segunda-feira, 18 de março de 2019

INOCÊNCIA - PARTE 1 - CAPÍTULO XII







O SEGREDO

Então nós tivemos “a conversa.” Passamos pelas abelhas e flores. Ela me explicou à grosso modo de onde vinham os bebês, e eu me lembrei da cena que eu presenciara na cozinha entre Marcelo e Cristina. Aliás, quando eu estava sozinha, aquela cena me vinha sempre à cabeça, me causando sensações estranhas. Eu comecei a perceber que quando eu me tocava exatamente no local onde eu vira Marcelo acariciando Cristina, aquilo me dava alívio. Aprendi a me masturbar, mas sem saber exatamente o porquê daquilo, mas depois que mamãe e eu tivemos “a conversa,” passei a compreender tudo bem melhor. Ela me explicou que estar com um homem era prazeroso, mas que eu deveria resguardar-me para aquele momento quando fosse madura o suficiente e tivesse um marido.

Meus momentos solitários na banheira ou em meu quarto passaram a contar com um segundo personagem, embora imaginário: um menino que eu gostava em sala de aula, na nova escola onde eu estudava em Rio da Prata. Eu imaginava que nós estávamos na cozinha da nossa casa em uma noite de tempestade, fazendo exatamente o que eu vira Cristina e Marcelo fazerem.

Notei que meus seios começavam a apontar sob a blusa de malha, e mamãe me levou à cidade para comprar sutiãs. Meu primeiro sutiã era de renda azul clara, de alças finas e delicadas. Eu mesma o escolhera. Além dele, mamãe ainda comprou-me mais alguns, e também uma anágua para usar debaixo dos vestidos mais transparentes; 

-Agora você está ficando mocinha, ela disse, - E precisa se cuidar.

O curioso, é que naquela mesma semana eu tive a minha primeira menstruação. Mamãe me explicou como usar o absorvente, prendendo-o na calcinha com alguns pontinhos de agulha, e trocando-o a cada quatro ou cinco horas. Eram três ou quatro dias muito incômodos.

Bem, eu estava usando um sutiã e um absorvente; tinha seios e alguns pelos pubianos, e já precisava depilar as axilas e as canelas. Tinha permissão de mamãe para usar esmalte cor-de-rosa transparente quando desejasse, e também um batom incolor. Corri para contar à Joana a novidade.

Nós estávamos sentadas no gramado da casa dela após a escola, perto da piscina. Ainda usávamos os nossos uniformes. Tia Aurora não estava em casa, pois ela e Marcelo tinham ido ao restaurante cuidar dos negócios. Contei a ela sobre o que estava me acontecendo. Ela arregalou os olhos, dizendo que aquilo já estava acontecendo a ela há algum tempo, mas que tinha vergonha de contar. Ficamos horas discutindo, trocando nossos “conhecimentos” sobre reprodução, sexo, garotos, menstruação e outras coisas afins. Ela me passou as informações que obtivera de sua mãe, e eu, as que obtivera da minha. Joana sempre tentava soar mais bem informada do que eu, e comecei a pensar que eu estava em desvantagem de alguma forma.

Novamente eu me lembrei sobre o dia em que vi Marcelo e Cristina na cozinha; já se passara quase um ano desde aquela cena, mas ela continuava viva em minha memória. De repente, encarei Joana. Ela logo percebeu que eu queria dizer alguma coisa, mas que estava em dúvida sobre se eu deveria ou não. E ela estava certa. Eu não sabia se poderia partilhar com ela o que vira, mas ao mesmo tempo, sentia a necessidade de mostrar-lhe que sabia mais do que ela, que vira coisas que ela jamais tinha visto. Ela me encorajou, dizendo que podia confiar nela, agora que éramos amigas íntimas.

E eu comecei dizendo que vira uma coisa na cozinha da minha casa, descrevendo a cena toda em detalhes. A cada detalhe, ela punha  a mão sobre a boca, como se estivesse escandalizada, mas os olhos dela brilhavam de curiosidade, e ela me incentivava a contar mais sempre que eu me calava. Finalmente, ela me perguntou quem eram os protagonistas da tal cena. Achei que ela estivesse duvidando de mim e de minha história, mas Joana me garantiu que não, e que se eu tinha contado a ela tudo aquilo, teria que confiar nela e contar a história toda, pois não seria justo deixá-la tão curiosa.

Hesitei; afinal, não queria colocar Cristina e Marcelo em maus lençóis. Mas a insistência de Joana fez com que, em um impulso zangado, eu dissesse: 

-Está bem, eu conto! Foram Cristina e seu irmão!

Ela se levantou do pedacinho de grama aonde estávamos sentadas com um salto:

-Meu Deus! Meu irmão e a … Cristina??? Mas ela é filha da empregada! E além de tudo, tem pele escura! Ele a beijou na boca, e... e... naquele lugar???

