quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

MINHA VIDA, SUA VIDA – CAPÍTULO V



Karen tinha recebido a notificação: apenas quinze dias para deixar o apartamento. Sua condição tirava-lhe toda a inspiração para escrever, e ela só conseguia sentir muito medo do futuro que se estendia diante dela. Passava as horas vagas procurando emprego; lia os anúncios nos jornais, mas quando chegava nos locais, apesar de se interessarem pelo seu currículo, ela era sempre barrada dias depois, nas entrevistas. Seu emprego atual na lanchonete, estafante e monótono, não lhe deixava com dinheiro suficiente para arcar com as despesas de sempre. Visitara alguns outros apartamentos em áreas mais pobres do que a sua, mas não conseguia se ver morando naquelas condições: as pessoas eram mal-educadas, olhavam-na com um misto de curiosidade, desprezo e cobiça. 

Havia venda de drogas nas esquinas, e a polícia vivia aparecendo. 
As áreas onde procurou por moradia eram as mesmas que eram retratadas nos jornais da cidade como sendo as mais violentas, e Karen tinha muito medo da violência urbana. Não escrevera a carta de suicídio, afinal, pois sabia que não teria coragem para tal, e também não acessava o blog há vários dias. 
A conta da internet também chegara há alguns dias, mas ela não a pagara, a fim de poupar o que ainda lhe restava de sua indenização. 

Pensando naquilo e no fato de que ela logo teria sua internet cortada, Karen resolveu dar uma olhada no blog. Era uma noite chuvosa de quinta-feira. 

Ficou surpresa ao ver os muitos comentários que recebera desde a última vez, e prestou atenção a um deles em especial:

“Talvez eu possa ajuda-la – se você me ajudar. Cheque sua caixa de mensagens. Mafalda.”

Imediatamente, Karen acessou sua caixa de mensagens, e encontrou o seguinte:

“Olá, Lana. Li seu relato e acho que posso ajuda-la. Talvez eu tenha o emprego que você necessita, e também um lugar para ficar. Meu nome é Mafalda, e sofro de síndrome do pânico, então eu nunca saio de casa, porque eu não consigo. Preciso de alguém que faça as coisas para mim e também – e mais importante – me faça companhia. Moro com a namorada do meu avô, mas ela e eu não temos muito mais o que conversar, então acho que nós teríamos bem mais em comum. Acompanho seu blog há anos, e adoro seus poemas. Creio que você é inteligente e que gosta dos mesmos assuntos que eu. E temos a mesma idade.
Se ainda estiver interessada, por favor, responda meu e-mail.”

Karen sorriu: será que sua sorte estava mudando? Ao mesmo tempo, sabia que talvez fosse reprovada na entrevista, como das outras vezes. Mesmo assim, ela respondeu à mensagem de Mafalda, e mal terminara de enviar sua resposta, 

Mafalda respondeu:

“Aqui está meu endereço. Venha até aqui hoje mesmo, se puder. Aguardo!”
Karen leu a mensagem, e sentiu um pouco de apreensão; afinal, quem era aquela pessoa? Não seria arriscado, confiar em uma perfeita estranha? E quem poderia dizer se não se tratava de um homem, um serial killer, um demente? Ela sentiu um calafrio na espinha. O que faria?

Levou a noite toda para se decidir, e na manhã de sexta-feira, ela se viu em um telefone público ligando para o trabalho e dizendo que estava doente, e que tiraria o dia de folga. Seu chefe não gostou muito, mas engoliu sua desculpa. Então, com o endereço de Mafalda escrito em um pedaço de papel, ela entrou em um táxi. 

Enquanto dirigia e se afastava do centro da cidade, o motorista conduzia Karen por ruas elegantes e silenciosas, ornadas de árvores altas e antigas e casas maravilhosas, com portões de ferro antigos e janelas fechadas, jardins de sonhos onde não se via ninguém, exceto jardineiros trabalhando, e onde pássaros cantavam nas árvores em tão grande quantidade, quanto ela nunca tinha ouvido.

