terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Armadilhas - Capítulo II




Capítulo 2 - A Morte

O aniversário de quatorze anos de Eduarda foi comemorado com um bolo simples, comprado pelo pai na padaria da esquina. Getúlio estava presente, e esforçou-se para participar, e Eduarda notou que ele estava estranhamente alegre naquele dia. Até ajudou a servir o bolo.
Eduarda ganhou de presente de Jorge um novo par de jeans e de Dora, uma camiseta cor de rosa bordada na gola, que ela tinha visto numa vitrine e adorado.
Foi uma noite feliz, uma das poucas noites felizes em família da qual ela, mais tarde, se lembraria.
Mas, um ano mais tarde, os quinze anos de Eduarda foram conturbados. Getúlio tinha sido preso por porte de arma. Seus pais passaram a tarde na delegacia, e voltaram para casa taciturnos e cansados, trazendo consigo Getúlio, que tinha um olho roxo. O irmão tinha então dezenove anos de idade e nenhuma perspectiva de vida. Deixara de estudar no ano anterior, e agora tinha crises de temperamento durante as quais quebrava coisas dentro de casa para logo depois sair batendo a porta e sumir por dias e dias.
Naqueles momentos horríveis, Eduarda lembrava-se da caixa de jóias sobre o guarda-roupas da mãe e sentia-se menos infeliz.   
Os anos foram passando, trazendo dias infelizes, outros um pouco melhores, mas sempre melancólicos. 
Numa manhã de domingo, Eduarda entreabriu os olhos na penumbra do quarto. Uma nesga de sol entrava pela janela, e ela podia escutar passarinhos cantando na ameixeira do jardim, próxima á sua janela. Deixou-se ficar assim, deitada na cama, pensando que daqui a poucos dias faria dezoito anos e, como sua mãe lhe prometera, teria seu passaporte para a faculdade garantido. Em breve, deixaria aquela vida melancólica para trás e iria finalmente começar a viver. Sentia pena de Getúlio, mas ela mesma percebia que a vida do irmão não tinha mais jeito. Principalmente porque ele se recusara a seguir um tratamento, e nessas situações, fica muito difícil para a família fazer alguma coisa. 
Mas ela não queria pensar em nada triste naquela manhã gloriosa.
Levantou-se e sentou-se na cama, espreguiçando-se. Calçou seus chinelinhos de pano , já gastos, mas ainda confortáveis, e abriu as cortinas. Um lindo dia estava começando, um daqueles dias perfeitos, em que nada pode dar errado. Até mesmo o jardim estava mais bonito, pois seu pai tinha aparado a grama e arrancado parte do mato. Algumas roseiras floresciam, a fonte tinha sido lavada na semana anterior – embora continuasse quebrada – e , aproveitando uma saída da mãe na a tarde do dia anterior, Eduarda tinha varrido a casa , tirado o pó e lavado o banheiro e a cozinha. Não se podia dizer que a casa estava limpa, mas pelo menos estava bem melhor. 
Eduarda saiu do quarto e começou a descer as escadas, segurando-se no corredor de madeira, desfrutando a maravilhosa sensação de senti-lo limpo sob sua mão. Do alto da escadaria , observou a sala de estar ainda arrumada, sem guimbas de cigarro sobre a mesa.
Todos ainda dormiam, e ela foi preparar o café. A casa estava silenciosa, cortinas fechadas, e ao passar no corredor a caminho da cozinha, sentiu com prazer o aroma de desinfetante. Pensou no quanto ficou apreensiva, no dia anterior, achando que sua mãe faria mais um daqueles discursos que fazia toda vez que Eduarda tentava limpar a casa, mas na verdade, Dora pareceu nem perceber a mudança. Chegou da rua feliz , quase saltitante, estranhamente sóbria, beijou a filha na testa enquanto ela ainda estava tirando o pó da mesa da sala, e foi cantarolando para a cozinha cheia de pacotes de comida pronta.
