quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

INOCÊNCIA - Parte I, Capítulo VI







SOBRE SEBASTIAN

 Berta e Sebastian se conheceram no penúltimo ano letivo, quando ele começou a estudar na mesma escola conosco. Sua família tinha acabado de mudar-se, vindos de Porto Alegre, e quando os dois se olharam, foi amor à primeira vista. Berta tinha quinze anos na ocasião, ele, dezessete. Papai não queria que minha irmã namorasse, e houve muitos episódios estressantes por causa disso, mas mamãe acabou convencendo-o de que o que quer que os dois pombinhos pudessem fazer juntos seria melhor se o fizessem com o conhecimento dos pais, ao invés de sem a presença deles. Assim, os dois começaram a namorar em casa, o que naqueles tempos, era sinônimo de namoro sério. Porém, só podiam se encontrar duas vezes por semana, e sempre na companhia de alguém.

Sebastian era atleta na escola. Bonitão, estava sempre cercado de amigos e principalmente, de garotas. Mas ele abdicou de todas elas quando conheceu Berta. Eu tinha uma quedinha por ele, e gostava de fantasiar o dia em que ele olharia para mim e diria: “Nossa, Yara, como você cresceu! Isso me faz pensar que a mulher da minha vida, na verdade é você!” E então ele me beijaria e nós nos casaríamos, vivendo felizes para sempre. Eu tinha apenas nove anos naquela época, e Sebastian me tratava como a uma criancinha. Quase o odiei quando, em um aniversário, ele me presenteou com um fogãozinho de brinquedo!

Quando Sebastian foi à nossa casa pela primeira vez, eu me lembro que me sentei nos degraus mais altos (de onde ele não podia me ver) e fiquei olhando para ele. Uma coisa que eu nunca contei a ninguém, nem mesmo anos depois, foi o seguinte: Cristina entrou na sala com uma jarra de suco, e começou a servi-lo. Ela tinha prendido os cabelos, e estava muito bonita em um vestido azul-claro que fora de Berta. O vestido marcava sua cintura fina e mostrava suas canelas bem torneadas. Quando ela se inclinou para servi-lo, vi que Sebastian quase mergulhou dentro do decote do vestido dela. Cristina sorriu para ele, e ele retribuiu o sorriso, perguntando: “Quem é você?” Ela baixou os olhos, e murmurou seu nome. Os dois ficaram se olhando por um tempo, e ela finalmente deixou a sala. Naquele momento, Berta passou por mim, que ainda estava sentada nas escadas, e começando a descer, me disse para não ficar bisbilhotando. Meus pais chegaram na sala e os três cumprimentaram Sebastian.

Apesar das advertências de  Berta, eu não deixei meu posto, e continuei bisbilhotando aquele moço bonito que tinha ido namorar a minha irmã. De repente, Cristina entrou na sala novamente para avisar que o jantar estava servido, e vi que os olhos de Sebastian novamente se arregalaram ao olhar para ela. Vi também o olhar ressentido de Berta em direção a Cristina, que sorria. Berta se ergueu do sofá, e pegando Cristina pela mão, apresentou-a a Sebastian: 

Deixa eu te apresentar Cristina. Ela é filha de Eugênio, nosso jardineiro, e Flora, nossa empregada. É cria da casa.

 Vi o rosto de Cristina ficar muito vermelho, enquanto Sebastian a cumprimentava com um sério 'muito prazer' e um leve aceno de cabeça. Ela voltou para a cozinha e não reapareceu naquela noite.

Eu não entendi o que estava acontecendo naquela época, mas mais tarde compreendi que Berta tentara colocar Cristina “em seu verdadeiro lugar.”  Eu gostava de escutar atrás das portas quando criança, e naquela mesma noite, quando escapei do meu quarto de dormir para ir ver estrelas no jardim como gostava de fazer, escutei vozes alteradas na casa de Cristina; Eugênio gritava: 

-Você não pode continuar achando que é uma deles! Foi bem feito para você!

 Cristina tinha a voz chorosa e era difícil entender o que ela dizia, mas ouvi fragmentos como 

Ela me humilhou... não esperava isso dela... pensei que era minha amiga...

 E então a voz de Flora os interrompeu, firme e forte: 

-Seu pai tem razão, Cristina. Somos empregados aqui. Que ideia foi aquela de olhar para o namorado da patroa? Está querendo arranjar problemas para nós? Quer que sejamos mandados embora daqui?

 Eu não consegui ouvir mais nada, pois saí correndo dali, a garganta doendo pelo aperto que eu sentia. Desabei junto ao riacho, onde a lua se refletia na água corrente.

Como eles poderiam dizer aquelas coisas para Cristina, que era a própria filha deles? Ela não era uma empregada! No dia seguinte, perguntei discretamente à mamãe o que significava ser uma “cria da casa,” e notei que ela compreendeu que eu andara ouvindo conversas; ela respondeu, sem me dar muita atenção: 

-Cria da casa é alguém que trabalha em um lugar desde pequeno. Uma empregada, por exemplo.

A verdade daquilo doeu em mim: Cristina era uma empregada. Eugênio e Flora eram empregados. Não eram como eu. Não eram como nós.

Cristina jamais poderia sonhar com alguém como Sebastian.

(continua...)




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