quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

ARMADILHAS - FINAL





Capítulo 7 - epílogo – A decisão

Marcus:
“ Você sempre achou que eu fosse um anjo. Talvez eu seja. Mas se quiser, posso ser seu demônio, pois estou dentro de você. Posso ser quilo que você desejar. Sou um ser real, mas ao mesmo tempo, nascido de sua imaginação, trazido aqui através de sua necessidade. Nós estamos o tempo todo no meio de vocês. Vocês esbarram conosco nos lugares mais estranhos: hospitais, pontos de ônibus, sonhos, feiras livres, escolas, teatros, enfim, podemos estar em qualquer lugar que sua imaginação e sua necessidade permitam. Raramente somos percebidos como realmente somos. Na maioria das vezes, podemos ser aquele conhecido a quem vocês são apresentados numa festa, ou aquele novo amigo que aparece justamente num momento de necessidade e some de repente, sem deixar sinais. Nós somos formados durante suas orações, através de suas ânsias, medos e desejos. Podemos ser bons ou maus. Mas o que somos depende do que vocês querem que sejamos. Mas lembrem-se: se desejarem que sejamos maus deliberadamente, terão de arcar com as consequências. Mas o Bem e o Mal, para nós, é diferente do que eles são para vocês. Para nós, o que vocês chamam de Mal pode ser justificável, e o que vocês conhecem como o Bem pode tornar-se vil.Tudo depende da verdade que se esconde no fundo do coração de cada um de vocês. Esta, somente vocês próprios conhecem, e somente por ela serão julgados, e nunca pelas aparências exteriores de seus atos. Como vocês se parecem aos olhos de seus iguais não é o que realmente importa. Pois esta nem sempre é a verdade. A verdade sempre liberta, nunca escraviza; sempre se justifica, nunca pune; sempre conduz ao melhor resultado, mesmo que o caminho a seguir para estar ao lado dela seja longo e árido.
Agora, Eduarda, que você sabe quem eu sou, é preciso que você decida quem você quer ser.Se deseja a dor de ser julgada por aqueles a quem você chama de 'seus iguais', que na verdade, nada conhecem além daqueles conceitos que alguém fez com que engolissem sem questionar, vá agora. Mas, se estiver pronta para seguir livre e sem culpas, pairando acima da dor e do julgamento daqueles que na verdade nada compreendem, me a dê sua mão e seja livre, vivendo na verdade.”

Um grande silêncio e uma grande pausa se fizeram antes que ela erguesse sua mão. 




terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Armadilhas - Capítulo VI






Capítulo 6 – A Verdade 

Quase oito meses depois, Eduarda estava tentando levar uma vida normal. Apesar de não ter vendido o casarão, decidiu finalmente ouvir a voz de seus tios e procurar um apartamento. 
Não tivera mais nenhum daqueles estranhos sonhos, e nem tinha recebido mais nenhuma visita de Marcus. Sentia falta dele, no início, mas acabou concluindo que ele era um ser criado por sua própria imaginação. Pelo menos foi o que lhe dissera o Dr. Rubens. Sim, ela aceitara ver um psicólogo indicado por Annette, e já estava na quinta visita quando finalmente falou-lhe sobre Marcus.

Ela e Annette passavam as tardes visitando apartamentos de todos os tipos: na cidade, nos bairros, grandes, pequenos. Mas nenhum deles agradava Eduarda. Ainda morava no casarão, apesar dos protestos dos tios. Queria ser independente e ter sua própria vida, sua privacidade. Quando não estava com a tia procurando apartamentos, estava pensando sobre qual o curso que faria na faculdade, quando terminasse o cursinho de vestibular que começara há dois meses ( onde tinha até feito alguns amigos, para alegria de Fernando), ou então estava na academia de ginástica, seguindo os conselhos de Dr. Rubens sobre movimentar o corpo e socializar-se.

Já tinha até aceito alguns convites para festas, as quais compareceu mas logo foi embora, pois não se sentia muito bem entre multidões.Mas Dr. Rubens lhe assegurara que estava tudo bem, ninguém era obrigado a gostar de festas.
Cada vez mais ele parecia transformar-se em uma espécie de guru para ela. Tudo o que pensava ou fazia, ela tentava adivinhar o que ele acharia. Uma vez disse isso a ele, ao final de uma das consultas, e ele disse que ela precisava fazer suas próprias escolhas, baseada em suas próprias convicções, e que a opinião dele não deveria ser tão importante. 

Eduarda sentiu-se murchar um pouco por dentro, pois tinha-o como um guia, alguém que faria com que ela emergisse novamente (ou finalmente) do lado onde a vida acontecia. Não sabia ainda se tinha forças para tomar decisões , estabelecer metas. Percebeu que , sempre que saía para ver um novo apartamento, Annette estava junto com ela. Até mesmo no dia em que se matriculara no curso, pedira a ajuda da tia. E ela tinha sido sempre uma menina muito independente quando sua família era viva, talvez até por saber que não poderia mesmo contar muito com a ajuda deles. Mas agora, que podia desfrutar do carinho e da atenção das pessoas que a cercavam, estava se deixando conduzir, entrando numa zona de conforto, como se estivesse dando a si mesma umas certas férias emocionais. Era mais fácil deixar que eles lhe dissessem o que fazer.

Um dia, no final de uma tarde ensolarada, saiu para dar uma caminhada. Exercitar-se tornara-se um hábito para Eduarda, e realmente, fazia com que ela se sentisse muito bem.
Caminhou até o final da Rua Ipiranga, parando para apreciar o final do dia num dos banquinhos que ficavam na pracinha da catedral. Sentou-se de frente para a linda catedral gótica, apreciando o jeito como os raios de sol, já enfraquecidos, deixavam-na levemente alaranjada, contra um céu de nuvens pesadas e cinzentas. Ao longe, por trás de tudo, um fraco arco-íris podia ser visto nascendo por trás das montanhas. Uma tarde perfeita.
Lembrou-se de um dia , quando era bem criança ainda, e seu pai a chamara para ir até o jardim ver um arco-iris. Tinha sido numa tarde parecida com aquela. Ela estendeu os braços para ele, que a ergueu no colo e apontou para o céu. Ela nunca tinha visto um arco-íris antes.

Estava perdida nestas lembranças, quando sentiu que Marcus estava sentado a seu lado.
- Marcus! Você sumiu!
- Não, eu estou sempre por perto. Você é quem tem fugido de mim.
Ela virou-se para ele. Viu que ele parecia triste.
- Como assim? Eu tenho sonhado com você, sinto sua falta. Por que diz que eu tenho fugido de você, quando é você que não vem me ver?
- Acho que estou falhando em minha missão, Eduarda.
Ela não respondeu, continuando a olhar para ele. Ele fitou-a:
- Não posso obrigá-la a nada. Não posso forçar que se lembre de algo que não quer. Mas preciso tentar, pois qualquer decisão que você tome em relação a sua vida deve estar baseada na verdade. Eu gostaria que você não escolhesse viver na mentira.
- Bem, mas de que verdade você está falando?
- Venha; vamos até a sua casa.
Caminharam lado a lado até chegarem ao portão. O dia terminara, e as luzes dos postes começavam a se acender. Carros passavam, pessoas ansiosas para chegarem a suas casas. Entraram. Eduarda sentia que aquele era um momento solene.
- Eu tenho medo, Marcus. Tenho medo daquilo que você quer que eu lembre.
- Mas você tem uma escolha, Eduarda. 

Eles se sentaram de frente um para o outro na sala de estar. Começou a escurecer e ela acendeu a luz central, mas ele caminhou até o interruptor e apagou-a, ligando apenas um abajur no canto da sala.
- Todos cometem erros. É uma condição da raça humana. Embora condenemos uns aos outros pelos erros que cada um cometeu, ninguém deve ser condenado por nada, pois tudo faz parte de um aprendizado maior. Mas é importante que saibamos exatamente se o que fizemos foi errado.
- Para que sejamos punidos?
- Não; para que não façamos escolhas baseadas em equívocos.
- Mas... e o pagamento pelos erros cometidos?
- Os homens acham que devem sempre punir outros homens. Não percebem que são todos galhos e folhas de uma mesma árvore, e que o que acontece a um deles, acontece a toda a árvore. No seu caso, você apenas achou que estava escolhendo a felicidade. Que era sua por direito. Apenas seguiu aquilo que sua mãe mandou.

Eduarda sentiu-se gelar. Num segundo, a sala perdeu sua dimensão, e o rosto de Marcus foi perdendo o foco. No lugar dele foi surgindo novamente a cena do último dia. Ela tentou voltar, não queria ver aquela cena até o final, mas ele lhe disse que seria melhor se ela enfrentasse aquilo de uma vez e se livrasse, finalmente, de todos os seus fantasmas.
- E ela estava novamente no quarto de sua mãe, segurando a carta que ela escrevera. Entendeu que, o tempo todo, ela sabia do que estava por acontecer! Viu-se lendo o bilhete e colocando-o de volta no envelope, saindo do quarto. Lembrou-se de algo que até então tinha permanecido apagado de sua memória. Algo que acontecera alguns minutos depois de ela ter lido o bilhete.
Seu pai estava sentado na sala, antes do almoço, lendo o jornal. Ela chegou por trás da poltrona e enlaçou-lhe o pescoço, beijando-lhe o rosto. Ele pareceu surpreso, pois cenas como aquela jamais aconteciam naquela família há muitos anos, desde que tinham se perdido uns dos outros.
Ele largou o jornal e puxou-a para sentar-se em seus joelhos. Ela ficou um pouco sem-jeito, e olhou para o chão, mas o pai levantou seu queixo, obrigando-a a olhá-lo.
- Minha querida filha, quero que saiba que, não importa o que aconteça , a única coisa que me interessa é que você seja muito feliz. Eu a amo muito, muito mesmo.
- Eu também te amo, pai.
Depois, eles se abraçaram meio sem-jeito.
- Agora me deixe ler o jornal.

