quinta-feira, 29 de setembro de 2016

FEITIÇOS DE AMOR – PARTE IX








Sexta-feira: o último dia de aula foi como sempre: camisas assinadas à caneta, cabelos cheios de talco, despedidas e saudades antecipadas – embora morássemos todos na mesma cidadezinha. Alguns combinaram de se encontrar durante as férias, mas todo mundo sabia que com o término da escola, estaríamos ocupados com decisões mais sérias, como vestibular e a escolha do curso da faculdade. A maioria iria cursá-la em outras cidades, pois a nossa só oferecia dois cursos: agronomia e biologia. Outros começariam a trabalhar imediatamente, levando em frente os negócios de suas famílias. Escolhas que não eram escolhas. 

Flora ainda tinha mais um ano pela frente, e estava mais tranquila, mas eu e Dora começávamos a pensar no futuro que estava por vir, e que já batia às nossas portas. Eu ainda não tinha ideia do que gostaria de fazer, e nem os testes vocacionais tinham feito surgir alguma luz. Dora pensava mesmo em ser cantora, e quem sabe, se tudo desse errado, cursaria faculdade de música em São Paulo.
De qualquer maneira, acabaríamos nos afastando, e aquela certeza me deixava muito melancólica. Eu achava que tiraria um ano sabático antes de começar a pensar em profissões. Poderia trabalhar na loja de papai e Tio Nestor, ajudando-os no que fosse preciso.

No sábado de manhã, acordei com os gritos histéricos de uma mulher:

-Mas você precisa me ajudar, Agnes! Não consigo viver sem meu marido! Você precisa me ajudar a trazê-lo de volta!

Quando me levantei, ainda de camisola, a fim de ver o que estava acontecendo, encontrei Tia Maya e Flora já de pé no corredor, olhando para baixo de maneira que não pudessem ser vistas. Juntei-me a elas, e vi mamãe e papai tentando acalmar Dona Fernanda, uma vizinha nossa cujo marido a deixara por outra mulher há alguns dias. Corria solta na vizinhança a história de que ele mantinha um caso com outra mulher há alguns anos. Ninguém dava muito por ele, que era mulherengo e não gostava muito de trabalhar, a não ser a pobre Dona Fernanda, que cismava em fingir que não via as sandices do marido.

-Acalme-se, Fernanda. Ainda são seis da manhã de sábado, vai acordar Vó Duda – disse papai, a voz quase sussurrante.

Mas quanto mais eles tentavam acalmá-la, mais ela chorava e erguia a voz. Finalmente, escutamos a porta do quarto de vó Duda se abrindo, e ela apareceu, embrulhada em seu penhoar azul-claro. 

-O que está acontecendo aí?

Tia Maya encolheu os ombros, pois não conhecia nossa vizinha e não podia responder à pergunta de vó Duda, mas Flora respondeu:

-É a Dona Fernanda. Quer que mamãe faça um feitiço para trazer o marido dela de volta.

Vó Duda deu uma espiada, coçando o queixo, e começou a descer as escadas. Chegando lá em baixo, mandou que papai fosse fazer um chá para acalmar a mulher, e fez com que ela se sentasse entre mamãe e ela. Segurando suas mãos, vó Duda disse:

-Cara Fernanda, todo mundo já sabia que isso poderia acontecer de uma hora para outra, e sua irmã tentou avisá-la, mas você não quis ouvir! Mas saiba que Deus a livrou de um grande canalha, e não vale  a pena chorar por ele.

Mamãe protestou;

-Mãe! Que falta de sensibilidade!

Vó Duda disse:

-Ora, todo mundo sabe que foi um livramento para ela, Agnes, e ela precisa enxergar a verdade. Para quê trazê-lo de volta?

Dona Fernanda exclamou:

-Robério sempre foi ótimo marido, até ficar de cabeça virada por aquela uma, Vó Duda, e ela fez feitiço para isso. Sei, porque a Clotilde mesmo me disse que viu ela entrando lá na casa da Sônia cartomante. E todo mundo sabe o tipo de trabalho de magia negra que ela executa. Meu marido é uma vítima, Vó Duda!

Naquele momento, papai entregou a ela uma xícara de chá. Sem saber mais o que fazer, ele pediu licença e começou a subir as escadas. Deparou conosco lá, escutando escondido, e riu:

-Sabiam que é feio escutar a conversa alheia?

