terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Armadilhas - Capítulo VI






Capítulo 6 – A Verdade 

Quase oito meses depois, Eduarda estava tentando levar uma vida normal. Apesar de não ter vendido o casarão, decidiu finalmente ouvir a voz de seus tios e procurar um apartamento. 
Não tivera mais nenhum daqueles estranhos sonhos, e nem tinha recebido mais nenhuma visita de Marcus. Sentia falta dele, no início, mas acabou concluindo que ele era um ser criado por sua própria imaginação. Pelo menos foi o que lhe dissera o Dr. Rubens. Sim, ela aceitara ver um psicólogo indicado por Annette, e já estava na quinta visita quando finalmente falou-lhe sobre Marcus.

Ela e Annette passavam as tardes visitando apartamentos de todos os tipos: na cidade, nos bairros, grandes, pequenos. Mas nenhum deles agradava Eduarda. Ainda morava no casarão, apesar dos protestos dos tios. Queria ser independente e ter sua própria vida, sua privacidade. Quando não estava com a tia procurando apartamentos, estava pensando sobre qual o curso que faria na faculdade, quando terminasse o cursinho de vestibular que começara há dois meses ( onde tinha até feito alguns amigos, para alegria de Fernando), ou então estava na academia de ginástica, seguindo os conselhos de Dr. Rubens sobre movimentar o corpo e socializar-se.

Já tinha até aceito alguns convites para festas, as quais compareceu mas logo foi embora, pois não se sentia muito bem entre multidões.Mas Dr. Rubens lhe assegurara que estava tudo bem, ninguém era obrigado a gostar de festas.
Cada vez mais ele parecia transformar-se em uma espécie de guru para ela. Tudo o que pensava ou fazia, ela tentava adivinhar o que ele acharia. Uma vez disse isso a ele, ao final de uma das consultas, e ele disse que ela precisava fazer suas próprias escolhas, baseada em suas próprias convicções, e que a opinião dele não deveria ser tão importante. 

Eduarda sentiu-se murchar um pouco por dentro, pois tinha-o como um guia, alguém que faria com que ela emergisse novamente (ou finalmente) do lado onde a vida acontecia. Não sabia ainda se tinha forças para tomar decisões , estabelecer metas. Percebeu que , sempre que saía para ver um novo apartamento, Annette estava junto com ela. Até mesmo no dia em que se matriculara no curso, pedira a ajuda da tia. E ela tinha sido sempre uma menina muito independente quando sua família era viva, talvez até por saber que não poderia mesmo contar muito com a ajuda deles. Mas agora, que podia desfrutar do carinho e da atenção das pessoas que a cercavam, estava se deixando conduzir, entrando numa zona de conforto, como se estivesse dando a si mesma umas certas férias emocionais. Era mais fácil deixar que eles lhe dissessem o que fazer.

Um dia, no final de uma tarde ensolarada, saiu para dar uma caminhada. Exercitar-se tornara-se um hábito para Eduarda, e realmente, fazia com que ela se sentisse muito bem.
Caminhou até o final da Rua Ipiranga, parando para apreciar o final do dia num dos banquinhos que ficavam na pracinha da catedral. Sentou-se de frente para a linda catedral gótica, apreciando o jeito como os raios de sol, já enfraquecidos, deixavam-na levemente alaranjada, contra um céu de nuvens pesadas e cinzentas. Ao longe, por trás de tudo, um fraco arco-íris podia ser visto nascendo por trás das montanhas. Uma tarde perfeita.
Lembrou-se de um dia , quando era bem criança ainda, e seu pai a chamara para ir até o jardim ver um arco-iris. Tinha sido numa tarde parecida com aquela. Ela estendeu os braços para ele, que a ergueu no colo e apontou para o céu. Ela nunca tinha visto um arco-íris antes.