Eduarda foi até a cozinha e viu que Dora cantarolava enquanto lavava a louça. Estava sóbria e serena. Virou-se para ela quando a viu parada junto à porta e piscou um olho. Sem dizerem nada, Eduarda caminhou até sua mãe e ambas se abraçaram.
Logo após, Eduarda subiu para seu quarto. No corredor, encontrou -se com Getúlio. Ele a olhou por alguns segundos antes de entrar em seu próprio quarto. Sorriram um para o outro. Desajeitadamente, ele tocou os cabelos de Eduarda. Depois, cada um entrou em seu próprio quarto.

Eduarda revivia aquelas cenas. Lembrava-se claramente delas, agora. Não conseguia aceitar o que tinha feito! Tinha permitido que Dora, em sua loucura, tivesse matado a si mesma e à toda a família! Ela soubera de tudo e não fizera nada para impedir. 
Quando deu por si, estava novamente na sala. Chorava, e Marcus a abraçava. Deixou-se ficar em seus braços, sem dizer palavra. Sabia que , no fundo,elas não eram necessárias. Finalmente, ele perguntou:
- Como se sente agora?
- Muito mal, mas estranhamente calma. Acho que só me resta procurar reparar o que eu fiz.
- Como?
- Vou me entregar à polícia, é claro, pois sou cúmplice de um crime horrível, eu...
Marcus levantou-se, caminhando até o outro lado da sala. Virou-se para ela:
- Vocês, sempre pensando em culpa, punição, culpa, punição... 
- Mas o que você me sugere? - ela estava gritando – que eu viva em paz depois de tudo isso? Que eu desfrute de todo o dinheiro, como se nada tivesse acontecido?

De repente, ela entendeu: Fernando e Annette sabiam! Tinham se tornado seus cúmplices. Mas ela, somente ela, merecia ser punida, pois tinha se calado quando podia ter impedido.
Marcus ergueu uma das mãos em sua direção:
- Isso ainda não é tudo! Você se lembrou de coisas que já sabia, mas agora precisa ficar sabendo de outras que nem sequer imagina.
- Chega! Não quero, não quero! Eu odeio você! Eu... me odeio...
- Eles fizeram o que acharam que era certo. Veja.
Ela não queria mais ver, protestou. Mas foi em vão. Marcus projetou-a novamente para aquele dia.
E ela soube de toda a verdade.
Viu quando Getúlio entrou no quarto dos pais logo depois que ela mesma saiu, e viu quando ele leu o bilhete. Depois, viu quando Jorge fez a mesma coisa. 
Todos sabiam, o tempo todo. E todos concordaram. E ela lia seus pensamentos, e via que todos concordaram porque queriam que ela, pelo menos ela, tivesse uma chance de mudar a estória da família.

Getúlio:
“Não existia mais nenhuma chance para mim. Eu não tinha remédio, não passava de um drogado idiota, sem perspectiva nenhuma, sem vontade de viver. E para dizer a verdade, senti alívio depois que soube dos planos de nossa mãe. Eu nunca soube o que é ser feliz. Tenho certeza de que teria levado uma existência miserável. Mas você é diferente. Você é a parte boa do que sobrou de nós.”

Jorge:
“ Concordei com tudo porque amo você. Concordei porque sei que esta seria sua única chance de levar uma existência sem pesos para arrastar atrás de si. Imagine, como você poderia levar uma vida normal, ter amigos, casar-se e formar uma família tendo atrás de você pessoas como nós? Um bando de fracassados. É isso que somos. Agora você poderá ter a liberdade de escolher a vida que quiser para si mesma , um futuro – e um passado – novos. Mas, eu fiz isso principalmente, por um outro motivo: se eu não concordasse, a indiferença de Dora por mim ter-se ia transformado em ódio. Eu não poderia viver sabendo que Dora me odeia. Agora, pelo menos, ela me respeita. E, finalmente, se tiver que pagar por isso,que o amor seja minha punição.”

Dora:
“ Bem, aí está. Eu acho que já disse tudo o que tinha para dizer naquele bilhete que deixei. Além do mais, sei que além deste limbo onde nos encontramos, um dia, cedo ou tarde, alguém vai se lembrar de nós e nos dar uma nova chance. E então eu espero, sinceramente, que sejamos espertos o suficiente para não estragar tudo de novo. Você sabe. Que nosso amor – e nosso ódio- sejam nossa redenção.”


segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

ARMADILHAS - CAPÍTULO V








Capítulo 5 – Transição


Annette e Fernando estavam sentados na cama, de mãos dadas. Tinham acabado de fazer amor. Nenhuma paixão arrebatadora, afinal, após quase vinte anos de casamento, tais coisas não existiam. Mas havia ainda uma leve chama azulada, que se tornava um pouco mais aquecida naqueles momentos. Existia amor. Existia entre eles uma cumplicidade muito forte, difícil de se encontrar entre casais modernos. Coisas como casos extraconjugais nunca acontecera entre eles. Provavelmente, nunca aconteceria, pois ambos estavam confortáveis demais dentro da relação, e ninguém se atreveria a fazer nada que pudesse abalar a zona de conforto. Todos comentavam o quanto eles se completavam. E era verdade. Não que eles fossem muito parecidos, aliás, eram as diferenças entre eles que faziam com que eles se completassem, suprindo um no outro aquilo que lhes faltava. A única coisa que nenhum dos dois tinha a oferecer era paixão. Mas também, eles não a queriam. Preferiam a longevidade.
Algumas vezes, quando se relacionavam, Annette até tinha um orgasmo. Casamento perfeito.

Agora, Fernando sabia exatamente no que ela estava pensando – não pensava em outra coisa nos três últimos dias, desde que Eduarda se fora. 
-         Não se preocupe, Annette. Se ela não ligar amanhã, nós vamos procurá-la. Mas tenho certeza de que ela está bem. Para dizer, a verdade, talvez esteja melhor do que quando a família estava viva.
-         Que coisa horrível de se dizer, Fernando...
-         Mas você sabe que eu estou certo.
-         Eu sei. 
Ela suspirou profundamente.
-         Mais cedo ou mais tarde, vamos ter que contar a ela. 
-         Melhor esperar mais um pouco. Deixe que ela se recomponha, se reencontre...
-         ... para depois a gente virar tudo de cabeça para baixo de novo.
-         Não foi isso que eu quis dizer. Ela acaba de sair de um colapso emocional, esteve internada numa casa de repouso, e ainda tem o histórico familiar, Dora, a avó... melhor que administremos tudo em doses bem homeopáticas.
-         Mas você acha que ela... quero dizer, você realmente acha...?
Ele brincava displicentemente com os dedos dela entre os seus.
-         Fomos os únicos para quem ela contou tudo, antes de ter o colapso. Se ela tivesse contado para mais alguém, algum médico ou até mesmo a polícia, nós teríamos ficado sabendo.
Annette levantou-se da cama. Foi até a janela, e olhou a rua, o asfalto que brilhava devido à chuva que acabara de cair.
-         Não quero que nada aconteça a ela. Ás vezes acho que seria melhor se esquecesemos esta estória toda. Talvez ela nunca se lembre.
-         Ou talvez ela se lembre de tudo de repente e então poderá nos odiar por não termos contado nada. 
Annette lembrou-se de quando Eduarda, desesperada, falava coisas desconexas. Os vizinhos tinham telefonado para ela há alguns minutos, após os gritos. Ainda bem que ela deixara com eles seu número de telefone, caso algo acontecesse. Eles sempre a chamavam, quando Dora bebia demais e começava a fazer escândalos na frente das crianças.

Assim, eles foram os primeiros a chegar. Quando os viu, Eduarda se abraçou a eles, e somente após alguns minutos eles compreenderam o que ela estava dizendo, as palavras quase sussurradas que ela repetia. Então, quase que em transe, eles foram aos quartos e encontraram os corpos. Annete sentiu novamente aquele sentimento de pavor, como se tudo tivesse acabado de acontecer.
Fernando, vindo em sua direção com a carta. A carta de suicídio de Dora.
Mal tinha terminado de lê-la, Eduarda arrancou-a de sua mão e , sacudindo-a diante do rosto de Annette, ela contou-lhes.
Fernando correu até ela, mandando-lhe que se calasse: “ Não repita, não repita isso para ninguém, nunca mais, entendeu, Eduarda? Nunca mais!” Logo depois, ela desmaiou. Quando acordou, não tocou mais naquele assunto e parecia que não se lembrava de nada do que havia dito. E eles acharam melhor não tocar no assunto.
-         Venha, querida. É tarde. Vamos dormir.

Na casa de Eduarda, que está silenciosa, ouve-se apenas o tique-taque do velho relógio de parede. A casa encontra-se na semi-escuridão. Há três dias que ela chama por Marcus, mas ele não apareceu. Teria sido fruto de sua imaginação? Estaria ficando louca? 
Ela saía todas as manhãs. Ia caminhar pela rua. Ia até a mercearia, ou à praça. Às vezes, sentava-se no banco, aquele banco onde se sentara na noite de Natal, esperando que Marcus aparecesse, mas ele não vinha.
Alguns vizinhos paravam para conversar com ela, perguntando como estava. Ela dizia estar bem. Não via como eles sacudiam tristemente a cabeça quando ela se afastava, sentindo pena dela. E é claro, eles diziam que se ela precisasse de alguma coisa, qualquer coisa... ela agradecia polidamente. Um dia, alguém perguntou-lhe sobre o que faria com a casa, se pretendia vendê-la. Caso pretendesse, havia um senhor que estava interessado, e... mas ela não tinha a menor idéia do que faria. 
O dinheiro estava acabando. Pediria ajuda dos tios para vender as jóias. Já tinha contado a eles que elas existiam, mas não tinha dito o quanto elas valiam.
Eduarda pensava em tudo isso, lembrando-se dos acontecimentos corriqueiros do dia a dia , deitada em sua cama. 