Flora exclamou:

-Sinto muito pai, mas esta está divertida.

Ele ralhou:

-Não se ri dos problemas alheios, filha! Lembre-se que poderia estar acontecendo a você!

Tia Maya e papai se entreolharam, e só mesmo um idiota não perceberia a eletricidade que circulou entre eles. Os olhos dos dois brilhavam. Ele passou por nós de cabeça baixa, indo para o quarto e fechando a porta. Lá em baixo, Vó Duda fazia com que Dona Fernanda bebesse o chá, dizendo palavras mais tranquilizadoras:

-Escute, filha... ouça o que eu tenho a dizer. Não foi feitiço algum que levou seu marido. Ele se foi porque é um canalha mesmo. 

-Mas mesmo assim, foi comigo que ele se casou! Temos quatro crianças, Vó Duda, e elas precisam do pai por perto. Elas amam o pai! 

Mamãe interferiu:

-OK; vamos fazer o seguinte: farei o feitiço, mas com uma condição: ele voltará para você se tiver sido vítima de trabalho feito, e caso não tenha sido, continuará com ela. Está bem assim? 

Finalmente, a mulher pareceu acalmar-se:

-E em quanto tempo ele poderá estar de volta?

-Vamos lá para dentro; vamos aproveitar que ainda estou em jejum, e farei o feitiço agora mesmo. Se tudo for como você acha, ele estará de volta amanhã de manhã. Preciso de uma foto dele, ou de uma peça de roupa.

Dona Fernanda puxou um par de meias do bolso da saia, entregando-o à mamãe. As duas foram entrando na sala de consultas de mamãe, e Vó Duda foi para a cozinha, levando a xícara vazia. Fiquei pensando no quanto mamãe usava a psicologia a fim de convencer suas clientes, pois quer o marido voltasse, quer não, a mulher ficaria satisfeita. Mas Flora comentou, corando de autoconfiança:

-Viram só? Os feitiços de amor podem funcionar sim! E mamãe já até me ensinou a fazer um.

Tia Maya ficou totalmente sem-graça, e eu quase pulei no pescoço de minha irmã devido à sua falta de sensibilidade, mas ela imediatamente deu-se conta de sua indiscrição, desculpando-se com Tia Maya. Flora era sempre assim: dizia o que vinha à cabeça, sem pensar muito. Tentei-a:

-Se feitiços funcionassem realmente, por que ninguém faz um para curar a vó Duda? Já que vocês são tão poderosas...

E entrei no meu quarto, batendo a porta.


. . . . . .


Às dez da manhã de uma manhã de sábado, meu telefone tocou; era Dora:

-Pode vir até aqui um instante, Eleanor?

Tomei café da manhã na cozinha (a família já tinha tomado café, e é claro, Vó Duda me intimidou com sua frase clássica: “Você perdeu o café da manhã!”) e fui direto para a casa de Dora, achando que Fred poderia estar lá. Mas encontrei-a sozinha em seu quarto, e Tia Joana me mandou subir, dizendo que ela me esperava.

Achei minha prima um pouco triste:

-Eu queria te lembrar que nós vamos viajar amanhã de manhã.

Achei que ela deveria estar dando pulos de alegria; afinal, era por aquilo que ela tanto lutara. Tentei encorajá-la:

-Legal, prima! Te desejo a melhor sorte do mundo. Eu gostaria muito de ir também, mas não me deixaram.

-Eu sei.

Fiquei vermelha até as raízes do cabelo quando ela me olhou, e disse:

-Sei também o motivo. Não querem que você vá por causa do Fred, não é?

Gaguejei:

-Talvez... a... a mamãe me disse que você e ele... que vocês... eu não quero...

Criei coragem de perguntar o que queria, firmando a voz, que saiu de supetão:

-Vocês estão juntos?

Ela ficou me olhando durante um longo tempo, e o olhar que nós estávamos trocando me fez entender tudo. Eles se apaixonaram, e ela só estava esperando o meu consentimento. Mas apesar de querer muito, eu não conseguia dizer a ela o que ela gostaria de ouvir. Senti as lágrimas ardendo no meu rosto, escorrendo até o queixo como se fosse um rio de lavas. Eu estava me sentindo humilhada e inferior a ela. Dora conseguira ser livre pela primeira vez, e  ela não precisava mais de mim. 