Finalmente, ele parou em frente a um portão alto, de grades de ferro ornamentadas, pintado de verde-escuro, dizendo: “É aqui.”

Karen respirou fundo, e saiu do carro. Enquanto o motorista se afastava, ela ficou ali, parada na calçada, olhando a imponente mansão, sem ter a menor ideia de como faria para chegar até a porta. Parecia-se com as casas dos filmes que ela assistira em suas noites solitárias, e Karen sentiu-se ainda mais apreensiva ao ver câmeras dos dois lados do portão. Aproximou-se, e foi então que viu o interfone. 

Apertou a campainha, e aguardou, sentindo calafrios. 

Uma voz de mulher atendeu:

-Quem é?

Ela ouviu um zunido, e erguendo a cabeça, viu uma das câmeras se mover.

-Meu nome é Karen... sou a Lana. Do blog. Vim pelo emprego.

Ela esperou pelo menos cinco minutos antes que o portão automático fosse aberto. Neste ínterim, as câmeras giravam, focando-se nela. Karen sentiu-se muito exposta, e já ia embora quando escutou o ‘click’ dos portões sendo abertos, e uma voz metálica vindo do interfone: 

-Olá. Sou a Mafalda, Por favor, pode entrar e aguardar à porta. 

Karen foi caminhando devagar pelo caminho de cascalho, ladeado por um gramado tão verde e amplo, interrompido por canteiros circulares de flores multicoloridas, que seus olhos mal avistavam as árvores no final do terreno. Bem ao lado da casa, que era branca e antiga, erguia-se um imenso olmo, e suas folhas jogavam-se sobre o telhado. O céu azul límpido e forte fazia com que ela parecesse estar sendo transportada para um outro mundo, tal a beleza daquele cenário que para ela, era inusitado. Chegou a uma varanda de colunas romanas, onde havia confortáveis sofás e uma cadeira de balanço branca. A varanda, ampla e ornada por vários vasos de plantas, circundava  casa. 

Karen parou diante da porta, e antes que batesse, alguém a abriu. Ela deparou com uma senhora bonita e simpática, que sorriu para ela, enquanto mandando-a entrar:

-Olá! Sou Edith, avó de Mafalda. Seja bem vinda. 

Karen cumprimentou-a com respeito, seguindo-a pela casa adentro, e percebeu logo que o hall de entrada era quase tão grande quanto o apartamento onde ela tinha morado a vida toda. Edith chegou até uma sala menor, e mandou que ela se sentasse em uma das poltronas. Karen na verdade afundou em uma delas, sentindo o quanto seu corpo era abraçado e acolhido pelo conforto do móvel. 

Sorriu de surpresa, e Edith sorriu de volta, dizendo:

-Mafalda estará logo aqui. mas... 

Ela pareceu hesitar por um instante, e disse:

-Devo dizer que não se entusiasme muito... Mafalda é uma jovem muito inteligente, mas também é exigente e imprevisível. Poderá mandar você embora a qualquer momento. Já houve outras moças antes de você, e elas foram demitidas após uma ou duas semanas. Portanto, peço que não alimente muitas esperanças, cara menina. 

Naquele momento, elas ouviram uma voz forte e melodiosa vindo da porta de entrada:

-Pois é verdade, Edith. Mandei-as embora porque eram ignorantes e incapazes de manter uma conversa inteligente por cinco minutos, mas Lana é diferente. Eu já a conheço há muito tempo. 

Karen virou-se na direção de onde a voz chegava, e deparou com uma jovem muito pálida, de pele tão branca quanto uma folha de papel, mas extremamente bela. Ela vestia um kaftan de seda azul escura fina e esvoaçante, que insinuava suas formas e a roupa de baixo,  e sandálias baixas de couro.  Mafalda era alta, esbelta e impressionante. Karen gostou dela imediatamente, e erguendo-se da poltrona, esticou a mão até ela, de uma maneira segura que ela nunca tinha feito antes:

-Olá! Devo dizer que, na verdade, Lana é um pseudônimo. Meu nome verdadeiro é Karen. 

