quarta-feira, 23 de novembro de 2016

MINHA VIDA, SUA VIDA - CAPÍTULO IV






MINHA VIDA, SUA VIDA  CAPÍTULO IV


Karen não sabia que há muitos quilômetros dali, alguém tinha lido seu desabafo muito atentamente; alguém que também já lera todos os seus poemas, e que parecia conhecer sua alma mais até do que ela mesma. Alguém que preferia permanecer em silêncio ao invés de manifestar-se, pois não gostava de chamar atenção sobre si mesma, e também por pensar que poemas eram coisas retiradas do âmago de quem os escrevia, e que um comentário equivocado ou uma interpretação malfeita poderiam ser como balas de canhão no silêncio de uma alma. Karen tinha uma fã que a acompanhava desde sempre. Uma pessoa que era tão sozinha e tão ferida, que preferia não se relacionar mais com ninguém, pois desenvolvera um medo e um tédio enorme de todas as coisas e todas as pessoas – ou quase todas. 

Mafalda vivia em seu próprio mundo, que era a casa onde nascera e crescera. Jamais saía; pelo menos, nos últimos dez anos, desde o sequestro relâmpago que causara a morte de sua irmã gêmea e de seus pais. O mundo – ela pensava - era um lugar violento, movido apenas por dinheiro e interesses, onde as pessoas se perdiam umas das outras, enquanto fingiam relacionar-se e serem felizes. 

A vida dos seus pais tinha sido assim: uma representação, uma peça teatral que enganava a todos que estavam na plateia, mas que feria os atores coadjuvantes, pois estes os amavam. Ela e sua irmã Bella viviam divididas entre os pais imaturos e jovens demais, ricos demais e explosivos demais, que tinham um relacionamento que oscilava entre a paixão doentia, o ciúme, o amor e o ódio. Sua mãe tinha apenas quinze anos quando engravidou delas, e seu pai, dezesseis. Duas crianças que de repente se viram diante da responsabilidade de criarem duas outras crianças. Felizmente, o dinheiro lhes permitira ter muitos substitutos nesta tarefa, babás e cuidadoras que olhavam pelas bebês enquanto os dois viajavam, curtiam a vida e gastavam tudo o que podiam gastar da fortuna que era a mesada que ganhavam dos pais. Os avós – tanto por parte do pai quanto da mãe – assistiam a tudo quase indiferentes, pois tinham eles mesmos seus muitos compromissos, viagens, negócios e interesses pessoais para se importarem demais com os filhos e as pequenas netas. Davam-lhes dinheiro, que é o que tinham bastante, e que jorrava de uma fonte inesgotável, herança de uma família antiga de imigrantes italianos que tinham entre suas atividades, produzir vinhos, construir prédios e fabricar carros de luxo. 

As meninas cresceram entre babás polidas e quase indiferentes, que cuidavam bem delas mas que realmente não se importavam muito com o que elas sentiam. Por isso, Bella e Mafalda eram muito unidas. Sentiam a ausência dos pais, mas eram felizes em seu mundo onde nada mais lhes faltava, e nos poucos momentos em que os pais estavam com elas, elas se divertiam, pois eram como quatro crianças que brincavam juntas. Às vezes, eles as levavam com eles em algumas viagens curtas de final de semana, nas quais se divertiam muito. Mas logo eles partiam em outras longas viagens, e as meninas ficavam entregues às babas, arrumadeiras e motoristas da casa. 

No dia do sequestro relâmpago, Mafalda estava com febre alta devida a uma forte gripe, e não foi jantar fora com os pais e a irmã. Lamentou muito, pois eram tão raras os momentos em que a família estava toda junta, que estar com febre em uma ocasião daquelas era mesmo muito azar. Naquela época, as meninas estavam com 18 anos, e tinham acabado o ensino médio. Bela queria ir para uma faculdade, mas a mãe a desencorajava, dizendo que com todo o dinheiro que tinham, ela jamais precisaria trabalhar, e que deveria aproveitar a vida. Mas Bella, a mais ajuizada das duas, insistia no seu desejo de cursar Artes. 

Naquela noite, Mafalda sentia-se muito mal e ficou na cama, tentando assistir a um filme. Por volta das dez e trinta, a febre começou a estranhamente ceder de repente, e ela sentiu-se bem melhor, indo tomar um banho e livrar-se da camisola suada.  Ainda no chuveiro, ela teve um mal-estar repentino, e quando saiu do banho embrulhada em seu robe felpudo, encontrou uma das empregadas da casa parada no meio do cômodo, as mãos entrelaçadas na frente do corpo e os olhos baixos. Mafalda percebeu que ela andara chorando, e quando perguntou qual era o problema, a moça a olhou e disse:

-Não tenho boas notícias, senhora...

Dali em diante, a vida de Mafalda tornou-se um verdadeiro pesadelo. Mafalda acordava durante a noite com a sensação de que iria morrer, suando frio e quase sem conseguir respirar. Andava pela casa apoiando-se nas paredes, os pés descalços, os cabelos desgrenhados, a mão apertando a garganta em uma angústia interminável. Os quatro avós tinham demonstrado o desejo de que ela fosse morar com eles, mas Mafalda, que mal os conhecia, agradeceu e disse que já tinha idade suficiente para morar sozinha. Eles disseram que ficasse tranquila, pois continuariam pagando a pensão, e nomeariam um tutor de confiança para cuidar de sua parte na herança, o que fizeram prontamente.