Naquele sábado, tiveram uma refeição maravilhosa, para variar, embora Getúlio tivesse levado seu prato para comer no quarto. “Era até melhor não ter que olhar para seu rosto macilento,” ela pensou, cheia de culpa. A conversa á mesa foi agradável. Falavam das notas brilhantes de Eduarda, e Jorge comentou que estava feliz, pois sabia que a filha teria vaga garantida numa universidade federal. Dora olhou a filha por sobre a travessa de macarrão e piscou-lhe um olho cúmplice.
Depois do almoço, Eduarda e o pai foram sentar-se nos degraus da varanda, enquanto Dora colocava a louça suja na pia.
Ela raramente ficava sozinha com o pai. Olhou-o de soslaio: ele apontava e comentava sobre a ameixeira carregada , os olhos dele brilhavam. Eduarda percebeu algumas rugas no canto dos olhos que se acentuavam quando ele ria, e os cabelos ficando grisalhos nas têmporas. Uma barriguinha caía por sobre o cós da calça, mas mesmo assim, Eduarda concluiu que, definitivamente, Jorge era um homem ainda bonito. Ao contrário de sua mãe, destruída pelo álcool, cheia de rugas prematuras, a pele ficando flácida , os cabelos desgrenhados, ou presos com elástico num rabo de cavalo. Então ela fez a pergunta que jamais se atrevera a fazer. 
Ele olhava o horizonte e, passando a mão pela testa suada, comentou que teriam chuva no final da tarde. Estava muito quente, e havia nuvens se formando. Eduarda cortou-lhe a fala bruscamente:
-         Pai, o senhor trai a mãe?
Ele ficou calado por uns instantes, tentando entender a pergunta. Percebeu que sua filha já era adulta. Depois, virou-se para ela e respondeu, e ela sentiu que havia verdade naquele olhar.
-         Eu nunca traí sua mãe.
-         Mas para onde você vai, quero dizer, quando vocês brigam, e você chega sempre tarde da noite?
Ele sorriu tristemente.
-         Eu ando.
-         Como assim?!
-         Assim mesmo. Eu vou andar.
-         O tempo todo?
-         Não, ás vezes eu sento num banco de praça, ou entro num bar para beber alguma coisa.
-         E em que você pensa?
-         Eu penso no que a nossa vida se transformou. 
Ela sentiu muita pena dele. Passou o braço pelo braço de Jorge.
-         Por que você nunca a deixou, pai?
-         Porque eu a amo, e sua mãe é uma mulher muito, muito doente. Mas não foi sempre assim. Acho que o trauma que ela passou com os pais, quero dizer, o abandono do pai, o suicídio da mãe, foi tudo terrível para ela. Ela tentou levar uma vida normal, mas na verdade, nunca superou.
-         Mas você não percebeu isso quando a conheceu?
-         Só percebi depois que nos casamos, uns dois ou três anos depois. Numa noite em que eu precisei chegar mais tarde em casa. Eu a encontrei bêbada, sentada no chão da cozinha. Foi a primeira vez que ela bebeu.
-         E depois foi sempre assim?
-         Foi. Nem eu sei onde foi exatamente que nós nos afastamos. Acho que foi quando eu sugeri que ela vendesse a casa. Para livrar-se das lembranças. Você já sabe que esta casa pertenceu à sua avó, era a casa para onde ela se mudou com Dora depois que o marido a deixou, e que ela se matou aqui. Mas Dora achou que eu estava apenas tentando ficar com o seu dinheiro.
-         É, eu ouço essas estórias desde que eu existo.
Jorge puxou o maço de cigarros no bolso da calça, acendeu um deles e foi dar uma volta no jardim. Eduarda ficou observando-o enquanto ele se afastava. Sentiu-se triste por ter despertado nele aquelas lembranças, num dia que tinha tudo para ser quase feliz.
Sentada agora à mesa da cozinha, tomando seu café, ela olhou para o relógio de parede que marcava dez e cinco. A casa continuava silenciosa. 
