segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

INOCÊNCIA - Capítulo XI, Parte I









CONVENÇÕES

- Às vezes, minha pequena amiga, é preciso ir contra as convenções.

 Cristina me disse aquilo na tarde do dia seguinte, enquanto nós duas caminhávamos de mãos dadas pela estradinha que levava até o riacho. Tudo já tinha sido limpo, e os caminhos estavam desobstruídos outra vez. Meus primos voltaram para sua casa, Berta estava trancada em seu quarto e ela me chamou para dar uma volta à pé antes do jantar. Eu olhei para ela, tentando desvendar em seu olhar meigo e incerto, o mistério daquelas palavras, profundas demais para mim. Perguntei a ela o que significava a palavra 'convenções.' Cristina sorriu: 

- São coisas que as outras pessoas dizem que a gente tem que fazer. É como os outros querem que a gente viva, entende? Eu não quero saber de convenções, Yara. Vou ter o meu próprio salão de beleza um dia, e não vou depender de ninguém, nem mesmo dos meus pais. Ou do meu marido.

 -E você vai se casar com o Marcelo?

 Ela deu um longo suspiro, e parou para colher um dente de leão, soprando-o devagar, vendo as sementes que alçavam voo a um destino tão desconhecido quanto a resposta àquela pergunta.

-Não sei... mas eu gostaria.

 E eu perguntei a ela por que alguém poderia ser contra. Ela me puxou para um tronco caído, onde nos sentamos e ficamos olhando o rio, que estava caudaloso por causa da última chuva. Cristina disse: 

-Bem, segundo as convenções – estas que eu nunca vou seguir – eu e seu primo jamais poderemos nos casar. Ele é rico, eu sou pobre; ele é branco, e eu sou mulata, filha de uma negra; ele tem estudo, vai se formar na faculdade... e eu nem posso sonhar com isso.

 Parei para pensar longamente no que ela tinha me dito. Foi a primeira vez que eu estive diante daquelas ideias, e analisei-as com cuidado. Então havia uma diferença entre a família de Cristina e a nossa, e eu acabara de descobrir, definitivamente, qual era. Lembrei-me do dia em que Berta a apresentara a Sebastian como sendo “Cria da casa.” E do quanto ela aparentara estar triste e cabisbaixa depois daquilo, e também da bronca que os pais deram nela naquela mesma noite, e que eu ouvira por acaso.

Senti-me solidária com a minha amiga, e deitei a cabeça no ombro dela. Ficamos assim durante algum tempo, e depois ela se levantou e me puxou, me desafiando para uma corrida de volta à casa.

Quando chegamos, estavam todos reunidos na sala de estar. Logo vi que as coisas não iam bem, através do olhar preocupado de todos. Flora enxugou uma lágrima furtiva no avental quando me viu, e Eugênio cutucou-a com força, falando alguma coisa em seu ouvido. Berta estava sentada no sofá, o rosto entre as mãos, a expressão preocupada. Logo pensei que alguma coisa poderia ter acontecido a papai. Flora e Berta se entreolharam, como a se perguntarem quem nos daria a notícia. Berta adiantou-se:

-Gente... acabamos de receber um telefonema de Tia Aurora...

Senti um aperto por dentro ao perceber que poderia se tratar de papai. Ela continuou:

-Tio Antônio e ela sofreram um acidente de carro. Infelizmente, ele faleceu.

Eu logo pensei em Joana, e Cristina deixou escapar, sem querer, o nome de Marcelo entre os lábios aflitos, o que não passou despercebido pelos olhos e ouvidos de águia de Flora. Em tom de ironia, Flora disse a ela que “Seu” Marcelo – enfatizando bem o “seu” - estava bem, e que o acidente tinha sido com Tia Aurora e Tio Antônio.

Cristina não respondeu. Eu comecei a chorar, e pedi a Flora se eu poderia ver Joana. Ela me respondeu que Joana estava em casa de uma amiga da escola  e que  Marcelo estava na capela, a espera da chegada do corpo – o acidente tinha sido em São Paulo, onde o meus tios  estavam – e que mamãe logo estaria em casa para nos buscar. Cristina mais uma vez deixou escapar uma indiscrição: 

-Meu Deus! O Marcelo está lá, sozinho? Alguém precisa ficar com ele, dar-lhe apoio!

