sábado, 19 de novembro de 2016

MINHA VIDA, SUA VIDA - CAPÍTULO II







MINHA VIDA, SUA VIDA

CAPÍTULO II

Naquela noite, não conseguiu dormir. Jamais tivera problemas de insônia antes, mas a preocupação com o futuro a fazia fitar o teto, onde desenhava, com a imaginação, cenas horríveis: não conseguiria trabalho, e logo seu dinheiro acabaria; talvez a encontrassem morta em um beco da cidade, indigente, após ser despejada do apartamento. 

Levantou-se da cama, e começou a andar no escuro. Chegou à janela, e viu lá embaixo um grupo de jovens que passava, rindo e dançando pela rua, ora abraçados uns aos outros, ora separados. Sentiu-se extremamente só, pois não tinha ninguém na vida a quem pudesse abraçar, ou com quem pudesse contar. As freiras na escola sempre diziam a ela que formar laços era necessário, mas Karen não sabia como fazê-lo, simplesmente não sabia. Não era uma habilidade natural, e no orfanato, quando tentava conversar com as outras crianças, elas a achavam estranha, afastando-se dela. 

E a vida toda tinha sido assim: quando alguém se aproximava dela, Karen ficava tão tensa, que se fechava em uma concha, produzindo o efeito contrário ao que desejava! Temia que descobrissem que ela não tinha família, e que sentissem pena dela por causa daquilo. Não queria que a vissem como alguém fraco e solitário – pois era exatamente assim que ela se sentia. Assim, a moça  inteligente e bonita, que gostava de poesia e literatura, culta e de uma sensibilidade à flor da pele, ficava escondida sob uma capa protetora de frieza e medo. Ela queria ser diferente, mas simplesmente não podia. Não sabia como. 

Certa vez, pensou em reinventar seu passado; criaria uma família que talvez morasse em uma cidade ou país afastado. Mas Karen tinha um defeito grave: não sabia mentir. Não podia. Talvez fosse fruto da educação religiosa que recebera, mesmo que tivesse deixado a religião de lado depois que saiu do orfanato. 
Ela abriu seu armário, e olhou suas roupas: tinha bem poucas. A maioria, nas cores preto e bege. Eram roupas clássicas – algumas até bem caras, pois Karen gostava de coisas de boa qualidade; assim, não precisava comprar sempre, e economizava dinheiro. Os sapatos – cinco pares -  eram todos pretos ou marrons, de saltos médios e confortáveis. Possuía apenas um par de sandálias de tiras grossas e saltos baixos, quase sem uso. Ela pensou nas roupas das ex-colegas de trabalho, esvoaçantes, coloridas, decotadas. Sempre na última moda. Teria sido por causa de suas roupas que o chefe a escolhera para ser demitida? Porque ela sabia-se mais competente que todas as outras meninas do escritório. E também bem mais responsável. Em dez anos, jamais se atrasara ou faltara. Sempre concordava em ficar após o expediente, e tirava apenas trinta minutos para o almoço. Era rápida, eficiente e eficaz, conseguindo sempre prever os problemas antes que acontecessem, evitando-os. Nas reuniões, era o contrário do que era na vida pessoal: de fala fluida, sempre tinha boas ideias. Por que logo ela?
Só podiam ser as roupas, e seu jeito arredio. Ela precisava mudar, se quisesse conseguir outro emprego. 

Mas precisava economizar. Não sabia quanto tempo aquela fase demoraria, e poderia demorar bastante. Não podia dar-se ao luxo de comprar roupas novas, ou cortar o cabelo – tão longo, que já chegava à cintura em uma cascata vermelha e maleável que ela mantinha sempre presa. Tinha suas economias, pois nunca fora de gastar muito, mas sabia que elas poderiam acabar logo se ela saísse por aí gastando.

Olhou para as unhas brancas e sem cor; as moças do escritório sempre pintavam as unhas e usavam maquiagem. Ela usava apenas um batom suave, apenas para evitar o ressecamento dos lábios. Ao olhar-se detalhadamente no espelho, comparando-se com as outras moças que conhecia, Karen chegou a uma triste conclusão: jamais conseguiria outro trabalho. Sentou-se na cama, sentindo-se frustrada, e chorou. 