Nem percebeu que tinha adormecido e começava a sonhar. 
Era o último dia. Lembrou-se de que tinha sido até feliz. Olhava para seus pais, na mesa do almoço de domingo, e o quanto sua mãe parecia feliz naquele dia. Após o almoço, Dora subiu para o quarto, dizendo que iria descansar um pouco, e seu pai ajudou-a a tirar a mesa. Enquanto ela lavava a louça, ele saiu para o jardim.
Ela via tudo como se estivesse sentada em algum lugar mais alto. Via a si mesma, a casa, o bairro, tudo de um plano de visão superior. Viu quando terminou de enxugar as mãos no pano de prato puído. Viu quando percebeu que Dora havia esquecido suas sandálias de salto de madeira no chão da sala de estar, junto ao sofá. Decidiu levá-las para cima. 
De repente, durante o sonho, percebeu uma presença a seu lado; era Marcus. Ele nada disse, apenas segurou sua mão , fazendo um leve sinal com a cabeça na direção das cenas que se desenrolavam abaixo deles, querendo que ela prestasse atenção a elas. 
Viu-se parada de pé, diante da porta do quarto da mãe, que estava sentada na cama de costas para ela. Dora escrevia. Alguma coisa fez com que Eduarda estancasse na porta do quarto e ficasse em silêncio. Percebeu uma certa solenidade naquele momento, pois não se lembrava jamais de ter visto a mãe escrever alguma coisa. Nem mesmo listas de compras.
Viu a nuca branca, com algumas sardas, sob os cachos desarrumados de Dora. O debrum laranja-desbotado da blusa, em volta da nuca. Reparou no caderno aberto sobre os joelhos de Dora. Pela janela, uma luz difusa entrava, filtrando-se através da cortina bege de renda empoeirada .
Viu quando a mãe acabou de escrever, arrancando a folha do caderno e dobrando-a cuidadosamente, e viu quando ela a colocou dentro de um envelope branco, sobre a mesa de cabeceira, preso sob o abajur.
Então, Dora virou a cabeça na direção dela. Sorriu. Eduarda nunca tinha visto uma expressão tão serena em seu rosto. Percebeu que sua mãe estava quase bonita novamente. Eduarda saiu e fechou a porta do quarto deles atrás de si. Ao passar pelo quarto de Getúlio, olhou através da greta entreaberta e viu que ele dormia de bruços, pesadamente.   Mas voltou ao quarto dos pais, pois sentiu que aquele envelope branco chamava por ela.                
     Vagarosamente, Eduarda abriu a porta e caminhou em silêncio até a mesinha de cabeceira.                       Pegou o envelope e abriu-o.
Fim do sonho.

Na manhã seguinte, ela decidiu fazer uma visita aos tios. Ambos ficaram muito felizes ao vê-la chegar, e Annette abraçou-a calorosamente. Insistiram para que ela ficasse para o almoço, e ela acabou aceitando.Eduarda percebeu que Fernando e Annette estavam agindo de uma forma estranha, trocando olhares cúmplices , e a voz da tia saia quase forçadamente tranquila. Os dois se entreolhavam a cada pergunta corriqueira que Eduarda lhes respondia, como por exemplo, se ela tinha dormido bem, se ela se sentia bem, etc. Ela pensava se deveria contar a ele sobre Marcus. Mas acabou concluindo que , se ela lhes contasse que um estranho tinha entrado na casa, seus tios morreriam de preocupação, Annette provavelmente faria um escândalo e ambos insistiriam para que ela voltasse a viver com eles. Além do mais, como explicaria de onde Marcus tinha vindo, se nem mesmo ela o sabia? Seria mesmo um anjo, fruto de sua imaginação, um louco maníaco que a seguira ou lera sobre ela nos jornais? Ela mesma tinha um pouco de medo, agora que pensava mais racionalmente.

Acabou achando aquela estória toda muito ridícula. 

Conversou com os tios a respeito de dinheiro, e prontamente eles se ofereceram para ajudá-la no que fosse preciso. Fernando lhe disse que venderia as jóias para ela, mandando antes fazer uma reavaliação com uma pessoa de sua confiança. Displicentemente, Eduarda puxou de dentro de sua sacola de pano surrada a caixa com as jóias, colocando-a sobre a mesa. Annette arregalou os olhos e comentou como Eduarda tinha sido imprudente transportando as jóias até lá à pé, sem nenhuma segurança, dentro de uma simples sacola de pano. Fernando riu, tranquilizando-a, afinal, nada tinha acontecido. Quem suspeitaria que uma menina como ela, vestida de jeans e sandálias de couro gastas , carregando uma bolsa de pano velha e desbotada, estivesse de posse de jóias tão valiosas? Eduarda concordou com ele. Num gesto corriqueiro, como se estivesse despejando feijões de um saco, ela despejou o conteúdo da caixa sobre a mesa. 
Imediatamente, viu a surpresa no rosto dos tios. Fernando estava pálido, boquiaberto, e Annette levara ambas as mãos ao queixo, deixando escapar um “oh” de susto.

Passaram mais de meia hora olhando e revirando as jóias, colocando-as sob a luz de um pequeno abajur que Annette trouxera da sala e colocara sobre a mesa da cozinha. Seriam verdadeiras? Será que teriam valorizado mais, desde a última avaliação? O que Eduarda faria com o dinheiro, etc.

Após o almoço, ao despedir-se de seus tios, Annette perguntou-lhe se havia algo sobre o que ela quisesse conversar. Eduarda franziu as sobrancelhas.
-         Como assim? Vocês estão me escondendo alguma coisa?
Annette sorriu.
-         Não minha querida. É que é tudo ainda muito recente, e fiquei pensando se talvez você não tivesse se lembrado de alguma coisa importante...
-         Como assim, lembrado de alguma coisa?
Fernando interveio:
-         Nada, Eduarda. Não preste muita atenção em Annette. Ela é quem anda estranha e esquecida 
ultimamente. 

Como num lampejo, o sonho da última noite , a imagem de Dora virando-se para ela e sorrindo após colocar o envelope sob o abajur, veio-lhe à cabeça. Mas foi só por um instante.

Ao chegar em casa, começou a encher a banheira, despejando dentro dela um pouco dos sais que Annette tinha lhe dado de presente de Natal. Minutos depois, estava mergulhada na banheira de água bem quente e perfumada. O vapor a entorpecia um pouco, e deixava o banheiro um tanto embaçado, como se estivesse cheio de neblina. Eduarda fechou os olhos e deixou-se relaxar completamente. Logo sentiu que mãos suaves massageavam seus ombros nus. De olhos ainda fechados, ela segurou aquelas mãos macias e colocou-as sobre seu pescoço, forçando-as a descer até seu peito e deslizar sobre sua barriga. Mas de repente, o dono daquelas mãos puxou-as para fora da banheira, delicadamente, mas com determinação. Ela abriu os olhos.
Marcus olhava para ela docemente. Ela ia perguntar-lhe por onde ele andara, por que tinha sumido, mas ele levou a mão até seus lábios, pedindo-lhe silêncio. Ao mesmo tempo, ele passou as mãos úmidas sobre seus olhos, obrigando-a a fechá-los novamente.

E como num passe de mágica, ela viu-se novamente transportada para o quarto de sua mãe, naquele dia fatídico. Viu alguém que parecia ser ela mesma – mas ao mesmo tempo, outra pessoa- dirigir-se para perto da cabeceira da cama, que naquele momento encontrava-se vazia, e pegar o envelope sob o abajur. Viu também quando ela – ou a outra pessoa- abriu o envelope e leu seu conteúdo. Percebeu seu próprio rosto corar e sua mão cobrir a boca, num gesto de puro espanto. Ouviu quando , segundos depois, a voz de Dora chamava-a da cozinha, dizendo que o almoço estava pronto. Então, ela – ou a outra pessoa- com as mãos trêmulas, devolveu o envelope e seu conteúdo para o lugar de onde os tinha tirado, sob o abajur.

Quando abriu novamente os olhos, Eduarda estava de volta à banheira. Nem sinal de Marcus.
Mais alguns dias se passaram e Fernando foi visitá-la. Tinha depositado o dinheiro da venda das jóias em uma conta bancária para ela. Perguntou-lhe em tom de brincadeira o que ela pretendia fazer , agora que era praticamente uma milionária, mas Eduarda apenas sentiu um grande vazio se abrir diante dela, como acontecia todas as vezes que ela pensava sobre o futuro. Ou até mesmo sobre o passado, pois notava que as coisas que tinham lhe acontecido ficavam cada vez mais distantes, como se fossem memórias que pertenciam a uma outra pessoa que não era mais ela, que nunca poderia ter sido ela. Disse aquilo a Fernando. Ele a abraçou por um instante.
-         Às vezes é melhor assim. Deixar para trás o que passou, principalmente quando se trata de algo tão desagradável quanto o que lhe aconteceu. Tenho certeza que dentro de mais alguns dias, você estará mais serena, com mais certeza sobre seu futuro. Quando isso acontecer, não se esqueça de contar para nós.
-         Eu não vou esquecer.
-         Annette mandou-me dizer a você que...
Ele pareceu hesitar. Eduarda encorajou-o:
-         ...que?...
-         Bobagem. Sabe como ela é... quer que você more conosco. Mas eu entendo você, deseja ter sua própria vida. E está absolutamente certa.
-         Obrigada, tio. Mesmo morando sozinha, eu sei que posso contar sempre com vocês.
-         Quanto à casa... já decidiu se vai mantê-la? Se me permite opinar, acho que não lhe faz bem ficar neste casarão sozinha. Além de perigoso, não faz sentido morar neste mausoléu enorme, quando seria muito mais prático comprar um apartamento na cidade para você, ou até mesmo uma casa menor e mais moderna.
-         Ainda não decidi. Acho que você está certo, mas ao mesmo tempo, sinto que meu tempo aqui ainda não terminou.
-         Como assim?
Ela respirou fundo.
-         Nem eu sei, tio. Mas ás vezes sinto como se esta casa quisesse me dizer alguma coisa que eu ainda não consegui entender.
Ela percebeu um certo pânico nos olhos dele.
-         Querida, decididamente, não acho que seja bom para você ficar aqui...

