabeça. 
Depois dele ainda houveram outros que não duraram, e finalmente, um que durou alguns meses, mas ela acabou descobrindo que ele era casado, e mandou-o embora. As freiras lhe disseram que adultério era um pecado mortal. Apesar de todos os pecados mortais que cometera com outros, nunca ficara sabendo que um deles fosse casado até então. 

Jamais se apaixonara, ou sentira prazer sexual. Só conseguia quando estava sozinha, durante o banho ou pouco antes de dormir. Sua imaginação a guiava, e ela se imaginava com o chefe, um cinquentão bonito, ou com Marlon, um rapaz do escritório que namorava uma de suas colegas. Não era de pensar em atores de cinema ou de novelas, nem em cantores. Sonhar alto não era para ela.

O trem chegou à estação de Karen, e ela seguiu os outros passageiros para fora do vagão, caminhando automaticamente para a saída da estação junto com eles. Na calçada, os destinos se dividiram, e ela foi para o seu lado. 

Trabalhou a manhã toda, como sempre, concentrando-se no que estava fazendo e tentando obter bons resultados. No final da tarde, seu chefe cinquentão mandou chama-la, e ela foi até a sala dele, os joelhos bambeando, pensando nas fantasias que tivera com ele em suas noites solitárias. Será que ele tinha percebido alguma coisa? Seria possível que suas fantasias sexuais tivessem escapado através de seus olhares, e o chefe tivesse percebido? 

Ela bateu, e ele mandou que ela entrasse e se sentasse. 

Ele estava ao telefone, e ela teve que esperar ele terminar a ligação. Instintivamente, ela ajeitou o rabo de cavalo, escolhendo uma posição mais adequada – cruzou as pernas e tentou relaxar na cadeira, mas estava tensa. Ele a olhava enquanto falava ao telefone, como se a estivesse enxergando pela primeira vez, apesar dos mais de dez anos em que ela trabalhava ali. Finalmente, ele terminou a ligação.

Perguntou se ela queria um café, ela disse que não, e prontamente serviu a ele uma xícara do café de garrafa térmica. Ele bebeu tudo de um só gole, e olhou de novo para Karen; pensou no quanto ela era uma moça bonita. Bonita e misteriosa. Uma secretária competente. Porém, ele precisara fazer uma escolha, e tinha decidido por ela. A firma estava em dificuldades devido à crise financeira mundial. Ele não gostava nada do que estava para fazer, mas era parte do seu trabalho contratar e demitir funcionários. Do outro lado da mesa, a moça sorria para ele, sem saber de nada sobre o que estava para ouvir:
Ele pigarreou, corando um pouco, e ela baixou os olhos, corando muito. Finalmente, ele disse:

-Karen, você já está conosco há dez anos. Chegou como a moça do café, e hoje é uma competente secretária. Mas como você está a par, a firma está passando por algumas mudanças, pois temos que nos readaptar à crise financeira. Detesto dizer isso, mas a partir de hoje, teremos que demiti-la.

Ela abriu a boca, mas não conseguiu emitir nenhum som. O chefe deu um suspiro de alívio por ter conseguido dizer o que era preciso, e recostou-se na cadeira confortável, as mãos cruzadas em frente a ela, brincando com os polegares. 

Engoliu em seco, afrouxou a gravata. Ela balbuciou:

-Eu... quer dizer que eu estou sendo demitida?

-Sim, infelizmente, Karen. Mas tenho uma excelente carta de recomendação para você, que eu mesmo escrevi de meu próprio punho (empurrou na direção dela um envelope lacrado que estava sobre a mesa) e com certeza, incluiremos um salário extra em suas contas, além das indenizações de praxe. Você tem um bom dinheiro a receber, ficará bem por um bom tempo até encontrar um novo emprego, o que tenho certeza, com sua competência, não vai demorar muito. 

Karen sentiu sua visão ficando turva: aquele era seu primeiro e único emprego, e alguém o encontrara para ela. Não tinha ideia do que faria ao sair daquela sala, como procuraria outra colocação, como se apresentaria em uma entrevista de emprego. Era sozinha no mundo, pagava aluguel e não tinha ajuda de ninguém. De repente, a sala começou a girar em volta dela, e ela viu quando o rosto do chefe, de testa franzida, aproximou-se do dela, e então tudo escureceu.
Quando despertou, estava deitada na enfermaria. Um cheiro forte de éter a fez abrir os olhos, afastando o rosto. Sônia, a enfermeira, a olhava com preocupação e pena ao mesmo tempo:

-Você está bem, Karen? Teve um desmaio.

Ela esfregou os olhos, sentando-se na maca:

-Sim, eu estou bem. É que eu... acabo de ser demitida. E não tenho a menor ideia do que vou fazer para conseguir outro emprego. 

Sônia concordou com a cabeça, acariciando-a nos ombros:

-Sinto muitíssimo, Karen! Gostaria que soubesse que, caso precise de alguma coisa, pode contar comigo. 

Karen a encarou, tentando imaginar o que alguém como Sônia poderia fazer por ela: era divorciada, tinha três filhos pequenos, vivia com muitas dificuldades. Mesmo assim, tentou sorrir e agradeceu, deixando a sala.