 Eugênio vociferou: 

-Alguém da família fará isso, ouviu, minha filha? Não precisa se preocupar.

Cristina correu da sala, em direção à cozinha. Flora mandou que eu e Berta tomássemos banho e nos aprontássemos. Como não tínhamos nenhuma roupa escura, mamãe traria algo para vestirmos. Dizendo aquilo, ela foi para a cozinha.

Enquanto eu subia as escadas, ouvi os protestos de Cristina quando ela descobriu que não tinha permissão para ir conosco.

Três horas mais tarde, nós já tínhamos almoçado quando mamãe chegou. Não vi mais Cristina. Perguntei por papai, e ela disse que ele não poderia ir, pois estava fazendo um tratamento sério. Não podia deixar o hospital. Mamãe estava muito abatida, e tinha perdido alguns quilos. Mesmo assim, achei-a bonita. Eu estava com tantas saudades dela, que a abracei durante muito tempo quando a vi.

Foi meu primeiro velório. Tia Aurora, com o braço enfaixado e alguns arranhões superficiais no rosto, muito bem disfarçados por maquiagem, estava sentada em uma cadeira ao lado do caixão. Ela segurava um lenço de renda branca, e estava toda vestida de preto: vestido, chapéu, óculos escuros e um par de sapatos de saltos altos. Parecia pronta para um desfile de modas fúnebre. Mamãe nos empurrou na direção dela, e nós a abraçamos rapidamente, repetindo a frase que mamãe nos ensinara exaustivamente durante a viagem, no carro: 

-Meus sentimentos, Tia Aurora. Agora ele descansa em paz.

 Eu e Berta dissemos exatamente a mesma frase, e aquilo me pareceu estranho. Tia Aurora nos cumprimentou com um aceno de cabeça, dizendo um “obrigada” choroso. Meu rosto ficou molhado depois que tocou o dela, e aquilo me incomodou, então enxuguei-o com as costas da mão disfarçadamente.

Ao lado dela, de pé, estavam Joana e Marcelo.

Nós os abraçamos também, e eles choravam muito. Depois fomos nos sentar. Fiquei observando as pessoas que entravam e saiam da sala, e tentando escutar o que diziam no meio do burburinho. Acabei com vontade de ir ao banheiro, e fui até lá, fechando a porta de um dos compartimentos. Enquanto eu esvaziava a minha bexiga, escutei ruídos de saltos e duas mulheres entraram conversando. Uma delas disse: 

-Que infelicidade, um homem tão jovem e tão bom, com dois filhos  para cuidar!

A outra concordou, respondendo: 

-Pois é... e todos esperavam que fosse o outro a  morrer... o cunhado! Dizem que ele tem a doença ruim e que vai a qualquer momento.

Aquela conversa me atingiu em cheio. Fui tomada de um choro convulsivo, que consegui controlar até as duas saírem, e depois que explodi em lágrimas, lavei o rosto com água gelada da pia e voltei para a sala de velório. Durante o resto do tempo, eu acho que chorei mais do que qualquer um dentro daquela sala. Mas todos pensavam que era por causa de Tio Antônio.

Aquele foi um velório estranho. Minha tia Aurora estava “dopada”, diziam vozes em sussurros. Perguntei à Berta o que aquilo significava, e ela me explicou que alguém tinha feito com que ela engolisse um calmante. Ela olhava para o rosto de Tio Antônio – ou o pedacinho do rosto que estava exposto, pois todo o corpo tinha sido cuidadosamente coberto por flores – e balançava a cabeça para os lados, como quem diz “não”, e murmurava palavras inaudíveis que mamãe me dissera serem orações pela alma dele. Alma? Eu nunca tinha parado para pensar na morte antes, já que era o meu primeiro velório, pois não cheguei a conhecer meus avós, que morreram quando eu ainda era bebê ou antes disso.

Se Tio Antônio tinha uma alma – que, segundo me explicou Berta, era um vento que morava dentro da gente e que fazia com que o corpo se movesse, e que continuava existindo depois que a gente morria, no inferno ou no paraíso, então eu também tinha uma. E todo mundo tinha uma. E os animais? Será que também tinham?