Mafalda segurou a mão dela, apertando-a de leve, e Karen notou o quanto ela era macia. Um perfume suave parecia fazer parte da atmosfera da moça, e ela respirou profundamente, absorvendo-o. de repente, as duas deixaram de sorrir, ao perceberem o quanto eram fisicamente parecidas. É claro que Karen era ruiva, enquanto Mafalda tinha cabelos castanho-escuros; Karen também tinha os cabelos mais longos, enquanto Mafalda os trazia presos em um rabo de cavalo, e quando soltos, seus cabelos não passavam dos ombros. Mas ambas tinham a mesma cor nos olhos, a mesma altura e até o mesmo sorriso. Após o choque, foram trazidas de volta à realidade pela voz impressionada de Edith:

-Nossa... eu não tinha percebido ainda o quanto vocês são fisicamente parecidas. É... simplesmente incrível! Vendo as duas assim, juntas, chego a pensar que poderiam ser da mesma família! 

Mafalda riu:

-Ora, Edith, você precisa deixar de assistir aquelas novelas mexicanas.  (e olhando para Karen) sou Mafalda. Como vai, Karen?

-Vou bem, obrigada. E você?

Ela não respondeu, mas fez sinal para que ela se sentasse novamente, sentando-se também na poltrona em frente a dela. As três mulheres ficaram se olhando em silêncio, quando Mafalda pigarreou, olhando para Edith, que logo disse, levantando-se da poltrona:

-Por falar em novela mexicana, acho que está na hora de começar uma delas. Vou para o meu quarto. Mafalda, querida, quer que eu mande trazer um suco da cozinha?

-Sim, por favor, Edith. Obrigada. 

E Edith afastou-se, deixando-as à sós. Sem saber o que dizer, e sentindo-se completamente dominada pelo olhar inquisidor de Mafalda, Karen observou:

-Sua avó é muito gentil.

Karen respondeu:

-Ela não é minha avó. É amante do meu avô. Mas gosto muito dela, assim mesmo. Vivemos juntas aqui em casa há muitos anos, e é um arranjo perfeito para o Nono – meu avô. Quando quer vê-la, ele diz à minha avó que vem me visitar!

Karen sentiu-se corar pela  maneira direta de Mafalda abordar aquele assunto:

-Mas... e sua avó? O que ela pensa, quando vem aqui e depara com Edith?

-Ela nunca vem. Nunca veio, depois que meus pais e minha irmã Bella morreram, e antes disso, quase nunca vinha.

Karen respirou fundo, olhando em volta. Mafalda não tirava os olhos dela, e aquilo estava começando a incomodá-la. Ficou esperando que Mafalda dissesse alguma coisa. Uma moça entrou, trazendo uma bandeja com sucos e fatias de bolo, e saiu em silêncio. Mafalda pegou um pratinho com bolo, dando-o para 
Karen, e então começou a comer o seu com garfadas grandes demais. Quando terminou, Karen tinha apenas começado. Mafalda percebeu sua falta de educação, e desculpou-se:

-Sorry... estar em casa durante dez anos não fez com que meu traquejo social melhorasse. 

-Você não sai há dez anos?

-Não. 

-E por que?

-Porque eu sofro de síndrome do pânico. Não consigo sair. 

Karen pensou na beleza daquela casa, e também no quanto Mafalda deveria ser rica. No entanto, não aproveitava nada do que tinha: não saía, não viajava, não fazia compras, nem via pessoas. Sentiu pena dela. 

-E o que você sente?

-Bem... agorafobia... medo de sair. Não gosto de multidões, elas me deixam nervosa. E às vezes eu tenho uma sensação de que posso estar morrendo. O coração acelera, fico com falta de ar, sinto dormência no corpo, no rosto.

-E você toma algum medicamento?

-Sim, mas eles nem sempre funcionam o tempo todo. E é aí que você entra: você vai sair por mim. Fazer compras, escolher minhas roupas, lidar com minha conta bancária... a Edith faz isso, mas ela tem um gosto péssimo para roupas, e acho que ela andou retirando mais dinheiro da minha conta do que eu pedi... se é que você me entende. Não que eu me importe, pois dinheiro nunca foi um problema para mim, mas não gosto que traiam a minha confiança. 