Ela o interrompeu:
-         Você tem medo que eu enlouqueça, como ela, não é?
-         Bem, é que... logo depois que sua avó morreu, após o suicídio, Dora , ainda uma menina como você, veio morar nesta casa sozinha. Todo diziam a ela que não deveria, mas ela nunca ouvia ninguém. Foi se tornando cada vez mais amarga. Até que conheceu seu pai, e todos acharam que finalmente ela ia mudar. Realmente, estava melhor, mais feliz. Mais leve. Mas não sei se talvez devido ao tempo em que passou nesta casa sozinha... pensando... 
-         Não se preocupe. Eu sou muito diferente de minha mãe. Eu entendo, você acha que porque minha avó se matou, minha mãe se matou, eu vou acabar me matando.
Ele ergueu as mãos, em desespero:
-         Nem diga uma coisa dessas, Eduarda. Pelo amor de Deus... sabe, nas noites em que Jorge me telefonava, desesperado, após as brigas com Dora, ele me contava muitas estórias. Ele estava muito, muito perturbado. Mas não conseguia deixá-la. Amava Dora loucamente, e por isso muitas vezes eu disse a ele que ele era ainda mais insano que ela.
-         Mas por que você está me contando essas coisas?
-         Porque ele dizia que Dora era... emocionalmente inacessível. E eu não vejo você sair com pessoas de sua idade, não vejo você com um namorado... sinceramente, tenho medo que se torne como ela. Embora eu saiba que , agora, você é totalmente diferente, claro.
Eduarda pareceu refletir sobre o que Fernando dissera. Sim, Dora era emocionalmente inacessível. Mas sabia, com certeza, que quando se tratava dela, a mãe era amorosa e preocupada, isso é, quando não bebia demais. E a certeza daquele amor, mesmo misturado à vergonha e à frustração, é que lhe dava forças para viver. 
-         Ela me amava. Eu sei disso.
-         Eu sei, é claro... é claro que sim. 
-         Eu nunca tive amigos porque... tio, eu tinha vergonha de trazer meus amigos aqui, tinha vergonha que vissem como nós vivíamos.

Ela começou a chorar. Fernando abraçou-a.
-         Agora vai ficar tudo bem, querida. Você não precisa mais ter medo, ou vergonha de quem você é. Agora, você pode apagar tudo o que passou e recomeçar uma nova vida. Faça isso. Faça isso.
Naquele momento, Fernando teve certeza de que jamais contaria a verdade a ela.
Mas às vezes, a própria verdade se revela, sem que a busquemos. Mesmo sendo indesejável e desnecessária, ela se insinua porta adentro em nossas vidas e sacode as mãos na nossa frente, bafeja em nosso rosto até que a encaremos para, finalmente, decidirmos o que fazer dela. A verdade, definitivamente, não aceita ser deixada no escuro, do lado de fora.


(continua...)



sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Armadilhas - capítulo IV






Capítulo 4 – O Estranho

Na manhã seguinte, ao despertar, levou algum tempo para acostumar-se com o novo cenário à sua volta.Como sempre, desde a morte dos pais, a primeira coisa que lhe veio à cabeça quando abriu os olhos foi: “ todos morreram.” Sua tia Annette tinha lhe dito que um dia tudo aquilo iria passar, mas ela duvidava. Imaginava-se acordando daqui a muitos anos, a mesma frase martelando-lhe a cabeça.
Seus tios haviam lhe prometido que não procurariam por ela, dando-lhe alguns dias para que Eduarda pensasse em sua vida, como ela havia lhes pedido.
Assim, naquela manhã de Natal, a primeira de sua vida desde a morte de sua família, ela estava sozinha. E culpada por sentir-se tão em paz.

Ainda de camisola, desceu até a sala – parando no patamar da escadaria para contemplar as paredes pintadas, o tapete vermelho que forrava os degraus, o assoalho que brilhava, etc. Percebeu que gostava muito daquilo. A beleza e a limpeza faziam com que se sentisse bem.
Descalça, resolveu aproveitar a linda manhã ensolarada para verificar as reformas no jardim. Agora, tudo estava florido, e as roseiras exalavam perfume. Havia borboletas, pássaros, colibris. As ameixeiras de seu pai abundavam em frutos. O gramado macio formava um tapete uniforme sob seus pés. A fina corrente de água que jorrava da fonte fazia um ruido tranquilizador . O caminho estreito e curvo que ligava a parte da frente do jardim à parte dos fundos tinha sido forrado com pedriscos . Ela o percorreu, sentindo as pedrinhas arredondadas que estalavam sob seu andar. 
Mas ao chegar perto da garagem, onde a limusine reluzente ainda estava exposta, a capa plástica caída no chão, Eduarda teve um sobressalto. Parado a alguns metros diante dela, havia alguém. Ela hesitou, passando a caminhar mais devagar, tentando vislumbrar quem seria. Poderia ser seu tio Fernando? Mas não; ela já tinha visto aquele homem antes. 

Sim, era o mesmo homem da noite anterior, na praça. Mas como ele tinha entrado? O portão estava trancado... ela pensou, por um momento, em entrar em casa correndo e chamar a polícia, ou chamar seus tios, mas algo no olhar dele a fez parar. De repente, não teve medo. Sentiu que ele seria a última pessoa do mundo a querer causar-lhe algum mal.





Observou-o mais cuidadosamente: aparentava ter algo entre vinte e trinta anos – era difícil dizer, pois seu rosto era sereno, inocente e maduro ao mesmo tempo- e os olhos ( ela podia vê-los claramente agora, que estava há apenas alguns metros dele) eram grandes, de cílios longos e escuros e de um verde profundo, tranquilizador e ao mesmo tempo intrigante. O homem era um verdadeiro mistério, mas Eduarda tinha certeza de que não precisava temê-lo. Os cabelos fartos, pretos e ondulados, tinham sido arrumados para trás, num corte em camadas, que davam-lhe uma aparência extremamente máscula e sensual. Ela teve vontade de passar seus dedos sobre aquele cabelo.
Ele era alto e bem-formado. A boca era grande e bem-desenhada, e o queixo, quase quadrado, era suavizado por uma leve covinha. Ela constatou, surpresa, que ele era não apenas o homem, mas a criatura mais linda que já vira em sua vida.

Vestia uma camisa branca, simples, de mangas longas dobradas até o cotovelo, e calças pretas. Ele a olhava intensamente, em um meio-sorriso. Parecia conhecê-la- e aos seus pensamentos – há muito tempo. Em um único instante, ela sentiu como se tivesse chegado em casa após uma longa caminhada. Teve vontade de correr até aquele homem e jogar-se definitivamente em seus braços, como se eles fossem seu refúgio após meses vagando por estradas perigosas, entre pessoas hostis. Não sabia se o sentimento que a impulsionava era um sentimento fraternal, uma profunda amizade ou algo de mulher para homem, pois nunca em sua vida tivera realmente nenhum daqueles sentimentos. Sendo assim, não conseguia ainda distinguir o que sentia.
Ela caminhou mais rapidamente até onde ele estava, e viu-se correndo em sua direção. Ele, imóvel, estendeu os braços para ela e finalmente suas mãos se tocaram, entrelaçando-se.

O coração de Eduarda batia totalmente desenfreado. Tudo o que importava para ela era o contato morno daqueles dedos em volta dos seus, aqueles olhos presos nos seus e o aroma delicioso que emanava dele para ela , algo leve como um cheiro de baunilha misturado com uma fragrância amadeirada , talvez canela ou quem sabe, sândalo. Tudo o que ela tinha certeza a respeito daquele cheiro era que ele era suave , e que ela gostaria de senti-lo para o resto de sua vida.
Mas precisava recobrar o bom senso. Era uma moça sozinha diante de um estranho. Não sabia o que ele queria ou como tinha entrado ali. Queria ter medo, correr, mas o fascínio que ele exercia sobre ela era tão forte que ela mal podia mover-se. Apenas sentia que cada parte de seus dedos onde os dedos dele a tocavam pareciam formigar levemente, como se uma energia sutil e maravilhosa emanasse dele para ela. Viu-se perguntando, sem soltar as mãos dele:

- Quem é você?
Ele sorriu-lhe , e ao fazê-lo, ela pensou que fosse desmaiar. Se pudesse, nunca mais sairia dali, jamais voltaria a olhar para outro lugar, jamais sairia de diante daquele homem.
- Meu nome é Marcus. E você é Eduarda.
- Como sabe?
- Eu sei tudo sobre você. Estou aqui para lembra-la de coisas importantes. Esta é minha missão.
- Como assim, que missão? Você é alguma espécie de anjo?
Ele riu, puxando-a para mais perto dele. 
- Para você, o que significa ser um anjo?
- Não sei... talvez ser puro, bondoso, generoso... perfeito... e cumprir missões. 
- Você pode estar certa em algumas coisas, mas não tenho certeza se sou um anjo.
- Por que?
- Porque os pensamentos que me acometem quando olho para você não são muito puros, se examinados sob o ponto de vista do que você reconhece como pureza. Talvez eu seja generoso, quem sabe, bondoso... diante de seus olhos, posso parecer até perfeito. Mas talvez os anjos não sejam assim tão puros. Ou então, não sou exatamente um anjo.