Estava perdida nestas lembranças, quando sentiu que Marcus estava sentado a seu lado.
- Marcus! Você sumiu!
- Não, eu estou sempre por perto. Você é quem tem fugido de mim.
Ela virou-se para ele. Viu que ele parecia triste.
- Como assim? Eu tenho sonhado com você, sinto sua falta. Por que diz que eu tenho fugido de você, quando é você que não vem me ver?
- Acho que estou falhando em minha missão, Eduarda.
Ela não respondeu, continuando a olhar para ele. Ele fitou-a:
- Não posso obrigá-la a nada. Não posso forçar que se lembre de algo que não quer. Mas preciso tentar, pois qualquer decisão que você tome em relação a sua vida deve estar baseada na verdade. Eu gostaria que você não escolhesse viver na mentira.
- Bem, mas de que verdade você está falando?
- Venha; vamos até a sua casa.
Caminharam lado a lado até chegarem ao portão. O dia terminara, e as luzes dos postes começavam a se acender. Carros passavam, pessoas ansiosas para chegarem a suas casas. Entraram. Eduarda sentia que aquele era um momento solene.
- Eu tenho medo, Marcus. Tenho medo daquilo que você quer que eu lembre.
- Mas você tem uma escolha, Eduarda. 

Eles se sentaram de frente um para o outro na sala de estar. Começou a escurecer e ela acendeu a luz central, mas ele caminhou até o interruptor e apagou-a, ligando apenas um abajur no canto da sala.
- Todos cometem erros. É uma condição da raça humana. Embora condenemos uns aos outros pelos erros que cada um cometeu, ninguém deve ser condenado por nada, pois tudo faz parte de um aprendizado maior. Mas é importante que saibamos exatamente se o que fizemos foi errado.
- Para que sejamos punidos?
- Não; para que não façamos escolhas baseadas em equívocos.
- Mas... e o pagamento pelos erros cometidos?
- Os homens acham que devem sempre punir outros homens. Não percebem que são todos galhos e folhas de uma mesma árvore, e que o que acontece a um deles, acontece a toda a árvore. No seu caso, você apenas achou que estava escolhendo a felicidade. Que era sua por direito. Apenas seguiu aquilo que sua mãe mandou.

Eduarda sentiu-se gelar. Num segundo, a sala perdeu sua dimensão, e o rosto de Marcus foi perdendo o foco. No lugar dele foi surgindo novamente a cena do último dia. Ela tentou voltar, não queria ver aquela cena até o final, mas ele lhe disse que seria melhor se ela enfrentasse aquilo de uma vez e se livrasse, finalmente, de todos os seus fantasmas.
- E ela estava novamente no quarto de sua mãe, segurando a carta que ela escrevera. Entendeu que, o tempo todo, ela sabia do que estava por acontecer! Viu-se lendo o bilhete e colocando-o de volta no envelope, saindo do quarto. Lembrou-se de algo que até então tinha permanecido apagado de sua memória. Algo que acontecera alguns minutos depois de ela ter lido o bilhete.
Seu pai estava sentado na sala, antes do almoço, lendo o jornal. Ela chegou por trás da poltrona e enlaçou-lhe o pescoço, beijando-lhe o rosto. Ele pareceu surpreso, pois cenas como aquela jamais aconteciam naquela família há muitos anos, desde que tinham se perdido uns dos outros.
Ele largou o jornal e puxou-a para sentar-se em seus joelhos. Ela ficou um pouco sem-jeito, e olhou para o chão, mas o pai levantou seu queixo, obrigando-a a olhá-lo.
- Minha querida filha, quero que saiba que, não importa o que aconteça , a única coisa que me interessa é que você seja muito feliz. Eu a amo muito, muito mesmo.
- Eu também te amo, pai.
Depois, eles se abraçaram meio sem-jeito.
- Agora me deixe ler o jornal.

Eduarda foi até a cozinha e viu que Dora cantarolava enquanto lavava a louça. Estava sóbria e serena. Virou-se para ela quando a viu parada junto à porta e piscou um olho. Sem dizerem nada, Eduarda caminhou até sua mãe e ambas se abraçaram.
Logo após, Eduarda subiu para seu quarto. No corredor, encontrou -se com Getúlio. Ele a olhou por alguns segundos antes de entrar em seu próprio quarto. Sorriram um para o outro. Desajeitadamente, ele tocou os cabelos de Eduarda. Depois, cada um entrou em seu próprio quarto.