 Passou pelo escritório sem olhar para ninguém, mas sentindo todos os olhos pregados em suas costas, e também o peso do silêncio que acompanhou sua saída. Ela não se despediu de ninguém, nem ninguém tentou despedir-se dela; não porque não sentissem muito por ela, mas porque temiam sua reação. Apesar de dez anos trabalhando no escritório, Karen era uma incógnita para todos, e qualquer tentativa de aproximação tinha sempre sido repelida com polida frieza. 
Não houve necessidade de esvaziar sua escrivaninha, e ela deixou a caixa de papelão vazia sobre ela. Não havia fotos ou objetos pessoais que ela quisesse carregar. Sua escrivaninha tinha apenas coisas do escritório: lápis, canetas, borrachas, papel de impressora, relatórios. Tudo pertencia ao escritório. 

Na rua, enquanto caminhava de volta ao seu pequeno apartamento Karen percebeu que sua história naquele escritório nem sequer tinha sido escrita. Não deixava nem levava saudades. Não fizera amigos. Não tinha sido nunca a funcionária do mês (ela não sabia, mas o chefe acreditava que ela não gostaria de tanta atenção). Tinha convivido entre aquelas pessoas como se fosse um fantasma. 

Pensando bem, nem sequer sentiria falta daquele lugar.
Faltavam-lhe laços. Karen não tinha laços com nada, com ninguém. Era uma alma solta no céu do mundo, uma criatura volátil, pairando sobre as coisas sem jamais encontrar um lugar onde desejasse pousar. 

Começou a chover, uma chuva rápida e alegre de primavera, que logo passou e deixou algumas poças no chão, cheias de pedaços céu azul. Karen caminhava afundando os saltos dos sapatos nelas, displicentemente, espirrando água em si mesma e nas pessoas que passavam por ela. 

(continua...)



quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Um Velho Casal







Enquanto ela ainda dormia, ele saiu de casa e foi até o armazém local para buscar pão e leite. Manhã de sábado, a rua cheia. Era um daqueles dias luminosos, nos quais todos que andam pela calçada estão imersos em uma luz azul-rosada, acentuada pela fina poeira erguida pelo vento, que perpassa a todos como se fossem almas sem corpos.

O burburinho das calçadas, o pregão dos vendedores de rua, as buzinas dos carros, jovens que passavam por ele de cabeças baixas, fones enfiados nos ouvidos sem se darem conta de que a vida estava passando, e que logo todos eles seriam como ele: tudo exultava em vida. Até mesmo as flores secas em uma lata de lixo pareciam dizer-lhe alguma coisa, e eram bem diretas.

Ele chegou em casa, colocando as compras sobre a mesa da cozinha. Ela ainda dormia. Ele começou a preparar o café, e colocou as xícaras e talheres sobre a mesa. Pensava em tudo que contaria a ela sobre o que vira na rua: os jovens com seus celulares, imersos em realidades irreais; as notícias que lera sobre política nas manchetes dos jornais, mas sem compra-los. A gravidez da moça da mercearia, que de tão redonda, com certeza teria uma menina. 

Imaginava com que tom dramático diria a ela que o ‘seu’ Pedro da padaria estava em uma cadeira de rodas. Ele, que sempre fora tão ativo, tão cheio de vida. Tentou imaginar o olhar combalido dela, quando soubesse da notícia. Com certeza, ela diria: “Coitado... bem, mas não é esse o caminho de todos nós?”

Enquanto a cafeteira cumpria sua obrigação, dando cusparadas de água quente sobre o pó, ele abriu a porta dos fundos e sentou-se sobre o muro baixo da área de serviço, prendendo os olhos na enorme montanha à sua frente. Finalmente, tinha tempo suficiente para contemplá-la. Seus olhos subiam nas encostas escarpadas, brincavam de deslizar sobre a pedra lisa, espantar os pássaros das árvores que ficavam o sopé da montanha, agitar as copas como se fossem o vento. E o verde de suas pupilas misturavam-se ao verde que contemplava, servindo-lhe de espelho. Pensou que quando ela acordasse, poderia convidá-la para sentar-se ali com ele e olhar a montanha, agora rodeada por uma fina camada de neblina branca e dispersa, como se fosse um bolo confeitado de brisa.
O café ficou pronto, e o relógio marcava oito horas. Ele precisava dizer a ela que Dona Margarida mandara-lhe suas lembranças. Entrou, fechando a porta que dava para a área de serviço. 

Abriu a porta do quarto devagar, para não assustá-la, e sentou-se na cama ao lado dela. Beijou-lhe a testa, sentindo-a mais fria do que o normal. Pegou na mão dela, e achou-a demasiadamente rígida. Chamou seu nome baixinho, sem obter qualquer resposta. Apurou os ouvidos, inclinando o rosto em sua direção a fim de ouvir-lhe a respiração. Silêncio apenas.

Ele puxou o ar com toda a força, e baixando os olhos, começou a contar a ela sobre tudo o que tinha visto naquela manhã.





A MÃO E O LAÇO – CAPÍTULO III

Na segunda-feira após a festa, Shirley me contou que tinha transado com Julio atrás do sofá de minha avó. Fiquei chocada, poi...