Eduarda sentiu seu rosto em fogo. Pois ele estava se sentindo exatamente como ela.
- Eu não sei o que pensar.
- Se você pudesse ( e a voz dele agora era só um murmúrio) o que faria neste exato momento?
- Eu.. eu estou confusa. Tenho medo. Mas queria que você ficasse aqui comigo. Queria sentar-me com você em minha casa e conversar.

Ela não teve coragem de confessar seus verdadeiros desejos, pois na verdade, eram desconhecidos pra ela, emoções totalmente inéditas. Nunca tinha sentido tanta ternura, tanto calor por dentro, e nunca tinha sentido vontade de abraçar-se a alguém. Lembrou-se das vezes em que ouvira outras meninas contando sobre suas aventuras amorosas, que , para ela, não passavam de contato físico, e do quanto sentia-se repugnada ao ouvir tais relatos.



Marcus passou um braço ao redor da cintura dela.
- Pois que seja assim. Vamos entrar e conversar, se é o que você deseja.
Eduarda deixou-se conduzir de volta à casa pelo caminho de pedriscos. Tudo parecia irreal à volta dela. Estava dentro de um sonho, podia ter quase certeza.
Sentaram-se na varanda da casa. Ela não parava de olhar para ele, com medo de que , se desviasse os olhos por um instante, ele desaparecesse para sempre. Marcus pareceu adivinhar-lhe os pensamentos.
- Não se preocupe, eu só vou embora quando minha missão estiver cumprida. E ainda vai demorar um pouco.
- Pois então eu espero que você jamais a cumpra.
Dissera aquilo sem nem mesmo pensar, e corou. Desviou os olhos, mas ele segurou seu queixo, obrigando-a a olhar para ele novamente.
- Eduarda, eu a conheço há tanto tempo... você também me conhece, mas talvez nunca chegue a se lembrar.
- Mas você disse que sua missão era fazer-me lembrar de algo.
- Mas não disso. De uma outra coisa.
- De quê?
- Não vamos falar nisso agora. Ainda temos muito tempo, não quero apressar as coisas. Ou você quer que eu cumpra logo o que vim fazer e vá embora?

Ambos riram. Infelizmente, Eduarda sentiu um leve enjoo e lembrou-se de que tinha um estômago, e de que ele se encontrava vazio há quase dois dias. Convidou-o a entrar e foram para a cozinha, ele sentando-se à mesa enquanto ela vasculhava o armário em busca de algo para comer. Encontrou alguns ovos na geladeira e um pedaço de presunto. Fariam um omelete. Para beber, chá gelado.
Ele ajudou-a a pôr a mesa, embora ela dissesse que aquela não era tarefa para um anjo. Ele rebateu dizendo que ela sabia muito pouco sobre anjos.

Conversaram durante o almoço, ela tentando controlar seu apetite voraz para não parecer mal-educada diante dele, e ele, quase não tocando na comida. Ela falou-lhe de seu relacionamento com os pais e com o irmão, embora sentisse que ele já sabia de tudo, mas falar fazia com que ela se sentisse bem, como se estivesse tirando um enorme peso dos seus ombros. E Marcus, um ouvinte perfeito, jamais a interrompia, ou fazia perguntas que ela não estaria pronta para responder. Conversando com Marcus, falando de tudo o que acontecera em sua vida nos últimos meses, Eduarda pôde finalmente colocar um senso de realidade naquilo tudo. Até então, tivera – ou procurara ter- a impressão de que tudo não passara de algo que vira em um filme, ou que alguém lhe contara a respeito de uma pessoa que ela não conhecia. Agora, ela, Eduarda, colocara-se no centro de todos os acontecimentos. Começou a realmente entender sua mãe, a maneira como ela sempre andara na beirada da loucura, pronta a se jogar, mas todos tentavam negar os fatos, começando por seu pai. 

Depois do almoço, sentaram-se no grande sofá da sala , e ela deitou a cabeça no colo de Marcus, que acariciou-lhe os cabelos levemente. Ao longe, ouvia pássaros cantando. Um leve ribombar de trovão, como se fosse o estômago de um gigante roncando. Eduarda nunca se sentira tão bem, tão relaxada. Nem se lembrava de um dia sequer em sua vida no qual alguém lhe acariciara daquele modo. Sem sentir, deixou que os ruídos de pássaros, trovões e carros ao longe fossem ficando cada vez mais distantes.
Agora, andava por uma estrada asfaltada, totalmente ladeada de árvores altas de copas espessas, que se encontravam no meio da rua, formando o arco verde-escuro sob o qual ela caminhava. A luz do sol filtrava-se por entre as folhas, formando pontos de luz no asfalto negro e liso. Eduarda caminhava sem sentir cansaço, e a estrada reta não lhe dava nenhuma impressão de distância. Não sabia de onde tinha vindo ou como fora parar ali, ou para onde ia. Apenas caminhava, sentindo-se energizada, o ar fresco enchendo-lhe os pulmões. Estava feliz. Ao longe, na beira da estrada, avistou uma grande pedra. Havia alguém sentado sobre ela, abraçado aos joelhos, de modo que seu rosto não podia ser visto.

De repente, ela começou a correr, aflita, na direção daquele vulto. Ela corria, corria, mas a cada vez a pedra parecia tornar-se mais distante. Ouviu choro e soluços. Eles tornavam-se cada vez mais altos e angustiados. Eduarda sabia que precisava chegar até aquela criatura, e de repente, a distância que havia se formado entre eles encurtou-se como num passe de mágica, e ela se viu diante da pedra. Um segundo, e estava sobre a pedra, de pé ao lado daquela pessoa. Ela conhecia aqueles cabelos encaracolados, a roupa preta desbotada... Getúlio!!!
Ela gritou o nome de seu irmão.
Ele olhou para cima, virando o rosto na direção dela lentamente. Seu olhar era de profunda mágoa.
“Você não fez nada”, ele disse. Mas sua boca não se movia. Eduarda não compreendia o que ele estava querendo dizer.
- Getúlio, me dê sua mão. Vamos embora, vou levá-lo comigo.
- Você não pode. Você não fez nada!!!

O rosto dele estava em todos os lados, a voz dele, os gritos, os soluços... ele gritava , repetindo aquela frase sem-sentido, deixando-a quase louca. Eduarda tentava tapar os ouvidos, mas era em vão. Para onde olhasse, e mesmo que fechasse os olhos, Getúlio estava em toda parte, olhando-a de forma acusadora. Os olhos eram como duas bolas totalmente negras, sem pupilas, sem profundidade, sem alma.
Ela gritou, gritou, e despertou bruscamente, sentando-se no sofá da sala, a respiração ofegante. Estava encharcada de suor, e lá fora uma tempestade desabava. Apesar do calor abafado, Eduarda sentia frio. Custou um pouco para recobrar o senso de realidade, como sempre acontece após um pesadelo.
Olhou em volta; estava sozinha. Chamou por Marcus, mas apenas o eco da sala vazia respondeu-lhe. Ele se fora.

(continua...)



quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Armadilhas - Capítulo III






Capítulo 3 – O Tesouro

Annette deixou o hospital e ligou para Fernando. Disse-lhe que ela ( Eduarda ) estava dormindo, e pediu a ele que fosse buscá-la, pois não se sentia em condições de dirigir.
Achara a carta de Dora junto à mesinha de cabeceira. Ela escrevera o seguinte:

“A quem possa interessar,
Estou deixando esta carta não como uma justificativa pelo que fiz, envenenando parte de minha família, pois não posso justificar-me por algo que fiz por achar ser o certo. Eu a escrevo apenas para que Eduarda não venha a ter problemas com a polícia; vocês sabem, podem achar que ela aprontou tudo isso.
Matei a parte podre da família. Nós não tínhamos mais jeito. Mas Eduarda , ah, ela sim, pode ser o que quiser ser, pode resgatar a honra de minha mãe, e não quero que as sombras de seu pai fracassado, sua mãe bêbada e seu irmão drogado a persigam pelo resto de seus dias.
Eduarda, isso é para você: seja feliz e siga sem culpas. Não pense muito em nós, aliás, esqueça-se de nós pois não somos nada. Você sabe. 
Lembre-se da caixa.”

Ainda precisava perguntar a Eduarda o que era a tal caixa, mas não era o momento. Chorava por seu irmão morto, seu pobre Jorge, que se apaixonara tanto por uma mulher louca e excêntrica. Ela o avisara tantas vezes que Dora era uma mulher estranha, mas ele nunca lhe dera ouvidos, e agora... Ah, o que seria de Eduarda? Pobre menina...

Fernando chegou minutos depois, e ela entrou no carro. O marido passou os braços à volta dela e Annette deitou a cabeça em seu ombro, chorando.
-         Ele ainda era tão moço, apenas 48 anos... e o pobre Getúlio... veja no que se transformou, sendo educado por aquela louca! Mas não importa agora, não é?
-         Fique calma. Eu já tomei as providências para o velório. Não se preocupe, tudo isso vai passar.
-         Eduarda está dormindo agora. Por pouco ela não está morta, como todos eles. Oh, Fernando, o que aconteceu? Por que isso aconteceu?

Fernando suspirou fundo e não respondeu. Não tinha as respostas. Aliás, nem conhecera muito bem a família de seu cunhado morto, pois Annette e Dora não se davam bem, e nas raras vezes que Jorge os visitara, ele fora sozinho. Apenas poucas vezes Dora permitiu-lhe levar as crianças. Algumas vezes Annette fora visitá-los, mas devido à frieza e às vezes, à hostilidade declarada de Dora, evitava fazê-lo. Annette lembrava-se do olhar doente da cunhada, sabia que ela precisava de tratamento psiquiátrico, mas apesar de concordar com ela, Jorge nunca tomou nenhuma atitude. Nem mesmo quando ela começou a beber, durante a gravidez de Getúlio. Justificava-se, dizendo que ela era normal a maior parte do tempo, e que com a vinda de crianças, ela acabaria tornando-se menos ansiosa. Mas a maternidade não pareceu fazer-lhe nenhum 
bem.




