terça-feira, 12 de março de 2019

INOCÊNCIA - PARTE 1, CAPÍTULO XI







VIDA QUE SEGUE


A transformação de Tia Aurora após o velório foi chocante: a dona de casa perfeita deu lugar a uma mulher de negócios dedicada e feroz. Nunca mais a vimos abrir a porta para nós usando um de seus aventais estampados, e ela mudou o corte de cabelo, cortando-o curto e tingindo-o de loiro escuro. As roupas também mudaram, dando lugar a uma nova Aurora: os vestidos esvoaçantes, as saias plissadas e românticas e as blusas com estampas florais delicadas de mangas três-quartos deram lugar a terninhos arrojados, calças de alfaiataria, blusas de seda lisas, saltos médios e confortáveis e cores neutras.

Papai saiu do hospital, contrariando as mulheres cuja conversa escutei no banheiro do velório. Ele  chegou em casa numa tarde de quinta-feira, magro e abatido. Seus cabelos tinham caído totalmente, e ele ainda ficou em casa, de repouso, durante alguns meses, mas os médicos diziam que ele estava curado e que só precisava se fortalecer. Assim, nós nos mudamos de vez para a casa de campo e vendemos o apartamento da cidade, e papai contratou um sócio para ajudá-lo a cuidar dos negócios. Ele dizia que seria bom ficarmos perto de Tia Aurora, pois ela, sendo apenas uma mulher, não poderia gerir os negócios do marido sozinha, mas ela já tinha o controle de tudo, e estava preparando Marcelo para assumir os negócios em alguns anos. Ele, que queria estudar odontologia, viu-se forçado a desistir e optar pelo curso de administração de empresas, a contragosto, pois Tia Aurora deixou claro que não admitiria lidar com caprichos e teimosias; o que tinha que ser feito seria feito, segundo ela mesma.

O sócio de meu pai chamava-se Duílio. Era um belo homem aparentando estar se encaminhando para a casa dos quarenta. Era alto, moreno e tinha olhos negros inescrutáveis, segundo escutei mamãe dizer a papai após um jantar de apresentação. Tio Duílio, como acostumei-me a chamá-lo já na primeira vez em que nos conhecemos, era viúvo e não tinha filhos. Morava com os pais idosos desde que a esposa falecera, pois assim, dizia ele, poderia olhá-los mais de perto. Enquanto papai estava em recuperação, ele nos visitava nos finais de semana para deixá-lo a par do que acontecia no escritório, e naquelas ocasiões, passava as noites de sexta-feira lá em casa, e às vezes, ficava para o almoço de sábado. Após o almoço, papai ia descansar e mamãe ficava fazendo sala para ele. Às vezes eu passava pelo corredor e escutava os dois conversando na varanda ou na sala de estar. Sentia o cheiro do cachimbo que, como papai, ele fumava: perfumado e másculo. Eu me sentia segura com ele ali, tomando conta dos negócios de papai e fazendo com que mamãe se distraísse um pouco. Às vezes, eles iam dar uma volta à pé pelas redondezas.

Eu simplesmente o adorava, assim como as demais mulheres da família, que diziam que ele era “um pão” - gíria usada naquela época para definir os homens bonitos. Porém, depois que papai se recuperou totalmente, as visitas de Tio Duílio rarearam bastante, limitando-se às vezes em que papai o convidava para o fim de semana, o que era raro. Nós nos reuníamos em volta dele, que trazia presentes para mim, Berta, Cristina, Marcelo. Um dia, ele trouxe flores para minha mãe, e uma caixa de chocolates para Flora. O cheiro do fumo que ele usava invadia os cômodos da casa, e Eugênio dizia que o cheiro o deixava enjoado. Eugênio e Flora o tratavam muito bem, mas eu os conhecia e sabia que os dois não gostavam de Duílio. Eu não conseguia entender como alguém poderia não gostar dele!

Mamãe andava abatida; Flora dizia que era por ter passado tantas noites em claro cuidando de papai, sem admitir que alguém a ajudasse, pois fazia questão, ela mesma, de cuidar dele. Assim, passou a fazer gemadas e tônicos caseiros, obrigando mamãe a tomá-los, o que ela fazia entre caretas. Porém, nada parecia deixar mamãe contente. Ela andava pelos cantos da casa, taciturna e calada, e perdia a paciência conosco à toa, o que fazia com que andássemos como se estivéssemos pisando em ovos. E Flora, após as crises de mamãe, levava-a para o quarto, despindo-a e fazendo com que se deitasse para descansar. Eu comecei a ficar muito preocupada com ela, mas Berta me disse que era coisa de mulher: mamãe estava passando pela menopausa.

Fiquei mais confusa ainda. Será que eu também passaria pela menopausa? Perguntei à mamãe , um dia em que ela estava mais calma, o que aquela palavra significava. Estávamos no quarto de meus pais, e ela estava deitada na cama descansando. Eu tinha passado por lá para desejar-lhe boa noite. Eu tinha então doze anos de idade. Papai ainda estava no escritório, o que facilitou para que eu perguntasse a ela o que era menopausa, já que eu intuía que era algo que não se discutia na frente dos homens. Ela me encarou durante algum tempo, e respirando profundamente, fez sinal para que eu me sentasse na cama ao lado dela. 

(CONTINUA...)





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