E o que as meninas do escritório diziam sobre Karen, que ela não sabia? Achavam-na competente, fria, calculista e distante. Tinham medo dela. Também a admiravam e a achavam muito bonita, e se quisesse, poderia ser bastante sedutora. Karen era motivo de muita especulação durante as conversas após o expediente, quando as garotas saíam juntas. Será que ela era de uma família rica – baseavam-se nas roupas discretas e caras de Karen – ou então estrangeira? Mas às vezes, elas pensavam que Karen pudesse ter vindo de um reformatório ou tivesse um passado obscuro; daí a sua relutância em falar sobre si mesma. Algumas garotas achavam-na simplesmente “metida” e não gostavam dela: Será que pensava que tinha um rei na barriga, e que era melhor do que todos?  

A única pessoa que realmente sabia de suas origens era seu chefe, que dera-lhe o emprego, mas ele era discreto e respeitava o desejo de Karen de manter segredo sobre si. Mesmo assim, não conseguia gostar de Karen, embora seu trabalho fosse de boa qualidade. Achava a moça esquisita. Não havia um motivo real que a desabonasse, e por causa disso, e também por pena, ele não a mandava embora. Mas quando chegou a hora de escolher alguém para demitir, o nome dela foi o primeiro que lhe veio à cabeça. Achava que a ausência de Karen poderia deixar o ambiente mais leve. Detestou-se por isso, mas era a verdade.

Karen olhou em volta, para o pequeno apartamento conjugado que ela alugava desde que deixara o orfanato, há dez anos: havia apenas um armário, uma mesa com uma cadeira, uma poltrona, uma mesinha com uma TV antiga, uma cama coberta por um cobertor marrom, geladeira e fogão. Eram suas únicas peças de mobília. O chão era acarpetado de cinza, e as paredes, pintadas na cor gelo. Nas duas janelas, cortinas cinzentas, desbotadas pelo sol. Não havia vida ali. Nenhum vaso de flor, nenhuma toalha ou colcha colorida. Karen também não tinha telefone fixo ou móvel, pela absoluta desnecessidade destes. 

Faltavam-lhe sonhos e objetivos. Karen percebeu que ela vinha levando uma vida sem o menor sentido, como se ela estivesse fadada a não ficar muito tempo – e por isso, não valesse a pena dedicar-se a viver. Mas não tinha aprendido a viver de outra forma; no orfanato, eram tantas crianças, que as freiras nem se lembravam de todos os nomes sempre. Algumas referiam-se a ela como “A Ruivinha.” Quando ela abria os olhos durante a noite, na penumbra ela vislumbrava as fileiras de caminhas iguais, e sequer especulava se a vida poderia ser de outra forma. Algumas meninas queriam ser adotadas, mas para ela, era indiferente permanecer ali ou não. Iria para onde a mandassem, faria o que quisessem que ela fizesse. 

E agora, tinham-na tirado da única vida e da rotina que ela conhecia. Karen tinha diante de si uma estrada longa, sem paisagens, sem destino definido. Não sabia o que fazer com ela. 

Ficou trancada no apartamento durante uma semana; assistia TV, sem prestar muita atenção à tela; andava pelo apartamento, de uma parede à outra; olhava pela janela, via o dia começar e terminar, deitava-se na cama e olhava o teto durante longas horas. Às vezes, ia até o armário e pegava alguma coisa para comer, que engolia com a água da torneira. Até que o armário ficou totalmente vazio, e ela teve que sair para fazer compras. Vestiu uma calça de sarja antiga e as sandálias de salto baixo, enfiou a blusa do pijama para dentro da calça, colocou um casaco preto por cima e foi ao mercado. Mas, no meio do caminho, ela acabou seguindo o único itinerário que conhecia bem, e que seguira durante os dez últimos anos: tomou o trem e foi até o escritório. 

Passava das dez da manhã, e todos estavam sentados às suas mesas trabalhando, e quando ela entrou, as cabeças se ergueram, os óculos foram baixados e os pescoços viraram-se na direção dela. Ela passou por todos, balbuciando um ‘bom dia’ entre os dentes, e parou diante da porta do chefe, hesitando por um momento antes de bater e entrar. Ele estava sentado à sua mesa, e demonstrou surpresa ao vê-la. Ela ficou parada, olhando para ele até que ele fizesse sinal para que ela se sentasse. 

-Posso ajuda-la em alguma coisa, Karen?

-Sim. Quero meu emprego de volta.

Ele ficou em silêncio, tentando encontrar as palavras certas para dizer, e antes que as encontrasse, ela explodiu em lágrimas:

-Não sei fazer mais nada, a não ser trabalhar aqui. Não tenho família ou amigos, e não sei a quem recorrer. O fato é que eu preciso deste emprego, ou vou morrer de fome, porque não sei como arranjar outra coisa. Por favor, me deixe voltar.