Ela ignorava Getúlio o quanto podia, relegando-o apenas o suficiente para mantê-lo vivo. Muitas vezes Jorge chegava do trabalho e tinha que dar-lhe banho, pois ela esquecia-se de fazê-lo, ou então estava tão bêbada que nem mesmo conseguia . Annette temia pela vida do sobrinho, e chegou a pedir ao irmão que se separasse de Dora, mas ele não queria fazê-lo. Dora alimentava o bebê e o deixava no berço a maior parte do tempo, mesmo que ele berrasse. Um dia, ao visitá-los, Annette acabou brigando com Dora por causa de Getúlio, no que Dora respondeu-lhe que ela ficasse tranquila, pois não mataria seu próprio filho, apenas achava que os homens não mereciam muito amor. Naquele momento, Annette percebeu o quanto a cunhada precisava de ajuda. 

Quando Eduarda nasceu, Dora pareceu realmente melhorar. Ficou sem beber durante quase um ano, enchendo a pequena de mimos e cuidados. Foi a época mais feliz do casamento deles. A casa parecia um chiqueiro, pensava Annette, como sempre, mas ela cuidava da menina com esmero. Até mesmo passou a cuidar um pouco melhor do pequeno Getúlio, e também de Jorge.
Ele a amava. Annette nunca tinha visto um amor doentio como aquele. Ela era apenas complacente com ele, às vezes até gentil, mas nunca carinhosa. Mas iam levando a vida, e Jorge parecia satisfeito com as migalhas de atenção que recebia, e também pelo fato dela ter parado de beber.
Até que ele, inadvertidamente, sugeriu-lhe que vendessem a casa. Então, o pesadelo recomeçou. Annette sabia de tudo aquilo porque o irmão muitas vezes ligava para ela no meio da noite, de algum telefone público, para desabafar. Ela o ouvia, mas quando tentava aconselhá-lo a deixar Dora e levar as crianças, ele desligava. Annette não sabia qual dos dois era mais doente.

Dias se passaram. Eduarda não tinha ido ao enterro de sua família, pois estava no hospital. Agora recuperava-se na casa dos tios , Annete e Fernando. Eles não tinham tido filhos, e a tratavam como um bebê, tomando todas as providências para que nada lhe faltasse e para que ela estivesse sempre alimentada, aquecida e confortável. Mas toda aquela atenção fazia com que ela se sentisse sufocada. Fora criada de forma diferente, crescera praticamente livre, cuidando de si mesma, fazendo o que achava que tinha que ser feito. Não estava acostumada que lhe dissessem que já era hora de ir para cama – já tinha dezoito anos! - nem que ela precisava se alimentar.

Tinha terminado a escola , por isso não podia ocupar-se com alguma coisa que a deixasse, por algumas horas, livre deles. Perdera a matrícula para a faculdade. Além disso, ainda não a tinham deixado voltar à casa, onde estava a caixa com seu futuro. Não queria parecer ingrata com os tios, que fizeram e faziam tudo para que ela se sentisse bem. Mas não aguentava mais aquela vida.

Annette comprara-lhe roupas novas, caras e sofisticadas. Eles não eram ricos, mas viviam muito bem, portanto tinham condições de dar-lhe aquelas coisas. Eduarda olhava-se no espelho e não se conhecia dentro daquelas roupas. Sentia falta de seus jeans surrados, e quando dizia aquilo, Annette dizia-lhe que era uma questão de tempo, ela logo se acostumaria. “Quanto tempo eles acham que vou ficar aqui?”, ela pensava. 



O Natal chegou. Sua família tinha morrido há apenas três meses. Annete estava decorando uma enorme árvore de Natal, que colocara bem junto à janela. Enfeitara a entrada da casa com luzes coloridas. Fizera lindos embrulhos e colocara sob a árvore, e até tinha pendurado saquinhos no aparador da lareira! Eduarda a observava, sentada no sofá.
-         Tia, por que decora a casa toda se não tem crianças?
-         Ora... nós adoramos o Natal. Além disso, as irmãs de Fernando vêm passar a noite de Natal conosco, e elas têm crianças.
Eduarda lembrou-se que, em casa, nunca tinham tido uma árvore de Natal. Aliás, nem mesmo qualquer tipo de educação religiosa. Tudo o que aprendera sobre Deus, ou Cristo, fora na escola, nas aulas de catecismo que tomara parte, mas nunca chegou a fazer a primeira comunhão, pois Dora estava bêbada no dia da festa. Mas, no fundo, apesar de ter chorado um pouco porque não iria mais usar seu vestido branco, Eduarda sentia-se aliviada; não conseguia acreditar nas coisas que as freiras tentaram lhe ensinar nas aulas de catecismo.

A noite de Natal foi longa e tediosa. Os convidados começaram a chegar às oito e meia da noite. As irmãs de Fernando – três mulheres meio- gorduchas que cheiravam a almíscar e falavam pelos cotovelos – tinham trazido suas crianças, como Annette lhe dissera. A “multidão” que invadira a casa consistia em três casais: Germana e Dário , com os três filhos pequenos Pedro, Lucia e Nina, cujas idades variavam entre 5 e nove anos; Bia e Fausto, com Claudia, uma pré-adolescente convencida e, segundo Eduarda observou, maquiada demais; e finalmente, Carla e Augusto, com os filhos gêmeos de doze anos, Julio e Paulo.
Eduarda ajudava Annette no que podia. Serviu algumas bandejas de salgadinhos antes do jantar, ajudou a pôr a mesa.
 Notou que as irmãs de Fernando falavam dela. Olhavam-na com olhos piedosos e sacudiam a cabeça. As crianças pareciam alheias a tudo aquilo, e queriam apenas gritar e correr pela casa, fazendo uma algazarra infernal. Apenas a “mocinha” permanecia sentada na poltrona, as pernas finas cruzadas, enrolando uma mecha de seu cabelo louro nos dedos e olhando as unhas pintadas.Ás vezes, seu telefone celular tocava, e ela ficava alguns minutos murmurando e dando risadinhas.

Os maridos estavam reunidos em volta da mesa da cozinha, para uma partidinha de biriba antes da ceia.
A televisão estava ligada. As mulheres falavam sem parar. De repente, Eduarda sentiu-se muito só. Não fazia parte de tudo aquilo, e descobriu que não queria aquele tipo de vida. É claro que na escola invejava as 'famílias normais', mas ela não sabia o que era uma família normal. Uma vez sua mãe lhe dissera que quase todas as 'famílias normais' não passavam de personagens de um comercial de margarina. Ela não entendera, na época, o que Dora quis dizer, mas agora entendia perfeitamente.
Tinha que dizer a eles. Precisava dizer a eles que queria sua própria casa de volta. Eles sofreriam, mas ela precisava fazer aquilo.
Uma das crianças começou a correr em volta dela, talvez Nina, ela não lembrava bem dos nomes. Logo foi perseguida por um menino que tentava pegá-la, mas Nina usava Eduarda como escudo. Ela começou a ficar tonta e enjoada. Pediu-lhes que parassem mas as crianças nem lhe deram ouvidos, continuando com a brincadeira. Súbito, Eduarda pegou a menina pelos braços e praticamente jogou-a no sofá. Saiu correndo da sala, enquanto a menina assustada começava a chorar.

Todos pareceram confusos, e Eduarda viu o olhar magoado e preocupado de Annette quando passou por ela, antes de sair para a noite fresca e estrelada da rua.
Começou a andar. Lá atrás, ouvia a voz de Fernando chamando-a de volta. Ela fez um sinal com as mãos, dizendo que estava bem, e continuou andando. A noite estava fresca, e ela sentiu-se aliviada pelo silêncio que a cercava. Podia ver dentro das casas iluminadas as famílias reunidas, as árvores de Natal. Ouvia vozes e risos. Ocorreu-lhe que tudo aquilo parecia-lhe muito mais perfeito agora que estava do lado de fora. Caminhou pela calçada reta da Avenida Koeller, observando as pequenas lâmpadas brancas que se enroscavam à volta das magnólias, e achou aquilo tudo um gasto enorme e inútil de tempo, energia e paciência. Riu da futilidade de tudo aquilo.



Andou muito, nem sabia quanto tempo tinha se passado, até que se cansou e sentou-se num banco da Praça da Liberdade. Como seu pai.
Tudo estava deserto. Agora, pela primeira vez sozinha desde que tudo acontecera, percebeu que não tinha pensado muito sobre sua família. Annette e Fernando faziam de tudo para que ela esquecesse. Os médicos receitaram-lhe calmantes para que dormisse pesadamente à noite, e Annette sempre estava lá para certificar-se de que ela os tomaria. Durante o dia, sempre havia alguém com ela, fosse Annette, Fernando ou um vizinho deles, para que ela conversasse sobre assuntos que não a interessavam, pois assim, não teria tempo de pensar. Mesmo durante o banho, se demorasse um pouco mais no banheiro, Annette batia na porta para saber se ela estava bem. Não suportava aquilo. Estava a costumada a ser deixada em paz.
Olhou para o caro casaco de cashemir salmão que Fernando lhe dera de presente. Acariciou a lã macia, passou as mãos sobre a saia de seda azul-celeste. Aquelas roupas não eram ela. Não tinham nada a ver com seu estilo, e se um dia pudesse escolher o que vestir – nunca pudera – certamente não seria nada parecido com aquilo. Arrancou o prendedor de marfim que Annette pusera em seu cabelo e jogou-o longe. Tirou os sapatos de salto médio, 'adequados para uma jovem mulher', segundo Annete lhe dissera, e chutou-os para longe.
Sentiu-se melhor.