Fiquei zangada por ela se referir à Cristina daquela forma, mas me lembrei do dia em que minha própria irmã tinha feito um comentário semelhante. Implorei à Joana que não contasse aquela história a ninguém. Seria o nosso segredo. Ela concordou com a cabeça, mas baixou os olhos. Ficou calada e pensativa enquanto íamos para minha casa, onde almoçaríamos. Mal sabia eu que aquela pequena fofoca modificaria a vida de Cristina para sempre, e a de todos nós também. 

Ainda do lado de fora, peguei-a pelo braço, dizendo: 

-Lembre-se que você prometeu não contar nada a ninguém! Joana, eu confiei em você! Além do mais, já faz muito tempo que isso aconteceu.

Ela concordou com a cabeça, mas não disse nada.

Nós estávamos muito caladas durante o almoço, e mamãe percebeu. Mais tarde, veio me perguntar se estávamos brigadas uma com a outra, mas eu assegurei que não; disse que estava me sentindo indisposta por causa da menstruação, e ela acreditou.

Enquanto Cristina colocava as travessas de comida diante de nós, percebi os olhos de Joana presos nela, escrutinando cada movimento. E não era um olhar amigável. Joana parecia querer desintegrar Cristina com os olhos! Quando Cristina sentou-se à mesa conosco, como sempre fazia, Joana parecia que ia explodir de indignação, mesmo sendo aquele o mesmo procedimento de anos. Eu a cutuquei com um pé por debaixo da mesa, e ela me olhou, assustada, deixando de encarar Cristina, que sem saber de nada, às vezes interrompia o almoço para ir e voltar da cozinha com outra jarra de suco, mais salada ou arroz, tendo o habitual sorriso no belo rosto. Joana sempre gostara de Cristina antes daquilo. As duas andavam de mãos dadas, e se abraçavam. Cristina segurava as nossas mãos, e brincávamos de roda no quintal. Fiquei com medo de que aquelas cenas jamais se repetissem.

Eu só queria que meu mundo continuasse a ser perfeito. Já não tínhamos Tio Antônio conosco, o que me deixava triste e causava um arranhão no verniz, e apesar da descoberta de que ele enganara Tia Aurora por anos a fio, se ela podia negar o fato, eu não via motivos para que alguém interferisse, caso ele estivesse vivo. E acreditava que, caso a tal mulher não tivesse aparecido, Tia Aurora continuaria sendo a mulher doce que sempre fora. Não teria se transformado naquela mulher de negócios totalmente inadequada ao que se esperava de uma mulher nos anos setenta. Talvez tivesse aceito a oferta de ajuda de papai; talvez tivesse continuado a nos receber à porta de casa com um sorriso fabricado no rosto, avental sobre os vestidos caseiros rodados, mesas arrumadas para o chá da tarde como se fossem arranjadas para uma foto de capa de revista.

Eu não queria que as pessoas mudassem. Mas eu não sabia que elas não estavam mudando, apenas revelando o que realmente eram, e que eu estava ficando madura o suficiente para perceber aquilo. E quando descobri isso, a dor foi muito maior.

Joana era minha prima querida, que se transformara em minha melhor amiga, a amiga de infância com quem cresci e que sabia absolutamente tudo sobre mim. Jamais precisara enxergar seu lado preconceituoso e moralista. Jamais precisara escutar, de verdade, os comentários maldosos que ela fazia sobre algumas das meninas que como Cristina, eram bolsistas na escola, filhas de pessoas humildes: “Ela deveria estudar em uma escola para pessoas da classe dela, e não aqui. Acho que ela até se sentiria mais à vontade.” No começo, achei que tais comentários fossem apenas provocados pelo fato de ela estar zangada com Cristina, mas com o tempo, percebi que eles retratavam exatamente o que ela pensava – herança do que mais tarde descobri serem os pensamentos de Tia Aurora. A minha linda, elegante, admirável Tia Aurora. A mulher que, depois de viúva, superou todas as expectativas da sua época, e ao invés de choramingar, tomou a frente dos negócios e da família – mesmo que eu só a tenha admirado por isso após muitos anos. Ambas tinham a marca do preconceito sobre a pele e nas retinas com que olhavam para o mundo e para as pessoas. Apesar de serem pessoas admiráveis em outros aspectos, eram mesquinhas em um dos aspectos que eu considerava o mais importante.

Papai vivia dizendo que eu só olhava o lado negativo das pessoas, e ele tinha razão, e que por causa disso, caso eu não mudasse, poderia amargar uma vida de solidão. Novamente, ele estava certo. E eu nem percebia que o meu 'preconceito contra o preconceito' era nada mais, nada menos, do que uma outra forma de intolerância. Durante uma discussão, quando eu já era adulta, papai me acusou de ser uma “arrogante que achava que sabia mais do que todo mundo sobre todas as coisas”.  Chorei lágrimas amargas depois daquela afirmação, pois ela caiu sobre mim como uma pedra enorme, demolindo as convicções que eu tinha sobre mim mesma de uma pessoa justa, limpa, aberta e confiável. Enquanto eu tentava me recuperar do impacto da primeira frase, meu pai soltou uma outra: 

-Você é tão ou mais obtusa do que as pessoas que tanto critica! -  ele vociferou. Ficamos alguns dias sem nos falarmos depois daquilo.



(CONTINUA...)









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