A chuva da qual o pai falara no dia anterior não chegou, ela pensou, mas talvez no final da tarde... Estava muito calor, e Eduarda resolveu tomar um banho e trocar de roupa. Tomou seu banho demoradamente, deixando-se ficar sob a água morna do chuveiro, imaginando que tudo de ruim em sua vida estava sendo levado pelo ralo, e que quando saísse do banho, seria uma nova pessoa. Sempre fazia aquilo; pelo menos temporariamente, sentia-se melhor.
Depois, deu uma caminhada pelo jardim, mas o sol, estava tão quente que ela voltou para dentro de casa. Pegou uma revista – que já tinha lido algumas vezes – e deitou-se no sofá. Ligou a TV bem baixinho. Acabou adormecendo com o burburinho da TV.
Acordou uma hora depois, com o estômago roncando. Estranhou o silêncio da casa, pois já era hora do almoço e todos ainda dormiam. Achou melhor ir até o quarto dos pais dar uma olhada. Lá fora, nuvens negras juntavam-se umas às outras, transformando o céu numa laje de chumbo.
Subiu as escadas cantarolando. Quando chegou diante da porta do quarto dos pais, bateu e esperou; como ninguém respondesse, chamou “mãe”, mas o silêncio continuou. Podia ouvir os primeiros trovões ao longe, entrecortados pelo badalar do carrilhão que ficava pendurado na parede da sala. Ele tocou a musiquinha de sempre e bateu uma hora da tarde.
Eduarda abriu a porta e olhou para dentro do quarto. Viu a silhueta dos pais sob o lençol . As cortinas ainda estavam fechadas. Entrou e abriu-as, dizendo: “ já é hora do almoço, vamos levantar?” Mas só o silêncio respondeu.
Enquanto abria as cortinas, percebeu que começara a chover. Olhou novamente para dentro do quarto. De repente, um calafrio percorreu-lhe a espinha. Começou a perceber que alguma coisa estava errada, muito errada. Respirou fundo, soltando o ar devagar. Chamou pelos dois novamente, mas ninguém respondeu. Caminhou até a cama. Com as mãos trêmulas, tocou o ombro de Dora. Sacudiu-a de leve. Não conseguia ouvir a respiração dos dois. Sacudiu-a mais fortemente, e alguns instantes, estava puxando-lhes o lençol e jogando-o no chão, pulando para cima da cama, sacudindo seus pais. Mas eles não podiam mais ouvi-la. Estavam frios. Estavam mortos.
Achou que aquilo era um pesadelo. Logo acordaria novamente, no sofá da sala, e poderia sentir o cheiro do hálito alcoólico da mãe, o cheiro do cigarro pela casa toda. Poderia escutar o zumbido do walkman de Getúlio no último volume. Encostou-se à parede e deixou-se escorregar até o chão. Ficou sentada por alguns instantes, ouvindo a chuva cair. Fechou os olhos. Mas quando os abriu novamente, deparou com o mesmo cenário de terror.
Jorge estava deitado de lado, olhos fechados. Dora, deitada de costas, tinha as mãos cruzadas sobre o peito e os olhos abertos. Como se esperasse por aquilo. Subitamente, Eduarda compreendeu. Gritou:
-Não... você planejou tudo!
Correu até o quarto de Getúlio, apenas para certificar-se de que estava certa. Ele também estava morto, em sua cama. Todos estavam mortos. Mas por que não ela? Por que ? Gritou, o mais alto que pôde. Depois gritou de novo, e de novo, e de novo. Nem sabia que ainda estava gritando, nem por quanto tempo,quando percebeu que alguém a pegava pelo braço e a levava dali. 
Sentiu a picada de uma agulha, e logo em seguida, uma maravilhosa sensação de paz. Via um teto muito branco passando por sobre ela. Todo seu corpo estava relaxando, relaxando, e percebeu que a luz que brilhava no meio do teto branco estava aumentando de tamanho, até tomar todo o seu campo de visão.


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