Eu estava mais calma, sem pensar em papai e na possibilidade de sua alma deixar o corpo em breve, tão entretida que estava com esses pensamentos, quando de repente uma mulher toda de preto, usando um chapéu de onde saía um véu preto que cobria seu rosto, adentrou a sala. Ela pareceu estudar as pessoas cuidadosamente, hesitando antes de entrar. Olhou para Tia Aurora, que a olhou de volta, retirando os óculos escuros devagar, e então caminhou até ela cuidadosamente, estendendo-lhe a mão em sinal de pêsames. Tia Aurora a cumprimentou automaticamente. Ela cumprimentou meus primos com um aceno de cabeça, e eles corresponderam. Perguntei à mamãe quem ela era, mas apesar das sobrancelhas franzidas e dos lábios cerrados em sinal de protesto, mamãe me respondeu, sem tirar os olhos dela, que não sabia. Mas eu entendi, na hora, que a maioria daquelas pessoas sabiam quem ela era, e que ela não era bem-vinda ali.

Berta murmurou: 

-Mas quem ela pensa que é? Que cara-de-pau, aparecer aqui assim!

 Mamãe calou-a com um “shsh...” apressado. Fiquei ainda mais curiosa, e tentei andar pelo salão a fim de ouvir as conversas. Fragmentos que me chegaram: 

-Veja como Aurora é digna e consegue manter a compostura! Ah, se fosse comigo!

 Ou: 

-Mas que pouca vergonha! Eu a teria colocado para fora!

 -Quem ela pensa que é? Dizem que era amante dele há anos.

Eu logo compreendi por que Tio Antônio viajava tanto. E fiquei com muita pena de Tia Aurora. A mulher fez uma oração, e enxugou um rio de lágrimas que escorria pelo seu rosto. Tia Aurora tinha recolocado os óculos, e como eles eram grandes, ficava muito difícil tentar adivinhar quais seriam as suas emoções. Meus primos continuaram como se nada tivesse acontecido, e concluí que eles não tinham ideia de quem era aquela mulher. Quando olhei para minha tia novamente, notei que suas mãos tremiam ao levar o lenço ao rosto e secar as lágrimas sob os óculos. Mamãe, sem nada dizer, caminhou até a mulher, pegando-a pelo cotovelo e murmurando algo em seu ouvido. Vi que ela estava muito zangada. Conduziu-a para fora, e as duas desapareceram pelo corredor. Alguns minutos depois, mamãe voltou. Minha tia olhou para ela, e disse um pouco alto demais: 

-Obrigada, Mirtes.

 Mamãe caminhou até ela, e segurando sua mão, fez com que ela se sentasse um pouco no sofá, servindo-lhe uma xícara de café.

Nunca mais eu vi a mulher misteriosa, mas depois fiquei sabendo que ela e Tio Antônio tinham sido amantes durante mais de dez anos, e que ele comprara para ela uma casa mobiliada, um carro e algumas joias valiosas. Achei que minha tia, agora que o marido morrera, tentaria reaver os bens, mas ela viveu a vida inteira ignorando a existência da tal mulher e também o fato de que Tio Antônio jamais pusera a tal casa em nome da amante. A mulher, pelo que sei, vive lá até hoje, apesar de ter se casado apenas alguns meses após a morte de meu tio.

(continua...)





5 comentários:

  1. Oi Ana, sempre fico curiosa com os capítulos seguintes; já ouvi diversos casos que a amante vai ao enterro, é uma situação complexa, porque o fato dela ser amante, não significa que o sentimento dela não mereça respeito, mas a presença dela agrava a dor da família, que tem que encarar além da morte, a magoa da traição.
    Muitos beijos,Vi

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  2. FELIZ DIA INTERNACIONAL DA MULHER
    Neste dia especial para nós mulheres, vim te lembrar que a mulher é uma obra de Deus. Obra do universo. Obra divina.
    Nada é mais bela, nada é mais sensata e bondosa.
    As mulheres tem o poder de abrir sorrisos, com sua doçura.
    Fazem o dia mais belo por onde passam... soltam o perfume do amor através da pele macia.
    Loiras, morenas, ruivas, negras, japonesas... Portuguesas... qualquer nacionalidade. Todas elas com sua beleza única.
    Parabéns mulheres!
    Parabéns pelo seu privilégio de ser Mulher. Parabéns para nós neste dia internacional a nós dedicado!

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  3. Parabéns por mais esse belíssimo conto. Voltarei para acompanhar. Bjuss

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