quinta-feira, 8 de setembro de 2016

FEITIÇOS DE AMOR - PARTE V





Tia Maya chegou em uma manhã ensolarada de sábado, e Vó Duda abriu a porta para ela. Mamãe tinha saído para ir ao mercado, dizendo que precisaria resolver algumas coisas e que não poderia estar lá para recebe-la, mas que falaria com ela assim que chegasse. Papai permaneceu ao lado de Vó Duda, e eu e Flora ficamos logo atrás, com Dora, Tia Joana e Tio Nestor. Vó Duda e Tia Joana tinham preparado uma lauta mesa de café da manhã, sabendo que Tia Maya chegaria logo cedo. 

Quando eu e Flora ficamos sabendo que mamãe não estaria presente, lamentamos pela atitude covarde dela. Eu e minha irmã não víamos Tia Maya desde o velório do vovô, quando ainda éramos pequenas, e eu mal me lembrava do rosto dela, a não ser através de fotografias antigas que eu via na casa de Tia Joana. Eu estava de pé logo atrás de Tio Nestor, e vi quando Tia Maya entrou – seu rosto escurecido pela luz do sol que vinha lá de fora e que brilhava por trás dela. Ela e vovó se abraçaram por um longo tempo, e Tia Joana juntou-se a elas, e as três ficaram chorando juntas.  Quando elas finalmente entraram e fecharam a porta, e os cumprimentos cessaram, Tia Maya virou o rosto para nós, e quase engasguei: ela era a mulher mais linda que eu já tinha visto. Os anos fizeram-lhe muito bem, e se mamãe tinha sido mais bonita do que ela na juventude, isso tinha mudado. Dora não ficou surpresa, pois ela e seus pais a visitavam algumas vezes. Mas eu e Flora nos entreolhamos, tentando fechar nossas bocas abertas pela surpresa.

Tio Nestor pegou as malas de Tia Maya, levando-as para o quarto, enquanto ela abraçou a mim e a Flora ao mesmo tempo. Ficamos um pouco sem saber o que fazer, mas achando que seria mais educado, abraçamos Tia Maya de volta. Depois, foi a vez de Dora, que demonstrou muito mais entusiasmo. As duas logo começaram uma conversa descontraída, e Dora contou a ela sobre ter sido selecionada para o programa – bufei de indignação, pois tentar colocar o foco sobre ela mesma num momento daqueles, era muita pretensão e falta de sensibilidade. 

Depois, já sentados confortavelmente pelos sofás, poltronas e cadeiras da sala de estar, Vó Duda inteirou Tia Maya sobre sua doença. Houveram mais lágrimas. Então, a conversa foi passando sobre vários tópicos, desde a vida na Espanha, onde Tia Maya passara quatro anos, até amenidades cotidianas, como a política do país, a novela das oito, o cabelo de Vó Duda. Tudo aquilo em uma tentativa de evitar assuntos embaraçosos e ranços do passado. Papai passava o tempo todo olhando para todos os lugares, menos para Tia Maya, e ela fazia a mesma coisa. Tinham se cumprimentado com um aperto de mão bastante formal, destoante da maneira como Tia Maya cumprimentara os demais. Aquela verdadeira compulsão em não olharem um para o outro me preocupava; era como se eles estivessem se olhando o tempo todo, só que de outra forma. 

Quando todos esgotaram todos os assuntos que conseguiram trazer à tona, o silêncio sentou-se entre nós de forma incômoda. Mas graças a Deus, tínhamos cães, e eles entraram naquele momento constrangedor, indo cheirar Tia Maya, que encantou-se por eles, que se tornaram então o assunto. Estávamos ficando famintos – ninguém tinha tomado café da manhã – e já passava das dez e trinta. Vó Duda perguntou em voz baixa, quase falando consigo mesma, por onde mamãe andaria. Papai encolheu os ombros, dizendo que só sabia que ela tinha ido ao mercado e depois iria pagar umas contas. Tia Maya baixou os olhos, compreendendo que mamãe só estava tentando evita-la. 