Ela não tinha muitas amigas. As poucas amigas que tinha afastaram-se dela, pois eram jovens demais para conviverem com tanta dor. Ainda a visitaram durante algum tempo, mas logo as visitas e telefonemas foram escasseando e Mafalda viu-se sozinha naquela grande mansão. Ela andava pelos cômodos da casa, sentindo falta de Bella. Também sentia falta dos pais, mas as saudades que sentia da irmã, sua única amiga verdadeira,  a torturavam ainda mais. Tinha pesadelos horríveis todas as noites, nos quais ela tentava alcançar Bella em uma rua escura e cheia de curvas, mas a irmã se afastava dela, reaparecendo em outros lugares. Logo, começou a fazer terapia para tentar superar a morte de sua família. Mas os pesadelos não passavam, nem mesmo com os remédios, que eram muitos e muito fortes.

Certa vez, Nono, seu avô por parte de pai, foi visita-la. Ela o recebeu na grande sala de estar, parecendo bastante deslocada ao ficar a sós com ele. Nono olhou para a neta longamente antes de caminhar até ela, e pegando-a pelas mãos, ergueu-a do sofá e abraçou-a com carinho. Mafalda, surpreendida por aquele gesto, começou a chorar. Nono pediu-lhe mais uma vez que se mudasse para a casa dele mas Mafalda negou, dizendo que preferia ficar onde as memórias de sua família estavam. Ele ainda perguntou-lhe se não preferia mudar-se para um apartamento em uma área mais movimentada, já que a mansão era afastada do centro, mas ela insistiu em ficar morando na mansão. Ele se despediu, dizendo que viria visita-la outras vezes. E cumpriu sua promessa. 

Mas um dia, quando Mafalda preparava-se para ir à sua consulta com o terapeuta, ela de repente não conseguiu passar pela porta. Parecia que entre ela e o mundo lá fora havia uma barreira intransponível, e por mais que ela tentasse, a barreira era mais forte, impedindo-a de sair. Sua respiração tornou-se ofegante, e tudo começou a rodar em volta dela. Mafalda caiu, desmaiada, e foi levada para o seu quarto pelo motorista da casa. 
Nono foi notificado, e telefonou-lhe para saber como estava. Mafalda contou a ele com detalhes o que tinha acontecido, e o quanto se sentia sozinha sem a irmã; ele tomou uma decisão.

No dia seguinte, Nono apareceu para visita-la, mas não estava sozinho; junto com ele, havia uma senhora bonita e elegante, aparentando estar na casa dos sessenta anos. Ele apresentou-a como sendo uma amiga sua, que concordara em ficar fazendo-lhe companhia o tempo que fosse necessário. Seu nome era Edith. Mafalda disse que não queria conviver com uma estranha, mas Nono disse-lhe que aquela não era uma escolha, mas uma imposição dele, se ela quisesse continuar recebendo sua mesada. Além disso, ele acrescentou, Edith não era uma estranha: conheciam-se há muitos anos, e como ela também vivesse só, Nono achou que o arranjo seria perfeito. Edith mudou-se para a mansão no dia seguinte.

Não demorou muito para que Mafalda compreendesse a verdadeira relação entre Edith e seu avô Nono. Enquanto elas conversavam, Edith deixava escapar o grau de intimidade entre eles, e falava dele com tanto carinho, que não foi preciso dizer mais nada. Conheciam-se há mais de vinte anos, conforme Edith a esclarecera. Maldosamente, ela perguntou a Edith se ela conhecia também sua avó, mas Edith não perdeu a tranquilidade, respondendo que sim, que ela a conhecia muito bem, e que desde sempre soube do casamento por interesse que ela tinha feito, e que as duas não eram amigas e nem se admiravam mutuamente. 
Apesar de tudo, Mafalda começou a gostar de Edith de verdade. Sentia que ela era uma pessoa carinhosa, sincera e educada, que faria tudo o que pudesse para ajudá-la. Sua avó jamais apareceu para vista-la, e aquela casa passou a ser também a casa de Edith. Às vezes, Nono passava a noite lá, e Mafalda recolhia-se mais cedo naquelas ocasiões, para que os dois ficassem mais à vontade. 

E assim, passaram-se dez anos.

Dr. Rodrigo, o terapeuta, passara a fazer as consultas em casa devido á síndrome do pânico de Mafalda, e cobrava uma pequena fortuna por elas. Edith não gostava dele, mas tratava-o sempre com muita polidez para não desagradar Mafalda. Ela sentia que Dr. Rodrigo não estava ajudando a ‘sua menina’ – como ela passou a chamar Mafalda – pois ela já não saía de casa há dez anos, e os remédios também não ajudavam muito, fazendo com que Mafalda passasse sempre muitas horas dormindo. 

Quando não estava dormindo ou conversando com Edith, Mafalda gostava de surfar na net; e fora lá que, por acaso, ficara conhecendo o blog de Karen – Lana, para ela – apaixonando-se pelos seus poemas. 

Mafalda tinha vinte e oito anos quando leu o desabafo de Karen, e ficou pensando nas estranhas coincidências que as uniam: ambas tinham a mesma idade e não tinham amigos, e eram tímidas. Karen tinha um talento maravilhoso para a escrita, mas não tinha o dinheiro para financiá-lo, enquanto ela adorava ler e tinha tanto dinheiro quanto pudesse ser capaz de gastar. Além disso, elas não tinham família. É claro que Mafalda tinha os avós, mas a não ser por Nono, eles não ligavam para ela. Mafalda pensou que aquele seria o arranjo perfeito: Karen não tinha para onde ir e precisava de um emprego, e ela, mesmo tendo o mundo aos seus pés, não podia ir a lugar nenhum. 


(continua...)





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