O chefe pigarreou, e levantou-se da mesa para servir a ambos um copo d’água. Karen tonou alguns goles, e ele esperou que ela se acalmasse antes de dizer:

-Sinto muito, Karen, mas você sabe que isso não depende só de mim. É como eu lhe disse antes, estamos passando por uma crise séria aqui na empresa. Depois de você, tive que demitir mais duas pessoas. Não posso aceita-la de volta. Mas... você deve ler os jornais para achar outro emprego. Tenho certeza de que com a sua experiência, e minha carta de recomendação, você encontrará algo. Você é competente, é jovem... e é uma moça muito bonita.

Ela ergueu a cabeça, olhando-o nos olhos: nem mesmo os homens com quem ela fora para cama tinham dito que ela era bonita. No máximo, chamaram-na de coisas como ‘gatinha,’ ‘boneca’ ou ‘gostosa.’ Ela riu, tristemente, balançando a cabeça em negativa:

-Não sou não...

-É sim, Karen. Só precisa de... se me permite... você precisa de um banho de loja, cabeleireiro, salão de beleza... parece que você não sabe se arrumar muito bem. E também precisa abrir-se mais para as pessoas, tentar fazer alguns amigos, participar das atividades e... me desculpe dizer estas coisas, mas é a verdade, Karen. As pessoas daqui não a conhecem realmente. Nem mesmo eu cheguei a conhece-la nestes dez anos. E tenho a impressão de que você tenta esconder seu passado como se tivesse alguma coisa do que se envergonhar. Você não precisa ter vergonha de nada. 

De repente, pareceu a ele que a olhava de verdade pela primeira vez, e sentiu muita pena dela, misturada a uma estranha ternura. Como se Karen fosse uma de suas filhas. Enquanto isso, a paixonite que ela sentia por ele aumentou, chegando ao seu ápice. Ela se levantou da cadeira, caminhando até ele, que estava sentado na beirada da mesa, falando com ela. Quando ele percebeu as intenções de Karen, já era tarde demais: ela o abraçou e beijou na boca, com paixão e sofreguidão. Ele a afastou com carinho, ficando muito vermelho:

-Não confunda as coisas, Karen! Sou casado e muito feliz. 

-Mas você me disse que eu era bonita, e inteligente... pensei que...

-E é, Karen. Você é; mas precisa conscientizar-se disso. Quando chegar em casa, olhe-se no espelho. Veja-se como realmente é, veja-se como eu a enxergo, como as pessoas a enxergam, e não se deixe enganar pela opinião errônea que tem de si mesma. Depois, pegue uma pequena parte do dinheiro que recebeu e vá às compras. Aproveite e passe em um salão de beleza conceituado – há um muito bom dentro do shopping que fica há alguns metros daqui, é onde as meninas do escritório frequentam. Aprenda a amar a si mesma. E então as pessoas vão amar você como você merece. 


Dizendo aquilo, ele afastou uma mecha de cabelos ruivos da testa dela, em atitude paternal. 

-Se precisar de ajuda em seu novo emprego – que eu tenho certeza que vai conseguir dentro em breve – é só me ligar, e verei em que posso ajuda-la. Agora vá. Tenho que trabalhar agora. 

Ela virou as costas e saiu, ajeitando a bolsa nos ombros. Passou pelos colegas, que conversavam baixinho e se calaram ao vê-la abrir a porta, e não se despediu de nenhum deles. Escutou as vozes aumentando assim que ela chegou ao corredor do prédio, e soube que seria o assunto da semana. Tomou o trem de volta ao seu bairro, olhando aquela paisagem tão conhecida pela última vez. Durante a viagem, pensou em tudo o que tinha escutado, analisando cada palavra. 

Entrou no mercado e foi jogando coisas aleatoriamente no carrinho, pensando no  que o chefe tinha dito a ela. Em casa, desempacotou tudo e preparou um almoço decente para si mesma, o primeiro em uma semana. Após comer, tomou uma chuveirada longa e bem quente, relaxando o corpo, e pensando ainda mais em tudo o que ouvira; em seguida,  vestindo seu melhor terninho bege, tomou o trem novamente  e foi ao shopping que seu ex-chefe lhe indicara . 

Ela passou por várias lojas, olhando as vitrines, sem saber o que comprar. Viu um anúncio de emprego para vendedora em uma delas, e entrou, o coração aos pulos, dizendo estar interessada na vaga; mas como não tinha experiência em vendas, foi negada. Foi até a praça de alimentação lotada e sentou-se em uma das mesinhas, com um grande copo de chá gelado diante de si. Via as pessoas que conversavam nas outras mesas, as moças elegantes que passavam por ela, os casais felizes e apaixonados, as mães com suas crianças. Ela não fazia parte de nada daquilo, mas como gostaria de fazer!