Quando olhou para o lado, Eduarda o viu pela primeira vez. Ele observava tudo o que ela fazia, e certamente viu quando ela tinha tirado o prendedor de cabelo e os sapatos. Viu também quando ela os jogou longe. 

Estava sentado dois bancos após o dela. Achou estranho não tê-lo visto chegar. Eram as únicas pessoas na praça. Era moreno, usava uma jaqueta de couro preta e calças jeans. Ela não conseguia ver-lhe claramente as feições, mas percebeu que tinha um belo nariz grego e mãos de dedos muito longos. Eduarda sentiu-se estranha. Nunca tinha demonstrado nenhum interesse por homens antes, e na escola corria um boato de que era lésbica. Ela mesma duvidava de sua sexualidade, mas como achava que não tinha importância, não pensava muito naquilo. Mas olhando para aquele homem – que aparentava ser mais velho – ela soube que não era lésbica. 

Tentou não olhar muito para ele – disfarçou, continuando a olhá-lo pelo canto do olho. O homem levantou-se e começou a andar na direção dela. Percebeu que ele era alto e magro. Não conseguia mais  enxergar seu rosto , pois a luz do poste atrás dele tornava suas feições totalmente negras. Ela via apenas a silueta esguia se aproximando dela. Sentiu muito medo.

De repente, levantou-se e saiu correndo. Não olhou para trás. Correu até não poder mais. Quando parou, estava em frente à sua casa. Não a casa de Annette e Fernando, mas a SUA casa.
Pulou o portão de ferro e caiu no jardim. 

Sabia onde tinha uma cópia da chave; estava na garagem, dentro do porta-luvas da velha limusine. Jorge a deixara ali, caso um deles chegasse em casa e Dora estivesse bêbada demais para destrancar a porta.
Ela retirou a lona empoeirada e pegou a chave. Não se preocupou em cobrir a limusine novamente, correndo para a porta dos fundos, que abriu rapidamente e, entrando, bateu-a e trancou-a.
Encostou-se à porta e esperou, no escuro, até que sua respiração se normalizasse. Só então acendeu a luz. Seus tios lhe disseram que estavam pagando todas as contas da casa até que ela decidisse o que queria fazer com ela. Por isso, a casa tinha luz. Seus tios tinham certeza absoluta que ela faria o que era sensato, ou seja, livrar-se da casa, por o dinheiro numa conta bancária para ela e mudar-se para a casa deles definitivamente. Eduarda pensou que eles estavam quase certos, a não ser pela última parte.

Tudo parecia igual à última vez que estivera ali, no dia que tudo acontecera. Mas não; o chão ainda estava limpo, aliás, parecia mais limpo do que da última vez. Olhou em volta: as paredes tinham sido pintadas? Surpreendeu-se ao percebê-lo. Foi até a sala , e viu que tudo tinha sido meticulosamente limpo, encerado, esfregado, até o grande candelabro de cristal que pendia no meio do teto, e que não havia sequer uma só partícula da velha poeira. Os tapetes e cortinas tinham sido lavados, e os mais puídos tinham sido substituídos. Seus tios cuidaram de tudo! Correu até a janela e percebeu que o jardim estava diferente. A velha fonte tinha sido consertada, e jorrava água pela primeira vez desde que ela se lembrava, e o gramado tinha sido cortado, as roseiras aparadas, as árvores limpas das ervas daninhas. Na cozinha, os azulejos antigos tinham sido recolocados no lugar, e os que estavam quebrados, tinham sido substituídos por cópias idênticas.

A escadaria que levava ao andar de cima tinha sido forrada com um tapete vermelho. Ela a subiu. Parou diante do corredor e acendeu as luzes. O lustre de cristal, que estava sempre fosco e empoeirado, desta vez brilhou. Então ela se lembrou da caixa. Um certo pânico tomou conta dela, pois se gente tinha estado trabalhando na casa, poderiam muito bem ter achado seu tesouro e o levado dali. Correu até o quarto dos pais, e hesitou, antes de empurrar a porta e entrar. 
Tudo tinha sido limpo e arrumado, e as paredes, pintadas, como nos outros cômodos. O cheiro de cêra era ainda mais forte por ali. Pegou o banquinho da penteadeira e subiu nele, tateando com as mãos o topo do armário, quase em pânico, até que sentiu o veludo da caixa. Agarrou-a e trouxe-a para baixo.
Sentou-se na cama com o coração dando saltos em seu peito, e forçou o trinco da caixa, que se abriu com um estalido.

Ela deparou com um colar de enormes esmeraldas, incrustradas em quadrados de ouro amarelo e branco, alternadamente, circundadas por pequenos brilhantes. Na verdade, achou-o feio e antiquado, mas o importante era o quanto ele valia. Viu os brincos de diamantes: achou que se pareciam com o candelabro da sala, tão grandes e brilhantes eram. Pegou-os e sentiu seu peso. Colocou-os nas orelhas e foi olhar-se no espelho. Eles cintilavam sob seu cabelo.

Sua mãe não estava brincando. Por trás do colar, havia um papel de uma joalheria , uma avaliação por escrito, datada de 6 anos atrás. Eduarda pegou o papel amassado com as mãos trêmulas e leu, mal acreditando naqueles números. Ela engoliu em seco; leu novamente a parte que estava por extenso. Continuou lendo e lendo, até que notou que aquela avaliação referia-se apenas ao colar de esmeraldas. Viu que o papel era um pouco grosso, e que de fato, havia mais uma folha. Umedeceu o dedo na saliva e descolou o segundo papel ; era a avaliação dos brincos. Ela tinha em suas mãos uma pequena fortuna!
Instintivamente, levou as mãos às orelhas.

Guardou tudo dentro da caixa novamente. Teria que pensar bastante antes de decidir qualquer coisa. Afinal, agora tinha dinheiro suficiente para fazer uma reforma total na mansão, se quisesse. Ou poderia vendê-la – sabia que ela era muito valorizada - e aumentar sua fortuna. A menina que sempre tinha sido pobre, vestindo , muitas vezes, roupas de segunda mão, e passando noites em claro a fim de estudar para conseguir uma bolsa , agora tinha o mundo aos seus pés.
Lembrou-se da recomendação de sua mãe: “ seja feliz e siga sem culpas.”
Eles estavam mortos. Mas ela nunca os amara tanto como naquele momento, e quis, sinceramente, que eles estivessem ali com ela. Talvez, se Dora não tivesse sido tão egoísta, se tivesse acreditado um pouco em seu pai, a vida deles poderia ter sido bem melhor. 

Pela primeira vez desde que eles se foram, ela chorou. Andou pela casa, onde agora todos os banheiros funcionavam, agarrada à caixa. Seu quarto tinha sido todo pintado de verde-hortelã, e sobre sua cama tinham colocado um edredon de seda verde-escuro. As cortinas eram brancas, de seda, como sempre sonhara. Achou irônico que, para que ela tivesse tudo que sempre sonhara, fora preciso que ela perdesse tudo que, só agora sabia, verdadeiramente amava.

Pensou nos tios. Achou que seria melhor ligar para eles e dizer que não se preocupassem, que ela estava bem. Ouviu a voz chorosa de Annette do outro lado da linha, e depois a de Fernando, que agarrara o fone. Certificou-os de que estava bem e que necessitava ficar um pouco sozinha. Despediram-se dela, ela lhes desejou um Natal muito feliz, Annette chorou mais um pouco e Eduarda desligou o telefone.
Os armários da casa tinham sido esvaziados. Apenas as suas roupas tinham sido mantidas. Ela pegou um de seus jeans, uma blusa de lã e seu chinelo de pano. Tirou aquelas roupas que a sufocavam e vestiu-se com as velhas. 

Quando sentiu que todas as suas lágrimas tinham secado, respirou fundo e percebeu que pela primeira vez em sua vida, sentia-se realmente leve, em paz e feliz.


(CONTINUA...)





terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Armadilhas - Capítulo II




Capítulo 2 - A Morte

O aniversário de quatorze anos de Eduarda foi comemorado com um bolo simples, comprado pelo pai na padaria da esquina. Getúlio estava presente, e esforçou-se para participar, e Eduarda notou que ele estava estranhamente alegre naquele dia. Até ajudou a servir o bolo.
Eduarda ganhou de presente de Jorge um novo par de jeans e de Dora, uma camiseta cor de rosa bordada na gola, que ela tinha visto numa vitrine e adorado.
Foi uma noite feliz, uma das poucas noites felizes em família da qual ela, mais tarde, se lembraria.
Mas, um ano mais tarde, os quinze anos de Eduarda foram conturbados. Getúlio tinha sido preso por porte de arma. Seus pais passaram a tarde na delegacia, e voltaram para casa taciturnos e cansados, trazendo consigo Getúlio, que tinha um olho roxo. O irmão tinha então dezenove anos de idade e nenhuma perspectiva de vida. Deixara de estudar no ano anterior, e agora tinha crises de temperamento durante as quais quebrava coisas dentro de casa para logo depois sair batendo a porta e sumir por dias e dias.
Naqueles momentos horríveis, Eduarda lembrava-se da caixa de jóias sobre o guarda-roupas da mãe e sentia-se menos infeliz.   
Os anos foram passando, trazendo dias infelizes, outros um pouco melhores, mas sempre melancólicos. 
Numa manhã de domingo, Eduarda entreabriu os olhos na penumbra do quarto. Uma nesga de sol entrava pela janela, e ela podia escutar passarinhos cantando na ameixeira do jardim, próxima á sua janela. Deixou-se ficar assim, deitada na cama, pensando que daqui a poucos dias faria dezoito anos e, como sua mãe lhe prometera, teria seu passaporte para a faculdade garantido. Em breve, deixaria aquela vida melancólica para trás e iria finalmente começar a viver. Sentia pena de Getúlio, mas ela mesma percebia que a vida do irmão não tinha mais jeito. Principalmente porque ele se recusara a seguir um tratamento, e nessas situações, fica muito difícil para a família fazer alguma coisa. 
Mas ela não queria pensar em nada triste naquela manhã gloriosa.
Levantou-se e sentou-se na cama, espreguiçando-se. Calçou seus chinelinhos de pano , já gastos, mas ainda confortáveis, e abriu as cortinas. Um lindo dia estava começando, um daqueles dias perfeitos, em que nada pode dar errado. Até mesmo o jardim estava mais bonito, pois seu pai tinha aparado a grama e arrancado parte do mato. Algumas roseiras floresciam, a fonte tinha sido lavada na semana anterior – embora continuasse quebrada – e , aproveitando uma saída da mãe na a tarde do dia anterior, Eduarda tinha varrido a casa , tirado o pó e lavado o banheiro e a cozinha. Não se podia dizer que a casa estava limpa, mas pelo menos estava bem melhor. 
Eduarda saiu do quarto e começou a descer as escadas, segurando-se no corredor de madeira, desfrutando a maravilhosa sensação de senti-lo limpo sob sua mão. Do alto da escadaria , observou a sala de estar ainda arrumada, sem guimbas de cigarro sobre a mesa.
Todos ainda dormiam, e ela foi preparar o café. A casa estava silenciosa, cortinas fechadas, e ao passar no corredor a caminho da cozinha, sentiu com prazer o aroma de desinfetante. Pensou no quanto ficou apreensiva, no dia anterior, achando que sua mãe faria mais um daqueles discursos que fazia toda vez que Eduarda tentava limpar a casa, mas na verdade, Dora pareceu nem perceber a mudança. Chegou da rua feliz , quase saltitante, estranhamente sóbria, beijou a filha na testa enquanto ela ainda estava tirando o pó da mesa da sala, e foi cantarolando para a cozinha cheia de pacotes de comida pronta.
Naquele sábado, tiveram uma refeição maravilhosa, para variar, embora Getúlio tivesse levado seu prato para comer no quarto. “Era até melhor não ter que olhar para seu rosto macilento,” ela pensou, cheia de culpa. A conversa á mesa foi agradável. Falavam das notas brilhantes de Eduarda, e Jorge comentou que estava feliz, pois sabia que a filha teria vaga garantida numa universidade federal. Dora olhou a filha por sobre a travessa de macarrão e piscou-lhe um olho cúmplice.
Depois do almoço, Eduarda e o pai foram sentar-se nos degraus da varanda, enquanto Dora colocava a louça suja na pia.
Ela raramente ficava sozinha com o pai. Olhou-o de soslaio: ele apontava e comentava sobre a ameixeira carregada , os olhos dele brilhavam. Eduarda percebeu algumas rugas no canto dos olhos que se acentuavam quando ele ria, e os cabelos ficando grisalhos nas têmporas. Uma barriguinha caía por sobre o cós da calça, mas mesmo assim, Eduarda concluiu que, definitivamente, Jorge era um homem ainda bonito. Ao contrário de sua mãe, destruída pelo álcool, cheia de rugas prematuras, a pele ficando flácida , os cabelos desgrenhados, ou presos com elástico num rabo de cavalo. Então ela fez a pergunta que jamais se atrevera a fazer. 
Ele olhava o horizonte e, passando a mão pela testa suada, comentou que teriam chuva no final da tarde. Estava muito quente, e havia nuvens se formando. Eduarda cortou-lhe a fala bruscamente:
-         Pai, o senhor trai a mãe?
Ele ficou calado por uns instantes, tentando entender a pergunta. Percebeu que sua filha já era adulta. Depois, virou-se para ela e respondeu, e ela sentiu que havia verdade naquele olhar.
-         Eu nunca traí sua mãe.
-         Mas para onde você vai, quero dizer, quando vocês brigam, e você chega sempre tarde da noite?
Ele sorriu tristemente.
-         Eu ando.
-         Como assim?!
-         Assim mesmo. Eu vou andar.
-         O tempo todo?
-         Não, ás vezes eu sento num banco de praça, ou entro num bar para beber alguma coisa.
-         E em que você pensa?
-         Eu penso no que a nossa vida se transformou. 
Ela sentiu muita pena dele. Passou o braço pelo braço de Jorge.
-         Por que você nunca a deixou, pai?
-         Porque eu a amo, e sua mãe é uma mulher muito, muito doente. Mas não foi sempre assim. Acho que o trauma que ela passou com os pais, quero dizer, o abandono do pai, o suicídio da mãe, foi tudo terrível para ela. Ela tentou levar uma vida normal, mas na verdade, nunca superou.
-         Mas você não percebeu isso quando a conheceu?
-         Só percebi depois que nos casamos, uns dois ou três anos depois. Numa noite em que eu precisei chegar mais tarde em casa. Eu a encontrei bêbada, sentada no chão da cozinha. Foi a primeira vez que ela bebeu.
-         E depois foi sempre assim?
-         Foi. Nem eu sei onde foi exatamente que nós nos afastamos. Acho que foi quando eu sugeri que ela vendesse a casa. Para livrar-se das lembranças. Você já sabe que esta casa pertenceu à sua avó, era a casa para onde ela se mudou com Dora depois que o marido a deixou, e que ela se matou aqui. Mas Dora achou que eu estava apenas tentando ficar com o seu dinheiro.
-         É, eu ouço essas estórias desde que eu existo.
Jorge puxou o maço de cigarros no bolso da calça, acendeu um deles e foi dar uma volta no jardim. Eduarda ficou observando-o enquanto ele se afastava. Sentiu-se triste por ter despertado nele aquelas lembranças, num dia que tinha tudo para ser quase feliz.
Sentada agora à mesa da cozinha, tomando seu café, ela olhou para o relógio de parede que marcava dez e cinco. A casa continuava silenciosa. 
A chuva da qual o pai falara no dia anterior não chegou, ela pensou, mas talvez no final da tarde... Estava muito calor, e Eduarda resolveu tomar um banho e trocar de roupa. Tomou seu banho demoradamente, deixando-se ficar sob a água morna do chuveiro, imaginando que tudo de ruim em sua vida estava sendo levado pelo ralo, e que quando saísse do banho, seria uma nova pessoa. Sempre fazia aquilo; pelo menos temporariamente, sentia-se melhor.
Depois, deu uma caminhada pelo jardim, mas o sol, estava tão quente que ela voltou para dentro de casa. Pegou uma revista – que já tinha lido algumas vezes – e deitou-se no sofá. Ligou a TV bem baixinho. Acabou adormecendo com o burburinho da TV.
Acordou uma hora depois, com o estômago roncando. Estranhou o silêncio da casa, pois já era hora do almoço e todos ainda dormiam. Achou melhor ir até o quarto dos pais dar uma olhada. Lá fora, nuvens negras juntavam-se umas às outras, transformando o céu numa laje de chumbo.
Subiu as escadas cantarolando. Quando chegou diante da porta do quarto dos pais, bateu e esperou; como ninguém respondesse, chamou “mãe”, mas o silêncio continuou. Podia ouvir os primeiros trovões ao longe, entrecortados pelo badalar do carrilhão que ficava pendurado na parede da sala. Ele tocou a musiquinha de sempre e bateu uma hora da tarde.
Eduarda abriu a porta e olhou para dentro do quarto. Viu a silhueta dos pais sob o lençol . As cortinas ainda estavam fechadas. Entrou e abriu-as, dizendo: “ já é hora do almoço, vamos levantar?” Mas só o silêncio respondeu.
Enquanto abria as cortinas, percebeu que começara a chover. Olhou novamente para dentro do quarto. De repente, um calafrio percorreu-lhe a espinha. Começou a perceber que alguma coisa estava errada, muito errada. Respirou fundo, soltando o ar devagar. Chamou pelos dois novamente, mas ninguém respondeu. Caminhou até a cama. Com as mãos trêmulas, tocou o ombro de Dora. Sacudiu-a de leve. Não conseguia ouvir a respiração dos dois. Sacudiu-a mais fortemente, e alguns instantes, estava puxando-lhes o lençol e jogando-o no chão, pulando para cima da cama, sacudindo seus pais. Mas eles não podiam mais ouvi-la. Estavam frios. Estavam mortos.
Achou que aquilo era um pesadelo. Logo acordaria novamente, no sofá da sala, e poderia sentir o cheiro do hálito alcoólico da mãe, o cheiro do cigarro pela casa toda. Poderia escutar o zumbido do walkman de Getúlio no último volume. Encostou-se à parede e deixou-se escorregar até o chão. Ficou sentada por alguns instantes, ouvindo a chuva cair. Fechou os olhos. Mas quando os abriu novamente, deparou com o mesmo cenário de terror.
Jorge estava deitado de lado, olhos fechados. Dora, deitada de costas, tinha as mãos cruzadas sobre o peito e os olhos abertos. Como se esperasse por aquilo. Subitamente, Eduarda compreendeu. Gritou:
-Não... você planejou tudo!
Correu até o quarto de Getúlio, apenas para certificar-se de que estava certa. Ele também estava morto, em sua cama. Todos estavam mortos. Mas por que não ela? Por que ? Gritou, o mais alto que pôde. Depois gritou de novo, e de novo, e de novo. Nem sabia que ainda estava gritando, nem por quanto tempo,quando percebeu que alguém a pegava pelo braço e a levava dali. 
Sentiu a picada de uma agulha, e logo em seguida, uma maravilhosa sensação de paz. Via um teto muito branco passando por sobre ela. Todo seu corpo estava relaxando, relaxando, e percebeu que a luz que brilhava no meio do teto branco estava aumentando de tamanho, até tomar todo o seu campo de visão.


O JARDIM DAS DESILUSÕES – CAPÍTULO VI – FINAL

O funeral aconteceu em um dia especialmente frio no qual uma chuva fina e cortante era derramada em rajadas pelo vento. Os pais...