-Mas... desculpe perguntar, mas para que você quer dinheiro, se não sai de casa?
Ela riu:

-Tem razão. Mas eu preciso de dinheiro para pagar os entregadores: sabe, eu costumo pedir comida de restaurante, pizza, meus remédios, coisas que compro pela internet. E não tenho cartão de crédito, pois não gosto deles. Mas chega de mim; você terá tempo para me conhecer melhor. Fale-me de você.

Karen baixou os olhos, torcendo os dedos das mãos:

-É tudo o que você leu no blog. Não tenho família, não sei quem foram meus pais. Fui criada em um orfanato, e quando saí de lá, fui direto trabalhar neste escritório de uma firma fabricante de plásticos. Recentemente, eles me demitiram, e então consegui um emprego nesta lanchonete, que me paga muito pouco e me faz trabalhar muito. Isso é tudo.

Mafalda colocou o prato de volta na bandeja, e disse:

-Não, não é. Vinte e oito anos de vida não se resumem a isso, apenas. E seus poemas? Quando começou a escrever?

-Bem, eu... logo depois que saí do orfanato e passei a percorrer os sebos, procurando pelos livros que as freiras confiscavam das meninas... o gosto pela escrita parecia estar em mim desde sempre. Então eu recebi meus primeiros salários, e comprei um computador. Acessei a internet, fiquei sabendo que era possível ter um blog sem que revelássemos nossa identidade verdadeira. 

Karen parou de falar, surpreendendo-se pelo fato de que, pela primeira vez em sua vida, ela estava falando de si mesma, contando um pouco de sua história a alguém que estava realmente interessada em ouvi-la. 

-Você quer mesmo saber? Quero dizer, minha vida não tem nada de especial.

Mafalda assentiu com a cabeça, mexendo-se na poltrona. 
-Acho você brilhante. Quem mais escreveria palavras como as que você colocou neste poema:

SOLIDÃO

“Eu sou daquela rua de casas sem telhas,
Janelas banguelas, vidraças quebradas...
Fantasmas passeiam, se prendem nas teias
Que tecem memórias por entre as fachadas.

Eu vou de casa em casa sem ser acolhida,
Ando contra o vento, perdida de mim...
Eu sou daquela rua onde a vida se cala
À porta da sala de um dia infeliz.

Na poça, o luar em estranho matiz
Projeta suas sombras por sobre a calçada
Por onde eu caminho, na rua deserta...
Sem eira nem beira, mendiga, descalça!

Estrelas de absinto, ah, luzes amargas!
Prenúncio do fim que me aguarda na esquina...
Nem Deus nem demônios trataram-me as chagas,
Andar nessa rua é minha dor e sina...

Eu sou daquela rua, silenciosa e nua,
Coalhada de espectros de tez infeliz...
 Partem sem bagagem, a esperança não estua,
Eu sou daquela rua onde  ninguém me quis...”

Este poema é simplesmente brilhante!

Karen quase perdeu o fôlego:

-É meu poema... você o memorizou!
-Sim, e muitos outros, pois ele é perfeito! Gostaria de ajuda-la nisto também, se você me permitir. Quero publicar um livro seu. 

Karen mal podia acreditar no que estava ouvindo.

-Mas... você nem me conhece! E eu não posso, não tenho dinheiro para...

-Já disse que dinheiro não é problema, Karen. Tenho muito, muito mais do que poderia gastar em três vidas de orgias e viagens – e eu não viajo muito, pode crer. Mas para tanto, preciso saber se você aceita a minha oferta e fica morando aqui em casa comigo. E aceita o cargo maçante de minha dama de companhia!



(continua...)






2 comentários:

  1. Ola querida,
    passando para deixar uma boa tarde,

    Beijos

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  2. Amo seus contos, Ana, fico sem internet, não consigo vir... Que bela condução para Karen, com certeza a Mafalda a fará feliz!
    Abraços carinhosos
    Maria Teresa

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