Os olhos dele e de Tia Maya se encontraram, e ambos baixaram os olhos rapidamente, corando em seguida. Aquilo estava começando a ficar insuportável. A sala parecia abafada, apesar de todas as janelas estarem abertas, e eu sentia o suor escorrendo pelas minhas costas. Escutei a barriga de Flora roncando alto. O silêncio era tão grande, que acho que todos escutamos. Foi quando Tutti e Greco ergueram-se do chão, indo cheirar a porta de entrada, as caudas se agitando felizes. Ouvimos o motor do carro sendo desligado, e a porta bater. A tensão na sala de estar era grande. Sorríamos amarelo uns para os outros. Meu coração dava pulos tão altos, que parecia que eu teria que engoli-lo a qualquer momento, para que ele não saísse pela minha boca e fosse parar no tapete da sala. Finalmente, a maçaneta da porta girou e mamãe apareceu à porta. 

Estava deslumbrante! Tinha ido ao salão, e os cabelos receberam luzes e ondas. Vestia um belo vestido verde-musgo esvoaçante cuja saia rodada ia até os joelhos. A pala era discretamente bordada por linhas em vários tons de verde e creme. Calçava sapatos scarpin de saltos baixos, e tinha uma bolsa nova pendurada no braço direito. Na mão direita, uma caixa embrulhada para presente. Todos sentimos que ela estava usando um novo perfume, provavelmente, caro. Também usava algumas jóias antigas que normalmente ficavam guardadas em uma caixa, no cofre de seu quarto. 

Achei tudo aquilo patético. As pessoas se entreolhavam, sem saber o que dizer. Flora franziu as sobrancelhas, indignada – ela me disse mais tarde – pela ‘bandeira’ que nossa mãe tinha dado, demonstrando tanta insegurança de uma só vez. Vi a cabeça de Dora mover-se quase imperceptivelmente para um lado e para o outro. Vó Duda olhou mamãe dos pés a cabeça, mas nada disse.  Papai levantou-se do sofá como se tivesse molas nos pés, mas antes que ele a beijasse no rosto, mamãe disse:

-Querido, seja um anjo e por favor, pegue as compras que estão na mala do carro e leve para a cozinha.

Constrangido, papai saiu pela porta sem olhar para trás, e suspirando de alívio, Tio Nestor foi atrás dele, dizendo que ia ajudar a guardar tudo. Então, como em uma cena em câmera lenta, mamãe olhou para tia Maya, sentada no sofá, e foi caminhando devagar e resolutamente até ela, e parando bem na frente dela, estendeu-lhe a caixa embrulhada para presente. Eu nunca tinha visto mamãe agir de maneira tão afetada, e aquilo me assustou. Ela disse:

-Olá, Maya. Seja bem vinda à minha casa. Eu... estava fazendo compras, e achei que você gostaria de receber este presente.

Tia Maya ergueu-se do sofá, e ficou olhando para mamãe sem saber como agir. Mamãe sacudiu um pouco a caixa, e ela a pegou. As duas não se tocaram. Tia Maya abriu a caixa devagar, e todos nós temíamos por ela – ninguém sabia o que mamãe poderia ter colocado naquela caixa. Porém, tudo que havia lá dentro era um perfume. Um simples e inofensivo frasco de perfume caro e importado. Tia Maya agradeceu formalmente, e mamãe fez uma mesura quase imperceptível com a cabeça.
Eu, Dora e Flora respiramos fundo, soltando o ar devagar, aliviadas. Vó Duda bradou, do seu modo autoritário e incontestável:

-Agora vamos ao café da manhã!

O café até que foi agradável. Mamãe estava relaxada. Papai falou o menos possível, e o rumo da conversa foi conduzido habilmente por Tia Joana e Vó Duda. Logo seria natal (era final de novembro), e Tia Joana dizia a Tia Maya o quanto seria bom que as três fossem fazer compras de natal juntas novamente, após tantos anos. Mamãe não respondeu, mas tia Maya concordou. Dora comentou da sorte de estarmos no final do ano letivo; assim ela poderia participar do programa sem comprometer seus estudos. Tia Maya prometeu-lhe um lindo vestido para o dia do teste, e ela agradeceu, entusiasmada. Logo, todos estavam falando sobre o talento de Dora, o programa, sua nova música – a que ela escolhera para o teste – e o quanto ela era talentosa. Eu me senti estranhamente desconfortável.