Eduarda revivia aquelas cenas. Lembrava-se claramente delas, agora. Não conseguia aceitar o que tinha feito! Tinha permitido que Dora, em sua loucura, tivesse matado a si mesma e à toda a família! Ela soubera de tudo e não fizera nada para impedir. 
Quando deu por si, estava novamente na sala. Chorava, e Marcus a abraçava. Deixou-se ficar em seus braços, sem dizer palavra. Sabia que , no fundo,elas não eram necessárias. Finalmente, ele perguntou:
- Como se sente agora?
- Muito mal, mas estranhamente calma. Acho que só me resta procurar reparar o que eu fiz.
- Como?
- Vou me entregar à polícia, é claro, pois sou cúmplice de um crime horrível, eu...
Marcus levantou-se, caminhando até o outro lado da sala. Virou-se para ela:
- Vocês, sempre pensando em culpa, punição, culpa, punição... 
- Mas o que você me sugere? - ela estava gritando – que eu viva em paz depois de tudo isso? Que eu desfrute de todo o dinheiro, como se nada tivesse acontecido?

De repente, ela entendeu: Fernando e Annette sabiam! Tinham se tornado seus cúmplices. Mas ela, somente ela, merecia ser punida, pois tinha se calado quando podia ter impedido.
Marcus ergueu uma das mãos em sua direção:
- Isso ainda não é tudo! Você se lembrou de coisas que já sabia, mas agora precisa ficar sabendo de outras que nem sequer imagina.
- Chega! Não quero, não quero! Eu odeio você! Eu... me odeio...
- Eles fizeram o que acharam que era certo. Veja.
Ela não queria mais ver, protestou. Mas foi em vão. Marcus projetou-a novamente para aquele dia.
E ela soube de toda a verdade.
Viu quando Getúlio entrou no quarto dos pais logo depois que ela mesma saiu, e viu quando ele leu o bilhete. Depois, viu quando Jorge fez a mesma coisa. 
Todos sabiam, o tempo todo. E todos concordaram. E ela lia seus pensamentos, e via que todos concordaram porque queriam que ela, pelo menos ela, tivesse uma chance de mudar a estória da família.

Getúlio:
“Não existia mais nenhuma chance para mim. Eu não tinha remédio, não passava de um drogado idiota, sem perspectiva nenhuma, sem vontade de viver. E para dizer a verdade, senti alívio depois que soube dos planos de nossa mãe. Eu nunca soube o que é ser feliz. Tenho certeza de que teria levado uma existência miserável. Mas você é diferente. Você é a parte boa do que sobrou de nós.”

Jorge:
“ Concordei com tudo porque amo você. Concordei porque sei que esta seria sua única chance de levar uma existência sem pesos para arrastar atrás de si. Imagine, como você poderia levar uma vida normal, ter amigos, casar-se e formar uma família tendo atrás de você pessoas como nós? Um bando de fracassados. É isso que somos. Agora você poderá ter a liberdade de escolher a vida que quiser para si mesma , um futuro – e um passado – novos. Mas, eu fiz isso principalmente, por um outro motivo: se eu não concordasse, a indiferença de Dora por mim ter-se ia transformado em ódio. Eu não poderia viver sabendo que Dora me odeia. Agora, pelo menos, ela me respeita. E, finalmente, se tiver que pagar por isso,que o amor seja minha punição.”

Dora:
“ Bem, aí está. Eu acho que já disse tudo o que tinha para dizer naquele bilhete que deixei. Além do mais, sei que além deste limbo onde nos encontramos, um dia, cedo ou tarde, alguém vai se lembrar de nós e nos dar uma nova chance. E então eu espero, sinceramente, que sejamos espertos o suficiente para não estragar tudo de novo. Você sabe. Que nosso amor – e nosso ódio- sejam nossa redenção.”


Um comentário:

  1. Boa tarde
    dei uma passadinha pra te deixar uma braço.
    bjs
    http://eueminhasplantinhas.blogspot.com.br/

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