Foi quando uma estranha onda de entusiasmo tomou conta dela, e Karen decidiu-se: “A partir de hoje, minha vida vai mudar. Eu vou fazer parte da vida, vou começar a tomar minhas decisões, descobrindo o que eu realmente quero. Vou seguir os conselhos do meu ex-chefe.”

Levantou-se, e entrou em uma das lojas, as mãos frias e suadas, e dirigiu-se à vendedora:

-Preciso de roupas novas, mas não tenho a menor ideia do que comprar. 

A vendedora – uma jovem bonita e muito bem vestida, olhou-a da cabeça aos pés, e sorriu:

-Sou Bia. Você é?...

-Karen.

-OK, Karen. Vou ajudá-la a encontrar peças maravilhosas e adequadas a você, e não vai ser nada difícil: você tem um corpo ótimo!

E Bia fez com que ela experimentasse vários vestidos, blusas, calças e sapatos. Ajudou-a a escolher os melhores. Karen pagou por tudo com dinheiro, o que deixou a vendedora muito feliz. 

Em seguida, entrou em um salão de beleza, que era um ambiente completamente novo para ela. Ficou lá olhando as mulheres com coisas estranhas nos cabelos, e achou tudo muito engraçado. Olhou os homens de gestos afetados, escutando suas gargalhadas, e sentiu-se muito deslocada entre as pessoas daquele mundo estilizado. Quando ia virar as costas e sair, um deles aproximou-se, barrando-lhe o caminho: 

-Posso ajudar, querida?

Karen estancou o passo um segundo antes de pisar nos pés dele:

-Hã... é que eu... me disseram para vir aqui...

Ele a olhava, as sobrancelhas desenhadas arqueando-se a cada palavra dita por 
Karen, concordando com a cabeça como se a compreendesse. 

-E quem foi que indicou, posso saber?

-Hã... uma amiga do escritório. (Dizendo aquilo, ela citou o nome de uma delas).

Ele pensou por um instante, e gargalhou:

-Claro, claro! A Nana! É minha cliente há muito tempo. Seja bem-vinda...

-Karen.

_Seja bem-vinda, Karen. Meu nome é Michel. O que posso fazer por você?

-Me transformar em outra pessoa!

Ele piscou um olho, dizendo:

-Isso eu não posso fazer; mas posso transformá-la em você mesma!

E Karen entregou-se nas mãos de Michel, que fez nela uma transformação completa, além de dar-lhe dicas de maquiagem para o dia a dia. Quando ele finalmente terminou, e Karen olhou-se no espelho, ela não reconheceu a pessoa que a olhava de volta: parecia uma modelo famosa, das revistas que ela de vez em quando folheara em consultórios médicos. Seus cabelos ruivos tinham sido aparados, e Michel cortara a parte da frente um palmo abaixo dos ombros, deixando a parte de trás mais longa, e os fios criaram ondas naturais, ganhando mais volume e leveza; as sobrancelhas delineadas e arqueadas deram mais personalidade ao seu rosto, e o batom vermelho combinou perfeitamente com a cor dos cabelos dela, agora brilhantes e um pouco mais escuros, o tom ruivo realçado em mechas mais claras. As unhas tinham sido feitas e pintadas de vinho, recebendo cor pela primeira vez na vida. A maquiagem dos olhos consistia apenas de uma sombra bege com brilho perolado, rímel (que fez com se seus cílios já longos ganhassem volume) e um delineador leve. 

Karen ficou mirando-se no espelho, e lágrimas brotaram dos seus olhos. Michel sorriu, segurando-lhe a mão, e lágrimas brotaram dos olhos dele também. As outras clientes do salão observavam os dois, e de repente, uma delas começou a aplaudir, e todos – clientes e funcionários – a  acompanharam. 
Karen abraçou Michel, que desfilou com ela pelo salão, orgulhando-se de sua obra prima. 

Quando Karen deixou o salão, já anoitecia. Ela caminhava pela calçada, sentindo os olhares admirados que as pessoas dirigiam a ela. Pela primeira vez na vida, Karen sentiu-se importante, e começou a gostar daquela sensação. Uma simples mudança de aparência, um cuidado especial e mais dedicado a si mesma, e tinha a impressão de que as portas começavam a abrir-se para ela. 

Antes de entrar no prédio onde vivia, comprou um exemplar de classificados e depois foi para seu apartamento, passando pelo porteiro que a olhou, estarrecido. 

(continua...)




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