 Ao ver o entusiasmo de Tia Maya por Dora, mamãe comentou, um tom de voz maldoso e ferino que me deixou chocada:

-Pena que você nunca teve filhos, Maya.

Tia Maya terminou de engolir um pedaço de brioche. Os olhos dela cruzaram a mesa, percorrendo a distância que a afastava de mamãe como se fossem raios , e tia Maya, com ar muito triste, respondeu – a voz, um fio de nylon fininho, quase arrebentando:

-Eu tenho um filho. 

Tia Joana, Dora e Nestor não pareciam surpresos, mas amedrontados pelo que estava por vir.
Mas todos nós outros ficamos surpresos, inclusive vó Duda, cuja xícara teve sua viagem interrompida no meio do caminho, entre o pires e a boca. Tia Joana corou, baixando os olhos, e Dora também. Tio 

Nestor olhou para o teto, como a dizer: “Lá vem chumbo grosso!” Papai, estarrecido, fitava ora mamãe, ora Tia Maya. Ela deixou que a surpresa de suas palavras passasse por todos nós como uma corrente elétrica, um fio de alta tensão desencapado. Mamãe ficou branca feito papel, e dava para ver, mesmo debaixo das camadas de pó e de base. Então, tia Maya completou:

-Eu tenho um menino. Ele... tem doze anos, e se chama Teo. 

Vó Duda ergue-se da mesa:

-Como?! Você é mãe? E escondeu isso de mim por doze anos? Como você pode fazer isso, Maya?

Papai estava tão chocado, que seus olhos fitavam o vazio. Mamãe deixou a boca aberta, e sua expressão parecia a de uma flor murchando. Tia Maya completou:

-Eu tenho um filho de doze anos, que se chama Teo... (e olhando para vovó): Nunca contei a senhora sobre ele porque não queria que ficasse chateada. Não contei a ninguém porque não quis causar mais problemas ainda, mais do que aqueles que já causei. Joana ficou sabendo durante uma visita surpresa à minha casa, em São Paulo. Ela estava com Nestor e Dora. Eu estava grávida. Implorei a ela que não contasse à senhora, ou a qualquer pessoa. Eu vivia longe, e as vidas de vocês poderiam continuar sem este aborrecimento. 

Vó Duda exclamou:

-Mas... é meu neto! Eu precisava saber, ele é parte desta família! 

Mamãe, desesperada, respondeu:

-Mamãe, ele não é seu neto. É filho de Maya, e Maya não é sua filha!

Vó Duda olhou para ela, dizendo:

-Bem, então este é o dia de revelar segredos. Porque eu ia contar a vocês hoje, que eu e seu pai adotamos Maya, dois anos depois que ela veio morar conosco.

Aquela foi a vez de Joana e mamãe exclamarem, quase juntas:

-Como? E por que não nos contou?

Vó Duda respirou fundo:

-Eu não queria complicar ainda mais a situação entre você e Maya, Agnes, pois sabia que você morria de ciúmes dela. Por isso, achamos melhor não dizermos nada. Mesmo porque um pedaço de papel não faria diferença no relacionamento entre vocês, Maya e Joana sempre se amaram como irmãs, e você... achamos que um dia você também aprenderia a amá-la. Quando contei para Maya – e isso foi no dia do velório de seu pai, meninas – ela me pediu para não contar a vocês. 

Eu estava tonta: então, se tia Maya era irmã de mamãe e de Tia Joana, ela tinha direito à herança de vovó – a casa onde vivíamos, e o armazém de papai, que estavam em seu nome. E se ela tinha um filho de doze anos, ele poderia ser filho de meu pai; e se ele fosse filho de meu pai, então eu tinha um irmão! E mamãe e tia Joana, uma irmã! 

De repente, no meio daquilo tudo, a constatação me veio, fria e pegajosa como fel e veneno congelados: Dora sabia sobre Teo o tempo todo! E não me dissera nada. Olhei para Flora, que estava chorando, e de repente, ela começou a dar gargalhadas histéricas. Todo mundo olhou para ela. Papai encheu um copo com água, colocando uma colher de açúcar, e levantando-se, tentou fazê-la beber. 