Percebi que o tempo todo, tinha sido eu quem mais precisara dela. Na verdade, a insegura era eu.
Ela se levantou, e me abraçou de modo desajeitado. Deixei-me ser abraçada, mas meu corpo retesou-se, contraindo-se em um espasmo doloroso. Não conseguia abraça-la de volta, e ela estava magoada. Eu queria parar de chorar e dizer a ela que estava tudo bem; ou que estava tudo mal. Queria olhar minha amiga nos olhos, despedir-me e desejar a ela boa sorte. Mas tudo o que consegui dizer, foi:

-Ele sabe? Que eu estou apaixonada por ele?

-Sabe.

Aquela era a coroação da minha humilhação total: Fred sabia que eu gostava dele, e não gostava de mim da mesma forma. A menina mais popular, mais bonita, mais esperta e encantadora, perdera. E perdera para a gordinha tímida e não muito bonita. Antes tivesse sido para a Magda, a garota mais bonita e popular da escola. Teria doido bem menos. Mas não: tinha que ter sido para a minha própria prima e amiga de infância!

Limpei as lágrimas com a manga da camisa, e funguei. Olhei para ela rapidamente, acenando com a cabeça um ‘sim’ que eu esperava que dispensasse qualquer oura palavra, e saí do quarto. Ainda no corredor, escutei Dora chorando. 

Desci as escadas correndo, passei por Tia Joana e Tio Nestor, que me olharam, atônitos, e ganhei a rua. Quase derrubei Fred que estava entrando, quando cheguei ao portão da casa. Ele me segurou:
-O que está acontecendo, Eleanor? Por que você está chorando?

Eu não conseguia falar, eu não conseguia olhar para ele. Eu o amava, e eu o odiava ao mesmo tempo. Parece que para os adolescentes, não existem meios termos no que diz respeito a sentimentos: todos são intensos, mortais, definitivos.

Ele me abraçou, talvez porque pensou que era daquilo que eu precisava naquele momento. Eu me deixei ser abraçada, e abracei-o de volta, deslizando as mãos pela primeira e última vez naquelas costas que eu tanto desejava, e encostando meu rosto no pescoço dele, aspirei seu cheiro, senti o toque da pele que eu não deveria tocar nunca mais, e fechando mais ainda os olhos, senti os dedos dele acariciando as minhas costas. Foi um momento doce, quente, feliz, triste, alegre, terrível... foi tudo ao mesmo tempo. Como se aquilo fosse fazer com que ele gostasse de mim, deixei que algumas lágrimas molhassem a gola da camisa xadrez que ele estava usando. Era o meu feitiço de amor. 
Eu queria que aquele momento ficasse marcado para sempre em minha pele, em minha alma, em minha memória, pois ele redefinia toda a minha vida. Pela primeira vez, eu sabia o que significava amar alguém. Logo eu, que sempre zombava dos que se apaixonavam, e dizia com orgulho que tal coisa nunca me aconteceria, saindo com vários meninos diferentes, fazendo com que se apaixonassem por mim e não me apaixonando nunca por nenhum deles.

Fred representava um marco em minha vida: meu primeiro amor. Eu queria guardar aquele momento em uma caixinha bem fechada, para que pudesse revivê-lo muitas e muitas vezes. Sabia que dali a alguns anos, eu me lembraria de tudo com menos intensidade, e não doeria tanto, e seria bonito reviver. 

E então, para quebrar a mágica, olhei por cima do ombro dele, para a casa de Dora, e a vi por trás da vidraça, nos observando. Abracei-o  com ainda mais força, e depois, saí correndo, deixando-o parado ao portão. 






6 comentários:

  1. Cada vez mais interessante, obrigada, Ana,excelente 4ª feira...
    Abraços carinhosos
    Maria Teresa

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  2. Um amor não correspondido causa uma ferida imensa no coração
    A capítulo o conto fica mais envolvente Ana
    Beijos

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  3. Parabéns. Gostei muito!voltarei para te ler mais!

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  4. Parabéns. Gostei muito!voltarei para te ler mais!

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