Minha irmã estava tendo um ataque histérico? Mamãe tentou acalmá-la, enquanto fuzilava Tia Maya com o olhar: “Olhe só como você destrói tudo em que toca!”  Tia Joana e Tio Nestor tentavam acalmar Vó Duda, e Dora, a cabeça apoiada em uma mão, olhava tudo com ar de espanto. Pude ler seus pensamentos: “O que aconteceu com esta família?” finalmente, minha irmã se acalmou, e puxando o ar com força, ela ergueu seu copo com água e disse:

-Saúde! Alguém mais aí tem um segredinho para contar?

Vó Duda, soltando-se das mãos de Joana com uma sacudida de ombro, socou a mesa, fazendo xícaras e talheres tremerem:

-Sente-se, Flora! E cale a boca! 

Foi como se ela tivesse pedido a todos nós que nos calássemos. Um silêncio sepulcral tomou conta da sala. Ninguém se entreolhava; todos desviávamos os olhos uns dos outros, olhando para a janela, para a toalha ou para o chão ou o teto. 

Virando-se para Maya, ela perguntou, a voz pausada e bastante fria:

-Onde está seu filho agora, Maya?

Tia Maya respondeu, sem olhar para vó Duda:

-Meu filho... Teo... ele só viveu até os três anos de idade. Quando eu disse que ele tinha doze anos, referi0me à idade que ele teria, se estivesse vivo. Eu sempre falo de Teo como se ele ainda existisse.

Dizendo aquilo, ela começou a soluçar alto. Até mamãe pareceu sentir pena dela. Tia Joana segurou sua mão, e vó Duda permaneceu alguns minutos de olhos fechados. O resto de nós, em silêncio, aguardou o desfecho daquela história. Confesso que a confusão que eu sentira ao saber que Teo pudesse ser meu irmão, já estava se transformando em um sentimento bem mais agradável, e ganhar e perder um irmão em menos de dez minutos não estava sendo nada fácil. Vó Duda perguntou, ainda de olhos fechados:

-Quem é o pai deste menino, Maya?

Aquela pergunta era desnecessária. Mamãe já sabia a resposta, pois olhou na direção de papai, que estava com os olhos cheios d’água. Eu e Flora compreendemos que o pai do falecido filho de Tia Maya tinha sido o nosso pai. Parecia que todo o resto também entendeu logo, mas ninguém disse nada. Tia Maya disse:

-Eu engravidei de Berto quando estive aqui. Fiquei sabendo dois meses depois que fui embora.

Vó Duda continuou:

-Como ele morreu?

Tia Maya fungou, e Tio Nestor entregou-lhe um lenço de papel. Ela assoou o nariz, e respondeu:

-Teo nasceu com uma deficiência cardíaca. Os médicos tentaram de tudo, mas desde cedo, disseram que ele não tinha muitas chances. Descobrimos sobre o problema durante a gravidez. Foi por isso, também, que eu não contei a ninguém. Por que fazer todo mundo sofrer?

Vó Duda levantou-se, caminhando até ela. Abraçou-a, aninhando a cabeça de Tia Maya em seu colo, embalando-a como se ela fosse uma criança:

-Nós fizemos tanto mal a você, Maya... tanto mal! Eu tentei fazer a coisa certa, mandando você estudar fora; errei. Depois, quando Agnes e Berto se casaram, mandei-a para longe novamente... um erro atrás do outro. Nunca permitimos que você fosse realmente parte desta família! E pensar que passou por tudo isso sozinha! A doença do seu bebê, sua morte... a gravidez...

Papai chorava, sem tentar esconder sua tristeza de ninguém – nem de mamãe. Eu nunca tinha visto papai chorar antes. Ele se sacudia todo, seu corpo enorme parecendo que ia desmoronar a qualquer momento. Tia Joana também chorava num canto da sala, abraçada ao Tio Nestor. O clima estava muito triste e pesado. Eu não sabia o que fazer, ou o que dizer, e achei melhor ir lá para fora tomar um pouco de ar. Perguntei a Flora se ela queria ir comigo, mas ela negou com a cabeça. Eu comecei a andar em direção à porta, quando Dora resolveu me acompanhar.



(CONTINUA...)







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